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segunda-feira, outubro 15th, 2001 at 12:00pm

A Liturgia: entrevista com o Cardeal Joseph Ratzinger

Tradução e comentário por Orlando Fedeli, Montfort.org.br

O Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, acaba de publicar mais um livro: Voici quel est notre Dieu (Plon, Paris, 2001).

Esta obra, como outras do mesmo Cardeal, é um livro-entrevista.

Desta vez, o entrevistador e companheiro de diálogo com o Cardeal é o jornalista Peter Seewald.

Na transcrição do diálogo, indicaremos as palavras do Eminentíssimo sr. Cardeal pela letra R. e as palavras de Seewald pela letra S. e serão colocadas em itálico, como no original.

O livro abarca o conjunto dos problemas da Fé e da Igreja em nossos dias.

Apresentamos a nossos leitores a tradução do texto em que o Cardeal Ratzinger trata da questão da situação litúrgica em nossos dias, tema que está altamente em foco, hoje.

Com efeito, após a reforma litúrgica de 1969, feita pelo Papa Paulo VI, a Liturgia se viu envolvida em verdadeira anarquia, cada um se julgando com o direito e capacidade de montar a sua Missa particular, com grave dano para a Fé, e para a unidade da Igreja.

Mas deixemos a palavra para o eminentíssimo Cardeal Ratzinger.

*****

A Liturgia

S. — A solenidade e a dignidade da Eucaristia provém desta realidade totalmente sublime da espiritualidade católica, a liturgia. Cada frase, cada gesto parecem nela ter seu significado próprio e esconder um mistério. Nesta liturgia terrestre, como o reconheceu o Vaticano II, os crentes participam já na “liturgia celeste” e a experimentam antecipadamente.

R. — Essa é uma abordagem muito importante. A Liturgia não é nunca apenas uma reunião de um grupo que organiza uma festa e, na verdade, se festeja a si mesmo quanto isso é possível. Em vez disso, pela participação em Cristo que se apresenta diante do Pai, nós nos mantemos na comunhão universal de toda a Igreja, e também na comunhão de todos os santos. Sim, de certo modo é a própria “liturgia celeste”. Sua grandeza, é que ela abre o céu, e nos entra no coração dos adoradores de Deus. Eis porque o prefácio termina sempre por essas palavras: nós cantamos com o coro dos serafins e dos querubins. Nós sabemos que não estamos sós, que nós somos unânimes, que a fronteira entre o céu e a terra é verdadeiramente aberta.

 

S. — O pai dos monges, São Basílio, o Grande, constatou que a Missa era uma tão grande revelação quanto a Sagrada Escritura. Disso ele deduziu a regra muito estrita que a liturgia não devia ser objeto de qualquer discussão nem de qualquer reforma. Se ela não é obra humana, se por ela a glória de Deus deve ser acessível aos homens, não deveria ela ser considerada como dada pelo alto e como irreformável a antiga Missa de São Gregório Magno?

R. — O Oriente e o Ocidente estão, de certo modo, divididos quanto a essa questão. A Igreja bizantina recebeu a forma de sua liturgia no século IV e V de São Basílio, e de São João Crisóstomo. Ela, assim como outras igrejas orientais, vê aí, um dom de Deus que não se pode modificar: nós a recebemos [entramos nela], nós não a fazemos (se bem que certas modificações de detalhe naturalmente aconteceram).

O Ocidente tinha um sentido muito mais forte com relação à historicidade. Também o Ocidente considerava a liturgia, no essencial, como um dom, mas um dom depositado na Igreja viva e crescente junto com ela. Pode-se perfeitamente fazer a comparação com a Sagrada Escritura. Ela também não é uma palavra de Deus que nos teria caído direta e verticalmente do céu; a Palavra de Deus é introduzida na história e se desenvolve com ela. Assim a Igreja ocidental afirmou a fundamental intangibilidade da liturgia no seu conjunto, mas deixou-a desenvolver-se historicamente tomando as devidas precauções.

Assim como o cânon da Igreja do Oriente, o cânon romano data do século IV mais ou menos. Em seguida, desenvolveram-se no Ocidente, como da mesma forma no Oriente, diferentes tipos de liturgia. Houve a liturgia galicana, a liturgia espanhola; em seguida fizeram-se sentir influências germânicas, e assim por diante. As diferentes nações que se convertiam podiam trazer sua contribuição a este crescimento, sob o olhar atento de Roma que não deixou de eliminar as excrescências. Deste modo, Roma conservou estritamente o caráter arcaico da liturgia, eu diria mesmo numa forma mais antiga que no Oriente, em todo o caso do ponto de vista teológico.

É assim que a liturgia é um processo histórico sempre vivo: o novo pode intervir, especialmente novos santos podem ser acrescentados; mas ela permanece constante, mesmo no Ocidente. É por essa razão que a Igreja podia visar fazer reformas litúrgicas. Não era preciso que fossem simplesmente supressões; elas deviam respeitar o que de vivo tinha se desenvolvido, como se age com o que vive para mantê-lo vivo. Pio X reduziu algum tanto o número das festas de santos as quais tinham se multiplicado demais. Ele tinha igualmente recolocado o domingo no lugar de honra que lhe cabe de direito e retirado partes supérfluas. São Pio V já tinha retirado dele um excesso de seqüências que nele se tinham infiltrado. O Vaticano II tinha adotado a mesma atitude que é a boa, porque o crescimento contínuo sem modificações pertence à tradição litúrgica da Igreja. Mas há uma diferença, diria eu, entre proteger uma vida que se desenvolve sabendo que essa vida, enquanto tal, não me pertence (devo estar a seu serviço e respeitar sua lei interior), e considerá-la como algo artificial, que funciona como um mecanismo que posso desmontar e tornar a montar de modo diverso.

O concílio Vaticano II, sem dúvida, tinha em vista, ao mesmo tempo, o crescimento orgânico e a renovação. Mas, por vezes, em nossos dias, se tem a tendência de praticar essa desmontagem-remontagem, e fazer o que é incompatível com a própria essência da liturgia. Não se pode simplesmente decidir em comissões professorais o que é pastoralmente mais eficaz, o que é mais prático e assim por diante. Mas é preciso considerar com um grande respeito a contribuição dos séculos e ver que complementos sensatos ou que supressões são necessárias e possíveis.

É uma advertência que se dirige a todos aqueles que se ocupam de liturgia. É nesse espírito de serviço em favor da vida que se desenvolveu e que da em nós fé secular que eles devem agir, e não como peritos autocráticos que querem inventar e fabricar o que há de melhor.

 

S. — Não se pode passar sob silêncio a crítica da liturgia atual. Para muitos, ela não parece suficientemente santa. Uma reforma seria necessária para torná-la de novo mais santa?

R. — Ter-se-ia necessidade, pelo menos, de uma nova consciência litúrgica, para fazer desaparecer esse espírito de fazer liturgia por capricho [um "do it yourself"]. Chegou-se ao ponto que círculos litúrgicos se fabricam para si mesmos uma liturgia do domingo.

O que resulta disso, é certamente a produção de alguns intelectuais dotados que imaginaram algo para si. Não encontro nisso Aquele que é o Totalmente-Outro, o Santo, que se dá a mim, mas apenas as capacidades de alguns. Percebo que não é isso que procuro. É pouco demais, e é uma coisa totalmente diferente.

O que há demais importante hoje, é o respeito pela liturgia, e o fato de que não se pode manipulá-la. É preciso reaprender a considerá-la como um organismo vivo e oferecido, pelo qual nós participamos da liturgia celeste. Não se trata de buscar nela nossa própria realização, e sim o dom que nos advém.

Creio que o prioritário é que esta maneira de fazer pessoal e arbitrária desapareça e que se desperte o sentido interior pelo sagrado. Numa segunda etapa, poder-se-ia ver em que domínio se suprimiram coisas demais, e que a coerência com toda a história possa se tornar de novo mais evidente e mais viva. Nesse sentido, eu mesmo tenho falado em “reforma da reforma”. Na minha opinião, deveria haver, inicialmente, um processo pedagógico, para marcar um ponto final nesse espezinhamento da liturgia por invenções pessoais.

Para a formação da consciência no domínio da liturgia, é importante também cessar de banir a forma da liturgia em vigor até 1970. Aquele que, na hora atual, intervém pela validade dessa liturgia, ou que a pratica, é tratado como um leproso: é o fim de toda tolerância. Ela é tal como não se conheceu nunca, em toda a história da Igreja. Despreza-se, desse modo, todo o passado da Igreja. Como se poderia confiar nela atualmente, se fosse assim.

Confesso que não compreendo por que razão muitos de confrades, Bispos, se submetem a esta lei de intolerância, que se opõe às reconciliações necessárias na Igreja sem razão válida. (O negrito é do tradutor).

 

S. — Quando virá realmente este segundo passo do qual o senhor fala, essa reforma da reforma?

R. — Exatamente como o movimento litúrgico, que resultou na reforma do Vaticano II, se desenvolveu lentamente antes de se tornar em seguida numa torrente impetuosa, assim importa que atualmente venha um impulso dos fiéis que celebram. E também que haja lugares exemplares, onde a liturgia é celebrada segundo as regras da arte e onde seja possível experimentar o que ela é realmente. Se então, do próprio interior de uma tal celebração nascer um movimento que não seja simplesmente uma coisa imposta do alto, então a renovação se fará. Creio que na nova geração um movimento que vai nessa direção está efetivamente nascendo.

 

S.– Uma verdadeira liturgia divina, uma liturgia para o futuro do povo crente e da Igreja, como o senhor a imagina?

R.– Fundamentalmente de tal modo que se possa, de novo, colher nela as formas dadas e aprofundá-las espiritualmente. Quando penso na época do movimento litúrgico, que eu ainda vivi, era então maravilhoso apreender pouco a pouco como se tinham elaborado as missas da quaresma, para compreender a estrutura da quaresma e de todo o missal, e muitas outras coisas ainda. Tratava-se simplesmente de descobrir a riqueza daquilo que resultou desse processo e desse crescimento e de entrar também por esse meio na glória divina que aí se oferecia. Creio que se trata reaprender a escutar — “Escuta, meu filho! “dizia São Bento — e de nos percebermos a nós mesmos não tanto como autores da ação litúrgica, mas como seus beneficiários.

 

S.– Será preciso celebrar de novo a missa em latim?

R. — De um modo geral, isso não é mais possível e sem dúvida isso não é desejável.

É evidente que a liturgia da Palavra, pelo menos, deve se fazer nas línguas vernáculas. Entretanto, na minha opinião, deveria haver uma nova abertura para o latim.

Celebrar a missa em latim aparece atualmente como um pecado. Exclui-se assim, também as possibilidades de comunicação que são tão necessárias nas regiões pluri lingüísticas. Assim, o vigário da catedral de Avignon me contou que, um domingo, se apresentaram para assistir a missa três grupos lingüísticos diferentes. Ele lhes propôs de rezar juntos o cânon da missa em latim e assim todos poderiam celebrar juntos. Os três grupos recusaram: era preciso para cada grupo um elemento particular. Pensamos também nos lugares turísticos: certamente seria uma coisa bela reconhecer-se mutuamente naquilo que se tem em comum. Seria preciso ter tais eventualidades presentes ao espírito. Quando, nas grandes celebrações litúrgicas romanas, ninguém mais sabe cantar o Kyrie ou o Sanctus, ninguém mais sabe o que significa “Glória”, trata-se então de um déficit cultural e de uma perda de pontos comuns. Eis porque, na minha opinião, a liturgia da Palavra deveria se fazer, em todo caso, na língua vernácula, mas que seria preciso que subsistisse um fundo comum em latim, que nos liga a todos.

 

S.– O escritor Martin Mosebach conta uma pequena história a respeito de uma missa. Isso aconteceu, há muito tempo, na ilha de Capri. Um dia, desembarca um padre inglês, que se fez reconhecer como padre por suas roupas, o que tinha se tornado raro, mesmo na Itália do sul. Quando se tornou claro que o homem de batina queria seriamente celebrar uma missa, todos os dias, se lhe atribuiu, depois de muitas hesitações, uma capela situada num promontório rochoso em precipício sobre o mar, o monte Tibério, sobre o qual estava situado outrora a vila Jovis, uma das numerosas residências do Imperador Tibério. Esta capela era aberta apenas uma vez por ano, no dia 8 de setembro, para a festa da Natividade da Virgem Maria. No resto do ano, ela ficava abandonada aos ratos que cavavam buracos no fundo das gavetas da sacristia.

O Padre inglês, um homem prático, e que não era um grande teólogo, se pôs a caminho. Ele subiu a ladeira ríspida e se deliciou com a bela vista sobre o golfo. Ele teve alguma dificuldade para fazer funcionar a fechadura enferrujada da capela. Ele entrou nesse lugar que cheirava a mofo, acompanhado por um belo raio de sol. A porta metálica do tabernáculo estava aberta, as velas estavam inteiramente consumidos, as cadeiras reviradas, e a sacristia tinha o aspeto de lugar abandonado às pressas. Vasos sujos, uma capa de altar apodrecida, um cálice estilo kitch, toalhas de linho de altar tinha colado umas às outras, um missal caindo aos pedaços. Sim, até mesmo o crucifixo estava torcido.

O padre olhou atentamente tudo isso e refletiu longo tempo. Ele abriu a janela, pegou uma vassoura de palha, que estava caída num canto, e se pôs a varrer toda a capela. Ele pegou o crucifixo, beijou-o e o posou sobre o armário da sacristia. Ele limpou o cálice e reergueu os candelabros. Quando ele descobriu a corda do sino, trepou numa escada no exterior da capela e amarrou a corda a um sino. O encanto estava agora rompido.

Ele colocou uma estola roxa acetinada toda manchada. Derramou um pouco de água que tinha trazido numa garrafa plástica num pequeno pote e se pôs a rezar; ele acrescentou um pouco de sal, fez os gestos de bênção e colocou a água em pequenas pias de água benta em forma de concha ao lado da entrada; poder-se-ia imaginar ouvir a pedra gemer como se ela despertasse de novo. E quando ele badalou o sino com a ajuda da corda, aproximaram-se vindos de longe os primeiros fiéis, mulheres e crianças, e logo a capela ficou cheia.

A missa podia começar. O sacerdote se inclinou diante do altar e começou pelas palavras: Introibo ad altare Dei.

Enquanto o homem de batina purificava o lugar, enquanto ele acendia as velas e benzia a água, quando ele tirava a poeira e expulsava para um canto as ratoeiras, um observador atento, devia ter a impressão que alguma coisa especial se passava. Tal como Abel ou Noé, ele tinha construído um altar antes de sacrificar. E como Moisés, ele delimitou o espaço para o tabernáculo. Era a preparação e a delimitação do espaço sagrado.

R. — Esse texto de Mosebach naturalmente é muito poético, mas, no total, a situação em Capri não era tão desesperadora quanto parecia. Mas é verdade que a preparação exterior e interior vão juntas. A missão de São Francisco começou da mesma maneira. Ele ouviu as célebres palavras de Cristo: “É preciso que reconstruas a minha Igreja”. Ele as aplicou inicialmente a essa igreja arruinada, à Porciúncula, que ele restaurou e reconstruiu. Ele notou, em seguida, que ele precisava fazer muito mais: reconstruir a Igreja viva.

Mas este trabalho manual inicial faz parte dessa reconstrução. Ele é muito importante vigiar para que o espaço, a Igreja, seja sempre preparado de novo, que sua santidade interior como a exterior seja sempre perceptível e reconhecível. É verdade que nós temos em todo o mundo, graças a Deus, igrejas maravilhosas cujo caráter sagrado seria necessário reaprender a amar. A chama acesa diante do Santíssimo Sacramento permite-nos perceber uma presença silenciosa permanente. Muitas igrejas, hoje, parecem teatros, dos quais se admira a beleza do passado mais do que como meio de nossas próprias atividades; constata-se então uma perda interior do sentido do sagrado. Reencontrar este sentido e preparar este espaço e exterior, não pode ser feito senão sob a condição de entrar na celebração de modo a encontrar o sagrado efetivamente nela.


quarta-feira, janeiro 31st, 2001 at 12:00pm

Entrevista do Padre Claude Barthe com o Cardeal Joseph Ratzinger sobre a situação da Igreja Católica

Entrevista com o cardeal Joseph Ratzinger

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé emite seu ponto de vista sobre a situação da Igreja Católica

Radicalização do laicismo, abandono do sagrado, crise de vocações, mas também sinais de renovação: ao final do grande jubileu do ano 2000, o Pe. Claude Barthe entrevistou o cardeal Joseph Ratzinger que lhe mostrou seu ponto de vista sobre a situação da Igreja Católica. (Publicado no “Spectacle du monde” n°464 de janeiro 2001, p.68)

Padre Claude Barthe (C.B.) — Mons. Billé, presidente da Conferência dos Bispos da França, na última assembléia em Lourdes [novembro de 2000], falou da “radicalização” e de vexames de que a Igreja é objeto:  “acusação, deboche, desconfiânça, dissimulação, ostracismo…”.

Ele analisava este fenômeno, há décadas muito marcante em relação à \”mentalidade liberal e individual, que respiramos como o ar.\” Como exemplo, ele se referiu à receptividade, com muitas reservas, do documento \”Dominus Iesus\”, sobre Jesus Cristo, como único meio de salvação, que foi totalmente rejeitado por pessoas que não o leram, para as quais, só o fato de saber que a Igreja não preconiza o pluralismo religioso, é insuportável.

Cardeal Joseph Ratzinger (J.R.) — Sim, há uma radicalização evidente do laicismo, do secularismo, que se opõe à presênça da fé na nossa sociedade, laicismo e secularismo que querem \”sectarisar\” a fé católica, se assim podemos dizer, e reduzir a Igreja católica ao estado de seita. A mentalidade geral, proponderante no Ocidente, cada vez mais se distancia da fé da Igreja. Isto é um fato.

Noto que, se atacam a declaração \”Dominus Iesus\”, como expressão de intolerância, na realidade o contrário é verdadeiro: não se tolera mais que a Igreja católica possa se exprimir sobre sua própria identidade e sobre sua própria fé, que, aliás, ela não impõe a ninguém, mas que ela afirma e defende. Quanto à tolerância, ao menos, parece-me que a idéia geral do Ocidente é de que se possa exprimir sobre sua própria fé.
Estes violentos ataques mostram que, além da fé, no centro desta marginalização, há uma forte realidade. Não seria necessário atacar a Igreja e a fé se elas fossem realidades abandonadas ou a ponto de desaparecer. Portanto, estes ataques são também um sinal da vitalidade da fé e da força que ela mantém no mundo espiritual.
Eu acrescentaria que esta marginalização da Igreja não é igual em todas as regiões da Europa, nem em todas as partes do mundo. Assim, há uma paganização na Alemanha, principalmente nas regiões antes sob o domínio dos comunistas e, de maneira geral, no norte do país, onde o protestantismo se decompõe e cede lugar a um paganismo que não tem mais necessidade de atacar a Igreja, porque a fé, aí, tornou-se de tal modo ausente que não acham mais necessário agredi-la.

Mas há, também, situações totalmente diferentes. Pode-se constatar, hoje, novas manifestações de fé em fortes movimentos juvenis, que mostram a realidade sempre presente de um desejo do absoluto, com uma redescoberta da beleza da fé e do sagrado. Este anseio do sagrado, do redescobrimento de todas as belezas perdidas, está muito presente na nova geração.

Neste sentido, o panorama está diversificado. Há, de um lado, como bem descreve Mons. Billé, este novo radicalismo do secularismo, que queria triunfar definitivamente, e impor seu domínio, tornando inacessível, inaceitável e intolerável, a realidade da Igreja.

De outro lado, sem o apoio total da mídia, mas com uma força interior profunda, há um ressurgimento da fé. A Igreja estará, certamente, em situação minoritária no nosso continente, mas reforçando-se espiritualmente e interiormente, tornando-se, assim, uma esperança para o bem dos homens.

C.B. — Esta renovação, de que o Sr. fala, se manifesta na França por um certo florescimento de comunidades, por uma manifestação de muitas forças vivas. Mas elas estão dispersas, até mesmo separadas, à espera evidente de uma afirmação cristã, clara e firme, dos pastores.

J.R. — Acho que se pode falar de uma geração um pouco desanimada, a geração do Vaticano II que, na época do Concílio, concebera grandes esperanças, um pouco irrealistas, esperando um novo acordo entre a Igreja e o mundo. A decepção que se seguiu, destas esperanças mal interpretadas, foi muito grande, e hoje não se encontra mais a força interior da fé, que nunca contou com fácil aceitação do mundo, apesar de ser ela a resposta às grandes questões que sempre os homens apresentam.

Na nova geração, há muitas vocações, um pouco espalhadas. Nas dioceses há menos vocações porque nelas encontramos um clero desanimado e comunidades aflitas. A atração, antes exercida pelo trabalho paroquial, se exerce hoje na direção de comunidades vivas, nas quais se encontra uma fé e uma alegria intensas, embora, na verdade, dispersas. Mas, me parece, que esta forte pujança de vocações, embora de poucos e um tanto marginalizadas,   terá  um grande peso no futuro.

C.B. — Há uma estatística que impressiona os bispos da França: num total de 120 padres ordenados por ano, incluindo todas as tendências possíveis, da Fraternidade S. Pio X aos mais progressistas, 20 a 25 ¾ portanto 1/5 ¾ são ordenados no rito tradicional. E, dos 4 restantes, 2 são muito sensíveis à liturgia tradicional. Nos seminários de Paris ou de Ars, uma parte não desprezível (às vezes, um pouco mais da metade dos seminaristas) pensaram em se formar num seminário da Fraternidade S. Pedro ou da Fraternidade S. Pio X. Não o fizeram porque isto reduziria e marginalisaria seu apostolado. Não seria, então, o momento de mudar alguma coisa no terreno litúrgico paroquial?

J.R. — Parece-me que mudar não é a prioridade. Foi o erro que se cometeu depois do Concílio. Pensou-se que a reforma consistia, primeiramente, na mudança.

C.B. — Eu não me referia aos textos, mas a mudanças concretas, como o retorno do altar, o silêncio no canon, o ofertório.

J.R. — Isto deve ser, naturalmente, a conseqüência de uma nova presênça do sagrado nos corações. Mudou-se o sentido do altar porque tinha-se uma nova sensibilidade, mais didática, diria um pouco mais racionalista. Pensou-se a Missa como um diálogo com o povo. Devia-se entender tudo; devia-se, pois, \”abrir\” tudo, para ser entendido. E perdeu-se, assim, aquela sensibilidade, pelo fato de se pensar que entender a realidade litúrgica, seria entender as próprias palavras da liturgia. Uma piedosa velhinha pode entender muito bem a profundidade do mistério, sem, no entanto, entender o sentido de todas as palavras.

Foi o que aconteceu depois do Concílio. O Concílio se manteve ainda muito equilibrado. Mas, depois do Concílio, prevaleceu a idéia de que era preciso abrir tudo, entender tudo, proveniente de uma noção superficial da compreensão da liturgia e da sua mensagem. A liturgia é também uma mensagem, é verdade. Mas é uma mensagem diferente. Portanto, é muito importante que as novas vocações descobrem que uma liturgia racionalisada, uma liturgia na qual tem-se somente a preocupação de se fazer compreender, do ponto de vista da razão, do ponto de vista intelectual, não tem mais a profundidade daquela realidade que me toca no meu coração até o nível da presênça de Deus em mim.

Se nós voltamos, assim, à uma visão muito mais profunda da liturgia como mistério, no sentido que esta palavra tem no Novo Testamento, se nós reencontramos o essencial deste contato entre o povo e o padre no Senhor, e se é o próprio Senhor que nos toca, então o mais importante estará feito. Eu acho, portanto, que uma nova sensibilisação às realidades da liturgia, ao seu mistério, juntamente com uma nova educação litúrgica, são as primeiras coisas a fazer. E não pensar primeiramente e imediatamente em mudanças.
Se reencontramos uma compreensão mais profunda, as mudanças necessárias serão decorrentes.

C.B. — Mudar os corações antes de mudar o altar. Mas, a simbologia litúrgica ajuda muito.

J.R. — Certamente, o símbolo ajuda porque somos feitos de corpo e alma, e as coisas devem ser assim expressadas.

C.B. — Vós sois especialmente sensível ao entendimento da leitura da Escritura na Igreja. Ora, a recente edição de uma das mais célebres Bíblias em françês, contem notas que afirmam que tal ou tal passagem do Evangelho de S. João (bem como o louvor?? do capítulo 2 da epístola aos Filipenses) negam a divindade de Cristo. Esta notas foram redigidas por um dos exegetas franceses mais conhecidos, que afirma que há tres níveis de redação neste Evangelho: João I, que não acreditava na divindade de Cristo, João II, que nela acreditava, João III, judeu-cristão, que não acreditava.

J.R. — Sim, nós devemos reencontrar uma leitura eclesial da Escritura. Portanto, isto que o senhor fala restabelece, é claro, a leitura da Escritura de outra forma. Trata-se de um puro historicismo que se revela nestes desdobramentos muito arriscados. Quem prova, primeiro, a existência destes três níveis de redação? São reconstituições feitas com um método literário absurdo, visto unicamente do ponto de vista do trabalho do historiador. Além disto, hoje o estudo literário dos textos passa por uma renovação que se mostra fecunda, mesmo para a Bíblia. Compreende-se que não é possível fixar seu sentido reconstruindo um momento histórico. De resto, como reconstruir este momento? As hipótese de reconstrução, como puras hipóteses, mudam todos so dias. Não é dessa forma que se pode esgotar uma obra literária, Dante, Racine; não é assim que pode-se entender a Bíblia. Não é possível entrar no dinamismo interior de um texto do Antigo ou do Novo Testamento, se não se entende uma coisa — verdadeiro sob o ponto de vista histórico —,a saber que estes livros nasceram na fé, no seio do povo de Deus, no interior de uma comunidade crente. Não são invenções; não se está na presênça de um autor depois de outro, que escreveram livros como podem professores podem fazê-lo. Estes textos fotam produzidos na fé e pela fé da Igreja, e eu não posso comprende-los senão entrando neste mesmo dinamismo da fé.

Esta fé é a fé de uma instituição — a Igreja — que existia e existe ainda. Conseqüentemente, a contemporaneidade, o sincronismo, com o sentido dos textos sagrados, não são alcançados com reconstruções — mais uma vez, absurdas para mim —, mas pela identidade e sincronismo da Igreja como tal. Parece-me, portanto, que a leitura a que o senhor se refere, teve seu tempo. Ela não traz nada a ninguém, mesmo historicamente. São jogos do espírito que não têm nenhuma consistência histórica. É preciso voltar a uma visão mais profunda: conhecero tema que está na origem deste livro, a natureza deste tema. É somente do seu interior, da Igreja, que eu posso realmente compreender a Escritura. Eis porque, a leitura litúrgica, na qual as palavras são presênça e realidade, é, historicamente, a leitura mais realista e a mais fiel.

C.B. — Um dos aspectos, e não dos menores, da crise da transmissão da fé, não está numa predicação estéril, uma \”predicação Walt Disney\”, como diz o cômico cristão, Henri Tisot: \”todo o mundo é gentil; é preciso ser gentil com todo o mundo\”?

J.R. — Sim, tem-se medo, hoje, de falar de pecado, porque tem-se medo de dar uma visão negativa da vida e não se quer impor ao homem moderno, que já padece muito, uma predicação onerosa da parte da Igreja. Mas, nós devemos entender bem estes sofirmentos muiro reais que afetam o homem na sociedade de hoje. Defenitivamente, eles são a ausência de Deus. E isto é a essência do pecado: viver na ausência de Deus. Há, portanto, um otimismo falso e muito articial nesta forma de pregar, supondo que tudo é bom e que nós somos todos gentis. Esta não é a realidade do homem de hoje. Sem isto, não haveria a droga, o suicídio…

C.B. — o aborto, que na França, atingiria uma mulher em duas…

J.R. — … e tudo aquilo que faz com que os homens da nossa sociedade sofram e que ele precisa entender. Sofrimentos profundos, como mostra a intensa procura de respostas aos seus males na psiquiatria, na psicanálise. É preciso, pois, tomar precauções com este otimismo falso e fatal. Como seria preferível falar somente de coisas belas e boas! Mas, os homens veem a nós porque eles sofrem. Eles querem ter uma resposta verdadeira para este sofrimento profundo. Eles nos procuram para descobrir que a raíz daquilo que padecem é a ausência de Deus. Porque, se Deus não existe, que faço? Qual é o sentido da minha vida? Onde ir? Por que? Tudo torna-se inútil e inaceitável. Trata-se, para nós, de fazer conhecer que o mal da vida, o pecado, é a perda de Deus, e de fazer conhecer este Deus que perdoa o pecado. O perdão é uma cura para a qual eu devo colaborar com Deus na penitência. Eu creio que é preciso encontrar um novo realismo para se falar do pecado. Se dele nós falamos com fórmulas inacessíveis ao homem de hoje, elas continuarão sendo fórmulas do passado, vazias de significado.

C.B. — Encontrar uma linguagem pastotal realista, que correnponda ao ouvinte e à realidade, não vale também para o que vós vos referistes no início, ou seja, em relação à confrontação entre a Igreja e a sociedade?

J.R. — Certamente. O Senhor enviou seus discípulos \”pregar e curar os doentes\”. É uma parte essencial da missão dos apóstolos. Isto não quer dizer que nós tenhamos que substituir os médicos do corpo: eu falo da verdadeira doença da vida. Fica, portanto, claro que a fé que nos foi dada não foi feita para um mundo fechado. Ela é sempre dada para o homem. Não é intolerância da nossa parte, mas exercício da responsabilidade que nós temos em relação aos outros, de lhes anunciar esta possibilidade de ser curados no Senhor. É preciso ter nova coragem, é preciso nos convencermos que realmente nós temos nas mãos os meios para curar os homens, que é nossa obrigação de lhes dar esta palavra de Saúde, e que isto verdadeiramente muito necessário ao homem. É preciso novo ímpeto missionário. Não se gosta mais de falar de conversão, mas esta é a realidade: nós temos uma responsabilidade universal. Nós não podemos extirpá-la de nós mesmos. Seria muito cômodo se pudessemos fazer isto, mas nós somos obrigados a oferecer aos outros aquilo que o Senhor nos deu para os outros.

C.B. — Eminência, vós sabeis que vós sois um cardeal muito popular: uma pesquisa na Internet revela que, sobre 57.000 respostas, 28% são de opiniões favoráveis a vós, logo após o cardeal Martini, na frente, com 32%. Ora, especialistas dizem que nas respostas espontâneas, as opiniões ditas “de esquerda” se manifestam sempre mais livremente… Digo isto pelo alegre da anedota, mas também para salientar o eco das vossas proposições. Vós falais, pois, para pastores de amanhã de uma nova coragem no anúncio da fé.

J.R. — Absolutamente. Com a certeza que o Senhor está conosco, nós poderemos enfrentar os problemas do novo milênio. Em relação a canditaduras e sondagens, eu as acho ridículas: nós temos um papa e é o Senhor quem decide em tudo, quando e como. Mas é verdade que ser pastor hoje na Igreja, exige uma grande coragem. Com nossa fraqueza — eu sou um homem fraco — nós, assim mesmo, poderemos correr o risco de cumprir nosso dever de pastores. Porque é o Senhor que age e que disse aos seus apóstolos que na hora da confrontação, eles não se preocupassem com a dúvida de como se defender e que dizer, mas que o Espírito lhes insinará aquilo que é preciso dizer.

Isto é, também para mim, algo muito real. Mesmo com minha pouca força, diria até, por causa disto, o Senhor poderá fazer em mim aquilo que Ele quizer. Na Escritura nós vemos sempre acontecer assim: o Senhor escolhe para agir aqueles que em si não poderiam jamais fazer grande coisa. É nesta fragilidade humana que Ele mostra sua própria força, como disse S. Paulo. Neste sentido, penso que um pastor nunca deve ter medo, na medida em que ele deixa agir, em si mesmo, o Senhor.


terça-feira, outubro 10th, 2000 at 12:00pm

Dominus Iesus III: Análise da declaração

Por Orlando Fedeli, Montfort.org.br

A Declaração Dominus Iesus é um documento complexo. De um lado, ela afirma de modo infalível dez verdades de Fé em que todos os católicos – clérigos e simples fiéis – devem crer. De outro, ela se estende em explicações nas quais se procura demonstrar que as verdades de Fé definidas estão de acordo com o que foi ensinado pelo Concílio Vaticano II. O que não é nada fácil.

Em geral, o documento condena as interpretações modernistas dos textos conciliares, procurando-se interpretá-los em harmonia com as verdades de Fé definidas pela Dominus Iesus.

Desse esforço hermenêutico resultam, por vezes, novas ambigüidades e até contradições.

É o que procuraremos demonstrar.

Evidentemente, destas ambigüidades e contradições, provocadas por um “tour de force” interpretativo, certamente procurarão se aproveitar os modernistas e ecumênicos – para manter tudo como estava -, na política eclesiástica.

Entretanto, as verdades de Fé foram definidas, e isso terá conseqüências, quer eles queiram ou não.

E é nisso que consiste o recuo.

A Declaração Dominus Iesus começa lembrando o mandado de Cristo à sua Igreja de evangelizar todos os povos, e cita São Paulo – “Ai de mim se não evangelizar” – para demonstrar a gravidade que tem o mandado de Nosso Senhor.

Como houve quem dissesse, após o Vaticano II, que a missão – como fora sempre entendida – era proselitismo, e que ela deveria ser substituída pelo diálogo ecumênico, a Declaração Dominus Iesus lembra que “…o diálogo inter-religioso (…) certamente não substitui, mas acompanha a missio ad gentes…“.

Noutras palavras, o famoso diálogo não pode anular a missão de fazer apostolado e de converter o próximo à verdadeira Igreja de Cristo, que é a Igreja Católica Apostólica Romana, fora da qual não há salvação.

Ora, durante os últimos trinta anos se condenou fazer “proselitismo”.

O próprio Cardeal Ratzinger defendeu a tese de que a unidade na diversidade impedia querer impor aos protestantes a aceitação do Papado:

“Pertence a esta “unidade através da diversidade” também a vontade de não querer impor ao outro aquilo que (ainda) o ameaça no centro de sua identidade cristã. Os católicos não deveriam procurar impelir os protestantes ao reconhecimento do Papa e da sua compreensão da sucessão apostólica” (Cardeal Joseph Ratzinger, Chiesa, Ecumenismo e Política, Edizioni Paoline, 1987, p. 136).

Ora, em contradição completa com o que escreveu Ratzinger nesse trecho citado, agora ele assina a Carta aos Bispos da Igreja Católica, na qual se lê:

“Neste empenho ecumênico, assumem prioritária importância a oração, a penitência, o estudo, o diálogo e a colaboração para que numa renovada conversão ao Senhor se torne possível a todos reconhecer a perenidade do Primado de Pedro nos seus sucessores, os Bispos de Roma” – Bendita mudança! Mas que é seguida por palavras atenuantes – “e ver realizado o ministério petrino, tal como é entendido pelo Senhor, como universal serviço apostólico, que está presente no interior de todas as igrejas e que, salvaguardada a sua substância de instituição divina, pode exprimir-se de diversos modos, de acordo com os lugares e os tempos, como atesta a história” (Carta da Congregação para a Doutrina da Fé aos Bispos da Igreja Católica, n. 18).

Por que Ratzinger não se penitenciou de ter escrito o oposto do que agora assinou?

Ou a afirmação de que “o ministério petrino (…) pode exprimir-se de diversos modos, de acordo com os lugares e os tempos, como atesta a história”, admite que o Papado pode deixar de ser o que sempre foi?

Ambigüidade de novo. Hesitação em admitir francamente que se errou nos últimos trinta anos, e tentativa de salvar a fórmula ambígua?

Lembra o documento assinado pelo Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e por seu Secretário Dom Tarcísio Bertone, que a Declaração “não pretende tratar de forma orgânica a problemática da unicidade e universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo e da Igreja, nem apresentar soluções aos problemas e questões teológicos que são objeto de livre debate, mas voltar a expor a doutrina da fé católica em propósito, indicando, ao mesmo tempo, alguns problemas fundamentais que se mantém abertos a ulteriores aprofundamentos, e confutar (refutar) algumas posições errôneas ou ambíguas. É por isso que a Declaração retoma a doutrina contida nos anteriores documentos do Magistério, para reafirmar as verdades que constituem o patrimônio de fé da Igreja.” (Dominus Iesus, n. 3. Os negritos são nossos).

Curioso o uso dos verbos voltar, retomar e reafirmar…

Por que voltar? Por que retomar? Por que reafirmar?

Por acaso se havia abandonado “a exposição da doutrina da fé católica”?

Por acaso se havia abandonado “a doutrina contida nos anteriores documentos do Magistério”?

Muito curiosa formulação…

No número 4 da Dominus Iesus se apresenta o rol dos erros atuais que o novo documento do Vaticano pretende confutar:

1. “Teorias de índole relativista que pretendem justificar o pluralismo religioso, não apenas de facto, mas também de jure (ou de principio)”. Como se “o perene anúncio missionário da Igreja” estivesse superado. Noutras palavras, a Dominus Iesus condena o relativismo e o princípio de que a pluralidade de religiões deve ser aceita como algo legítimo, e não apenas como fato concreto.

2. A tese de que “a revelação de Jesus Cristo não seria completa, nem definitiva”. Isto é, que a revelação de Cristo deve ser completada ainda na História por novas revelações, feitas sabe-se lá por que pseudo profeta.

3. “A natureza da Fé cristã em relação com a crença nas outras religiões”. Isto é, a equiparação da Fé católica com as crenças existentes em outras religiões.

4. A negação do “caráter inspirado dos livros da Sagrada Escritura”.

5. “A unidade pessoal entre o Verbo eterno e Jesus de Nazaré”.

6. “A unidade da economia do Verbo encarnado e do Espírito Santo”.Isto é, a teoria falsa de que uma foi a economia de salvação usada por Cristo na Igreja, e outra a que é usada pelo Espírito Santo em outras religiões.

7. A negação da “unicidade e universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo”. Isto é, o erro dos que afirmam que a salvação não vem unicamente por meio de Cristo, ou que a salvação de Cristo não é universal, estendendo-se objetivamente a todos os homens.

8. A negação da “mediação salvífica universal da Igreja”.

9. “A não separação, embora com distinção, do reino de Deus, Reino de Cristo e Igreja”.

10. “A subsistência na Igreja Católica da única Igreja de Cristo”.

(Dominus Iesus, n. 4). (O negrito é nosso).

Essa lista de erros será o objeto da análise do documento Dominus Iesus.

A Declaração aponta como causa desses erros – e com muita razão – as “teorias de índole relativista”, tão em voga hoje.

Como outras causas de tais erros são apontados:

a. “a convicção de não se poder alcançar nem exprimir a verdade divina, nem mesmo através da revelação cristã”;

b. “uma atitude relativista perante a verdade, segundo a qual o que é verdadeiro para alguns não o é para outros”.

Não podemos deixar de assinalar a verdade dessa acusação: hoje, o maior obstáculo à aceitação da Fé Católica é a crença absurda de que cada homem possui sua verdade particular, e que, por isso, deve-se respeitar e aceitar qualquer opinião. A única posição que não se aceita e nem se tolera é a de que existe a verdade objetiva, que não depende de nossa opinião pessoal.

c. “a contraposição radical que se põe entre a mentalidade lógica ocidental e a mentalidade simbólica oriental. Como se não fosse uma só a natureza dos homens no ocidente e no oriente”. Tolice essa muito difundida para justificar as elucubrações dos falsos misticismos orientais na moda, hoje, entre pseudo intelectuais, madames que não têm o que fazer ou certos monges beneditinos que crêem mais nos métodos orientais de meditação do que no que sempre ensinou e praticou a Igreja Católica.

d. “o subjetivismo de quem, considerando a razão como única fonte do conhecimento, se sente “incapaz de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser”.

e. “a dificuldade de ver e aceitar na história a presença de acontecimentos definitivos e escatológicos”.

f. “O vazio metafísico do evento da encarnação histórica do Logos eterno, reduzido a um simples aparecer de Deus na história”.

g. “O ecletismo de quem, na investigação teológica, toma idéias provenientes de diferentes contextos filosóficos e religiosos sem se importar da sua coerência e conexão sistemática, nem da sua compatibilidade com a verdade cristã”.

h. “a tendência, enfim, de interpretar a Sagrada Escritura à margem da Tradição e do Magistério da Igreja”.

O documento mostra que por trás dessa gravíssima série de erros – que é fácil de encontrar, hoje, em quase todos os autores mais cotados pela mídia – está a idéia de que a Igreja Católica não possui a verdade absoluta, nem tem poder de salvação universal.

A Declaração Dominus Iesus vai raciocinar dizendo que, sendo Jesus Cristo o único salvador e a encarnação do Verbo de Deus, e sendo a Igreja o seu único Corpo Místico, assim como não há salvação que não seja por meio de Jesus Cristo, não há também salvação fora da Igreja.

Cristo é o único e universal salvador. A Igreja Católica Apostólica Romana, Corpo Místico de Cristo, é também o único e universal meio de salvação.

Daí uma verdade de Fé é definida, com obrigação de ser aceita por todos o membros da Igreja, clero e fiéis:

“Antes de mais, deve crer-se firmemente que a “Igreja, peregrina na terra, é necessária para a salvação. Só Cristo é mediador e caminho de salvação; ora, Ele torna-Se-nos presente no seu Corpo que é a Igreja; e, ao inculcar por palavras explícitas a necessidade da fé e do Batismo (Cfr. Mc. XVI, 16; Jo. III,5), corroborou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo Batismo tal como por uma porta” (Dominus Iesus, n. 20).

Para combater o relativismo que desgraçadamente se difundiu nos últimos trinta anos até mesmo entre os católicos, a Declaração Dominus Iesus afirma:

“Há que reafirmar, antes de mais nada, o caráter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo. Deve, de fato, crer-se firmemente na afirmação de que no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Cfr. Jo. XIV,6), dá-se a revelação da plenitude da verdade divina” (Dominus Iesus, n. 5).

Esta é a primeira verdade de Fé definida no documento em pauta.

Daí a condenação de erros opostos a esta última verdade de Fé citada:

“É, por conseguinte, contrário à Fé da Igreja a tese que defende o caráter limitado, incompleto e imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar da que é presente nas outras religiões. A razão de fundo de uma tal afirmação buscar-se-á no fato de a verdade sobre Deus não poder ser compreendida nem expressa na sua globalidade e inteireza por nenhuma religião histórica e, portanto, nem pelo cristianismo e nem sequer por Jesus Cristo. Semelhante posição está em total contradição com as precedentes afirmações da Fé” (Dominus Iesus, n. 6).

Depois de proclamar que a revelação de Jesus Cristo é única, plena, e completa, a Declaração Dominus Iesus ensina que a fé exige a adesão a Deus revelador e adesão ao conteúdo da revelação.

Afirma-se como verdade de Fé definida que tal Fé só existe na Igreja Católica Apostólica Romana e não existe de modo algum em outras religiões:

“Deve, portanto, manter-se firmemente a distinção entre a fé teologal e a crença nas outras religiões. (…) “Nem sempre se tem presente essa distinção na reflexão hodierna, sendo freqüente identificar a fé teologal, que é aceitação da verdade revelada por Deus Uno e Trino, com crença nas outras religiões, que é experiência religiosa ainda à procura da verdade absoluta e ainda carecida de assentimento a Deus que Se revela. Essa é uma das razões porque se tende reduzir, e por vezes até anular, as diferenças entre o cristianismo e as outras religiões” (Dominus Iesus, n. 7).

Caberia perguntar ao Cardeal Ratzinger se não foi exatamente isso o que se fez durante trinta anos em nome dos textos do Vaticano II, que ele agora cita numa interpretação positiva, condenando a negativa.

Também foi muito difundida, nos últimos trinta anos, a tese modernista de que Deus Se revela no interior de cada homem, e que, portanto, Jesus teria sido apenas um homem que tomou consciência de Deus Se revelando em seu interior. O mesmo fenômeno teria ocorrido com outras figuras históricas como Buda e Maomé, por exemplo. Desse modo, a revelação de Deus em Cristo deveria ser equiparada com a revelação de Deus em Maomé, Buda e outros fundadores de religiões.

Essa heresia é lembrada e condenada agora, mais uma vez, pela Dominus Iesus:

“Na reflexão teológica contemporânea é freqüente fazer-se uma aproximação de Jesus de Nazaré, considerando-o uma figura histórica especial, finita e reveladora do divino de modo não exclusivo, mas complementar a outras presenças reveladoras e salvíficas. O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas. Mais concretamente, seria, para alguns, um dos tantos vultos que o Logos teria assumido no decorrer dos tempos para comunicar em termos de salvação com a humanidade”(…) “Semelhantes teses estão em profundo contraste com a fé cristã. Deve, de fato, crer-se firmemente na doutrina de fé que proclama que Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só Ele, é o Verbo do Pai” (Dominus Iesus, n.9 e 10).

Eis mais uma verdade de Fé definida, que se torna obrigatório para todos os católicos aceitarem, mesmo que sejam membros da CNBB, como Dom Ivo Lorscheider, por exemplo.

Realmente, essa parece uma velha canção, há muito esquecida, e que agora retorna, graças a Deus, a ser ouvida!

De novo: foi isso um avanço no caminho do ecumenismo? Ficou-se na mesma posição? (o Cardeal Martini acha que sim; que ficou tudo na mesma) Ou foi dado um passo atrás?

Houve, então, um recuo.

Recuo hesitante – e sem entusiasmo, cheio de restrições e tentativas de harmonização com o que tem sido dito e feito nos últimos trinta anos, sem dúvida. Mas recuo.

A Declaração Dominus Iesus faz menção – e condena – a duas outras teses ecumenistas: a primeira seria a de que se deve distinguir uma ação do Verbo de Deus encarnado em Cristo no cristianismo, e uma atuação do Logos divino nas religiões não cristãs; a segunda seria a de que se deve distinguir uma economia de salvação própria do Verbo na Igreja Católica, e uma economia de salvação do Espírito Santo nas outras religiões.

Contra essas teses heréticas, diz a Dominus Iesus:

“Portanto, não é compatível com a doutrina da Igreja a teoria que atribui uma atividade salvífica ao Logos como tal na sua divindade, que se realizasse “à margem” e “para além” da humanidade de Cristo, também depois da encarnação” (Dominus Iesus, n. 10).

“Há ainda quem sustente a hipótese de uma economia do Espírito Santo com um caráter mais universal que a do Verbo Encarnado, crucificado e ressuscitado. Também esta afirmação é contrária à fé católica, que, ao contrário, considera a encarnação salvífica do verbo um acontecimento trinitário” (Dominus Iesus, n. 12).

Contra esses erros, é definida como verdade de Fé a seguinte tese:

“Do mesmo modo, deve crer-se firmemente na doutrina de fé sobre a unicidade da economia salvífica querida por Deus Uno e Trino, em cuja fonte e em cujo centro se encontra o mistério da encarnação do Verbo, mediador da graça divina no plano da criação e da redenção (Cfr. Col. I, 15-20) “recapitulador de todas as coisas” (I cor. I, 30) (Dominus Iesus, n.11).

O ponto crucial do ecumenismo é o da unidade e o da unicidade da Igreja. Com relação a esse ponto é que se tem errado tanto nos últimos trinta anos, exatamente por causa do ecumenismo nascido do Vaticano II. Tem-se repetido de todos os modos que a Igreja de Cristo é uma espécie de federação de todas as religiões, e que a fé católica deveria ser complementada pelas verdades existentes em outras crenças.

A respeito desse problema eclesiológico diz a Dominus Iesus:

“É igualmente freqüente a tese que nega a unicidade e a universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo. Tal posição não tem nenhum fundamento bíblico. Deve, invés, crer-se firmemente, como dado perene da fé da Igreja, a verdade de Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor e único Salvador, que no seu evento da encarnação, morte e ressurreição realizou a história da salvação, a qual tem nEle a sua plenitude e o seu centro” (Dominus Iesus, n.13).

Eis aí a proclamação e definição de uma verdade de Fé bem necessária em nossos ecumênicos tempos. E quantos a negam hoje, especialmente no clero!

E eis esta outra verdade de Fé, agora mais obrigatória:

“Deve, portanto, crer-se firmemente, como verdade de Fé católica, que a vontade salvífica universal de Deus Uno e Trino é oferecida e realizada de uma vez para sempre no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus” (Dominus Iesus, n. 14).

A Declaração Dominus Iesus lembra, com propriedade, que “não é raro que se proponha evitar na teologia termos como ‘unicidade’, ‘universalidade’, ‘absoluto’, cujo uso daria a impressão de se dar uma ênfase excessiva ao significado e valor do evento salvífico de Jesus Cristo em relação às demais religiões. Ora, essa linguagem não faz mais do que exprimir a fidelidade ao dado revelado, uma vez que constitui uma evolução das próprias fontes da fé. Desde o início, efetivamente, a comunidade dos crentes atribuiu (sic?) a Jesus um valor salvífico de tal ordem, que apenas Ele, como Filho de Deus feito homem, crucificado e ressuscitado, por missão recebida do Pai e no poder do Espírito Santo, tem por finalidade dar a revelação e a vida divina à humanidade inteira e a cada homem” (Dominus Iesus, n. 15).

A tese da unicidade e universalidade da redenção de Cristo é defendida pelo documento da Congregação da Doutrina da Fé. Lamentável é que se use o termo “evolução” para algo relativo ao conteúdo da Fé. Esta não evoluiu. Desde o princípio ela foi aceita inteira, tal qual foi revelada inteira por Cristo. A verdade revelada foi explicitada, aprofundada, mas não evoluiu.

Também é lamentável o dizer-se que “a comunidade dos crentes atribuiu a Jesus um valor salvífico”. Cristo, Deus e homem verdadeiro, não se tornou tal por atribuição dos crentes.

Por fim, é imprecisa a expressão de que Cristo veio dar “a vida divina à humanidade inteira e a cada homem”, porque não faz a distinção necessária entre redenção universal objetiva e redenção subjetiva. Cristo, pelo seus méritos infinitos, redimiu todos os homens. Porém a nem todo homem aproveita o benefício da redenção.

Unicidade e unidade da Igreja.

Na Enciclopédia Católica, publicada em 1949 no Vaticano, o verbete Ecumenismo – escrito pelo Padre Gordillo S.J., afirma o seguinte:

“Ecumenismo: No seu sentido próprio (…) Ecumenismo é a teoria mais recentemente inventada pelos movimentos interconfessionais, mais particularmente protestantes, para produzir a união das igrejas cristãs.

O Ecumenismo pressupõe, como base própria, a igualdade de todas as igrejas colocadas em face da questão da união, e isto sob um tríplice aspeto: psicológico, histórico e escatológico.

A. Psicologicamente, todas as igrejas devem se reconhecer a si mesmas como igualmente culpáveis pela separação, e em lugar de jogarem a culpa umas às outras devem pedir reciprocamente perdão;

B. Historicamente, desde a separação nenhuma igreja pode considerar a si mesma como sendo a única e total Igreja de Cristo, mas somente uma parte desta única Igreja. Conseqüentemente, nenhuma entre elas pode arrogar-se o direito de obrigar as demais a retornar para ela, mas todas precisam sentir a obrigação para reunir-se a fim de reconstituir a Única Santa Igreja fundada pelo Salvador;

C. Escatologicamente, a Santa Igreja Ecumênica que deve surgir deste novo Pentecostes deve ultrapassar do mesmo modo, cada uma das confissões cristãs.

Pode-se perceber desde o início que tais teorias são contrárias à Fé Católica”.

Ora, estes três princípios ecumênicos, condenados em 1949, passaram a ser professados pelos ecumenistas após o Vaticano II, com base nos textos desse Concílio Pastoral.

O texto da Dominus Iesus condena de novo esses três princípios. Daí a fúria dos progressistas contra a nova declaração de Roma.

Nos últimos trinta anos, deixou-se bem à sombra o dogma que afirma que “fora da Igreja não há salvação”. Pelo contrário, procurou-se ensinar persistentemente que a Igreja Católica não é a única Igreja verdadeira, que ela não tem o monopólio da verdade, nem o monopólio da revelação divina. Ela não seria a única esposa de Cristo, e que os homens podem se salvar na prática de qualquer religião, ainda que conheçam a religião católica. Exatamente no tom e no estilo empregado pelo Cardeal Martini em sua última entrevista. Desse modo, se nega a unicidade da Igreja e sua missão salvífica universal.

A Declaração Dominus Iesus mostra que, havendo um único mediador entre Deus e os homens pelo qual eles possam ser salvos, e que sendo a Igreja o Corpo Místico de Cristo, então, a Igreja tem que ser, também ela, única. Não há salvação fora da Igreja, como proclamou dogmaticamente o IV Concílio de Latrão, que é timidamente citado pela Dominus Iesus apenas numa nota (a de número 82).

Leiamos o que diz a Declaração citada:

“Assim, e em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve-se crer firmemente como verdade de Fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua esposa: “uma só Igreja Católica e apostólica” (Dominus Iesus, n.16. O negrito e o sublinhado são nossos. E entusiasmados!)

E na nota 51, que é posta no final dessa citação, se lê: “Símbolo da fé: Denzinger n.48. Cfr. Bonifácio VIII, Bula Unam Sanctam: Denz. n. 870-872; Conc. Vaticano II , Const. Dogm. Lumen Gentium , n.8″.

Que extraordinária novidade, que há trinta anos jazia esquecida: citar a Bula Unam Sanctam de Bonifácio VIII. E que contraste citá-la junto com a Lumen Gentium!

Tendo em vista o que foi explanado, a Dominus Iesus conclui com a definição da verdade de Fé que mais atormentou e doeu nos ecumenistas e modernistas de todos os naipes e seitas:

“Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na missão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: “Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois da ressurreição, confiou a Pedro para apascentar” (Dominus Iesus, n. 16).

Eis aí o grande recuo: “a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo”.

Desde o Vaticano II se substituíra o verbo ser, nessa afirmação, pelo verbo subsistir.

E por que se fizera essa substituição?

O próprio Cardeal Ratzinger explicou o porquê dessa troca de verbos em seu livro Teoria dos Princípios Teológicos.

“Esta Igreja… permanece [subsiste] na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele”. O texto latino – explica Ratzinger – contém muito finos matizes, graças aos quais se conseguiram marcar diferenças face à equação absoluta dos primeiros esquemas conciliares, que punham um sinal de igualdade total entre a Igreja de Jesus Cristo e a Igreja Católica Romana. Aqui não se tira nem um til da concreção do conceito de Igreja; a Igreja permanece ali onde estão os sucessores do Apóstolo Pedro e dos restantes apóstolos, que encarnam visivelmente a linha de continuidade com a origem. Porém, esta concreção plena não diz que tudo o mais deva considerar-se como não Igreja. O sinal de igualdade não é uma magnitude matemática, porque ao Espírito Santo não se O pode fechar em um símbolo matemático, nem sequer ali onde se vincula e se acredita de forma concreta” (Cardeal Joseph Ratzinger, Teoria de los Princípios Teológicos, Herder, Barcelona, 1985, p. 278).

A troca, na frase citada, do verbo ser pelo verbo subsistir foi feita, então, no Vaticano II, para permitir que a Igreja Católica deixasse de ser identificada com a igreja de Cristo. O verbo subsistir permitia pensar que além da Igreja Católica, outras religiões podiam pertencer também à Igreja de Cristo.

Assim como nenhum homem pode dizer que é a humanidade, mas que a humanidade subsiste nele, assim também a Igreja de Cristo subsistiria na Igreja Católica, mas não apenas nela.

Agora o Cardeal Ratzinger assina a Declaração Dominus Iesus que, de fato, vai contra o que ele mesmo escreveu no livro acima citado, como vai contra também o texto do Vaticano II que diz que “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”.

Para salvar-se, e principalmente para salvar o texto do Concílio, Ratzinger lembra que o verbo subsistir pode ter também o sentido de “continuar a existir”. Por exemplo, quando se diz: “José subsiste apenas com o salário mínimo”. Ou: “os náufragos subsistiram comendo raízes”.

“Com a expressão “subsistit in”, o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente na Igreja Católica – [Coisa que procurou mais que fazer esquecer, mas até combater nos últimos trinta anos] – “e, por outro, a de que “existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição”, isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica” (Dominus Iesus, n. 16).

Essa última frase remete à nota 56 da Declaração, nota que diz o seguinte:

“É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. “O Concílio, invés, adotou a palavra “subsistit” precisamente para esclarecer que existe uma só “subsistência” da verdadeira Igreja, ao passo que fora da sua composição visível existem apenas “elementa ecclesiae”, que – por serem elementos da própria Igreja – tendem e conduzem para a Igreja Católica” (Congregação para a Doutrina da Fé, Notificação sobre o volume: “Igreja, carisma e Poder” do P. Leonardo Boff. AAS 77 (1985) 756-762.) (O sublinhado é nosso.)

O texto da nota acima citada é a condenação da interpretação do próprio Cardeal Ratzinger, em seu livro Teoria dos Princípios Teológicos, a respeito da expressão subsistit in.

Está aí a confissão da duplicidade de sentidos que foi buscada propositadamente nos textos do Vaticano II, duplicidade de sentidos que deu aso ao desenvolvimento dos erros que agora a Dominus Iesus condena.

O que espanta é como se tem a coragem de dizer e de se desdizer, sem pedir desculpas, com a maior … frieza. E isso é feito exatamente pelos que pedem tão facilmente desculpas pelos pecados dos outros.

O que nos deixa perplexos é a publicação desta Declaração agora. Por que agora? O que aconteceu para que se voltasse a publicar uma citação da Unam Sanctam? Por que publicar agora esse desvelamento da duplicidade de sentido do texto conciliar?

E por que não pedir perdão pelo que foi feito e que causou tanta confusão?

O que espanta é que mesmo entre essa nota e o texto que ela pretende iluminar há uma certa contradição, pois no texto se diz que “a Igreja de Cristo subsiste plenamente na Igreja Católica…”, enquanto que na nota se diz que “existe uma só “subsistência” da verdadeira Igreja”, sem usar o advérbio plenamente. A utilização do advérbio plenamente, no documento em foco, mantém a ambigüidade, o que é uma lástima.

Muito provavelmente, graças a essa e a outras contradições produzidas pelas citações, se persistirá a dizer e a fazer o oposto do que é definido nas verdades de Fé proclamadas pela Dominus Iesus. Infelizmente.

O texto da Declaração condena a afirmação de que a Igreja de Cristo é a soma das igrejas, ou a de que a Igreja de Cristo não existe hoje. E cita o Vaticano II:

“Os elementos desta Igreja já realizada existem, reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais Comunidades”.

“Por isso, as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso no mistério da salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito não se recusa a servir-Se delas como instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica”.

Portanto, a Igreja de Cristo se encontraria, embora não em sua plenitude, nas ‘demais comunidades’. O que vai contra o que foi definido antes na própria Dominus Iesus como verdade de Fé:

“Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na sucessão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica”: “Esta é a única Igreja de Cristo” (O negrito, entusiasmado, é nosso!)

Assinado, Cardeal Joseph Ratzinger. Com a aprovação do Papa João Paulo II. Na Festa da Transfiguração do Senhor.

Está escrito. Morreu o famoso ‘subsistit’. Seu atestado de óbito foi dado pela significação encontrada por Ratzinger: continua a existir.

E isso é, de fato, um verdadeiro recuo. Queiram ou não queiram os Bispos da Suíça, por exemplo, ou os da CNBB, isso é um verdadeiro recuo. Em que pese ao Cardeal Martini.

Pouco importa que o texto de Ratzinger prossiga dizendo coisas diversas. Ele afirmou que “Existe, portanto, uma única Igreja de Cristo que subsiste [continua a existir] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele” (Dominus Iesus, n. 17).

A formulação assim expressa – e no contexto da Dominus Iesus - perde seu veneno ecumênico. Já não é permitido afirmar que na Igreja de Cristo subsistem também as demais “comunidades” cristãs. As seitas derivadas da Reforma não fazem parte da Igreja de Cristo.

E isso é confirmado por outro texto da Dominus Iesus:

“As igrejas que embora não estando em perfeita comunhão com a Igreja Católica, se mantém unidas a esta por vínculos estreitíssimos, como são a sucessão apostólica e uma válida eucaristia [as igrejas orientais cismáticas], são verdadeiras Igrejas Particulares. Por isso, também nestas igrejas está presente e atua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja Católica, enquanto não aceitam a doutrina do Primado que, por vontade de Deus, o Bispo de Roma objetivamente tem e exerce sobre toda a Igreja” (Dominus Iesus, n. 17)

Esse texto exclui claramente da Igreja todas as “comunidades” nascidas da Reforma, inclusive os Anglicanos que não têm sucessão apostólica, como foi decretado pelo Papa Leão XIII no século passado.

É o que confirma o seguinte texto da Declaração que estamos analisando:

“As comunidades eclesiais, invés, que não conservaram um válido episcopado e a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico, não são igrejas em sentido próprio” (Dominus Iesus, n. 17. O negrito é nosso).

A Declaração prossegue tratando de outra tese modernista: a de que a Igreja seria a soma, ou uma síntese federativa de todas as igrejas ou religiões:

“Os fiéis não podem, por conseguinte, imaginar a Igreja de Cristo como se fosse a soma – diferenciada e, de certo modo, também unitária – das Igrejas e Comunidades eclesiais, nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje já não exista em parte alguma, tornando-se assim, um mero objeto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades” (Dominus Iesus, n. 17).

Pois essa proibição atinge até mesmo o próprio Cardeal Ratzinger. Oscar Cullmann, o famoso teólogo protestante com quem Ratzinger teve longo carteio, e de quem era amigo pessoal, em uma entrevista publicada em “30 Giorni” (30 Dias) declarou:

“No meu livro “A unidade através da Diversidade” propus um novo modelo de ecumenismo, uma “comunidade das Igrejas” que criam uma estrutura de comunhão no respeito das diversidades recíprocas. Ratzinger me escreveu, e o repetiu publicamente no dia 29 de janeiro, que esse modelo é a única possibilidade de realizar o ecumenismo hoje” (Oscar Cullmann, in “30 Giorni”, n.3, Março de 1993, p. 12, 1ª coluna).

Ratzinger nunca desmentiu essa declaração. Agora, a tese de Cullmann, que Ratzinger apoiou, é condenada na Dominus Iesus assinada pelo mesmo Ratzinger.

Será que o Cardeal Joseph Ratzinger esqueceu o que sempre defendeu?

Sobre o problema da salvação, a Dominus Iesus define como verdade de Fé:

“Antes de mais, deve crer-se firmemente que a “Igreja, peregrina na terra, é necessária para a salvação. Só Cristo é mediador e caminho de salvação; ora, Ele trona-Se-nos presente no seu Corpo que é a Igreja; e, ao inculcar-nos por palavras explícitas a necessidade da fé e do Batismo (cf. Mc16,16; Jo.III,5), corroborou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja na qual os homens entram pelo Batismo tal como por uma porta” (Dominus Iesus, 20).

Depois disso, infelizmente, a Declaração ziguezagueia de novo, citando textos do Vaticano II e posteriores, procurando dizer que a salvação pode ser obtida mesmo fora dos limites visíveis da Igreja, o que só é possível excepcionalmente, e apesar da religião falsa.

E, por isso, cita-se o documento Nostra Aetate, do Vaticano II:

“A Igreja não rejeita absolutamente nada daquilo que há de verdadeiro e santo nessas religiões” (não católicas) (Dominus Iesus, n. 2);

“O diálogo inter-religioso importa numa “atitude de compreensão e uma relação de recíproco conhecimento e mútuo enriquecimento, na obediência à verdade e no respeito à liberdade” (Dominus Iesus, n. 2)

“(…) a crença nas outras religiões é o conjunto de experiência e
pensamento, que constitui os tesouros humanos de sabedoria e de
religiosidade, que o homem na sua procura da verdade ideou e pôs em prática em referência ao Divino e ao Absoluto”.

“Em relação aos “textos sagrados de outras religiões”, “certamente deve admitir-se que alguns elementos presentes neles são de fato instrumentos, pelos quais multidões de pessoas puderam, através dos séculos – e podem ainda hoje-, alimentar e manter a sua relação religiosa com Deus”. Daí dizer o Vaticano II que “muitas vezes [as outras religiões] refletem um raio daquela Verdade, que ilumina todos os homens” (Dominus Iesus, n. 8)

“Além disso, a ação salvífica de Jesus Cristo, com e pelo seu
Espírito, estende-se para além dos confins visíveis da Igreja, a toda a
humanidade. (…) O Concílio afirma: ‘E isto vale não apenas para aqueles
que crêem em Cristo, mas para todos os homens de boa vontade, no coração dos quais, invisivelmente, opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu por todos e a vocação última do homem é realmente uma só, a saber divina, nós devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal” (Dominus Iesus, n.12).

Citando a Redemptoris Missio, de João Paulo II: “A presença e a ação do Espírito Santo não atingem apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas, as religiões. (…) É ainda o Espírito que infunde as ‘sementes do Verbo’ presentes nos ritos e nas culturas, e as faz amadurecer em Cristo” (Dominus Iesus, n. 12).

“Tendo presente este dado de fé [a vontade salvífica universal de Deus], a teologia hoje, meditando na presença de outras experiências religiosas e no seu significado no plano salvífico de Deus, é convidada a explorar se e como também figuras e elementos positivos de outras religiões reentram no plano divino de salvação” (Dominus Iesus, n.14).

O que teria sido preciso lembrar, antes de mais nada, é o que ensina a doutrina tradicional católica sobre a possibilidade de salvação dos que estão fora da Igreja.

Se alguém, pertencendo de boa fé a uma religião falsa, cumpre entretanto a lei natural e se encontra em situação de ignorância invencível em relação à doutrina católica, poderá se salvar porque, sem saber, pertence à alma da Igreja (o Espírito Santo que concede a graça santificante), embora não pertença ao corpo da Igreja. Mantém-se íntegra a norma extra ecclesiam nulla salus: para salvar-se, é preciso pertencer ao corpo da Igreja, ou ao menos à sua alma. Deus não condena ninguém sem culpa.

Entretanto, é preciso sempre ressaltar duas coisas:

1. a salvação dos que não pertencem ao corpo da Igreja é excepcional, porquanto, como diz o Syllabus, é um erro afirmar que se pode esperar bem da salvação deles;

2. os que se salvam estando em outra religião não se salvam por obra dela, mas apesar dela. Assim, por exemplo, um protestante jamais pode se salvar por causa do protestantismo, mas apesar do protestantismo.

O ziguezagueio é nítido também nesta afirmação da Declaração em pauta:

“Com a vinda de Jesus Cristo Salvador, Deus quis que a Igreja por Ele fundada fosse o instrumento de salvação para toda a humanidade (Cfr. Act XVII, 30-31). Esta verdade de Fé nada tira ao fato de a Igreja nutrir pelas religiões do mundo um sincero respeito, mas, ao mesmo tempo, exclui de forma radical a mentalidade indiferentista “imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que “tanto vale uma religião como outra” (Dominus Iesus, n.22. O itálico e o negrito são nossos).

E aí está mais uma verdade de Fé. E mais uma condenação de um erro contrário a ela: o de que tanto faz escolher uma religião quanto outra; todas se equivaleriam.

Mas, evidentemente, há um ziguezagueio – para não dizer incoerência e até contradição – entre a parte citada em itálico e a parte citada em negrito.

Como pode-se dizer que a Igreja tem “sincero respeito” pelas religiões do mundo, se “exclui de forma radical a mentalidade indiferentista”… etc?

O respeito pode ser pelas pessoas que se deseja converter à verdadeira e única Igreja de Cristo, a Igreja Católica Apostólica Romana, mas nunca pela falsas religiões que, não podendo salvar, perdem as almas. O médico respeita o doente, mas nunca pode afirmar que tem “um sincero respeito” pelo câncer que o afeta. E é, aliás, o que a própria Declaração afirma, graças a Deus, com as seguintes palavras:

“A paridade, que é um pressuposto do diálogo, refere-se à igual dignidade pessoal das partes, não aos conteúdos doutrinais e muito menos a Jesus Cristo - que é o próprio Deus feito Homem – em relação com os fundadores das outras religiões” (Dominus Iesus, n. 22).

Em todo caso, o que está afirmado é que não se pode sustentar “que tanto vale uma religião como outra”, e que não se pode colocar no mesmo nível Jesus Cristo com os fundadores de religiões falsas.

Vemos por essas condenações dos erros que grassam entre os católicos desde o Vaticano II – causados pela ambigüidade de seus textos – que, como bem lembra a Declaração Dominus Iesus, a causa fundamental de tanta confusão doutrinária é o relativismo e o subjetivismo face à verdade (cfr. Dominus Iesus n. 4).

Ora, a condenação do indiferentismo e do relativismo – e, portanto, a afirmação que a verdade é uma só e cognoscível pelo homem – vai contra muita coisa que o próprio Cardeal Ratzinger defendeu nos anos pós conciliares.

Assim, em seu livro que já citamos, Teoria de los Princípios Teológicos, ele escreveu:

“Isto significa, ao mesmo tempo, que a verdade é sempre uma direção, uma meta, nunca uma posse definitiva. Cristo que é a verdade, é, neste mundo, caminho: porque é a verdade” (Cardeal Joseph Ratzinger, op cit. p. 72).

E ainda, esta defesa do relativismo ecumênico – agora condenado – feita pelo Cardeal Ratzinger:

“Nesta perspectiva, tanto a interpretação católica como a protestante do cristianismo – cada uma em sua posição e com sua importância – são verdadeiras em sua hora histórica, porém só permanecem sendo tais quando, chegado ao ponto final de sua hora, se as abandona e se as insere no todo, que está em transe de nova formação. A verdade é função do tempo” (Cardeal J. Ratzinger, op cit. pp. 16-17. O negrito é nosso).

Linhas depois, nesse mesmo livro, disse o Cardeal Ratzinger:

“Sob este ponto de vista, a fidelidade à verdade de ontem consiste em abandoná-la, em “superá-la”, elevando-a à verdade de hoje” (Cardeal J. Ratzinger, op. cit. p. 17).

Vê-se aí, por essas citações, como Ratzinger defendia o relativismo da verdade em função do tempo – o que hoje é verdade, amanhã não o será mais – e paridade da interpretação católica e protestante do que significa o que é cristão.

Graças a Deus, o texto da Dominus Iesus, assinada pelo Cardeal Ratzinger com a aprovação do Sumo Pontífice João Paulo II, diz o oposto do que escreveu o Cardeal Ratzinger, em 1982.

Concluindo.

Na Dominus Iesus, é preciso distinguir, muito claramente, as verdades de Fé definidas das exposições doutrinárias e citações que as fundamentam.

As definições das dez verdades de Fé publicadas são excelentes. As citações com as quais se procura fundamentá-las falham por sua ambigüidade.

Dessa contradição entre as verdades de Fé definidas e proclamadas com as citações pelas quais se tenta explicá-las é que nascem as controvérsias atuais em torno da nova declaração vaticana: os progressistas e modernistas se apoiam nessa citações do Vaticano II para afirmar que nada mudou e que o ecumenismo deve prosseguir como antes, sem considerar as dez verdades de Fé que contrariam o núcleo do movimento ecumênico.

Outros, progressistas e modernistas mais radicais e líderes de religiões falsas, salientam essas dez verdades como sendo um tiro no movimento ecumênico.

Alguns direitistas e tradicionalistas anti-ecumênicos, apesar de apoiarem as dez verdades de Fé definidas e proclamadas – graças a Deus – pela Dominus Iesus, se impressionam pelas citações ambíguas do Vaticano II que as contrariam, e têm dificuldade em dar uma adesão plena ao novo documento.

A ambigüidade das citações é real e sua contradição com as verdades de Fé definidas, por vezes, é bem flagrante.

Fica-se com a nítida impressão de que se buscou salvar as frases equívocas do Vaticano II – causadoras dos erros que agora se condenam – ao mesmo tempo que se condenava a interpretação modernista que elas propiciavam.

Nós julgamos que, apesar das citações ambíguas do Vaticano II, houve, de fato, um recuo na política seguida desde o Vaticano II.

As dez verdades de Fé definidas devem ser aceitas de todo o coração e de toda alma por todos os católicos, e a elas damos nossa adesão filial e inteira.

Proclamando essas verdades de Fé, a Dominus Iesus, em concreto, foi um recuo. E um recuo que terá conseqüências sérias já em futuro próximo. Possa este recuo levar ainda a outros que façam a nave da Igreja voltar a seu porto de partida. Tal como profetizou Dom Bosco.


domingo, outubro 1st, 2000 at 12:00pm

Revolta, cisma e heresia: reações contra a Dominus Iesus

“Cada vez mais me dou conta de que a Igreja,
como instituição, é irrelevante.” (Leonardo Boff)

O ódio revelado por alguns teólogos, jornalistas e até clérigos, contra a Declaração Dominus Iesus, que veio proclamar, de novo, velhas verdades de fé, há muito esquecidas, e que o Papa João Paulo II, em boa hora, fez recordar através da citada Declaração do Santo Ofício, tem provocado reações de uma violência inaudita contra a Sagrada Hierarquia.

As dez verdades de fé que a Dominus Iesus lembrou – e nas quais todos os católicos, inclusive os Bispos, devem crer firmemente – caíram como sal, que alimenta e dá sabor, sobre as almas fiéis. E caíram como sal sobre os que perderam a fé. E sua raiva impotente, e sua revolta tenebrosa, e seu contorsionado desespero, mostram que eles reagem às verdades da fé como se o sal e o sol da verdade queimassem sua inteligência, e fizessem arder de ódio suas almas. Infelizmente.

*****

Fica-se escandalizado e indignado quando se lê o que escreveu Genezio Boff, a respeito da Dominus Iesus (vide apêndice). Ele compara de modo afrontoso, grosseiro e blasfemo, a Igreja e Cristo a uma estrada e a um pedágio. Não satisfeito com essa grosseria blasfema, ele insiste comparando Cristo a um telefone e a Igreja a uma telefonista.

Poder-se-ia ser mais atrevido?

Se alguém usasse de comparações de mesmo jaez com referência a Genezio Boff, para fazer compreender melhor a revolta dele e de outros hereges da teologia da Libertação contra o Sumo Pontífice, contra a Igreja Católica e contra Roma, haveria protestos pelo desrespeito.

E o respeito que se deve a uma pessoa comum, não se deve infinitamente mais a Cristo?

O desrespeito é tanto maior pelo fato de que, apesar de tudo, o ofensor não perdeu o caráter sacerdotal.

Assim escreveu Boff sobre Cristo e sua Igreja:

“Numa única fórmula, picaresca mas verdadeira, eis resumo da ópera: [a Dominus Iesus]: “Cristo é o único caminho de salvação e a Igreja é o pedágio exclusivo. Ninguém percorrerá o caminho sem antes passar pelo pedágio”. Formulado de outra forma: “Cristo é o telefone mas só a Igreja é a telefonista. Todas ligações de curta e longa distância necessariamente passam por ela”. (Leonardo Boff, Joseph Ratzinger: exterminador do futuro? n. 1).

Poder-se-ia dizer que, com essas comparações ofensivas, Boff é o exterminador do respeito a Cristo e à Igreja, mais do que a Ratzinger.

Pode haver maior desrespeito por Cristo e pela Igreja? E isso saindo de uma boca e de uma pena que foram as de um frade franciscano?

Por que Boff demonstra tal desrespeito, e de modo tão grosseiro? Por que o prazer em debochar e blasfemar?

Porque Boff não suporta a verdade. Como disse o Cardeal Ratzinger, a verdade incomoda.

Por que tanto ódio a Cristo e à Igreja?

Porque Genezio Boff não suporta a verdade. Para ele, todas as religiões são boas. Para Boff, só a religião Católica é odiosa. Para Boff, todas as seitas – até as mais declaradamente diabólicas – são dignas e respeitáveis. Para Genezio Boff, só a Igreja de Cristo deve ser afrontada – e ele a afronta – chamando-a de “romanismo”. Por que essa discriminação?

Dirá ele que quem ele visa é a cúpula da Igreja, a Cúria romana. Mas, fazendo essa distinção entre a Igreja e a Hierarquia, ele cai diretamente em cisma. E prega a revolta contra o Papa, que aprovou a Dominus Iesus.

Ele se ufana em negar a unidade de Cristo com a Igreja. O que o faz, mais uma vez, cair em heresia.

Para ele, a Igreja afirmar que possui a verdade revelada por Deus é totalitarismo.

“Quem pretende possuir sozinho a verdade absoluta está condenado à intolerância para com todos os demais que não estão nela” (L. Boff, Art. cit. n. 2).

Dizendo isto, Boff condena o próprio Cristo que se definiu: “Eu sou a Verdade” (Jo XIV,6). E seria Cristo “intolerante”, no sentido pejorativo que Boff dá a esse termo, porque afirmou: “Quem não está comigo, está contra Mim.” (Mt. XII, 30)? Ou essa intolerância é essencialmente virtuosa?

Claro que sim. A intolerância do mal e do erro é virtude.

Para Boff, esse discurso ”não é específico do romanismo [Catolicismo] mas de todos os totalitarismos contemporâneos, do nazi-fascismo, do estalinismo, do sectarismo religioso, dos regimes latino-americanos de segurança nacional, do fundamentalismo do mercado e do pensamento único neo-liberal” (L.Boff atr, cit. n. 2).

E por que será que Boff não citou, entre os totalitarismos, o de Fidel Castro, em Cuba?

E por que não incluiu ele, entre os totalitarismos fundamentalistas, a sua própria marxista Teologia da Libertação?

Dirá ele que não se julga o único possuidor da verdade: ele a tem com Marx, Lenin, Stalin e Fidel. Ele possui a “verdade” junto com Loisy e os hereges modernistas. Ele não é herege sozinho. Ele tem o apoio da mídia engajada… E pretende ter o apoio silencioso – por enquanto – de cardeais, bispos e padres.

Quem?

Quais os cardeais e bispos que estariam apoiando Boff em sua diatribe contra Roma?

Só a teologia dele, Boff, deveria ser tida com verdadeira. Afirmar ter a verdade como a tem a Igreja, e como Ela a proclama, conduz diretamente à intolerância. Boff pretende ser o profeta da Teologia Marxista, a qual, só ela, tem a verdadeira compreensão da revelação divina. Ele é o Papa da Revolução “cristã”. Ele crê-se o possuidor da “verdade” contra João Paulo II, contra a Cúria, contra o Santo Ofício. E julga-se tolerante e democrático. Mesmo quando espuma ódio e intolerância contra a Dominus Iesus.

Ou será que ele admite que sua “teologia” marxistóide não tem o monopólio da verdade, e nem é totalmente verdadeira?

Poderia ele, então, definir o que é mentira em seu sistema?

E se ele prega tanto a tolerância, por que é tão intolerante contra o “romanismo”, contra Ratzinger, e contra a Cúria Romana?

Por que tanta intolerância contra a Dominus Iesus?

Contradições de Leonardo…

Boff protesta dizendo ironicamente: “Não se deve acreditar em mais ninguém, a não ser em Deus, o Pai, o Filho e o Espirito Santo” (L. Boff, art. cit n. 1, citando a Dominus Iesus n. 7).

Pois, então, declare Boff, em alto e bom som: se não se deve crer apenas em Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, em quem acredita Genezio, além de Marx e Fidel?

Crê ele em Buda? Em Allah? Em Xangô? Em Lúcifer?

Em quem crê Leonardo Boff?

Só em si mesmo?

*****

Lembrei-me, agora, dos amigos do ex-frei Boff, que o defenderam trefegamente ante o Santo Ofício, alguns anos atrás.

Será que também agora, quando Boff se revolta violentamente contra as autoridades da Igreja, será que também agora os cardeais Arns e Lorscheider defenderão Boff?

Seriam esses os cardeais a quem Boff alude, ao afirmar que há muitos eclesiásticos que têm a sua posição?

Será que Boff crê em Dom Arns?

Ou é Dom Arns quem crê em Boff?

Ou condenará Dom Arns, agora, a Genezio Boff, por sua revolta contra Roma?

Ou apoiará Dom Arns essa revolta?

Aceita Dom Arns a Dominus Iesus?

Por enquanto, Dom Arns está em silêncio…

Será que em completo silêncio?

Ou em público silêncio?

Seria interessante saber qual a posição de Dom Arns sobre Boff hoje, ele que defendeu Boff contra Ratzinger no passado…

Seria necessário que Dom Arns, que tanto defendeu Boff no passado, se pronunciasse. Está ele com a Dominus Iesus? Ou apoia ele a nova revolta boffiana? Seria ele, Dom Arns, um dos cardeais a quem alude Boff, como defensores do verdadeiro ecumenismo?

Que se pronuncie Dom Arns. O Povo católico quer saber se ele aceita as verdades de fé proclamadas pela Dominus Iesus.

Ou se está com Boff.

*****

Boff condena a tese de que a revelação divina foi dada somente à Igreja. O que é mais uma heresia.

Vê-se bem como foi necessário o sal das dez verdades de fé definidas pela Dominus Iesus para que se publicasse o que se dizia a meia-voz, ou em conciliábulos.

Genezio, hoje, gritou de raiva.

Bendita luz! Bendito sal!

Para explicar como a Igreja chegou ao que Boff chama de “romanismo”, Boff parte da afirmação – falsa – de que a Igreja, a princípio, era totalmente popular, democrática e igualitária.

O que é uma inverdade completa.

Por acaso não sabe Boff que Cristo fundou sua Igreja sobre Pedro?

Sim, Boff sabe bem disso. Mas, como Lutero, nega essa verdade, porque não admite a desigualdade de poder.

Por acaso não sabe Boff que Cristo estabeleceu um colégio apostólico para dirigir a Igreja sob Pedro e com Pedro? Sim, Boff sabe muito bem disso. Mas nega, porque não aceita que haja hierarquia. Quer uma Igreja anárquica, igualitária.

Boff não admite nenhuma desigualdade. Nem sequer um Deus superior ao mundo Boff aceita, porque escreveu a respeito de alguém que se dizia ateu e à toa:

“Quando se vai analisar de que coisa ele é ateu, eu – como teólogo – digo: “Sou dez vezes mais ateu que você, desse deus velho, barbudo, lá em cima… Até é bom a gente se livrar dele!…” (Frei Leonardo Boff, Pelos pobres! Contra a pobreza! Conferência pronunciada em Teófilo Otoni, em 1983, com apresentação de Dom Quirino A . Schimitz, Bispo de Teófilo Otoni, p. 54).

Leonardo Boff, quando era frade, já não acreditava em um Deus superior, transcendente ao mundo.

Em que Deus crê Genezio, hoje?

Como um ateu – desse tipo, qual ele mesmo se disse – pode se apresentar como “teólogo” e ser acreditado, ainda depois de jogar batina e votos às urtigas?

Como pretende ser ele, de fato, o porta voz de “cardeais, arcebispos e presbíteros” que teriam sua postura de rebelião contra Roma?

Depois de afirmar gratuitamente que a Igreja era igualitária e popular em seus primeiros mil anos, Genezio conta que a hierarquia vaticana “expropriou” o poder na Igreja , através de três atos:

1. Pela falsa doação de Constantino (no ano 313);

2. Pela afirmação de que o Papa por ninguém poderia ser julgado;

3. Pela proclamação do dogma da infalibilidade papal, em 1870.

Finalmente, no número três de sua diatribe anticatólica, Genezio Boff afirma que o Cardeal Ratzinger, na Dominus Iesus, “não ensina a essência do cristianismo”.

E qual seria a essência do cristianismo boffiano?

Seria constituída por duas notas:

1. O amor.

2. O pobre.

E declara Boff:

“Para Jesus e para todo o Novo Testamento o amor é tudo (Mt. 22, 38-39)”, porque Deus é amor (Jo 4,8.16) e só o amor salva (Mt. 25, 34-37), amor que deve ser incondicional (Mt. 5, 44). Não se lê nada disso no documento cardinalício” (L. Boff, art. cit. n. 3).

Se é assim; se o amor deve ser incondicional, porque Boff manifesta tanto ódio a Ratzinger, à Igreja Católica, ao “romanismo”, como ele denomina a Igreja?

Boff desvincula a caridade – que ele chama de amor – do conhecimento, como se fosse possível amar sem conhecer. Só se pode amar o que se conhece, ensinam Aristóteles, Santo Tomás e o bom senso.

Portanto, não pode haver caridade sem a fé.

E fé, Boff não a tem. E, por isso, ele não tem caridade. Não tem amor. Só respira ódio. Só escreve com ódio.

Pobre Boff! Em que abismo e confusão caiu!

A caridade não consiste apenas em dar dinheiro aos pobres, pois São Paulo nos ensina: “Ainda que eu distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres, e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, nada aproveita” (I Cor. XIII,3).

Pobre Boff, que fez voto de pobreza e odeia a pobreza, a ponto de ter escrito uma obra “Pelos pobres, contra a pobreza”.

Pois se ele considera que se deve combater a pobreza, afirma que deseja enriquecer os pobres, o que, na sua concepção, seria pervertê-los.

Mas, ao que consta, ele, Boff, vive confortavelmente… Graças aos direitos autorais dos livros que escreveu contra a Igreja… O que lhe permitiu não sair tão pobre do convento da pobreza franciscana. Nem tais direitos autorais o fazem viver como vivem os pobres.

Contradições de Genezio…

Pobre Boff, que se esquece do que Deus diz nas Escrituras: “A pobreza é péssima no dizer do ímpio” (Eclo. XIII, 30).

Pobre Boff, que, a pretexto de amar os pobres, odeia a pobreza que fez, um dia, voto de observar.

Pobre Boff, que levado pelo ódio aos ricos, condenou a riqueza enquanto tal, embora Deus nos tenha ensinado que “As riquezas são boas para o que não tem pecado em sua consciência” (Eclo XIII, 30).

Pobre Boff, que levado pelo ódio partidário da seita marxista da qual se fez apóstolo, transformou o pobre em ídolo!

Pois não escreveu, Leonardo, este absurdo intolerante e discriminador: “Todo mundo tem de fazer uma opção pelos pobres: só se salva quem faz esta opção e fora dela não há salvação” (L. Boff, Pelos pobres, contra a pobreza, p. 11)?

Para Boff não é verdade o dogma ‘fora da Igreja não há salvação’, como foi definido pelo IV Concílio de Latrão.

Fora do pobre é que não haveria salvação.

Boff, para defender sua “opção pelo pobre” recorre até mesmo à tradição:

“A Tradição teológica da Igreja sempre argumentou retamente: onde está Cristo, aí está a Igreja; Cristo está nos pobres; logo, a Igreja está (deve estar) nos pobres. Não apenas nos pobres laboriosos e bons, mas nos pobres pura e simplesmente pelo simples fato de serem pobres” (L. Boff art cit. n. 3).

Está aí a formulação idolátrica.

E nem a Tradição diz isso. O que a Tradição diz é: Onde está o Papa, aí está a Igreja”. “Ubi Papa, ibi Ecclesia”. Boff trocou o Papa por pobre. Por qualquer pobre, ainda que imoral ou criminoso. Só pelo fato de ser pobre.

Ora, Deus disse diferentemente:

“O rico e o pobre se encontraram. Deus criou a ambos” (Prov. XXII 2).

“O pobre e o credor se encontraram; o Senhor é que ilumina um e outro” (Prov. XXIX,13).

E no Levítico, Deus previne que não se tenha opção pelo pobre só porque ele é pobre:

“Não atendas à pessoa do pobre, nem tenhas respeito à cara do poderoso. Julga teu próximo imparcialmente” (Lev. XIX13).

E também a riqueza vem de Deus:

“Os bens e os males, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza, tudo isso vem de Deus” (Eclo. XI,14).

“Bem aventurado o rico que foi achado sem mancha, e que não correu atraído pelo ouro, nem pôs sua esperança no dinheiro nem nos tesouros.” (Ecle. XXXI, 8).

Por isso foram benditos muitos ricos. Abraão, por exemplo, foi muito rico e foi também tão santo que seu seio se tornou símbolo do céu. “Ora, ele (Abraão) era muito rico em ouro e prata” (Gen. XIII, 2).

E Jó, exemplo de virtude e de santidade, era riquíssimo.

Por isso, Cristo, no Evangelho, não bendiz o pobre só por ser pobre, mesmo que ele seja mau, como diz frei Boff, mas diz bem aventurados apenas os que são pobres de espírito.

Rico de espírito é o rico que confia em seu dinheiro. Rico de espírito é também aquele que, sendo materialmente pobre, vive só pensando no dinheiro e em como conquistá-lo. O ex-frei Boff ensina os materialmente pobres a amarem o dinheiro dos ricos, a adorarem mamon.

E se Boff considera a pobreza como santificadora em si, por que escreveu ele o opúsculo “Pelos pobres, contra a pobreza”?

Por que ser contra a pobreza se ele é boa?

Para Genezio, a Dominus Iesus “ludibria os seres humanos negando-lhes o principal da mensagem de Jesus referida acima, o amor incondicional e a centralidade dos pobres e oprimidos” (Boff, art. cit. n. 3).

Finalmente, Boff diz uma verdade:

“Com esse documento [a Dominus Iesus], o cardeal Ratzinger criou a tumba para o ecumenismo na perspectiva da hierarquia vaticana. Possui [a Dominus Iesus] o mérito de desfazer todas as ilusões” (Boff art. cit. n. 4).

Sim. Agora será impossível prosseguir no relativismo, que vigorou nos últimos anos, sem cair em contradição brutal.

Tomara que Boff tenha razão neste ponto: que o relativismo – incluindo o do ecumenismo – esteja morto e enterrado. Mort et enterré… Como Malbrough.

Embora haja quem queira apresentar a múmia como se estivesse viva:

“A confirmar a atitude excludente do Vaticano, o ecumenismo cristão não passa mais por Roma mas por Genebra, sede do Conselho Mundial das Igrejas”.

E, consumando sua apostasia do catolicismo, conclui Boff:

“Aí [em Genebra, no Conselho Mundial das Igrejas] se perpetua a herança de Jesus, aberta às dimensões do espírito, que enche a face da Terra e acalenta os corações dos povos e das pessoas” (Boff art. cit. n* 4).

Boff, dizendo isso, além de marxista, ficou protestante. Genebrino. Não mais romano.

Deus tenha piedade dele, por tanto escândalo.

Todavia, o que há de mais grave no manifesto de revolta de Boff, é sua ameaça de divisão da Igreja e da Hierarquia. Na verdade, seu grito de rebelião e de protesto é um apelo para que “cardeais, arcebispos e presbíteros” o apoiem em sua revolta contra a Dominus Iesus e contra a Santa Sé.

Já no início de sua diatribe escandalosa diz Boff que, na Dominus Iesus, “sem máscara e subterfúgios, se expõe qual a visão que uma parte da Igreja, a hierarquia vaticana, possui acerca da revelação, do desígnio de Deus em Cristo, da natureza da Igreja, do diálogo ecumênico e inter religioso.” (L. Boff, atr. cit. introdução – O sublinhado é nosso).

Esta afirmação é sumamente grave. Ela declara que há uma divisão na Hierarquia eclesiástica. Haveria uma ala de “cardeais, arcebispos e presbíteros” que não têm a mesma doutrina que as autoridades romanas sobre estas questões fundamentais da fé, quais sejam a missão salvífica de Cristo, a natureza da Igreja e a revelação.

Se isso for verdade, então, Boff está afirmando que atualmente há duas igrejas: uma, a das autoridades vaticanas, e que ele chama de “romanismo”; outra, a dos que seguem o relativismo modernista, da qual Boff se faz o porta voz. Essa alusão a uma divisão gravíssima no seio da Hierarquia, Boff a confirma em outras frases de seu manifesto de revolta.

Por exemplo, quando diz:

“A partir de agora, não podemos contar com a hierarquia vaticana para buscar a paz espiritual e religiosa da humanidade. Ao contrário, por seu capitalismo concentrador da verdade divina, pela arrogância com que trata a todos os demais, o cristianismo hierárquico romano se constitui um grande obstáculo” (L. Boff, art cit. n. 4. O negrito é nosso)

Que quer dizer Boff com isso?

Que antes ele contava com a hierarquia vaticana para atingir os objetivos que ele cita, e que agora se sente traído?

Se ele considera “o cristianismo hierárquico romano” o “grande obstáculo” para a paz religiosa da humanidade, que pensa fazer ele contra esse obstáculo?

O que Boff diz logo depois é que indica a possibilidade de um gravíssimo cisma:

Mas a hierarquia romana não é toda a Igreja nem representa a inteira hierarquia eclesiástica mundial. No seio da hierarquia há cardeais, arcebispos, bispos e presbíteros que seguem o caminho evangélico do mútuo aprendizado, do diálogo aberto e da busca sincera da paz religiosa assentada na experiência radical do Mistério que se vela e revela ao longo da história do universo e da humanidade e ganha corpo, cada vez singular, nas religiões e no cristianismo. Mas esse não é o caminho estimulado por Roma” (L. Boff, art. cit. n. 4. O negrito é nosso).

Há, então, duas alas na hierarquia. A de Boff – dos cardeais, arcebispos e bispos que o seguem, ou que estão com ele – é explicitamente herética.

Que acontecimentos essa divisão gravíssima provocará?

Para Boff, a ala de Ratzinger (e a do Papa) – a ala do que ele chama de “romanismo” – “É o sapo no fundo poço e que não sabe que há universos para além de seus limites” (L. Boff, art. cit. n. 4).

Quando as ofensas chegam a esse nível – de chamar o opositor de “sapo” – que se pode esperar?

Para Boff, “O cristianismo apresentado pelo cardeal Ratzinger não é mundializável, é expressão do lado mais sombrio do Ocidente que mais e mais se torna um acidente” (L.Boff. art.cit. n. 4).

E Boff “profetiza” – afinal até Saul esteve entre os profetas – que:

“No novo milênio que se inaugura, far-se-á um novo ecumenismo católico como aquele que está sendo feito em estratos importantes da hierarquia que se converteu ao seu sentido evangélico de serviço e de animação da fé, nas bases da Igreja e nas comunidades católicas e cristãs, ecumenismo fundado na espiritualidade e na mística do encontro vivo com o Espírito e o Ressuscitado, a serviço dos homens e das mulheres, começando pelos mais pobres e penalizados, em comunhão e no diálogo com outros portadores de espiritualidade. É missão de todos suscitar e animar a chama sagrada do Divino e do Mistério que arde dentro de cada coração e no inteiro universo”.

Dizendo isso, Boff vai além de afirmar que há duas alas na hierarquia. Ele declara que, de fato, existem, já agora, duas igrejas se enfrentando: a Igreja relativista e gnóstica de Boff e dos “cardeais, arcebispos, bispos e presbíteros”, que rejeita o “romanismo” e as dez verdades de fé da Dominus Iesus; e a Igreja Católica Apostólica Romana, que obedece ao Papa e à Sagrada Hierarquia, e que adere plenamente ao que Roma ensinou nas dez verdades de fé que foram definidas na Declaração Dominus Iesus.

Boff conclui seu grito de rebelião contra Roma e contra o Papa dizendo que “Roma haverá, um dia, post Ratzinger locutum, de se somar a essa tarefa messiânica” de construir o novo ecumenismo.

Post Ratzinger, isto é, após o próximo conclave. E se for eleito um papa que apoie a Dominus Iesus, que fará a “igrejola” oculta e relativística de Boff e de seus “cardeais, arcebispos, bispos e presbíteros”?

Fundará um nova igreja relativista? A igrejola oculta virá a sair de seu antro secreto?

Que nos reserva o futuro?

O futuro nos reserva o triunfo do Imaculado Coração de Maria. O triunfo da Igreja Católica Apostólica Romana. O sol da verdade brilhará triunfante. O sol da terra dará de novo, como sempre, vida às almas fiéis. Foi o que prometeu Nossa Senhora em Fátima. E contra a Rainha do céu se insurgem, em vão, os hereges e os cismáticos.

O relativismo perecerá.


APÊNDICE I*

Card. Joseph Ratzinger: exterminador do futuro?
Leonardo Boff

Ao se concluírem os festejos de dois mil anos de cristianismo, o Card. J. Ratzinger nos brinda com um documento doutrinário ao qual devemos agradecer. Nele, sem máscara e subterfúgios, se expõe qual a visão que uma parte da Igreja, a hierarquia vaticana, possui acerca da revelação, do desígnio de Deus em Cristo, da natureza da Igreja, do diálogo ecumênico e inter-religioso. Agora, todos, homens e mulheres de boa-vontade, pessoas religiosas e espirituais, Igrejas cristãs e cada fiel, sabem o que devem esperar ou não da Igreja hieráquica vaticana com referência ao futuro do diálogo micro e macro ecumênico. Esse futuro é aterrador, mas absolutamente coerente com o sistema que a Igreja hierárquica vaticana elaborou ao longo dos últimos séculos, e que agora alcançou sua expressão pétrea. É o sistema romano, férreo, implacável, cruel e sem piedade.

1. A inaudita agressividade de um cardeal tímido

Numa única fórmula, picaresca mas verdadeira, eis resumo da ópera: “Cristo é o único caminho de salvação e a Igreja é o pedágio exclusivo. Ninguém percorrerá o caminho sem antes passar pelo pedágio”. Formulado de outra forma: “Cristo é o telefone mas só a Igreja é a telefonista. Todas as ligações de curta e de longa distância necessariamente passam por ela”. Igreja e Cristo formam “um único Cristo total” (n.16), pois “como existe um só Cristo, também existe um só corpo e uma só sua Esposa, uma só Igreja católica e apostólica” (n.16). Fora da mediação da Igreja, todos, inclusive “os adeptos de outras religiões, objetivamente, se encontram numa situação gravemente deficitária” (n.22). Com ênfase se diz, citando o Catecismo da Igreja Católica: “Não se deve acreditar em mais ninguém, a não ser em Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (n.7).

Por que tal reducionismo? Aqui começa se articular o sistema romano, o romanismo: por causa “do caráter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo”(n.4). Poder-se-ão passar milênios, podem os seres humanos emigrar para outros planetas e galáxias, até o juizo final engessou-se a história, pois, não haverá absolutamente nenhuma novidade em termos de revelação: “não se deve esperar nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo”(n.5). O sistema é completo, fechado e total e tudo e tudo é posse privada da Igreja (hierarquia vaticana) que deve expandi-lo ao mundo inteiro. Que dirá ela aos seres humanos, mesmo depois de milhões de anos de evolução e de encontro espiritual com Deus e aos demais cristãos que não são católico-romanos?

As respostas são claras e sem titubeios, verdadeiras estocadas de punhal no peito dos destinatários: Vocês, pessoas religiosas do mundo, membros de religiões, até mais ancestrais que o nosso cristianismo (como o budismo e o induismo), lhes anuncio essa desoladora verdade: vocês não têm “fé teologal”, apenas possuem “crença”; suas doutrinas não são coisa do Espírito mas são coisa “que o homem na sua procura da verdade ideou”(n.7). Se possuirem alguns elementos positivos, “não se lhes pode atribuir origem divina”(n.21) nem são de vocês, são nossos, pois, “recebem do mistério de Cristo os elementos de bondade e de graça neles presentes”(n.8). E vocês, Igrejas ortodoxas que possuem hierarquia e eucaristia: vocês são apenas “igrejas particulares”, sem plena comunhão por não aceitarem o primado do Papa (n. 16). E vocês Igrejas evangélicas, saídas da Reforma e outras surgidas depois, escutem bem essa sentença: vocês “não são igrejas em sentido próprio”(n.17); são “comunidades separadas”…” cujo valor deriva da mesma plenitude de graça e verdade que foi confiada à Igreja Católica”(n.17).

E agora escutem todos o que o Concílio Vaticano II sentenciou e nós reafirmamos: “A única verdadeira religião se verifica na Igreja Católica e Apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou a missão de a difundir a todos os homens”(n.23). Saibam que unicamente nela está a verdade. Todas as pessoas estão obrigadas a procurar a verdade que outra não é senão Cristo e a Igreja. Uma vez conhecida, vocês são obrigados a aderir a ela, pois fora desta verdade todos vocês se encontram irremediavelmente na errância. No fundo, esse documento, expressão suprema de totalitarismo, dirá a todos, de forma cruel e impiedosa: sem Cristo e a Igreja vocês todos não possuem nada de próprio; se, por ventura, tiverem algum elemento positivo, não é de vocês mas de Cristo e da Igreja. A vocês não resta outro caminho senão a conversão. Fora da conversão só há o risco objetivo da perdição.

Depois de tal pronunciamento para nós mortais, propulsores do micro e macro ecumenismo, fica claro: qualquer iniciativa do Vaticano nessa área, esconde uma farsa e prepara um engodo. Os apelos que o documento faz à continuidade do diálogo não é, propriamente, sobre os conteúdos religiosos, mas sobre o respeito às pessoas, iguais em dignidade mas absolutamente desiguais em termos das condições objetivas de salvação.

Com estas teses o tímido Cardeal Joseph Ratzinger compareceu como o exterminador do futuro do ecumenismo. Como se chegou a tal sistema totalitário, o romanismo, que tantas vítimas faz e que produz um discurso de exclusão e de desesperança?

2. O capitalismo hierárquico romano

Esse tipo de discurso não é específico do romanismo mas de todos totalitarismos contemporâneos, do nazi-fascimo, do estalinismo, do sectarismo religioso, dos regimes latino-americanos de segurança nacional, do fundamentalismo do mercado e do pensamento único neo-liberal. O sistema é totalitário e fechado em si mesmo, no caso da Igreja hierárquica vaticana, um “totatus”(“totalitarismo”) como diziam teólogos católicos, críticos do absolutismo dos papas. A realidade começa e termina lá onde começa e termina a ideologia totalitária. Não existe nada para além do sistema. A ele todos devem se submeter, como diz o documento de Ratzinger em “obediência… submissão plena da inteligência e da vontade, dando volutariamente o assentimento” (n.7). A verdade é só intra-sistêmica. Só os que obedecem ao sistema participam dos benefícios da verdade que é a salvação. Todos os demais estão no erro.

Quem pretende possuir sozinho a verdade absoluta está condenado à intolerância para com todos os demais que não estão nela. A estratégia é sempre a mesma, em qualquer um destes totalitarismos: converter os outros ou submetê-los, ou desmoraliza-los ou destruí-os. Esse método o conhecemos bem na América Latina. Foi minuciosamente aplicado pelos primeiros missionários ibéricos que vieram ao México, ao Caribe e ao Peru com a ideologia absolutista romana. Consideraram as divindades das religiões indígenas falsas e suas doutrinas pura invenção humana. E os destruiram com a cruz associada à espada. Os lamentos dos sábios astecas ecoam até hoje:”Dissestes que não eram verdadeiros nossos deuses. Nova é essa palavra, a que falais. Por causa dela estamos perturbados, por causa dela estamos incomodados… Ouvi, senhores nossos, não façais algo a nosso povo que lhe cause desgraça e que o faça perecer… não podemos estar tranquilos” (Miguel León-Portilla, A conquista da América Latina vista pelos indios, Vozes, Petrópolis l987,21-22). Os maias em soluços choravam: “Ai! Entristeçamo-nos porque chegaram (os espanhóis cristãos)…Vieram fazer as flores murchar. Para que sua flor vivesse danificaram e engoliram nossa flor… Castrar o sol. Isso vieram eles fazer aqui… Esse Deus “verdadeiro” que vem do céu só de pecado falará, só de pecado será seu ensinamento. Eles nos ensinaram o medo”(León-Portilla, op.cit. 60-62). O Cardeal Ratzinger poderá imaginar o que um piedoso presbiteriano, trabalhando no interior da selva amazônica com os indígenas ou um monge taoista, mergulhado em sua contemplação, sentirão quando, num encontro inter-religioso qualquer, se lhes disser que eles não têm fé ou que não são igreja, que em si nada possuem de divino e de positivo, e se o possuem é só por causa de Cristo e da Igreja? Assim humilhados e ofendidos têm motivos para chorar como os astecas e maias. E seu lamento chegará até o coração de Deus que sempre escuta o grito dos oprimidos, sem a mediação desnecessária da Igreja. Mas como são justos e sábios, seguramente, apenas sorirrão face à tanta arrogância, à tanta falta de respeito e à tanta ausência de espiritualidade para com os percursos de Deus na vida dos povos.

A estratégia do documento vaticano obedece à mesma lógica dos referidos totalitarismos: vai da desmoralização e da diminuição até a completa negação do valor teologal das convicções do outro. Destrói todas as flores do jardim não-católico e religioso para que reste, soberana e solitária, somente a flor da Igreja romano-católica. E tudo sob a inovocação de Deus, de Cristo e da revelação divina, pecando gaiamente contra o segundo mandamento da Lei de Deus que proibe usar o santo nome de Deus em vão ou para acobertara interesses meramente humanos.

Como se chegou a essa rigidez fundamentalista e sem piedade? Não queremos resumir a investigação histórica, feita pelos melhores historiadores e exegetas católicos que o Card. Ratzinger conhece pois os estudou em suas aulas de Freising, Bonn, Tübingen e Regensburg: de uma comunidade fraternal dos inícios do cristianismo por razões históricas compreensíveis mas não justificáveis se chegou a uma sociedade eclesiástica piramidal e desigual.

Nos primeiros séculos até para além do ano mil, o povo cristão participava do poder da Igreja-comunidade-dos-fiéis, nas decisões e na eleição de seus ministros segundo o adágio antigo:”tudo o que interessa a todos deve ser discutido e decidido por todos”. Depois, o povo começou apenas a ser consultado, e por fim, totalmente marginalizado e expropriado da capacidade que originalmente possuía. Assim surgiu na Igreja uma inegável divisão e desigualdade: por um lado uma hierarquia que tudo sabe, tudo ensina, tudo discute e tudo decide ao lado e em cima de uma massa de fiéis, depotenciada e destituída, que deve obedecer e aderir totalmente à hierarquia. Essa realidade é em si perversa e contrária ao sentido originário da mensagem de Jesus. Para fazê-la aceitável entram em funcionamento os mecanismos de legitimação. A hierarquia vaticana elabora uma correspondente teologia com o objetivo de justificar, reforçar e socializar seu poder. Para fazer esse poder irreformável, intocável e absoluto atribui-lhe origem divina, quando, na verdade, é produção histórica e fruto de um processo implacável de expropriação. Para conseguir tal faraonismo a hierarquia vaticana lançou mão de manipulação de decretais e da falsificação do famoso Testamento de Constantino até implantar com Gregório VII em 1075 com seu “Dictatus Papae” (a Ditadura do Papa) o poder absoluto do papado em formulações como estas: “O papa é o único homem ao qual todos os príncipes beijam os pés (isso valia até os meados deste século com Pio XII); sua sentença não deve ser reformada por ninguém e apenas ele pode reformar a de todos; ele não deve ser julgado por ninguém”. Por fim com o Pio IX, de infeliz beatificação recente, foi proclamado infalível em seu magistério, podendo decidir tudo “por si e sem o consentimento da Igreja”. A partir dessa ideologia totalitária se lêem as Escrituras e se pinçam dela o que interessa ao embasamento desta doutrina ideada pela fome de poder, espiritualizando perspecticas contrárias ou simplesmente silenciando sobre elas, mesmo as mais essenciais. O documento do Card. Ratzinger prolonga esse método sem qualquer sutileza que se poderia esperar de alguém que foi um dia um teólogo de reconhecida competência.

Cabe recordar que o Jesus histórico foi vítima de sistema absolutista semelhanante, aquele arquitetado pelos escribas e fariseus. Em nome dele rejeitaram Jesus como falso profeta, inimigo da verdade, belzebu, traidor das tradições e sedutor do povo. Jesus lhes retruca e o mesmo diremos ao Card. Ratzinger:”na verdade, anulais o mandamento de Deus para estabelecer as vossas tradições… e coisas como estas fazeis muitas”(Marcos 7,13);”por causa das tradições vocês não ensinam o preceito de Deus” (Mateus l5,3). O que o Card. Ratzinger deixe de ensinar em nome de tradições espúrias?

3. Erros teológicos que tornam inaceitável o documento vaticano

O Card. Ratzinger não ensina a essência do cristianismo, sem a qual nada se sustenta e vã é toda a argumenação do documento. Entre outras coisas essenciais, duas são as mais graves: não anuncia a centralidade do amor nem prega a importância decisiva dos pobres. Estão em seu documento totalmente ausentes.

Para Jesus e para todo o Novo Testamento o amor é tudo (Mt 22,38-39) porque Deus é amor (l João 4,8.16) e só amor salva (Mt 25,34-37), amor que debe ser incondicional (Mt 5,44). Não se lê nada disso no documento cardinalício. Só fala de verdades reveladas e da fé teologal como adesão plena a elas. E bem sabe o Cardeal que a fé sozinha não salva, pois como dizem todos os Concílios, só salva a fé “informada de amor” (fides caritate informata). É um silêncio clamoroso só compreensível em quem não tem uma experiência espiritual, não se encontra com o Deus-comunhão-de-pessoas-divinas, não ama a Deus e ao próximo, mas só adere preguiçosamente a verdades escritas e abstratas. Pelo fato de o texto não revelar nenhum amor, também mostra que não ama a ninguém a não ser o próprio sistema. Antes, sem compaixão e esforço de compreensão, injuria e desfaz o credo dos outros.

Mais ainda, para piorar sua situação, em nenhum momento se refere aos pobres. Para Jesus e todo o Novo Testamento, o pobre não é um tema entre outros. É o lugar a partir do qual se descobre o evangelho como boa-notícia de libertação (“benaventurados vós pobres”) e funciona como critério derradeiro de salvação ou de perdição. De nada vale pertencer à Igreja romano-católico, possuir todo o arsenal dos meios de salvação, submeter-se com mente e coração ao sistema hierárquico, acolher todas as verdades reveladas, se não tiver o amor “nada sou”(l Corintios 15,2). Se não tivermos amor ao faminto, ao sedento, ao nu, ao peregrino e ao preso ninguém nem eu nem o Cardeal Ratzinger poderemos ouvir as palavras benaventuradas: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino preparado para vós desde a criação do mundo” (Mateus 25,34) porque “quando deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes” (Mateus 25,45). A questão do pobre é tão essencial à herança de Jesus que quando Paulo foi acertar as contas de sua doutrina junto aos apóstolos em Jerusalém, estes lhe cobraram o cuidado dos pobres (Gálatas 2,10).

A tradição teológica da Igreja sempre argumentou retamente: onde está Cristo ai está a Igreja; Cristo está nos pobres; logo a Igreja está (deve estar) nos pobres. Não apenas nos pobres laboriosos e bons, mas nos pobres pura e simplesmente pelo simples fato de serem pobres. Sendo pobres, menos vida têm e, por isso, são os destinatários primeiros do evangelho e da intervenção libertadora do Deus da vida.

Nenhuma ressonância desse anúncio de liberdade e de compaixão encontramos no pífio documento vaticano. Sobre a questão dos pobres poder-se-ia inaugurar um ecumenismo aberto e fecundo com todas as igrejas, religiões, tradições espirituais e pessoas de boa-vontade. No amor incondicional e nos pobres se encontra a centralidade da mensagem de Jesus e não no arrazoado ideológico montado pelo documento do Cardeal. Há uma forma de negação do Deus vivo que só os eclesiásticos realizam: falar de Deus, de sua revelação e de sua graça sem mostrar nenhuma compaixão para com os pobres e os ofendidos. Não falam do Deus de Jesus que escuta o grito dos oprimidos e desce para libertá-los (Exodo 3,4) mas, sob medida, de um fetiche eclesiástico que o homem em sua fome de poder “ideou” (n.7). Não sem razão a imagem de Deus que emerge do documento é de um Deus fúnebre que morreu há muito tempo mas que deixou como testamento frases, recolhidas no Novo Testamento, com as quais a hierarquia vaticana constrói um edifício de salvação exclusivo para quem nele entrar.

Mas há outras insuficiências graves de teologia que importa denunciar: O documento ofende o Verbo que “ilumina cada pessoa que vem a este mundo”(João 1,9) e não apenas os batizados e os que são romano-católicos. O documento blasfema o Espírito que “sopra onde quer” (João 3,8) e não apenas sobre aqueles ligados aos esquemas do Cardeal. Jesus enfatiza que “os verdadeiros adoradores que o Pai deseja, hão de adorá-lo em Espírito e Verdade” e não apenas em Roma (Jerusalém) ou Garizim (Cracóvia: João 4, 21-23), vale dizer, por todas pessoas abertas à dimensão espiritual e sagrada do universo, manifestação da presença do Mistério divino, cuja culminação se encontra na encarnação. O documento ludibria os seres humanos negando-lhes o principal da mensagem de Jesus referida acima, o amor incondional e a centralidade dos pobres e oprimidos. No seu lugar lhes oferece um indigesto menu de citações arranjadas para justificar as discriminações e as desigualdades produzidas contra vontade manifesta de Jesus que proibiu alguém se chamar de mestre ou de pai (Papa é a abreviação de pai dos pais=pater-patrum=papa) ou de se considerar o maior ou estar em primeiro lugar “porque vós sois todos irmãos e irmãs”(Mateus 23, 6-12). A hierarquia romana necessita urgentemente de conversão para que possa encontrar o seu lugar dentro da totalidade do povo de Deus e como serviço dentro da comunidade de fé. Ela não é uma facção mas uma função da Igreja-comunidade-de-fiéis-e-de-serviços.

O documento está a quilômetros-luz da atmosfera de jovialidade e benquerença própria dos evangelhos e da gesta de Cristo. É um texto de escribas e fariseus e não de discípulos de Jesus, um texto falto de virtudes humanas e divinas mais destinado a julgar, a condenar e a excluir do que a valorizar, a compreender e a incluir como o faz o símbolo da primeira aliança que Deus estabeleceu com a vida e a humanidade, o arco-iris. Ratizinger não quer a multiplicidade das cores na unidade do mesmo arco-iris mas apenas o predomínio imperativo da cor preta, aquela da triste hierarquia vaticana.

4. O ecumenismo passa por Genebra e não por Roma

Com esse documento Card. Ratzinger criou a tumba para o ecumenismo na perspectiva da hierarquia vaticana. Possui o mérito de desfazer todas as ilusões. A partir de agora não podemos contar com a hierarquia vaticana para buscar a paz espiritual e religiosa da humanidade. Ao contrário, por seu capitalismo concentrador da verdade divina, pela arrogância com que trata a todos os demais, o cristianismo hierárquico romano se constitui um grande obstáculo. Mas a hierarquia romana não é toda a Igreja nem representa a inteira hierarquia eclesiástica mundial. No seio da hierarquia há cardeais, arcebispos, bispos e presbíteros que seguem o caminho evangélico do mútuo aprendizado, do diálogo aberto e da busca sincera da paz religiosa, assentada na experiência radical do Mistério que se vela e revela ao longo de toda a história do universo e da humanidade e ganha corpo, cada vez singular, nas religiões e no cristianismo. Mas esse não é o caminho estimulado por Roma.

A continuar a atitude excludente do Vaticano, o ecumenismo cristão não passará mais por Roma mas por Genebra, sede do Conselho Mundial de Igrejas. Ai se perpetua a herança de Jesus, aberta às dimensões do Espírito que enche a face da Terra e acalenta os corações dos povos e das pessoas. Como o documento de Ratzinger é fruto de um sistema fechado e férreo, não mostra nenhuma sensibilidade para a realidade que vai além dele. É o sapo que vive no fundo do poço e nada sabe que há universos para além de seus limites. Um documento que visa o diálogo religioso mundial deveria mostrar sentido de pertinência e relevância de tal diálogo para a dramática situação que atravessa a Terra e a humanidade. Nada disso entra na agenda do documento.

O sentido do diálogo ecumênico e inter-religioso não se exaure na gestação da paz religiosa. Ele se ordena à construção da justiça e da paz entre os povos e à salvaguarda de todo o criado. Estamos caminhando rumo a uma única sociedade mundial. Essa geosociedade possui o rosto do Terceiro-Mundo porque quatro bilhões de pessoas sobre seis, consoante os dados do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, vivem abaixo da linha da pobreza. Quem enxugará as lágrimas destes milhões de vítimas? Quem escuta o grito que vem da Terra ferida e das tribos da Terra, famintas e excluidas?

O documento não possui nenhum ouvido para semelhantes tribulações. Quem é surdo diante do grito dos oprimidos não tem nada a dizer a Deus e nada tem a dizer em nome de Deus. O Cristianismo apresentado pelo Card. Ratzinger não é mundializável, é expressão do lado mais sombrio do Ocidente que mais e mais se torna um acidente. Seu documento fecha o segundo milênio de um tipo de cristianismo que não deve ser prolongado por veneração ao Mistério de Deus que se revela na história, por amor a Jesus Cristo cujo significado e mensagem não quer excluir nem diminuir ninguém, por comunhão com as demais igrejas cristãs que levam avante a memória de Jesus e por respeito aos demais caminhos religiosos e espirituais pelos quais Deus sempre visitou em salvação e graça a todos os seres humanos. No novo milênio que se inaugura, far-se-á um novo ecumenismo católico como aquele que está sendo feito em estratos importantes da hierarquia que se converteu ao seu sentido evangélico de serviço e animação da fé, nas bases da Igreja e nas comunidades católicas e cristãs, ecumenismo fundado na espiritualidade e na mística do encontro vivo com o Espírito e o Ressuscitado, a serviço dos homens e das mulheres, começando pelos mais pobres e penalizados, em comunhão e no diálogo com outros portadores de espiritualidade. É missão de todos suscitar e animar a chama sagrada do Divino e do Mistério que arde dentro de cada coração e no inteiro universo.

Sem essa chama sagrada não salvaremos a vida nem garantiremos um futuro de esperança para a família humana e a Casa Comum, a Terra. Para tal propósito todo ecumenismo é desejável, toda sinergia é imprescindível. E Roma haverá, um dia, post Ratzinger locutum, se somar a essa tarefa messiânica.


APÊNDICE II

DIÁLOGO ECUMÊNICO EM RISCO

Frei Betto, OP

Os católicos comprometidos com o ecumenismo estão sob o impacto da Declaração “Dominus Iesus”, recém-publicada pelo cardeal Ratzinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (o ex-Santo Ofício). Em pleno ano do Jubileu, a declaração vaticana joga uma ducha de água fria em quarenta anos de esforços ecumênicos, ao proclamar que a Igreja católica é a única Igreja fundada por Cristo e que as demais comunidades eclesiais “não são Igrejas em sentido próprio” (n. 17).

A Declaração criou impasse aos eventos programados para aprofundar o diálogo inter-religioso, como o encontro internacional “Oceanos de Paz: Religiões e Culturas em Diálogo”, em Portugal, promovido pela Comunidade de Santo Egídio e acolhido pelo Patriarcado de Lisboa, com a colaboração da Fundação Mário Soares.

Como manter o diálogo se, em princípio, os católicos nada têm a aprender de outras religiões? Para que ecumenismo, se não há salvação fora da Igreja governada pelo papa?

Os acidentes de percurso no diálogo ecuménico e inter-religioso têm sempre mais eco do que êxitos. Mas a intervenção do cardeal Ratzinger causou tamanho mal-estar que, passadas duas semanas, João Paulo II sentiu-se obrigado a amenizar o tom da “Dominus Iesus”. Ao receber, a 18 de setembro, a Comissão Mista Internacional para o diálogo entre a Igreja católica e a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas, o papa distanciou-se das posições de seu colaborador e destacou, “com veemência, que o empenho da Igreja Católica no diálogo ecumênico é irreversível”.

Ao mesmo tempo, monsenhor Michael Fitzgerald, secretário do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, subestimou o alcance do documento de Ratzinger e anunciou, para breve, com o patrocínio da Santa Sé, um colóquio com o hinduísmo, em Bombaim; um encontro com os muçulmanos do Irã; e um seminário com budistas.

Tem razão o teólogo Hans Kung quando afirma que “a vida humana em sociedade é impossível sem um ‘ethos’ mundial de todas as nações; é impossível haver paz entre as nações sem paz entre as religiões; é impossível haver paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões.” (Projecto para Uma Ética Mundial).

Um papa não pode negar suas próprias atitudes. Em outubro de 1986, João Paulo II promoveu, em Assis, a célebre Jornada Mundial de Oração pela Paz, que reuniu representantes de dezenas de religiões. Ali, todos unidos como irmãos louvaram o único e verdadeiro Deus e assumiram o compromisso de manter vivo o diálogo ecumênico.

O modelo cristão de ecumenismo é o próprio Jesus. Os evangelhos narram como ele curou a mulher cananéia e o servo do centurião romano, sem exigir que, primeiro, renegassem suas convicções; freqüentou a sinagoga e o Templo de Jerusalém; proclamou que “nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão no dia do Juízo Final: ‘Senhor, não foi em teu nome que profetizamos e em teu nome expulsamos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres?’ Eu lhes retrucarei: ‘Nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mateus 7, 21-23). Para Jesus, é critério de salvação ser capaz de reconhecê-lo na face dos oprimidos: “Tive fome e vocês me deram de comer; tive sede e me deram de beber; era estrangeiro e me receberam em sua casa; estava sem roupa e me vestiram; estava doente e cuidaram de mim; estava preso e me visitaram” (Mateus 25, 35-36).

Nesse sentido, a CNBB é testemunha exemplar da exigência evangélica ao unir-se aos movimentos sociais ­ os “homens de boa vontade”, de que falava o papa João XXIII ­ para socorrer os pobres, através de suas pastorais, como a da criança, que vem reduzindo significativamente a mortalidade infantil no país; e para denunciar as causas da pobreza, ao propor o plebiscito da dívida e(x)terna, que atraiu 5 milhões de votantes.

Bem dizia dom Helder Camara, “quando falo dos pobres, todos me chamam de cristão; quando denuncio as causas da pobreza, acusam-me de comunista”. É o preço a ser pago pelos profetas.


APÊNDICE III

ANTE LA DECLARACIÓN VATICANA “DOMINUS IESUS”

Nota promovida por la Asociación de Teólogos Juan XXIII

La Declaración Dominus Iesus, firmada por el prefecto de la Sagrada Congregación para la Doctrina de la Fe, ratificada y confirmada por el Papa Juan Pablo II el 6 de agosto de 2000 y hecha pública el 5 de septiembre, está siendo comentada ampliamente en los Medios de Comunicación Social de todo el mundo. Por sus repercusiones negativas en el campo del ecumenismo y del diálogo interreligioso, y porque afecta directamente a la reflexión teológica de las Iglesias, los teólogos y teólogas abajo firmantes queremos expresar algunas observaciones críticas en estos momentos de desconcierto, tanto en ambientes católicos como en quienes vienen trabajando por un diálogo constructivo en otras Iglesias y en las grandes religiones universales.

Queremos subrayar, en primer lugar, la inoportunidad de su publicación. Mientras que la carta papal Tertio Millenio Adveniente expresaba el deseo de entrar en el nuevo milenio alcanzada la plena comunión entre los cristianos (n. 34), la presente Declaración abre una brecha entre las Iglesias cristianas que durará tiempo en cerrarse.

Dominus Iesus nos parece inoportuna porque, en el año del perdón y de la reconciliación, ha sacado a la luz viejos contenciosos que creíamos ya superados. ¿Cómo puede seguir hablándose hoy de “la Iglesia verdadera” frente a las “iglesias particulares” (Ortodoxas), y las “Comunidades eclesiales” (Protestantes y Anglicanas) “que no son Iglesia en sentido propio” (n. 17). ¿Cómo puede decirse que los no cristianos se encuentran “en situación gravemente deficitaria” (n. 22) en relación con la salvación?

Resulta inoportuna también en la descripción negativa que hace de la sociedad y de la cultura de Occidente. Ante un horizonte tan sombrío como el que -según Dominus Iesus- acecha a la Iglesia católica, ésta se cree en el deber de adoptar posturas beligerantes contra “teorías de tipo relativista que tratan de justificar el pluralismo religioso, no sólo de facto sino también de iure (o de principio)” (n. 4) y “cuyas raíces… hay que buscarlas en algunos presupuestos, ya sean de naturaleza filosófica o teológica, que obstaculizan la inteligencia y la acogida de la verdad revelada” (n. 4). Con esta actitud se está cuestionando, cuando no negando, el pluralismo, que es uno de los valores fundamentales de la cultura actual.

El estilo de la Declaración está más próximo al Syllabus de Pío IX que a los documentos del Vaticano II, o a los textos de Juan XXIII, Pablo VI y Juan-Pablo II.

El texto de la Congregación vaticana muestra una clara insensibilidad ante algunos de los logros alcanzados a lo largo de varias décadas de actividad ecuménica, tanto en el terreno doctrinal -recuérdese la Declaración Conjunta Luterano-Católica sobre la doctrina de la Justificación de la Fe- como en el pastoral. Conviene recordar que las Iglesias no sólo hablan a través de la doctrina. Su mensaje llega también por medio de signos elocuentes y de gestos proféticos, como los siguientes: la entrega por al papa Pablo VI de su anillo pastoral al Arzobispo de Canterbury; el abrazo del mismo Papa al patriarca Atenágoras en Jerusalén; la plegaria convocada por el papa Juan-Pablo II en Asís junto a los líderes religiosos del mundo; la visita del mismo papa, por primera vez, a la sinagoga de Roma y su proclamación solemne ante los rabinos allí congregados de que “los judíos son nuestros hermanos mayores”; la oración de Juan-Pablo II en el muro de las Lamentaciones; la reciente petición de perdón por los pecados cometidos por la Iglesia católica; la apertura de la Puerta del Año Jubilar por el papa, acompañado del primado de la Comunión Anglicana y de un representante del patriarcado de Constantinopla.

Tres son los aspectos de la Declaración que nos parecen especialmente preocupantes: su concepción del diálogo; la expresión “subsiste en” y el concepto de “salvación”.

El horizonte de fondo de Dominus Iesus es el diálogo ecuménico e interreligioso, cada uno en su propio estatuto. Sin embargo, su concepción del diálogo resulta claramente reduccionista. Lo considera, es verdad, “parte de la misión evangelizadora” de la Iglesia católica. Pero cuando afirma que “la paridad, que es presupuesto del diálogo, se refiere a la igualdad de la dignidad personal de las partes, no a los contenidos doctrinales” (n. 22), no dice toda la verdad sobre el diálogo. El decreto del Vaticano sobre ecumenismo considera necesaria la paridad dialogal, “de igual a igual”, de donde puede surgir un mayor esclarecimiento, no sólo de las doctrinas de los otros, sino “incluso de la verdadera naturaleza de la Iglesia” (n. 9). El diálogo implica siempre “enriquecimiento mutuo”.

La Declaración ignora afirmaciones fundamentales de la encíclica Ut Unum Sint (ns. 28-39) sobre el diálogo ecuménico y sus estructuras locales, el diálogo como examen de conciencia y como método para dirimir las divergencias. En esta encíclica se afirma que “el diálogo ecuménico, que anima a las partes implicadas a interrogarse, comprenderse y explicarse recíprocamente, permite descubrimientos inesperados” (n. 38). La rigidez de la Dominus Iesus contrasta con el talante esperanzado y de apertura de otros documentos como Ecclesiam suam de Pablo VI y la eníclica antes citada de Juan Pablo II.

Buena parte del malestar producido por la presente Declaración en ambientes cristianos se refiere a una fórmula que, en su momento, despertó esperanzas ecuménicas: “La Iglesia de Cristo subsiste en la Iglesia católica romana”, que sustituía a la fórmula “La Iglesia de Cristo es la Iglesia católica”. Dicha sustitución, llevada a cabo por el Concilio Vaticano II, era más que un mero cambio de vocabulario. Con la nueva formulación, el concilio pretendía evitar la identificación exclusiva y excluyente de la “Iglesia de Cristo” con la “Iglesia católica”. El que la Iglesia de Cristo subsista en la Iglesia católica no excluye que subsista también en otras comunidades cristianas. Si se obvió la identificación total entre Iglesia de Cristo e Iglesia católica romana fue para reconocer la eclesialidad de las otras comunidades cristianas. Pues bien, el reduccionismo que en este punto se observa en la Dominus Iesus nos parece preocupante.

La categoría de salvación, implicada directamente en el diálogo interreligioso, es tratada en la Declaración de manera exclusivista. Por ello ha irritado, creemos que con razón, a no pocas personas creyentes de las grandes tradiciones religiosas de la Humanidad. Según el texto, la idea de que “la Iglesia peregrinante es necesaria para la salvación… no se contrapone a la voluntad salvadora universal de Dios” (n. 20). Sin embargo, a la hora de aclarar la referida compatibilidad se recurre a expresiones confusas y crípticas como “la misteriosa relación” con la Iglesia católica de quienes no son formal y visiblemente miembros de ella” (n. 20).

Algunas expresiones de la Declaración nos parecen, cuando menos, discutibles desde el punto de vista doctrinal y ciertamente ofensivas para las personas creyentes de otras religiones. Así, por ejemplo, cuando afirma que “a las oraciones y ritos (no cristianos)… no se les puede atribuir un origen divino ni una eficacia salvífica ex opere operato, que es propia de los sacramentos cristianos…” (n. 21).


quarta-feira, setembro 20th, 2000 at 12:00pm

Dominus Iesus II: um só Cristo, uma só Igreja

 Por Orlando Fedeli, Montfort.org.br

A Congregação para a Doutrina da Fé acaba de publicar uma Declaração que vem provocando grande celeuma. Trata-se de um Documento corrigindo posições e condenando erros muito difundidos em nossos tempos acerca da verdade e da unicidade da Igreja de Cristo, de sua identificação com a Igreja Católica e do ecumenismo.

A Declaração Dominus Iesus foi aprovada pelo Papa “Com ciência certa e com a sua autoridade apostólica ratificou e confirmou”, no dia 16 de junho – 10 dias apenas antes da divulgação do Terceiro Segredo de Fátima – e publicada somente no dia 6 de agosto, festa da Transfiguração do Senhor.

A data de publicação parece ter sido escolhida especificamente para significar uma Transfiguração da Igreja, pois que Ela parece ter voltado a brilhar, com a luz de outrora, como única religião verdadeira e única esposa de Cristo.

A Declaração Dominus Iesus foi definida como documento do Magistério Ordinário do Papa, mas, como proclama verdades de fé já reconhecidas, e agora foram definidas, estas verdades de Fé são infalíveis, exigindo-se o assentimento interno e externo de todos os católicos, Bispos, sacerdotes ou leigos. (Cf. Intervenção de Monsenhor Tarcísio Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé).

É por essa razão que nos apressamos a proclamar nossa adesão – com alegria e entusiasmo — a essas verdades de Fé reafirmadas e definidas, graças a Deus, pelo Magistério Apostólico. E fazemos questão de manifestar nossa adesão alegre e entusiasta porque queremos ser absolutamente fiéis ao Papa e à Igreja, particularmente nesta hora em que até mesmo Bispos se dizem revoltados contra o magistério pontifício.

No Brasil, Dom Ivo Lorscheider ousou assinar um pronunciamento conjuntamente com luteranos contra a Declaração Dominus Iesus:

“A Declaração “Dominus Iesus”, levada a público neste mês de setembro de 2000 pela Congregação para a Doutrina da Fé da Cúria Romana, surpreendeu a cristandade. Periga fechar portas que haviam sido abertas por esforço ecumênico na décadas passadas. Provocou de imediato reações de forte irritação, acarretando a ameaça de redundar em novas polarizações religiosas e de reacender antigas rivalidades.” (Pronunciamento do Seminário Bilateral Nacional Católico-Romano/Evangélico-Luterano, reunido em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, em 7 e 8 de setembro de 2000 Referente à declaração “Dominus Iesus” da Congregação para a Doutrina da Fé da Igreja Católica Romana).

É lamentável que um membro do Episcopado Católico se atreva a advertir Roma, juntando sua assinatura a de luteranos.

As verdades de Fé definidas infalivelmente pela Declaração Dominus Iesus e os erros contrários a elas são:

1ª “Deve, de fato, crer-se firmemente na afirmação de que no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus Encarnado, que é “o caminho, a verdade e a vida”(Jo. XIV,6), dá-se a revelação da plenitude da verdade divina” (Dominus Iesus, n. 5).

Em conseqüência, a Dominus Iesus declara:

“É por conseguinte, contrária à fé da Igreja a tese que defende o caráter limitado, incompleto e imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar da que é presente nas outras religiões. A razão de fundo de uma tal afirmação basear-se-ia no fato de a verdade sobre Deus não poder ser compreendida nem expressa na sua globalidade e inteireza por nenhuma religião e, portanto, nem pelo cristianismo e nem sequer por Jesus Cristo”.

“Semelhante posição está em contradição com as precedentes afirmações de fé, segundo as quais, temos em Jesus Cristo a revelação plena e completa do mistério salvífico de Deus” (Dominus Iesus, n.6).

2ª ” Deve, portanto, manter-se firmemente a distinção entre a fé teologal e a crença nas outras religiões” (Dominus Iesus, n. 7).

3ª “Deve, de fato, crer-se firmemente na doutrina de fé que proclama que Jesus de Nazaré, Filho de Maria, e só Ele, é o Filho e o Verbo do Pai” (Dominus Iesus, n.10).

Contrários a esta verdade de fé são os seguintes erros:

“O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas. Mais concretamente, seria para alguns um dos tantos vultos que o Logos teria assumido no decorrer dos tempos para comunicar em termos de salvação com a humanidade.”

“Além disso, para justificar, de um lado a universalidade da salvação cristã e, do outro, o fato do pluralismo religioso, há quem proponha uma economia do Verbo eterno, válida também fora da Igreja e sem relação com ela, e uma economia do Verbo Encarnado. A primeira teria um plus valor de universalidade em relação à segunda, que seria limitada aos cristãos, se bem que com uma presença de Deus mais plena.”

“Semelhantes teses estão em profundo contraste com a fé cristã” (Dominus Iesus , n. 9 e 10).

“A esse respeito, João Paulo II declarou explicitamente: “É contrário à fé cristã introduzir qualquer separação entre o Verbo e Jesus Cristo” (Dominus Iesus, n. 10).

4ª “Do mesmo modo, deve crer-se firmemente na doutrina de fé sobre a unicidade da economia salvífica querida por Deus Uno e Trino, em cuja fonte e em cujo centro se encontra o mistério da encarnação do Verbo, mediador da graça divina no plano da criação e da redenção (Cfr. Col. I, 15-20), “recapitulador de todas as coisas” (I Cor. 1, 30). (Dominus Iesus, n. 11).

Por essa razão são condenados os seguintes erros:

“Portanto, não é compatível com a doutrina da Igreja a teoria que atribui uma atividade salvífica ao Logos como tal na sua divindade, que se realizasse “à margem” e “para além” da humanidade de Cristo, também depois da encarnação” (Dominus Iesus, n. 10).

“Há ainda quem sustente a hipótese de uma economia do Espírito Santo com um caráter mais universal que a do Verbo Encarnado, crucificado e ressuscitado. Também esta afirmação é contrária à fé católica, que, ao contrário considera a encarnação salvífica do Verbo um acontecimento trinitário.” (Dominus Iesus, n. 12).

5ª “Deve, invés, crer-se firmemente, como dado perene da fé da Igreja, a verdade de Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor e único salvador, que, no seu evento de encarnação, morte e ressurreição realizou a história da salvação, a qual tem n’Ele a sua plenitude e o seu centro” (Dominus Iesus, n. 13).

6ª “Deve, portanto, crer-se firmemente como verdade de fé católica que a vontade salvífica universal de Deus Uno e Trino é oferecida e realizada de uma vez para sempre no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus”. (Dominus Iesus, n. 14).

7ª “Assim, e em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve crer-se firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada”. (Dominus Iesus n. 16).

“Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua Esposa: “uma só Igreja católica e apostólica”. Por outro lado, as promessas do Senhor de nunca abandonar a sua Igreja (Cfr. Mt. XVI, 18; XXVIII, 20 ss) e de guiá-la com o seu Espírito (cfr. Jo. XVI,13) comportam que, segundo a Fe católica, a unicidade e unidade, bem como o que concerne a integridade da Igreja, jamais virão a faltar” (Dominus Iesus, n. 16)

8ª “Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na sucessão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: “Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois de sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cfr. Jo. 21, 17), encarregando-o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cfr. Mt. XXVIII, 18 ss.); levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (cfr. Tim, III, 15). (Dominus Iesus, 16).

Daí a condenação do seguinte erro:

“Os fiéis não podem, por conseguinte, imaginar a Igreja de Cristo como se fosse a soma – diferenciada e, de certo modo, também unitária – das Igrejas e Comunidades eclesiais, nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje já não existe em parte alguma, tornando-se assim, um mero objeto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades” (Dominus Iesus , n.17).

9ª “Antes de mais, deve crer-se firmemente que a “Igreja, peregrina na terra, é necessária para a salvação” (Dominus Iesus, n. 20).

“Só Cristo é mediador e caminho de salvação; ora, Ele torna-se-nos presente no seu Corpo que é a Igreja; e, no inculcar por palavras explícitas a necessidade da fé e do Batismo (Cfr. Mc. XVI,16; Jo. III, 15), corroborou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo Batismo tal como por uma porta” (Dominus Iesus, n. 20).

10ª “Com a vinda de Jesus Cristo Salvador, Deus quis que a Igreja por Ele fundada fosse o instrumento de salvação para toda a humanidade (Cfr. Act XVII, 30-31).

Após definir esta décima verdade de fé, a Declaração prossegue com a condenação de mais um erro contrário a ela: o de que tanto faz escolher uma religião quanto outra. todas se eqüivaleriam.

“Esta verdade de fé nada tira ao fato de a Igreja nutrir pelas religiões do mundo um sincero respeito, mas, ao mesmo tempo, exclui de forma radical a mentalidade indiferentista “imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que “tanto vale uma religião como outra” (Dominus Iesus,n.22. O itálico e o negrito são nossos).

Evidentemente, há um ziguezagueio – para não dizer incoerência e até contradição — entre a parte citada em itálico e a parte citada em negrito. Condena-se o erro, e de modo radical, porém querendo manter o tom diplomaticamente ecumênico pelas falsas religiões. o que é lamentável.

Como pode se dizer que a igreja tem “sincero respeito” pelas religiões do mundo, se “exclui deforma radical mentalidade indiferentista” etc ?

O respeito pode ser pelas pessoas que se deseja converter à verdadeira e única Igreja de Cristo, a Igreja Católica Apostólica Romana, nunca pela falsas religiões que, não podendo salvar, perdem as almas. O médico respeita o doente, mas nunca pode afirmar que tem “um sincero respeito” pelo câncer que as afeta. E é, aliás, o que a própria Declaração afirma, graças a Deus, com as seguintes palavras:

“A paridade, que é um pressuposto do diálogo, refere-se à igual dignidade pessoal das partes, não aos conteúdos doutrinais e muito menos a Jesus Cristo – que é o próprio Deus feito Homem –em relação com os fundadores das outras religiões”(Dominus Iesus, n. 22).

Em todo caso, o que está definido é que não se pode afirmar “que tanto vale uma religião como outra”, e que não se pode colocar no mesmo nível Jesus Cristo com os fundadores de religiões falsas.

Vemos por essas condenações dos erros que grassam entre os católicos desde o Vaticano II — erros causados pela ambigüidade de seus textos – que a causa fundamental de tanta confusão doutrinária é o relativismo e o subjetivismo face à verdade (Cfr. Dominus Iesus n. 4).

Na raiz dos erros que motivaram a Declaração Dominus Iesus, “encontram-se certos pressupostos de natureza tanto filosófica como teológica, que dificultam a compreensão e a aceitação da verdade revelada. Podem indicar-se alguns: a convicção de não se poder alcançar nem exprimir a verdade divina, nem mesmo através da revelação cristã; uma atitude relativista perante a verdade, segundo a qual, o que é verdadeiro para alguns não o é para outros; a contraposição radical que se põe entre a mentalidade lógica ocidental e a mentalidade simbólica oriental; o subjetivismo de quem considera a razão como única fonte de conhecimento, se sente “incapaz de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser”; a dificuldade de ver e aceitar na história a presença de acontecimentos definitivos e escatológicos; o vazio metafísico do evento da encarnação histórica do Logos eterno reduzido a um simples aparecer de Deus na história; o ecletismo de quem, na investigação teológica, toma idéias provenientes de diferentes contextos filosóficos e religiosos, sem se importar da sua coerência e conexão sistemática, nem da sua compatibilidade com a verdade cristã; a tendência, enfim, a ler e interpretar a Sagrada Escritura à margem da Tradição e do Magistério da Igreja” (Dominus Iesus , n. 4).

As verdades de fé definidas por este último documento do Magistério da Igreja tem provocado – lamentavelmente – um verdadeiro terremoto, que ameaça separar parte do Episcopado da própria Igreja.

Ainda agora o ex Frei Leonardo Boff lançou um virulento ataque à Dominus Iesus, vendo nela a condenação do ecumenismo, assim como de toda a mentalidade modernista e herética que sempre o caracterizou. Do mesmo modo, teólogos da libertação lançaram outro manifesto repudiando a Dominus Iesus. Mostram-se, pois, contrariados todos aqueles que seguiam uma linha ecumênica que diluía a verdade de Fé de que existe uma só Igreja de Cristo, e que esta é a Igreja Católica Apostólica Romana. Mostram-se revoltados os que tinham um conceito modernista de Igreja, considerando que ela era formada por uma misteriosa união de todas as religiões.

Mas, os que sempre permaneceram fiéis à Igreja, estes se mostram jubilosos pelo fato de que estas verdades, depois de um longo e infeliz eclipse, tenham voltado a iluminar os homens. É com isto que nos congratulamos de todo o coração e do fundo de nossa alma, reafirmando nossa total e completa adesão às verdades de fé ora proclamadas de novo pela Santa Sé – verdades que sempre foram ensinadas pela Igreja – agradecendo a Deus esta graça concedida à Santa Igreja por meio do Imaculado Coração de Maria.

São Paulo, 20 de setembro de 2000
Orlando Fedeli
Presidente da Associação Cultural Montfort.

quarta-feira, abril 7th, 1999 at 12:00pm

As curtas memórias do Cardeal Joseph Ratzinger

Por Orlando Fedeli, Montfort.org.br

Dos membros da Cúria Romana durante o atual pontificado, poucos obtiveram destaque como o Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício.

O Cardeal alemão tem despertado ódio e admiração nos grupos das mais diversas tendências em que hoje, desgraçadamente, se divide a Igreja.

Será natural, portanto, que seu nome venha a assumir importância no contexto do próximo conclave.

É igualmente compreensível que, dado o notório estado de debilidade da saúde de João Paulo II, os eventuais candidados a sucedê-lo sintam-se incentivados a fazer-se notar. E eles efetivamente o têm feito, de modo nem sempre muito discreto. Basta ler as revistas especializadas…

Esse parece ser o quadro em que se insere a publicação, em 1997, das memórias do Cardeal Ratzinger, intituladas La mia vita: Ricordi (1927-1977), do qual obtivemos a tradução para a língua inglesa (Milestones – Memoirs 1927-1977, Ignatius Press, San Francisco, 1998).

Manuseando o livro, o leitor se surpreende com sua pequena dimensão: apenas cento e cinqüenta e seis páginas, das quais trinta e seis contém apenas fotografias, mostrando-nos um sempre sorridente Ratzinger, nas mais diversas situações, fazendo-nos associar sua imagem com a de um político em campanha eleitoral.

É pouco, sem dúvida, para alguém que deve ter tanto a nos contar.

Decepciona, também, a limitação do tempo coberto pela obra. Ratzinger detém suas memórias abruptamente no ano de 1977, excluindo delas, portanto, todo o pontificado de João Paulo II, justamente a época em que a atuação do cardeal alemão teve maior importância.

Mas não é apenas o pontificado de João Paulo II o excluído. O próprio Papa somente aparece nas fotografias. Não é espantoso que o atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não cite em suas memórias o nome de João Paulo II, ou mesmo Karol Woytilla, sequer uma vez?

Mesmo naquilo que conta, Ratziger se mostra surpreendentemente seletivo.

Faz-nos saber, por exemplo, que um passarinho cantou quando estava sendo ordenado, e o quanto seus pais ficaram orgulhosos ao vê-lo receber o título de doutor em teologia.

Mas é misterioso em relação ao ocorrido no Concílio Vaticano II, do qual participou como perito:

“Eu não posso e não quero entrar aqui num retrato detalhado daqueles anos muito especiais (…), não posso narrar os muitos encontros que me foram proporcionados – com grandes homens como Henri de Lubac, Jean Daniélou e Gérard Philips – para citar apenas alguns nomes proeminentes – não posso relatar os encontros com bispos de todos os continentes ou as conversas pessoais com alguns deles. Nem deve o drama teológico e eclesial daqueles anos pertencer a estas memórias” (op.cit., pág. 121).

Os nomes citados por Ratzinger no texto acima – de teólogos notoriamente “progressistas” – já são suficientes para perceber que o cardeal procura desvencilhar-se da imagem de conservador radical.

Essa é efetivamente uma das grandes preocupações demonstradas na obra. Para isso, Ratzinger alonga-se na descrição das idéias bastante heterodoxas de seus professores de seminário, no relato de suas próprias teses teológicas e em elogios a figuras como De Lubac, Rahner e Kung.

Vejamos a opinião de Ratzinger sobre a Igreja pré-conciliar:

“Quando eu olho para trás, para aqueles excitantes anos de meus estudos teológicos, eu somente posso me surpreender com tudo o que é hoje afirmado em relação à Igreja ‘pré-conciliar’. Todos nós vivíamos com uma sensação da mudança radical que já tinha tido início nos anos 20, uma noção de uma teologia que teve a coragem de propor novas questões e uma espiritualidade que estava jogando fora tudo o que estava empoeirado e obsoleto, conduzindo a uma nova alegria na redenção” (op.cit., pág. 57).

Apesar disso, Ratzinger não corre o risco de desagradar os conservadores, cujos ânimos são acalmados pela leitura de suas críticas ao modo como foi levada a cabo a reforma litúrgica e ao clima que preponderava durante o concílio Vaticano II.

São palavras surpreendentes na pena do Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, perito do Vaticano II.

Durante o concílio, diz ele, “crescia cada vez mais a impressão de que nada era agora estável na Igreja, que tudo estava aberto a revisão. Mais e mais o Concílio parecia ser como um grande parlamento da Igreja, que podia mudar tudo e reconstruir tudo de acordo com seus próprios desejos” (pág. 132).

Mais adiante, continua o Cardeal:

Antes, “era o Credo que fornecia o padrão para a teologia. Agora, na Igreja Católica, tudo isso – ao menos na consciência popular – estava submetido a revisão, e até mesmo o Credo não parecia mais intocável, mas antes submetido ao controle dos teólogos. Por trás dessa tendência de domínio dos especialistas podia-se já detectar algo mais: a idéia de uma soberania eclesial do povo, na qual o próprio povo determina o que quer que seja entendido por Igreja, pois ‘Igreja’ já parecia muito claramente definida como ‘Povo de Deus’” (op.cit., pág. 134).

 Nem parecem palavras de um membro da Hierarquia que se tem mostrado tão cioso em impor a aceitação do Concílio Vaticano II a todos os fiéis.

Ainda mais surpreendente é a avaliação do Cardeal acerca da reforma litúrgica:

“Decepcionou-me a quase total proibição do missal antigo, pois nada parecido tinha-se verificado durante toda a história da liturgia. Dava-se a impressão de que o que estava acontecendo era normal: o missal antigo teria sido criado por Pio V em 1570 em conexão com o Concílio de Trento; portanto seria normal que, após quatrocentos anos e um novo concílio, um novo papa nos presenteasse com um novo missal. Entretanto, a verdade histórica sobre o assunto é diferente. Pio V havia apenas ordenado uma reelaboração do Missale Romanum então utilizado, o que é a prática normal em vista do desenvolvimento da história através do curso dos séculos. Muitos de seus sucessores, da mesma forma, reelaboraram o missal novamente, mas jamais contrapondo um missal contra outro. Era um processo contínuo de aperfeiçoamento e purificação no qual a continuidade jamais foi destruída. Não existe um ‘Missal de Pio V’, criado pelo próprio Pio V. Há apenas a revisão feita por Pio V como uma fase numa longa história de crescimento (…) Nesse caso (de S. Pio V) não podemos falar de uma proibição de um missal prévio que antes havia sido formalmente aprovado como válido. A proibição do missal que agora estava sendo decretada, um missal que conheceu contínuo aperfeiçoamento durante os séculos, tendo início com os sacramentários da Igreja antiga, introduziu uma ruptura na história da liturgia cujas conseqüências somente podiam ser trágicas. Seria razoável, e direito do Concílio, determinar uma revisão do missal tal como tinha ocorrido antes, e desta vez deveria ser mais aprofundada do que antes, especialmente em razão da introdução do vernáculo. Mas muito mais do que isso aconteceu: o velho edifício foi demolido e outro foi construído, certamente com largo uso de materiais do anterior e mesmo usando os velhos desenhos da construção. Não há dúvida de que esse novo missal em muitos aspectos trouxe uma real melhora e enriquecimento; mas colocá-lo como uma construção nova contra o que crescera historicamente, proibindo os resultados desse crescimento histórico, fez a liturgia parecer não mais um desenvolvimento vivo mas o produto de um trabalho erudito e da autoridade jurídica; isso nos causou enorme dano. (…) Uma renovação da consciência litúrgica, uma reconciliação litúrgica que reconheça novamente a unidade da história da liturgia e que entenda o Vaticano II não como uma ruptura, mas como um estágio de desenvolvimento: essas coisas são urgentemente necessárias para a vida da Igreja. Estou convencido de que a crise que na Igreja que experimentamos hoje é em larga medida devida à desintegração da liturgia (…)\” (op.cit., págs. 146/149, negritos nossos).

Perdoe-nos o leitor a longa citação. Mas não poderíamos privá-lo de tão surpreendente posicionamento adotado pelo Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé.

Qual poderá ser o resultado dessa tentativa de agradar tanto os conservadores como os progressistas?

Estes últimos, ao que parece, manifestaram-se recentemente através do idoso Cardeal Konig, ex-arcebispo de Viena, que publicou cáusticas críticas ao trabalho de Ratzinger à frente da Congregação da Doutrina da Fé. Críticas que, sem dúvida, contribuíram para melhorar a imagem do Cardeal entre os conservadores.

Superficial em relação ao passado, Ratzinger é enigmático quanto a suas previsões para o futuro.

Termina a obra mencionando S. Corbino, que segundo uma lenda foi ajudado por um urso a transportar suas coisas para Roma, e ali dispensou o animal.

Como o urso da lenda, diz Ratzinger,

eu levei minha carga para Roma e já estou percorrendo as ruas da Cidade Eterna por um longo tempo. Não sei quando serei dispensado, mas de uma coisa eu sei: que a exclamação (do salmo 72) se aplica também a mim: “Eu me tornei diante de ti como um jumento, e nesse caminho eu estou contigo” (op.cit., p. 156).

Caberá aos próximos conclavistas dispensar ou não o Cardeal…