domingo, maio 13th, 2012 at 12:00pm

Nota sobre as cartas trocadas entre os Bispos da Fraternidade São Pio X

Alberto Zucchi

Decorridos apenas alguns dias da publicação da Carta de Monsenhor Pozzo ao Instituto do Bom Pastor – IBP, sem que ainda se tenha identificado o autor do “vazamento”, vêm a público duas novas cartas trocadas entre as principais personalidades da Fraternidade São Pio X. Novamente o autor da publicação se mantém no anonimato e novamente a publicação parece querer impedir, ou ao menos dificultar, a conclusão do acordo entre o Papa Bento XVI e Dom Fellay. A chamada “guerra do xerox” que tem atingido a Cúria Romana, se ampliou para o campo tradicionalista.

A primeira das cartas tem como autores três bispos da Fraternidade São Pio X, Dom Tissier de Mallerais, Dom Williamson  e Dom Galarreta, sendo dirigida ao Conselho Geral composto por Dom Bernard Fellay, Padre Nicklaus Pfluger e Padre Alain-Marc Nély. A segunda carta é a resposta aos Bispos apresentada pelo mesmo Conselho.

As cartas contêm posições antagônicas em relação às negociações com o Vaticano. Os três bispos se apresentam contrários a qualquer possibilidade de acordo com o que eles chamam de “Roma atual”. Já o Conselho Geral considera necessária a realização do acordo sob pena de ocorrer um cisma de fato.

A troca de cartas revela a amplitude e a complexidade da crise na Igreja, e antes de tudo, nos deixa claro como é importante, necessário e fundamental rezar, pedindo a Nosso Senhor e a Sua Mãe Santíssima o auxílio neste grave momento.

Inicialmente, há de se notar que foi criada uma situação constrangedora para todos aqueles que defendem “a priori”, sem necessidade de qualquer exame, as posições adotadas pela Fraternidade São Pio X, uma vez que agora existem nela duas posições claramente divergentes.

A pergunta inevitável que surge para aqueles que têm este pensamento é: que Fraternidade seguir, a da maioria dos Bispos ou a do Conselho Geral? Infelizmente, do ponto de vista natural, a divisão parece irreconciliável, sobretudo quando se lê os últimos parágrafos da carta do Conselho Geral.

Para uma análise mais profunda e detalhada das cartas seria necessário conhecermos pormenores das negociações com o Vaticano, como também o debate que deve ter ocorrido “intra-muros” na FSSPX.  Entretanto, não há como deixar de constatar que é a posição adotada por Dom Fellay e pelo Conselho Geral que está de acordo com a doutrina e o espírito da Igreja Católica.

Para nós é com grande alegria que verificarmos que muitas das posições assumidas por Dom Fellay  estão próximas àquelas defendidas pelo nosso estimado professor Orlando Fedeli.

Dos muitos exemplos que poderíamos citar, destacamos apenas dois.

O primeiro deles é a necessidade de obediência ao Papa em tudo aquilo que ele nos manda e que não é contrário a lei de Deus: algo diferente desta posição redunda em sério risco de cisma. Neste sentido, afirma Dom Fellay:

 

“Para vocês [os três bispos da Fraternidade] Bento XIV é um Papa legítimo? Se é, Jesus Cristo pode, ainda, falar pela sua boca? Se o Papa expressa uma vontade legítima a nosso respeito que é boa, que não dá uma ordem que é contra os mandamentos, temos o direito de não atende-lo, de devolver um revés a esta vontade? Se não, em que princípio se baseiam para atuar  deste modo? Não crêem vocês que se Nosso Senhor nos ordena, Ele nos dará os meios para continuar nossa obra?”

 

O segundo exemplo refere-se às atitudes tomadas por Bento XVI em relação ao retorno que este promove na direção da doutrina católica tradicional. Ao tratar deste retorno, muitas vezes o Professor Orlando falava do Papa “cambaleante” e “vacilante” que é citado no terceiro segredo de Fátima.  Neste mesmo sentido, Dom Fellay afirma:

 

“Se quisermos aceitar que a Divina Providência conduz os assuntos dos homens, respeitando sua liberdade, então temos que aceitar que os gestos destes últimos anos a nosso favor estão sob Seu governo. Portanto, indicam uma linha – não muito direta – mas claramente a favor da tradição”

 

Causou-nos muita alegria também o reconhecimento de Dom Fellay de que existe no clero um grupo de padres, e mesmo de bispos jovens, que colaboram com o Papa na restauração. A Montfort, em seu trabalho de apoio ao Papa na restauração da Missa Antiga, em São Paulo e em todo o Brasil, através de  grupos amigos, tem encontrado, conhecido e mantido contato com muitos desses padres. Assim, a Missa Antiga que praticamente havia desaparecido das dioceses brasileiras, logo após a promulgação do Motu Proprio Summorum Pontificum, passou a ser celebrada em todas as principais capitais brasileiras, ao menos semanalmente.

Infelizmente alguns setores da Fraternidade chegavam a hostilizar esses mesmos padres e considerá-los traidores. A carta de Dom Fellay restaura a justiça reconhecendo a importância e o valor deste trabalho.

Assim, no Brasil, ao lado da cizânia, Dom Fellay encontrará um bom trigo – as vocações, citadas até mesmo na carta de Mosenhor Pozzo – e que certamente compensarão em grande medida os riscos que a Divina Providência pede à Fraternidade neste momento.

Ademais, como lembrou o Padre Nicola Bux, em carta dirigida ao superior da Fraternidade:

“Já aparecem e aparecerão cada vez mais, santas obras isoladas umas das outras, mas que uma estratégia divina liga à distância, e cuja ação constitui um desígnio ordenado, como aquele que ocorreu miraculosamente na época da dolorosa revolta de Lutero”.

Além de Padres e de numerosas vocações, Dom Fellay, passando a um “combate intra-muros” encontrará um grande número de leigos que estarão dispostos a colaborar em seu trabalho. Leigos que, como José de Artimathéia, apesar de todas as suas fraquezas, compareceram e comparecerão diante da autoridade romana para pedir o Corpo de Nosso Senhor.

Nosso Senhor, após sua Paixão e Morte, deixara então à vista dos discípulos, apenas o seu Corpo todo chagado. Parecia que tudo estava terminado e nada mais haveria a fazer. José de Arimathéia quis, dentro de todas as suas limitações, e apesar da fuga e das negações de São Pedro, cuidar, ao menos materialmente, do Corpo de Cristo. Ele não sabia, mas o que parecia o fim era apenas o começo. Não tardariam a Ressurreição e a confirmação da vocação de São Pedro.

A Montfort espera com total confiança, sobretudo neste dia em que se iniciaram as aparições em Fátima, em que Nossa Senhora predisse os graves acontecimentos que estamos vivendo, que nossos desejos sejam atendidos:

Crescem, portanto, nossas esperanças de que a FSSPX possa chegar a um entendimento com o Santo Padre, semelhante ao que ocorreu com os sacerdotes que fundaram o Instituto do Bom Pastor – IBP. Ou seja, sem que haja exigência de concessões doutrinárias que impliquem em aceitação de princípios contrários à doutrina tradicional da Igreja”.

 

Rezemos para que Deus proteja e guarde Dom Fellay e os padres que compõe o Conselho da FSSPX, na confiança de que eles tenham continuamente presentes as palavras de Moises aos israelitas, preocupados com a força daqueles que estavam na posse da Terra Prometida que precisava ser conquistada:

“Não desanimeis, não tenhais medo deles. O Senhor, vosso Deus que vai adiante de vós, pelejara pessoalmente por vós”.

Nós da Montfort temos absoluta certeza da vitória da Igreja, porque ela foi anunciada em Fátima por Nossa Senhora “por fim meu Imaculado Coração Triunfará” e por Nosso Senhor, “as portas do inferno não prevalecerão contra ti”.


domingo, maio 6th, 2012 at 7:36pm

“Ágape”: a Gnose bajuladora do Padre Marcelo Rossi

 

Alberto Zucchi

Algumas semanas atrás, a revista Veja publicou, com destaque de capa, uma reportagem sobre o livro Ágape do Padre Marcelo Rossi. Chama a atenção que uma revista cujas publicações habitualmente são contrárias à Igreja Católica e ao Papa, dê tal destaque ao livro de um padre.  Após a leitura do livro constata-se que não houve qualquer mudança na linha editorial na revista.  Ágape contém os elementos necessários para ser prestigiado por Veja: bajulação das ideias do mundo moderno e uma confusa doutrina gnóstica.

Não é, portanto, de estranhar que Veja tenha saudado o livro com indisfarçável simpatia e que este não tenha sofrido nenhum ataque por parte dos inimigos da Igreja, apesar de, segundo informa a revista, terem sido vendidos 7,5 milhões de exemplares.

A primeira causa de estranheza é que, na capa do livro e da revista, Padre Marcelo é apresentado usando hábito.  No livro, por baixo do hábito pode-se vislumbrar um “clergyman”, na revista nem isto. Ora, Padre Marcelo pertence à diocese de Santo Amaro, ele não é religioso, é padre secular e, portanto, não usa hábito de monge nem de frade. O livro e a reportagem, portanto, começam com uma propaganda enganosa… Talvez Padre Marcelo quisesse se apresentar como pobre pois, para a mídia e o espírito do mundo moderno, isto é fundamental. Como pobre, ele já se passa por uma pessoa virtuosa, sua estranha doutrina é aceita com mais facilidade. Temos assim um triste começo para o livro de um padre, do qual o mínimo que se espera é que não engane os leitores.

Logo no início da reportagem Veja dá a receita do sucesso do livro: “capítulos curtos e letras grandes”.  Para  um livro que se pretende católico não se poderia pensar em elogios que significassem menos!

Nos bons tempos em que os livros de padres procuravam ensinar a doutrina católica, a garantia da ortodoxia não eram capítulos curtos e letras grandes.  Um livro editado por um padre sempre vinha acompanhado do “imprimatur”, que era um atestado dado pelo Bispo de que o livro havia sido examinado e nada de errado fora encontrado.  Evidentemente, apesar de poderem passar despercebidos alguns erros, o “imprimatur” dava, ao menos, certa segurança para os católicos de que o livro continha uma doutrina correta. 

São Pio X, na Pascendi, exortou os bispos para que fossem vigilantes sobre as publicações:

Compete, outrossim, aos Bispos providenciar para que os livros dos modernistas já publicados não sejam lidos, e as novas publicações sejam proibidas. Qualquer livro, jornal ou periódico desse gênero não poderá ser permitido aos alunos dos seminários ou das Universidades católicas, pois daí não lhes proviria menor mal do que o que produzem as más leituras; antes, seria ainda pior, porque ficaria contaminada a mesma raiz da vida cristã. Nem diversamente se há de julgar dos escritos de certos católicos, homens aliás de não más intenções, porém faltos de estudos teológicos e embebidos de filosofia moderna, que procuram conciliar com a fé, e fazê-la servir, como eles dizem, em proveito da mesma fé. O nome e a boa reputação dos autores faz com que tais livros sejam lidos sem o menor escrúpulo, e por isto mesmo se tornam assaz perigosos para pouco e pouco encaminharem ao modernismo.” ( Pascendi  3ª. Parte item III)

                Padre Marcelo Rossi não pediu ou não obteve o “imprimatur” de Dom Fernando Figueiredo, o que é bom para Dom Fernando. Mas, infelizmente, o mesmo Dom Fernando não tomou as medidas recomendadas por São Pio X, e não proibiu a publicação do “Ágape” gnóstico do Padre Marcelo Rossi. Alegria para Veja, tristeza para os católicos.

                Como o “imprimatur” de Dom Fernando “não dá Ibope”, Padre Marcelo Rossi obteve um prefácio de Gabriel Chalita, este sim o candidato do momento! Frequentador do noticiário e amigo da imprensa, Chalita, que se declara católico e freqüenta grupos carismáticos, integra os quadros do Partido Socialista Brasileiro. Padre Marcelo não tem a aprovação de seu bispo, mas consegue um “imprimatur” de um socialista. “Ágape” fica assim, bem “ao modo” das ideias modernas: católico-socialista. Entretanto, o socialismo sempre foi condenado pela Igreja, desde Pio IX até os tempos recentes. Vejamos, por economia de espaço e não por falta de citações, apenas uma condenação do Santo Ofício em 1959, a qual foi confirmada pelo Papa João XXIII:

Resposta do Santo Ofício, 25 de março (4 de abril) de 1959
AAS 51 (1959) 271s

Eleições de delegados que apoiem o comunismo

Pergunta: É permitido aos cidadãos católicos, ao elegerem os representantes do povo, darem o seu voto a partidos ou candidatos que, mesmo se não proclamam princípios contrários à doutrina católica, e até reivindicam o nome  de cristãos, apesar disto se unem de fato  aos comunistas e os apóiam por sua ação?

Resposta (confirmada pelo Sumo Pontífice em 2 de abril): Não, segundo a norma do Decreto do S. Ofício de 1 de julho de 1949 (Denzinger – 3930)

                Não seria difícil escrever um outro livro, com muitas páginas, letras pequenas e longos parágrafos, demonstrado os absurdos e erros doutrinários de “Ágape”.  Entretanto neste artigo nos limitamos a criticar apenas dois itens: a bajulação ao mundo moderno e o fundo gnóstico das idéias do livro.

Comecemos pela bajulação do mundo moderno.

Na entrevista para Veja Padre Marcelo dá a sua receita do sucesso:

“a primeira reação das pessoas é de curiosidade. Elas querem ler o livro para saber o que significa”.

Portanto, as pessoas compram o livro pela propaganda ou pela fama do autor, elas não sabem do que o livro trata. Daí se compreende bem a preocupação em não desagradar a mídia.

Mas não é possível agradar a mídia moderna sem estar cercado de más companhias, e ao que parece, Padre Marcelo conhece bem os caminhos para ser aceito.  Assim como faziam os hereges modernistas em seus escritos, em Ágape, ao lado de grandes santos como São Tomás, Santa Terezinha e o Cura D´Ars, são incluídos personagens que representam a mentalidade moderna e herética de nossos tempos:  Zilda Arns, Nelson Mandela e Gandhi.

                De fato, a importância desses personagens se dá muito mais em razão da propaganda com que são cercados do que de suas ações efetivas. Vejamos apenas um exemplo desta distorção, realizada pela propaganda, através de um discurso de Churchill,  o grande herói da 2ª Guerra Mundial que salvou o mundo do Nazismo – e que não foi incluído no livro do Padre Marcelo – a respeito de Gandhi.

“É alarmante e também nauseante ver o senhor Gandhi, um advogado separatista de meia-tigela, posando agora de faquir, como um tipo bem conhecido no oriente, subindo, seminu, os degraus do palácio do vice-rei enquanto, ao mesmo tempo, organiza e conduz uma campanha desafiante de desobediência civil…” ( Os melhores discursos de Winston Churchill, p. 99).

                Na entrevista concedida a Veja, Padre Marcelo Rossi conta como surgiu “Ágape”. Constata-se aí que o desastre doutrinário começou no seu nascedouro.  Padre Marcelo estava deprimido. Uma das causas desta depressão teria sido a CNBB ter boicotado sua apresentação diante do Papa Bento XVI. Gostaríamos de ter a confirmação deste fato, seria uma oportunidade impar para elogiar a CNBB! Infelizmente, segundo consta, a história foi um pouco diferente. A negativa para a participação do Padre Marcelo Rossi com suas  “show-missas” veio do Vaticano, do próprio Papa Bento XVI. 

Mas a grande causa da depressão não foi esta. Padre Marcelo teve um grave acidente  quando corria em uma esteira. Ao contrário de Padre Anchieta que “mantinha a forma” caminhando entre São Paulo e Vitória no Espírito Santo para converter os índios, Padre Marcelo prefere as práticas recomendadas em seu curso de Educação Física. Mas ao que tudo indica, mesmo neste curso, ele não era muito atento às aulas ministradas.

No período em que não podia se movimentar, Padre Marcelo jogou vídeo-game com seu sobrinho.  Já quando o padre Anchieta ficou prisioneiro como refém, voluntariamente, para evitar uma guerra e, assim, não podia caminhar, ele escreveu seu longo e belo poema à Virgem Maria… Portanto, o monstrinho “Ágape”  teve como mãe a depressão e como pai o vídeo-game. Realmente não se poderia esperar algo melhor.   

Desde o início do texto, Ágape mostra a preocupação em não desafiar os tabus da ciência moderna.  A mídia não aprovaria este desafio, talvez alguns milhares de livros deixassem de ser vendidos.  Padre Marcelo logo no 1º capítulo, e com letras grandes, deixa claro que não é contra o evolucionismo, que é rejeitado pelo Genesis e diversas vezes condenado pela Igreja.

“A palavra nos diz que tudo o que há no mundo foi criado por Deus. Não diz como se deu a criação. Não diz se evoluímos de alguns animais ou se houve uma explosão ou se, nas diversas eras, o andar foi se aprimorando”. (Ágape,  p. 30).

Moisés também comparece no início do livro. Citação que certamente agrada aos donos de Veja. Entretanto, a história é apresentado com uma  modificação oportuna :

“Moisés consegue cruzar o mar Vermelho e conduzir o povo de Deus. Recebe as Tábuas da Lei, adverte o povo da idolatria e caminha incansável até a terra prometida”.

                Moises somente advertiu o Povo da Idolatria? Vejamos o que consta da Sagrada Escritura.

“Quem é pelo senhor, venha a mim! E juntaram-se a ele [Moises] todos os filhos de Levi. Disse-lhes então “Assim falhou o Senhor Deus de Israel: – Cinja cada um a espada ao seu lado passai e repassai pelo acampamento, de porta em porta, e cada um mate inclusive o seu próprio irmão, o seu amigo e o seu parente”. E os filhos de Levi fizeram o que Moises lhe tinha ordenado, e naquele dia caíram cerca de três mil homens entre o povo”.(Exodo 32, 26-29).

Para se manter amigo da “mídia” ficaria difícil apresentar um Moises que manda matar três mil homens. Isto é muito contra o espírito ecumênico moderno, e também contrário ao misterioso “Ágape”. Assim, é preferível enganar o leitor, afirmando que Moises fez uma advertência. Será que Chalita, socialista candidato e pretenso especialista em educação, se eleito, pretende implantar este tipo de advertência nas escolas públicas?

Todo o teor do livro é a filantropia. Não a caridade que consiste em amar o próximo por amor a Deus, mas a filantropia naturalista que considera que o fim último é a felicidade do homem nesta terra, e que vê o homem como um grande tubo digestivo que deve ser satisfeito. Por isto no livro não há considerações sobre o que o homem deva fazer para alcançar a vida eterna, e muito menos, sobre a necessidade de cumprir a Lei de Deus e seguir a doutrina católica. É claro que Veja não estaria disposta a fazer propaganda de um livro que enunciasse estas verdades.

Para atingir seu intento naturalista, agradando a mídia e enganando os católicos, “Ágape” pretende se basear no Evangelho de São João. Mas novamente Padre Marcelo esquece alguns trechos de São João que demonstram que o evangelista tem posições contrárias aos editores de Veja e aos absurdos defendidos no livro. Vejamos, por exemplo,  a 2ª. Epistola de São João.

“Se alguém for ter convosco sem ser portador desta doutrina não o recebais em casa nem o cumprimentais; pois quem o cumprimenta participa nas suas más ações”. (10-11).

O Apóstolo amado por Cristo, e sempre preocupado em ajudar ao próximo não se esquecia da doutrina, mesmo que isto pudesse desagradar a seus leitores.

 Passemos agora a Gnose escondida no texto.

Como o livro de Padre Marcelo trata do Ágape, para atender os leitores ele deveria explicar de forma clara o que é o tal Ágape. Mas não é isto o que acontece, pelo contrário, a explicação do Ágape é muita confusa. Ou padre Marcelo não sabe ser claro, ou não quer ser claro, ou seja, procura transmitir uma doutrina secreta através de uma explicação velada. Vejamos quantas definições são apresentadas para o Ágape.

É o AMOR DIVINO (p. 19)

É amor de Deus pelos seus filhos (p. 19)

É o amor que as pessoas sentem umas pelas outras (p. 19)

É a Revelação de Deus (p. 22)

É o Deus que cria porque ama (p. 22)

É o Deus que santifica porque ama (p.22)

É o amor de Deus que dá significado à nossa vida (p. 22)

A bíblia é Ágape (p. 27)

A mãe [Maria] já traz em si o Ágape (p.27)

Ágape é Luz (p. 34)

Ágape é o amor e o amor em ação (p. 53)

Ágape o amor incondicional (p. 65)

Ágape divino é a razão primeira da existência do universo e da história (p. 88)

Ágape é divino. É amor que não exige retribuição. É puro. É livre (p.88)

A caridade não é Eros, nem filia. É Ágape (p. 89)

A promessa do Pai, o Ágape, foi cumprida (p. 101)

O Amor Ágape é a essência da ética (p. 124)

Para quem não conhece a Gnose é impossível entender o que é o Ágape, pois tanto se refere ao amor de Deus como o amor entre os homens, como é aplicado a Cristo e aplicado ao homem, é divino mas é uma promessa. Até a Bíblia é Ágape, o que deve satisfazer os protestantes.  Tudo confuso, a não ser que se entenda o Ágape como algo divino e ao mesmo tempo humano, ou a divinização do homem, o que é a essência da Gnose,.

Estaríamos nós exagerando?  Como nos dizia um antigo padre, ex-tradicionalista que nos acusava: “Vocês vêem gnose em todo o lugar”

 Sendo a Gnose contra a razão, muitas vezes sua doutrina é exposta de forma confusa. Sendo ela contrária a doutrina católica não poderia um padre defendê-la de forma clara.  Assim, é apenas no final do livro que Padre Marcelo foi explícito:

“Há em nós uma centelha divina que é a consciência e que nos aponta o que fazer e como fazer” (p. 121)

A crença de que existe uma partícula divina no homem é um tema fundamental para a Gnose. O Professor Orlando Fedeli, que durante muitos anos estudou o tema da Gnose e apresentou esta doutrina de forma sistemática em seu livro Antropoteismo – A Religião do Homem, demonstra que, segundo a Gnose, o homem é um ser constituído dos seguintes elementos:

  1. Corpo Material
  2. Alma sensível e racional
  3. Alma pneumática, que seria o elemento divino no homem (O. Fedeli, p. 187)

                Citando Hans Jonas, um especialista desse assunto, o Professor Orlando trata desta centelha divina:

“O alquimista Zosimo fala de “nosso pneuma luminoso”, e do homem pneumático interior, etc. Em certos gnósticos cristãos é também a “centelha” e a “semente da luz”.

“Não é exagerado dizer que a descoberta desse princípio transcendente e interior ao homem, e a altíssima preocupação de seu destino, são o próprio coração da religião gnóstica”. (O. Fedeli. P. 193)

Veja-se que Padre Marcelo escolheu exatamente a mesma palavra “centelha” que os gnósticos utilizam, e Hans Jonas evidentemente não é da Montfort. Será que nosso antigo amigo do clero também o acusaria de ver Gnose em todo o lugar?

Para reforçar a idéia de um deus imanente ao homem, Padre Marcelo, duas páginas após afirmar a existência da centelha divina no homem, conclui o seu livro com a deturpada tradução que consta nas missas a partir do Ordo elaborado por Paulo VI. Quando o padre deseja que Cristo esteja com o povo, este responde:  “ele está no meio de nós” (Ágape p. 124), quando deveria dizer, em uma tradução correta do original “e com o teu espírito”.  Evidentemente, unindo esta frase àquela da centelha divina, entende-se que o que Padre Marcelo defende é que Cristo está no interior do homem, sendo este, portanto, divino. Nada mais gnóstico.

Não é somente nesta idéia final que se identifica a Gnose em Ágape. Como já dissemos o livro tem uma visão fortemente antropocêntrica:   tudo deve ser feito em função do homem. Não há obrigações para com um Deus transcendente. O importante é ser feliz e para isto devemos fazer os outros felizes, não há pecado, somente falhas sociais. Não há uma religião verdadeira.  O que importa é a Religião do Homem. Tudo isto está de acordo com a visão gnóstica do homem:

“Na Gnose, o Homem é um tema central, já que ele é o ponto que une o espiritual e o material, e é, portanto, o ponto inicial do retorno à divindade” (O. Fedeli,  p. 170).

 “A gnose é o ramo da religião do Homem que pretende a divinização do elemento espiritual do homem”. (O. Fedeli, p. 65).

Em Ágape a importância dada ao homem chega a extremos quando  Padre Marcelo afirma: “o poder só se justifica se tiver como preocupação central a pessoa humana”. O poder, ou seja, a autoridade. Ora, isto não corresponde a doutrina católica pois,  por exemplo, o Papa, que tem o supremo poder na terra, antes de atender ao homem  deve atender a Deus. Para Padre Marcelo Rossi o que deve ser atribuído a Deus é atribuído ao homem.

Na confusa apresentação do Ágape, Padre Marcelo muitas vezes o relaciona com o Amor. Este é um tema que atrai os sentimentais que, infelizmente, se multiplicaram nos meios católicos, e que dominados pelo sentimentalismo se dispensam de uma análise mais profunda do texto. Mas o tema também é importante e fundamental para a Gnose

“O gnóstico crê num Deus de Amor, porque a gnose é, essencialmente escatológica”. (O. Fedeli p. 57).

No decorrer do livro, Padre Marcelo apresenta a tese protestante de que não é mais necessário nenhum sacrifício por parte do homem, pois o sacrifício de Cristo seria o único necessário.

“Nenhum sacrifício é mais necessário. O Cordeiro Santo já foi imolado. A oferenda agradável a Deus na nova aliança é o amor”. (Ágape, p. 115)

A tese é protestante, mas também própria da Gnose como ressalta, o Professor Orlando, citando a Hans Jonas:

“Por isso dever-se-iam rejeitar a lei e as coisas deste mundo, e bastaria a fé para a salvação, sem necessidade de obras” (O. Fedeli p. 166)

                Como todas as coisas modernas, em breve, Ágape, apesar do sucesso de vendas, será esquecido. Mas infelizmente o mal às almas já terá sido feito. Melhor seria que padre Marcelo tivesse continuado a jogar vídeo-game.

Citações

1 – Carta Encíclica PASCENDI DOMINI GREGIS – SOBRE AS DOUTRINAS MODERNISTAS, do Papa São Pio X, 8 de setembro de 1907.

 

 

2 – Heirich Denzinger, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, São Paulo, Paulinas, Edições Loyola, 2007.

 

3 – Jamais Ceder – Os melhores discursos de Wiston Churchill – Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2005.

 

4 – Antropoteísmo – A Religião do Homem, Orlando Fedeli, Editora Montfort, São Paulo, 2010


sexta-feira, setembro 23rd, 2011 at 6:46pm

Nota sobre o comunicado conjunto relativo ao encontro realizado entre a Congregação para a Doutrina da Fé e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

Em 13 de maio de 2009, pouco mais de um ano antes de falecer, nosso estimado Professor Orlando escrevia neste site:

“Nós, da Associação Cultural Montfort, lutamos em defesa da Fé Católica, da Missa de sempre e do Papa. Não visamos nosso triunfo, mas o da Igreja Católica. Por isso, a Montfort está sempre pronta a dar apoio a todos os que, unidos ao Papa, façam algum bem.”

Na seqüência o Professor pedia a nossos leitores e amigos que:

 “Do mesmo modo, rogamos a todos os nossos leitores e amigos que se associem também à campanha lançada por Dom Bernard Fellay, Superior da FSSPX, para que rezem seus terços para que o Papa, com todos os Bispos do mundo, consagrem a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, tal como foi pedido por Nossa Senhora de Fátima”.

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segunda-feira, setembro 5th, 2011 at 10:18pm

Remédios sem contra indicação

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

Mesmo com alguns temores e preocupações, após a publicação da Instrução Universae Ecclesiae sobre a aplicação da Carta Apostólica Motu Próprio Summorum Pontificum, o que se tem presenciado é uma maior difusão da Missa de São Pio V. De vários lugares do Brasil temos recebido notícias de padres que se dispõem a utilizar o Missal de 1962. Em muitos desses lugares, os sacerdotes, com autorização episcopal, atendem a pedidos dos fiéis. Em outros, a iniciativa é do próprio padre.  A resistência de alguns bispos parece que vai cedendo à insistência de muitos padres, que em geral, foram formados após a implantação da Missa Nova.

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sexta-feira, junho 3rd, 2011 at 1:56am

Instrução Universae Ecclesiae: cresce a esperança

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

Ao contrário dos teólogos-internautas de plantão – que se apresentam como especialistas nos assuntos ligados à religião e para os quais o que interessa, ainda que com comentários superficiais, imprecisos e muitas vezes errados, é se tornar o primeiro a transmitir a novidade – julgamos que seria útil deixar transcorrer ao menos alguns dias, antes de nos pronunciarmos a respeito da Instrução Universae Ecclesiae sobre a aplicação da Carta Apostólica Motu Próprio Summorum Pontificum, da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei¹.

Nossa espera foi recompensada pois, neste período, tivemos a oportunidade de tomar  conhecimento de bons artigos que tratam deste tema de fundamental importância, além de obter informações de autoridades e de verdadeiros especialistas sobre a questão. Assim, pareceu-nos adequado agora comentar um pouco as conseqüências do referido documento, especialmente para aqueles que estão nas linhas da frente da batalha pela Missa.

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domingo, maio 8th, 2011 at 2:59pm

Dois pesos, duas medidas: a Missa e a Pessach

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

Recebemos algumas informações de pessoas de diferentes regiões de São Paulo que testemunharam a realização de uma cerimônia denominada “Ceia Judaica”, feitas de forma muito discreta, em paróquias católicas.  O fato que para nós se apresentou como algo surpreendente, na realidade está divulgado até na Internet, como por exemplo, em um site que se apresenta como sendo de uma comunidade católica da cidade de Boituva:

NO DIA 18 DE ABRIL A PAROQUIA DE SÃO ROQUE DE BOITUVA, CELEBROU A SUA CEIA JUDAICA, COM A PRESENÇA DE CATEQUISTAS E MINISTROS.REALIZA A MUITOS ANOS, ESSE RITUAL DO PESSACH, LEMBRANDO A HISTORIA DE PESSACH E VIVE COM TODA A PREPARAÇÃO E ENCENAÇÃO DA CEIA JUDAICA, SEGUINDO AS ORIENTAÇÕES DO MANUAL, E ASSIM TODOS PARTICIPAM E ENTENDEM O QUE ESTA CELEBRANDO.OS MINISTROS E CATEQUISTAS FIZERAM UMA PREPARAÇÃO NO DIA 11/04/2011, PARA PODER BEM CELEBRAR COM MUITA DEVOÇÃO A CEIA JUDAICA” .http://www.tribunacatolica.com.br/2011/04/ceia-judaica-na-paroquia-sao-roque-de.html)

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domingo, abril 17th, 2011 at 11:53pm

Do e-mail esquecido pelo Padre Daniel Maret e do que realmente importa: notas sobre o editorial da FSSPX no Brasil

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

DO E-MAIL ESQUECIDO PELO PADRE DANIEL MARET E DO QUE REALMENTE IMPORTA

Notas sobre o Editorial da FSSPX no Brasil

 


(Padres Alejandro Rivero, Daniel Maret e Anibal Götte, no Priorado Padre Anchieta da FSSPX em São Paulo)

 

Após a reprodução dos artigos do Padre Marcelo Tenório e do Frei Tiago de São José no site Montfort, passamos alguns dias sendo “caridosamente” citados em diversos blogs, sites, e outras denominações da Internet, onde sobejam os teólogos formados nas universidades de auto-conhecimento.  Algumas dessas citações se referiam a nós de forma direta e muitas outras mencionavam apenas, num tom escandalizado, um “grupo de leigos”, quase como se fosse uma grave falta ser um “grupo de leigos”. Chegou-se ao ponto de insinuar que os críticos da FSSPX colaboram para o advento do Anticristo.

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terça-feira, abril 5th, 2011 at 10:08pm

Padre Leonardo Holtz faz precisões ao Comunicado da Montfort sobre seu abandono da “Paróquia Pessoal” no Rio de Janeiro

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

 Recebemos do Padre Leonardo Holtz, uma carta, que abaixo transcrevemos com o intuito de corrigir “algumas imprecisões” em nosso comunicado sobre sua saída da diocese do Rio de Janeiro:

Prezado Sr. Alberto Zucchi, Salve Maria!

Gostaria de fazer a correção de algumas imprecisões, visto que o sítio da Montfort é um sítio muito visitado pelos internautas e cairía do descrédito, passando aos leitores informações erradas.

Em primeiro lugar: a citada “Paróquia Pessoal” nunca existiu e nem foi prometida pelo sr. Arcebispo. A promessa feita foi a de uma pequena capelania, ou reitoria EXCLUSIVA para a celebração do Rito Tradicional. Contudo, na realidade, o que me foi dado foi UM HORÁRIO (10 da manhã) para rezar UMA Missa Tradicional de segunda a sexta-feira. Na mesma igreja ocorrem duas missas novas diárias e outras atividades (como um grupo carismático);

terça-feira, março 29th, 2011 at 3:26pm

Comunicado sobre o abandono da Paróquia Pessoal por parte do Padre Leonardo Holtz

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

No decorrer das palestras que tivemos a alegria de realizar neste último sábado com nossos amigos do grupo Regina Angelorum, tivemos conhecimento de que o Padre Leonardo Holtz abandonara de forma abrupta a Paróquia Pessoal que lhe fora concedida por Dom Orani Tempesta, de forma semelhante ao que havia feito quando de sua breve estadia no Instituto do Bom Pastor em São Paulo. Posteriormente ainda soubemos que ele planeja se dirigir ao seminário da Fraternidade São Pio X na Argentina.

A nós causa profunda perplexidade e tristeza uma mudança tão repentina e tão radical na atitude do Padre Leonardo, no momento em que ele tinha a oportunidade de realizar um grande bem desenvolvendo uma paróquia pessoal, que permitiria a celebração diária da missa de acordo com o Missal de São Pio V. Certamente isso traz um grande prejuízo espiritual para os católicos do Rio de Janeiro e trata-se de um triste exemplo para outros bispos no Brasil que eventualmente pretendessem fazer algo semelhante em suas dioceses no Brasil.

Desta forma, sem poder conhecer os motivos que determinaram esta atitude do Padre Leonardo só nos resta lamentar profundamente este episódio, que certamente prejudica o trabalho de restauração da Missa Antiga que vem sendo promovido pelo Papa Bento XVI.

Rogamos a Nossa Senhora de Fátima que proteja o Brasil e especialmente o Rio de Janeiro nesta tão grave crise da Igreja.

Alberto Luiz Zucchi

Presidente da Montfort Associação Cultural

São Paulo, 28 de março de 2011.


sexta-feira, março 18th, 2011 at 1:15am

Bento XVI e a Esperança

Por Alberto Luiz Zucchi, Montfort.org.br

O recente noticiário a respeito da publicação possível e provável de uma Instrução da Comissão Ecclesia Dei a respeito do Summorum Pontificum deu novo alento à onda de comentários sobre a atuação do Papa Bento XVI. Esta discussão já havia tomado os ambientes chamados de tradicionais, especialmente os da Internet apesar desta não ser tão tradicional, desde o anúncio de uma nova jornada de Assis.

A leitura de muitos dos comentários me trouxe saudades do nosso Professor Orlando Fedeli (que, depois de tantos anos, nos acostumamos a chamar simplesmente de o Professor) .

Recordei-me de quando ele se referia a um fato do Antigo Testamento no qual um israelita vendo que a Arca da Aliança parecia tombar tentou segurá-la. No mesmo instante foi fulminado e morreu, porque era proibido tocar na Arca. Contava-nos o Professor que São Tomás ensina que este homem não cometeu pecado, mas com este fato Deus quis mostrar que os homens precisam ter confiança nele e mesmo quando parece que a Igreja “vai cair” não é permitido tomar iniciativas que são reservadas ao Clero. É necessário ter esperança na Providência.

Deus de nós exige confiança. Os apóstolos acordaram Nosso Senhor no meio de uma tempestade no mar, com medo de que o barco afundasse. Eles pediam um milagre e acreditavam que Nosso Senhor poderia fazê-lo, mas apesar disso eles foram repreendidos: “homens de pouca fé”. Não tiveram paciência de esperar o momento adequado que só Nosso Senhor conhecia.

Assim, em nossos dias, parece que muitos gritam contra o Papa na esperança de acordar Nosso Senhor, e parecem não ver que ainda dormindo ele pode agir, mesmo através de um Papa que outrora tenha sido um grande modernista. Um claro exemplo de querer “segurar a Arca” pode-se ver na absurda ampliação do chamado “estado de necessidade” que permitiu a alguns a criação de tribunais religiosos paralelos à autoridade papal, que se permitem declarar a nulidade matrimonial. E não duvido de que, no futuro, possa ser a justificativa até para a criação de institutos religiosos e dioceses.

De fato, o Professor tinha muita esperança de que Bento XVI seja o Papa que, de acordo com um dos sonhos de Dom Bosco, após uma grande luta, traria de volta a barca da Igreja para amarrá-la junto às colunas da Eucaristia e de Nossa Senhora. Isso não significa dizer que o Professor apoiasse todas as iniciativas do Papa. Ele jamais apoiaria o encontro de Assis,  e certamente não estaria de acordo com qualquer restrição à Missa Antiga. Mas certamente o Professor não esteve e não estaria entre aqueles que pretendem segurar a “Arca”.

O que levava o Professor a ter esta esperança em Bento XVI?

Creio eu que uma primeira razão pode ser encontrada na própria vida do Professor.

Não conheci ninguém que tivesse sido um instrumento de Deus, como foi o Professor, para operar tantas e tão profundas conversões. Digo instrumento porque ele foi o meio que Deus utilizou para realizar essas conversões. O próprio Professor não se cansava de repetir isso. Assim, o Professor sempre tinha esperança nas conversões mais difíceis e muitas vezes elas aconteciam. Dessa forma, o fato de Bento XVI ter sido um teólogo modernista, de maneira nenhuma se constituía em um impeditivo para que o Professor acreditasse em uma possível mudança de posição. Talvez seja a falta da experiência de ter realizado coisas aparentemente impossíveis, a razão por que muitos não acreditam que Bento XVI possa ser o Papa que, de forma vacilante e cambaleante, como na visão de Fátima, esteja a caminho de uma montanha encimada por uma cruz.  Como exemplo podemos citar o Sr. Sidney Silveira, que declara concordar em muitos pontos com o Professor, mas discordar dele neste assunto. Assim, nesse aspecto – só nesse aspecto! -  ele se posiciona  mais próximo das opiniões de representantes da Fraternidade São Pio X.

Mas o Professor citava outras e mais importantes razões para se ter esperança em Bento XVI, sempre lembrando que, segundo outro sonho de Dom Bosco, o tempo de afastamento da Cidade Santa é o mesmo tempo que demoraria para o retorno.

Uma destas razões é o ódio dos progressistas. Em suas aulas, contava o Professor que durante o Vaticano I um bispo velho e surdo, mas com uma doutrina muito correta se manifestava ora aplaudindo, ora protestando contra os discursos que eram feitos pelos Bispos. Alguém então o questionou como ele sabia de que forma se manifestar se era surdo. Ele então respondeu “é muito simples eu olho monsenhor Dupanloup, quando ele aplaude, eu critico, quando ele critica, eu aplaudo”. Assim, Bento XVI é muito criticado pelos modernistas e, portanto, é nossa obrigação aplaudi-lo sempre que possível. Quantas traições por parte dos modernistas não tem Bento XVI sofrido? Basta lembrar do padre Lombardi, seu porta-voz, desmentindo o Papa em tantas ocasiões.

Providencialmente, enquanto revisava este artigo apareceu em um site de importância nacional, com destaque, um artigo criticando o Papa:

“Os leitores mais atentos e fiéis do Balaio já sabem que não simpatizo muito com o papa Bento 16, o ultra conservador líder religioso alemão que está fazendo de tudo para esvaziar os templos da Igreja Católica”.

O autor é um esquerdista, cuja fraqueza intelectual e  parcialidade me dispensam de citá-lo nominalmente, mas vale a pena perguntar quando foi a última vez que a esquerda chamou um Papa de “ultra conservador”? Talvez tivéssemos que voltar aos tempos de São Pio X…

O ódio que setores progressistas demonstram a Bento XVI só é comparável à raiva que alguns setores tradicionalistas têm ao mesmo Papa. Assim os sedevacantistas se espalham como nunca, apesar de ser inegável que nenhum papa, desde o Concílio Vaticano II, tenha feito tanto pela Missa Antiga como Bento XVI. Apesar de todas as vantagens que obtivemos durante o reinado de Bento XVI, esses setores cada vez mais radicalizam sua oposição ao Papa, e nos dias de hoje já temos os “eclesiovacantistas”: segundo esses, não só a Sé de Pedro é vacante, mas não existem mais bispos no mundo todo ou nem mesmo um clero visível. Como ensina São Tomás, a “forma” de uma sociedade é dada pela  sua autoridade. Os sedevancantistas destroem a  autoridade do Papado, pois acreditam que têm direito de destituí-lo. Ao fazer isso, para eles, a  Igreja  perde sua “forma”.

De forma contrária, é curioso como alguns dos chamados tradicionalistas esquecem do bem feito por Bento XVI e somente ressaltam as suas falhas. Mas quando se trata de seus próprios grupos, agem de maneira diversa. Veja-se, por exemplo, o caso de Dom Williamson. Quanto mal não fizeram suas declarações exatamente no momento em que o Papa preparava o levantamento das excomunhões dos Bispos da Fraternidade? Quando ainda tínhamos contato com o Padre Beauvais, na época o superior da FSSPX para a América do Sul, ele comentou que existiam até padres gnósticos na Fraternidade. Nada disto é lembrado, os simpatizantes da FSSPX somente ressaltam as suas próprias atividades em favor da Missa Antiga, o que é sem dúvida um trabalho excelente.

Também foi a atuação de Bento XVI no caso da Missa que levou o Professor, e leva a nós hoje, a termos esperança neste Papa, assim como nos dá a convicção de que um retorno encontra-se em curso. E nesse caso basta lembrarmos o Motu Proprio Summorum Pontificum sobre a liturgia tridentina. Lembro-me do tempo em que os Padres em São Paulo se recusavam sequer a falar sobre a Missa Antiga. Hoje, somente na cidade de São Paulo, sem contar as cidades vizinhas, são ao menos cinco lugares onde essa Missa pode ser assistida de forma pública. E só não temos mais locais porque é difícil encontrarmos padres que estejam dispostos a celebrá-la, e não porque haja qualquer impedimento de Roma. Ademais, a afirmação de que a Missa Antiga nunca foi proibida nos tirou da posição de desobedientes, e colocou nesta situação todos aqueles que se recusaram em atender, no passado, a nossos pedidos, justificando assim o nosso trabalho de anos e transformando em um ato ilegal toda a perseguição que sofremos por causa da Missa.

Outro ponto que deixa claro este retorno foi a criação do IBP. Um Instituto que tem como rito exclusivo o missal de 1962 e que deve fazer criticas construtivas ao Vaticano II, deixa claro a todos que o Vaticano II não é um concílio infalível e que se pode pertencer a Igreja Católica sem assistir à Missa Nova. É uma pena que tantos daqueles que se atribuem um papel importante na luta pela “tradição” lhe façam tanta oposição.

Convivi trinta e oito anos com o Professor. Será que, apesar de ter um temperamento tão diferente do dele, este convívio também teria me transformado em um otimista? Mais do que todos os fatos citados anteriormente, nossa esperança, do Professor e a minha, está em que, apesar de todas as misérias humanas, inclusive as nossas, jamais deixamos de acreditar na Igreja. Isto significa acreditar na promessa de Cristo a Ela: “as portas do inferno não prevalecerão contra ti”. São Pio X na encíclica  Vehementer Nos, lamentando a lei francesa que determinou a separação entre a Igreja e o Estado, profetizou que a lei acarretaria prejuízos para a Igreja e para a França, acrescentando, entretanto, que sua preocupação com a França era muito maior do que com a Igreja, pois a promessa de perenidade feita por Cristo se dirigiu à Igreja e não à França. Também nós, apesar de nos preocuparmos com a situação da Igreja, devemos estar muito mais atentos com nossas próprias fraquezas, pois a promessa de Cristo foi feita para a Igreja e não para a Montfort ou para FSSPX. Assim, é somente na Igreja que repousa nossa esperança.

Que Nossa Senhora de Fátima nos ajude a manter a fé apesar de ver que a “Arca” está prestes a tombar. Que não tenhamos a ousadia de tocá-la, e que continuemos acreditando que Nosso Senhor, mesmo dormindo, move os céus e a terra, e também pode mover o Papa, que sempre foi e continua sendo o seu representante.