quinta-feira, fevereiro 9th, 2012 at 12:38pm

O SEMEADOR, O PLANTIO E OS GRILLOS

Publicado em Artigos da Montfort

André Roncolato Siano

Nosso Senhor sempre usava das parábolas pois, ao mesmo tempo em que pelo uso das coisas quotidianas podia ensinar aos simples seus deveres morais, podia, igualmente, pelos uso dos símbolos, ocultar dos maus as profundas verdades da revelação confiadas à Igreja, para que ela, Mãe e Mestra, fizesse o justo uso de seu poder.

Cristo, Nosso Senhor, nos Evangelhos, diz mais de uma vez palavras sobre a semeadura. Uma destas parábolas é sobre as sementes jogadas pelo semeador, que ora caem em meio aos abrolhos, ora ao longo do caminho, ora em meio às pedras e ainda algumas em terra fértil.

Respectivamente, as primeiras, são sufocadas pelos espinhos, as que caem próximas ao caminho são devoradas pelas aves, ainda as que estão em meio aos pedregulhos morrem por não terem raízes profundas. Mas as que caíram em terreno fértil germinam e dão frutos.

A Igreja, durante os séculos, vem imitando Nosso Senhor, até os dias de hoje. Em nossa época, o Papa Bento XVI está semeando a boa semente litúrgica, principalmente a semente do Vetus Ordo a qual, no Motu Proprio Summorum Pontificum, é apresentada à Igreja como um remédio eficaz na contenção dos abusos litúrgicos – que se tornaram regra em praticamente todas as paróquias brasileiras, salvo heroicas exceções – e como farol seguro nas névoas de uma crise litúrgica e doutrinal sem precedentes na Igreja. Como na parábola de Nosso Senhor, a semeadura do Papa encontra vários terrenos. E os terrenos férteis aqui no Brasil, já se mostram numerosos. Estes terrenos são os corações de muitos bons padres e alguns excelentes bispos que compreendem bem essa empresa e põe em prática, com coragem e amor à Igreja, a Santa Liturgia da Forma Extraordinária, mesmo sabendo das incompreensões que sofrerão.

Pois bem, é ai que entram os grilos!

Grilos que, como se sabe, não existem na parábola de Nosso Senhor. Para nossos amigos – e inimigos – leitores que não estão familiarizados com a jardinagem, os grilos são aqueles bichinhos estridentes, primos dos gafanhotos, que tentam estragar as plantações e o trabalho do semeador principalmente quando estão no começo, pois que as plantas são mais tenras e vulneráveis. Enfim, é o bicho que tenta estragar a semente que já brota em solo fértil.

Na semana passada, a CNBB realizou o “Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium” (1), alinhadíssimo com a agenda daquela minoria de bispos simpatizantes do progressismo cafona latino americano, como se pode notar pela fóssil terminologia adotada para o evento, por exemplo: “a Releitura da Sacrosantum Concilium, no Contexto do Concílio Vaticano II e nos Documentos Latino-Americanos.” ou então, “em busca do rosto e do lugar da liturgia na vida e na missão da Igreja como serviço para a vida plena em Cristo e ao acontecimento do Reino de Deus.” O mau-gosto aqui não é o mais importante. Mas permite antever a proximidade dos setores progressistas, ou seja, daqueles setores que promovem sistemática e propositalmente a baderna litúrgica, com o tal seminário de liturgia.  

 

Andrea Grillo

 

 

 

Pois essa ala, como principal assessor do simpósio, convidou o professor de Teologia Sacramental na Pontifícia Faculdade Teológica da Universidade de São Anselmo em Roma, e no Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, Andrea Grillo. Embora, na realidade, na Universidade Santo Anselmo esse professor tenha uma importância que, digamos, beira a irrelevância.

 

Grillo é radicalmente contra o Motu Proprio Summorum Pontificum, contra as determinações do Universae Ecclesiae e evidentemente contra a Missa Antiga. Ele, ousadamente, defende que a benevolência e justiça do Papa Bento XVI para com a Igreja e a Missa Tridentina não passam de uma “pretensão de paralelismo ritual (…) o que – já à primeira vista – se revela incoerente, ineficaz e gravemente perigoso para a comunhão eclesial.” (2) [destaques nossos, mas palavras absurdas dele].

 

Ou seja, como, num evento tão importante para a liturgia promovido pela CNBB, o principal assessor é um obstinado opositor do trabalho de restauração litúrgica do Papa? Como se dá tal destaque a um professor que emite opiniões públicas veementemente contrárias à vontade do Papa? Que combate os Cardeais – como o Cardeal Cañizares – que trabalham diligentemente para estabelecer a ordem litúrgica, solapada pela rebeldia inexplicável daqueles padres que deveriam proteger a pureza do culto?

 

Essa é uma atitude curiosa, visto que imprime certo desconforto para a Conferência dos Bispos.

 

O grilo, diferente do gafanhoto, não é tão intempestivo. Faz seu trabalho de forma mais sutil e sua presença só se nota, muitas vezes, pelos seus estalidos irritantes. O Professor Grillo faz seu trabalho usando de linguagem cheia dos rebuscamentos acadêmicos, para distrair dos argumentos. Por exemplo, é difícil compreender o que ele quer dizer quando afirma: “O Concílio promove uma Reforma para que todos possam sentir o ritual como linguagem ‘própria’(2). Se meditarmos brevemente sobre isso, o sentido mais plausível da insinuação do “prestigioso” Grillo é que todos, e cada um, devem passar a se sentir donos e proprietários do ritual. Isso explica porque cada um faz o que bem entender nas missas, desde o padre até a gerente da igreja, onde o céu é o limite da criatividade. Exatamente o que a Instrução Repentionis Sacramentum condena: “[18.] Os fiéis têm direito a que a autoridade eclesiástica regule a sagrada Liturgia de forma plena e eficaz, para que nunca seja considerada a liturgia como «propriedade privada, nem do celebrante, nem da comunidade em que se celebram os Mistérios».”

 

Grillo estrila contra a volta do Rito Tridentino também com o argumento da “tradição”: “o rito que brotou da Reforma Litúrgica é “mais antigo” do que o tridentino, porque tenta se encaminhar para a superação do individualismo – tanto clerical quanto laical – que caracteriza tão fortemente aquela versão moderna do rito romano que é o rito tridentino. . Não apresenta provas de que o Novus Ordo tenha características da forma de celebração da Igreja primitiva, mesmo porque hoje em dia se sabe que essas provas não existem. Mas com isso cai no arqueologismo litúrgico, moda anos quarenta e cinquenta, o qual, para que se saiba, foi condenado na Mediator Dei de Pio XII. Com seu furor em demolir tudo o havia sido construído em séculos de sabedoria de História da Igreja, este arqueologismo que foi um dos grandes condutores para a crise litúrgica que vivemos.

 

 

 

A ousadia do professor Grillo é bem grande se comparada aos seus argumentos… Ele chega a qualificar, pública e sonoramente, os Atos do Papa com relação ao Vetus Ordo, como “monstruum”! (2) Imaginem os bispos e padres que tiveram estômago para participaram deste evento… em que contradição ficaram!

 

O que nos parece certo, é que a presença de Grillo como principal assessor neste evento da CNBB não é nada casual. Na verdade, foi chamado um progressista bem diplomado para tentar obnubilar as consciências do clero que, pela graça de Nosso Senhor, cada dia mais, consegue enxergar a crise litúrgica a doutrinal que, nestes últimos cinquenta anos, só fez diminuir as vocações, afastar o povo, ameaçando o catolicismo de desaparecimento em algumas regiões do globo.

 

Talvez seja o momento de o clero brasileiro perguntar qual tem sido atividade da CNBB, além de repetir o programa da ONU em suas campanhas da fraternidade. Pois, ela é suficientemente ágil em colocar obstáculos a tudo que é tradicional e piedoso, ao mesmo tempo em que é clara e categórica contra a reforma eclesial querida por Bento XVI. Por outro lado, recebe com diplomacia e bajulações inconvenientes, pessoas como a senadora Marta Suplicy publicamente favorável ao aborto, políticas de controle de natalidade e homossexualismo (3).

 

Evidentemente, Marta não foi à CNBB rezar o Angelus. Nem tão pouco, os bispos são ingênuos a ponto de não saber que qualquer acordo com essa gente é apenas uma armadilha para tiranizar a Igreja e a doutrina de Cristo. Então, o que Marta foi fazer lá? Segundo ela mesma: “- Eu disse para o Crivella: fizemos um acordo com a CNBB e vocês vão ficar do lado do Bolsonaro? – contou Marta…” (3). A divulgação da desastrosa recepção da militante “pró-cultura da morte”, afinal, foi motivo de uma nota “explicativa” (4) rocambolesca, por parte da CNBB, com o intuito de desmentir o acordo mas, além da nota não explicar nada, pior, não condena a PLC 122/2006 que legitimará a perseguição dos católicos brasileiros.

 

Muito desagradável para os bispos constatar, nesse episódio, o desrespeito ao ensinamento do Papa, que dissera aos bispos da Região Nordeste essas claríssimas palavras: “Caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (Evangelium Vitae, 82) (5)

 

CNBB, doce com os inimigos da Cruz, áspera com os bispos que desejam viver na clareza doutrinal. Obstinada e clara contra a Missa Antiga e os católicos tradicionais, tolerante e cheia de mimos com os políticos anticatólicos.

 

Já não seria hora de os bispos diocesanos – que tem todo o direito e dever de interferir nesta instituição, a qual não tem natureza teológica (6), e, que, ao que tudo indica, está servindo a outros fins que não a Fé – agirem pelo direito de seguir pacificamente o Papa, sem serem incomodados por atrevidos cri-cris modernistas?

 

Utilizemos o inseticida da clareza doutrinal e cuidemos da plantação, para que se possam produzir frutos trinta por um, cinquenta por um.

 

Na festa de São Cirilo de Alexandria, bispo.

 

AMDG,

 

André Roncolato Siano

 

 

 

(1)   Começa o Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium

 

 

 

(2)    Andrea Grillo – Por uma Ecclesia verdadeiramente Universa (Unisinos, entrevista por Moisés Sbardelotto)

 

 

 

(3)  CNBB e Marta fazem acordo sobre projeto que criminaliza homofobia 

 

 

 

(4)  Nota de Esclarecimento

 

 

 

(5)   Discurso de Bento XVI aos Bispos da Região Nordeste V em 28.10.10.

 

 

 

 

 

(6)   Motu Proprio Apostolos Suos.

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, fevereiro 7th, 2012 at 7:14pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 3 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano - parte 1 e parte 2.

Mário Silva Martins

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, na qual naufragam inúmeras almas. Com frequência, se dá o fato curioso de que uma alma, que acaba de tomar a determinação de ser “humilde de coração” ou de “aceitar com alegria qualquer espécie de humilhações”, pouco depois queixa-se imensamente se alguém cometeu a imprudência de lhe causar um pequeno incômodo ou uma humilhação involuntária e insignificante.

Para ajudar a prática da humildade, recomendamos a leitura do Filotéia, ou Introdução à vida devota, de São Francisco de Sales, que trata dela na terceira parte de sua obra.

Os autores espirituais nos oferecem três meios principais para chegar à verdadeira e autêntica humildade de coração:

a) Pedi-la incessantemente a Deus

Todo dom perfeito vem do alto e desce do Pai das luzes” (S. Tiago I, 17).

A humildade perfeita é um grande dom de Deus, que Ele costuma conceder aos que o pedem com oração incessante e fervorosa. É um dos pedidos que deveriam ser feitos com maior frequência em nossas orações.

Dom Columba Marmion recitava a Ladainha da Humildade

Dom Columba Marmion costumava, com frequência, recitar uma “ladainha da humildade”. Ainda que a eficácia da oração não esteja ligada a uma fórmula determinada, muitas almas tiram grande proveito de uma oração já estruturada. Por isso copiamos imediatamente abaixo o texto usado por Dom Columba Marmion:

Senhor, tende piedade de nós; Jesus Cristo, tende piedade de nós; Senhor, tende piedade de nós.

 

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-nos.

Jesus, manso e humilde de coração, atendei-nos.

 

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser amado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser buscado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser louvado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser honrado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser preferido, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser consultado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser elogiado, livrai-me, Senhor!

 

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser desprezado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser rechaçado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser caluniado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser esquecido, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser debochado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser injuriado, livrai-me, Senhor!

 

Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por mim!

São José, protetor das almas humildes, rogai por mim!

São Miguel, que fostes o primeiro a combater o orgulho, rogai por mim!

Todos os santos justificados pela humildade, roguem por mim!

 

Oração.  Ó Jesus, cujo primeiro ensinamento foi este: ‘Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração’, ensinai-me a ser humilde de coração como Vós”.

b) Colocar os olhos em Jesus Cristo, modelo de humildade

Jesus Cristo nos deixou exemplos sublimes de humildade, eficacíssimos para nos mover a praticar esta grande virtude, apesar de todas as resistências de nosso amor próprio desordenado. Nosso Senhor mesmo pede que tenhamos os olhos nele: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (S. Mateus XI, 29).

A vida de Nosso Senhor pode ser dividida em quatro etapas e, em todas elas, a humildade brilha com caracteres impressionantes:

1) Na sua vida oculta:

a) Antes de nascer: se aniquilou no ventre de Maria; se submeteu a um decreto caprichoso de César; à pobreza; à ingratidão dos homens (“e os seus não o receberam”)…

b) Em seu nascimento: pobre, desconhecido, de noite, num presépio, com pastores e animais…

c) Em Nazaré: vida escondida, trabalhando manualmente, pobre aldeão, sem estudos em universidades, sem deixar brilhar um só raio de sua divindade, obedecendo São José e Nosso Senhora, talvez até mesmo a um patrão depois da morte de São José…

Motivos abundantes para fazer com que morramos de vergonha por nosso orgulho.

2) Em sua vida pública:

a) Escolhe seus discípulos entre os mais simples: pescadores e um publicano!

b) Busca e procura converter não só ricos como Lázaro e José de Arimatéia, mas também  os pobres, pecadores, afligidos, as crianças, os pouco favorecidos.

c) Vive pobremente, prega com simplicidade, usa figuras e comparações humildes ao alcance do povo, não busca chamar a atenção…

d) Faz milagres para provar sua missão divina, mas sem qualquer ostentação, exige silêncio, foge quando querem fazê-lo rei…

e) Inculca continuamente a humildade: a parábola do fariseu e do publicano, a simplicidade da pomba, a pureza das crianças, “Não busco minha própria glória”, “Não vim ser servido, mas servir”.

Ecce Homo de Juan De Juni (1560)

3) Na sua paixão:

a) Um triunfo tão simples no domingo de Ramos, com um pobre burrinho, com ramos de oliveira, mantos que se estendem a seus passos, povo humilde que o aclama, os fariseus que protestam…

b) Lava os pés dos discípulos, inclusive os de Judas! É traído no Getsemani: “Amigo, a que viestes?”, amarrado como um malfeitor perigoso, abandonado por seus discípulos…

c) Esbofeteado, ridicularizado, insultado, escarrado, açoitado, coroado de espinhos, vestido de branco como um louco, Barrabás lhe é preferido…

d) Na cruz: blasfêmias, risadas: “Pois não era o Filho de Deus?”. Podia ter feito a terra engoli-los, mas aceita o espantoso fracasso humano…

4) Na Eucaristia:

a) À mercê da vontade de seus ministros, exposto, contido no sacrário, visitado, esquecido…

b) Completamente escondido: na cruz ainda se deixava ver na sua humanidade…

c) Falta de respeito, afrontas, sacrilégios, profanações horríveis, sacerdotes que não tomam cuidado com as partículas que se desprendem das hóstias e mesmo com hóstias inteiras, fiéis que vêem a hóstia como um pão qualquer…

Sem dúvida, a consideração frequente destes sublimes exemplos de humildade que nosso divino Mestre nos deu tem enorme eficácia para conduzir-nos até a prática heroica desta virtude fundamental.

Os santos não ousavam sonhar com grandezas e triunfos humanos vendo seu Deus tão humilhado. Uma alma que deseja verdadeiramente santificar-se deve ver, definitivamente, o seu nada e começar a praticar a verdadeira humildade de coração, seguindo Nosso Senhor: “Quem quiser vir depois de mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga” (S. Lucas IX, 23).

c) Imitar Nossa Senhora, Rainha dos humildes

Depois de Jesus, Nossa Senhora é o modelo mais sublime de humildade. Sempre viveu na atitude de uma pobre escrava do Senhor. Raramente fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas próprias de uma mulher na pobre casa de Nazaré, aparece no Calvário como mãe do grande fracassado, vive escondida e desconhecida sob os cuidados de São João depois da ascensão de Nosso Senhor, não faz qualquer milagre, não se sabe exatamente onde morreu…

Sob seu olhar maternal devemos praticar a humildade de coração para com Deus, para com nosso próximo e para conosco.

Para com Deus, submetendo-nos a Ele e adorando-o sempre, agradecendo-o por tudo o que temos, trazendo sem cessar em nosso espírito que viemos do nada, do limo da terra, que sozinhos não podemos nada e dependemos absolutamente de Deus.

Por isso, nossa origem mais ou menos nobre ou importante neste mundo não tem valor algum, vindo do limo da terra. Pesar nossas qualidades é uma perda de tempo: tudo o que somos e temos vem de Deus e podemos perder tudo do dia para a noite. O orgulho é uma grande mentira e Santa Teresa de Ávila dizia que a humildade é andar na verdade (Moradas sextas 10, 7).

Para com o próximo, admirando nele, sem inveja ou ciúmes, os dons naturais e sobrenaturais que Deus lhe deu, não observando intencionalmente seus defeitos, desculpando suas faltas com caridade, salvando ao menos a boa intenção e considerando-nos inferiores a todos. As incontáveis vezes nas quais não aproveitamos as graças que Deus nos deu são motivos mais que suficientes para que cada um de nós se tome verdadeiramente como o último dos pecadores, “o pecador por excelência”, como dizia o publicano em sua oração. Qualquer outra pessoa teria sido mais fiel com as graças que temos recebido.

Finalmente, para conosco, amando nossa miséria, nunca esquecendo que, se cometemos um só pecado mortal, fomos resgatados do inferno, éramos prisioneiros do demônio. Nunca nos humilharemos o suficiente. Aceitemos as ingratidões, o esquecimento, o desprezo da parte dos outros. Nunca falemos de nós mesmos, nem bem, nem mal. Se falarmos mal existe o perigo de hipocrisia. Somente os santos sabem fazê-lo bem. Se falarmos bem, existe o perigo da vaidade e soa mal diante de quem nos ouve. A melhor coisa a fazer é calar, como se não existíssemos no mundo.

E assim, quanto mais uma alma subirá até Deus pela prática das boas obras e pela oração, tão mais estável estará pelo profundo fundamento da humildade, referindo a Deus tudo o que é, tem e recebe.

A humildade é andar na verdade, e a verdade nos libertará.


quarta-feira, fevereiro 1st, 2012 at 4:20pm

A Beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual – Parte 3

Publicado em Artigos da Montfort

Este artigo é uma continuação de A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (parte 2), e Parte 1

Pierre de Craon Lejeune

Nos artigos anteriores nós estudamos duas definições de beleza, uma de Santo Alberto Magno e outra de Santo Tomás de Aquino. Diferentes nos termos, elas são perfeitamente complementares entre si.

Vimos que a beleza está fundamentada em critérios objetivos, presentes na realidade das coisas: matéria e forma, ordem, proporção, perfeição. Uma vez que Deus dispôs todas as coisas com medida, número e peso” (Sabedoria 11, 21), só nos resta uma conclusão a tirar: o mundo visível manifesta com abundância as maravilhas da bondade de Deus.

A beleza da criação está, portanto, por todas as partes. Mas, por vezes escondida aos nossos sentidos e contida no decurso quotidiano das coisas, ela muitas vezes só se revela às pessoas que sabem observar com atenção.

Lembramos que a beleza tem uma relação estreitíssima com a inteligência. O conhecimento da beleza pertence essencialmente ao intelecto. Ordem, proporção, perfeição são conceitos contidos na noção de beleza e que só podem ser percebidos pela inteligência.

Todavia, por causa da união do corpo com a alma, para que o homem conheça a beleza de algo necessariamente atuam os sentidos (sobretudo a visão e a audição) e a imaginação. Daí dizermos que os olhos e os ouvidos têm seu agrado nas coisas belas.

Mas isto não significa que somente as pessoas de grande capacidade especulativa, intelectuais, dedicadas ao estudo e que possuem um diploma universitário são capazes de distinguir o feio do belo. Atualmente os universitários, em sua grande maioria, possuem os gostos artísticos mais bizarros… Quem nunca passou perto de um muro pichado e depois não se deu conta de que passava ao lado (ou dentro) de uma faculdade?…

Todos os homens têm inteligência. Alguns, ainda que sejam lavradores e pedreiros, ainda que não sejam grandes especuladores, a cultivam bem. São capazes de produzir coisas belas, simples ou mesmo grandiosas. Outros, mesmo se estudam numa universidade (sobretudo se estudam numa universidade…), podem cultivá-la mal. Acham que grafite, pichação, é arte. Admiram Stravinsky. Vestem-se com bermuda, chinelo, camiseta regata, falam palavrões, fumam maconha. Constituirão a elite intelectual do país…

Um lavrador pode ter pouca habilidade intelectual, encontrar dificuldade em distinções finas, em sistematizações abstratas. Porém, se possuir princípios corretos, verá o mundo e as coisas que existem nele com clareza. Saberá distinguir o feio do belo. Uma pessoa que tenha diploma, se possuir princípios tortos, julgará algo bom como mau e vice-versa.

Depois de termos estudado, em nossos artigos anteriores, a objetividade da beleza – extremamente contestada hoje – começaremos agora a analisar os cinco elementos necessários à sua existência concreta.

Com isso esperamos poder ajudar na formação das inteligências, para que elas estejam mais bem preparadas para distinguir o feio do belo, para separar o joio do trigo na esfera artística, para saber se uma obra de arte é conforme às verdades que a luz natural da razão, sem a Revelação, nos apresenta. Pois, se é importante que uma obra de arte não ensine heresias, também é importante que ela não transmita tolices… Assim, gostaríamos que nossos leitores possam, com maior propriedade, dizer se algo é belo e por que motivo.

Estes cinco elementos são: a variedade, a integridade, a proporção, a unidade e o esplendor.

Alguns responderão que Santo Tomás menciona somente três propriedades necessárias para que algo seja belo: “Para a beleza, três coisas são necessárias: primeiramente, integridade ou perfeição (…); devida proporção ou consonância; e clareza” (Suma Teológica I, q. 39, a. 8). Não contestamos esta afirmação de Santo Tomás. O que faremos é explicitar dois elementos (variedade e unidade), contidos implicitamente entre os três elementos mencionados pelo Doutor Angélico, com a finalidade de tornar nossa explicação mais didática.

Estes elementos estéticos não possuem a mesma importância nem o mesmo papel.

Primeiramente, todos são igualmente necessários, mas nem todos têm uma influência igual sobre a beleza.

Depois, eles não se comportam do mesmo modo nos diferentes gêneros de beleza. Estes elementos se conformam à natureza dos seres nos quais se encontram. A unidade de nossa alma é diferente da unidade de uma sonata ou de uma cena pintada num quadro. O esplendor de um corpo é diferente do esplendor de um anjo.

Além disso, eles exercem entre si uma influência mútua, se completam, fazem um contrapeso entre si e mantêm o equilíbrio do ser.

Finalmente, é necessário saber que dois dentre eles pertencem propriamente ao princípio material das coisas: a variedade e a integridade; dois deles pertencem ao princípio formal: a unidade e o resplendor. A proporção pode ser vista como estando relacionada à matéria e à forma juntamente.

Ao longo de nosso trabalho ficará mais claro como a filosofia escolástica e os princípios de Santo Tomás de Aquino sabem colocar cada coisa no seu lugar, unificando a parte sensível ou material com a parte formal, inteligível, da beleza.

Nos nossos próximos artigos mostraremos a natureza, o papel e o lugar de cada um destes cinco princípios que compõem a beleza.


domingo, janeiro 29th, 2012 at 10:59pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 2 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo – Parte 1

Mario da Silva Martins

Um exemplo de humildade: Santa Maria Madalena de Pazzi.

São Francisco de Sales dizia que “a vida dos santos está para os Evangelhos como a partitura tocada por um músico está para a partitura escrita”. De modo que, depois de termos apresentado para o leitor o Evangelho escrito, queremos mostrar agora o Evangelho vivido. Como o Evangelho brilha mais compreensível, mais palpável nas vidas dos santos!

Santa Maria Madalena de Pazzi teve por pai Camillo Geri de Pazzi, cuja família era aliada à família Médicis e, por mãe, Maria Laurência de Bondelmonte, cuja origem não era menos ilustre.

Ela nasceu no dia 2 de abril de 1566, em Florença, e recebeu o nome de Catarina no momento do batismo, em honra de Santa Catarina de Siena, por quem sempre teve terna devoção. À medida que crescia foi crescendo também em santidade, ficando sempre feliz quando podia ouvir a doutrina católica ou conversas piedosas.

Com sete anos, tendo encontrado num livro o Símbolo de Santo Atanásio, ela o leu com tanto gosto que foi correndo mostrá-lo à sua mãe, o que indica que Deus já lhe dava luzes sobre o mistério da Santíssima Trindade.

Aprendeu o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo com avidez, repetindo-os frequentemente e ensinando-os aos pobres. Quando seu pai a levava ao campo, ela agrupava as jovens à sua volta para ensiná-las a doutrina católica.

Cedo ela começou a se aplicar à oração, antes que tivesse idade para ser formada por diretores. Deus mesmo era seu mestre. Buscava os lugares mais solitários e tranquilos da casa para rezar e concebeu um desejo tão grande de agradar a Deus que não tinha mais nenhum gosto pelas doçuras que o mundo busca tão afoitamente. Seu fervor era tanto, que seu confessor viu-se obrigado a permitir que comungasse com 10 anos, o que na época era excepcional. Fez voto de castidade com 12 anos, sendo tão fiel a ele que durante toda a sua vida nunca cometeu algo que pudesse servir de reprovação nesta matéria.

Alguns anos mais tarde, quando seu pai buscará um marido que lhe seja conveniente, ela não dará seu consentimento e pedirá a permissão de abraçar o estado religioso, o que lhe será concedido.

Catarina escolhe então a Ordem do Carmelo, porque nele se comungava quase todos os dias. Ela ingressou na ordem na vigília da Assunção de Nossa Senhora, mas depois de aí passar quinze dias ela se vê obrigada a sair, por obediência ao seu pai. Ele lhe pedia isso com a intenção de prová-la na sua resolução.

Após uma provação de três meses ela obteve, enfim, a permissão de retornar, com a benção de seus pais. Na vigília do primeiro domingo do Advento, em 1582, com 16 anos, ela voltou ao Carmelo e, no sábado seguinte, dia da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, foi unanimemente recebida como religiosa.

Após sua profissão perpétua ela tinha êxtases quase quotidianos, nos quais Deus lhe ditava coisas tão elevadas que seus superiores designaram duas irmãs que as transcrevessem.

Expulsou o demônio do corpo de uma jovem, mandando imperiosamente que saísse. Foi favorecida por Deus do dom de fazer milagres e também profetizava. Predisse ao cardinal Alexandre de Médicis, arcebispo de Florença, que fora visitá-la, que um dia ele seria Papa. Ela renovou sua predição quando este cardeal foi enviado pelo Papa Clemente VIII à França como legado junto ao rei Henrique, o Grande: “Este prelado possui atualmente uma grande honra, mas ele possuirá uma ainda maior. Ele será elevado ao sumo pontificado, mas não terá esta dignidade por muito tempo. Quando desejará abraçá-la, ela passará num instante”. De fato, Alexandre de Médicis, eleito papa com o nome de Leão XI, em 1605, viverá somente 26 dias após sua eleição.

O Padre Lourenço Brancácio, de origem toscana e carmelita observante, escreveu uma biografia desta santa admirável, onde nos relata um de seus exames de consciência:

Na tarde de 6 de abril de 1592, ajoelhada em terra para se examinar do decurso daquele dia, foi arrebatada em êxtase, em que começou a rezar o Salmo Domine, quid multiplicati sunt (Salmo 3), etc. Depois do qual disse também o Salmo Qui habitat (Salmo 90). Este acabado, começou a falar com o amantíssimo Jesus, desta maneira:

Ó Jesus meu, qual foi hoje o primeiro pensamento que tive? Sinto muito, que não foi de vós. Temi que já fosse passada a hora de chamar as vossas esposas [chama assim as religiosas do convento] para vos louvarem: e não foi de apresentar-me à Vossa Majestade e glorificar-vos. Depois disso fui para o coro a fim de oferecer-me a vós: porém não o fiz resignando-me em tudo, e por tudo, à vossa vontade. Ó benigníssimo Deus, que misericórdia eu poderei receber de vós, pois me não entrego toda a vós? Tende de mim misericórdia, ainda que eu a não mereça, senão antes mil infernos.

Depois, quando comecei a vos louvar, me deixei levar mais da pena de ver algumas que faltavam nas cerimônias e com as inclinações devidas, que do cuidado de vos honrar e oferecer os meus louvores, em união com os louvores que vos dão os Espíritos bem-aventurados [os anjos]. Bem tenho de quê vos pedir misericórdia, ó grande Deus, pois no que tão imediatamente toca a vós, que são vossos louvores, cometo tantas imperfeições.

Depois, quando cheguei a receber vosso precioso Corpo e Sangue (que devia ser com todo o afeto que me era possível), me pesa de que não tive intenção de recebê-lo em memória de vossa Paixão sagrada, como vós dissestes, nem tampouco tratei de unir a minha alma convosco, mas somente de como faria aquietar o meu coração.

Bem cedo ouvi a palavra divina; porém, mais considerei se era verdade que nos fossemos, como vós fazíeis dizer ao vosso Cristo [chama os pregadores e confessores de “Cristos do Senhor”], do que no amor que me mostráveis. Mas, Senhor meu, eu não sei outra coisa mais que vos pedir misericórdia.

Quando fui receber os frutos de vosso Sangue no Sacramento da Penitência, mais considerei o que havia de dizer ao vosso Cristo, para sossegar o meu coração, do que o benefício que me fazeis em lavar a minha alma no vosso Sangue, e não me confiei de vós, que me daríeis graça com que o meu coração se aquietasse.

O Senhor meu! E quais foram as minhas palavras, que hoje proferi? Foram de repreensão: e o modo pouco pacífico de dizê-las, e suave, foi causa de se inquietar o coração daquela [acusa-se de ter repreendido uma noviça]. E o que pior foi, faltei à caridade, pois vendo o seu coração inquieto, não procurei sossegá-lo, para poder se unir convosco. Eis aqui, Senhor, o que tiro de tanta união e luz que me dais, que se a désseis a qualquer outra criatura, ela vos seria muito mais agradecida. E eu pobre e miserável, nenhum fruto tiro, pois falto à caridade para com vossas esposas. Perdoai-me por amor de vossa Paixão sagrada.

Depois, quando fui falar àquela criatura, acuso-me de que fiz uma grande hipocrisia, fazendo-me ser reputada pelo que não sou. E suposto que fiz aceno às vossas criaturas, não mereci que elas me entendessem. E assim signifiquei ter a minha alma unida convosco [diz isto porque estando no locutório com uma de suas tias, foi alí arrebatada em êxtase; tinha acertado com outras freiras que, quando fizesse certo aceno, levassem-na embora da grade, porque pressentia o êxtase]; e bem sabeis quantas vezes anda distraída fora de vós. Mostrei ser religiosa: e bem sabeis vós o que sou. Clamo a vós misericórdia, e perdão desta grande hipocrisia, e vos ofereço o vosso Sangue, por meu remédio derramado com tanto amor. Se me mandais para o inferno, ó Senhor, como o mereço! O meu devido e próprio lugar será aos pés de Judas, pois tanto vos tenho ofendido.

Fui depois dar o sustento necessário ao meu corpo. Porém, que intenção tive eu de vos agradar e honrar nesta ação? Não me lembrei de apresentar-vos tantos pobrezinhos, que porventura andam muito tempo batendo pelas portas em busca de um bocado de pão, e talvez que não acham quem lhes o desse. E eu miserável e indigna, sem algum trabalho meu (e o que é pior, sem merecimento), me provê a religião [a Ordem Carmelita] de tudo o necessário. E não só cometi contra vós esta ofensa, senão de mais a mais outra, que fui ocasião daquela vossa esposa falar tantas palavras em lugar onde eu sabia não ser lícito falar. Eis aqui, Senhor, como em todas as minhas obras não acho mais que ofensas vossas. Como, pois, poderei aparecer em vossa presença e pedir-vos mercês e graças, e a encomendar-vos vossas criaturas, sendo tantas as minhas culpas que não mereço useis comigo de misericórdia? Porém, Senhor, aquele amor que vos moveu a baixar à terra, e derramar vosso Sangue, ele vos mova a ter misericórdia com a minha alma.

Depois, quando não fui louvar-vos em companhia das outras vossas esposas, foi só por minha culpa. Porque tanto que aquela criatura me disse, que não fosse, logo me acomodei a ficar. Ah Jesus meu! Se ela me pedira outra qualquer obra de caridade, não me acharia tão pronta. Ó Deus meu, como quero eu ter confiança de chegar onde para sempre vos louve em companhia dos Anjos, se tão facilmente falto em vos louvar em companhia de vossas esposas? Eu vos ofereço o vosso Sangue, para que mediante seu valor infinito, me concedais misericórdia.

E nas obras que fiz, que intenção tive, Deus meu, de vos honrar e glorificar; pois vejo que mais me pesa do tempo que vós com vosso favores me levais, do que do tempo em que falo em vos oferecer a minha alma? É verdade que fiz sinal àquelas vossas virgenzinhas de que era hora de silencio, mas não considerei quanto mais obrigada era eu a estar em silêncio unida convosco.

Depois, quando houve de invocar o Espírito Santo, estava com a mente tão desviada de vós, que me não lembrava o como se havia de fazer: de sorte que as outras que não têm tanto tempo de religião, tiveram mais prudência que eu. Eis aqui, meu Jesus, como em todas as obras tenho faltas. Como poderei, pois, aparecer em vossa presença, tendo-vos tão ofendido? Torno a oferecer-vos o vosso Sangue, que só mediante o seu valor, espero perdão.

E que grande falta foi aquela outra, quando houve de fazer aquela obra? Por poupar-me a um pouco de trabalho em dar alguns passos, faltei ao que era obrigada a fazer, e vali-me de outra que me fizesse caridade, e eu não fiz caridade com a minha alma. Mais interesse tive em não me cansar um pouco, do que em que vós não vos afastásseis de mim. Em todas as minhas obras acho defeitos. Porém vós, não olhando para vossas ofensas, senão para vossa bondade, de novo me atraístes a vós, onde me destes tanta luz, que se a désseis a outra qualquer alma, faria mais fruto, do que em mim miserável.

Depois fui dar refeição ao meu corpo, e não me lembrei de tantos pobrezinhos que não têm de que sustentar-se, e a mim, Senhor, me dais provisão com tanta largueza. De novo vos apresento vosso Sangue por tantas ofensas, que contra vós cometo.

Ai de mim, Jesus meu, que estamos no fim do dia, e não fiz coisa alguma sem ofensa vossa! Pois agora, que farei? Ó meu Deus, se tanto vos tenho ofendido neste dia, não quero eu acrescentar mais outra ofensa, qual seria não confiar em vossa misericórdia. E suposto, Senhor, que a não mereço, todavia o vosso Sangue, que por mim derramastes, me fará confiar em vós, que me haveis de perdoar”.

E o seu biógrafo, no relato de sua vida, continua:

Feito este exame, ainda sem sair do êxtase, se retirou a um lugar oculto do Convento, onde tomou uma aspérrima disciplina [isto é, flagelou-se], em castigo destes levíssimos defeitos. Deste modo examinava esta alma a sua consciência cândida, e assim a sacudia do mínimo pozinho que a pudesse manchar”.

O reconhecimento de nossa miséria

Depois de vermos este exame de consciência de uma santa, como aparecerão diante de Deus as distrações voluntárias que temos durante nossas orações e nossos terços, recitados com a pronúncia toda atropelada, com os olhos curiosos de ver o que se passa a nossa volta, com falta de modéstia do corpo e cheios de impaciência no espírito, interrompendo-o pelo menor motivo?

Como aparecerão as missas que assistimos sem preparação, tendo a memória ocupada com muitas coisas que não têm importância na hora da missa? E os padres que rezam missa com tanta negligência na observação dos ritos, com pressa e inquietação?

Como aparecerá o modo com que tratamos nossos próximos, quando estimamos maliciosamente suas ações ou, o que é pior, suas intenções? Como aparecerá nosso interesse por seus defeitos naturais e morais, nossas desculpas para não ajudá-los nas suas necessidades, o fato de criarmos atrito com eles por um motivo leve e mesmo por nenhum motivo ou por amor próprio ferido?

E nossas palavras de queixas, mentirosas, inúteis, de orgulho, de elogio próprio, murmurações? Como aparecerão nossos pensamentos tidos longe da presença de Deus, nossas obras feitas com intenções menos retas?

E se não encontramos tantas faltas assim em nosso exame, é porque nos falta diligência em fazê-lo e humildade. Se uma grande santa como Santa Maria Madalena de Pazzi, que tinha todas as suas ações bem cercadas pela santa regra do Carmelo, encontrava no fim do dia tantas coisas para se penitenciar, o que será de nós, que vivemos no mundo? Assim como não há rio que não recolha lodo, galhos e folhas nas suas margens, assim também não há homem que não cometa faltas nas suas relações com os outros homens ao longo de um dia.

E, se neste exame de consciência, Santa Maria Madalena de Pazzi pede perdão a Deus até de coisas que não são pecados e que não são coisas a serem acusadas em confissão, mas de coisas que podiam ter sido feitas com maior perfeição, o que será de nossa negligência em fazer penitência pelas faltas grandes que cometemos?

Não há dúvida de que nenhum de nós tenha qualquer motivo para se orgulhar e para se crer virtuoso. Ao contrário, depois de examinarmos nossas consciências – e nelas encontraremos misérias em maior número e gravidade do que as que Santa Maria Madalena de Pazzi via em si mesma e das quais fazia grandes penitências –, devemos nos humilhar diante de Deus e nos inclinar à compaixão das misérias e desgraças do próximo, considerando-as de certo modo como próprias, enquanto prejudicam nosso irmão e enquanto podemos nos encontrar em situação semelhante ou pior: “Por que tu olhas a palha que está no olho de teu irmão, e tu não vês a trave que está no teu olho?” (S. Mateus VII, 3).

Que grande exemplo de humildade nos dá Santa Maria Madalena de Pazzi. Ela compreendeu bem a parábola do fariseu e do publicano.

Deus mesmo manifesta em máximo grau a sua onipotência compadecendo-se misericordiosamente de nossos males e remediando nossas necessidades.

A humildade e a caridade andam juntas. Tendo maior luz de nossas misérias, compadeçamo-nos também das de nossos próximos e busquemos ajudá-los, sobretudo pelo exemplo. Quantos de nós, para não dizer todos, fomos levados ao amor de Deus e a uma vida melhor depois de conhecermos alguém exemplar, que mostrava na sua vida a luz e a beleza que existem em servir a Deus, e que suportou nossas misérias com paciência e misericórdia para nos conduzir até um lugar mais alto?

A prática da humildade

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, onde naufragam inúmeras almas.

Assim, para dar ao leitor alguns instrumentos que permitam a obtenção desta virtude tão fundamental da vida cristã e sua prática, apresentaremos, na próxima parte (e última) deste artigo, os principais meios para chegar à verdadeira humildade de coração.


segunda-feira, janeiro 16th, 2012 at 4:30pm

Despretensiosas Considerações de Leituras

Ivone Fedeli

Na Pascendi, que acabo de reler, São Pio X fala, ao tratar da ação dos modernistas, segundo a tradução oficial em português, publicada no site do Vaticano[1], nos “perniciosos conselhos” que os “mais perigosos inimigos da Igreja” “tramam” “já não fora, mas dentro da Igreja”.

Como a acepção de “conselho” que cabe no trecho é a de “assembleia de pessoas que deliberam sobre certos assuntos”, muito mais que a de “opinião, parecer sobre o que convém fazer”[2] e como quem “trama”, fá-lo de forma oculta e traiçoeira, o trecho, sem dúvida, parece aludir a reuniões secretas mantidas por eclesiásticos – “dentro da Igreja” – para planejar sua ação de substituição da “verdade católica” por sua perniciosa doutrina, cujo núcleo é, segundo São Pio X, a “imanência vital”.[3]

Portanto, São Pio X denuncia a existência de uma sociedade secreta, formada por padres, dentro da Igreja, com objetivo de substituir a doutrina da Igreja por uma doutrina contrária a essa.

Que é essa a interpretação correta do texto papal, só se confirma quando se lê o Motu Proprio Sacrorum Antistitum, publicado por São Pio X em 1º. de setembro de 1910, ou seja, três anos após a Pascendi:

“Nenhum bispo ignora, acreditamos, que uma raça perniciosíssima de homens, os modernistas, mesmo depois de a encíclica Pascendi Domini Gregis ter-lhes tirado a máscara, não desistiu de seu propósito de perturbar a paz da Igreja. Eles não cessaram, com efeito, de procurar e de agrupar em uma associação secreta novos adeptos e de inocular com eles, nas veias da sociedade cristã, o veneno de suas opiniões, pela publicação de livros e de brochuras de que eles suprimem ou disfarçam o nome dos autores.”[4]

Aqui o texto é claríssimo: “clandestinum foedus”, “associação secreta”, em português corrente, “sociedade secreta”. Ora, como é evidente e muito claramente mostra o grande especialista em sociedades secretas, A. H. de Oliveira Marques, as sociedades secretas quando condenadas ou perseguidas, não se dissolvem, apenas se tornam ainda mais secretas para continuar a agir[5].

É verdade que muitos historiadores afirmam que os modernistas, após a condenação de São Pio X, submeteram-se e desapareceram e, com eles, o Modernismo.

Jean Rivière, por exemplo, em seu famosíssimo Le Modernisme dans l’église, não hesita em asseverar que “com o juramento antimodernista[6] terminou a história da crise doutrinária que grassava havia dez anos. A partir desse momento, tudo autoriza a considerar o modernismo como desaparecido”.[7]

Embora, em português, o termo “desaparecido” possa ser sinônimo de “oculto” – o que o Modernismo se tornou, sem dúvida – a tese do autor é clara. Desaparecido aqui é sinônimo de aniquilado, destruído.

E para apoiar sua tese, Rivière cita autoridades. E autoridades de simpatias modernistas, o que, segundo ele, daria mais peso a suas opiniões. Houtin, por exemplo, que afirma:

“Um olhar lançado sobre a catolicidade, em 1911, oito anos depois da eleição de Pio X, bastava para constatar que o Soberano Pontífice tinha nela inteiramente restabelecido a ordem teológica. Em quase todo lugar ele tinha conseguido esmagar os inovadores.”[8]

E também Schnitzer: “Na França o modernismo parece inteiramente morto; na Itália, também, ele não se mexe mais; na Alemanha, ele voltou à ordem.”[9]

Ora, ao contrário do que quer Rivière, o fato de serem até líderes modernistas, como Schnitzer, que afirmam que o modernismo morreu não prova absolutamente a sua destruição. Pelo contrário. Claro que o que eles queriam é que os católicos – e o próprio Sumo Pontífice, se fosse possível enganá-lo – pensassem que o inimigo estava morto ou, melhor ainda, nunca tivera vida.

É, aliás, uma tática corrente das organizações secretas, quando denunciadas, procurarem fazer crer que nunca existiram ou, pelo menos, que se dissolveram.[10]

Isso mesmo afirmava, em um interessantíssimo artigo escrito para comemorar os cinquenta anos do Sacrorum Antistitum, Monsenhor Joseph Clifford Fenton, que atuou como perito do Cardeal Otavianni no Concílio Vaticano II:

“No Sacrorum antistitum São Pio X assevera muito claramente da existência de uma aliança secreta ou um foedus clandestinum entre os modernistas de seu tempo. Por qualquer que seja a razão, essa verdade, observada e atestada por São Pio X, e claramente evidente para qualquer pessoa que se dê ao trabalho de estudar a história do movimento modernista, sempre foi singularmente desagradável para os simpatizantes do Modernismo e para os Modernistas. Parece ter sido precisamente com o objetivo de causar confusão sobre esse ponto em particular que os partidários do Modernismo tenham tido extremos cuidados para iludir as pessoas, fazendo-as imaginar que a oposição a Loisy, a Von Hügel e a seus comparsas, dentro da Igreja Católica, era fundamentalmente obra de uma secreta aliança de sinistros e reacionários católicos.”[11]

                Ou seja, o interesse dos modernistas era fazer crer que sua sociedade secreta nunca existira, que nem sequer o Modernismo existira ou que, se acaso tinha existido, tinha se desintegrado com as condenações de São Pio X.

                Coisa muito difícil de acreditar e em que mais bem informados nunca acreditaram. Outro perito do Concílio Vaticano II, o Padre Berto, por exemplo,

“estava persuadido da persistência dessa sociedade secreta. Ele o afirmava mais fortemente que nunca próximo ao fim do Concílio, em 1965: ´Há os cegos, sim, há os surdos, e medíocres e covardes. Mas nem cegueira, nem surdez, nem mediocridade, nem covardia fornecem a explicação exaustiva do que nós vemos. É preciso que haja “outra coisa”, e essa outra coisa só pode ser a persistência do modernismo no sentido da Pascendi, a persistência da sociedade secreta dos modernistas´ ”.[12]

                Sem tratar das causas daquilo a que se assistia, e muito menos de sociedades secretas modernistas, também o Cardeal Ratzinger afirma em suas memórias que os eventos do Concílio eram espantosos, preocupantes – “a mudança no clima eclesial, que ia se manifestando cada vez mais, me inquietou profundamente”[13] – e, justamente, provocadas por uma inexplicável e inexplicada sujeição de determinados bispos a determinados teólogos:

“Ao voltar de Roma eu encontrava o ambiente eclesiástico e teológico cada vez mais eufórico. Aumentava a impressão de que nada na Igreja estava firme e tudo podia ser revisto. Cada vez mais o concílio aparecia como um grande parlamento, que podia mudar tudo e a dar a tudo uma nova forma, de seu jeito. [...]

“O que estava acontecendo, porém, era de um alcance ainda mais profundo. Se os bispos, lá em Roma, podiam modificar a fé (pois assim parecia ser), por que, afinal, somente eles? Em todo caso, ela podia ser mudada; assim parecia, contrariamente a tudo o que se pensara até então; parecia não estar mais subtraída ao poder humano de decisão; era determinada por ele, ao que tudo indicava. Sabia-se, entretanto, que os bispos aprendiam com os teólogos aquelas novidades que agora apresentavam; para os fieis era um fenômeno curioso que seus bispos parecessem mostrar em Roma um rosto diferente daqueles que tinham em casa. Pastores, que até então eram considerados rigorosamente conservadores, apareciam de repente como porta-vozes do progressismo – mas isso vinha de sua própria cabeça? O papel que os teólogos tinham assumido no Concílio criava, de forma cada vez mais clara, uma nova autoconsciência entre os doutos, os quais agora se entendiam como os verdadeiros administradores do conhecimento, e, por isso, não podiam mais aparecer como subordinados aos pastores”.[14]

                Ninguém ignora que essa reviravolta, essa tomada de poder pelos teólogos, mais que consentida, promovida por alguns bispos, fora cuidadosamente preparada em reuniões sigilosas antes e durante o Concílio. Com efeito, como afirma Wiltgen,

“O público quase não ouviu falar da poderosa aliança estabelecida pelas forças do Reno [os teólogos e bispos da Alemanha, Áustria, Suíça, França, Holanda, banhados pelo Reno, e da vizinha Bélgica] e do papel considerável que ela representou na elaboração da legislação conciliar.”[15]        

                Na mesma obra o autor dá vários exemplos de como, em comissões não oficiais, alguns bispos e alguns teólogos tinham preparado com antecedência e com minúcia sua ação durante o concílio.

Dezessete bispos holandeses, por exemplo, reuniram-se para discutir os esquemas prévios enviados por Roma a todos os bispos do mundo. Decidiram que prepararia sobre eles um comentário que seria largamente difundido entre os Padres Conciliares, comentário esse que acusava de fraqueza todas as constituições preparadas por Roma e elogiava enormemente o esquema sobre a Liturgia, único dos esquemas de caráter progressista, pois a Comissão litúrgica preparatória era dominada por expoentes do movimento litúrgico.[16]

“De fato”, esclarece Wiltgen, “o autor único do comentário, publicado a coberto do anonimato [sempre o anonimato, já denunciado por São Pio X], era o Pe. Schillebeeckx, O.P., de origem belga, professor de dogma na Universidade Católica de Nimègue e teólogo da hierarquia holandesa. Seu texto criticava violentamente as quatro constituições dogmáticas, que ele acusava de representar apenas uma escola de pensamento teológico. Só o último esquema [o da liturgia] era, segundo ele, uma verdadeira obra prima.”[17]

                Não é uma grande coincidência o fato de que todos os esquemas prévios tenham sido rejeitados durante o Concílio, com exceção do esquema sobre liturgia?

Tudo indica, portanto, que, longe de ter desaparecido, as alianças, conselhos, ou sociedades secretas dos modernistas – que já durante o Concílio eram chamados de progressistas[18] – continuavam ativíssimas.

Aliás, tratando do tema da sociedade secreta modernista num estudo recentíssimo, Roberto de Mattei conclui:

“Os historiadores ignoram o problema levantado por São Pio X e apresentam o Modernismo como uma corrente brotada espontaneamente do curso irrefreável da história. Quem leva a sério as palavras do Pontífice, não pode deixar de pôr-se a pergunta que levanta Jean Madiran: “Em que data a associação secreta dos modernistas cessou de existir? Não se pode sequer perguntar se por acaso ela não se teria ulteriormente “reconstituído”; para “reconstituir-se, ela tem que ter cessado de existir”; mas ignora-se se e quando ela tenha terminado. Mas não apenas se ignora a resposta; finge-se ignorar a pergunta”.[19]

Todas essas considerações, baseadas quase inteiramente em antigas leituras, ocorreram-me em consequência da uma leitura nova. A leitura, ainda em curso, de uma biografia do Padre Auguste Valensin, obra velha já de cinquenta anos, mas que eu nunca tinha lido[20].

            

    Comprovando as afirmações de São Pio X – que fala de “publicações em que eles [os modernistas] suprimem ou disfarçam os nomes dos autores” – , é sob as iniciais M.R. e H.L. e sem assinar o Prefácio que escrevem, Marie Rougier e o, então padre, Henri de Lubac, pai da Nova Teologia, condenada por Pio XII na encíclica Humani Generis, de 1956.

                E quem é o Padre Valensin? Menos conhecido do público em geral, o padre Valensin foi um Jesuíta, ordenado em 1910, professor de Filosofia na Faculdade Católica de Lyon e cuja importância como elo entre os modernistas e os criadores da Nova Teologia foi fundamental.

                Embora selecionados com o espírito de uma hagiografia, espírito que os pequenos trechos que conectam as citações de Valensin reforçam, os textos escolhidos para publicação por De Lubac, contam muitos fatos interessantes e curiosos.

                Alguns sem relação com problemas doutrinários, como, por exemplo, a dolorosa provação familiar de Valensin ao descobrir, já noviço Jesuíta – e irmão de um padre na mesma Companhia, já próximo da profissão solene, o Padre André Valensin – que seu pai era um judeu convertido, que, tendo escondido esse fato a seus filhos durante toda a vida, teve-o revelado por sua morte, já que os procedimentos legais necessário nessa ocasião obrigaram ao exame de documentos.

                Naquele tempo – 1902 – as constituições Jesuítas proibiam a admissão na Ordem Jesuíta de qualquer pessoa de raça judia, desde um decreto promulgado no século XVI por uma Congregação Geral da Ordem. O impedimento era dirimente e foi dirimido, sem que haja nisso nenhum desdouro para os dois irmãos.

                O que soa estranho, no entanto, é o fato de que o Padre Auguste Valensin, que segundo De Lubac “devia ter por sua raça um interesse cada vez mais profundo”, a tal ponto  levar esse “interesse” que, “em seu leito de morte, encontrará subitamente uma força extraordinária para se proclamar, como São Paulo, Judeu filho de Judeu”.

A comparação com São Paulo não parece cabível, pois São Paulo quando trata desse tema na Segunda Epístola aos Coríntios[21] é para desqualificar outros pregadores, judeus como ele, de raça, que queriam introduzir entre os cristãos práticas judaizantes. E tanto é verdade que ele, que só se gloria na Cruz de Cristo[22], se sente completamente desvinculado dos judeus que logo em seguida fala deles usando não a primeira pessoa do plural – nós, os nossos – mas a terceira, eles: “Cinco vezes os judeus me deram os quarenta açoites menos um.”[23] E, na hora da morte, é cristão, que, com o sangue, São Paulo se proclama.

Mas, enfim, esse é um fato que, embora curioso, nada tem a ver com o problema de que vínhamos tratando. Muito mais do que isso, o que chama atenção na biografia hagiográfica do Padre Valensin são sua amizades, suas ligações.

Por exemplo, Blondel, de quem se torna aluno na Universidade de Aix em 1897, aos dezoito anos. E de quem divulgará a obra, tomando o cuidado de envolvê-la em brumas, para evitar as condenações:

“De ainda maior gravidade são as cumplicidades de que se beneficia o filósofo modernista [Blondel] para espalhar discretamente sua doutrina: para responder às acusações argumentadas dos grandes teólogos romanos, ele pode, sobretudo, contar com o Padre Auguste Valensin (Jesuíta) que protege a filosofia blondeliana mergulhando-a em neblina; ele não hesita em usar citações truncadas de Blondel, fazendo cuidadosamente desaparecer todas as passagens heterodoxas. Existem, assim, duas versões de Blondel: uma versão oficial, revista e corrigida pelo Padre Valensin, para poder enfrentar sem perigo as controvérsias com os teólogos romanos, e uma versão clandestina, abundantemente difundida (por baixo do pano) nos seminários, nas casas de formação religiosa e nas universidades”.[24]

Sobre os anos de formação de Valensin, quando se inicia seu contato com Blondel, diz De Lubac: “O mestre desses anos é Maurice Blondel. Sabe-se pela Correspondência publicada os vínculos que logo se deviam estabelecer entre eles.”

                Vínculos profundos, sem dúvida, pois no momento de decidir sobre sua vocação – que De Lubac atribui, sem citar sua fonte, à influência de A Ação, o livro de Blondel cuja condenação, que ameaçava sempre, ele temeu toda vida[25], a ponto de impedir até sua morte o lançamento da segunda edição[26] – nesse momento, depois de consultar por carta o Padre Bremond, Valensin, a conselho deste, escreve para Blondel.

                O Padre Bremond, o primeiro consultado, morava em Lyon, tinha feito seus estudos como Jesuíta na Inglaterra, pois os Jesuítas estavam banidos da França. De onde ele e o jovem Valensin se conheciam? Que relações tinham? Não se diz. Bremond foi professor de Teilhard de Chardin, e considerava-o brilhante. Teria sido também professor de Valensin? Talvez. Bremond era de Aix.

                Bremond era de Aix. E era modernista. Violentamente modernista. Grande amigo de Tyrrell. Tyrrel, que era calvinista, converteu-se ao catolicismo em 1879, entrou na Companhia de Jesus em 1880, foi ordenado em 1891, expulso da ordem Jesuíta em 1906 e excomungado em 1907. Excomungado vitando. Mas Bremond foi a seu enterro e fez nele um pequeno discurso.

                Claro, era seu amigo. Amicíssimo. Tanto que foi para ele que Tyrrel escreveu, sem nenhum temor:

“Roma não pode ser destruída num dia, mas é preciso fazê-la cair em pó e em cinza de modo gradual e inofensivo; então nós teremos uma nova religião e um novo decálogo”.

                Diz-me com quem andas e eu te direi quem és.

                Bremond era também amicíssimo de Von Hügel, um dos primeiros defensores do ecumenismo e, segundo Loisy um importante “agente de ligação”[27] entre os modernistas da Inglaterra, da França e da Itália.

                E Bremond, por sua vez, abandonará, também ele, a ordem Jesuíta, em 1904.

                Mas Bremond aconselha Valensin, que lhe pedira conselho. Sabe que o jovem pensa em ser religioso. E hesita… “sob que hábito? Branco ou preto? A priori… eu tenderia para o branco – um dos meus amores também…”[28]

Vê-se que o discernimento de Bremond quanto a vocações era grande. Na vida religiosa, sem hesitar, ele só supõe que Valensin possa escolher entre Jesuítas e Dominicanos. E são tantas as ordens e congregações… Por que seria? Talvez porque era a elas que pertenciam, em grande parte, os grandes líderes modernistas… Hesita e encoraja Valensin a consultar Blondel.

                Na carta a Blondel, Valensin interroga:

“Jesuíta, Dominicano, Oratoriano, até Dominicano ensinante; – eu pensei longamente nos dominicanos – pouco nos Jesuítas; eu não conheço os Oratorianos”.[29]

                Curioso. Se ele não conhece os Oratorianos, por que, entre tantas e tantas ordens e congregações, os Oratorianos lhe vieram à cabeça? Será que seus amigos tinham amigos nos Oratorianos? Não sei.

                O que se sabe é que o Padre Laberthonnière era Oratoriano. Modernista. Amigo de Blondel, diretor dos Annales de philosophie chrétienne, onde o filósofo escrevia, desenvolvendo as teses que formulara em L’Action.

                O que se sabe, também, é que foi entre os Oratorianos – talvez por pura caridade, certamente – que foi recebido e viveu até a morte o Padre Primo Vanutelli, que fora modernista, mas que, abjurando seus erros, prestara o juramento antimodernista exigido por São Pio X. Mas jurara falso. Segundo seu executor testamentário, Francisco Gabrielli, que publicou em 1978 o testamento de fé do padre Vanutelli[30],

“o seu posto é entre aqueles modernistas que permaneceram, depois da condenação, dentro da Igreja, que se dobraram à sua disciplina, mas mantendo no coração as suas íntimas convicções”.[31]

É verdade. Manteve, em seu coração, até o fim, suas convicções. Convicções completamente contrárias à doutrina da Igreja. O próprio Vanutelli se pergunta, em certo ponto de seu “testamento espiritual” em que ele nega até mesmo a divindade de Cristo:

“E se alguém que lesse estas folhas me perguntasse: ‘E que sobra, então do Cristianismo, se Jesus não é Deus?, respondo-lhe desde já: Sobra pouco, pouco; Deus, o anseio e a alegria do universo”.[32]

                Bem, mas voltemos a Valensin. Afinal, o Padre Vanutelli nem era Oratoriano. Só vivia com eles. E Valensin sequer conhecia os Oratorianos… Hesitava principalmente entre Jesuítas e Dominicanos, com tendência para os Dominicanos, que Bremond também preferia.

                Mas Blondel preferiu os Jesuítas…Valensin foi fazer um retiro com os Dominicanos e decidiu: será Jesuíta.

                E foi Jesuíta.

                Como Jesuíta será amigo e protetor de Teilhard, será mestre de De Lubac, o qual, por sua vez, será o pai da Nova Teologia que, condenada por Pio XII, terá seus mestres e suas doutrinas reabilitadas no Concílio Vaticano II. A influência do pensamento de De Lubac no Concílio é incalculável.

                É verdade que, segundo Wiltgen, durante as votações do Concílio Vaticano II,

“A posição dos bispos de língua alemã sendo regularmente adotada pela aliança europeia, e a posição da aliança sendo, o mais das vezes, adotada pelo Concílio, bastava que um teólogo fizesse sua opinião ser adotada pelos bispos de língua alemã para que o Concílio as fizesse suas. Ora, tal teólogo existia: era o Padre Karl Rahner S.J.

Em princípio, o Padre Rahner era apenas o teólogo do Cardeal König. De fato, numerosos membros das hierarquias alemã e austríaca recorriam a suas luzes… Durante uma conversa privada, o Cardeal Frings declarou que o Padre Rahner era ‘o maior teólogo do século’”.

                Mas é verdade também, que, segundo afirmava o Osservatore Romano em oito de setembro de 1991, ao louvar De Lubac como sendo “sem sombra de dúvida um dos maiores fundadores da teologia católica contemporânea”, que “nem Karl Rahner nem muito menos Hans von Balthasar seriam pensáveis sem ele.”[33]

                Como se vê, uma cadeia completa, sem elo faltando, de pessoas e de ideias, do Modernismo ao Concílio Vaticano II. Uma corrente em que os elos, embora muitas vezes invisíveis para o grande público católico, sempre se mantiveram bem firmes, bem coesos.

                Concluímos aqui estas reflexões. São apenas simples – despretensiosas –  reflexões de leitura que oferecemos a nossos leitores.

Claro, não se trata de uma demonstração acadêmica. Muito mais, de uma conversa entre amigos, que se dizem, simplesmente, o que lhes parece.

                Mas há teses acadêmicas sobre o tema. Não, infelizmente, sobre a questão da sociedade secreta modernista, levantada por São Pio X e cuidadosamente enterrada pelos modernistas.

Mas sobre a questão das ligações, pessoais e doutrinárias.

O historiador Jürgen Mettepingen publicou em 2010 um estudo sobre a Nova Teologia. Um estudo que já comprei, mas ainda não li, e que, pelo índice, parece interessantíssimo. O nome do livro é Nova Teologia – Herdeira do Modernismo, precursora do Vaticano II.[34]

                O título promete. Quem sabe possa ser ocasião de novas, e igualmente despretensiosas, reflexões.

São Paulo, 14 de janeiro de 2011.
Festa de Santo Hilário de Poitiers, que defendeu a divindade de Cristo.



[2] São os dois sentidos que o Dicionário Aurélio atribui ao termo.

[3] Para uma compreensão da importância doutrinário do imanentismo, ver FEDELI, Orlando. A Religião do Vaticano II – Parte II in www.montfort.org.br.

[4] PIO X, Santo. Motu Proprio Sacrorum Antistitum. Acta Apostolicae Sedis, ano II, v. II, n. 17, p. 44. Tradução nossa.

[5] Cfr. OLIVERIA MARQUES, A. H. História da Maçonaria em Portugal – v. I – Das Origens ao Triunfo. Cap. I – Da origem às primeiras perseguições, p. 21 e ss.

[6] Publicado em apêndice ao Motu Proprio Sacrorum Antistitum, que citamos acima.

[7] RIVIÈRE, Jean. Le Modernisme dans l’Église. Paris: Librairie Letouzey et Ané, 1929, p. 538.

[8] HOUTIN, A. Histoire du Modernisme Catholique. p. 385, apud RIVIÈRE, op. cit. p.538.

[9] Apud RIVIÈRE, op. cit. p.538.

[10] Cfr. OLIVEIRA MARQUES, ibidem.

[11] FENTON, Joseph Clifford. The Sacrorum Antistitum and the background of the oath against Modernism in The Ecclesiastical Review. Outubro, 1960, p. 244. Tradução minha

[12] CHAMPROUX, Anne Isabelle et alii. La compagnie De Lubac in Savoir e Servir, tomo 56 p. 81. Tradução minha.

[13] RATZINGER, Cardeal Joseph. Lembranças de minha vida. Autobiografia parcial (1927-1977). São Paulo: Paulinas, 2007. pp. 113-114.

[14] Idem, pp. 112-113.

[15] WILTGEN, Pe. Ralph M. Le Rhin se jette dans le Tibre – Le Concile Inconnu. Paris: Editions du Cédre, 1976. p. 7. Tradução minha.

[16] Cfr. DE MATTEI, Roberto. Il concilio Vaticano II – Uma storia mai scritta. Torino: Lindau, 2010, p. 238. Tradução minha.

[17] WILTGEN. Op. cit., p. 23. Tradução minha.

[18] Sobre essa identificação entre Modernismo e Progressismo, além de ligações históricas, pessoais, se poderia dizer, fáceis de constatar, ver, para os aspectos doutrinários, MESSINEO, Pe. Antonio. Civiltà Cattolica. “Il progressismo contemporâneo”, q. 2541 (1956), pp. 225-238, apud DE MATTEI, op.cit. p. 96.

[19] DE MATTEI, Roberto. Il concilio Vaticano II – Uma storia mai scritta. Torino: Lindau, 2010.

[20] M.R. e H.L. ( Marie Rougier e Henri de Lubac). Org. Auguste Valensin – Textes et Documents Inédits. Paris: Aubier Éditions Montaigne, 1961. Todos os textos citados são de minha tradução.

[21] Cfr. 2Cor 11, 22.

[22] Cfr. Gl 6, 14.

[23] 2Cor 11, 24.

[24] Apud CHAMPROUX, op. cit., p. 52.

[25] Porque fazia questão de continuar dentro da Igreja, para poder continuar seu trabalho de conquista dos intelectos para o Modernismo. Numa carta a De Lubac, que o censurava por timidez na exposição de suas ideias, ele diz: “ quando, há mais de quarenta anos, eu abordei problemas para os quais não estava suficientemente armado, reinava um extrinsecismo [a doutrina de que a revelação é exterior, de que “a Fé vem pelo ouvido” (Rm 10, 17)] intransigente e seu tivesse dito então tudo o que você deseja, eu me teria acreditado temerário e teria comprometido todo o esforço a tentar, toda a causa a defender, enfrentando censuras que teriam sido inevitáveis e, certamente, retardantes. Era preciso ter tempo para amadurecer meu pensamento e cativar os espíritos rebeldes.” Apud CHAMPROUX, op.cit. p.52.

[26] Cfr. LÉTROUNEAU, Alain. L’herméneutique de Maurice Blondel: son émergence pendant la crise moderniste. Montréal: Edition Bellarmin, 1998. Blondel et la crise moderniste, pp. 16 e ss. O que Blondel temia era a condenação nominal de sua obra. O imanentismo, que ele defende, foi condenado por São Pio X na Encíclica Pascendi, como sendo o núcleo do Modernismo.

[27] Cfr. NEDONCELLLE, Maurice. La pensée religieuse de Friedrich von Hügel. Paris: Vrin, 1935 p. 75 apud DE MATTEI, op. cit. p. 72.

[28] DE LUBAC. Op. cit. p. 19.

[29] Idem, ibidem.

[30] GABRIELI, Francesco. Ed. Il testamento di fede di don Primo Vanutelli in Centro Studi per la Storia del Modernismo, Fonti e Documenti, no. 7 (1978), pp. 119-253, apud DE MATTEI, op. cit. p. 80.

[31] Idem, ibidem, p. 81.

[32] Idem, ibidem, p. 81.

[33] Apud CHAMPROUX, op. cit. p. 47.

[34] METTEPENNINGEN, Jürgen. Nouvelle Thélogie – New theology – Inheritor of Modernism, Precursos of Vatican II. Londres: T & T clark International, 2010.


quarta-feira, dezembro 28th, 2011 at 8:15pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (Parte 1 de 3)

Publicado em Artigos da Montfort

Mário Silva Martins

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (Parte 1 de 3)

 

Introdução

A humildade é uma das virtudes mais importantes da vida cristã. Ela é tão importante que os autores espirituais costumam consagrar páginas abundantes a tratar dela.

A humildade não é, certamente, a maior de todas as virtudes. Várias virtudes estão acima dela, dentre as quais a fé, a esperança e a caridade. Mas, em certo sentido, ela é a virtude fundamental de todo o edifício espiritual, um fundamento negativo, removendo os obstáculos para receber o influxo da graça, que seria impossível sem ela.

Neste sentido, a humildade e a fé são as duas virtudes fundamentais de todo o edifício sobrenatural. Este edifício apoia-se sobre a humildade como sobre um fundamento negativo (removendo os obstáculos) e sobre a fé como sobre um fundamento positivo, estabelecendo um primeiro contato com Deus.

Davi louva grandemente a humildade no Salmo 118:

Foi bom para mim ser humilhado, para que eu aprenda vossos preceitos” (Salmo CXVIII, 71).

Muitas pessoas que eram puras e simples de coração, sem falsidade, terminaram com a alma estragada depois de acolherem o orgulho, que é um vício bem sorrateiro.

Observemos que não são as humilhações que santificam, mas a humildade. Por isso São Tiago escreve que “Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes” (S. Tiago IV, 6).

Os maus endurecem nas provações, mas os bons se corrigem.

Alguns padecem humilhações com rancor, outros com generosidade. A estes últimos, Deus concede graças abundantes.

Foi para mostrar o quanto a humildade é agradável aos olhos de Deus que Nosso Senhor contou a parábola do fariseu e do publicano. Esta parábola é um exemplo do qual cada um deve tirar proveito, seja ele fariseu, seja ele publicano.

Estamos no começo do mês de março do ano 30, algum tempo depois de Nosso Senhor ter contado a parábola do ecônomo infiel e antes da ressurreição de Lázaro, a aproximadamente um mês da sua crucificação e morte. Estando antes na Galileia, Nosso Senhor percorre agora a fronteira entre a Galileia e a Samaria, descendo até o vale do rio Jordão.

O fariseu e o publicano

E ele disse também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos como justos e desprezavam os outros” (S. Lucas XVIII, 9)

Aqui também, como na parábola do ecônomo infiel, a finalidade é anunciada antes. Os ouvintes aos quais Jesus dirigia esta parábola eram ou fariseus ou discípulos imbuídos do espírito farisaico, e que manifestavam os dois grandes sintomas de uma das mais graves doenças morais: o orgulho. Jesus queria curá-los.

Aos seus próprios olhos eles eram justos, tendo atingido a santidade perfeita, e “desprezavam os outros”. São Lucas, na versão original de seu evangelho, em grego, usa aqui um termo muito expressivo e que não é usado por nenhum outro evangelista. Este termo, traduzido comumente por “desprezar”, significa propriamente “aniquilar, tratar como nada”.

O conceito de excelência própria e o desprezo dos outros andam juntos, como a humildade e a caridade. Jesus mostrará a estes orgulhosos, do modo mais dramático, o horror com que Deus os vê.

Dois homens subiram ao templo para orar: um fariseu e outro publicano” (S. Lucas XVIII, 10).

Estes dois personagens são modelos bem conhecidos, diametralmente opostos na sociedade judaica da época de Nosso Senhor. O primeiro, o fariseu, representa a perfeição dos costumes, a ortodoxia completa da fé. O outro, o publicano, a desmoralização e a indiferença religiosa. Na medida em que o primeiro era estimado, venerado, o segundo era sumamente desprezado.

O termo “fariseu” vem do adjetivo aramaico “perishaiia”, que significa “separados, distintos”. Provavelmente o termo foi cunhado pelos seus adversários, porque os fariseus se chamavam a si mesmos de “companheiros” e de “santos” (Mons. Francesco Spadafora, Diccionario Bíblico, vocábulo Fariseos, p. 211, 1959, Editorial Litúrgica Española, Barcelona).

O templo era, como as nossas igrejas, “uma casa de oração” (S. Lucas XIX, 46) e os israelitas devotos gostavam de frequentá-lo para invocar o nome de Deus, sobretudo durante certas horas, como na oferta do incenso. Esta oferta era feita duas vezes ao dia, antes do sacrifício da manhã e depois do sacrifício da noite, sendo o ponto culminante dos ritos realizados ao longo do dia.

O termo “subir” é bem exato, porque o templo havia sido construído sobre o monte Moriá.

O fariseu, de pé, orava em seu interior desta maneira: Ó Deus, vos dou graças porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem mesmo como este publicano” (S. Lucas XVIII, 11).

Nosso Senhor nos apresenta os retratos dos dois personagens, fariseu e publicano, ambos rezando. Os detalhes são poucos, mas foram escolhidos com grande fineza psicológica.

Ambos estão de pé, conforme o uso que prevalecia entre os judeus:

Salomão colocou-se de pé diante do altar do Senhor em presença de toda a assembleia de Israel e extendeu as mãos” (II Crônicas VI, 12).

Encontramos também no Antigo Testamento o exemplo de Ana, curada de sua esterilidade por sua oração, e que deu à luz Samuel. Quando ela vai ao Templo oferecer a Deus a criança de sua promessa, ela lembra ao sumo sacerdote Heli: “Eu sou a mulher que se encontrava de pé, diante de ti, orando a Deus aqui” (1 Samuel I, 26).

E quando vós estiverdes de pé para orar, se vós tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, a fim de que vosso Pai que está nos céus vos perdoe vossas ofensas”. (S. Marcos XI, 25).

Mas Nosso Senhor utiliza dois termos diferentes, conforme o texto grego, para descrever esta atitude, o que nos permite ver uma intenção particular no uso de cada um deles.

Para o fariseu, Nosso Senhor utiliza um termo que carrega muita ênfase, parecendo indicar uma postura forçada, afetada. É o mesmo termo que Jesus emprega no sermão da montanha ao dizer:

E quando orardes, não sejais como os hipócritas que amam orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das praças para serem vistos pelos homens; em verdade vos digo, eles já receberam seu prêmio” (São Mateus, VI, 5).

Diversos comentadores, analisando a construção do texto grego, tiram das palavras de Nosso Senhor uma interpretação que permite construir uma cena um pouco mais rica, na qual o soberbo fariseu isola-se voluntariamente da multidão das pessoas que rezam para evitar o contato com elas para, assim, não ficar impuro. São Jerônimo, porém, ao traduzir esta passagem, escolheu uma interpretação mais natural e perfeitamente possível do texto grego. Assim, o fariseu estaria de pé orando interiormente.

Seja como for, as duas cenas possíveis de construir a partir das palavras de Cristo, ainda que ligeiramente diferentes, são perfeitamente compatíveis e de modo algum opostas.

O fariseu inicia a sua oração com as palavras “Ó Deus, vos dou graças”. Este começo é irrepreensível, pois a ação de graças é uma parte essencial da oração. Infelizmente, sob o pretexto de exprimir a Deus o seu reconhecimento, o fariseu faz o seu elogio pessoal nos termos mais audaciosos:

Buscai nas palavras dele o que ele quis pedir a Deus; não quis orar, mas louvar-se” (Santo Agostinho, Sermão 115).

O fariseu continua: “…não sou como os demais homens…”.

Ele divide a humanidade inteira em duas categorias. Sozinho, ele forma a primeira delas – perfeita, evidentemente –, amontoando “os demais homens” na segunda.

Mas quem são, para ele, os outros homens? Ele os caracteriza com o auxílio de três palavras que designam três dos vícios mais vergonhosos: ladrões, injustos, adúlteros.

Depois, fixando seus olhos no publicano que orava à distância, o inclui na sua suposta oração, usando-o como um fundo obscuro sobre o qual as cores brilhantes de suas próprias virtudes brilhariam com maior esplendor. Santo Agostinho chega a considerar este ato como um “insulto” (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 1º. Comentário ao Salmo 70, 2).

Jejuo duas vezes por semana, dou o dízimo de tudo o que possuo” (S. Lucas XVIII, 12).

O fariseu passa, agora, do elogio de sua pessoa para o elogio de suas obras. Antes mostrou o que não faz e agora mostra o que faz. É o lado positivo de sua santidade, depois de examinar o lado negativo dela.

Ele menciona com agrado duas obras que excedem os deveres obrigatórios de um judeu. A primeira é a de jejuar duas vezes por semana. Jejuns de devoção eram freqüentes entre os judeus, e quem queria aparecer como piedoso jejuava duas vezes por semana, de preferência nas segundas e quintas.

No Evangelho de São Mateus Nosso Senhor descreve a afetação com que os fariseus praticavam o jejum: “E, quando jejuais, não o façais com um aspecto triste, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os homens vejam que jejuam; em verdade vos digo, que já receberam sua recompensa” (S. Mateus VI, 16).

A segunda obra do fariseu é dar o dízimo. O termo usado por São Lucas e que comumente é traduzido por “tudo o que possuo” significa mais precisamente aquilo que se ganhava ao longo de um ano, e não a propriedade total de alguém. Assim, aqui o fariseu não se refere ao dízimo restrito aos produtos que vinham do campo e do gado e que era imposto pelo legislador: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e descuidais do mais importante da lei, a justiça, a misericórdia e a fé!” (São Mateus XXIII, 23).

A oração do fariseu mais parece o discurso de um credor que deseja relembrar seus direitos a quem lhe deve. Entretanto, tais disposições não eram raras no mundo farisaico. A oração que o rabi Nechunia ben Hakana costumava fazer ao sair de suas aulas nos mostra bem este espírito:

Eu vos dou graças, Senhor meu Deus, porque a minha parte me foi destinada entre aqueles que visitam a casa do conhecimento, e não entre aqueles que trabalham nos cantos das ruas; pois me levanto cedo e eles se levantam cedo: desde a aurora eu me dedico às palavras da lei, mas eles se aplicam a coisas vãs; eu trabalho e eles trabalham: eu trabalho e recebo uma recompensa, eles trabalham e não recebem nada; eu corro e eles correm: eu corro para a vida eterna, mas eles correm em direção ao abismo” (Berachoth, f. 28, 2).

E o publicano, estando de pé à distancia, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo: Ó Deus, tem piedade de mim pecador!” (S. Lucas XVIII, 13).

Contraste admirável! Temos aqui o desenho de uma humildade perfeita manifestada por muitas coisas. Primeiramente, na escolha do lugar: “estando de pé à distancia”. Ele está longe do santuário, perto do qual, ao contrário, encontra-se o fariseu. Depois, na atitude: “não ousava sequer levantar os olhos ao céu”. Seu sentimento de miséria era tão vivo que ele não fazia nem mesmo um ato tão natural àqueles que oram: elevar os olhos aos céus. Além disso, “batia no peito”, como um verdadeiro penitente. Mas é, sobretudo, nas suas palavras que vemos a diferença em relação ao fariseu. Sua oração é profunda e sai de um coração contrito e humilhado: “Ó Deus, tende piedade de mim pecador!”.

Nosso Senhor, conforme a versão grega original, coloca na boca do publicano palavras mais fortes do que aquelas que chegaram até nós por nossas traduções: “Eu, o pecador por excelência!”.

É dizer muito com poucas palavras. De fato, fala muito diante de Deus quem se reconhece como pecador.

Eu vos digo: este desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (S. Lucas XVIII, 14).

Nosso Senhor afirma cheio de majestade: “Eu vos digo”, isto é, afirmo isto porque eu o sei. São palavras cheias de peso na boca de quem é Deus e conhece perfeitamente o mais profundo das almas.

O publicano voltará para sua casa puro de todo pecado, tendo sido justificado, completamente justificado, conforme a expressão usada por Nosso Senhor. Sua oração humilde ultrapassou as nuvens, sua contrição foi um sacrifício de agradável odor a Deus, que lhe concedeu perdão.

O fariseu também deixou o templo, sem dúvida acreditando ter dado muita honra a Deus e tendo ganhado maiores méritos. Mas como as palavras de Nosso Senhor, que é Deus, são terríveis em relação a ele: “o outro não”!

Santo Agostinho escreveu belas páginas a respeito desta parábola:

O publicano não ousava levantar os olhos aos céus. Por que ele não olhava o céu? Porque ele se olhava a si mesmo. E eis que, examinando-se a si mesmo, começou a ter desgosto e é assim que ele agradou a Deus.

Tu, ao contrário, tu te elevas, tu elevas a cabeça. Ora, o Senhor diz ao orgulhoso: Tu não queres olhar tua miséria? Pois bem, eu a olharei! Tu queres que eu desvie meus olhos dela? Então, não desvie os teus.

O publicano não ousa levantar os olhos aos céus: ele se examina, ele se condena. Ele faz de si mesmo seu próprio juiz, e Deus defende sua causa. Ele se pune, e Deus lhe faz misericórdia. Ele se acusa, e Deus o defende. Deus o defende tão bem que seu juízo foi: O publicano desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado. Ele examinou sua consciência, diz o Senhor, e Eu, Eu não quis examiná-la. Eu o ouvi clamar em minha direção: Desviai os olhos de meus pecados! (Salmo L, 11). Mas quem pode pronunciar tais palavras, a não ser aquele que diz também: Minha falta, eu a conheço (Salmo L, 5)?

Quanto ao fariseu, ele também, meus irmãos, era um pecador. Ele podia dizer: Eu não sou como o resto dos homens, desonestos, ladrões, adúlteros; ele podia jejuar duas vezes por semana e dar o dízimo de seus lucros, mas ele não deixava de ser um pecador. E mesmo quando ele não tivesse um só pecado na sua consciência, seu orgulho teria bastado para acusá-lo. E, entretanto, ele ousava falar deste modo!…

Mas então, quem é sem pecado? Quem poderá se gloriar de ter um coração puro, ou de ser inocente de toda falta (Provérbios XX, 9)? Este não o era, é verdade; mas, no seu erro, ele não sabia o que tinha ido fazer no templo. Ele se encontrava na casa do médico, como que para se curar e, dissimulando suas chagas, ele apresentava os membros que estavam sadios…

Deixa, então, o Senhor cobrir as tuas chagas: não o faça tu mesmo. Pois, se tu tens vergonha de mostrá-las, o médico não as curará. Que Ele as cubra com um bom remédio e as cure. A chaga que o médico cobre será curada. Mas se o doente quer cobri-las por si mesmo, a única coisa que conseguirá fazer é escondê-la. E de quem ele a esconde? Daquele que tudo conhece” (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 2º. Comentário ao Salmo XXXI) .

Pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado”.

Jesus conclui a parábola com esse grande princípio moral, o qual aparece também em outras ocasiões: quando Nosso Senhor observara que alguns convidados escolhiam os primeiros lugares (São Lucas XIV, 11) e ao repreender os escribas e fariseus (São Mateus XXIII, 12).

Esta insistência quanto à humildade é outro sinal de quanto ela é importante aos olhos de Deus. Pois quando Deus, na Sagrada Escritura, insiste muito a respeito de algo, é porque é coisa de grande importância. É o caso da esmola, da penitência e também da humildade.

Uma vez que Deus nos mostra o quanto a humildade lhe agrada, achamos necessário tratar um pouco mais dela. Depois de termos apresentado o comentário da parábola do fariseu e do publicano, vamos dar um exemplo de humildade na vida de uma grande santa, Santa Maria Madalena de Pazzi. Por fim, daremos ao leitor alguns instrumentos que permitam a obtenção desta virtude tão fundamental da vida cristã.

Continua em Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo – parte 2


quarta-feira, dezembro 28th, 2011 at 7:07pm

As últimas conversas de Santa Terezinha antes de sua morte

Publicado em Artigos da Montfort

A publicação dos relatos dos últimos dias de Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face procura dar a conhecer algo  daquela que São Pio X chamou “a maior santa dos tempos modernos”.

Amilton Lagos

Introdução

                Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, popularmente conhecida como Santa Terezinha, é conhecida principalmente pela sua grande obra “A História de uma Alma” onde conta sua vida e suas reflexões religiosas. Neste artigo, reproduziremos alguns trechos dos textos recolhidos em um “carnê amarelo” (retirado das “Oeuvres complètes de sainte Thèrese de Lisieux”) com as conversas que as carmelitas tiveram com Santa Terezinha certo tempo antes de sua morte, quando já se tinha detectado a presença da tuberculose, que não possuía tratamento na época, assim como o relato de seus últimos momentos.

                As irmãs carmelitas já percebiam que Santa Terezinha tinha um comportamento acima da média e, por isso, aproveitavam as oportunidades que tinham para conversar com a irmã doente para tentar obter algo de edificante para si mesmas. Santa Terezinha não podia falar muito (para não se fatigar e agravar a doença), deste modo cada pequena conversa corresponde a um dia determinado.

Pequenas pérolas da pequena Teresa

                Sua resignação à vontade de Deus transparece claramente nos seus pensamentos, quando diz, no dia 15 de maio do ano de seu falecimento (1897), que gostaria de ir até Hanoï (que ela imaginava como uma ilha longínqua, abandonada de tudo e de todos) para sofrer bastante pelo bom Deus e ficar completamente sozinha sem ter consolação alguma na terra. E quanto à idéia de ser útil nesse lugar, tal não lhe passava pela cabeça, pois considerava que nada de útil haveria para fazer.

Ao perguntarem a Santa Terezinha como ela suportava todas as dores que vinham de sua tuberculose, ela respondia que não conseguia mais sofrer, pois que todo sofrimento lhe era então doce, pois compreendia o porquê do sofrimento (29 de maio).

Ao meditar as frases do livro “Imitação de Cristo”, Santa Terezinha não teme em dizer que Lamennais, personagem que já sabia ter más idéias – na encíclica Mirari Vos de Gregório XVI podemos encontrar algumas de suas idéias liberais condenadas – tinha dito algo de bom ao explicar como Nosso Senhor no Horto das Oliveiras sofria enormemente, mesmo podendo gozar de todas as delícias da Trindade ao mesmo tempo (6 de julho).

                Certas irmãs, ansiosas para acharem significações místicas a tudo, buscam prever a data da morte de Santa Terezinha de modo que ela ocorresse numa data especial, uma festa de Nossa Senhora p.ex., mas ela, mais sóbria, dizia: “Corram atrás de datas quanto quiserem, por mim eu não quero mais… já corri muito atrás de datas… ” (9 de julho). Alguns dias mais tarde, no dia 15 de julho, uma irmã lhe diz: “Você morrerá talvez amanhã (festa de Nossa Senhora do Carmelo) após a Comunhão” ao que Santa Terezinha responde: “Oh! Tal não se assemelha à minha pequena via. Eu sairia (do quarto onde estava doente) para morrer? Morrer de amor após a Comunhão é belo demais para mim. As pequenas almas não poderiam imitar isso”.

                Ao ajudá-la a se preparar para a confissão, em 8 de julho, e receber a Extrema-Unção, uma irmã a ajuda a lembrar os pecados cometidos por cada sentido do corpo e, ao tratar do olfato, Santa Terezinha mostra a sutileza de sua alma: “Eu me lembro que em minha última viagem de Alençon até Lisieux, eu utilizei uma garrafa de água de Colônia que Madame Tifenne me tinha dado e fiz isso com prazer”.

                No dia 13 de julho, algumas irmãs sugerem reunir dinheiro para comprar coroas de rosas para colocarem em Santa Terezinha após sua morte, mas ela, relutante, diz que prefere que tal dinheiro seja gasto para resgatar alguns selvagens na África.

                Quanto à generosidade do sofrimento, dizia Santa Terezinha que “seria feliz de suportar os maiores sofrimentos, mesmo que apenas para fazer Deus sorrir uma só vez” (16 de julho).

                Sobre o assunto da alimentação do convento, Santa Terezinha conta que lhe serviam um prato que tinha um gosto horrível, mas achavam que ela gostava pois que comia sem reclamar, todavia ela pede, agora que se aproxima da morte, que esse prato não seja dado às outras pobres irmãs, mostrando que para si não se deve fazer caso de tal coisa, mas para servir aos outros se deve buscar dar algo de bom (24 de julho).

                Na conversa do dia 25 de julho, Santa Terezinha conta uma história pessoal que lhe ensinou a não dar grande importância ao que os outros acham de nós: “um dia após a minha tomada de hábito, um senhor me vê junto à nossa Madre Superiora e diz: ‘Oh! Como é forte essa moça! Como ela é robusta!’ e eu saí toda humilhada do elogio recebido quando a irmã Madalena me para diante da cozinha e me diz: ‘Mas o que ocorre com você, minha pobre irmãzinha Tereza do Menino Jesus? Você está cada vez mais magra! Se continuar assim, com esse rosto que faz tremer, você não seguirá por muito tempo a regra!’ Após escutar apreciações tão opostas, eu não podia mais dar qualquer importância à opinião das criaturas, seja de elogios, seja de reprovações”. Ainda nesse dia de 25 de julho, uma irmã lhe diz que acabava por desejar a morte de Santa Terezinha para não vê-la mais sofrer tanto ao que responde a Santa: “Não se deve dizer isso, pois sofrer é precisamente o que me agrada na vida”.

                Ao falar de suas meditações sobre o Evangelho, Santa Terezinha dizia: “o que me agrada ao pensar na Sagrada Família é de imaginá-la numa vida toda comum. Não tudo aquilo que nos contam, tudo aquilo que supomos. Por exemplo, contam que o Menino Jesus depois de ter petrificado as aves da terra, assoprava sobre elas para lhes dar a vida. Ah! De modo algum! O pequeno Jesus não fazia milagres inúteis desse tipo, mesmo que fosse para agradar a sua Mãe (…) tudo na vida deles ocorria como na nossa. Quanta penas, quantas decepções! Quantas vezes criticavam o bom São José! Quantas vezes recusamos de pagar-lhe seu trabalho! Oh! Como nos espantaríamos ao saber tudo o que ele sofreu!” (20 de agosto). No dia seguinte (21 de agosto), Santa Terezinha continua suas meditações sobre o Evangelho: “para que um sermão sobre a Virgem Maria me agrade e me faça algum bem, é preciso que eu a veja na sua vida real, não na sua vida de suposições; e estou certa que sua vida real devia ser toda simples. Nós a mostramos inalcançável, mas precisaríamos mostrá-la imitável, mostrar suas virtudes, mostrar que ela vivia da fé como nós (…) É bom falar de suas prerogativas, mas não se deve parar nisso, e se ocorrer, em um sermão, de sermos obrigados do começo ao fim a exclamar: ‘Oh! Oh!’, uma hora basta! Quem sabe se alguma alma não irá mesmo até sentir um certo afastamento de uma criatura tão superior e diga ‘Se é assim, então irei brilhar como puder num canto escondido’ O que a Virgem tem a mais que nós, é que ela não podia pecar, que ela era isenta de toda mancha original, mas por outro lado, ela tinha menos sorte que nós, pois que ela não tinha uma Nossa Senhora para amar”.

                Em uma alusão a Santa Teresa d’Avila, a Madre Superiora pergunta à Santa Terezinha em 4 de setembro: “Você prefere, apesar de tudo, morrer que a viver?” e ela responde: “Oh minha Mãezinha, eu não prefiro uma coisa ou outra, eu não poderia dizer como nossa mãe Santa Tereza (d’Avila): ‘eu morro por não morrer’. O que o bom Deus preferir e escolher para mim, eis o que me agrada mais.”

                No dia 14 de setembro, Santa Terezinha ao perguntarem se preferia escolher agonizar ou não na hora da morte, responde de um modo diferente, mas de mesmo princípio, daquela sua conhecida frase “Eu escolho tudo” dizendo: “Eu não escolheria nada (nem agonizar, nem não agonizar)”.

Últimas horas

Para terminarmos e mostrar como ela edificava todos os que a rodeavam até no último momento de sua vida, traduzimos aqui o relato do seu último dia na terra, numa quinta-feira do dia 30 de setembro de 1897, feito pela irmã Inês de Jesus:

Durante a manhã eu (irmã Inês) a (Santa Terezinha) vigiava durante a Missa. Ela não me dizia nada. Ela estava esgotada, ofegante; seus sofrimentos, eu presumia, eram inexprimíveis. Num determinado momento, ela juntou as mãos e olhando à estátua da Virgem Maria disse:

- Oh! Eu rezei a ela com grande fervor! Mas é uma agonia pura, sem mistura alguma de consolação.

Eu lhe disse algumas palavras de compaixão e de afeição e acrescentava que ela tinha bem me edificado durante sua convalescência.

- E você, as consolações que tinha me dado! Ah! Como elas são enormes!

Durante todo o dia, sem um instante de trégua, ela permaneceu, podemos dizer sem exageros, sob verdadeiros tormentos. Ela parecia estar no fim de suas forças e, todavia, para nosso espanto, ela podia se mexer, se sentar no seu leito.

- …Veja, nos dizia ela, como tenho forças hoje! Não, eu não vou morrer! Eu ainda tenho forças por vários meses, talvez até mesmo vários anos!

E se o bom Deus o quisesse, diz a Nossa Madre, você o aceitaria?

Ela começou a responder, na sua agonia:

- Seria bem necessário…

Mas se corrigindo na mesma hora, ela diz com um tom de resignação sublime e caindo novamente sobre seu travesseiro:

- Eu quero com certeza!

Eu pude recolher essas exclamações, mas é bem difícil de transmitir o seu tom:

- Eu não creio mais na morte para mim… Eu creio apenas no sofrimento… melhor assim!

- Ó meu Deus!… Eu amo o bom Deus! O minha boa Virgem Maria, venha em meu socorro!

- Se isso é a agonia, o que é então a morte?!…

- Ah! Meu bom Deus!… Sim, ele é muito bom, eu o vejo muito bom…

E olhando para a Virgem Maria:

- Oh! A senhora sabe que estou me sufocando!

Para mim:

- Se você soubesse o que é se sufocar!

O bom Deus vai ajudá-la, minha pobrezinha, e terminará logo mais.

- Sim, mas quando?

- …Meu Deus, tenha piedade de vossa pobre menina! Tenha piedade!

Para Nossa Madre:

- Ó minha Madre, eu vos garanto que o cálice está cheio até a boca!…

- …Mas o bom Deus não vai me abandonar, certamente… …Ele nunca me abandonou.

- …Sim, meu Deus, tudo o que quiser, mas tenha piedade de mim!

- …Minhas irmãzinhas! Minhas irmãzinhas rezem por mim!

- …Meu Deus! Meu Deus! Vós que sois tão bom!!!

- …Oh! Sim, vós sois bom! Eu o sei…

Depois do ofício de Vésperas, Nossa Madre colocou sobre seus joelhos uma imagem de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Ela olhou por um instante e disse o quanto Nossa Madre lhe tinha garantido que ela logo mais iria acariciar Nossa Senhora como também o Menino Jesus nessa imagem:

- Ó minha Madre, apresentai-me logo à Virgem Maria, eu sou um bebê que não agüenta mais! … Prepare-me para bem morrer.

Nossa Madre lhe respondeu que tendo sempre compreendido e praticado a humildade, sua preparação já estava feita. Ela refletiu por um instante e pronunciou humildemente essas palavras:

- Sim, me parece que nunca busquei outra coisa senão a verdade; sim, eu compreendi a humildade de coração… parece-me que sou humilde.

Ela repetiu ainda:

- Tudo o que escrevi sobre meus desejo de sofrimento. Oh! É bem verdadeiro!

- Eu não me arrependo de me ter entregado ao Amor.

Com insistência:

- Oh! Não, eu não me arrependo, muito pelo contrário!

Um pouco depois:

- Eu nunca teria crido que era possível sofrer tanto [nota: nunca aplicamos nela injeção alguma de morfina]! Nunca! Nunca! Eu não posso compreender tal coisa senão pelos desejos ardentes que tive de salvar as almas.

Por volta das 5 horas, eu estava sozinha perto dela. Seu rosto mudou de repente, compreendi que era a última agonia. Quando a Comunidade entrou na enfermaria, ela acolheu todas as irmãs com um doce sorriso. Ela segurava seu Crucifixo e o olhava constantemente. Durante mais de duas horas, a respiração rouca arranhava seu peito. Seu rosto estava congestionado, suas mãos roxas, ela tinha os pés congelados e tremia todos seus membros. Um suor abundante caia em gotas enormes sobre seu rosto e inundava suas bochechas. Ela estava sob uma opressão cada vez maior e lançava às vezes pequenos gritos involuntários para respirar. 

Durante esse tempo tão cheio de agonia para nós, escutávamos pela janela – e eu sofria bastante – o canto de vários pássaros, mas tão fortemente, de tão perto e durante tanto tempo! Eu rezava para o bom Deus de os fazer calar, esse concerto me perfurava o coração e tinha medo que ele cansasse nossa Terezinha.

Durante outro momento, ela parecia ter a boca tão ressecada que a irmã Genevieve, achando que a aliviaria, lhe colocava nos lábios um pequeno pedaço de gelo.Ela o aceitou lhe fazendo um sorriso que nunca me esquecerei. Era como um supremo adeus.

Às 6 horas o Angelus soou, ela olhou longamente para a estátua da Virgem Maria.

Enfim, às 7 horas e pouco, Nossa Madre tendo despedido a Comunidade, ela suspirou:

- Minha Madre!? Não é isso a agonia?… Não irei morrer?…

Sim, minha pobrezinha, é a agonia, mas o bom Deus quer talvez prolongá-la por algumas horas. Ela retoma com coragem:

- Ora bem!… Vamos!… Vamos!… Oh! Eu não quereria sofrer menos tempo…

E olha seu Crucifixo:

- Oh! Eu o amo!…………………………. Meu Deus… Eu vos amo………………………….

De uma hora para outra, após ter pronunciado essas palavras, ela caiu suavemente para trás, com a cabeça inclinada para a direita. Nossa Madre fez soar imediatamente o sino da enfermaria para chamar a Comunidade. “Abram-se todas as portas” dizia a Madre no mesmo instante. Essas palavras tinha algo de solene, e me fizeram pensar que no Céu o bom Deus o dizia também a seus anjos.

As irmãs tiveram o tempo de se ajoelhar em torno do leito e foram testemunhas do êxtase da pequena Santa que morria. Seu rosto tinha tomado a cor de uma flor-de-lis que tinha quando em plena saúde, seus olhos estavam fixados no alto, brilhantes de paz e de alegria. Ela fazia alguns movimentos de cabeça, como se Alguém a tivesse divinamente ferido com uma flecha de amor, depois retirado a Flecha para a ferir novamente… A irmã Maria da Eucaristia se aproximou com uma vela para ver de mais perto seu olhar sublime. Diante da luz dessa vela, não houve movimento algum de suas pálpebras. Esse êxtase durou o tempo de um “Credo”, e ela deu seu último suspiro.

Após sua morte, ela conservou um sorriso celeste. Ela estava com uma beleza encantadora. Ela segurava tão forte seu Crucifixo que foi necessário arrancá-lo de suas mãos para enterrá-la. A irmã Maria do Sagrado-Coração e eu fizemos tal serviço, com a irmã Amada de Jesus, e notamos que ela não parecia ter mais do que 12 ou 13 anos. Os membros do seu corpo permaneceram flexíveis até o dia do seu enterro, numa segunda-feira, no dia 4 de outubro de 1897.

 [tradução nossa]


terça-feira, dezembro 27th, 2011 at 5:42pm

A aproximação da Maçonaria e do Comunismo com a Igreja Católica – Parte III: As teses condenadas do Modernismo

O presente artigo é uma continuação de ”A aproximação da Maçonaria e do Comunismo com a Igreja Católica, no período de 1917 a 1991″, Parte I, Parte II e Parte III

Marcelo Fedeli

F – TESES DO MODERNISMO FORMALMENTE CONDENADAS PELA IGREJA

 

S. Pio X definiu o Modernismo como “a síntese de todas as heresias”.  Assim sendo, o Modernismo reassumiu heresias milenar e secularmente reprovadas pela Igreja, acrescentando àquelas as suas próprias teses heréticas especificamente condenadas no Decreto Lamentabile sine exitu [3/07/1907] e, pouco depois, na Encíclica Pascendi Dominici Gregis [8/9/1907], ambos documentos promulgados pelo Papa S. Pio X [1903 -1914].

 

O Papa Gregorio XVI condenou o indiferentismo religioso, a liberdade de consciência e de imprensa

Mais próximo ao surgimento do movimento do Modernismo, porém, o Papa Gregório XVI [1831-1848]  na Encíclica Mirare Vos [1832] defendeu a imutabilidade da doutrina e da disciplina da Igreja, condenando o indiferentismo religioso, a liberdade de consciência e da imprensa, teses estas  tão caras tanto à Maçonaria como ao Modernismo, que pouco depois iria eclodir.

 

O Papa Pio IX condenou a conciliação com o Liberalismo e a civilização moderna

Por sua vez também o Papa Pio IX [1848 -1878] na Encíclica Quanta Cura e, especialmente no documento Syllabus, condena 80 erros desde a não aceitação da existência de Deus [erro 1], ao erro 80: “O Pontífice Romano pode e deve conciliar-se e transigir com o progresso, com o Liberalismo e com a Civilização moderna”, passando por uma série de outros erros que os Modernistas irão difundir no final do Século XIX e no decorrer do Século XX.

 

O Concílio Vaticano I – convocado pelo Papa Pio IX, iniciado em 1869 e interrompido em 1870 – decretando dogmaticamente a infalibilidade papal em matéria de Fé e de Moral, também será duramente criticado pelos sequazes do Modernismo que não aceitavam o primado do Papa sobre o Colegiado: queriam uma Igreja liberal e democrática. Além disto, o Concílio Vaticano I , dentre outros ensinamentos, salientou que a doutrina da fé revelada por Deus não é uma invenção  filosófica a ser aperfeiçoada pelo engenho humano, mas foi entregue como um divino depósito para a Esposa de Cristo para ser fielmente guardada e declararada infalível”, portanto totalmente contrária à tese da evolução dos dogmas e sobre a Revelação, mais tarde difundidas pelo Modernismo.

 

Leão XIII condenou a concepção liberal do Estado e o Americanismo

Posteriormente o Papa Leão XIII [1878-1903] na encíclica Immortale Dei [1885] condena a concepção moderna e liberal do Estado, bem como a indiferença religiosa, defendendo que a origem do poder está em Deus e não no povo,  bem como que a religião de Cristo é a única verdadeira que a Igreja, fundada por Nosso Senhor, conserva e ensina através dos séculos.

 

Ainda o Papa Leão XIII na carta Testem benevolentiae [1899] condena a heresia do Americanismo, cujos princípios serão retomados pelo Modernismo, como por exemplo, que a “Igreja deve adaptar seus ensinamentos conforme o espírito da época, abrandar um pouco a sua antiga severidade e fazer algumas concessões às novas opiniões”.

 

Oficialmente, o primeiro documento da Igreja  condenando formalmente o Modernismo foi o Decreto Lamentabili sine exitu, acima citado, no qual são elencadas 65 proposições heréticas em geral defendidas pelo Pe. Alfred Loisy, imediatamente seguido pela encíclica Pascendi Dominice Gregis que, além de expor magistralmente todo o sistema do Modernismo, condena também o agnosticismo, a imanência religiosa, o decorrente sentimento religioso, e a evolução do dogma, dentre outras heresias.

 

Diferentemente da maioria das heresias anteriores, a heresia do Modernismo mesclava maligna e serpentinamente verdades e erros de modo a facilitar a sua difusão nos meios católicos e, ao mesmo tempo, servir também de eventual defesa dos seus adeptos quando criticados pela Santa Sé ou mesmo quando desmascarados. Assim agindo os modernistas não apresentavam suas teses num conjunto ordenado para revolucionar a Fé, conforme expressão do Papa S. Pio X, ou seja, negando todos os artigos dogmáticos do CREDO definido no Concílio de Nicéia, mas maliciosamente os minavam a partir do primeiro artigo, ao defender a impossibilidade de se provar a existência de um ser único e absoluto, “Deus, Pai, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis” defendendo, gnóstica ou panteisticamente, a existência da divindade estratificada no Universo.

 

Ora, negando a existência de Deus Pai, como seria possível aceitar o Verbo, Deus-Filho, a Sabedoria Encarnada, Nosso Senhor Jesus Cristo e, conseqüentemente, o Espírito Santo?…E como aceitar a Encarnação do Filho no seio da sempre Virgem Maria?…E a Redenção?…. para que?… se todos temos uma centelha da divindade que, segundo a fórmula do Pe. Maurice Zundel, [aliás, muito admirado e elogiado por Montini] torna o “HOMEM = DEUS”?… E como aceitar o julgamento “dos vivos e dos mortos” se, seguindo a evolução da divindade, todos estaremos amalgamados novamente na divindade original, sendo que o inferno “está vazio”, como dirão claramente mais tarde alguns teólogos modernistas, incluindo até o filósofo Jean Guiton, amigo íntimo de Paulo VI?.

 

E por que crer só na Igreja Católica, se a religião é uma forma de manifestação da divindade imanente no homem, tornando, portanto, todas as manifestações religiosas de igual valor relativo? E por que crer na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na vida eterna?…

 

Evidentemente os modernistas não expunham a sua heresia de modo  transparente, como acima apresentamos, mas, negando o 1º artigo do CREDO, acabavam negando todo o CREDO. Assim, não afirmavam claramente a inexistência de Deus, pessoal e distinto do Universo,  mas defendiam não ser possível provar objetivamente a sua existência, e enveredavam para a velho conceito gnóstico da divindade.

 

As principais teses heréticas defendidas pelo Modernismo e condenadas pelo Papa S. Pio X foram:

 

1 – o Dogma  é uma forma de expressão provisória, portanto sujeito à evolução constante, pois a religião e a revelação são uma criação natural do subconsciente.

 

Com base neste princípio, os modernistas criticavam todos os Concílios ocorridos na História da Igreja, pelo caráter dogmático de todos eles, bem como os papas que os convocaram. [Curiosamente, o único Concílio sobre o qual os modernistas de hoje não admitem absolutamente crítica alguma é justamente o único concílio não dogmático da História: o relativista Concílio Vaticano II, por eles, contraditória, mas absolutamente dogmatizado].

 

2 – a Bíblia e a Revelação  não são de inspiração divina; trata-se de uma criação puramente   humana, reunindo fatos míticos ou simbólicos e como tal deve ser estudada e criticada;

 

3 – as intervenções de Deus na História, tanto miraculosas como proféticas, são descrições criadas por experiências ou emoções interiores e pessoais;

4 – o Cristo da Fé  não é o mesmo Cristo da História e a sua divindade não deriva dos textos dos Evangelhos;

5 – o valor expiatório da Redenção pela morte de Cristo é fruto da teologia da cruz elaborada pelo “apóstolo Paulo”.

6 – a não é um fato objetivo mas sim relacionado ao sentimento religioso de cada indivíduo;

 

Negando as Escrituras, a Verdade revelada, o Modernismo nega fundamentalmente:

 

a – a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que [segundo aquela heresia ] é fruto da consciência cristã, bem como a conseqüente Redenção e todo o seu caráter expiatório [contrariando, como vimos,  o segundo artigo do CREDO e os demais artigos correlatos relativos ao Espírito Santo, a Anunciação, a Encarnação e a Virgindade de Nossa Senhora. Quanto a estes itens veremos mais adiante o que afirmava claramente Jean Guiton, o amigo de Paulo VI].

 

c – a instituição da Igreja por Cristo, bem como o primado de Pedro repassado aos demais pontífices. Assim, a Igreja é fruto de contingências históricas, humanas, devendo evoluir e se adaptar continuamente às diferentes épocas;

 

d – os Sacramentos não foram instituídos por Nosso Senhor, mas pelos apóstolos, e servem somente para manter viva na consciência cristã a presença de Cristo;

 

e – Ciência e Fé são totalmente distintas; assim o crítico pode negar aquilo que, como crente, admite. Dessa forma o dogmatismo da Igreja não se concilia com a Ciência.

 

f- o Magistério da Igreja não comunica aos homens a verdade revelada por  Deus.

 

Uma decorrência lógica da negação da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Redenção, será também a negação da presença real de Cristo na Eucaristia.

Este princípio influirá decisivamente na criação da futura Missa Nova de Mons. Bugnini e Paulo VI, substituindo a Missa Gregoriana,  que não acentua particularmente o caráter propiciatório da celebração incruenta do Santo Sacrifício do Calvário, bem como a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Assim, os modernistas tudo farão para impor a nova Missa — pois LEX ORANDI, LEX CREDENDI — idéia que discreta e paulatinamente se difundiu em inúmeros mosteiros europeus nas primeiras décadas do Século XX, justificando o profético lamento do então Cardeal Pacelli ao Conde Enrico Pietro Galleazzi, em 1936, já citado nesta apresentação, mas que repetimos pela sua importância :

 

 “Suponha, meu caro amigo, que o comunismo seja apenas o mais visível dos órgãos de subversão contra a Igreja e contra a tradição da revelação divina, então nós vamos assistir a invasão de tudo o que é espiritual, a filosofia, a ciência, o direito, o ensino, as artes, a imprensa a literatura, o teatro e a religião. Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora diante do perigo que ameaça a Igreja, é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, em sua liturgia, sua teologia e sua alma” [...].

 

Ouço em redor de mim os inovadores que querem desmantelar a Capela Sagrada, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar seus ornamentos, dar-lhe remorso de seu passado histórico.

 

Pois bem, meu caro amigo, estou convicto que a Igreja de Pedro deve assumir o seu passado ou então ela cavará sua sepultura”

 

“…um dia virá em que o mundo civilizado renegará seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a crer que o homem se tornou Deus, que seu Filho é apenas um símbolo, uma filosofia como tantas outras, e nas igrejas os cristãos procurarão em vão a lâmpada vermelha em que Deus os espera”.  [Mons. Georges Roche e Philippe St. Germain, Pie XII devant l´Histoire, Laffont, Paris, 1972, p 52 – 53; e outros já citados acima . Negrito e sublinhado nossos].

 

[Isto tudo em 1936!... E hoje?... Onde se encontra a “lâmpada vermelha em que Deus”  nos espera em grande parte das moderníssimas igrejas, idealizadas para tão bem esconder o Tabernáculo, o Sacrário, onde se encontram substancialmente  o Corpo e o Sangue de Cristo?]…

 

O Modernismo, embora idolatrando o HOMEM, combatia a devoção particular aos santos, especialmente a devoção à Nossa Senhora, como veremos ao longo deste trabalho. Esta será também uma característica daquela heresia, que seus sequazes tentarão fazer triunfar na Igreja no decorrer do Século XX. E isto com a esfarrapada desculpa de que tais devoções poderiam desviar a devoção a Cristo,  justo eles que não acreditavam na divindade de Nosso Senhor, nem na necessidade da Redenção e nem na presença real de Nosso Senhor na Eucaristia…

 

Apesar das condenações formais de S. Pio X, infelizmente o Modernismo continuou com sua maligna ação na Igreja após a morte daquele Papa [1914]. Muitos dos seus sequazes, alguns com obras colocadas no INDEX, conseguiram evitar suas excomunhões. Outros, particularmente eclesiásticos da Itália, quer por ‘desterros’ voluntários ou por estratagemas diversos, acabaram passando incólumes pelas condenações formais de S Pio X,  retornando posteriormente ao seu antigo país e influenciando, direta ou indiretamente, a formação religiosa do então Pe. Angelo Giuseppe Roncalli e do seminarista Giovanni Battista Montini, futuros Papas do Concílio Vaticano II, em cujos pontificados tanto a Maçonaria como o Comunismo se aproximaram — e muito  —  da Igreja. Veremos estes casos mais adiante.

 

Por ora, trataremos das condenações da Igreja à Maçonaria e ao Comunismo.

[Continua]


quinta-feira, dezembro 22nd, 2011 at 7:44pm

Os sete selos da Virgem Maria

Publicado em Artigos da Montfort

Edivaldo dos Santos Oliveira 

Introdução         

            Ensina-nos São Tomás: “Bonum est diffusivum sui esse”[1]. “O bem é, por si, difusivo”, ou seja, todo bem tende naturalmente a comunicar-se, a difundir-se. Assim, por exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo, possuindo o bem da vida na sua plenitude “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também o concedeu ao Filho possuir a vida em si mesmo”[2], a ponto de ser a vida “Eu sou a vida”[3], quis transmiti-la: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”[4]. Pelo mesmo motivo, o mestre quer transmitir seu saber, o qual é vida intelectual, e os pais a vida biológica.

            Deus é o sumo bem e, por isso, é infinitamente difusivo, comunicativo. Assim quis Ele, livre de qualquer necessidade, criar seres que pudessem participar de sua felicidade. Nesse sentido, a criação é um chamado de Deus, um convite às criaturas dotadas de inteligência, a  uma felicidade sem fim que, Ele, sumo bem, tem na posse de si mesmo “Vinde servo bom e fiel, entra na alegria do teu senhor”[5]. É um ato de amor, pois “amar alguém é propriamente querer para ele o que é bom”[6].

            O amor é “uma força unificadora e um princípio de coesão”[7]. Enquanto unificador o amor visa a unir, quanto possível, a coisa boa a alguém[8]. Assim Deus nos quer junto dele no céu por toda a eternidade. Enquanto princípio de coesão, o amor “integra o outro a si próprio, comportando-se com ele como consigo mesmo”[9]. Deus ao criar os anjos e os homens para possuí-Lo trata-os como a si mesmo, pois lhes dá, como fim, o mesmo bem com que Ele é feliz, o qual não é outro senão Ele mesmo.

            Para possuir esse bem infinito que é Deus, atingindo a finalidade para a qual fomos criados, é necessário conhecê-Lo, pois “ninguém pode amar uma coisa desconhecida. Assim pois, o conhecimento é a causa do amor ao mesmo título que o bem, que só pode ser amado se é conhecido.”[10]. Para amar, para possuir a Deus, é preciso antes conhecê-lo: “Porque certamente nada pode ser amado se não for conhecido, assim também é exigido o conhecimento de Deus para o amor da caridade.”[11]. Não há, portanto, amor sem verdade, nem caridade sem fé.

            Toda a criação tem como fim manifestar a glória de Deus, fazê-lo de certo modo cognoscível, visível e, assim, possível de ser amado: “Porque as coisas invisíveis dele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis; e assim o seu poder eterno e sua divindade”[12]. Assim como a luz é refratada por um prisma resultando na diversidade das cores, analogamente, também a luz da perfeição divina se difunde na esplêndida variedade dos seres.

“La gloria di Colui che tutto move

per l’universo penetra e risplende

in una parte più e meno altrove”.[13]

Dois livros

            Ao comentar essas verdades, ensina São Boaventura:“De tudo isso que acabamos de dizer, pode-se concluir que a criação do mundo é semelhante a um livro no qual brilha, é representada e é lida a Trindade criadora segundo um tríplice degrau de expressão por modo de vestígio, de imagem e de semelhança. A idéia de vestígio se encontra em todas as criaturas; a idéia de imagem, apenas nas criaturas inteligentes ou espíritos racionais; a idéia de semelhança, nas criaturas deiformes [portadoras da graça santificante]. Como por degraus de uma escada, a inteligência humana é capaz de se elevar gradualmente até o princípio soberano, que é Deus.”[14].

            Um livro pode ser tomado em sentido largo como um conjunto ordenado de palavras. O mundo tendo sido criado por Deus por meio de sua palavra é comparável a um livro: “Deus disse: “Faça-se a luz! E a luz foi feita.”[15]. Tudo foi feito por Deus por meio de seu Verbo “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”; “Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.”[16]. O mundo é enfim parecido com Deus: “Uma vez que todo agente produz um ser semelhante a si, o princípio da ação pode ser considerado por seu efeito: é o fogo que gera fogo.”[17] . Toda causa produz um efeito que lhe é semelhante e, por isso, pelo efeito pode se conhecer a causa, donde a expressão de Nosso Senhor nas Escrituras: “pelo fruto se conhece a árvore”[18]. Assim, por exemplo, os filhos, que são efeito ou fruto de seus pais, lhes são parecidos.

            Devido à sublimidade e elevação do ser de Deus, e também às próprias limitações do ser humano, as quais foram agravadas pelo pecado original, a leitura do livro da criação tornou-se em extremo árdua, e sujeita a muitos enganos:

“É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.”[19];

“Até mesmo com relação ao que a razão humana pode pesquisar a respeito de Deus, era preciso que o homem fosse também instruído por revelação divina. Com efeito, a verdade sobre Deus pesquisada pela razão humana chegaria apenas a um pequeno número, depois de muito tempo e cheia de erros”[20]

“Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto”[21].

            Por isso, Deus em sua infinita misericórdia, bondade e sabedoria, legará aos homens um segundo livro, a Sagrada Escritura, a qual é parte integrante da revelação:

“Ora, esta revelação sobrenatural está contida, consoante no-lo ensina a crença da Igreja universal, já nas tradições orais, já nos livros sagrados e canônicos, assim chamados, por isso que, escritos sob o influxo do Espírito Santo, têm a Deus por autor e como tais foram confiados à sua Igreja”[22]

“Assim, para que a salvação chegasse aos homens, com mais facilidade e maior garantia, era necessário que fossem eles instruídos a respeito de Deus, por uma revelação divina. Portanto, além das disciplinas filosóficas, que são pesquisadas pela razão, era necessária uma doutrina sagrada, tida por revelação.”[23]

            Desse modo o homem pode através da sabedoria filosófica remontar até a Causa das causas, que é Deus. Pela sabedoria teológica, aceitando as verdades reveladas, ele pode contemplar o Verbo encarnado e nele a Deus Pai “Filipe, aquele que me vê, vê também o Pai”[24].

            A criação e as Sagradas Escrituras constituem, pois, dois livros, os quais nos dão, em graus diversos de perfeição, o conhecimento a respeito de Deus. Ambos nos falam do Verbo de Deus. Evidentemente, as Escrituras constituem um livro superior e mais perfeito que o livro da criação. O mundo no-lo apresenta sob o véu da analogia e do símbolo. As Sagradas Escrituras sob os diversos véus da palavra divina escrita:

“É, então conveniente que na Escritura Sagrada as realidades espirituais nos sejam transmitidas por meio de metáforas corporais. É o que diz Dionísio: ‘O raio da luz divina só pode refulgir para nós envolvido na diversidade dos véus sagrados’”[25].

            Assim como o véu tem a característica de manifestar algo daquilo que é por ele recoberto, e, ao mesmo tempo ocultá-lo em parte, assim também os véus da Escritura e do mundo nos manifestam algo de Deus, e em parte no-lo ocultam, e isso, por três razões.

Em primeiro lugar, porque transcendendo Deus a toda criatura, não pode ser abarcado por nenhuma delas “Se o céu e os céus dos céus não vos podem conter quanto menos esta casa que edifiquei!”[26], ou seja, a verdade sobre seu ser não pode ser totalmente expressa por nenhuma criatura, nem contida por nenhuma inteligência, nem angélica, nem humana. Embora possamos conhecer algo sobre Deus, muito maior é o que permanece oculto, velado a nós.

Em segundo lugar, como ensina o papa Leão XIII, a obscuridade, o velamento, tudo aquilo que torna difícil a extração de certas verdades contidas nas Escrituras serve para aguçar a inteligência humana no desejo de desvendar e reter o que foi ensinado por Deus, bem como torná-la humilde, reconhecendo a necessidade de uma luz segura que a guie na aquisição de tal verdade:

“Não é pois de admirar que os Livros sagrados apareçam envolvidos em certa obscuridade religiosa, de modo que ninguém ouse estudá-los sem luz que lhe ilumine os passos. Assim o dispôs a providencia divina, no sentir comum dos Santos Padres, para que os homens os estudassem com mais vontade e diligência e ficassem profundamente gravados em sua alma os conceitos havidos com esforço, e, sobre tudo, entendessem que Deus confiou as Escrituras à sua Igreja, como a mestra e guia segura e intérprete fiel da sua palavra.”[27]

Em terceiro lugar, para proteger a verdade sagrada, e as coisas santas, daqueles que são indignos delas:

Ele respondeu: A vós é concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros se lhes fala por parábolas; de forma que vendo não vejam, e ouvindo não entendam.”[28]

“Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem.”[29]

            O mundo e as Sagradas Escrituras são, pois, dois livros que velam sabia e santamente o conhecimento sobre Deus.

            Nosso Senhor Jesus Cristo sendo o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Encarnado, é a perfeita Imagem de Deus, a plenitude do conhecimento sobre Deus. Ou seja, em Deus, Verbo e Filho se equivalem:

“Em Deus, Verbo propriamente dito entende-se em sentido pessoal, e é nome próprio da pessoa do Filho.”[30]

 

“Para mostrar-se que é conatural com o Pai, chama-se Filho; que é coeterno, chama-se Esplendor; que é totalmente semelhante, chama-se Imagem; que é gerado de maneira imaterial, chama-se Verbo[31]

 

“Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!”[32]

“Ele é a imagem de Deus invisível”[33]

 

“Filipe, aquele que me vê, vê também o Pai”[34]

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.”[35]

            Este Verbo adorável é “cheio de verdade”, pois expressa perfeita e totalmente o que Deus é, e também porque contém em si toda a verdade espelhada pelas criaturas:

“Com efeito, no próprio Verbo incriado estão as idéias de todas as criaturas”[36]

            E por isso disse o Espírito Santo pela boca de São João:

“Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.”[37].

            O livro do mundo e livro das Escrituras Santas são ditados pelo Verbo eterno de Deus, e é Dele que eles falam, é a Ele que eles guardam, velam. O Verbo está neles revestido pelos vestígios, pelas imagens, pelas semelhanças, pela palavra inspirada por Deus aos hagiógrafos.

            Ora, se aquilo que contém a Palavra Divina, se todo o receptáculo do Verbo pode ser comparado a um livro, e se tanto mais perfeito é o livro quanto mais clara e perfeitamente ele nos traz esse Verbo, podemos subir mais um degrau e atingir o cume dessa analogia com Nossa Senhora, que nos dá o Verbo em pessoa, o qual portou em si durante nove meses. É, pois a santíssima Virgem um livro, o terceiro nessa escada analógica, o livro que nos dá o Verbo Encarnado, “cheio de verdade”, a plenitude do conhecimento de Deus.

            Desse modo importa muitíssimo para atingir o fim para o qual fomos criados, conhecer e amar a Deus, conhecer e ler o livro dos livros, Maria Santíssima:

“Desejas conhecer Deus? Lede Maria como um livro”[38]

Não, ninguém no mundo conheceu Jesus a fundo como ela [Virgem Maria]; ninguém é melhor mestre e melhor guia para dar a conhecer Jesus.[39]

 

Doutrina igualmente ensinada por São Pio X:

 

“[A Virgem Maria] é o maior e mais eficaz auxílio para o conhecimento e amor de Cristo”[40]

 

“Na verdade, que seja por Maria, e sobretudo por ela, que encontramos o caminho para o conhecimento de Jesus, ninguém poderá duvidar, se considerarmos, entre outras coisas, que no mundo somente ela teve com ele, sob o mesmo teto e numa familiaridade íntima de 30 anos, essas relações estreitas que são próprias da mãe e filho. Os admiráveis mistérios do nascimento e da infância de Jesus, máxime os que respeitam à sua Encarnação, princípio e fundamento de nossa fé, a quem poderiam ter sido desvendados mais amplamente que à sua Mãe?” [41]

 

“Segue-se, como conseqüência, que jamais alguém será mais poderoso que a Virgem para unir os homens a Cristo, como já o temos insinuado. Se, com efeito, segundo a doutrina do Mestre divino, ‘a vida eterna consiste em que eles te conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que tu enviaste’” (Jo 17, 3); como por Maria chegamos ao conhecimento de Jesus Cristo, por ela também nos é mais fácil adquirir a vida, da qual Ele é o princípio e a fonte.”

            Nossa Senhora deve ser lida como um livro, deve ser seguida como uma mestra segura para alcançarmos a plenitude da verdade em Cristo.

“Eu te darei uma Mestra [Nossa Senhora], e sob a disciplina dela tu poderás tornar-te sábio.”[42]

            Ensinam-nos os Padres da Igreja que assim como a água, simbolizando a humildade, buscando sempre os lugares mais baixos encontra o mar, assim também todas as graças de Deus foram buscar o coração humilde de Nossa Senhora e Ele a constituiu Medianeira e Dispensadora de todas as graças. De modo semelhante, todas as verdades, e a Verdade Encarnada, buscou refúgio no coração desta Virgem Bendita. Abaixemo-nos também, corramos para esta casa da verdade, para esta morada da Sabedoria Encarnada a fim de encontrar instrução.

            É a fim de ajudar, ainda que muito modestamente, a ler este livro magnífico que nos foi legado pela alta sabedoria de Deus, que intentamos escrever, com a graça de Deus, uma série de sete artigos, para os quais o presente serve de introdução. No próximo artigo exporemos o significado e a razão do título “Sete selos  da Virgem Maria” bem como o primeiro selo.

Ave Gratia Plena!

 

 



[1] Suma Teológica Primeira Parte Q. 5, a. 4.

[2] João 5,26

[3] João14,16

[4] João 10,10

[5] Mt. 25,23

[6] Suma Teológica Primeira Parte Q. 20, a.3, resposta.

[7] Suma Teológica Primeira Parte Q. 20, a.1, sol. 3.

[8] Cf. Suma Teológica Primeira Parte Q. 20,a.1. sol.3.

[9] Idem.

[10] Suma Teol. Ia IIae, Q. 27, a.2

[11] São Tomas, Opera Omnia. Super I ad Cor. 13,4.

[12] Rom 1,20.

[13] Dante. A Divinia Comédia. Par. I, 1-3. “A glória d’Aquele que tudo move, no universo, penetra e resplandece, numa parte mais do que noutra.”

[14] S. Boaventura Breviloquio11. A criação do homem corpo e alma.

[15] Gen. 1,3

[16] João 1,1-3

[17] Suma Teol. Ia, Q. 45, a.6

[18] Mt. 7,16

[19] ICor. 2,9

[20] Suma Teol. Ia Q.1, a.1.

[21] Gen. 3,

[22] SS. Leão XIII. – Providentíssimus Deus. n.1.

[23] Idem.

[24] João 18,9

[25] Suma Teol. I, q.1, a.9

[26] 1Reis 8,27

[27] SS. Leão XIII. – Providentíssimus Deus. n.16.

[28] Luc. 8,10

[29] Mat. 7,6

[30] Suma Teol. I, q. 34, a.2, resposta.

[31] Suma Teol. I, q. 34 a.2, 3ª solução

[32] Mat. 16,16

[33] Coloss. 1,15

[34] João 18,9

[35] João 1,14

[36] Suma Teol. I, q. 93, a. 9, sol. 4

[37] João 1,1-3

[38] ROSCHINI, Gabriel Padre O.S.M. Instruções Marianas. Paulinas: São Paulo, p. 10.

[39] S. Pio X. Ad Diem illum laetissimum.1904.

[40] Idem.

[41] Idem.

[42]LEMOYNE, Giovanni Battista. Vita di San Giovanni Bosco.  SEI: Torino, 1987. pg. 42


quinta-feira, dezembro 22nd, 2011 at 6:54pm

“Certeza”, essa palavrinha arrogante!

Publicado em Artigos da Montfort

André Roncolato Siano

“Certeza” [1] essa palavrinha arrogante!

 

“Ventarola” era o apelido que lhe deram. Era um rapazinho, magricela, de andar apático e, dependendo da perspectiva, se via claramente a curva acentuada que se projetava em direção às costas, como um berimbau.  Ventarola tinha um relacionamento mais que próximo com um aparelho recém-inventado – acho – que despertava a curiosidade: o videogame. Ele e essa pequena “máquina-de-ilusões” ficavam, lá, horas a fio, juntos. Às vezes, ele saía à rua para brincar conosco. Digamos que ele não era um entusiasta de nossas brincadeiras. Nós meninos, quando brincávamos – devo confessar – às vezes parecíamos uma turba de bárbaros prontos a tomar a cidadela fortificada. Enfim, crianças normais.

Eu particularmente, não faço muitas digressões sobre os “porquês” dos apelidos, mesmo porque, pensar sobre apelidos, não obstante que sejam simpáticos, ainda assim, não constituem per si uma filosofia. Mas, este era um caso excepcional. A alcunha foi forjada com o autêntico espírito criativo, que a molecada lá da Vila Vanda elevou ao estado da arte. Pelo menos dos apelidos. Coisa de meninos. Deram-lhe – e com as devidas honras – esse apelido, porque Ventarola, quando não estava no videogame e resolvia sair para brincar conosco, tinha uma conversa bem estranha. As palavras iam saindo sem uma ordem muito lógica, e o raciocínio frequentemente não chegava a termo. Isso causava certa impaciência na meninada que era bem mais objetiva. Então diziam dele que tinha cabeça-de-vento, pois entre o espaço craniano cogitavam que só havia ar. Chegaram ao absurdo – embora imbuídos de excelente intenção – de um dia fazer uma espécie de assembleia para deliberar se o problema de Ventarola era de ordem médica e assim poder ajudá-lo. A conclusão – acertada, como se poderá ver – era que Ventarola, por seu apreço aos eletrônicos, tinha mesmo era preguiça mental, ocasionada pelo tal brinquedinho eletrônico.

Na época eu não entendia muito bem essas coisas. Lá na Vila Vanda os meninos ainda se preocupavam com coisas bem reais. Bolas de gude, apelidos e do bem provável corretivo que tomariam se não passassem de ano. Ainda era usual se reprovar na escola quem não estudava. Os corretivos aplicados segundo a caridade, em época, eram bastante convincentes, e eram argumentos de força muito persuasiva. Um santo remédio para o ócio compulsivo que, hora ou outra, acometia a moçada.  Hoje em dia, as correções como o estudar para passar de ano saíram de moda e os apelidos viraram bullying, graças aquela tal “psico-pedagogia”, que veio trazer confusão à ordem.

Bom, mas não escrevo esta crônica para tratar do passado. Ainda nestes dias, com a costumeira pressa, pois na atualidade parece que estamos sempre atrasados, saía resignado para pegar a lotação – lotada evidentemente – para ouvir a missa e, com algum tempo, fazer uma boa confissão. No caminho, aproveito sempre para “colocar em dia” as orações cotidianas, pois esse é um certo bem que podemos tirar dos congestionamentos aqui em São Paulo. Com o terço em punho, logo chegou a lotação, e interrompi por instantes o Credo, enquanto tentava romper a falange formada por uma disciplinada legião romana, que se formara na porta do carro obstruindo a passagem.  Ao entrar, voltei à meditação, e na altura do Credo in Spiritum Sanctum, sanctam Ecclesiam catholicam… senti um toque no ombro com a suavidade de um timoneiro e, para minha surpresa, me relembra o rapaz:

— Sou o Ventarola, não se lembra?

— Ventarola? Há quanto tempo, nem mais me lembrava de você! Que bom vê-lo!

Respondi, com certa alegria de reencontrar um colega de infância, que enquanto me cumprimentava abocanhava um generoso lanche.

Mas minha alegria não durou muito, como veremos.

Ele estava bastante mudado fisicamente. O tempo e – suponho os muitos lanches – fizeram-no vencer com louros sua magreza. Vitória esmagadora! No sentido figurado, claro.   Vestia uma roupa bem esquisita: um jeans todo rasgado, camiseta preta com um protagonista fúnebre – acho que uma caveira – uma tatuagem de um dragão que lhe subia o braço esquerdo feito uma lagartixa e engolia a própria cauda – o que me fez lembrar de Napoleão, o chiuáua  rabugento de minha vizinha, que ficava, quase o dia todo, tentando comer o próprio rabo. Trazia consigo também tantos aparelhinhos eletrônicos…  eram tantos fios que eu não sabia se ele estava ouvindo músicas, falando ao celular ou fazendo um eletrocardiograma.

Ventarola deu mais umas duas mordidas naquela massa já disforme, com as quais liquidou de vez o lanche, e ficou a postos para a conversa.  Começou a me contar sobre o curso que fazia em uma importante universidade gratuita, com uma tal Dra. Holofotina. O nome já me soou inquietante. Inquietante, não de preocupante, mas de bizarro. Imagine o tamanho da conta de energia elétrica que ela deve receber todo mês? E não é um nome que represente muito a virtude da humildade, mas enfim, não queria cogitar hipóteses injustas. Ele continuou dizendo que era agora um “pensador”. Dra. Holofotina, cheia das luzes, clareou sua visão obscurantista e retrógada de alguém que diz ter acesso à verdade das coisas. Por isso, tinha deixado para trás aquelas bobagens, aquelas certezas da religião, e gloriosamente se lançou nos braços da dúvida. Além do que, ele me enfatizava que pretender possuir a verdade é algo de muita arrogância.

Interpolei-o ponderando que ele havia se tornado um cético[2].  Ele, por sua vez, balançou solene e positivamente a cabeça, quando concluí:

- Dra. Holofotina lhe encheu a cabeça de pataratas…

- De “pata…” o quê? – perguntou Ventarola, meio sem posição.

- De “caraminholas”, “ilusão”, “invencionices”… respondi, completando que, se assim fosse, seria arrogância pretender possuir a verdade de que é arrogância pretender possuir a verdade.

Ele ficou com cara de interrogação.

Com nossa cordial discussão iniciada, perguntei se ele sabia me definir “dúvida”.

Ele me respondeu prontamente que era a ausência da certeza. O que concordei, pedindo então para que ele definisse “certeza”.   Ele então ficou estatelado, olhando para os seus aparelhinhos, e antes que caísse em desalento lhe socorri:

— Certeza, Ventarola, é o estado da mente que está intimamente persuadido de possuir a verdade.

Já desconfortável, Ventarola pôs-se a argumentar em favor do ceticismo:

a)      Como o homem manifesta a ignorância sobre vários assuntos, e como tudo tem ligação na realidade, devido a esta mesma ignorância de vários aspectos das coisas, é impossível conhecer as coisas como elas são.

b)      O erro, ou seja, o homem engana-se frequentemente e muitas vezes enganado julga possuir a verdade. Assim, como o homem poderá saber se alcançou a verdade?

Sorrindo, contestei a fraca objeção:

a)      O fato de o homem ignorar algumas verdades, não prova que não possa existir certeza sobre outras, ou seja, não é o desconhecimento sobre algumas coisas que torna impossível eu ter certeza acerca de outras coisas. Supondo que eu desconhecesse os processos nucleares que se dão no Sol. Ainda desconhecendo isso, poderia ter certeza de sua existência.

b)      A objeção sobre o erro é inconsistente, e, pelo contrário, é um argumento em favor da certeza. Se é possível reconhecer que estávamos errados, isto é uma magnífica prova que podemos alcançar a verdade, pois só persuadidos a possuir a verdade podemos dizer que estávamos errados.

Neste momento, Ventarola entrou numa espécie de transe filosófico que só foi quebrado por uma lombada que pôs dragão e dono em gravidade zero, voltando à “terra-firme” off-line de seus fones de ouvido.

Continuou, ele, defendendo, já não tão vigorosamente, o ceticismo:

c)      Os homens estão sempre em contradição. Algumas coisas que eram entendidas de uma forma no passado, hoje são compreendidas de maneira diferente. Alguns julgam algo bom outros, ao contrário, julgam mal.

d)      Há um circulo vicioso, ou seja, o dialeto. Para se provar a razão, não há outro meio que a própria razão. Por isso, não há outra disposição da inteligência que não seja a dúvida.

Mais uma vez, esclareci ao interlocutor, derrubando as objeções:

c)      A questão da contradição se identifica com a objeção da ignorância. O fato dos homens não estarem de acordo com tudo não invalida a certeza. Isto porque a contradição não é universal e não se estende a todos os domínios do saber e nem a todas as proposições.

d)      Com relação ao dialeto, é uma estultícia a argumentação cética, visto que o argumento se desmorona sob seu próprio princípio, ou seja, demonstrar pela razão a ilegitimidade da razão também é um círculo vicioso.

Finalizei, usando uma brincadeira de um muito estimado professor:

— Você ainda tem certeza da dúvida?

Impaciente, Ventarola decidiu terminar nossa rápida conversa, com a desculpa de que tinha esquecido que precisava descer alguns pontos antes. Ao mesmo tempo em que se justificava, ia espalhando, sobre os passageiros nada felizes, as migalhas daquele lanche que ficaram retidas – contra a vontade – em uma ampla junção entre seu abdómen e o tórax. Barafunda feita, desceu  despedindo-se desapegadamente.



[1] As considerações filosóficas sobre a certeza expostas nesta crônica foram baseadas integralmente no trabalho de Pe. Boulenger, Manual de Apologética. Ed. AI, Porto, 1950. P. 22-25.

[2] O ceticismo objeta que o homem é incapaz de distinguir o falso do verdadeiro e, desta, forma, deve se abster de julgamento. A refutação do ceticismo é o dogmatismo, que mostra que a razão humana é capaz de possuir a verdade chegando à certeza.