domingo, setembro 25th, 2011 at 7:32pm

Inquisição: a lenda permanece. Parte II: A Igreja frente às heresias

O estudo abaixo, escrito por Ronaldo Mota, foi publicado em duas partes.

Por Ronaldo Mota, Montfort.org.br

A Igreja frente às heresias

 

“La découverte des hérétiques, souvent fortuite, jette le désaroi chez les fidèles, clercs et laïcs. Les premiers instruisent, persuadent ou condamnent. Les autres, troublés dans leur quiétude religieuse, réagissent avec viguer.” (H. Maisonneuve. op. cit. p. 22).

 

H. Maisonneuve, ao analisar a repressão da heresia, define bem quais foram as diferentes maneiras de reação de cada um dos setores dessa sociedade. Tanto o povo quantos as autoridades laicas reagiram com vigor. Aliás, como sabemos, esse vigor exigia muitas vezes a pena de morte. A Igreja também reagia, porém, procurava antes instruir, persuadir e só depois, caso isso não surtisse efeito, aplicar penas espirituais, como a excomunhão, por exemplo. As penas materiais, aplicadas pelo Estado, apenas foram exigidas pela Igreja quando o perigo das heresias chegar a um nível intolerável. E mesmo assim, ao contrário da Justiça civil, se fará grande insistência na necessidade de misericórdia para com os arrependidos.     

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domingo, setembro 18th, 2011 at 10:30pm

Inquisição: a lenda permanece

O estudo abaixo, escrito por Ronaldo Mota, foi publicado em duas partes.

Por Ronaldo Mota, Montfort.org.br

 

“Tomados de feroz anticlericalismo, os enciclopedistas franceses, com Voltaire à frente, converteram a Inquisição na sua principal arma de combate contra a Igreja. Tratava-se, diziam, de instrumento de opressão contra as liberdades individuais, manejado por um clero fanático e corrupto, desejoso de manter o povo na ignorância… As mesmas idéias, as mesmas palavras, idênticos chavões continuaram sendo utilizados, como um cantochão, com infatigável insistência pelas correntes liberais do século XIX e chegaram até os nossos dias.” (João B. G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 101).

 

 

Vê-se continuamente em nossos dias repetir-se a velha lenda da Inquisição. Tal lenda é bem conhecida. Nela apresenta-se um tribunal tenebroso que tortura suas pobres vítimas. Por trás dele encontrar-se-ia uma Igreja opressora das consciências e inimiga da ciência, representada por monges ignorantes, corruptos e sádicos. Como sempre um tribunal pernicioso, impiedoso etc…

Entretanto, a Inquisição é antes de tudo um fato histórico e deve ser tratado como tal. Sendo assim, para não confundirmos a história com a lenda, indicaremos em linhas gerais o que ficou conhecido como a lenda negra da Inquisição, para logo em seguida tratarmos da História.

Podemos encontrar essa literatura tendenciosa já no século XVI, momento de ascensão do protestantismo, e constatarmos seu crescimento com o iluminismo no século XVIII. Contudo, é no século XIX que nos deparamos com os autores que mais contribuíram para a estruturação e perpetuação da lenda negra: Juan Antonio Llorente e Henry Charles Lea.

Juan Antonio Llorente[1] (1756-1823) foi mais um daqueles sacerdotes que trocaram a fé pelos ideais do mundo moderno. Tornando-se liberal, combateu a Igreja Católica calorosamente. Negava o voto perpétuo das comunidades religiosas, defendia o casamento de padres e bispos, defendia ainda – como um bom nacionalista oitocentista – que a Igreja deveria ser dirigida pelo Governo Supremo Nacional, não sendo o clero mais que uma categoria de funcionários públicos sem nenhuma relação como o Papa. Embora fosse espanhol e nacionalista, colaborou com as tropas napoleônicas invasoras e, após sua derrota, retirou-se com elas, estabelecendo-se em Paris a partir de 1814. Apesar de suas idéias liberais havia galgado, em 1789, o posto de Secretário Geral da Inquisição.

“Al abandonarlo, recogió todos los procesos de valor inapreciables de la Inquisición y procedió a quemar aquellos que podían ser favorables a dicha Institución y a apartar aquellos otros que le servirían después para utilizarlos en su Histoire critique de l’Inquisition.” (William T. Walsh. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963, pp. 306-307).

 

Como se vê, Llorente visava antes à luta política que à veracidade histórica. Sabemos ainda que foi nos documentos fornecidos por ele que a Comissão das Cortes de Espanha, em 1812, se baseou para negar a legalidade da fundação da Inquisição.

O fanatismo do padre Llorente na luta contra a Igreja Católica era tamanho, que já sexagenário, escreveu uma obra intitulada Retrato político de los Papas, no qual, além de enumerar uma porção de calúnias, dava crédito à lenda da papisa Joana. Vê-se, pois, como surgem as lendas…

Essas e outras exibições de Llorente foram demais para o governo francês, que o convidou oficialmente a retirar-se do país.

Por isso, Fernando Ayllón tem razão ao afirmar, comentando o êxito da obra de Llorente: “Su éxito publicitario se debió a que sus escritos fueran usados como arma predilecta de los enemigos de España y de la Iglesia Católica por la supuesta seriedad y objetividad del autor, características ambas de las cuales en realidad carecía. Indubitablemente Llorente es el escritor que más ha alimentado la leyenda negra contra el Santo Oficio y su propio país.” (Fernando Ayllón, El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997, p. 18).

Outro autor influente foi o protestante norte-americano Henry Charles Lea, que dedicou grande parte de sua vida à publicação de escritos contra a Igreja Católica[2]. Dentre seus escritos sobre o tema Inquisição, os principais são História da Inquisição Medieval e História da Inquisição Espanhola. Lea também se baseou em Llorente, porém, fez um grande trabalho de pesquisa histórica, chegando a apresentar documentos inéditos. Contudo, seus preconceitos e suas convicções protestantes levaram-no a uma manipulação parcial e negligente da documentação adquirida.

“Les ouvrages de H.-Ch. Lea, traduits par Salomon Reinach, ont été écrits  dans un esprit voltairien, et l’auteur n’a cessé, au long de ses livres, de s’indigner et de déplorer.” (Georges Deromieu. L’Inquisition. Paris, Presses Universitaires De France, 1946, Préface).

 

Ilarino da Milano, em sua erudita obra Eresie Medioevali, comenta que a documentação apresentada por Lea dava a sua obra uma aparência de ciência histórica. Porém: “in realtà il bibliofilo americano fu più controversista che storico; si mantenne protestante avverso alla Chiesa romana nella interpretazione partigiana dei fatti e nel tono generale, nonostante la sua sincera professione di lealtà;” (Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 444).

 

É interessante notar que um escritor protestante, Häbler, é quem nos dá uma clara visão do método de Lea: “La agrupación de la materia va toda encaminada a echar en cara a la Inquisición un registro de crímines lo más voluminoso posible. Puesto que no podían mantenerse en la forma en que se ha hecho hasta el presente todos los reproches de crueldad, ansia de persecución y opresión de la inteligencia han sido reforzados por medio de una inmensa mole de las particularidades más triviales, etc. Todo con el objeto de que la imagine de la Inquisición resultará lo más repugnante posible.” (F. Ayllón. op. cit. p. 25).

 

Conhecendo essa tradição historiográfica anticatólica, conhecemos também a origem da dita leyenda negra. De modo que – precavidos contra seus prejuízos históricos – poderemos tratar aqui de alguns fatos esquecidos, ou melhor, propositalmente negligenciados por ela.

 

Historicamente, a Inquisição não pode ser considerada como a criação de um Papa, ou de uma mente maquiavélica de pretensões despóticas. A história é muito mais complexa do que a lenda pode imaginar. A Inquisição foi, antes de tudo, fruto da reação de uma sociedade contra movimentos degeneradores da ordem, da moral e da cultura então reinantes. A forte reação contra as heresias, que levará ao processo de formação do Tribunal Eclesiástico, ao contrário do que alguns pensam, parte antes do povo e do Estado que da Igreja:

“O impulso para a radicalização da atitude social contra os heréticos partiu de baixo para cima, ou seja, do fanatismo popular que tomava corpo à medida que se cristianizava a sociedade bárbaro-européia. Mesmo no ano de 1045, quando foram descobertos alguns heréticos em Châlons, as autoridades eclesiásticas recorreram aos legisladores, pois ainda não sabiam o que fazer com eles.” (Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 15)

 

Notemos que esse autor, que julga de forma preconceituosa o povo católico medieval, afirma que não foi a Igreja quem iniciou o movimento de radicalização contra os hereges, mas o povo.

 

João Bernardino Gonzaga, ao analisar o contexto social no qual surgiu a Inquisição, afirmou: “No caso da Inquisição, quem a exigiu e impôs, antes da Igreja, foram os governantes e o povo, que viam, nos hereges, rebeldes perigosos e perturbadores. A História mostra que, muitas vezes, os populares se antecipavam às autoridades e se encarregavam de puni-los, levando-os à fogueira.” (João B. G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 114).

Disto decorre que a Inquisição não é – como querem os inimigos da Igreja Católica – uma mera invenção da Igreja, que eles erroneamente julgam tirana, mas um fruto da reação da sociedade contra as heresias. A Igreja foi obrigada, pelo seu dever de julgar questões teológicas, a criar um tribunal que impedisse excessos do povo e abusos do Estado.

É exatamente por isso que trataremos – dentro dos limites de nosso pequeno artigo – de duas das principais heresias que invadiram a sociedade medieval nos séculos XII e XIII, sem o conhecimento das quais não é possível avaliar a reação dessa sociedade nem compreender o que foi a Inquisição.

As Heresias

 

Os Valdenses

 

No século XII varias heresias alarmaram a sociedade cristã. Dentre elas, as mais notáveis, devido à penetração que tiveram na sociedade, foram: o catarismo (cujos sectários são também conhecidos como albigenses, devido ao grande centro cátaro da cidade de Albi) e a heresia valdense.

Os valdenses, ou pobres de Lyon, denominação conferida pelo seu fundador Pierre de Vaux (Pedro Valdo), surgiram organizados em uma fraternidade entre os anos de 1173 e 1178. A princípio, como nota Ilarino[3], eles permaneceram fiéis à Igreja Católica e procuraram distinguir em suas pregações, ao contrário dos cátaros, o magistério sagrado da má conduta de alguns de seus membros. Em 1179, no Terceiro Concílio de Latrão, o Papa Alexandre III (1159-1181) decide que eles poderiam pregar com autorização eclesiástica prévia. Entretanto, os valdenses passaram da crítica aos vícios de alguns clérigos para uma negação da autoridade eclesiástica. Essa atitude levou à sua condenação pelo Papa Lúcio III no Sínodo de Verona em 1184[4]. A partir desse momento, os valdenses assumem seu estado de rebelião contra a Igreja, constituindo dessa forma uma nova igreja com uma estrutura própria:

Cumpriam o tríplice voto da pobreza, da castidade e da obediência aos superiores, isto é, ao próprio Valdo, como a um encarregado de Deus, praepositus et pontifex, e aos bispos presbíteros e diáconos por ele ordenados. As Sagradas Escrituras, que traduziram para as línguas vulgares e que recomendavam calorosamente para leitura, tinham o valor de norma doutrinal absoluta e de código jurídico.” (N. Falbel. op. cit. p. 62).

Os valdenses da Lombardia, relativamente aos do Languedoc, assumiram uma oposição mais agressiva. Segundo eles, os juramentos eram proibidos pelos evangelhos e a pena capital não era permitida ao poder civil. Todo leigo tinha o poder de consagrar o sacramento do altar; não aceitavam as orações pelos mortos; o Purgatório não existia e a Igreja Romana não era a Igreja de Cristo. Evidentemente, essas doutrinas demonstram a forte influência cátara sobre os valdenses, ao mesmo tempo em que tornam claro o grande problema que eles representavam para a ordem social.

 

O Catarismo

 

Problema ainda maior, quer pelas proporções que tomou, quer pelas doutrinas estapafúrdias e fantásticas que propagou, foi o catarismo.

“Ils rejettent l’Église romaine qu’ils appelent, nous dira plus tard Bernard Gui, «Mère des fornications, grande Babylone prostituée, basilique du diable et synagogue de Satan». Ils nient l’incarnation et même l’existence réelle de la Vierge Marie, dont ils font un symbole.” (G. Deromieu. op. cit. p. 2)

 

Este ódio à Igreja e à sua fé, que nos relata Deromieu ao citar Bernard Gui e E. AEgerter, na realidade ultrapassa – no caso dos cátaros – o ódio à Igreja Católica. Representa em última análise um ódio ao mundo e, como tal, combaterá não só a Igreja, mas também toda a ordem existente. Será, portanto, contra essa heresia e outras, defensoras de doutrinas igualmente perniciosas, que a sociedade medieval reagirá.

O catarismo dos países ocidentais provém do bogomilismo búlgaro-constantinopolitano dos séculos XI e XII, que é na verdade um maniqueísmo sob nova denominação.[5] Essa ligação entre catarismo e bogomilismo é tão real e constante que, em 1167, os cátaros organizaram um concílio em St. Félix de Caraman (Toulouse) no qual compareceu o bispo bogomilo Niketas, vindo de Constantinopla, para unificar o dualismo das seitas dos países ocidentais, levando-as do dualismo moderado ao dualismo absoluto da igreja de Dragowitsa (Tracia).[6] Entretanto, tanto o dualismo moderado quanto o absoluto partem de um mesmo princípio.

“Esso prende le mosse dalla constatazione del male, del peccato, delle difettosità esistenti negli individui, nella società, nel creato (cfr. Testi: I, 1). L’uomo ne sente il peso e ne cerca la liberazione.” (I. Milano. op. cit. p. 19 – o negrito é nosso).

 

Para os cátaros o mundo, ou seja, toda a realidade criada era essencialmente má. Segundo eles, o mundo fora criado pelo deus-mal. Esse mesmo deus-mal, que eles chamavam de Satã, haveria encarcerado os anjos do deus-bem na matéria e os induzido ao pecado da carne por meio do qual ele continuaria a encarcerá-los.

Há, portanto, uma contradição total entre a visão de mundo cátara e a doutrina da Igreja Católica.

“O encargo de Cristo foi uma simples missão num mundo satânico, sendo negadas a encarnação, a paixão e a ressurreição. O homem não foi criado à imagem de Deus, mas pelo demônio. Daí o ódio dos cátaros pelo sinal da cruz que se relacionam aos sofrimentos de Cristo e o ligam à matéria impura.” (N. Falbel. op. cit. p. 54).  

 

A salvação para o catarismo era a libertação da alma de seu invólucro satânico, isto é, o corpo material impuro. Devido a essa concepção, os cátaros viam com bons olhos o suicídio.

 

“Além do suicídio por envenenamento ou salto num precipício, ou ainda a pneumonia voluntariamente contraída, era comum procurar-se a morte pela fome ou endura; deixavam de comer até se extinguir.” (N. Falbel. op. cit. p. 58).

 

Os perfeitos, ou seja, aqueles que receberam o consolamentum, dedicavam-se absolutamente, como indicam os historiadores, ao proselitismo: “Eles percorriam as cidades e os campos, pregando com a palavra e como exemplo. A finalidade dos Perfeitos era, por um lado, engrossar as fileiras de seus adeptos e, por outro, arrebatar seguidores da Igreja de Satã, a Igreja Católica. Daí arremeterem com violência contra os sacramentos, as igrejas, a cruz e os cemitérios, contra o culto, as relíquias e, enfim, contra o clero.” (N. Falbel. op. cit. p. 59 – o negrito é nosso).

Não é difícil perceber quais foram os graves problemas trazidos por essa heresia para a sociedade. Por exemplo, os cátaros abominavam o casamento: “O casamento era considerado um estado satânico porque regularizava o crime da carne e tinha como conseqüência natural a procriação. A concubina era mais aceita do que a mulher casada, fato que levou aos cátaros a acusação de terem hábitos promíscuos.” (N. Falbel. op. cit. pp. 55-56 – o negrito é nosso).

Deste modo, o casamento era condenado e a destruição da família favorecida, levando assim à aceitação da união livre e à restrição de nascimentos. Foi uma antecipação da liberdade sexual absoluta.” (N. Falbel. op. cit. p. 56 – o negrito é nosso).

 

Os problemas não param por aí.

Na cerimônia do consolamentum, o sacramento cátaro por antonomásia, o iniciado devia renunciar a prestar juramento[7]. Essa negação de prestar qualquer juramento, como nota N. Falbel,[8] vai diretamente contra a base das relações humanas na cristandade medieval. Fica patente, pois, o enorme perigo que o catarismo representava para a sociedade, visto que o cátaro não podia aceitar o juramento que significaria, em última analise, sua inserção nessa sociedade e a aceitação de uma organização que ele considera má e satânica.

“Le sue comunità fomentarono un clima di rivolta all’autorità ecclesiastica, in cui pullularono altri moti ereticali e reazioni politiche. Ma i catari dotrinalmente sono opposti anque all’organizzazione imperiale e nazionale d’un mondo che essi condonnano come cattivo; considerano le autorità statali, anche in ragione dell’esercizio dello « jus gladii », come rappresentanti del maligno; imperatore e re li perseguitarono como reazionari.(I. Milano. op. cit. p. 19 – o negrito é nosso).

 

A revolta cátara contra o mundo, além de se opor absolutamente à Igreja Católica, a qual afirma que o mundo criado por Deus é bom, tinha necessariamente que se voltar contra toda ordem que imperava nesse mundo, de modo que o Estado tornava-se também um alvo da heresia. Isso levou, como constata Ilarino e qualquer outro historiador sério, ao surgimento de diversos focos de revolta no seio da sociedade medieval.

Estes e outros problemas, causados pela heresia, são alguns dos motivos que nos permitem compreender porque o povo e as autoridades laicas anteciparam-se à Igreja, numa enérgica reação contra o perigo que os afrontava.

A Sociedade frente às heresias

“D’autres « publicains » sont arrêtés à Vézelay en 1167. L’abbé demande à la foule ce qu’il faut en faire. La foule s’écrie : « Qu’ils soient brûlés, qu’ils soient brûlés ». (Henri Maisonneuve. L’Inquisition. Paris, ed. Desclée, 1989, p. 26).

 

Essa atitude do povo contra os hereges não era nada incomum. Veja-se que H. Maisonneuve nos fala de “autres” (outros), pois já havia relatado diversos casos onde o povo e as autoridades laicas reagiam violentamente contra os hereges. Por exemplo, em 1025, um grupo de clérigos de Orléans, defensor de doutrinas heréticas, expõe sua doutrina diante de uma assembléia de bispos, abades e senhores presidida pelo rei Robert. Os hereges aferram-se às suas doutrinas, recusam submeter-se e são excomungados pelo clero. Contudo, o castigo ordenado pelo rei é a pena da fogueira.[9] Os exemplos são diversos. Em 1144, em Liège, alguns hereges aguardam a sentença do Tribunal. Os juízes, esperando a conversão dos hereges acusados, conseguem a custo livrá-los do furor do povo impaciente, que quer queimá-los.[10] Em 1163, uma dezena de hereges provindos de Flandres estabelece-se às portas de Colônia. Como eles não assistem aos ofícios da Igreja, seus vizinhos assustados os denunciam. As autoridades fazem vir o monge Robert, futuro abade de Schönaugen, para discutir com os hereges. A discussão faz-se na presença do clero e de uma parte importante da população. O monge Robert esforça-se para trazê-los novamente à Igreja, mas eles se recusam. As autoridades eclesiásticas os condenam como heréticos e eles são conduzidos aos magistrados de Colônia, os quais os condenam à fogueira.[11] Por volta de 1140, os discípulos de Pierre de Bruys, uma seita iconoclasta, conseguem algum sucesso na região do Midi mediterrâneo. Pedro o Venerável, abade de Cluny, chega a escrever um tratado contra eles, chamando-os de “inimigos da cruz de Cristo”. Esses sucessos, entretanto, não duram por muito tempo, pois o povo, cansando de suas profanações, queima-os nesse mesmo ano.[12] No Saxe, em 1052, o Imperador Henrique III enforca muitos hereges.[13] Em 1120, em Soissons, a multidão impaciente com o Bispo, que demorava em justiçar alguns hereges, arranca-os de suas mãos para levá-los imediatamente à fogueira.[14]

A reação contra a heresia ocorre de forma generalizada na cristandade medieval. Mesmo no Languedoc, que foi sem dúvida a região onde o catarismo encontrou maior aceitação, a população fiel, como verifica Georges Deromieu,[15] exigia uma ação vigorosa contra ela.

“Na Inglaterra, não houve meias medidas: quando um grupo de cátaros lá desembarcou em 1160, foram todos logo presos, marcados a ferro incandescente e expulsos da ilha. Sumariamente afastou-se pois o problema, de tal sorte que, nesse país, inexistiram tribunais de Inquisição durante toda a Idade Média.” (J. B. Gonzaga. op. cit. p. 95).

 

Os casos são numerosos, eles revelam ao mesmo tempo uma vigorosa reação da sociedade e a atitude particular da Igreja diante da erupção de heresias. Um caso emblemático é o do massacre de Colônia em 1145.[16] Nesse ano foram trazidos alguns hereges diante do arcebispo de Colônia e de sua corte clerical e laica. Eles rejeitavam os sacramentos da Eucaristia e da Penitência, rejeitavam a liturgia, a crença no purgatório e todo alimento que provinha de um ato de acasalamento. Eles discorriam sobre sua ação missionária e sobre seus sucessos entre monges e clérigos. Durante três dias, eles discutiram com os católicos. Alguns abjuraram de suas idéias e outros se negaram terminantemente a deixá-las. Estando sob poder das autoridades, as quais ainda não tinham pronunciado a pena, a multidão arrombou a prisão e levou os cátaros para a fogueira.

A atitude da Igreja em todos esses casos foi sempre de tentar converter os hereges. Por mais que os lendólogos neguem-se a ver, foi a conversão dos hereges – e não sua condenação à morte – o verdadeiro objetivo da Igreja. O espírito da Igreja Católica – que a lenda insiste em apresentar como tirana – está expresso nas palavras de São Bernardo de Claraval, referentes ao massacre de Colônia:

O povo de Colônia passou da medida. Se aprovamos seu zelo, não aprovamos, de modo algum, o que fez, pois a fé é obra da persuasão e não podemos impô-la.” (N. Falbel. op. cit. p. 57.)

 

Portanto, tanto o povo quanto o Estado reagiram vigorosamente contra a heresia. De modo que, com o passar do tempo e o agravar do problema, a própria Igreja, fazendo jus ao seu direito e mesmo ao seu dever de julgar em causa religiosa, procurou regulamentar essa reação, desencadeando assim, o processo que culminou no surgimento do Tribunal do Santo Ofício. Tal processo, que delinearemos em linhas gerais, deixará claro qual era o verdadeiro objetivo que animava a Igreja, mostrando como sua ação reguladora foi benéfica, inclusive ao criar a Inquisição, que foi – como veremos – de longe, um tribunal bem menos severo que o da Justiça civil comum.

 


[1] Cf.  William T. Walsh. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963.   

[2] Fernado Ayllón. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997, p. 24.      

[3] Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 33.

[4] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 62.

[5] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 38.

[6] Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 20.

[7] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 57.

[8] N. Falbel. op. cit. p. 56.

[9] Henri Maisonneuve. L’Inquisition. Paris, Ed. Desclée, 1989, p. 22.

[10] H.  Maisonneuve. op. cit. p. 24.

[11] Idem, p. 25.

[12] Idem, p. 27.

[13] João Bernardino G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, Ed. Saraiva, 1993, p. 93. 

[14] Idem, p. 95.

[15] Georges Deromieu. L’Inquisition. Paris, Presses Universitaires De France, 1946, p. 10.  

[16] H.  Maisonneuve. op. cit. p. 24.


quarta-feira, junho 16th, 2010 at 12:00pm

Carta aberta ao covarde Padre Dr. Joãozinho

Tomamos conhecimento de uma infeliz declaração do senhor em seu blog. Noticiando o falecimento de nosso caro Prof. Orlando, o Sr. disse: “dedicou boa parte de sua vida a defender aquilo que entendia por ser a verdade.

Essa frase, Padre, – dizemo-lo hoje, dia em que o site Montfort retoma suas atividades normais após a missa de sétimo dia de nosso caro Prof. Orlando – é maliciosa e extremamente ofensiva. Ela dá a entender que o Professor não defendia a verdade, mas sua opinião particular, sem maior valor.

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sexta-feira, agosto 14th, 2009 at 12:23am

Padre Joãozinho, “por que buscais a mentira?”

Por Ronaldo Mota, Montfort.org.br

“Eucaristia, acontecimento ritual que nós, católicos, chamamos de ‘presença real de Cristo’. O que é a presença real? A matéria consagrada? O pão e o vinho somente? Não. Juntamente com as duas substâncias está o bonito e sugestivo significado da ausência.”. (Padre Fábio de Melo)[1]
Pera aí, eu falei, você está bebendo… esta bebendo vinho materialmente. Substancialmente você está se alimentando do sangue de Cristo. Sangue na Bíblia significa vida. (…) A pessoa confundiu transubstanciação com transmaterialização. Tanto que, lá naquele milagre eucarístico de Lanciano, na Itália, no norte da Itália, o corpo e o sangue de Cristo viraram carne e sangue. É um milagre eucarístico, está até hoje preservado lá. Só que a Igreja não preserva mais no sacrário, e ninguém poderia comungar aquilo. A Igreja tem consciência de que aquilo não é mais Eucaristia. Opa! Não é Eucaristia por quê? Porque não é mais pão e vinho. Agora é carne e sangue. Nós não somos antropófagos. A Eucaristia não é antropofagia. Não é comer carne e beber sangue.” (P adre Joãozinho)[2]
Fuga sinuosa de Pe. Joãozinho
Infelizmente, diante dos ataques a seus erros, Pe. Joãozinho fala ambiguamente e sinuosamente resiste à verdade. Lamentável, pois resistir à verdade é buscar a mentira.
Segundo Pe. Joãozinho: “Não podemos dizer com exatidão que existem duas substâncias, a do pão e a do vinho; ou a do corpo e a do sangue. Alguém poderia afirmar isso utilizando o conceito do senso comum de substância como “algo”, “alguma coisa”, porém não seria exato. Cabe na poesia mas não na teologia.”.[3]
Evidentemente, Pe. Joãozinho tenta salvar Pe. Fábio de Melo afirmando que não é exato falar de duas substâncias na Eucaristia, embora poeticamente seja possível.
Disso podemos concluir o seguinte:
1. Não podemos dizer, com exatidão, que na Eucaristia existem duas substâncias, a do pão e do vinho; ou a do corpo e do sangue.
2. Pe. Fábio de Melo, por licença poética, foi inexato ao falar da Eucaristia.
Porém, a sinuosidade terminológica ou poética não os salvou, mas apenas explicitou – tristemente – o erro e a malícia desses padres. Pois, no primeiro caso, eles continuam supondo que se possa falar de substâncias de pão e de vinho na Eucaristia. Porém, falar de substâncias de pão e de vinho na Eucaristia não é apenas inexato, mas errado e herético![4] No segundo caso, Pe. Joãozinho tentou – absurdamente – fugir das definições teológicas para a liberdade da forma poética, onde talvez pudesse falar inexatamente e subtrair-se sinuosamente às acusações. Mas a poesia não é refúgio da mentira, e ainda que estivéssemos falando de poesia – que não é o caso – tratar-se-ia de uma poesia herética e nada mais.
Por fim, é preciso lembrar que segundo Pe. Fábio de Melo e Pe. Joãozinho a presença real está também no pão e no vinho[5], enquanto a fé católica afirma que a presença real existe quando não há mais pão e vinho.
Mas Pe. Joãozinho disfarça… Desvia e foge de uma maneira tortuosa:
Outra palavra que o senso comum confunde é “matéria”. Nossos opositores apegaram-se a afirmações em que utilizamos o termo com significado de acidente e não de essência,      portanto na acepção do senso comum, para que o povo entenda.”.[6]
Portanto:
1. Quando ele fala ‘matéria’ devemos entender ‘acidente’.
2. Fala desse modo para facilitar a compreensão do povo.
Que nos perdoe o Pe. Joãozinho, mas isso não é honesto. Ele afirmou claramente que a Eucaristia “não é comer carne e beber sangue”. Levando-nos a crer que se comecemos carne e bebêssemos sangue seriamos antropófagos. E ao falar da Eucaristia fez questão de notar que “sangue na Bíblia significa vida”, ao contrário de Nosso Senhor que enfatizou: “meu sangue é verdadeiramente bebida” (Jo VI, 56). Ademais, todas suas afirmações estariam coerentes entre si e com todo seu discurso se ao utilizar o termo ‘matéria’ ele entendesse com isso ‘matéria’. Contudo, Pe. Joãozinho não teve a retidão de reconhecer que errou, escapando sinuosamente. Mas quem não reconhece que errou defende o erro.
Primeiramente, não somos obrigados a entender ‘acidente’ quando ouvimos ‘matéria’. Pe. Joãozinho falou mal, ensinou uma heresia e devia retratar-se. Entretanto, ainda que trocássemos ‘matéria’ por ‘acidente’, a afirmação continuaria errada. Vejamos como ficaria uma de suas afirmações depois dessa troca: “você está bebendo vinho acidentalmente.”.
Errado. Na Eucaristia não se bebe vinho acidentalmente, mas sangue realmente. Sangue e não vida.
Logo depois, Pe. Joãozinho afirmou:
A pessoa confundiu transubstanciação com transmaterialização.”. Trocando: “A pessoa confundiu transubstanciação com transacidetalização.”.
Nesse caso sua afirmação ficaria absolutamente sem sentido, visto que a pessoa não afirmou estar vendo o corpo de Nosso Senhor com seus acidentes particulares e não mais os acidentes de vinho! Ela afirmava, simplesmente, que na Eucaristia tomamos o sangue de Cristo e não uma bebida alcoólica. O que é correto, ainda que seja uma palavra dura para Pe. Joãozinho.
Vemos, portanto, que a troca feita por Pe. Joãozinho não o salvou do erro. Quando muito tornou suas afirmações absurdas e seu discurso mais confuso. Por outro lado, se entendermos o termo ‘matéria’ como ele deve ser entendido, ou seja, como ‘matéria’, a explicação de Pe. Joãozinho fica perfeitamente compreensível e claramente herética.
Por fim, se Pe. Joãozinho queria falar desse modo para o povo entender ele conseguiu exatamente o contrário! O que todo mundo entendeu, como não podia deixar de ser, é que Nosso Senhor não está materialmente na Eucaristia! O que é heresia! Onde já se viu falar heresia para defender a ortodoxia?! Onde já se viu falar mentira para que o povo entenda a Verdade?! Se Pe. Joãozinho quisesse falar claro, bastaria repetir o que o catecismo ensina:
Que é o Sacramento da Eucaristia?
A Eucaristia é um Sacramento que, pela admirável conversão de toda a substância do pão no Corpo de Jesus Cristo, e de toda a substância do vinho no seu precioso Sangue, contém verdadeira, real e substancialmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, debaixo das espécies de pão e vinho, para ser nosso alimento      espiritual.”.[7]
Não é simples? O povo entende, pode acreditar! Notemos que o catecismo fala de ‘espécies’ sem confundir ninguém. Só alguém que não acredita que comungar é comer carne e beber sangue encontra dificuldade nessa definição.
Pe. Joãozinho tenta fugir das acusações sem recusar seu erro. Por isso, corre em zig-zag torcendo as palavras e seus sentidos…
Segundo Padre Joãozinho, ‘substância’ é um termo “que todo católico deve conhecer para entender a doutrina da Igreja sobre a Eucaristia.”.[8] Mas o que Pe, Joãozinho entende por substância?
Literalmente significa “sub-stare”, ou seja, o que está sob o sujeito e lhe dá a identidade.”.[9]
Mais isso não é substância!
Como nos explica o Pe. Hugon: “há em toda criatura composição real de sujeito subsistente com as formas que lhe são acrescidas secundariamente, isto é, os acidentes;”.[10]
Exatamente por isso: “Ela é justamente chamada o sujeito subsistente, que não tem outro fundamento que ele mesmo, e serve de base a todas as realidades que lhe vêm ornar, como formas secundárias.”.[11] Logo, a substância não está sob o sujeito, mas é o sujeito subsistente. Portanto, se todo católico deve entender o termo ‘substância’ para compreender a doutrina da Igreja sobre a Eucaristia, está provado que Pe. Joãozinho não sabe o que é Eucaristia, pois não sabe o que significa substância!
Infelizmente, as imprecisões e erros – não poéticos, mas teológicos e filosóficos – desses padres são muitos. Nesse artigo fizemos questão apenas de identificar os caminhos tortuosos que o Pe. Joãozinho buscou para permanecer na mentira.
Que Deus tenha misericórdia deles. De nossa parte lhe perguntamos:
Por que buscais a mentira?
São Paulo, 14 de agosto de 2009
                    Ronaldo Mota

[1] MELO, Fábio de, CHALITA, Gabriel. Cartas entre amigos. São Paulo: Ediouro. 2009. p. 31 (o negrito é nosso).
[3] Cf. O conceito de “subistância”. Pe. Joãozinho. Encontrado em: http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/2009/08/09/o-conceito-de-substancia/ (11/08/09 – negrito nosso). 
[4]Como conseqüência devemos admitir que não remanesce coisa alguma da substância do pão. Foi esta razão que levou os Padres e Teólogos da antiguidade a confirmarem abertamente a verdade desde dogma, pelos decretos do Concílio Ecumênico de Latrão e do Concílio de Florença. Mais explícita, porém, é a definição do Concílio Tridentino: “Seja anátema quem disser que no sacrossanto Sacramento da Eucaristia remanesce a substância do pão e do vinho, juntamente com o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Catecismo Romano. Parte II. Cap. IV, 35-36 (negrito nosso).
[5] Cf. textos e o vídeo das notas 1 e 2. Veja também artigo no link: http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=fabio-de-melo-montfort&lang=bra   
[7] Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã (Catecismo Maior de São Pio X). Parte IV. Cap. IV. § 1
[9] Cf. link: Link: http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/2009/08/08/eucaristia-presenca-real/ (12/08/09 – negrito nosso).  
[10] HUGON, Édouard. Os princípios da filosofia de Sto. Tomás de Aquino. Porto Alegre: EDIPUCRS. 1998, p. 61
[11] Idem. op. cit. p. 61-62

quinta-feira, agosto 6th, 2009 at 12:43am

Resposta a Padre Fábio de Melo e Padre Joãozinho por seu ataque à Montfort na TV Canção Nova

Por Ronaldo Mota, Montfort.org.br

Até quando?
Pe. Joãozinho e Pe. Fábio de Melo ensinam heresia abertamente na TV Canção Nova.
“[A Eucaristia] Não é comer carne e beber sangue.” Pe. Joãozinho.[1]
Eu não sepultei algumas de minhas vaidades para ser o que sou.” Pe. Fábio de Melo.[2]
 “Filhos dos homens, até quando sereis de coração pesado? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?” (Sl IV, 3).
Até quando seus corações buscarão a terra e se afastarão do Céu? Até quando Deus Nosso Senhor suportará esses padres vaidosos e defensores da mentira?
Logo após publicarmos um artigo sobre as heresias ensinadas pelo Pe. Fábio de Melo, recebemos um vídeo[3] no qual esse Padre reafirma, com apoio de um certo Pe. Joãozinho, suas heresias.
Vejamos o que nos disse o Pe. Joãzinho sobre a Eucaristia num programa da TV Canção Nova chamado Direção Espiritual:
Pera aí, eu falei, você está bebendo… esta bebendo vinho materialmente. Substancialmente você está se alimentando do sangue de Cristo. Sangue na Bíblia significa vida. (…) A pessoa confundiu transubstanciação com transmaterialização. Tanto que, lá naquele milagre eucarístico de Lanciano, na Itália, no norte da Itália, o corpo e o sangue de Cristo viraram carne e sangue. É um milagre eucarístico, está até hoje preservado lá. Só que a Igreja não preserva mais no sacrário, e ninguém poderia comungar aquilo. A Igreja tem consciência de que aquilo não é mais Eucaristia. Opa! Não é Eucaristia por quê? Porque não é mais pão e vinho. Agora é carne e sangue. Nós não somos antropófagos. A Eucaristia não é antropofagia. Não é comer carne e beber sangue.”.[4]
     Disso concluímos que:
     1. O sacerdote bebe a matéria de vinho e não a do sangue de Cristo.
     2. Não havendo pão e vinho não existe Eucaristia.
     3. Sendo carne e sangue não é Eucaristia.
     4. Na comunhão não comemos carne.
     5. Se na comunhão comêssemos carne seriamos antropófagos.
     Mas, pelo contrário, o Evangelho nos ensina:
     “a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida.” (Jo VI, 56).
     Ou seja, aquilo que comemos é a carne de Cristo. E isto está claríssimo tanto nas palavras de Nosso Senhor como no que a Igreja sempre ensinou, isto é, que na Eucaristia se encontra Cristo inteiro. Portanto, também materialmente, visto que Nosso Senhor tem corpo.
     Mas Sto. Tomás nos explica que: “assim como, ao proferir Cristo estas palavras, alguns dos seus discípulos se turbaram, dizendo: ‘Dura é esta linguagem, e quem a pode ouvir?’ (Jo VI, 61), assim também contra a doutrina da Igreja levantaram-se hereges que negam essa verdade.”.[5]
     Ora, Pe. Joãozinho e Pe. Fábio de Melo negaram essa verdade.
     Pe. Joãozinho exige que a Montfort leia o Concílio Vaticano II. Mas bastaria que ele lesse o catecismo para saber que está defendendo uma heresia. Pois o catecismo nos diz:
     “Nesta altura, os pastores hão de explicar que, neste Sacramento, se contém não só o verdadeiro Corpo de Cristo e tudo o que constitui realmente o corpo humano, como os ossos e músculos, mas também Cristo todo inteiro.”.[6]
     Será que esses padres chegariam ao cúmulo de afirmar que esses ‘ossos’ e ‘músculos’ não são materiais? Em todo caso, Sto. Tomás de Aquino ensina que na Eucaristia: “pela virtude divina, que não pressupõe a matéria, mas a produz, esta matéria se converte naquela, e por conseguinte este indivíduo naquele;”.[7] Isto é, a matéria do pão converte-se na matéria de Cristo, e por conseguinte o pão converte-se em Cristo.
     Não há a mínima dúvida. Na Eucaristia não há matéria de pão nem de vinho.
     “E porque a substância do pão não permanece, nem tão pouco alguma matéria anterior, como se demonstrou, é preciso afirmar que permanece aquilo que está a mais que a substância de pão. E tal é o acidente de pão.”.[8]
     Afirmar, como Pe. Joãozinho e Pe. Fábio de Melo, que quando comungamos ingerimos matéria de pão ou de vinho, é heresia condenada:
    “Como conseqüência devemos admitir que não remanesce coisa alguma da substância do pão. Foi esta razão que levou os Padres e Teólogos da antiguidade a confirmarem abertamente a verdade desde dogma, pelos decretos do Concílio Ecumênico de Latrão e do Concílio de Florença. Mais explícita, porém, é a definição do Concílio Tridentino: “Seja anátema quem disser que no sacrossanto Sacramento da Eucaristia remanesce a substância do pão e do vinho, juntamente com o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo”.[9]
    Essa distinção, entre transubstanciação e o que eles chamaram de ‘transmaterialização’, é um absurdo do ponto de vista filosófico[10] e uma heresia do ponto de vista teológico.
    Evidentemente, essas distinções malucas levariam à heresias malucas, como as enunciadas acima. Para esses padres, portanto, não havendo pão e vinho não há Eucaristia, quando, na verdade, a Eucaristia existe no momento em que deixam de existir o pão e o vinho; ou que – cúmulo da heresia –, havendo carne e sangue, não há Eucaristia, quando na verdade só há Eucaristia se há a carne e o sangue de Cristo.
     Isso é o que a Igreja sempre ensinou ser a presença real de Cristo na Eucaristia. Ora, Pe. Fábio de Melo e Padre Joãozinho negam esse ensinamento. Logo, Pe. Fábio de Melo e Pe. Joãozinho negam a presença real.
     E mais: negam o que a Igreja entende por transubstanciação. Pois, segundo eles, na transubstanciação não há conversão da matéria do pão na matéria de Cristo, como a Igreja define.
     A mentalidade modernista desses dois padres leva-os a acreditar que se comungássemos materialmente a carne e o sangue de Cristo seríamos antropófagos.
     Triste, deplorável e condenável.
      Até quando?
     “Ó geração incrédula e perversa, até quando hei de estar convosco? Até quando vos hei de suportar?” (Mt XVII, 17).
      Nós não somos antropófagos, apesar de comungarmos a carne e o sangue de Cristo. Pois, como nos lembrou um bom padre, a antropofagia é a destruição de uma pessoa pela alimentação. Ora, nós não destruímos o corpo nem o sangue de Nosso Senhor. Seu corpo é impassível, pois é aquele mesmo que está no Céu à direita de Deus Pai. Se esses padres não fossem tão duros de coração e estudassem o catecismo, poderiam perceber que não destruímos o Corpo do Senhor, pois Esse deixa de estar presente quando as espécies eucarísticas (as aparências de pão e vinho) sofrem corrupção[11]. É absolutamente distinto da antropofagia. É profundamente distinto.
      Mas é natural que tais idéias surjam e sejam aceitas por aqueles que acham duro crer na Sabedoria Encarnada. Embora, esta não seja dura, mas plena de doçura em seu semblante e em suas palavras, como nos lembra São Luis Maria Grignion de Montfort.[12]
      Até quando?

[2] Padre Fábio de Melo – Meu Ofício. Encontrado no site: www.fabiodemelo.com.br (31/07/09).
[3] Esse vídeo é parte de um programa chamado Direção Espiritual. Quem assisti-lo poderá comprovar que, lastimavelmente, Pe. Fábio de Melo e Pe. Joãozinho explicitam suas doutrina heréticas sobre a Santíssima Eucaristia. Nesse artigo, sempre que nos referirmos ao vídeo estaremos citando essa gravação que está no link indicado na nota nº 1 de nosso artigo.     
[4] Cf. vídeo citado (transcrição nossa).
[5] Suma Contra os Gentios. Livro IV. Cap. LXII
[6] Catecismo Romano. Parte II. Cap. IV, 31 (negrito nosso).
[7] Suma Contra os Gentios. Livro IV. Cap. LXIII.             
[8] Suma Contra os Gentios. Livro IV. Cap. LXIII
[9] Catecismo Romano. Parte II. Cap. IV, 35-36 (negrito nosso).
[10] Nosso Senhor é Deus e homem. Logo, sendo homem faz parte de sua substância o corpo material. Afirmar que Nosso Senhor está substancialmente na Eucaristia mas não materialmente é o mesmo que afirmar que a substância de Nosso Senhor não está totalmente e nem perfeitamente na Eucaristia.    
[11] “Por isso nos disse Inocêncio V: “os acidentes da Eucaristia nutrem ao revestir qualidade ou modo de substância; pois, ainda que sejam acidentes, têm, entretanto, vigor e natureza de substância; disso decorre que, embora no começo de sua absorção sejam acidentes, entretanto, ao fim da digestão se convertem nas mesmas substâncias que corresponderiam à conversão de sua própria substância. Não há nisto, portanto, novo milagre, porque tudo decorre do milagre precedente da transubstanciação””. (ALASTRUEY. Gregório. Tratado de la Santisima Eucaristia. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos. 1952, p. 206).
[12]Jesus é doce no semblante, doce nas palavras, doce nas ações.” (MONTFORT, Luis Maria Grignon de. El Amor de la Sabiduria Eterna. In: Obras. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos. 1984, p. 168.).

quinta-feira, julho 23rd, 2009 at 6:14pm

Como Albert Einstein vê o Mundo?

Por Ronaldo Mota, Montfort.org.br

           Desculpe-me, leitor, o texto tão despreocupado e pouco metódico. Ele é fruto de uma leitura de lazer numa tranqüila manhã de domingo. Além disso, é pouco abrangente para responder à pergunta expressa no título. Porém, são questões por demais interessantes e instigantes para serem deixadas para trás, como vagas lembranças de leituras divertidas.
Os pensamentos de Einstein, colhidos rapidamente do primeiro capítulo de sua obra Como Vejo o Mundo, trouxeram-me à memória diversas lembranças e discussões sobre problemas pungentes em nosso tempo. Ao tentar explicar sua visão de mundo, Einstein fazia afirmações impressionantes sobre a relação entre religião e ciência. E, ao contrário do que se vê normalmente, Einstein estabelecia essa relação de modo surpreendente.
Enquanto lia lembrava-me de um professor de cursinho… vaidoso, superficial e apalhaçado como o comum da espécie. Era um professor de física. Dizia-nos que a ciência moderna separou totalmente religião e ciência, pois essas seriam incompatíveis. Certamente, ele não tinha lido nenhuma história da ciência, e muito menos o livro de Einstein, onde o toten da ciência contemporânea diz:
O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica.“.[1]

            Pobre cursinho…
            Segundo Einstein, essa religião aparece em diversos momentos na história, porém: “Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmo, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinam a decifrar. Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmo.”.[2]
            Portanto, Albert Einstein não só tem uma religião como considera essa religião o fundamento do espírito científico.
            Evidentemente, não concordamos com a religião gnóstico-panteísta de Einstein, para a qual “a existência individual é vivida então como uma espécie de prisão”.[3] Todavia, isso não nos impede de lamentarmos a formação tosca e embrutecedora que certos professores moderninhos dão aos seus alunos.
            Meus pêsames para aqueles que acreditam que os grandes cientistas são contra a religião.
            Einstein vai mais longe e afirma que o grande dilema da nossa civilização – liberal e antinomista – é não ter oferecido aos homens uma moral. Para Einstein não há dúvida:
            “O terrível dilema da situação política explica-se por este pecado de omissão de nossa civilização. Sem cultura moral, nenhuma saída para os homens.”.[4]
            Nesse caso, nosso toten acertou. O grande dilema da Modernidade é a fundação da sociedade sobre uma liberdade absoluta que nega toda e qualquer moral. Aliás, ao contrário de nossos medíocres ‘educadores’, Einstein sabia que não eram a física, a química, a biologia ou qualquer outra ciência desse tipo que iria resolver esse grande problema. De acordo com ele: “Aqui a ciência não pode nos libertar. Creio mesmo que o exagero da atitude ferozmente intelectual, severamente orientada para o concreto e o real, fruto de nossa educação, representa um perigo para os valores morais. Não penso nos riscos inerentes aos progressos da tecnologia humana, mas na proliferação de intercâmbios intelectuais mediocremente materialistas, como um gelo a paralisar as relações humanas.”.[5]
           O que podemos concluir dessas afirmações de Einstein?
            1º A Modernidade nos negou uma moral que é essencial para a vida em sociedade.
            2º As ciências da natureza não podem resolver todos nossos problemas, como alguns, “mediocremente materialistas”, acreditam.
            3º O materialismo é um perigo para os valores morais.
            Isso eu nunca ouvi em cursinhos…
            Talvez neles predominem os “mediocremente materialistas”, que nem sequer sabem o que pensam os cientistas defendidos por eles.
            Mas, Einstein defendia uma religião gnóstica. Por isso, é preciso que abramos bem os olhos. Certamente, Einstein combate o materialismo grosseiro, antinomista e anti-religioso. Porém, ele – e muitos de seus amigos – acreditavam que os “melhores” lutam contra os preconceitos e as superstições dos demais (talvez os inferiores…).[6]
E quem seriam esses inferiores que Einstein combatia? Os adoradores do Criador do céu e da terra.[7]
            Segundo ele, nessa luta é necessária uma dupla ação de extrema importância que “constituirá a vida social da humanidade”. Essa dupla ação consiste em “arrancar as más raízes e implantar nova moral”.[8]
            Mas como seria feito o que adianta Einstein?
            De acordo com ele: “muito se adquiriu nestes setenta e cinco anos, e muito se propagou graças à literatura e ao teatro.”.[9] Portanto, o grande meio de proselitismo e difusão dessa nova moral é arte. Para Einstein, inclusive, a “arte, mais do que a ciência, pode desejar esforçar-se por atingir o aperfeiçoamento moral e estético.”.[10]
            Portanto, caro leitor, eis aí mais um motivo para que medite sobre a importância e a influência da arte. Veja que ninguém de maior conhecimento nega essa força que a arte tem de transmitir idéias e mudar os costumes. Nem Platão na Antiguidade, nem Sto. Tomás na Idade Média, nem mesmo os principais pensadores dos tempos modernos ignoraram essa capacidade da arte. Tome cuidado, e não seja displicente, pois a arte atinge profundamente nossas almas, malgrado nossa falta de compreensão.

            Fiquemos por aqui, caro leitor, pois já não quero cansá-lo mais. É deste modo abrupto, que termino de jogar minhas leituras de lazer, e as razões de Einstein, sobre o papel. Espero que minha precipitação em terminar não o contagie, de modo que pare de pensar no que foi dito. Mas, pelo contrário, lhe deixe mais tempo para tal. Não esqueça que a postura de Einstein desfaz a falsa idéia que se criou sobre o cientista, segundo a qual todo cientista é materialista e anti-religioso; ao mesmo tempo, ela nos desvenda um projeto revolucionário que está em curso em nossa sociedade. Basta que prestemos atenção para notarmos como a “nova moral”, galopando a arte, a cada instante destrói nossos verdadeiros valores morais e religiosos.


[1] Segundo Einstein, essa religiosidade é distinta daquela “das multidões ingênuas”, consistindo em extasiar-se “diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. (…) Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.”. Portanto, essa religiosidade cultua uma inteligência superior, e é comparável ao sentimento que animou os grandes espíritos religiosos em todos os tempos (Albert Einstein. Como Vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira. 1981, p. 23 – 24 (o negrito é nosso).
[2] Albert Einstein. op. cit. p. 21
[3] Idem.
[4] Albert Einstein. op. cit. p. 25 (o negrito nosso).
[5] Idem, (o negrito é nosso).
[6] Idem.
[7] Pois afirma: “A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.”. Ou ainda: “Temos também a impressão que os hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião [a religião cósmica de Einstein].” (Albert Einstein. op. cit. pp. 21-22).  
[8] Albert Einstein. op. cit. p. 25
[9] Idem.
[10] Idem.