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A Profecia do Padre Pio a Dom Lefebvre
PERGUNTA
Enviada em:
11/07/2026

 Salve Maria!
 
Amigos, sou um jovem católico que conheceu a Tradição a pouco tempo. 
Tenho muitas dúvidas em relação a doutrinas e etc, mas no momento, quero falar de outra coisa. 
Recentemente vi uma página "passapanista" narrando o encontro de Dom Lefebvre com São Padre Pio. Com base em UMA FONTE TARDIA, eles apontaram as falas que supostamente teriam sido proferidas no encontro:
 
"Nunca semeiem discórdia entre os irmãos; pratiquem sempre a obediência, especialmente quando os erros das autoridades lhes parecerem maiores. Não há outro caminho senão a obediência para nós, que fazemos este voto."
 
E depois de supostamente Dom Lefebvre ter dito que não o faria: 
 
"Não, você se esquecerá e destruirá a comunhão dos fiéis! Opor-se-á à vontade de seus superiores e às próprias diretrizes do Papa. Terá esquecido a promessa feita aqui hoje, e a Igreja sofrerá muito!"
 
Será que algum de vocês poderia me explicar melhor sobre esse ocorrido?
RESPOSTA
 

Muito Prezado Rafael, salve Maria!

Em primeiro lugar, nunca ouvi falar nessa suposta profecia do Padre Pio e duvido muito que seja verdadeira.

Veja, os grandes moralistas tomistas, quando falam sobre a virtude da obediência, sempre se preocupam em ensinar que a obediência nunca é um ato de alienação moral, isto é, a verdadeira obediência nunca é uma renúncia cega da razão.

A frase "pratiquem sempre a obediência, especialmente quando os erros das autoridades lhes parecerem maiores" sugere uma forma de obediência passiva ou mecânica, servil. A obediência é uma virtude eminentemente ativa e um ato da vontade racional.

O obediente não suspende sua inteligência. Ele participa ativamente do processo ao compreender a legitimidade da autoridade, julgar que é justo obedecer e decidir, de forma voluntária, conformar sua vontade à ordem recebida. É um ato positivo movido pela razão, e não uma abdicação dela. Como toda virtude visa aperfeiçoar uma potência da alma para "agir bem", a obediência consiste em exercer ativamente a vontade segundo a reta razão. Por isso, ela exige discernimento, prudência, generosidade e responsabilidade moral, distanciando-se do simples conformismo ou servilismo.

Uma Obediência Cega, uma suspensão do juízo moral destruiria o caráter virtuoso da ação. Para que haja virtude, é indispensável um ato humano consciente, livre e em conformidade com a reta razão. Obedecer virtuosamente é um exercício de autoridade sobre si mesmo, onde o sujeito decide racionalmente seguir uma ordem por reconhecê-la como parte da ordem objetiva do bem.

O tom das supostas falas do Padre Pio aproxima-se do que se entende como uma "obediência cega" compreendida como suspensão do juízo moral. Para que o ato de Dom Lefebvre (ou de qualquer católico) fosse virtuoso, ele precisaria ser um "ato humano consciente, livre e conforme à reta razão". Se a obediência forçada implica em destruir a própria consciência ou a verdade da fé, ela deixa de ser uma virtude e passaria a ser um vício.

E qual seria o ato de desobediência de Dom Lefebvre? A recusa aos ensinamentos do Concílio do Vaticano II e às deformas da Missa promovidas pelo Papa Paulo VI?

Aqui você pode verificar alguns estudos e críticas às ambiguidades e erros do Concílio do Vaticano II, e aqui e aqui você pode verificar algumas interessantes críticas à Missa reformada. Portanto, existem motivos suficientemente sólidos para se suspender a obediência a esse Concílio e às reformas litúrgicas advindas dele.

Desobedecer uma lei má, em certo sentido, nem é propriamente um ato de desobediência, pois uma ordem má, não é propriamente uma ordem. A recusa de cumprir uma ordem injusta não constitui o vício da desobediência, porque esse vício consiste em recusar uma ordem legítima e obrigatória. A desobediência, como pecado, supõe que exista um dever de obedecer. Se esse dever não existe, a recusa não é, por si só, desobediência.

Uma ordem (preceito) enquanto ato de autoridade é essencialmente ordenada ao bem comum. O fim bom não é um elemento acidental, mas pertence à própria definição da lei e do preceito. Se a lei perde essa ordenação ao bem comum, ela perde, em sentido pleno, a natureza de lei. Daí o princípio: “Lex iniusta non est lex, sed legis corruptio” (A lei injusta não é lei, mas corrupção da lei).

Uma ordem injusta permanece um ato de comando, mas deixa de ser um verdadeiro preceito enquanto regra moral obrigatória, porque o direito de ordenar pressupõe a ordenação ao bem. Quando essa ordenação desaparece, desaparece também a obrigação de obedecer.

Agora, prezado Rafael, se você se refere às Sagrações de 1988 como ato de desobediência, em uma carta do no site intitulada O Perenialismo Eclesiológico da igreja Econiana (FSSPX), segunda Resposta ao Garoto Fraternoso, eu explico porque a decisão de Dom Lefebvre foi necessária (em contraposição às sagrações atuais da FSSPX).

Esperando tê-lo respondido, peço, caro Rafael, que por caridade reze por nós, e rezemos todos pelo Sumo Pontífice Leão XIV, para que ele tome boas decisões em vista de pelo menos amenizar a grande crise que solapa a Igreja de Cristo.

In báculo cruce et in virga virgine,

Francis Mauro Rocha.