sexta-feira, abril 27th, 2012 at 1:43am

Ato de Confiança

 

 

Em seu justamente famoso Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, São Luís de Montfort, ao tratar das características da verdadeira devoção a Nossa Senhora fala da importância da confiança em sua intercessão.

 

Diz ele: [A verdadeira devoção] “é terna, ou seja, cheia de confiança na Santíssima Virgem, como a de uma criança em sua boa mãe.

Ela faz com que a alma recorra a Ela em todas as suas necessidades, de corpo e de alma, com muita simplicidade, confiança e ternura; ela implora a ajuda de sua boa Mãe em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as coisas: em suas dúvidas, para ser esclarecida; em seus desvios, para ser reencaminhada; em suas tentações, para ser sustentada; em suas fraquezas, para ser fortalecida; em suas quedas para ser levantada; em seus desânimos, para ser encorajada; em seus escrúpulos, pra livrar-se deles; em suas cruzes, trabalhos e problemas da vida para ser consolada.

Enfim, em todos os seus males, de corpo e espírito, é a Maria que recorre, sem medo de importunar essa boa Mãe nem de desagradar a Jesus Cristo.”

 

Assim, para preparar o mês de Maria, oferecemos a nossos leitores um pequeno poema, que é uma oração cheia de confiança na Virgem Santíssima.

 

Ato de Confiança

 

Ivone Fedeli

Ó minha doce Mãe, eu não queria,

Ter essa triste e morna covardia,

Ter essa torpe falta de coragem

Que enlaça e mata aqueles que não agem.

Eu não queria amar Nosso Senhor,

Com um mesquinho, tíbio e fraco amor,

Com um amor que só dá por medida,

Que pesa o dom e poupa a própria vida,

Mas com amor ardente e valoroso,

Constante, forte, puro e generoso,

Que, solitário, assim me enchesse a alma

De paz guerreira, santa, sábia e calma.

 

Mas Vós sabeis, ó Mãe doce e clemente,

Quão miserável, quão estultamente,

Em minha alma abri largas feridas

E como foram rotas e perdidas

As graças, tantas, dadas por piedade;

E quantas vezes foi minha maldade

Capaz de ser mais forte e poderosa

Que o bem que Vós me dáveis, Mãe Bondosa;

E como tanto mal acumulado,

Tanta fraqueza vil, tanto pecado,

Não vence a vossa graça sem violência,

Nem vence sem lutar vossa clemência.

 

Mas Vós, Senhora, sois a Virgem Pura

Que faz filhos de Deus da pedra dura.

E eu espero, firme e confiante,

Em vossa onipotência suplicante.

Pois, se esmagastes já o vil dragão

Com vossa Imaculada Conceição,

E o mundo, tão falaz e movediço,

O tendes sob os pés, preso e submisso,

De mim bem fácil vós tereis vitória,

Que essa derrota, só, tenho por glória.

Eis todo o meu apoio e confiança:

Sois Vós, ó minha Mãe, minha esperança.

 

 

 


sexta-feira, março 30th, 2012 at 1:36am

Os frades de Garret e argumentação no texto literário

 

Publicamos hoje um texto de análise literária como ilustração a vídeo aula sobre a argumentatividade da obra ficcional. O texto analisado é do escritor romântico português Almeida Garrett, um dos introdutores do Romantismo em Portugal e importante político liberal, que usava, como escritor, a obra ficcional para a difusão de ideias que encontravam muita resistência no público, quando defendidas de modo explícito.

 

Os frades de Garret e argumentação no texto literário

 

Ivone Fedeli

 

Introdução

Se todo texto é, de per si, argumentativo, os textos da literatura romântica portuguesa o são voluntária e deliberadamente – e, de modo particular, os de Garrett – sem, no entanto, perderem o seu caráter estético.

Nessa aliança, entre argumentação e estética, nesse texto que argumenta sem parecer argumentar, que convence parecendo apenas agradar, reside o maior interesse para a análise, porque nele se encontram os procedimentos mais sutis, mais delicados e, por isso mesmo, mais eficazes.

O objetivo deste trabalho é a análise de alguns procedimentos argumentativos  encontrados na obra ficcional de Almeida Garrett, tomando textos de um de seus romances: O Arco de Sant’Ana.

Por um lado, destacaremos a afirmação da objetividade e, por outro, a intervenção subjetiva do autor na escolha, na modalização, na classificação desses elementos.

Para limitar a extensão da análise, tomaremos apenas, para esse segundo passo, as figuras de frades desenhadas por Garrett naquele romance.

 

 

O porquê  e o quando, as razões do sujeito

Os frades são personagens importantes na obra de Garrett. Ele mesmo o afirma, e o prova, no capítulo XIII de seu Viagens na Minha Terra:

“Já me disseram que eu tinha o gênio do frade, que não podia fazer conto, drama, romance sem lhe meter o meu fradinho.

“O Camões tem um frade, Frei José Índio;

“A Dona Branca três, Frei Soeiro, Frei Lopo e S. Frei Gil – faz quatro;

“A Adosinda tem um ermitão, espécie de frade – cinco.

“Gil Vicente tem outro – isto ; e, verdadeiramente, não tem senão meio frade, que é André de Rezende, de mais a mais, pessoa muda – cinco e meio;

“O Alfageme três quartos de frade, Froilão Dias, chibato da Ordem de Malta – seis frades e um quarto;

“Em Frei Luís de Sousa tudo são frades: vale bem nesta computação, os seus três, quatro, meia dúzia de frades – são já doze e quarto;

“Alguns, não eu, querem meter nesta conta o Arco de Santana, em que há bem dois frades e um leigo:

E aqui tenho às costas nada menos de quinze frades e quarto.

Com este Frei Dinis é um convento inteiro”[1]

A razão dessa recorrência, o autor no-la dá em vários textos. Vejamos três, que se completam:

“…; a culpa não é minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos e trinta e tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que o levou a breca, não sei que se passasse ou pudesse passar nesta terra coisa alguma pública ou particular, em que o frade não entrasse” [2]

Assim, pois, a primeira razão é de verossimilhança, marca de objetividade. Já que a história de Portugal tem sido dominada por frades ( ou por religiosos, de modo geral), o romance, diz Garrett, vê-se obrigado a refletir essa realidade.

Essa afirmação de um domínio onipresente – postulada como dado inconteste do real – é uma primeira marca de argumentação, já que, como ensina Perelmann,  “o fato de selecionar certos elementos e de apresentá-los ao auditório já implica a importância e a pertinência deles no debate. Isso porque semelhante escolha confere a esses elementos uma presença, que é um fator essencial da argumentação,…”.[3]

A direção dessa argumentação, torna-se mais clara com a citação seguinte:

“Eu não gosto de frades. Como nós os vimos ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.”[4]

Além da pura verossimilhança, portanto, podemos já discernir o propósito argumentativo do autor, que ele mesmo explicita num outro texto:

“Hoje é útil e proveitoso lembrar como os povos e os reis se uniram para debelar a aristocracia sacerdotal e feudal.

“Não há medo, repito, que ela volte; mas há certeza que tenta voltar: e essa tentativa só por si, e só em si, é uma revolução terrível.

“Eis aqui porque hoje se publica e de pouco se concluiu o romance que aqui vai”[5]

E ainda:

“Com romances e com versos fez Chateaubriand, fez Walter Scott, fez Lamartine, fez Schiller, e fizeram os nossos também, esse movimento reacionário que hoje querem sofismar e granjear para si os prosistas e calculistas da oligarquia.

“Com romances e com versos lhe havemos de desfazer pois o vilão artifício”.[6]

É preciso lembrar que Garrett esteve profundamente envolvido no combate pelo Liberalismo, a que aderira desde os tempos universitários.

Participou,  do cerco do Porto (1820) quando da guerra civil que deu a vitória a D. Pedro – liberal – contra seu irmão D. Miguel e, durante toda a vida, ocupando cargos políticos nos governos liberais, atuando como parlamentar, ou através de sua atividade literária e jornalística, nunca deixará de ser um liberal militante.

Ora, segundo Oliveira Marques, por um lado:

“Entre as  mudanças fundamentais de estrutura levadas a efeito pelos governos liberais desde 1820, não pode esquecer-se a reforma religiosa. (…)

“O liberalismo triunfante dirigiu um de seus maiores ataques contra o clero, particularmente contra as ordens religiosas. (…)

“Monges, frades e sacerdotes sofreram variadas perseguições, até ao limite da violência e da morte”.[7]

E, por outro,

“Apesar das leis de confisco de 1820-34, a Igreja portuguesa era ainda uma das mais poderosas potências existentes no País.”[8]

Sendo assim, o combate à Igreja, aos frades, ao clero em geral, incluía-se num projeto ideológico e político do qual Garrett era um dos mais importantes representantes e defensores.

Segundo José Augusto França, falando do Arco de Sant’Ana,

“Tratava-se, portanto, de uma obra de combate: retomada já em 1841, quando as ameaças da reação se mostravam claramente, ela devia sublinhar os perigos que a liberdade corria e atacar os bispos ligados a Costa Cabral, como tinha atacado, em 1832, no seu primeiro esboço, os bispos miguelistas.(…) Mas o romance tinha outra finalidade, enquanto obra de arte. (…) O ‘romantismo liberal’ se erguia contra o ‘romantismo feudal’ (…). O Arco de Sant’Ana constitui simultaneamente uma arma na luta política e ideológica (…).”[9]

De posse desses dados, poderemos compreender melhor como, sem abandonar as exigências da ficção,  Garrett utiliza a linguagem para obter a adesão de

seus leitores, já que suas escolhas estarão sempre condicionadas pela finalidade a que se propõe, pois, como ensina Lineide Mosca,

“(…) todo discurso é uma construção retórica, na medida em que procura conduzir o seu destinatário na direção de uma determinada perspectiva do assunto, projetando-lhe o seu próprio ponto de vista, para o qual pretende obter adesão. Conforme se depreende, essa concepção de base pode ser o ponto de partida para o estudo da estrutura discursiva do texto, do inventário dos tópicos e das escolhas estilísticas efetuadas.”[10]

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  1. 1.     Ficção e texto epidíctico

Se, como acabamos de ver , é o caráter argumentativo do discurso que lhe define as escolhas semânticas, estilísticas, fonéticas e outras; se – também Vignaux o afirma – entre outros -  todo enunciado é  necessariamente argumentativo, todo discurso é, inapelavelmente, retórico[11], não seria legítimo procurar aproximar o romance, ou o conto – , o texto ficcional, enfim – , já que ele é argumentativo,  de uma das categorias clássicas do discurso?

Se o autor da ficção, particularmente em alguns momentos da história da literatura, tem por finalidade a adesão de seu auditório, convencer, persuadir, levar seus leitores a uma determinada visão do mundo, ou mesmo, em alguns casos, a uma determinada ação sobre o mundo, poderíamos perguntar qual é o modelo que, normalmente, ele utiliza.

A questão é de grande interesse porque a relação autor/público é, do ponto de vista retórico, bastante delicada. Não se lêem romance ou contos com a mesma disposição com que se lêem tratados filosóficos, obras científicas ou programas partidários. O leitor de ficção, habitualmente, não busca o debate filosófico, científico ou ideológico, mas o texto agradável, o belo, o estético. Se for frustrado em sua expectativa, facilmente abandonará a obra e o autor, rompendo a primeira condição da argumentação, que á disposição do interlocutor para ouvir.

Para Aristóteles, é, justamente,  pelo tipo de sua relação com os ouvintes que os discursos devem ser classificados:

 

“ As espécies de retórica são três em número; pois outras tantas são as classes de ouvintes dos discurso. Com efeito, o  discurso comporta três elementos: o orador, o assunto de que fala, e o ouvinte; e o fim do discurso refere-se a este último, isto é, ao ouvinte. Ora, é necessário que o ouvinte ou seja espectador ou juiz, e que um juiz se pronuncie ou sobre o passado ou sobre o futuro. O que se pronuncia sobre o futuro é, por exemplo, um membro de uma assembléia; o que se pronuncia sobre o passado é o juiz; o espectador, por seu turno, pronuncia-se sobre o talento do orador. De sorte que é necessário que existam três gêneros de discursos retóricos:  o deliberativo, o judicial e o epidíctico”[12]

Já aqui encontramos uma primeira razão para aproximar do gênero epidíctico o discurso ficcional: o julgamento do auditório/público, incide sobre o talento do orador/autor.

E mais, quanto à finalidade estética – em sentido amplo – do discurso:

      “No gênero epidíctico temos tanto o elogio como a censura. (…)

“(…) Para os que elogiam e censuram, o fim é o belo e o feio, acrescentando, eles também, outros raciocínios acessórios.”[13]

Ou seja, como também ocorre na ficção, a perfeição estética – dentro e fora do texto – é a meta do orador.

Ao tratar do discurso epidíctico, Perelmann explicita algumas outras características que só tornam esse paralelo mais saliente:

“Um orador solitário que, com freqüência, nem sequer aparecia perante o público, mas se contentava em fazer circular sua composição escrita, apresentava um discurso ao qual ninguém se opunha, sobre matérias que não pareciam duvidosas e das quais não se via nenhuma conseqüência prática.”[14]

O autor não presente fisicamente, a matéria “neutra”, a aparente falta de “conseqüências práticas”, tudo que também – freqüentemente – se poderia afirmar do texto ficcional.

Quanto à capacidade persuasiva do discurso epidíctico, Perelmann tece sobre o assunto algumas considerações de grande interesse, que, aplicadas ao texto ficcional, tornam mais clara a importância do papel desempenhado pelas obras de ficção nas mudanças de mentalidade – e mesmo de comportamento – da sociedade.

“Com isso [ com a falta de noção de juízo de valor e da intensidade de adesão suscitada pelo discurso epidíctico, nos seguidores e comentadores de Aristóteles e com a super-valorização do aspecto estético do próprio discurso],  parecia prender-se mais à literatura do que à argumentação.(…)

“Ora, acreditamos que os discursos epidícticos constituem uma parte central da arte de persuadir, e a incompreensão manifestada a seu respeito resulta de uma concepção errônea dos efeitos da argumentação”.[15]

Aqui, é interessante notar ,que ao negar a não argumentatividade do discurso epidíctico, Perelmann parece aceitar a não-argumentatividade do discurso literário. Nisso, não é possível concordar com ele.

Literário, parente próximo do discurso ficcional[16], o discurso literário é também – e com grande eficiência – argumentativo, persuasivo, tanto e tão bem quanto o discurso epidíctico.

Aliás, os comentários que Perelmann faz ao discurso epidíctico podem, com toda propriedade, aplicar-se também ao discurso de ficção:

“A intensidade da adesão que se tem de obter não se limita à produção de resultados puramente intelectuais, ao fato de declarar que uma tese parece mais provável que outra (…).

“A intensidade de adesão visando à ação eficaz não pode ser medida pelo grau de probabilidade conferido à tese aceita, mas antes pelos obstáculos que a ação supera, pelos sacrifícios e escolhas que ela acarreta e que a adesão permite justificar. (…). É nessa perspectiva, por reforçar uma disposição para a ação ao aumentara adesão aos valores que exalta que o discurso epidíctico é significativo e importante para a argumentação.(…)

“Ao  contrário da demonstração de um teorema de geometria, que estabelece de uma vez por todas um vínculo lógico entre verdades especulativas, a argumentação do discurso epidíctico se propõe aumentar a intensidade de adesão a certos valores, sobre os quais não param dúvidas quando considerados isoladamente, mas que, não obstante, poderiam não prevalecer contra outros valores que viessem a entrar em conflito com eles. O orador procura criar uma comunhão em torno de certos valores reconhecidos pelos auditório, valendo-se do conjunto de meios de que a retórica dispõe para amplificar e valorizar.

“É na epidíctica que são apropriados todos os procedimentos da arte literária, pois se trata de promover o concurso de tudo quanto possa favorecer essa comunhão do auditório.”[17]

            Feitas tais considerações, é o  momento de passarmos a falar dos procedimentos argumentativos do romance de Garrett, sempre tomando por base as características do discurso epidíctico.

v

2.     O como, a criação do objeto

Como vimos, Aristóteles, ensina que o discurso epidíctico trata do louvor ou da censura. Também do louvor e da censura trata o Arco de Sant’Ana, de Garrett. Louva um tipo de comportamento ( que atribui àqueles com os quais se identifica), critica outro ( o que empresta àqueles que combate). Louva uma mentalidade diante dos clérigos ( a que desejaria ver implantada), critica outra ( aquela cujo perigo quer conjurar).

Perelmann mostra que o discurso epidíctico é próprio da educação e análogo ao da propaganda[18]. Garrett quer fazer de seu romance uma apologia pedagógica de como deve ser tratada – pelo governo e pelo povo – a hierarquia eclesiástica.

Vejamos, mais de perto, os recursos que utiliza.

Em primeiro lugar, para aumentar a força argumentativa de sua narrativa, criando um notável efeito de objetividade, alça-a da categoria de ficção à categoria de fato . Para isso, atribui a substância de seu relato não a sua imaginação, mas

a um antigo manuscrito por ele encontrado num convento de frades, cuja história relata, afirma, “com escrupulosa fidelidade”.[19]

A importância argumentativa dessa estratégia é sublinhada por Perelmann ao tratar do fato como ponto de partida da argumentação.[20]

Ao tratar seu relato como fato, Garrett induz seu leitor a receber sob esse estatuto cada detalhe da narrativa e o conduz, com grande eficácia, à aceitação de suas conclusões.

Também contribuem para o mesmo efeito de objetividade as referências geográficas (topográficas, hidrográficas, etc.) que se multiplicam ao longo do texto, sendo o próprio nome do romance referente a um conhecido marco da cidade do Porto.

O mesmo se diga dos regionalismos lingüísticos, que o autor usa freqüente e conscientemente –

“algumas palavras, muitas frases, bastantes alusões não serão talvez perfeitamente entendidas senão pelo leitor portuense”[21]

e que, além disso, aumentado a identificação entre escritor e leitor, facilitam a adesão.

No, que se refere propriamente aos frades e eclesiásticos, Garrett constrói alguns personagens próprios a servir de suporte a sua argumentação anti–eclesiástica.

É  curioso notar quanto seus recursos se aproximam daqueles preconizados por Aristóteles, embora funcionando por oposição, já que o procedimento utilizado é o de censura.

Ele “censura” nos frades – sem censurar, apenas mostrando como existente, o que contribui para o efeito de objetividade e imparcialidade – todo o contrário daquilo que Aristóteles diz ser digno de louvor e de honra.

Vejamos alguns exemplos:

 

Aristóteles – Retórica[22] Garrett – O Arco de Sant’Ana
1.Os justos e corajosos devem ser honrados 1. Os eclesiásticos são injustos e covardes;
 “Por esta razão se honram, sobretudo, os justos e os corajosos, pois a virtude destes é útil aos demais na guerra, e a daqueles é útil também na paz”

“ – Sim, sim; e bem no digo eu. Tenho coisa cá dentro que me agoura grande mal a mim e aos meus: e não me vem senão daquele bispo, que é a perdição e ruína desta cidade, ele e os seus cônegos e os seus portageiros e os seus arqueiros e toda essa gente da Sé.

“– E mete na conta o reverendo padre Fr. João da Arrifana, que é boa peça.”[23]

“O terror, o susto, um reflexo das angustiadas desesperações do inferno crispava medonhamente as ignóbeis feições do almudeiro.” [24]

- “Ah! disse o bispo, e olhou para Fr. João, que se fez verde, vermelho, amarelo, negro… um arco-íris vacilante e cambiante de todas as cores do medo.”[25]

“Os cônegos recuaram em desordem:  o deão largou o hissope bento no meio do chão… quis erguer-se… caiu de joelhos diante do bispo, e ficou, como um deus egípcio, sentado sobre os próprios talares; mas em vez de colocar gravemente as mãos nos joelhos, como o seu tipo hieroglífico, ficaram-lhe esbandalhadas para trás e pendentes. Os arqueiros desordenadamente romperam a forma; tal houve que largou a escuma e fugiu para o sagrado da Sé…” [26]

  1. 1.      Os liberais devem ser honrados

2. Os eclesiásticos são ávidos e avarentos “Segue-se a liberalidade: pois os liberais são generosos e não disputam sobre as riquezas, que é o que mais cobiçam os outros”

“Aí estava ele porém, esse bispo em toda a pompa do principado, sentado em seu trono, rodeado de seus ministros eclesiásticos e civis – à direita o arcediago, à esquerda o alcaide-mor do seu castelo – porque Ele era senhor e apóstolo, carniceiro e pastor do mesmo rebanho: anomalia repugnante das idades bárbaras que tanto esplendor deu à Igreja , tanta luz tirou à Fé!”[27]

“(…) ou [ a cidade] havia de recobrar os foros de cidade livre e real que a doação de D. Teresa lhe tinha feito perder, e que a dureza do domínio eclesiástico lhe fazia desejar cada vez mais.”[28]

3. Os temperantes devem ser honrados 3. Os eclesiásticos são intemperantes (gulosos e sensuais)” A temperança é a virtude pela qual uma pessoa se conduz como a lei manda em relação aos prazeres do corpo.” “Esconjurado seja ele! veio com os mesmos recados de costume. ‘Que tivesse eu mais juízo e prudência; que fosse onde me diziam, ou desse hora em que o bispo cá viesse, que não escorraçasse a fortuna que à porta me batia…“do Reverendo Prior dos Grilos, a quem Deus perdoe não ter deixado na sua cela, quando fugiu, nem uma caixa de doce, nem uma garrafa de vinho potável, nem gulodice de nenhuma espécie, das que eram de esperar naquele devoto aposento, (…)”.[29]

“(…) as vastas cozinhas [ do convento] recendiam com o cheiro confortativo da suculenta comezaina que volteava no espeto ou palpitava no fervedouro das amplas marmitas. Mas nem Pêro Cão aparecera ainda para fazer conduzir o substancial almoço ao refeitório privado do pouco abstinente príncipe da igreja (…).”[30]  “De suas devassidões e orgias brutais, [ o bispo] tinha um pequeno, um tal qual remorso, porque enfim era eclesiástico, era prelado: mas bestialmente pensava que uma absolvição de Fr. João de Arrifana, ou de outro frade seu cúmplice nas mesmas torpezas, bastava para o remir desses pecadilhos, porque enfim, enfim, não eram condessas nem ricas-donas que ele tinha roubado – seduzido ou comprado pela maior parte…”[31] “Frei João impeliu com o possante galgar das robustas pernas, a enorme barriga pela escada acima, aparentemente sem grande esforço nem canseira. Era a mais desembaraçada e valente gordura que ainda se desenvolveu debaixo do burel seráfico: não havia ali banha nem toucinho; era tudo músculo tuchado, de febra elástica, potente e cheia de vida: há gorduras assim. Picheis da Bairrada e canastras de Lamego tinham muita parte na construção daquela sólida e bem arcada máquina que podia servir de modelo ao Hércules Farnésio.”[32]

“Frei João de Arrifana, apesar dos sustos e cuidados que teve, continuou a engordar; e veio a morrer, pouco depois, de um fleimão ardente que lhe nasceu, salvo seja! entre os quadris, e que abafado na massa enorme das substâncias adiposas, lhe ateou um febrão que o levou.”[33]

  1. 2.      Os prudentes devem ser honrados

4. Os eclesiásticos são estúpidos e tolos“A prudência é a virtude da inteligência mediante a qual se pode deliberar adequadamente sobre os bens e os males (…).” “Acabou-se a festa da santa, poupou-se ao capucho muita berraria e muita sandice, e os festeiros jantaram mais cedo.”[34]

“Dois franciscanos chegaram à porta do palácio; um gordo, anafado e vermelhão, com um sorriso malicioso e contente que lhe brincava nas roscas da barba e das bochechas; o outro, cabisbaixo e humilde, verdadeiro tipo de leigarraz estúpido e servil.”[35]

 

            É fácil de ver, que, no conjunto – o acúmulo de exemplos tendendo a fazer supor uma amostragem suficiente e concludente[36] – , a conclusão implícita é a desqualificação dos eclesiásticos, objetivo retórico do autor.

Como seria de esperar, os recursos argumentativos da obra de Garrett não se resumem aos aspectos que levantamos neste esboço de análise. Muitos outros são empregados com maestria pelo escritor. É o conjunto deles que torna a obra tão rica de interesse e tão eficiente do ponto de vista argumentativo.

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3.     Bibliografia

 

ARISTÓTELES ¨      Retórica – Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1998.
FRANÇA, J. A . ¨      O Romantismo em Portugal, – Lisboa, Livros Horizonte, 1993 
GARRETT,  A. ¨      Viagens na minha terra, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1969.¨      O Arco de Sant’Ana, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1966.

MOISÉS, M.¨      A análise literária, São Paulo, Cultrix, 10ªedição, 1996. O. MARQUES, A. H¨      História de Portugal – v. III – Das Revoluções Liberais aos nossos dias, Lisboa, Editorial Presença, 1998. PERELMANN, C.¨      Tratado de Argumentação – a Nova Retórica, São Paulo, Martins Fontes, 1996. VIGNAUX, G.      ¨      Le discours acteur du monde– Paris, Ophrys, 1988. MOSCA, L. L. S. ¨      Retóricas de Ontem e de Hoje – Lineide do Lago Salvador Mosca, org. – São Paulo, Humanitas Editora/FFLCH/USP, 1997 

 


[1] GARRETT – Viagens na minha terra – cap. XIII, p. 106

[2] GARRETT – Viagens na minha terra – cap. XIII, p. 106

[3] PERELEMANN – Tratado de argumentação – Segunda Parte – O Ponto de partida da argumentação – capítulo II – “A escolha dos dados e sua adaptação com vistas à argumentação”.

[4] GARRETT – Viagens na minha terra – cap. XIII, p. 102

[5] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – “Ao leitor benévolo ( na Primeira Edição)” – p. 26

[6] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – “Ao leitor benévolo ( na Primeira Edição)” – p. 25

[7] OLIVEIRA MARQUES, A . H. – História de Portugal – v. III Das Revoluções Liberais aos Nossos Dias , Parte 10, cap. 2, p. 131

[8] OLIVEIRA MARQUES, A . H. – História de Portugal – v. III Das Revoluções Liberais aos Nossos Dias , Parte 12, cap. 3, p. 351

[9] FRANÇA, J. A . – O Romantismo em Portugal, Segunda Parte, cap. III, p. 112

[10] MOSCA, L.L.S – Velhas e Novas Retóricas: convergências e desdobramentos in Retóricas de Ontem e de Hoje, p. 23

[11] cfr. VIGNAUX, G. – Le discours acteur du monde, cap. 8,  p. 218

[12] ARISTÓTELES – Retórica, L I, cap. 3, p. 56

[13] ARISTÓTELES – Retórica, L I, cap. 3, p. 57

[14] PERELMANN – Tratado de Argumentação – Primeira Parte – Os âmbitos da argumentação, ­11 – O gênero epidíctico, p. 53

[15] PERELMANN – Tratado de Argumentação – Primeira Parte – Os âmbitos da argumentação, ­11 – O gênero epidíctico, p. 54

[16] É oportuno lembrar que Massaud Moisés praticamente identifica os dois conceitos, o de literatura e o de ficção. Cfr. MOISÉS, Massaud – A análise literária, cap. I

[17] PERELMANN – Tratado de Argumentação – Primeira Parte – Os âmbitos da argumentação, ­11 – O gênero epidíctico, p. 57

[18] cfr. PERELMANN – Tratado de Argumentação – Primeira Parte – Os âmbitos da argumentação, 12 – Educação e propaganda.

 

[19] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – Cap. II – p. 35

[20] cfr. PERELMANN – Tratado de Argumentação – Segunda Parte – O ponto de partida da argumentação, 16 – Os fatos e as verdades.

[21] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – “Ao leitor benévolo ( na Primeira Edição)” – p. 26

[22] cfr. ARISTÓTELES – Retórica, L I, cap. 9, p. 75 e ss.

[23] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. II, p. 38

[24] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. XIV, p. 82

[25] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. XIV, p. 83

[26] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. XV, p. 85

[27] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. XXXV, p. 212

[28] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. XXXV, p. 212

[29] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. II, p. 35

[30] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap.  XIII, p. 77

[31] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. XXVII, p. 160

[32] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap.  XIII, p. 79

[33] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. XXXVII, p. 231

[34] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap. I, p. 34

[35] GARRETT,  O Arco de Sant’Ana – cap.XIII, p. 78

[36] cfr. PERELMANN – Tratado de Argumentação – Terceira Parte – Cap. III  As ligações que fundamentam a estrutura do real, 78 – Argumentação pelo exemplo, p. 399.

 


quarta-feira, fevereiro 29th, 2012 at 8:10pm

Os Caminhos de Maria Santíssima – Parte 3

Este artigo é uma continuação de Os caminhos de Maria Santíssima, parte 1 e parte 2

 Ivone Fedeli

No dia 2 de fevereiro comemorou-se a festa da Purificação de Maria Santíssima que encerra o ciclo de Natal. É a assim chamada festa de Nossa Senhora das Candeias, devido à procissão com velas que faz parte da cerimônia litúrgica que se realiza em memória dos ritos cumpridos pela Sagrada Família, quarenta dias após o nascimento de Jesus, em obediência à Lei de Moisés: a purificação da mãe, a apresentação de todo recém-nascido no Templo e a consagração dos primogênitos. Em homenagem à Virgem Santíssima, publicamos, ao findar este mês de fevereiro, já quaresma, tempo em que se prepara a “espada de dor” prevista por Simeão, a terceira parte do pequeno estudo Os Caminhos de Maria Santíssima, comentando agora a ida da Sagrada Família ao Templo. Como vimos nos artigos anteriores, os eventos da vida de Maria Santíssima – e aqui estamos analisando particularmente os caminhos em que o Evangelho a apresenta – podem e devem ser tomados como modelos de santidade para nossas próprias vidas.

 

 

Terceiro caminho: o cumprimento dos mandamentos

“Concluídos os dias da sua purificação”, a de Maria Santíssima, “segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém”, ao Menino Jesus, “para o apresentarem ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor[1] e para oferecerem o sacrifício prescrito pela lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.” [2]

É o Evangelho de São Lucas que, assim, nos apresenta a Santíssima Virgem, e aqui toda a Sagrada Família, pela terceira vez, a caminho. O curto caminho – aproximadamente oito quilômetros – que há de Belém a Jerusalém. São Tomás precisa o sentido das cerimônias mencionadas no Evangelho:

“Ora, a respeito dos recém-nascidos, a lei ditava dois preceitos: um geral, referente a todos os nascimentos: no fim dos dias da purificação da mãe, devia-se oferecer um sacrifício pelo menino ou pela menina, assim como prescrevia o Levítico. Esse sacrifício tinha por fim expiar o pecado no qual a criança tinha sido concebida e tinha nascido e também consagrar, de alguma maneira, a criança que era então apresentada no Templo pela primeira vez. Por isso se fazia uma oferenda pelo holocausto e uma pelo pecado”.

                Mas no caso de Nosso Senhor, primogênito, havia uma segunda lei que também se aplicava e até de modo muito especial:

O outro preceito, especial, só dizia respeito aos primogênitos, seja entre os homens, seja entre os animais; o Senhor tinha, com efeito, reservado para si todo o primogênito em Israel, porque, quando da libertação dos Israelitas, Ele tinha atingido [com a morte] todos os primogênitos do Egito, desde os homens até os animais, mas tinha conservado a vida dos primogênitos Israelitas. Esse mandamento se encontra no Êxodo (12, 2-12). Vê-se também aqui uma figura de Cristo, “primogênito entre muitos irmãos”.[3]

                Também Nossa Senhora, embora deles estivesse isenta dado o caráter extraordinário da concepção de Nosso Senhor Jesus Cristo por obra do Espírito Santo, quis submeter-se e submeteu-se aos ritos da purificação das mães. E embora, como explica ainda o Doutor Angélico, a Virgem Santíssima dê prova neste episódio de muitas virtudes[4], o que ressalta do texto, a razão pela qual Ela se põe a caminho, é sobretudo o desejo de cumprir a Lei: “conforme está escrito na Lei do Senhor”.

O Padre Landucci explica quanto esse desejo de cumprir a lei, a obediência aos seus preceitos, se radica no amor de Deus e é a sua natural consequência. Onde não há amor à vontade de Deus, expressa antes de tudo e do modo mais universal nos Mandamentos, não há nem pode haver verdadeiro amor a Deus. Diz o autor de Maria Santíssima no Evangelho:

“A norma reguladora daquele escondimento [da Sagrada Família, que se submetia à lei comum, como uma família comum] – como o de todos os escondimentos ativos por motivo de humildade – não podia ser senão o positivo querer de Deus e a santa obediência. E essa, no caso, falava claro através da Lei (cfr. S. Hilário, Hom. 18, in Evang.I). Os santos esposos poderiam ter facilmente deduzido, das circunstâncias especialíssimas daquele divino nascimento, que não estavam propriamente sujeitos àquela lei. Mas havia uma ordem de fatos, atinente aos grandes mistérios neles cumpridos, em que tudo, até agora, tinha sido minuciosamente estabelecido pelo Céu e à qual eles queriam continuar completa e heroicamente abandonados a Deus. Se fosse o caso de fazer uma exceção agradável a Deus – supondo que fosse evitado o perigo de escândalo daqueles que, ignorando as circunstâncias, os vissem não cumprir a lei – o mensageiro celeste não teria deixado de propô-la ou, pelo menos, de insinuá-la. Na falta de qualquer sinal nesse sentido, não restava senão aplicar perfeitamente toda a lei; o que eles fizeram, nesse caso, como já tinham feito para o rito precedente da circuncisão.” [5]

                E comenta, ainda, a preocupação de São Lucas em deixar clara essa deliberação da obediência, do cumprimento da lei – mesmo daquela lei da qual poderiam isentar-se – por parte da Sagrada Família:

São Lucas, por sua vez, parece mesmo querer sublinhar esse espírito de profunda obediência que anima a heroica humildade dos dois santos esposos, repetindo por quatro vezes o motivo obrigatório da lei. Di-lo, primeiramente, três vezes, referindo-se a todas as várias prescrições: “Depois, cumpridos os dias da sua purificação, SEGUNDO A LEI DE MOISÉS, o levaram a Jerusalém para oferecê-lo ao Senhor, COMO ESTÁ ESCRITO NA LEI DO SENHOR: todo primogênito masculino seja consagrado ao Senhor, e para oferecer em sacrifício, ASSIM COMO ESTÁ ESCRITO NA LEI DO SENHOR, um par de rolas ou dois pombinhos.” (Lc 2, 22-24); onde a primeira vez se trata da lei da purificação, em gênero, a segunda da apresentação do primogênito e a terceira da dupla oferta que devia fazer a mãe. Repete-o ainda uma quarta vez: “E quando os genitores aí levaram o Menino Jesus para cumprir QUANTO ORDENAVA A LEI a seu respeito…” (2, 27); o que, justamente porque é uma repetição, põe maximamente em evidência o intento do Evangelista de inculcar como motivo a conformidade à lei “[6]

                Convém ainda notar que Nossa Senhora faz voluntariamente não apenas aquilo a que obrigava a Lei Mosaica, que não prescrevia que a apresentação fosse realizada no Templo, mas também aquilo que era ditado pelo costume, que se estabelecera depois do exílio, como o comprova o livro de Neemias (10, 37), mostrando mais uma vez a sua submissão a tudo aquilo em que se manifestasse a vontade de Deus, mesmo que fossem apenas os legítimos costumes estabelecidos entre os judeus mais piedosos.[7]

                A lição é clara e importantíssima e tanto mais necessária em nossos dias em que reina, nos meios católicos, um antinomismo prático, quando não também teórico.[8]

                Depois da Redenção, tendo Nosso Senhor realizado tudo o que a Antiga Lei simbolizava, foram abolidas, é claro, todas as leis litúrgicas e rituais dadas a Moisés. Não, porém, os Mandamentos, que foram, pelo contrário, levados por Nosso Senhor à mais exigente perfeição, já que com a vida da graça, que nos faz participantes da própria vida divina, temos muito mais força para fazer o bem do que tinham os homens antes da Redenção. Nosso Senhor mesmo o afirma, para combater o antinomismo de seu tempo, sobretudo, para ensinar a verdade em todos os tempos:

Não julgueis que vim abolir  a lei ou os profetas. Não vim para aboli-los, mas sim para levá-los à perfeição. Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei. Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos céus. [9]

A doutrina católica sempre insistiu na importância dessa observância e em sua facilidade quando se conta com a onipotente graça de Deus. Assim, ensina o Catecismo de Trento:

No entanto, se alguém der por escusa que a fragilidade de sua natureza o impede de amar a Deus [cumprindo os mandamentos], é preciso dizer-lhe que Deus, exigindo amor, infunde nos corações a força de amar pelo Espírito Santo. O Pai Celestial dá esse bom Espírito a quem lho pede, assim como Santo Agostinho teve toda a razão de pedir: “Dai o que mandais e mandai o que é de vossa vontade.”

Estando, pois, o auxílio de Deus a nossa disposição, mormente após a morte de Cristo Nosso Senhor, pela qual o príncipe deste mundo foi lançado fora, já não há motivo para alguém esmorecer com as dificuldades dos Mandamentos. Nada é difícil a quem ama.[10]

                Não ignorando, porém, que a vontade se fortifica quanto a inteligência está convencida e que, naquele tempo como hoje, não faltavam doutores de iniquidade que ensinassem a não necessidade do cumprimento dos Mandamentos, o Catecismo insiste:

De outro lado, muito contribuirá para despertar idênticas disposições, se falarmos claramente da necessidade de se obedecer à Lei; tanto mais que, em nossa época, não faltam pessoas que, para sua grande desgraça, se atrevem a declarar impiamente, que a Lei, quer seja fácil quer seja difícil, não é de modo algum necessária para a salvação.

Essa opinião ímpia e abominável, deve o pároco refutá-la com os testemunhos da Sagrada Escritura, principalmente do mesmo Apóstolo, em cuja doutrina querem estribar a sua impiedade.[11]

Mas que diz o Apóstolo? “O que importa não é ser incircunciso ou circunciso, mas o que vale é observar os Mandamentos de Deus”.[12] [...]

De fato, quem tem os Mandamentos de Deus, e os põe em prática, esse ama a Deus, conforme diz o próprio Nosso Senhor no Evangelho de São João: “Quem me ama, guarda a minha palavra”.[13]

                São Tomás de Aquino, ao comentar as profecias de Isaias, mostra como Deus não se agrada de nada do que fazem os israelitas – seus sacrifícios, suas festas e solenidades, e mesmo suas orações – porque eles abandonaram o cumprimento da Lei: são assassinos, adúlteros, ladrões. E é apenas o cumprimento das boas obras, o cumprimento dos Mandamentos que pode agradar a Deus. Sem eles, os próprios atos de culto não passam de hipocrisia e são rejeitados por Deus:

“Detesto vossas solenidades e festas; tornaram-se uma carga que não suporto mais. Quando estendeis as mãos, fecho os olhos; ainda que multipliqueis as orações não vos escutarei. Vossas mãos estão cheias de sangue.”

                Mas o remédio é simples, como mostra o Doutor Angélico, e consiste em duas coisas: na fuga do mal e na prática do bem, ou seja, no cumprimento dos Mandamentos.[14]

Assim, depois de nos ter ensinado, assim que concebeu o Verbo, o amor e o serviço do próximo – na visita a Isabel –  e a inteira conformidade com a vontade de Deus, manifestada por suas criaturas, em todas as circunstância – em sua viagem para Belém – a Santíssima Virgem nos ensina neste seu terceiro caminho que a caridade, o amor verdadeiro a Deus, manifesta-se, sempre, no cumprimento fervoroso de suas leis.

 

 

 

 



[1] Ex 13, 2.

[2] Lc 2, 22.

[3] TOMÁS DE AQUINO, Santo. La Moelle de Saint Thomas d’Aquin. Paris: P. Lethielleux Éditeur, 1930. Org. MEZARD, OP., Padre. V. 1, p. 141.

[4] São Tomás chama atenção para sete: sua humildade, sua pureza, sua obediência, seu respeito por Nosso Senhor, sua devoção pelos lugares santos, sua gratidão e sua pobreza. Ibidem, p. 139.

[5] LANCUCCI,  Pier Carlo. Maria Santissima nel Vangelo. Milano: San Paolo, 2000. P. 157. Tradução nossa.

[6] LANDUCCI, op. cit. p. 158. Tradução nossa. As maiúsculas e itálicos estão no original.

[7] Cfr. LANDUCCI, op. cit. p. 157 nota 5.

[8] Cfr., apenas à guisa de exemplo, o antinomismo pouco velado do Padre Storniolo, comentado pelo Prof. Orlando Fedeli, colateralmente, neste artigo: http://www.montfort.org.br/index.php/cadernos-de-estudo/desigualdade-igualdade-consideracoes-sobre-um-mito/

[9] Mt 5, 17-19.

[10] Catecismo Romano. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariano,  sd, p. 384.

[11] Os luteranos afirmavam que São Paulo pregara o abandono dos Mandamentos, quando, na verdade, ele ensinava apenas a ab-rogação das leis rituais judaicas. Cfr. Rm 2, 6 ss.

[12] 1Cor 7, 19.

[13] Catecismo Romano, p. 384.

[14] Cfr. TOMÁS DE AQUINO, Santo. Commentaire sur le Prophète Isaïe. Tradução dos Monges da Abadia de Fontgombault. Introdução Pe. J. Elders, SVD. Paris – Saint Maur (Val de Marne): Presses Univesitaires de l’IPC, 2011. p. 16 e SS.


segunda-feira, janeiro 16th, 2012 at 4:30pm

Despretensiosas Considerações de Leituras

Ivone Fedeli

Na Pascendi, que acabo de reler, São Pio X fala, ao tratar da ação dos modernistas, segundo a tradução oficial em português, publicada no site do Vaticano[1], nos “perniciosos conselhos” que os “mais perigosos inimigos da Igreja” “tramam” “já não fora, mas dentro da Igreja”.

Como a acepção de “conselho” que cabe no trecho é a de “assembleia de pessoas que deliberam sobre certos assuntos”, muito mais que a de “opinião, parecer sobre o que convém fazer”[2] e como quem “trama”, fá-lo de forma oculta e traiçoeira, o trecho, sem dúvida, parece aludir a reuniões secretas mantidas por eclesiásticos – “dentro da Igreja” – para planejar sua ação de substituição da “verdade católica” por sua perniciosa doutrina, cujo núcleo é, segundo São Pio X, a “imanência vital”.[3]

Portanto, São Pio X denuncia a existência de uma sociedade secreta, formada por padres, dentro da Igreja, com objetivo de substituir a doutrina da Igreja por uma doutrina contrária a essa.

Que é essa a interpretação correta do texto papal, só se confirma quando se lê o Motu Proprio Sacrorum Antistitum, publicado por São Pio X em 1º. de setembro de 1910, ou seja, três anos após a Pascendi:

“Nenhum bispo ignora, acreditamos, que uma raça perniciosíssima de homens, os modernistas, mesmo depois de a encíclica Pascendi Domini Gregis ter-lhes tirado a máscara, não desistiu de seu propósito de perturbar a paz da Igreja. Eles não cessaram, com efeito, de procurar e de agrupar em uma associação secreta novos adeptos e de inocular com eles, nas veias da sociedade cristã, o veneno de suas opiniões, pela publicação de livros e de brochuras de que eles suprimem ou disfarçam o nome dos autores.”[4]

Aqui o texto é claríssimo: “clandestinum foedus”, “associação secreta”, em português corrente, “sociedade secreta”. Ora, como é evidente e muito claramente mostra o grande especialista em sociedades secretas, A. H. de Oliveira Marques, as sociedades secretas quando condenadas ou perseguidas, não se dissolvem, apenas se tornam ainda mais secretas para continuar a agir[5].

É verdade que muitos historiadores afirmam que os modernistas, após a condenação de São Pio X, submeteram-se e desapareceram e, com eles, o Modernismo.

Jean Rivière, por exemplo, em seu famosíssimo Le Modernisme dans l’église, não hesita em asseverar que “com o juramento antimodernista[6] terminou a história da crise doutrinária que grassava havia dez anos. A partir desse momento, tudo autoriza a considerar o modernismo como desaparecido”.[7]

Embora, em português, o termo “desaparecido” possa ser sinônimo de “oculto” – o que o Modernismo se tornou, sem dúvida – a tese do autor é clara. Desaparecido aqui é sinônimo de aniquilado, destruído.

E para apoiar sua tese, Rivière cita autoridades. E autoridades de simpatias modernistas, o que, segundo ele, daria mais peso a suas opiniões. Houtin, por exemplo, que afirma:

“Um olhar lançado sobre a catolicidade, em 1911, oito anos depois da eleição de Pio X, bastava para constatar que o Soberano Pontífice tinha nela inteiramente restabelecido a ordem teológica. Em quase todo lugar ele tinha conseguido esmagar os inovadores.”[8]

E também Schnitzer: “Na França o modernismo parece inteiramente morto; na Itália, também, ele não se mexe mais; na Alemanha, ele voltou à ordem.”[9]

Ora, ao contrário do que quer Rivière, o fato de serem até líderes modernistas, como Schnitzer, que afirmam que o modernismo morreu não prova absolutamente a sua destruição. Pelo contrário. Claro que o que eles queriam é que os católicos – e o próprio Sumo Pontífice, se fosse possível enganá-lo – pensassem que o inimigo estava morto ou, melhor ainda, nunca tivera vida.

É, aliás, uma tática corrente das organizações secretas, quando denunciadas, procurarem fazer crer que nunca existiram ou, pelo menos, que se dissolveram.[10]

Isso mesmo afirmava, em um interessantíssimo artigo escrito para comemorar os cinquenta anos do Sacrorum Antistitum, Monsenhor Joseph Clifford Fenton, que atuou como perito do Cardeal Otavianni no Concílio Vaticano II:

“No Sacrorum antistitum São Pio X assevera muito claramente da existência de uma aliança secreta ou um foedus clandestinum entre os modernistas de seu tempo. Por qualquer que seja a razão, essa verdade, observada e atestada por São Pio X, e claramente evidente para qualquer pessoa que se dê ao trabalho de estudar a história do movimento modernista, sempre foi singularmente desagradável para os simpatizantes do Modernismo e para os Modernistas. Parece ter sido precisamente com o objetivo de causar confusão sobre esse ponto em particular que os partidários do Modernismo tenham tido extremos cuidados para iludir as pessoas, fazendo-as imaginar que a oposição a Loisy, a Von Hügel e a seus comparsas, dentro da Igreja Católica, era fundamentalmente obra de uma secreta aliança de sinistros e reacionários católicos.”[11]

                Ou seja, o interesse dos modernistas era fazer crer que sua sociedade secreta nunca existira, que nem sequer o Modernismo existira ou que, se acaso tinha existido, tinha se desintegrado com as condenações de São Pio X.

                Coisa muito difícil de acreditar e em que mais bem informados nunca acreditaram. Outro perito do Concílio Vaticano II, o Padre Berto, por exemplo,

“estava persuadido da persistência dessa sociedade secreta. Ele o afirmava mais fortemente que nunca próximo ao fim do Concílio, em 1965: ´Há os cegos, sim, há os surdos, e medíocres e covardes. Mas nem cegueira, nem surdez, nem mediocridade, nem covardia fornecem a explicação exaustiva do que nós vemos. É preciso que haja “outra coisa”, e essa outra coisa só pode ser a persistência do modernismo no sentido da Pascendi, a persistência da sociedade secreta dos modernistas´ ”.[12]

                Sem tratar das causas daquilo a que se assistia, e muito menos de sociedades secretas modernistas, também o Cardeal Ratzinger afirma em suas memórias que os eventos do Concílio eram espantosos, preocupantes – “a mudança no clima eclesial, que ia se manifestando cada vez mais, me inquietou profundamente”[13] – e, justamente, provocadas por uma inexplicável e inexplicada sujeição de determinados bispos a determinados teólogos:

“Ao voltar de Roma eu encontrava o ambiente eclesiástico e teológico cada vez mais eufórico. Aumentava a impressão de que nada na Igreja estava firme e tudo podia ser revisto. Cada vez mais o concílio aparecia como um grande parlamento, que podia mudar tudo e a dar a tudo uma nova forma, de seu jeito. [...]

“O que estava acontecendo, porém, era de um alcance ainda mais profundo. Se os bispos, lá em Roma, podiam modificar a fé (pois assim parecia ser), por que, afinal, somente eles? Em todo caso, ela podia ser mudada; assim parecia, contrariamente a tudo o que se pensara até então; parecia não estar mais subtraída ao poder humano de decisão; era determinada por ele, ao que tudo indicava. Sabia-se, entretanto, que os bispos aprendiam com os teólogos aquelas novidades que agora apresentavam; para os fieis era um fenômeno curioso que seus bispos parecessem mostrar em Roma um rosto diferente daqueles que tinham em casa. Pastores, que até então eram considerados rigorosamente conservadores, apareciam de repente como porta-vozes do progressismo – mas isso vinha de sua própria cabeça? O papel que os teólogos tinham assumido no Concílio criava, de forma cada vez mais clara, uma nova autoconsciência entre os doutos, os quais agora se entendiam como os verdadeiros administradores do conhecimento, e, por isso, não podiam mais aparecer como subordinados aos pastores”.[14]

                Ninguém ignora que essa reviravolta, essa tomada de poder pelos teólogos, mais que consentida, promovida por alguns bispos, fora cuidadosamente preparada em reuniões sigilosas antes e durante o Concílio. Com efeito, como afirma Wiltgen,

“O público quase não ouviu falar da poderosa aliança estabelecida pelas forças do Reno [os teólogos e bispos da Alemanha, Áustria, Suíça, França, Holanda, banhados pelo Reno, e da vizinha Bélgica] e do papel considerável que ela representou na elaboração da legislação conciliar.”[15]        

                Na mesma obra o autor dá vários exemplos de como, em comissões não oficiais, alguns bispos e alguns teólogos tinham preparado com antecedência e com minúcia sua ação durante o concílio.

Dezessete bispos holandeses, por exemplo, reuniram-se para discutir os esquemas prévios enviados por Roma a todos os bispos do mundo. Decidiram que prepararia sobre eles um comentário que seria largamente difundido entre os Padres Conciliares, comentário esse que acusava de fraqueza todas as constituições preparadas por Roma e elogiava enormemente o esquema sobre a Liturgia, único dos esquemas de caráter progressista, pois a Comissão litúrgica preparatória era dominada por expoentes do movimento litúrgico.[16]

“De fato”, esclarece Wiltgen, “o autor único do comentário, publicado a coberto do anonimato [sempre o anonimato, já denunciado por São Pio X], era o Pe. Schillebeeckx, O.P., de origem belga, professor de dogma na Universidade Católica de Nimègue e teólogo da hierarquia holandesa. Seu texto criticava violentamente as quatro constituições dogmáticas, que ele acusava de representar apenas uma escola de pensamento teológico. Só o último esquema [o da liturgia] era, segundo ele, uma verdadeira obra prima.”[17]

                Não é uma grande coincidência o fato de que todos os esquemas prévios tenham sido rejeitados durante o Concílio, com exceção do esquema sobre liturgia?

Tudo indica, portanto, que, longe de ter desaparecido, as alianças, conselhos, ou sociedades secretas dos modernistas – que já durante o Concílio eram chamados de progressistas[18] – continuavam ativíssimas.

Aliás, tratando do tema da sociedade secreta modernista num estudo recentíssimo, Roberto de Mattei conclui:

“Os historiadores ignoram o problema levantado por São Pio X e apresentam o Modernismo como uma corrente brotada espontaneamente do curso irrefreável da história. Quem leva a sério as palavras do Pontífice, não pode deixar de pôr-se a pergunta que levanta Jean Madiran: “Em que data a associação secreta dos modernistas cessou de existir? Não se pode sequer perguntar se por acaso ela não se teria ulteriormente “reconstituído”; para “reconstituir-se, ela tem que ter cessado de existir”; mas ignora-se se e quando ela tenha terminado. Mas não apenas se ignora a resposta; finge-se ignorar a pergunta”.[19]

Todas essas considerações, baseadas quase inteiramente em antigas leituras, ocorreram-me em consequência da uma leitura nova. A leitura, ainda em curso, de uma biografia do Padre Auguste Valensin, obra velha já de cinquenta anos, mas que eu nunca tinha lido[20].

            

    Comprovando as afirmações de São Pio X – que fala de “publicações em que eles [os modernistas] suprimem ou disfarçam os nomes dos autores” – , é sob as iniciais M.R. e H.L. e sem assinar o Prefácio que escrevem, Marie Rougier e o, então padre, Henri de Lubac, pai da Nova Teologia, condenada por Pio XII na encíclica Humani Generis, de 1956.

                E quem é o Padre Valensin? Menos conhecido do público em geral, o padre Valensin foi um Jesuíta, ordenado em 1910, professor de Filosofia na Faculdade Católica de Lyon e cuja importância como elo entre os modernistas e os criadores da Nova Teologia foi fundamental.

                Embora selecionados com o espírito de uma hagiografia, espírito que os pequenos trechos que conectam as citações de Valensin reforçam, os textos escolhidos para publicação por De Lubac, contam muitos fatos interessantes e curiosos.

                Alguns sem relação com problemas doutrinários, como, por exemplo, a dolorosa provação familiar de Valensin ao descobrir, já noviço Jesuíta – e irmão de um padre na mesma Companhia, já próximo da profissão solene, o Padre André Valensin – que seu pai era um judeu convertido, que, tendo escondido esse fato a seus filhos durante toda a vida, teve-o revelado por sua morte, já que os procedimentos legais necessário nessa ocasião obrigaram ao exame de documentos.

                Naquele tempo – 1902 – as constituições Jesuítas proibiam a admissão na Ordem Jesuíta de qualquer pessoa de raça judia, desde um decreto promulgado no século XVI por uma Congregação Geral da Ordem. O impedimento era dirimente e foi dirimido, sem que haja nisso nenhum desdouro para os dois irmãos.

                O que soa estranho, no entanto, é o fato de que o Padre Auguste Valensin, que segundo De Lubac “devia ter por sua raça um interesse cada vez mais profundo”, a tal ponto  levar esse “interesse” que, “em seu leito de morte, encontrará subitamente uma força extraordinária para se proclamar, como São Paulo, Judeu filho de Judeu”.

A comparação com São Paulo não parece cabível, pois São Paulo quando trata desse tema na Segunda Epístola aos Coríntios[21] é para desqualificar outros pregadores, judeus como ele, de raça, que queriam introduzir entre os cristãos práticas judaizantes. E tanto é verdade que ele, que só se gloria na Cruz de Cristo[22], se sente completamente desvinculado dos judeus que logo em seguida fala deles usando não a primeira pessoa do plural – nós, os nossos – mas a terceira, eles: “Cinco vezes os judeus me deram os quarenta açoites menos um.”[23] E, na hora da morte, é cristão, que, com o sangue, São Paulo se proclama.

Mas, enfim, esse é um fato que, embora curioso, nada tem a ver com o problema de que vínhamos tratando. Muito mais do que isso, o que chama atenção na biografia hagiográfica do Padre Valensin são sua amizades, suas ligações.

Por exemplo, Blondel, de quem se torna aluno na Universidade de Aix em 1897, aos dezoito anos. E de quem divulgará a obra, tomando o cuidado de envolvê-la em brumas, para evitar as condenações:

“De ainda maior gravidade são as cumplicidades de que se beneficia o filósofo modernista [Blondel] para espalhar discretamente sua doutrina: para responder às acusações argumentadas dos grandes teólogos romanos, ele pode, sobretudo, contar com o Padre Auguste Valensin (Jesuíta) que protege a filosofia blondeliana mergulhando-a em neblina; ele não hesita em usar citações truncadas de Blondel, fazendo cuidadosamente desaparecer todas as passagens heterodoxas. Existem, assim, duas versões de Blondel: uma versão oficial, revista e corrigida pelo Padre Valensin, para poder enfrentar sem perigo as controvérsias com os teólogos romanos, e uma versão clandestina, abundantemente difundida (por baixo do pano) nos seminários, nas casas de formação religiosa e nas universidades”.[24]

Sobre os anos de formação de Valensin, quando se inicia seu contato com Blondel, diz De Lubac: “O mestre desses anos é Maurice Blondel. Sabe-se pela Correspondência publicada os vínculos que logo se deviam estabelecer entre eles.”

                Vínculos profundos, sem dúvida, pois no momento de decidir sobre sua vocação – que De Lubac atribui, sem citar sua fonte, à influência de A Ação, o livro de Blondel cuja condenação, que ameaçava sempre, ele temeu toda vida[25], a ponto de impedir até sua morte o lançamento da segunda edição[26] – nesse momento, depois de consultar por carta o Padre Bremond, Valensin, a conselho deste, escreve para Blondel.

                O Padre Bremond, o primeiro consultado, morava em Lyon, tinha feito seus estudos como Jesuíta na Inglaterra, pois os Jesuítas estavam banidos da França. De onde ele e o jovem Valensin se conheciam? Que relações tinham? Não se diz. Bremond foi professor de Teilhard de Chardin, e considerava-o brilhante. Teria sido também professor de Valensin? Talvez. Bremond era de Aix.

                Bremond era de Aix. E era modernista. Violentamente modernista. Grande amigo de Tyrrell. Tyrrel, que era calvinista, converteu-se ao catolicismo em 1879, entrou na Companhia de Jesus em 1880, foi ordenado em 1891, expulso da ordem Jesuíta em 1906 e excomungado em 1907. Excomungado vitando. Mas Bremond foi a seu enterro e fez nele um pequeno discurso.

                Claro, era seu amigo. Amicíssimo. Tanto que foi para ele que Tyrrel escreveu, sem nenhum temor:

“Roma não pode ser destruída num dia, mas é preciso fazê-la cair em pó e em cinza de modo gradual e inofensivo; então nós teremos uma nova religião e um novo decálogo”.

                Diz-me com quem andas e eu te direi quem és.

                Bremond era também amicíssimo de Von Hügel, um dos primeiros defensores do ecumenismo e, segundo Loisy um importante “agente de ligação”[27] entre os modernistas da Inglaterra, da França e da Itália.

                E Bremond, por sua vez, abandonará, também ele, a ordem Jesuíta, em 1904.

                Mas Bremond aconselha Valensin, que lhe pedira conselho. Sabe que o jovem pensa em ser religioso. E hesita… “sob que hábito? Branco ou preto? A priori… eu tenderia para o branco – um dos meus amores também…”[28]

Vê-se que o discernimento de Bremond quanto a vocações era grande. Na vida religiosa, sem hesitar, ele só supõe que Valensin possa escolher entre Jesuítas e Dominicanos. E são tantas as ordens e congregações… Por que seria? Talvez porque era a elas que pertenciam, em grande parte, os grandes líderes modernistas… Hesita e encoraja Valensin a consultar Blondel.

                Na carta a Blondel, Valensin interroga:

“Jesuíta, Dominicano, Oratoriano, até Dominicano ensinante; – eu pensei longamente nos dominicanos – pouco nos Jesuítas; eu não conheço os Oratorianos”.[29]

                Curioso. Se ele não conhece os Oratorianos, por que, entre tantas e tantas ordens e congregações, os Oratorianos lhe vieram à cabeça? Será que seus amigos tinham amigos nos Oratorianos? Não sei.

                O que se sabe é que o Padre Laberthonnière era Oratoriano. Modernista. Amigo de Blondel, diretor dos Annales de philosophie chrétienne, onde o filósofo escrevia, desenvolvendo as teses que formulara em L’Action.

                O que se sabe, também, é que foi entre os Oratorianos – talvez por pura caridade, certamente – que foi recebido e viveu até a morte o Padre Primo Vanutelli, que fora modernista, mas que, abjurando seus erros, prestara o juramento antimodernista exigido por São Pio X. Mas jurara falso. Segundo seu executor testamentário, Francisco Gabrielli, que publicou em 1978 o testamento de fé do padre Vanutelli[30],

“o seu posto é entre aqueles modernistas que permaneceram, depois da condenação, dentro da Igreja, que se dobraram à sua disciplina, mas mantendo no coração as suas íntimas convicções”.[31]

É verdade. Manteve, em seu coração, até o fim, suas convicções. Convicções completamente contrárias à doutrina da Igreja. O próprio Vanutelli se pergunta, em certo ponto de seu “testamento espiritual” em que ele nega até mesmo a divindade de Cristo:

“E se alguém que lesse estas folhas me perguntasse: ‘E que sobra, então do Cristianismo, se Jesus não é Deus?, respondo-lhe desde já: Sobra pouco, pouco; Deus, o anseio e a alegria do universo”.[32]

                Bem, mas voltemos a Valensin. Afinal, o Padre Vanutelli nem era Oratoriano. Só vivia com eles. E Valensin sequer conhecia os Oratorianos… Hesitava principalmente entre Jesuítas e Dominicanos, com tendência para os Dominicanos, que Bremond também preferia.

                Mas Blondel preferiu os Jesuítas…Valensin foi fazer um retiro com os Dominicanos e decidiu: será Jesuíta.

                E foi Jesuíta.

                Como Jesuíta será amigo e protetor de Teilhard, será mestre de De Lubac, o qual, por sua vez, será o pai da Nova Teologia que, condenada por Pio XII, terá seus mestres e suas doutrinas reabilitadas no Concílio Vaticano II. A influência do pensamento de De Lubac no Concílio é incalculável.

                É verdade que, segundo Wiltgen, durante as votações do Concílio Vaticano II,

“A posição dos bispos de língua alemã sendo regularmente adotada pela aliança europeia, e a posição da aliança sendo, o mais das vezes, adotada pelo Concílio, bastava que um teólogo fizesse sua opinião ser adotada pelos bispos de língua alemã para que o Concílio as fizesse suas. Ora, tal teólogo existia: era o Padre Karl Rahner S.J.

Em princípio, o Padre Rahner era apenas o teólogo do Cardeal König. De fato, numerosos membros das hierarquias alemã e austríaca recorriam a suas luzes… Durante uma conversa privada, o Cardeal Frings declarou que o Padre Rahner era ‘o maior teólogo do século’”.

                Mas é verdade também, que, segundo afirmava o Osservatore Romano em oito de setembro de 1991, ao louvar De Lubac como sendo “sem sombra de dúvida um dos maiores fundadores da teologia católica contemporânea”, que “nem Karl Rahner nem muito menos Hans von Balthasar seriam pensáveis sem ele.”[33]

                Como se vê, uma cadeia completa, sem elo faltando, de pessoas e de ideias, do Modernismo ao Concílio Vaticano II. Uma corrente em que os elos, embora muitas vezes invisíveis para o grande público católico, sempre se mantiveram bem firmes, bem coesos.

                Concluímos aqui estas reflexões. São apenas simples – despretensiosas –  reflexões de leitura que oferecemos a nossos leitores.

Claro, não se trata de uma demonstração acadêmica. Muito mais, de uma conversa entre amigos, que se dizem, simplesmente, o que lhes parece.

                Mas há teses acadêmicas sobre o tema. Não, infelizmente, sobre a questão da sociedade secreta modernista, levantada por São Pio X e cuidadosamente enterrada pelos modernistas.

Mas sobre a questão das ligações, pessoais e doutrinárias.

O historiador Jürgen Mettepingen publicou em 2010 um estudo sobre a Nova Teologia. Um estudo que já comprei, mas ainda não li, e que, pelo índice, parece interessantíssimo. O nome do livro é Nova Teologia – Herdeira do Modernismo, precursora do Vaticano II.[34]

                O título promete. Quem sabe possa ser ocasião de novas, e igualmente despretensiosas, reflexões.

São Paulo, 14 de janeiro de 2011.
Festa de Santo Hilário de Poitiers, que defendeu a divindade de Cristo.



[2] São os dois sentidos que o Dicionário Aurélio atribui ao termo.

[3] Para uma compreensão da importância doutrinário do imanentismo, ver FEDELI, Orlando. A Religião do Vaticano II – Parte II in www.montfort.org.br.

[4] PIO X, Santo. Motu Proprio Sacrorum Antistitum. Acta Apostolicae Sedis, ano II, v. II, n. 17, p. 44. Tradução nossa.

[5] Cfr. OLIVERIA MARQUES, A. H. História da Maçonaria em Portugal – v. I – Das Origens ao Triunfo. Cap. I – Da origem às primeiras perseguições, p. 21 e ss.

[6] Publicado em apêndice ao Motu Proprio Sacrorum Antistitum, que citamos acima.

[7] RIVIÈRE, Jean. Le Modernisme dans l’Église. Paris: Librairie Letouzey et Ané, 1929, p. 538.

[8] HOUTIN, A. Histoire du Modernisme Catholique. p. 385, apud RIVIÈRE, op. cit. p.538.

[9] Apud RIVIÈRE, op. cit. p.538.

[10] Cfr. OLIVEIRA MARQUES, ibidem.

[11] FENTON, Joseph Clifford. The Sacrorum Antistitum and the background of the oath against Modernism in The Ecclesiastical Review. Outubro, 1960, p. 244. Tradução minha

[12] CHAMPROUX, Anne Isabelle et alii. La compagnie De Lubac in Savoir e Servir, tomo 56 p. 81. Tradução minha.

[13] RATZINGER, Cardeal Joseph. Lembranças de minha vida. Autobiografia parcial (1927-1977). São Paulo: Paulinas, 2007. pp. 113-114.

[14] Idem, pp. 112-113.

[15] WILTGEN, Pe. Ralph M. Le Rhin se jette dans le Tibre – Le Concile Inconnu. Paris: Editions du Cédre, 1976. p. 7. Tradução minha.

[16] Cfr. DE MATTEI, Roberto. Il concilio Vaticano II – Uma storia mai scritta. Torino: Lindau, 2010, p. 238. Tradução minha.

[17] WILTGEN. Op. cit., p. 23. Tradução minha.

[18] Sobre essa identificação entre Modernismo e Progressismo, além de ligações históricas, pessoais, se poderia dizer, fáceis de constatar, ver, para os aspectos doutrinários, MESSINEO, Pe. Antonio. Civiltà Cattolica. “Il progressismo contemporâneo”, q. 2541 (1956), pp. 225-238, apud DE MATTEI, op.cit. p. 96.

[19] DE MATTEI, Roberto. Il concilio Vaticano II – Uma storia mai scritta. Torino: Lindau, 2010.

[20] M.R. e H.L. ( Marie Rougier e Henri de Lubac). Org. Auguste Valensin – Textes et Documents Inédits. Paris: Aubier Éditions Montaigne, 1961. Todos os textos citados são de minha tradução.

[21] Cfr. 2Cor 11, 22.

[22] Cfr. Gl 6, 14.

[23] 2Cor 11, 24.

[24] Apud CHAMPROUX, op. cit., p. 52.

[25] Porque fazia questão de continuar dentro da Igreja, para poder continuar seu trabalho de conquista dos intelectos para o Modernismo. Numa carta a De Lubac, que o censurava por timidez na exposição de suas ideias, ele diz: “ quando, há mais de quarenta anos, eu abordei problemas para os quais não estava suficientemente armado, reinava um extrinsecismo [a doutrina de que a revelação é exterior, de que “a Fé vem pelo ouvido” (Rm 10, 17)] intransigente e seu tivesse dito então tudo o que você deseja, eu me teria acreditado temerário e teria comprometido todo o esforço a tentar, toda a causa a defender, enfrentando censuras que teriam sido inevitáveis e, certamente, retardantes. Era preciso ter tempo para amadurecer meu pensamento e cativar os espíritos rebeldes.” Apud CHAMPROUX, op.cit. p.52.

[26] Cfr. LÉTROUNEAU, Alain. L’herméneutique de Maurice Blondel: son émergence pendant la crise moderniste. Montréal: Edition Bellarmin, 1998. Blondel et la crise moderniste, pp. 16 e ss. O que Blondel temia era a condenação nominal de sua obra. O imanentismo, que ele defende, foi condenado por São Pio X na Encíclica Pascendi, como sendo o núcleo do Modernismo.

[27] Cfr. NEDONCELLLE, Maurice. La pensée religieuse de Friedrich von Hügel. Paris: Vrin, 1935 p. 75 apud DE MATTEI, op. cit. p. 72.

[28] DE LUBAC. Op. cit. p. 19.

[29] Idem, ibidem.

[30] GABRIELI, Francesco. Ed. Il testamento di fede di don Primo Vanutelli in Centro Studi per la Storia del Modernismo, Fonti e Documenti, no. 7 (1978), pp. 119-253, apud DE MATTEI, op. cit. p. 80.

[31] Idem, ibidem, p. 81.

[32] Idem, ibidem, p. 81.

[33] Apud CHAMPROUX, op. cit. p. 47.

[34] METTEPENNINGEN, Jürgen. Nouvelle Thélogie – New theology – Inheritor of Modernism, Precursos of Vatican II. Londres: T & T clark International, 2010.


sexta-feira, outubro 14th, 2011 at 1:11am

Os Caminhos de Maria Santíssima – Parte 1

Ivone Fedeli

 

Neste mês de outubro, dedicado pela Igreja ao Santo Rosário, oferecemos a nossos leitores a primeira parte de um artigo sobre Nossa Senhora tomada como modelo de virtudes, com reflexões inspiradas no Evangelho, no mesmo espírito das meditações que tradicionalmente devem acompanhar a recitação do rosário.

Os Caminhos de Maria Santíssima – Parte 1

 

 Ipsam sequens, non devias.[1]
São Bernardo, Segundo Sermão sobre o Missus est

 

  1. 1.     Caminhos

 

São Luís de Montfort, em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, afirma que “os predestinados mantêm-se nos caminhos da Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal infalível de sua predestinação, como lhes diz essa boa mãe: “Beati qui custodiunt vias meas (Prov 8, 32) – Beatos os que praticam as minhas virtudes e caminham sobre as pegadas da minha vida, com o socorro da divina graça.”[2]

 

A metáfora do caminho como itinerário espiritual é clássica não apenas nos escritores eclesiásticos, como São Bernardo, Santo Afonso de Ligório[3], São Luís de Montfort e Santo Antônio Maria Claret[4], mas nos próprios livros sagrados. São Jerônimo, por exemplo, em uma de suas cartas atribui um sentido místico, de itinerário espiritual, à longa peregrinação dos israelitas no deserto, considerando cada etapa do caminho uma etapa da vida da alma.

 

Também o salmo 118, entre outros, utiliza a metáfora do caminho para expor longamente qual deve ser itinerário do homem neste mundo para atingir a bem-aventurança. “Felizes os que se mantêm sem mácula no caminho, os que andam segundo a lei do Senhor”. Beati immaculati in via qui ambulant in lege Domini…[5]

 

Ao comentar esse salmo, Santo Agostinho observa que ele apresenta uma dificuldade particular, justamente porque parece muito simples.

 

“Relativamente aos outros [salmos, todos já comentados por ele, que deixou este para o fim]”, afirma o Doutor de Hipona, “na verdade de difícil compreensão, embora o sentido seja obscuro, evidencia-se a própria obscuridade. Neste, nem ela; porque apresenta tal superfície que se acredita bastar ler e ouvir, sem se precisar de um comentador”.[6]

 

O mesmo se poderia dizer do pequeno texto de São Luís de Montfort que citamos acima. Por um lado, é claríssimo. Manter-se nos caminhos de Maria Santíssima, imitá-la. Não é difícil compreender, que “felizes são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa devoção, guardam fielmente os vossos caminhos, os vossos conselhos e vossas ordens!”. Não é o primeiro sentido da frase “é mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas as ações olhar Maria como um modelo acabado de todas as virtudes e perfeições”[7] que nos escapa. Não, como diz Santo Agostinho do Salmo 118, o sentido primeiro é claro.

 

A dificuldade, como no salmo, vem da investigação mais profunda. Andar nos caminhos de Maria? Que caminhos? Quais são os caminhos dela? Imitá-la? Em que sentido? Como podemos nós, pobres pecadores, imitar a Imaculada? Que imitação é possível de sua maternidade divina ou de sua assunção gloriosa?

 

E por outro lado, quão pouco é o que nos diz o Evangelho sobre Maria Santíssima. Sua “humildade profunda que a levou a esconder-se, a calar-se, a submeter-se a tudo e a colocar-se em último lugar”, essas mesmas características dificultam a investigação daquilo a que São Luís de Montfort chama “os caminhos de Maria”. O próprio santo o afirma no Segredo de Maria, ao dizer que Maria Santíssima é a “pérola preciosa”, o “tesouro escondido do Evangelho”[8] e, em outro lugar, que “apenas o Espírito Santo pode fazer conhecer a verdade escondida sob a figura das coisas materiais”.[9]

 

Porém, nada disso deve ser razão de desânimo. Pelo contrário, se “a glória de Deus é esconder a palavra porque não se devem dar pérolas aos porcos, nem atirar aos cães as coisas santas”[10], “a glória dos reis – do homem, que pela razão é rei da criação e pela graça é filho de Deus –  investigar o texto”.[11]

 

São Gregório Magno em seu Comentário ao Cântico dos Cânticos explica de modo magistral como a investigação das metáforas e alegorias da Sagrada Escritura nos pode conduzir ao conhecimento das verdades doutrinárias, morais e espirituais que o Espírito Santo depositou nelas:

 

“A alegoria oferece à alma afastada de Deus [nesta vida mortal, em que não vemos Deus face a face] uma espécie de máquina que a faz elevar-se para ele. Por meio dos enigmas, reconhecendo nas palavras alguma coisa que lhe é familiar, ela compreende, no sentido das palavras, o que não lhe é familiar e, graças a uma linguagem terrestre, separa-se da terra. Pois, atraída por alguma coisa de conhecido, compreende alguma coisa do desconhecido. É, com efeito, dessas realidades que nos são conhecidas, e que se fazem as alegorias, que se revestem os pensamentos divinos; então, ao reconhecer a aparência exterior das palavras chegamos à inteligência interior”.[12]

 

Embora São Gregório esteja falando, especificamente, da grande alegoria do Cântico dos Cânticos, que trata das relações de Deus com sua Igreja e com cada alma em particular, o mesmo princípio se aplica a todos os textos da Sagrada Escritura, mesmo àqueles que narram fatos históricos.

 

Assim, por exemplo, São Paulo vê nos filhos de Abraão, um da escrava, outro da livre[13] uma prefigura dos filhos da Sinagoga, escrava, e da Igreja, livre. Bem como, São Luís de Montfort utiliza a história da bênção de Jacó, conseguida por sua mãe Rebeca, para deduzir e explicar os princípios da verdadeira devoção a Maria Santíssima, que ensina em seu Tratado.[14] São apenas dois exemplos entre os inúmeros que poderiam ser citados.

 

Também nós, desejosos de compreender melhor os caminhos de Maria Santíssima, para mantermo-nos neles, para imitá-la, como ensina São Luís de Montfort, podemos interrogar a esse respeito o texto da Sagrada Escritura, buscando uma compreensão mais profunda, que nos leve a um amor mais ardente.

 

  1. 2.     Sete caminhos

 

 

No texto dos Evangelhos por sete vezes encontramos a Santíssima Virgem efetivamente a caminho. Por sete vezes o texto nô-la mostra descolando-se de um lugar para outro. Assim, tomemos esses trechos como ponto de partida de nossa investigação. Que Nossa Senhora, em caminho, nos mostre os caminhos que devemos seguir, nos mostre como imitar, em nossa miséria, sua inigualável grandeza, como manter-nos, sem nos desviar, sem sair da via, nas sendas que ela tomou.

 

 

Sete vezes, como dissemos, o Evangelho nos diz que Maria Santíssima se põe a caminho: a primeira, logo após ter concebido em seu seio puríssimo, o Verbo de Deus, quando, “se levantou e foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá”[15]; em seguida, na ocasião em que, por força do edito de César Augusto, “também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com sua esposa, que estava grávida”.[16]

 

Pela terceira vez, Nossa Senhora se põe a caminho, segundo o texto sagrado, porque “concluídos os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-no [ao Menino Jesus] a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor”[17] e de novo, desta vez em circunstâncias trágicas, quando, depois da visita e da partida dos Reis Magos, “um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.”[18]

 

Findo o perigo, com a morte de Herodes, uma quinta vez vemos a Santíssima Virgem a caminho, desta vez porque “o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel [...] e ele, levantando-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel”.[19]

 

A sexta vez em que o Evangelho nos mostra Maria Santíssima caminhando é quando “Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem. Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos. Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele.”[20]

 

 

Por fim, o sétimo caminho tomado pela Santíssima Virgem de que nos fala o Evangelho é a via crucis, o caminho do Calvário, embora sem mencioná-la explicitamente. Diz o texto: “Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam”[21], multidão entre a qual, com certeza, se encontrava a Santíssima Virgem, suposição tanto mais razoável quanto é confirmada pela tradição antiquíssima da Via Sacra, que consagra uma de suas estações ao encontro de Jesus com sua Mãe. E confirmada, ainda, pelo próprio texto do Evangelho, ao dizer que “junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.”[22]

 

 

Examinemos, em primeiro lugar, as razões deste número simbólico, o sete. Segundo a tradição exegética, cuja interpretação se fundamenta particularmente na interpretação dos números dada por Santo Agostinho[23], “os números, na maioria das vezes, não querem transmitir uma quantidade exata, um dado preciso, mas sim expressar uma realidade, um valor teológico, um dado simbólico”[24], embora o símbolo jamais possa contrariar o sentido literal.[25]

 

 

Portanto, se o Evangelho nos apresenta a Santíssima Virgem caminhando por sete caminhos, não devemos tomar esse número como casual. Pelo contrário, tanto mais que o sete é um número de grande significado simbólico.

 

 

Segundo Frei Acílio Mendes, OFM, sendo o número 7, soma de 4 com 3,

 

 

“Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição (Nm 23,4; Mt 15,36); grande quantidade (Is 30,26; Pr 24,16; Mt 18,21); totalidade (Ap 1,4); indica séries completas como no Apocalipse: 7 Cartas (Ap 2-3); 7 Selos (Ap 6,1-17); 7 cabeças (Ap 12,3). O Cordeiro imolado recebe 7 dons (Ap 5,12). O sábado é o sétimo dia; Deus fez a Criação em 7 dias; a festa de Pentecostes acontece 7 vezes 7 dias depois da Páscoa. Cada sétimo ano é sabático (descanso para a terra e libertação dos oprimidos – Lv 25) e depois de 7 vezes 7 anos vem o Jubileu. Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7 (Mt 18,22). É importante ver que no Apocalipse aparece a metade de 7, isto é, 3,5 (Ap 11,9). Às vezes diz-se: um tempo, dois tempos, meio tempo (Ap 12,14; Dn 7,25), isto é três anos e meio. Também pode ser 42 meses (Ap 11,2), é igual a 1.260 dias (Ap 12,6), isto é, sempre a metade de 7. É a duração limitada das perseguições. É o tempo controlado por Deus.”[26]

 

 

Num artigo sobre o número do homem, mencionado no Apocalipse, também o Prof. Orlando Fedeli afirma que:

 

 

O número sete – é bem sabido – significa totalidade. Com efeito, quando os Apóstolos perguntaram quantas vezes deviam perdoar o ofensor, Cristo lhes respondeu que deviam fazê-lo 70 x 7 vezes, para significar sempre, todas as vezes. O sete simboliza totalidade porque ele é composto de 3 + 4, significando pois ordem total; espiritual (3) e material (4). Por isto, este número cabe bem a Cristo, Deus e Homem, que contém toda a ordem, divina e humana. Não é então sem razão que o Apocalipse apresenta Cristo como “aquele que tem os sete espíritos de Deus” (Apoc.,) e que caminha entre os sete candelabros. O número sete corresponde a muitos totais. Sete são os sacramentos, sendo que três imprimem caráter (Batismo, Crisma e Ordem) e quatro não. Sete são as virtudes, sendo que três são teologais (Fé, Esperança e Caridade) e quatro são cardeais. Sete são os dons do Espírito Santo e sete são os vícios capitais. Sete são as cores, sendo que três são fundamentais e quatro resultam da combinação delas. Sete são as notas da escala, e três delas formam um harmônico. Sete eram as matérias da escola medieval, divididas em: Trivium (lógica, gramática e retórica) e Quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia), sendo que o Trivium era formado pelas ciências que regem a formação e manifestação do pensamento e o Quadrivium estudava as criaturas sob o ângulo matemático. O número sete pode ser formado com 6 + 1 = 7, e então ele significa a perfeição nas partes com Deus.[27]

 

 

Assim, dada essa característica de totalidade e de perfeição do número sete, seja considerado como soma de três mais quatro, seja como a adição de seis mais um[28], podemos ver nessa apresentação dos sete caminhos da Santíssima Virgem uma espécie de itinerário completo, de modelo perfeito dos caminhos espirituais pelos quais devemos passar para, à imitação da Santíssima Virgem, atingir aquela perfeição a que todos fomos chamados.[29]

 

 

São Tomás de Aquino explica em que sentido somos todos viajantes, em que sentido todos estamos a caminho, esclarecendo, assim, a razão profunda da recorrência dessa metáfora tanto na Sagrada Escritura quanto nos autores eclesiásticos:

 

 

“Somos ditos viajantes porque tendemos para Deus que é o fim último de nossa beatitude. Nesta vida, avançamos tanto mais quanto mais nos aproximamos de Deus, do qual nos aproximamos não pelos passos do corpo, mas pelas disposições da vontade. É a caridade que faz essa aproximação; pois é por ela que o espírito se une a Deus.”[30]

 

Os diferentes caminhos, portanto, são os vários modos pelos quais a caridade se exerce, os diferentes atos através dos quais, aumento no amor, a alma se aproxima de Deus. Ao estudarmos os caminhos da Santíssima Virgem, podemos, legitimamente, ver neles os modelos para nossos próprios caminhos. Podemos, todos, tomar para nós as palavras ditas por Nosso Senhor a Dom Bosco: “Eu te darei a mestra sob cuja orientação poderás tornar-te sábio e sem a qual toda a sabedoria se converte em estultícia.”[31]

 

  ***

 



[1] BERNARDO DE CLARAVAL, Santo. Sermons sur la Vierge Maria. Seguindo-a, não sairás do caminho. Tradução nossa.

[2] LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Perópolis: Editora Vozes, 2009. pp. 190-191.

[3]AFONSO DE LIGÓRIO, Santo. Via della Salute. “O livro Via della Salute chega a 700 edições. Na coletânea OARX está reunido com os opúsculos: o Settenario di Meditazioni in onore di S. Giuseppe e Novena dei morti. Apud OLIVEIRA, Luiz Carlos. Cristo nas obras ascéticas de Santo Afonso. Dissertação de Mestrado em Teologia com especialização em Teologia Espiritual. Roma: Teresianum – Pontifício Instituto de Espiritualidade, 2000.

[4] CLARET, Santo Antonio Maria. Camino recto y seguro para llegar al cielo. Publicado originalmente em catalão, em 1845, e um ano mais tarde em castelhano, língua em que já tem quase duzentas edições.

[5] Sl 118, 1. na Vulgata, nas versões modernas Salmo 119.

[6] AGOSTINHO DE HIPONA, Santo. Comentário aos Salmos. São Paulo: Paulus, 1998. V. 3, p. 370.

[7] LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Op. cit. no. 260.

[8] Cfr. LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. O Segredo de Maria, no. 70.

[9] Cfr. LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Tratado da Verdadeira Devoção, no.261.

[10] Cfr. Mt 7,6.

[11] Prov 25, 2.

[12] GREGÓRIO MAGNO, Santo. Commentaire sur le Cantique des Cantiques.Paris: 1984.

[13] Cfr Gl, 4.

[14] Cfr. LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Tratado da Verdadeira Devoção, no. 183 e ss.

[15] Lc 1, 39.

[16] Lc 2, 4-5

[17] Lc 2, 22

[18] Mt 2, 13.

[19] Mt 2, 20-21

[20] Lc 2, 42-45

[21] Lc 23, 27

[22] Jo 19, 25

[23] Cf. AGOSTINHO DE HIPONA, Santo. De Musica

[24] MENDES, OFM. Frei Acílio. Os números na Bíblia. Texto completo em: http://www.cantodapaz.com.br/blog/11-significado-dos-numeros-na-biblia/

[25] Cf. TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. I – I, q. 1. Aa 9-10.

[26] MENDES, OFM. Frei Acílio. Op. cit.

[27] FEDELI, Orlando. O número do homem. Texto completo em: http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=religiao&artigo=numero

[28] O três significa a perfeição espiritual, enquanto o quatro a perfeição material. Assim, são três as Pessoas Divinas, três as virtudes teologais, três as potências da alma, por exemplo, enquanto são quatro, por exemplo, as estações do ano, os pontos cardeais e as virtudes cardeais. O seis significa a perfeição das partes, por ser sempre tanto a soma quanto a multiplicação dos três primeiros números, enquanto o um, como é evidente, é o número que significa Deus.

[29] Cf Mt 5, 48.

[30] TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. II-II q.24 4 e 7

[31] BOSCO, São João. Memórias do Oratório Festivo.

 


segunda-feira, setembro 12th, 2011 at 3:12am

A natureza da liturgia e o acordo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X

Por Ivone Fedeli, Montfort.org.br

Depois de tê-la publicado em alemão, o Santo Padre Bento XVI deu início, em 2010, pela Libreria Editrice Vaticana, à publicação da tradução em italiano de sua Opera Omnia, recolhida em dezesseis volumosos tomos.

Dois detalhes dessa edição chamam, de início, a atenção do leitor: primeiro, o fato de que “por desejo pessoal do Santo Padre, os volumes da Opera Omnia vêm publicados sob o nome do Autor, Joseph Ratzinger”[1] e, segundo, o fato de que a publicação se inicia pelo volume IX, que trata de Liturgia, isso porque, segundo o Cardeal Bertone, prefaciador  da edição italiana, “o próprio Santo Padre esclareceu que essa sua predileção pela liturgia é estreitamente ligada ao modo em que Ele vê a “prioridade de Deus” (Primat Gottes)”[2].

Ora, restabelecer num mundo relativista e secularizado a primazia de Deus é um dos grandes leitmotiven do Pontificado de Bento XVI, que ela não cessa de recordar em vários de seus discursos e homilias.

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sábado, maio 14th, 2011 at 6:26pm

Notícias do III Congresso sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum – Uma esperança para toda a Igreja

Por Ivone Fedeli e Guilherme Chenta, Montfort.org.br

Iniciaram-se hoje, na Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, mais conhecida como Angelicum, os trabalhos abertos a todo público do “III Congresso Summorum Pontificum: uma esperança para toda a Igreja” (“III Convegno Summorum Pontificum: una speranza per tutta la Chiesa”) para o qual fomos convidados pela associação Giovani e Tradizione.

A missa de abertura, celebrada pelo Revdo. Padre Vicenzo Nuara, OP, presidente honorário da associação italiana Giovani e Tradizione e fundador da Amicizia Sacerdotale Summorum Pontificum, organizadoras do evento, realizou-se na Igreja de São Domingos, da mesma universidade, e contou com o serviço litúrgico e musical dos Franciscanos da Imaculada, jovem congregação que, a partir do Motu Proprio, aderiu à liturgia tridentina e que possui hoje cerca de setecentos membros em seus dois ramos, masculino e feminino. A adesão à liturgia tradicional tem trazido a essa congregação um número sempre crescente de vocações.

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terça-feira, outubro 19th, 2010 at 12:00pm

A batina de cem botões e a tiara

Publicado em Igreja, Ivone Fedeli
 
Publicamos hoje duas traduções de notícias do site ultraprogressita golias.fr; e fazêmo-lo com grande prazer. Porque, embora Golias tenha uma perspectiva que é o avesso da professada por nós, concordamos fundamentalmente com tudo o que essas notícias afirmam, bastando apenas notar que nos alegramos com o que os entristece e nos entristecemos com o que os alegra. Situação análoga à do famoso prelado que, surdo e incapaz de ouvir os discursos dos bispos durante as discussões sobre a infalibilidade papal no Concílio Vaticano I, ficava atento ao esquerdista Cardeal Dupanloup e sabia sempre escolher a sua posição: opunha-se, quando Dupanloup apoiava e aplaudia quando Dupanloup protestava…
 
O primeiro texto refere-se à nomeação do Cardeal Piacenza para o Congregação do Clero e o segundo à auspiciosa volta da tiara às armas papais e, em breve, à augusta cabeça do Soberano Pontífice. Dois temas que, de si, não são conexos, mas que, contudo são aspectos de uma mesma transformação que, sob o comando do Santo Padre Bento XVI, gloriosamente reinante, vai suave, mas inexoravelmente, ocorrendo na Igreja.
 
A batina – de que Golias afirma que D. Piacenza é um grande adepto – e a tiara, que faz ulular de raiva aquele site, são dois símbolos de uma mesma mentalidade, de um mesmo modo de ver a Igreja.
 
Uma mentalidade que enxerga no padre o ministro de Deus, dedicado às coisas do alto e a conduzir às coisas do alto o rebanho do Senhor. Alguém que está no mundo, mas não é do mundo e que manifesta pela batina esse seu alheamento do mundano e essa sua consagração absoluta ao serviço de Deus, através do serviço das almas.
 
Uma mentalidade que vê no Papa o Vigário de Cristo e, como tal, com direito a usar a tiara — também chamada de Regnum – coroa tríplice que indica a unidade da Igreja e a suprema suserania do Papa sobre toda a Cristandade, como Soberano Universal da Igreja Una, Soberano dos Estados Pontifícios, e Bispo de Roma. (Ver sobre isso nesta carta).
 
Portanto, uma mentalidade oposta à adaptação da Igreja ao mundo, propugnada pelo Vaticano II, e à “maciça auto-secularização” da Igreja – na expressão do Cardeal Schönbrum, ocorrida durante os quarenta anos que se seguiram ao Concílio. (Ver notícia sobre isso).
 
Duas notícias, portanto, que designam dois elos da robusta corrente de reconstruções e restaurações que o Santo Padre vai encadeando para prender, com cada vez maior solidez, a
Santa Barca de Pedro às colunas de suas tradições doutrinárias e espirituais. Daí a fúria dos neomodernistas. Daí a alegria da Montfort.
 
Ivone Fedeli
São Paulo, 19/10/2010
 
Papa Bento XVI nomeia um ultraconservador para o comando da Congregação para o Clero

 

 

 
O nome do sucessor do cardeal Claudio Hummes como Prefeito da Congregação para o Clero acaba de ser revelado. Trata-se do secretário do mesmo dicastério, o arcebispo Mauro Piacenza, um italiano 66 anos que se declara filho espiritual do Cardeal Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova por mais de quarenta anos, que o ordenou padre.
Intelectualmente brilhante, Piacenza é também ultraconservador. Obviamente, essa escolha não é fortuita. Trata-se de uma recompensa outorgada àquele que foi a locomotiva do ano sacerdotal encerrado em junho. Mas, além disso, o bispo de Piacenza encarna uma visão arquitradicional do padre. Um detalhe, mas que diz muito, é seu apego incansável ao traje eclesiático. Os padres deveriam voltar a ser vivamente encorajados a usá-lo, de preferência a batina com cem botões. Na falta dela, o estrito colarinho romano. A única coisa boa sobre esta desastrosa escolha profundamente tradicionalista – que volta definitivamente as costas não apenas à idéia de reforma do ministério sacerdotal, mas também ao espírito do Concílio Vaticano II e à intuição de outros modos de exercício do ministério sacerdotal, como o dos padres operários – é que Piacenza desconfia como de uma praga do Opus Dei e dos neoconservadores. É um tomista afastado de um misticismo vaporoso.


Esta escolha é, certamente, uma ducha fria para seu antecessor no cargo, o brasileiro Claudio Hummes, antigo arcebispo de Fortaleza e de São Paulo. Um franciscano de 76 anos de idade, outrora bastante progressista, e que não renegou seus amores da juventude (teologia da libertação ), apesar de uma nítida mudança espiritualizante, se não conservadora. Em comparação com Piacenza, porém, ele faz figura de um homem de esquerda. Sabe-se que ele defendia a tese da ordenação de homens casados como sacerdotes, o que obviamente não será o caso de Piacenza!
 
O Papa fez ainda uma outra nomeação significativa, mas de nível mais baixo do que o que se prognosticava para o interessado. Trata-se de D. Robert Sarah, 65 anos, ex-arcebispo de Conakry – para onde foi nomeado há 34 anos! – atual secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos. É um posto de confiança, principalmente devido às limitações do prefeito dessa Congregação, o Cardeal Ivan Dias, que não deu ao Papa grande satisfação e que está com a saúde debilitada. D. Sarah era citado, ainda há poucos dias, como o provável sucessor de Hummes a fim de – nas palavras de um prelado romano – dar cor a esse dicastério austero e prestigioso, o do Clero. Mas o Papa não teria nele a mesma confiança que tem Piacenza, homem da velha escola romana.
 
Mais próximo dos círculos neoconservadores, Sarah é, com efeito, considerado ortodoxo, mas não propriamente favorável ao retrocesso, e sujeito a explosões. Ele torna-se, portanto, chefe de um dicastério, mas de um dicastério menor, pois trata-se do Conselho “Cor Unum”, no lugar do alemão Paul Josef Cordes, 76, um velho amigo de Ratzinger. 
 
Piacenza será, evidentemente, criado cardeal no próximo consistório com um número bastante significativo de prelados italianos: para a Cúria, Angelo Amato, Velasio de Paolis, Fortunato Baldelli, Paolo Sardi, Gianfranco Ravasi e Francesco Monterisi. Sem mencionar dois arcebispos da Península, Giuseppe Anfossi, arcebispo de Florença e Paolo Romeo, arcebispo de Palermo. Na verdade, de todo esse areópago, Ratzinger só aprecia realmente os dois futuros cardeais … Amato e … Piacenza. Os outros só receberão o barrete vermelho devido a suas funções e a suas carreiras passadas.
 
 
A nomeação de Piacenza porta o cunho pessoal do papa. Promoções diretamente verticais (de secretário a prefeito de uma mesma congregação), são raras e desaconselháveis. Salvo uma confiança excepcional num homem incontornável. Sobretudo quando o promovido nunca teve um cargo na pastoral direta de uma diocese. O homem incontornável que é, sem dúvida, Mauro Piacenza aos olhos do Papa. Em seu plano de restauração.
 
A volta da tiara
 
Bento XVI varre a decisão de seus predecessores, Paulo VI e João Paulo II
 
Coisa anunciada, coisa logo realizada. A tiara que representa as três coroas do poder pontifical vai fazer seu come back dentro em pouco. Talvez no Natal, para a bênção urbi et orbi.
Essa festa se acompanha em geral de um apaziguamento dos conflitos ideológicos. O que é uma ocasião maravilhosa para fazer engolir uma pílula desse tamanho.
Enquanto isso, de certo modo a tiara já voltou, já que acompanha as novas armas do papa, como se pôde ver pela primeira vez no domingo 9 de outubro.
Evidentemente, um sinal muito importante.
Piscada de olho de entendimento para os tradicionalistas. Ofensa à memória de Paulo VI e dos dois Joões Paulos que não quiseram saber desse símbolo teocrático de outras eras, que exprime uma visão muito pouco evangélica do poder na Igreja.