domingo, março 4th, 2012 at 7:22pm

A aproximação da Maçonaria e do Comunismo com a Igreja Católica, no período de 1917 a 1991- Parte IVa

O presente artigo é uma continuação de “A aproximação da Maçonaria e do Comunismo com a Igreja Católica, no período de 1917 a 1991″, Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV

 

G.1- EXTRATOS DE ALGUNS DOCUMENTOS PONTICÍCIOS CONDENANDO A A MAÇONARIA

Nestes documentos os Papas apresentam um profundo estudo referente à Maçonaria, seus objetivos e meios que ela utiliza para atingi-los, determina o comportamento do Clero e dos fiéis diante daquela seita, estabelecendo sempre severas penalidades a quem a ela se afiliar ou de qualquer forma a ela auxiliar, defender ou propagar.

 

Os textos completos desses documentos podem ser encontrados tanto na Internet como em diversas publicações. Nesta apresentação nos limitaremos a transcrever apenas extratos de alguns daqueles documentos referidos aos dogmas maçônicos, totalmente antagônicos na sua essência à doutrina da Santa Igreja.

 

a – CLEMENTE XII [1730-1740]

 

A grande série das condenações papais [586 documentos, incluindo cartas, discursos e exortações, segundo o Padre Benimelli] foi iniciada pelo Papa Clemente XII, em 1737, com a publicação da encíclica IN EMINENTI, posteriormente sempre reafirmada nos demais documentos que a sucederam.

 

Nessa Encíclica, Clemente XII salienta o caráter aconfessional e naturalista da Maçonaria, totalmente anticatólico, que infunde o indiferentismo religioso e despreza tanto ortodoxia e a autoridade eclesiástica.

 

Além disto, Clemente XII salienta também a questão do Segredo e do Juramento de fidelidade a que os maçons são obrigados a respeitar e fazer à Maçonaria e à sua obra e o perigo que ela representa para segurança e tranqüilidade tanto do Estado como do bem das almas.

 

Daquele primeiro documento extraímos:

 

“2. Agora, chegou a Nossos ouvidos, e o tema geral deixou claro, que certas Sociedades, Companhias, Assembléias, Reuniões, Congregações ou Convenções chamadas popularmente de Liberi Muratori ou Franco-Maçonaria ou por outros nomes, de acordo com as várias línguas, estão se difundindo e crescendo diariamente em força; e que homens de quaisquer religiões ou seitas, satisfeitos com a aparência de probidade natural, estão reunidos, de acordo com seus estatutos e leis estabelecidas por eles, através de um rigoroso e inquebrantável vínculo que os obriga, tanto por um juramento sobre a Bíblia Sagrada quanto por uma variedade de severos castigos, a um inviolável silêncio sobre tudo o que eles fazem em segredo em conjunto”.

 

“(…) decidimos fazer e decretar que estas mesmas Sociedades, Companhias, Assembléias, Reuniões, Congregações, ou Convenções de Liberi Muratori ou da Franco-Maçonaria, ou de qualquer outro nome que estas possam vir a possuir, estão condenadas e proibidas, e por Nossa presente Constituição, válida para todo o sempre, condenadas e proibidas.

 

5. Deste modo, Nós ordenamos precisamente, em virtude da santa obediência, que todos os fiéis de qualquer estado, grau, condição, ordem, dignidade ou preeminência, seja esta clerical ou laica, secular ou regular, mesmo aqueles que têm direito a menção específica e individual, sob qualquer pretexto ou por qualquer motivo, devam ousar ou presumir o ingresso, propagar ou apoiar estas sociedades dos citados Liberi Muratori ou Franco-maçonaria, ou de qualquer outra forma como sejam chamados, recebê-los em suas casas ou habitações ou escondê-los, associar-se a eles, juntar-se a eles, estar presente com eles ou dar-lhes permissão para se reunirem em outros locais, para auxiliá-los de qualquer forma, dar-lhes, de forma alguma, aconselhamento, apoio ou incentivo, quer abertamente ou em segredo, direta ou indiretamente, sobre os seus próprios ou através de terceiros; nem a exortar outros ou dizer a outros, incitar ou persuadir a serem inscritos em tais sociedades ou a serem contados entre o seu número, ou apresentar ou a ajudá-los de qualquer forma; devem todos (os fiéis) permanecerem totalmente à parte de tais Sociedades, Companhias, Assembléias, Reuniões, Congregações ou Convenções, sob pena de excomunhão para todas as pessoas acima mencionadas, apoiadas por qualquer manifestação, ou qualquer declaração necessária, e a partir da qual ninguém poderá obter o benefício da absolvição, mesmo na hora da morte, salvo através de Nós mesmos ou o Pontífice Romano da época”.

 

6. Além disso, Nós desejamos e ordenamos que todos os bispos e prelados, e outras autoridades locais, bem como os inquisidores de heresia, investiguem e procedam contra os transgressores, independentemente da situação, grau, condição, ordem de dignidade ou preeminência que venham a ter; e que venham a perseguir e punir a todos com as sanções competentes da mais alta suspeição de heresia. Para cada um destes e a todos destes Nós concedemos e garantimos a livre faculdade de solicitar o auxílio do braço secular, em caso de necessidade, para investigar e proceder contra aqueles mesmo transgressores e para persegui-los e puni-los de acordo com as competentes sanções.”

[Negrito nosso]

 

 

b – BENTO XIV [1740-1758]

 

Após o documento IN EMINENTI, Bento XIV publicou poucos anos depois, em 1751, a encíclica PROVIDAS que confirma as condenações de Clemente XII acrescentando:

 

6. Finalmente, entre as causas mais graves das supra ditas proibições e condenações enunciadas na Constituição acima inserida [a IN EMINENTI] a primeira é: que nas tais sociedades e assembléias secretas, estão filiados indistintamente homens de todos os credos; daí ser evidente a resultante de um grande perigo para a pureza da religião católica;

 

– a segunda é: a obrigação estrita do segredo indevassável, pelo qual se oculta tudo que se passa nas assembléias secretas, às quais com razão se pode aplicar o provérbio (do qual se serviu Caecilius Natalis, em causa de caráter diverso, contra Minúcius Félix): “As coisas honestas gozam da publicidade; as criminosas, do segredo”.

 

“(…) 12. A ninguém, pois, seja lícito infringir esta página de nossa confirmação, inovação, aprovação, requisição, decreto e vontade ou temeràriamente contrariar. Caso alguém o presumir, saiba que incorrerá na ira de Deus Onipotente e de seus bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo”. [Negrito nosso].

 

Nota: en passant em relação à primeira causa acima indicada, referida a homens de todos os credos”, Töhötöm Nagy, ex-sacerdote jesuíta e conhecido maçom húngaro vivendo na Argentina, em seu livro “Jesuítas y Masones. Con una carta abierta a Su Santidad Pablo VI”, Buenos Aires, 1963, p. 465, afirmou:

 

Não creio que Bento XIV ter-se-ia animado a dar-nos a bula PROVIDAS contra os maçons se, por um milagre, tivesse podido ler — antecipadamente — a encíclica PACEM IN TERRIS. Ainda menos se tivesse podido ter uma visão de um dos documentos do Concílio Vaticano II, que é um apelo a todos os católicos a fim de que conheçam melhor os protestantes, respeitem-nos e cooperem com eles, procurando todos os meios possíveis para derrubar os obstáculos que se opõem à unidade cristã. O documento sublinha que a liberdade religiosa é um direito dado por Deus e que todos os homens devem ser livres de professar a religião segundo os ditames da sua consciência. São dois modos diferentes o de Bento XIV e o de Paulo VI: aquele excomungou os maçons pelo mesmo motivo pelo qual este exorta, hoje, os católicos do mundo” [apud, Pe. Benimelli, op. Citada, p. 29. Negrito nosso].

 

c – PIO VII [1800-1823]

 

Confirmando as condenações pontifícias anteriores e juntando a sociedade secreta dos Carbonários à Maçonaria, em 1821 o Papa Pio VII promulgou a Constituição Apostólica ECCLESIAM A JESU CHRISTO, da qual extraímos o item 5, como segue:

 

“Os Carbonários têm como finalidade principal o mais perigoso de todos os sistemas: propagar a indiferença em matéria religiosa; dar a cada um a liberdade absoluta de fazer para si mesmo uma religião conforme suas tendências e suas idéias; (…) desprezar os sacramentos da Igreja (…) bem como os mistérios da religião católica; em fim, destruir esta Sé Apostólica contra a qual, animados por um ódio todo especial devido ao primado desta Cátedra (S. Aug. Epist. 43), eles tramam as mais detestáveis e sórdidas conspirações.” [Negrito nosso].

 

d – LEÃO XII [1823-1829]

 

Leão XII no documento QUO GRAVIORA [13/3/1826] confirma as condenações anteriores e declara que a Maçonaria é inimiga aberta da Santa Igreja, recomendando ao Clero e aos fiéis precaverem-se “contra as seduções e aos lisonjeiros discursos que os maçons apresentam para fazê-los entrar em suas sociedades secretas. Sabeis que ninguém poderá filiar-se a elas sem cometer um pecado gravíssimo”.

 

e – GREGÓRIO XVI [1831-1846]

 

Embora sem citar especificamente a Maçonaria, a Encíclica MIRARI VOS [15/8/1832] do Papa Gregório XVI condenou alguns princípios ou dogmas defendidos por aquela seita secreta, posteriormente também propagados pela seita do Modernismo secretamente infiltrada no Clero.

 

Gregório XVI inicia aquele documento salientando a terrível procela de males e aflições (…)que afligiam a Igreja “nesta hora do poder das trevas”, em que “a maldade se rejubila alegre, a ciência se levanta atrevida, a dissolução é infrene (…) corrompe-se a santa doutrina e se disseminam, com audácia, erros de todo gênero. Nem as leis divinas, nem os direitos, nem as instituições, nem os mais santos ensinamentos estão ao abrigo dos mestres da impiedade. (…). O clamoroso estrondo de opiniões novas ressoa nas academias e liceus, que contestam abertamente a fé católica, não já ocultamente e por circunlóquios, mas com guerra cura e nefária; e, corrompidos os corações dos jovens pelos ensinamentos e exemplo dos mestres, cresceram desproporcionadamente o prejuízo da religião e a depravação dos costumes” (…) sendo que a origem de tantas calamidades devemos buscá-la na ação simultânea daquelas sociedades, nas quais se depositou, como em sentina imensa, quanto de sacrilégio, subversivo e blasfemo acumularam a heresia e a impiedade em todos os tempos”.

 

Após exortar o Clero a combater os males assinalados, Gregório XVI, defendendo a perenidade dos ensinamentos da Igreja [repito, tão combatidos tanto pela Maçonaria como pelo Modernismo], observa severamente:

 

Longe de Nós, e mui longe, que os pastores faltem ao seu dever, abandonando covardemente as ovelhas, quando tantos males nos afligem e tantos perigos nos cercam, e que, sem cuidar da grei, se manchem com o ócio e a negligência. (…) Tudo isto cumprireis plenamente, se, segundo vosso dever, cuidardes de vós mesmos e da doutrina, tendo sempre presente que a Igreja universal repele toda novidade (S. Caelest. PP., ep. 21 ad episc. Galliar.) e que, conforme conselho do Pontífice Santo Agatão, nada se deve tirar daquelas coisas que hão sido definidas, nada mudar, nada acrescentar, mas que se devem conservar puras, quanto à palavra e quanto ao sentido (Ep. ad imp. apud Labb. Tomo II, p. 235, Ed. Mansi). Daqui surgirá a firmeza da unidade…(…)”.

 

Assim, Gregório XVI condena a pérfida heresia da mutabilidade do Dogma e da sua conseqüente tentativa de adaptação aos novos tempos, tese defendida tanto pela Maçonaria como pelo Modernismo, afirmando:

 

“(…) é por demais absurdo e altamente injurioso dizer que se faz necessária certa restauração ou regeneração, para fazê-la [a Igreja] voltar à sua primitiva incolumidade, dando-lhe novo vigor, como se fosse de crer que a Igreja é passível de defeito, ignorância ou outra qualquer das imperfeições humanas; com tudo isto pretendem os ímpios que, constituída de novo a Igreja sobre fundamentos de instituição humana, venha a dar-se o que São Cipriano tanto detestou: que a Igreja, coisa divina, se torne coisa humana (Ep. 52, edit. Baluz.). Pensem, pois, os que tal supõem, que somente ao Romano Pontífice como atesta São Leão, tem sido confiada a constituição dos cânones; e que somente a ele, que não a outro, compete julgar dos antigos decretos dos cânones, medir os preceitos dos seus antecessores para moderar, após diligente consideração, aquelas coisas, cuja modificação é exigida pela necessidade dos tempos (Ep. ad. episc. Lucaniae).

 

Após defender o celibato sacerdotal e a indissolubilidade do matrimônio, Gregório XVI condena outro dogma da Maçonaria: a Liberdade de Consciência.

 

Assim diz ele:

Dessa fonte lodosa do indiferentismo resulta aquela sentença absurda e errônea, digo melhor disparate, que afirma e defende a liberdade de consciência. Este erro corrupto abre alas, escudado na imoderada liberdade de opiniões que, para confusão das coisas sagradas e civis, se estende por toda parte, chegando a imprudência de alguém se asseverar que dela resulta grande proveito para a causa da religião. Que morte pior há para a alma, do que a liberdade do erro! dizia Santo Agostinho (Ep. 166). Certamente, roto o freio que mantém os homens nos caminhos da verdade, e inclinando-se precipitadamente ao mal pela natureza corrompida, consideramos já escancarado aquele abismo (Apoc 9,3) do qual, segundo foi dado ver a São João, subia fumaça que entenebrecia o sol e arrojava gafanhotos que devastavam a terra.

 

Daqui provém a efervescência de ânimo, a corrupção da juventude, o desprezo das coisas sagradas e profanas no meio do povo; em uma palavra, a maior e mais poderosa peste da república, porque, segundo a experiência que remonta aos tempos primitivos, as cidades que mais floresceram por sua opulência, extensão e poderio sucumbiram, somente pelo mal da desbragada liberdade de opiniões, liberdade de ensino e ânsia de inovações”.

 

Pelas mesmas razões condena a “Liberdade de Imprensa, nunca condenada suficientemente, se por ela se entende o direito de trazer-se à baila toda espécie de escritos, liberdade que é por muitos desejada e promovida. Horroriza-Nos, Veneráveis Irmãos, o considerar que doutrinas monstruosas, digo melhor, que um sem-número de erros nos assediam, disseminando-se por todas as partes, em inumeráveis livros, folhetos e artigos que, se insignificantes pela sua extensão, não o são certamente pela malícia que encerram, e de todos eles provém a maldição que com profundo pesar vemos espalhar-se por toda a terra. (…). É por toda forma ilícito e condenado por todo direito fazer um mal certo e maior, com pleno conhecimento, só porque há esperança de um pequeno bem que daí resulte. Porventura dirá alguém que se podem e devem espalhar livremente venenos ativos, vendê-los publicamente e dá-los a tomar, porque pode acontecer que, quem os use, não seja arrebatado pela morte?”.

 

Depois de enaltecer a disciplina da Igreja “em perseguir a publicação de livros maus, desde o tempo dos Apóstolos”, Gregório XVI defende a instituição do INDEX, decretado pelo Concílio de Trento, contendo a relação continuamente renovada de todos os livros proibidos ou condenados pela Igreja, afirmando:

 

“O mesmo procuraram os Padres de Trento que, para trazer remédio a tanto mal, publicaram um salubérrimo decreto para compor um índice de todos aqueles livros que, por sua má doutrina, deviam ser proibidos (Conc. Trid. sess. 18 e 25). Há que se lutar valentemente, disse Nosso predecessor Clemente XIII, de piedosa memória; há que se lutar com todas as nossas forças, segundo o exige a gravidade do assunto, para exterminar a mortífera praga de tais livros, pois o erro sempre procurará onde se fomentar, enquanto não perecerem no fogo esses instrumentos de maldade (Encíclica ‘Christianae’, 25 nov. 1776, sobre livros proibidos). Da constante solicitude que esta Sé Apostólica sempre revelou em condenar os livros suspeitos e daninhos, arrancando-os às suas mãos, deduzam, portanto, quão falsa, temerária e injuriosa à Santa Sé e fecunda em males gravíssimos para o povo cristão é aquela doutrina que, não contente com rechaçar tal censura de livros como demasiado grave e onerosa, chega até ao cúmulo de afirmar que se opõe aos princípios da reta justiça e que não está na alçada da Igreja decretá-la”.

 

NOTA: O INDEX dos Livros Proibidos, tão defendido pelo Papa Gregório XVI, será abolido pelo Papa Paulo VI através de uma “Notificação” publicada no L’Osservatore Romano, no dia 15 de junho de 1966, depois de 387 anos de existência, na defesa da sã doutrina da Igreja.

 

Outro dogma maçônico condenado pela MIRARI VOS é a separação da Igreja e do Estado, também tão desejada e imposta pela Maçonaria a todos os países católicos. Assim salienta Gregório XVI sobre os males de tal separação:

 

“Mais grato não é também à religião e ao principado civil o que se pode esperar do desejo dos que procuram separar a Igreja e o Estado, e romper a mútua concórdia do sacerdócio e do império. Sabe-se, com efeito, que os amadores da falsa liberdade temeram ante a concórdia, que sempre produziu resultados magníficos, nas coisas sagradas e civis”.

[Continua]

 


quarta-feira, fevereiro 29th, 2012 at 8:10pm

Os Caminhos de Maria Santíssima – Parte 3

Este artigo é uma continuação de Os caminhos de Maria Santíssima, parte 1 e parte 2

 Ivone Fedeli

No dia 2 de fevereiro comemorou-se a festa da Purificação de Maria Santíssima que encerra o ciclo de Natal. É a assim chamada festa de Nossa Senhora das Candeias, devido à procissão com velas que faz parte da cerimônia litúrgica que se realiza em memória dos ritos cumpridos pela Sagrada Família, quarenta dias após o nascimento de Jesus, em obediência à Lei de Moisés: a purificação da mãe, a apresentação de todo recém-nascido no Templo e a consagração dos primogênitos. Em homenagem à Virgem Santíssima, publicamos, ao findar este mês de fevereiro, já quaresma, tempo em que se prepara a “espada de dor” prevista por Simeão, a terceira parte do pequeno estudo Os Caminhos de Maria Santíssima, comentando agora a ida da Sagrada Família ao Templo. Como vimos nos artigos anteriores, os eventos da vida de Maria Santíssima – e aqui estamos analisando particularmente os caminhos em que o Evangelho a apresenta – podem e devem ser tomados como modelos de santidade para nossas próprias vidas.

 

 

Terceiro caminho: o cumprimento dos mandamentos

“Concluídos os dias da sua purificação”, a de Maria Santíssima, “segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém”, ao Menino Jesus, “para o apresentarem ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor[1] e para oferecerem o sacrifício prescrito pela lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.” [2]

É o Evangelho de São Lucas que, assim, nos apresenta a Santíssima Virgem, e aqui toda a Sagrada Família, pela terceira vez, a caminho. O curto caminho – aproximadamente oito quilômetros – que há de Belém a Jerusalém. São Tomás precisa o sentido das cerimônias mencionadas no Evangelho:

“Ora, a respeito dos recém-nascidos, a lei ditava dois preceitos: um geral, referente a todos os nascimentos: no fim dos dias da purificação da mãe, devia-se oferecer um sacrifício pelo menino ou pela menina, assim como prescrevia o Levítico. Esse sacrifício tinha por fim expiar o pecado no qual a criança tinha sido concebida e tinha nascido e também consagrar, de alguma maneira, a criança que era então apresentada no Templo pela primeira vez. Por isso se fazia uma oferenda pelo holocausto e uma pelo pecado”.

                Mas no caso de Nosso Senhor, primogênito, havia uma segunda lei que também se aplicava e até de modo muito especial:

O outro preceito, especial, só dizia respeito aos primogênitos, seja entre os homens, seja entre os animais; o Senhor tinha, com efeito, reservado para si todo o primogênito em Israel, porque, quando da libertação dos Israelitas, Ele tinha atingido [com a morte] todos os primogênitos do Egito, desde os homens até os animais, mas tinha conservado a vida dos primogênitos Israelitas. Esse mandamento se encontra no Êxodo (12, 2-12). Vê-se também aqui uma figura de Cristo, “primogênito entre muitos irmãos”.[3]

                Também Nossa Senhora, embora deles estivesse isenta dado o caráter extraordinário da concepção de Nosso Senhor Jesus Cristo por obra do Espírito Santo, quis submeter-se e submeteu-se aos ritos da purificação das mães. E embora, como explica ainda o Doutor Angélico, a Virgem Santíssima dê prova neste episódio de muitas virtudes[4], o que ressalta do texto, a razão pela qual Ela se põe a caminho, é sobretudo o desejo de cumprir a Lei: “conforme está escrito na Lei do Senhor”.

O Padre Landucci explica quanto esse desejo de cumprir a lei, a obediência aos seus preceitos, se radica no amor de Deus e é a sua natural consequência. Onde não há amor à vontade de Deus, expressa antes de tudo e do modo mais universal nos Mandamentos, não há nem pode haver verdadeiro amor a Deus. Diz o autor de Maria Santíssima no Evangelho:

“A norma reguladora daquele escondimento [da Sagrada Família, que se submetia à lei comum, como uma família comum] – como o de todos os escondimentos ativos por motivo de humildade – não podia ser senão o positivo querer de Deus e a santa obediência. E essa, no caso, falava claro através da Lei (cfr. S. Hilário, Hom. 18, in Evang.I). Os santos esposos poderiam ter facilmente deduzido, das circunstâncias especialíssimas daquele divino nascimento, que não estavam propriamente sujeitos àquela lei. Mas havia uma ordem de fatos, atinente aos grandes mistérios neles cumpridos, em que tudo, até agora, tinha sido minuciosamente estabelecido pelo Céu e à qual eles queriam continuar completa e heroicamente abandonados a Deus. Se fosse o caso de fazer uma exceção agradável a Deus – supondo que fosse evitado o perigo de escândalo daqueles que, ignorando as circunstâncias, os vissem não cumprir a lei – o mensageiro celeste não teria deixado de propô-la ou, pelo menos, de insinuá-la. Na falta de qualquer sinal nesse sentido, não restava senão aplicar perfeitamente toda a lei; o que eles fizeram, nesse caso, como já tinham feito para o rito precedente da circuncisão.” [5]

                E comenta, ainda, a preocupação de São Lucas em deixar clara essa deliberação da obediência, do cumprimento da lei – mesmo daquela lei da qual poderiam isentar-se – por parte da Sagrada Família:

São Lucas, por sua vez, parece mesmo querer sublinhar esse espírito de profunda obediência que anima a heroica humildade dos dois santos esposos, repetindo por quatro vezes o motivo obrigatório da lei. Di-lo, primeiramente, três vezes, referindo-se a todas as várias prescrições: “Depois, cumpridos os dias da sua purificação, SEGUNDO A LEI DE MOISÉS, o levaram a Jerusalém para oferecê-lo ao Senhor, COMO ESTÁ ESCRITO NA LEI DO SENHOR: todo primogênito masculino seja consagrado ao Senhor, e para oferecer em sacrifício, ASSIM COMO ESTÁ ESCRITO NA LEI DO SENHOR, um par de rolas ou dois pombinhos.” (Lc 2, 22-24); onde a primeira vez se trata da lei da purificação, em gênero, a segunda da apresentação do primogênito e a terceira da dupla oferta que devia fazer a mãe. Repete-o ainda uma quarta vez: “E quando os genitores aí levaram o Menino Jesus para cumprir QUANTO ORDENAVA A LEI a seu respeito…” (2, 27); o que, justamente porque é uma repetição, põe maximamente em evidência o intento do Evangelista de inculcar como motivo a conformidade à lei “[6]

                Convém ainda notar que Nossa Senhora faz voluntariamente não apenas aquilo a que obrigava a Lei Mosaica, que não prescrevia que a apresentação fosse realizada no Templo, mas também aquilo que era ditado pelo costume, que se estabelecera depois do exílio, como o comprova o livro de Neemias (10, 37), mostrando mais uma vez a sua submissão a tudo aquilo em que se manifestasse a vontade de Deus, mesmo que fossem apenas os legítimos costumes estabelecidos entre os judeus mais piedosos.[7]

                A lição é clara e importantíssima e tanto mais necessária em nossos dias em que reina, nos meios católicos, um antinomismo prático, quando não também teórico.[8]

                Depois da Redenção, tendo Nosso Senhor realizado tudo o que a Antiga Lei simbolizava, foram abolidas, é claro, todas as leis litúrgicas e rituais dadas a Moisés. Não, porém, os Mandamentos, que foram, pelo contrário, levados por Nosso Senhor à mais exigente perfeição, já que com a vida da graça, que nos faz participantes da própria vida divina, temos muito mais força para fazer o bem do que tinham os homens antes da Redenção. Nosso Senhor mesmo o afirma, para combater o antinomismo de seu tempo, sobretudo, para ensinar a verdade em todos os tempos:

Não julgueis que vim abolir  a lei ou os profetas. Não vim para aboli-los, mas sim para levá-los à perfeição. Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei. Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos céus. [9]

A doutrina católica sempre insistiu na importância dessa observância e em sua facilidade quando se conta com a onipotente graça de Deus. Assim, ensina o Catecismo de Trento:

No entanto, se alguém der por escusa que a fragilidade de sua natureza o impede de amar a Deus [cumprindo os mandamentos], é preciso dizer-lhe que Deus, exigindo amor, infunde nos corações a força de amar pelo Espírito Santo. O Pai Celestial dá esse bom Espírito a quem lho pede, assim como Santo Agostinho teve toda a razão de pedir: “Dai o que mandais e mandai o que é de vossa vontade.”

Estando, pois, o auxílio de Deus a nossa disposição, mormente após a morte de Cristo Nosso Senhor, pela qual o príncipe deste mundo foi lançado fora, já não há motivo para alguém esmorecer com as dificuldades dos Mandamentos. Nada é difícil a quem ama.[10]

                Não ignorando, porém, que a vontade se fortifica quanto a inteligência está convencida e que, naquele tempo como hoje, não faltavam doutores de iniquidade que ensinassem a não necessidade do cumprimento dos Mandamentos, o Catecismo insiste:

De outro lado, muito contribuirá para despertar idênticas disposições, se falarmos claramente da necessidade de se obedecer à Lei; tanto mais que, em nossa época, não faltam pessoas que, para sua grande desgraça, se atrevem a declarar impiamente, que a Lei, quer seja fácil quer seja difícil, não é de modo algum necessária para a salvação.

Essa opinião ímpia e abominável, deve o pároco refutá-la com os testemunhos da Sagrada Escritura, principalmente do mesmo Apóstolo, em cuja doutrina querem estribar a sua impiedade.[11]

Mas que diz o Apóstolo? “O que importa não é ser incircunciso ou circunciso, mas o que vale é observar os Mandamentos de Deus”.[12] [...]

De fato, quem tem os Mandamentos de Deus, e os põe em prática, esse ama a Deus, conforme diz o próprio Nosso Senhor no Evangelho de São João: “Quem me ama, guarda a minha palavra”.[13]

                São Tomás de Aquino, ao comentar as profecias de Isaias, mostra como Deus não se agrada de nada do que fazem os israelitas – seus sacrifícios, suas festas e solenidades, e mesmo suas orações – porque eles abandonaram o cumprimento da Lei: são assassinos, adúlteros, ladrões. E é apenas o cumprimento das boas obras, o cumprimento dos Mandamentos que pode agradar a Deus. Sem eles, os próprios atos de culto não passam de hipocrisia e são rejeitados por Deus:

“Detesto vossas solenidades e festas; tornaram-se uma carga que não suporto mais. Quando estendeis as mãos, fecho os olhos; ainda que multipliqueis as orações não vos escutarei. Vossas mãos estão cheias de sangue.”

                Mas o remédio é simples, como mostra o Doutor Angélico, e consiste em duas coisas: na fuga do mal e na prática do bem, ou seja, no cumprimento dos Mandamentos.[14]

Assim, depois de nos ter ensinado, assim que concebeu o Verbo, o amor e o serviço do próximo – na visita a Isabel –  e a inteira conformidade com a vontade de Deus, manifestada por suas criaturas, em todas as circunstância – em sua viagem para Belém – a Santíssima Virgem nos ensina neste seu terceiro caminho que a caridade, o amor verdadeiro a Deus, manifesta-se, sempre, no cumprimento fervoroso de suas leis.

 

 

 

 



[1] Ex 13, 2.

[2] Lc 2, 22.

[3] TOMÁS DE AQUINO, Santo. La Moelle de Saint Thomas d’Aquin. Paris: P. Lethielleux Éditeur, 1930. Org. MEZARD, OP., Padre. V. 1, p. 141.

[4] São Tomás chama atenção para sete: sua humildade, sua pureza, sua obediência, seu respeito por Nosso Senhor, sua devoção pelos lugares santos, sua gratidão e sua pobreza. Ibidem, p. 139.

[5] LANCUCCI,  Pier Carlo. Maria Santissima nel Vangelo. Milano: San Paolo, 2000. P. 157. Tradução nossa.

[6] LANDUCCI, op. cit. p. 158. Tradução nossa. As maiúsculas e itálicos estão no original.

[7] Cfr. LANDUCCI, op. cit. p. 157 nota 5.

[8] Cfr., apenas à guisa de exemplo, o antinomismo pouco velado do Padre Storniolo, comentado pelo Prof. Orlando Fedeli, colateralmente, neste artigo: http://www.montfort.org.br/index.php/cadernos-de-estudo/desigualdade-igualdade-consideracoes-sobre-um-mito/

[9] Mt 5, 17-19.

[10] Catecismo Romano. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariano,  sd, p. 384.

[11] Os luteranos afirmavam que São Paulo pregara o abandono dos Mandamentos, quando, na verdade, ele ensinava apenas a ab-rogação das leis rituais judaicas. Cfr. Rm 2, 6 ss.

[12] 1Cor 7, 19.

[13] Catecismo Romano, p. 384.

[14] Cfr. TOMÁS DE AQUINO, Santo. Commentaire sur le Prophète Isaïe. Tradução dos Monges da Abadia de Fontgombault. Introdução Pe. J. Elders, SVD. Paris – Saint Maur (Val de Marne): Presses Univesitaires de l’IPC, 2011. p. 16 e SS.


quarta-feira, fevereiro 29th, 2012 at 1:35am

Comunicado sobre o acesso ao conteúdo do “antigo” site Montfort

Publicado em Artigos da Montfort

 

Prezados amigos e leitores do site Montfort

Como é do conhecimento de nossos leitores, o “antigo” site Montfort não está podendo ser acessado de forma regular.

Durante este período contatamos, por diversas vezes, por telefone e por mensagens eletrônicas, o provedor responsável pela hospedagem do site. Alguns destes telefonemas duraram mais de hora, sendo que nesta ocasião foram realizados testes para identificar a origem do problema. Por diversas vezes, recebemos a promessa de solução de forma rápida, o que infelizmente não aconteceu.

Após essas longas discussões, acabamos por receber a informação de que o sistema utilizado para a confecção do antigo site não mais poderia ser utilizado para a hospedagem em nosso provedor e por esta razão ele permanecia incessível.

Como é do conhecimento de todos, já faz algum tempo iniciamos um processo de melhoria técnica do site, que visa modernizar e atualizar as suas técnicas de edição.

Para a complementação deste trabalho, existe a necessidade de migração de todo o conteúdo, que é de grande extensão, do antigo para o novo site. Neste período, até que a migração estivesse completa, para que nossos leitores pudessem continuar a ter acesso a todo o material do site, optamos por manter ativos os dois modelos do site.

Para a solução do atual problema estamos acelerando o citado processo de migração,  além de, juntamente com nosso provedor, obter uma solução técnica para que o acesso ao conteúdo do antigo site possa voltar ser feito, o mais rapidamente possível.

 

Associação Cultural Montfort


quinta-feira, fevereiro 9th, 2012 at 12:38pm

O SEMEADOR, O PLANTIO E OS GRILLOS

Publicado em Artigos da Montfort

André Roncolato Siano

Nosso Senhor sempre usava das parábolas pois, ao mesmo tempo em que pelo uso das coisas quotidianas podia ensinar aos simples seus deveres morais, podia, igualmente, pelos uso dos símbolos, ocultar dos maus as profundas verdades da revelação confiadas à Igreja, para que ela, Mãe e Mestra, fizesse o justo uso de seu poder.

Cristo, Nosso Senhor, nos Evangelhos, diz mais de uma vez palavras sobre a semeadura. Uma destas parábolas é sobre as sementes jogadas pelo semeador, que ora caem em meio aos abrolhos, ora ao longo do caminho, ora em meio às pedras e ainda algumas em terra fértil.

Respectivamente, as primeiras, são sufocadas pelos espinhos, as que caem próximas ao caminho são devoradas pelas aves, ainda as que estão em meio aos pedregulhos morrem por não terem raízes profundas. Mas as que caíram em terreno fértil germinam e dão frutos.

A Igreja, durante os séculos, vem imitando Nosso Senhor, até os dias de hoje. Em nossa época, o Papa Bento XVI está semeando a boa semente litúrgica, principalmente a semente do Vetus Ordo a qual, no Motu Proprio Summorum Pontificum, é apresentada à Igreja como um remédio eficaz na contenção dos abusos litúrgicos – que se tornaram regra em praticamente todas as paróquias brasileiras, salvo heroicas exceções – e como farol seguro nas névoas de uma crise litúrgica e doutrinal sem precedentes na Igreja. Como na parábola de Nosso Senhor, a semeadura do Papa encontra vários terrenos. E os terrenos férteis aqui no Brasil, já se mostram numerosos. Estes terrenos são os corações de muitos bons padres e alguns excelentes bispos que compreendem bem essa empresa e põe em prática, com coragem e amor à Igreja, a Santa Liturgia da Forma Extraordinária, mesmo sabendo das incompreensões que sofrerão.

Pois bem, é ai que entram os grilos!

Grilos que, como se sabe, não existem na parábola de Nosso Senhor. Para nossos amigos – e inimigos – leitores que não estão familiarizados com a jardinagem, os grilos são aqueles bichinhos estridentes, primos dos gafanhotos, que tentam estragar as plantações e o trabalho do semeador principalmente quando estão no começo, pois que as plantas são mais tenras e vulneráveis. Enfim, é o bicho que tenta estragar a semente que já brota em solo fértil.

Na semana passada, a CNBB realizou o “Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium” (1), alinhadíssimo com a agenda daquela minoria de bispos simpatizantes do progressismo cafona latino americano, como se pode notar pela fóssil terminologia adotada para o evento, por exemplo: “a Releitura da Sacrosantum Concilium, no Contexto do Concílio Vaticano II e nos Documentos Latino-Americanos.” ou então, “em busca do rosto e do lugar da liturgia na vida e na missão da Igreja como serviço para a vida plena em Cristo e ao acontecimento do Reino de Deus.” O mau-gosto aqui não é o mais importante. Mas permite antever a proximidade dos setores progressistas, ou seja, daqueles setores que promovem sistemática e propositalmente a baderna litúrgica, com o tal seminário de liturgia.  

 

Andrea Grillo

 

 

 

Pois essa ala, como principal assessor do simpósio, convidou o professor de Teologia Sacramental na Pontifícia Faculdade Teológica da Universidade de São Anselmo em Roma, e no Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, Andrea Grillo. Embora, na realidade, na Universidade Santo Anselmo esse professor tenha uma importância que, digamos, beira a irrelevância.

 

Grillo é radicalmente contra o Motu Proprio Summorum Pontificum, contra as determinações do Universae Ecclesiae e evidentemente contra a Missa Antiga. Ele, ousadamente, defende que a benevolência e justiça do Papa Bento XVI para com a Igreja e a Missa Tridentina não passam de uma “pretensão de paralelismo ritual (…) o que – já à primeira vista – se revela incoerente, ineficaz e gravemente perigoso para a comunhão eclesial.” (2) [destaques nossos, mas palavras absurdas dele].

 

Ou seja, como, num evento tão importante para a liturgia promovido pela CNBB, o principal assessor é um obstinado opositor do trabalho de restauração litúrgica do Papa? Como se dá tal destaque a um professor que emite opiniões públicas veementemente contrárias à vontade do Papa? Que combate os Cardeais – como o Cardeal Cañizares – que trabalham diligentemente para estabelecer a ordem litúrgica, solapada pela rebeldia inexplicável daqueles padres que deveriam proteger a pureza do culto?

 

Essa é uma atitude curiosa, visto que imprime certo desconforto para a Conferência dos Bispos.

 

O grilo, diferente do gafanhoto, não é tão intempestivo. Faz seu trabalho de forma mais sutil e sua presença só se nota, muitas vezes, pelos seus estalidos irritantes. O Professor Grillo faz seu trabalho usando de linguagem cheia dos rebuscamentos acadêmicos, para distrair dos argumentos. Por exemplo, é difícil compreender o que ele quer dizer quando afirma: “O Concílio promove uma Reforma para que todos possam sentir o ritual como linguagem ‘própria’(2). Se meditarmos brevemente sobre isso, o sentido mais plausível da insinuação do “prestigioso” Grillo é que todos, e cada um, devem passar a se sentir donos e proprietários do ritual. Isso explica porque cada um faz o que bem entender nas missas, desde o padre até a gerente da igreja, onde o céu é o limite da criatividade. Exatamente o que a Instrução Repentionis Sacramentum condena: “[18.] Os fiéis têm direito a que a autoridade eclesiástica regule a sagrada Liturgia de forma plena e eficaz, para que nunca seja considerada a liturgia como «propriedade privada, nem do celebrante, nem da comunidade em que se celebram os Mistérios».”

 

Grillo estrila contra a volta do Rito Tridentino também com o argumento da “tradição”: “o rito que brotou da Reforma Litúrgica é “mais antigo” do que o tridentino, porque tenta se encaminhar para a superação do individualismo – tanto clerical quanto laical – que caracteriza tão fortemente aquela versão moderna do rito romano que é o rito tridentino. . Não apresenta provas de que o Novus Ordo tenha características da forma de celebração da Igreja primitiva, mesmo porque hoje em dia se sabe que essas provas não existem. Mas com isso cai no arqueologismo litúrgico, moda anos quarenta e cinquenta, o qual, para que se saiba, foi condenado na Mediator Dei de Pio XII. Com seu furor em demolir tudo o havia sido construído em séculos de sabedoria de História da Igreja, este arqueologismo que foi um dos grandes condutores para a crise litúrgica que vivemos.

 

 

 

A ousadia do professor Grillo é bem grande se comparada aos seus argumentos… Ele chega a qualificar, pública e sonoramente, os Atos do Papa com relação ao Vetus Ordo, como “monstruum”! (2) Imaginem os bispos e padres que tiveram estômago para participaram deste evento… em que contradição ficaram!

 

O que nos parece certo, é que a presença de Grillo como principal assessor neste evento da CNBB não é nada casual. Na verdade, foi chamado um progressista bem diplomado para tentar obnubilar as consciências do clero que, pela graça de Nosso Senhor, cada dia mais, consegue enxergar a crise litúrgica a doutrinal que, nestes últimos cinquenta anos, só fez diminuir as vocações, afastar o povo, ameaçando o catolicismo de desaparecimento em algumas regiões do globo.

 

Talvez seja o momento de o clero brasileiro perguntar qual tem sido atividade da CNBB, além de repetir o programa da ONU em suas campanhas da fraternidade. Pois, ela é suficientemente ágil em colocar obstáculos a tudo que é tradicional e piedoso, ao mesmo tempo em que é clara e categórica contra a reforma eclesial querida por Bento XVI. Por outro lado, recebe com diplomacia e bajulações inconvenientes, pessoas como a senadora Marta Suplicy publicamente favorável ao aborto, políticas de controle de natalidade e homossexualismo (3).

 

Evidentemente, Marta não foi à CNBB rezar o Angelus. Nem tão pouco, os bispos são ingênuos a ponto de não saber que qualquer acordo com essa gente é apenas uma armadilha para tiranizar a Igreja e a doutrina de Cristo. Então, o que Marta foi fazer lá? Segundo ela mesma: “- Eu disse para o Crivella: fizemos um acordo com a CNBB e vocês vão ficar do lado do Bolsonaro? – contou Marta…” (3). A divulgação da desastrosa recepção da militante “pró-cultura da morte”, afinal, foi motivo de uma nota “explicativa” (4) rocambolesca, por parte da CNBB, com o intuito de desmentir o acordo mas, além da nota não explicar nada, pior, não condena a PLC 122/2006 que legitimará a perseguição dos católicos brasileiros.

 

Muito desagradável para os bispos constatar, nesse episódio, o desrespeito ao ensinamento do Papa, que dissera aos bispos da Região Nordeste essas claríssimas palavras: “Caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (Evangelium Vitae, 82) (5)

 

CNBB, doce com os inimigos da Cruz, áspera com os bispos que desejam viver na clareza doutrinal. Obstinada e clara contra a Missa Antiga e os católicos tradicionais, tolerante e cheia de mimos com os políticos anticatólicos.

 

Já não seria hora de os bispos diocesanos – que tem todo o direito e dever de interferir nesta instituição, a qual não tem natureza teológica (6), e, que, ao que tudo indica, está servindo a outros fins que não a Fé – agirem pelo direito de seguir pacificamente o Papa, sem serem incomodados por atrevidos cri-cris modernistas?

 

Utilizemos o inseticida da clareza doutrinal e cuidemos da plantação, para que se possam produzir frutos trinta por um, cinquenta por um.

 

Na festa de São Cirilo de Alexandria, bispo.

 

AMDG,

 

André Roncolato Siano

 

 

 

(1)   Começa o Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium

 

 

 

(2)    Andrea Grillo – Por uma Ecclesia verdadeiramente Universa (Unisinos, entrevista por Moisés Sbardelotto)

 

 

 

(3)  CNBB e Marta fazem acordo sobre projeto que criminaliza homofobia 

 

 

 

(4)  Nota de Esclarecimento

 

 

 

(5)   Discurso de Bento XVI aos Bispos da Região Nordeste V em 28.10.10.

 

 

 

 

 

(6)   Motu Proprio Apostolos Suos.

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, fevereiro 7th, 2012 at 7:14pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 3 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano - parte 1 e parte 2.

Mário Silva Martins

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, na qual naufragam inúmeras almas. Com frequência, se dá o fato curioso de que uma alma, que acaba de tomar a determinação de ser “humilde de coração” ou de “aceitar com alegria qualquer espécie de humilhações”, pouco depois queixa-se imensamente se alguém cometeu a imprudência de lhe causar um pequeno incômodo ou uma humilhação involuntária e insignificante.

Para ajudar a prática da humildade, recomendamos a leitura do Filotéia, ou Introdução à vida devota, de São Francisco de Sales, que trata dela na terceira parte de sua obra.

Os autores espirituais nos oferecem três meios principais para chegar à verdadeira e autêntica humildade de coração:

a) Pedi-la incessantemente a Deus

Todo dom perfeito vem do alto e desce do Pai das luzes” (S. Tiago I, 17).

A humildade perfeita é um grande dom de Deus, que Ele costuma conceder aos que o pedem com oração incessante e fervorosa. É um dos pedidos que deveriam ser feitos com maior frequência em nossas orações.

Dom Columba Marmion recitava a Ladainha da Humildade

Dom Columba Marmion costumava, com frequência, recitar uma “ladainha da humildade”. Ainda que a eficácia da oração não esteja ligada a uma fórmula determinada, muitas almas tiram grande proveito de uma oração já estruturada. Por isso copiamos imediatamente abaixo o texto usado por Dom Columba Marmion:

Senhor, tende piedade de nós; Jesus Cristo, tende piedade de nós; Senhor, tende piedade de nós.

 

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-nos.

Jesus, manso e humilde de coração, atendei-nos.

 

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser amado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser buscado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser louvado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser honrado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser preferido, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser consultado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser elogiado, livrai-me, Senhor!

 

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser desprezado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser rechaçado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser caluniado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser esquecido, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser debochado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser injuriado, livrai-me, Senhor!

 

Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por mim!

São José, protetor das almas humildes, rogai por mim!

São Miguel, que fostes o primeiro a combater o orgulho, rogai por mim!

Todos os santos justificados pela humildade, roguem por mim!

 

Oração.  Ó Jesus, cujo primeiro ensinamento foi este: ‘Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração’, ensinai-me a ser humilde de coração como Vós”.

b) Colocar os olhos em Jesus Cristo, modelo de humildade

Jesus Cristo nos deixou exemplos sublimes de humildade, eficacíssimos para nos mover a praticar esta grande virtude, apesar de todas as resistências de nosso amor próprio desordenado. Nosso Senhor mesmo pede que tenhamos os olhos nele: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (S. Mateus XI, 29).

A vida de Nosso Senhor pode ser dividida em quatro etapas e, em todas elas, a humildade brilha com caracteres impressionantes:

1) Na sua vida oculta:

a) Antes de nascer: se aniquilou no ventre de Maria; se submeteu a um decreto caprichoso de César; à pobreza; à ingratidão dos homens (“e os seus não o receberam”)…

b) Em seu nascimento: pobre, desconhecido, de noite, num presépio, com pastores e animais…

c) Em Nazaré: vida escondida, trabalhando manualmente, pobre aldeão, sem estudos em universidades, sem deixar brilhar um só raio de sua divindade, obedecendo São José e Nosso Senhora, talvez até mesmo a um patrão depois da morte de São José…

Motivos abundantes para fazer com que morramos de vergonha por nosso orgulho.

2) Em sua vida pública:

a) Escolhe seus discípulos entre os mais simples: pescadores e um publicano!

b) Busca e procura converter não só ricos como Lázaro e José de Arimatéia, mas também  os pobres, pecadores, afligidos, as crianças, os pouco favorecidos.

c) Vive pobremente, prega com simplicidade, usa figuras e comparações humildes ao alcance do povo, não busca chamar a atenção…

d) Faz milagres para provar sua missão divina, mas sem qualquer ostentação, exige silêncio, foge quando querem fazê-lo rei…

e) Inculca continuamente a humildade: a parábola do fariseu e do publicano, a simplicidade da pomba, a pureza das crianças, “Não busco minha própria glória”, “Não vim ser servido, mas servir”.

Ecce Homo de Juan De Juni (1560)

3) Na sua paixão:

a) Um triunfo tão simples no domingo de Ramos, com um pobre burrinho, com ramos de oliveira, mantos que se estendem a seus passos, povo humilde que o aclama, os fariseus que protestam…

b) Lava os pés dos discípulos, inclusive os de Judas! É traído no Getsemani: “Amigo, a que viestes?”, amarrado como um malfeitor perigoso, abandonado por seus discípulos…

c) Esbofeteado, ridicularizado, insultado, escarrado, açoitado, coroado de espinhos, vestido de branco como um louco, Barrabás lhe é preferido…

d) Na cruz: blasfêmias, risadas: “Pois não era o Filho de Deus?”. Podia ter feito a terra engoli-los, mas aceita o espantoso fracasso humano…

4) Na Eucaristia:

a) À mercê da vontade de seus ministros, exposto, contido no sacrário, visitado, esquecido…

b) Completamente escondido: na cruz ainda se deixava ver na sua humanidade…

c) Falta de respeito, afrontas, sacrilégios, profanações horríveis, sacerdotes que não tomam cuidado com as partículas que se desprendem das hóstias e mesmo com hóstias inteiras, fiéis que vêem a hóstia como um pão qualquer…

Sem dúvida, a consideração frequente destes sublimes exemplos de humildade que nosso divino Mestre nos deu tem enorme eficácia para conduzir-nos até a prática heroica desta virtude fundamental.

Os santos não ousavam sonhar com grandezas e triunfos humanos vendo seu Deus tão humilhado. Uma alma que deseja verdadeiramente santificar-se deve ver, definitivamente, o seu nada e começar a praticar a verdadeira humildade de coração, seguindo Nosso Senhor: “Quem quiser vir depois de mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga” (S. Lucas IX, 23).

c) Imitar Nossa Senhora, Rainha dos humildes

Depois de Jesus, Nossa Senhora é o modelo mais sublime de humildade. Sempre viveu na atitude de uma pobre escrava do Senhor. Raramente fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas próprias de uma mulher na pobre casa de Nazaré, aparece no Calvário como mãe do grande fracassado, vive escondida e desconhecida sob os cuidados de São João depois da ascensão de Nosso Senhor, não faz qualquer milagre, não se sabe exatamente onde morreu…

Sob seu olhar maternal devemos praticar a humildade de coração para com Deus, para com nosso próximo e para conosco.

Para com Deus, submetendo-nos a Ele e adorando-o sempre, agradecendo-o por tudo o que temos, trazendo sem cessar em nosso espírito que viemos do nada, do limo da terra, que sozinhos não podemos nada e dependemos absolutamente de Deus.

Por isso, nossa origem mais ou menos nobre ou importante neste mundo não tem valor algum, vindo do limo da terra. Pesar nossas qualidades é uma perda de tempo: tudo o que somos e temos vem de Deus e podemos perder tudo do dia para a noite. O orgulho é uma grande mentira e Santa Teresa de Ávila dizia que a humildade é andar na verdade (Moradas sextas 10, 7).

Para com o próximo, admirando nele, sem inveja ou ciúmes, os dons naturais e sobrenaturais que Deus lhe deu, não observando intencionalmente seus defeitos, desculpando suas faltas com caridade, salvando ao menos a boa intenção e considerando-nos inferiores a todos. As incontáveis vezes nas quais não aproveitamos as graças que Deus nos deu são motivos mais que suficientes para que cada um de nós se tome verdadeiramente como o último dos pecadores, “o pecador por excelência”, como dizia o publicano em sua oração. Qualquer outra pessoa teria sido mais fiel com as graças que temos recebido.

Finalmente, para conosco, amando nossa miséria, nunca esquecendo que, se cometemos um só pecado mortal, fomos resgatados do inferno, éramos prisioneiros do demônio. Nunca nos humilharemos o suficiente. Aceitemos as ingratidões, o esquecimento, o desprezo da parte dos outros. Nunca falemos de nós mesmos, nem bem, nem mal. Se falarmos mal existe o perigo de hipocrisia. Somente os santos sabem fazê-lo bem. Se falarmos bem, existe o perigo da vaidade e soa mal diante de quem nos ouve. A melhor coisa a fazer é calar, como se não existíssemos no mundo.

E assim, quanto mais uma alma subirá até Deus pela prática das boas obras e pela oração, tão mais estável estará pelo profundo fundamento da humildade, referindo a Deus tudo o que é, tem e recebe.

A humildade é andar na verdade, e a verdade nos libertará.


quarta-feira, fevereiro 1st, 2012 at 4:20pm

A Beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual – Parte 3

Publicado em Artigos da Montfort

Este artigo é uma continuação de A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (parte 2), e Parte 1

Pierre de Craon Lejeune

Nos artigos anteriores nós estudamos duas definições de beleza, uma de Santo Alberto Magno e outra de Santo Tomás de Aquino. Diferentes nos termos, elas são perfeitamente complementares entre si.

Vimos que a beleza está fundamentada em critérios objetivos, presentes na realidade das coisas: matéria e forma, ordem, proporção, perfeição. Uma vez que Deus dispôs todas as coisas com medida, número e peso” (Sabedoria 11, 21), só nos resta uma conclusão a tirar: o mundo visível manifesta com abundância as maravilhas da bondade de Deus.

A beleza da criação está, portanto, por todas as partes. Mas, por vezes escondida aos nossos sentidos e contida no decurso quotidiano das coisas, ela muitas vezes só se revela às pessoas que sabem observar com atenção.

Lembramos que a beleza tem uma relação estreitíssima com a inteligência. O conhecimento da beleza pertence essencialmente ao intelecto. Ordem, proporção, perfeição são conceitos contidos na noção de beleza e que só podem ser percebidos pela inteligência.

Todavia, por causa da união do corpo com a alma, para que o homem conheça a beleza de algo necessariamente atuam os sentidos (sobretudo a visão e a audição) e a imaginação. Daí dizermos que os olhos e os ouvidos têm seu agrado nas coisas belas.

Mas isto não significa que somente as pessoas de grande capacidade especulativa, intelectuais, dedicadas ao estudo e que possuem um diploma universitário são capazes de distinguir o feio do belo. Atualmente os universitários, em sua grande maioria, possuem os gostos artísticos mais bizarros… Quem nunca passou perto de um muro pichado e depois não se deu conta de que passava ao lado (ou dentro) de uma faculdade?…

Todos os homens têm inteligência. Alguns, ainda que sejam lavradores e pedreiros, ainda que não sejam grandes especuladores, a cultivam bem. São capazes de produzir coisas belas, simples ou mesmo grandiosas. Outros, mesmo se estudam numa universidade (sobretudo se estudam numa universidade…), podem cultivá-la mal. Acham que grafite, pichação, é arte. Admiram Stravinsky. Vestem-se com bermuda, chinelo, camiseta regata, falam palavrões, fumam maconha. Constituirão a elite intelectual do país…

Um lavrador pode ter pouca habilidade intelectual, encontrar dificuldade em distinções finas, em sistematizações abstratas. Porém, se possuir princípios corretos, verá o mundo e as coisas que existem nele com clareza. Saberá distinguir o feio do belo. Uma pessoa que tenha diploma, se possuir princípios tortos, julgará algo bom como mau e vice-versa.

Depois de termos estudado, em nossos artigos anteriores, a objetividade da beleza – extremamente contestada hoje – começaremos agora a analisar os cinco elementos necessários à sua existência concreta.

Com isso esperamos poder ajudar na formação das inteligências, para que elas estejam mais bem preparadas para distinguir o feio do belo, para separar o joio do trigo na esfera artística, para saber se uma obra de arte é conforme às verdades que a luz natural da razão, sem a Revelação, nos apresenta. Pois, se é importante que uma obra de arte não ensine heresias, também é importante que ela não transmita tolices… Assim, gostaríamos que nossos leitores possam, com maior propriedade, dizer se algo é belo e por que motivo.

Estes cinco elementos são: a variedade, a integridade, a proporção, a unidade e o esplendor.

Alguns responderão que Santo Tomás menciona somente três propriedades necessárias para que algo seja belo: “Para a beleza, três coisas são necessárias: primeiramente, integridade ou perfeição (…); devida proporção ou consonância; e clareza” (Suma Teológica I, q. 39, a. 8). Não contestamos esta afirmação de Santo Tomás. O que faremos é explicitar dois elementos (variedade e unidade), contidos implicitamente entre os três elementos mencionados pelo Doutor Angélico, com a finalidade de tornar nossa explicação mais didática.

Estes elementos estéticos não possuem a mesma importância nem o mesmo papel.

Primeiramente, todos são igualmente necessários, mas nem todos têm uma influência igual sobre a beleza.

Depois, eles não se comportam do mesmo modo nos diferentes gêneros de beleza. Estes elementos se conformam à natureza dos seres nos quais se encontram. A unidade de nossa alma é diferente da unidade de uma sonata ou de uma cena pintada num quadro. O esplendor de um corpo é diferente do esplendor de um anjo.

Além disso, eles exercem entre si uma influência mútua, se completam, fazem um contrapeso entre si e mantêm o equilíbrio do ser.

Finalmente, é necessário saber que dois dentre eles pertencem propriamente ao princípio material das coisas: a variedade e a integridade; dois deles pertencem ao princípio formal: a unidade e o resplendor. A proporção pode ser vista como estando relacionada à matéria e à forma juntamente.

Ao longo de nosso trabalho ficará mais claro como a filosofia escolástica e os princípios de Santo Tomás de Aquino sabem colocar cada coisa no seu lugar, unificando a parte sensível ou material com a parte formal, inteligível, da beleza.

Nos nossos próximos artigos mostraremos a natureza, o papel e o lugar de cada um destes cinco princípios que compõem a beleza.


domingo, janeiro 29th, 2012 at 10:59pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 2 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo – Parte 1

Mario da Silva Martins

Um exemplo de humildade: Santa Maria Madalena de Pazzi.

São Francisco de Sales dizia que “a vida dos santos está para os Evangelhos como a partitura tocada por um músico está para a partitura escrita”. De modo que, depois de termos apresentado para o leitor o Evangelho escrito, queremos mostrar agora o Evangelho vivido. Como o Evangelho brilha mais compreensível, mais palpável nas vidas dos santos!

Santa Maria Madalena de Pazzi teve por pai Camillo Geri de Pazzi, cuja família era aliada à família Médicis e, por mãe, Maria Laurência de Bondelmonte, cuja origem não era menos ilustre.

Ela nasceu no dia 2 de abril de 1566, em Florença, e recebeu o nome de Catarina no momento do batismo, em honra de Santa Catarina de Siena, por quem sempre teve terna devoção. À medida que crescia foi crescendo também em santidade, ficando sempre feliz quando podia ouvir a doutrina católica ou conversas piedosas.

Com sete anos, tendo encontrado num livro o Símbolo de Santo Atanásio, ela o leu com tanto gosto que foi correndo mostrá-lo à sua mãe, o que indica que Deus já lhe dava luzes sobre o mistério da Santíssima Trindade.

Aprendeu o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo com avidez, repetindo-os frequentemente e ensinando-os aos pobres. Quando seu pai a levava ao campo, ela agrupava as jovens à sua volta para ensiná-las a doutrina católica.

Cedo ela começou a se aplicar à oração, antes que tivesse idade para ser formada por diretores. Deus mesmo era seu mestre. Buscava os lugares mais solitários e tranquilos da casa para rezar e concebeu um desejo tão grande de agradar a Deus que não tinha mais nenhum gosto pelas doçuras que o mundo busca tão afoitamente. Seu fervor era tanto, que seu confessor viu-se obrigado a permitir que comungasse com 10 anos, o que na época era excepcional. Fez voto de castidade com 12 anos, sendo tão fiel a ele que durante toda a sua vida nunca cometeu algo que pudesse servir de reprovação nesta matéria.

Alguns anos mais tarde, quando seu pai buscará um marido que lhe seja conveniente, ela não dará seu consentimento e pedirá a permissão de abraçar o estado religioso, o que lhe será concedido.

Catarina escolhe então a Ordem do Carmelo, porque nele se comungava quase todos os dias. Ela ingressou na ordem na vigília da Assunção de Nossa Senhora, mas depois de aí passar quinze dias ela se vê obrigada a sair, por obediência ao seu pai. Ele lhe pedia isso com a intenção de prová-la na sua resolução.

Após uma provação de três meses ela obteve, enfim, a permissão de retornar, com a benção de seus pais. Na vigília do primeiro domingo do Advento, em 1582, com 16 anos, ela voltou ao Carmelo e, no sábado seguinte, dia da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, foi unanimemente recebida como religiosa.

Após sua profissão perpétua ela tinha êxtases quase quotidianos, nos quais Deus lhe ditava coisas tão elevadas que seus superiores designaram duas irmãs que as transcrevessem.

Expulsou o demônio do corpo de uma jovem, mandando imperiosamente que saísse. Foi favorecida por Deus do dom de fazer milagres e também profetizava. Predisse ao cardinal Alexandre de Médicis, arcebispo de Florença, que fora visitá-la, que um dia ele seria Papa. Ela renovou sua predição quando este cardeal foi enviado pelo Papa Clemente VIII à França como legado junto ao rei Henrique, o Grande: “Este prelado possui atualmente uma grande honra, mas ele possuirá uma ainda maior. Ele será elevado ao sumo pontificado, mas não terá esta dignidade por muito tempo. Quando desejará abraçá-la, ela passará num instante”. De fato, Alexandre de Médicis, eleito papa com o nome de Leão XI, em 1605, viverá somente 26 dias após sua eleição.

O Padre Lourenço Brancácio, de origem toscana e carmelita observante, escreveu uma biografia desta santa admirável, onde nos relata um de seus exames de consciência:

Na tarde de 6 de abril de 1592, ajoelhada em terra para se examinar do decurso daquele dia, foi arrebatada em êxtase, em que começou a rezar o Salmo Domine, quid multiplicati sunt (Salmo 3), etc. Depois do qual disse também o Salmo Qui habitat (Salmo 90). Este acabado, começou a falar com o amantíssimo Jesus, desta maneira:

Ó Jesus meu, qual foi hoje o primeiro pensamento que tive? Sinto muito, que não foi de vós. Temi que já fosse passada a hora de chamar as vossas esposas [chama assim as religiosas do convento] para vos louvarem: e não foi de apresentar-me à Vossa Majestade e glorificar-vos. Depois disso fui para o coro a fim de oferecer-me a vós: porém não o fiz resignando-me em tudo, e por tudo, à vossa vontade. Ó benigníssimo Deus, que misericórdia eu poderei receber de vós, pois me não entrego toda a vós? Tende de mim misericórdia, ainda que eu a não mereça, senão antes mil infernos.

Depois, quando comecei a vos louvar, me deixei levar mais da pena de ver algumas que faltavam nas cerimônias e com as inclinações devidas, que do cuidado de vos honrar e oferecer os meus louvores, em união com os louvores que vos dão os Espíritos bem-aventurados [os anjos]. Bem tenho de quê vos pedir misericórdia, ó grande Deus, pois no que tão imediatamente toca a vós, que são vossos louvores, cometo tantas imperfeições.

Depois, quando cheguei a receber vosso precioso Corpo e Sangue (que devia ser com todo o afeto que me era possível), me pesa de que não tive intenção de recebê-lo em memória de vossa Paixão sagrada, como vós dissestes, nem tampouco tratei de unir a minha alma convosco, mas somente de como faria aquietar o meu coração.

Bem cedo ouvi a palavra divina; porém, mais considerei se era verdade que nos fossemos, como vós fazíeis dizer ao vosso Cristo [chama os pregadores e confessores de “Cristos do Senhor”], do que no amor que me mostráveis. Mas, Senhor meu, eu não sei outra coisa mais que vos pedir misericórdia.

Quando fui receber os frutos de vosso Sangue no Sacramento da Penitência, mais considerei o que havia de dizer ao vosso Cristo, para sossegar o meu coração, do que o benefício que me fazeis em lavar a minha alma no vosso Sangue, e não me confiei de vós, que me daríeis graça com que o meu coração se aquietasse.

O Senhor meu! E quais foram as minhas palavras, que hoje proferi? Foram de repreensão: e o modo pouco pacífico de dizê-las, e suave, foi causa de se inquietar o coração daquela [acusa-se de ter repreendido uma noviça]. E o que pior foi, faltei à caridade, pois vendo o seu coração inquieto, não procurei sossegá-lo, para poder se unir convosco. Eis aqui, Senhor, o que tiro de tanta união e luz que me dais, que se a désseis a qualquer outra criatura, ela vos seria muito mais agradecida. E eu pobre e miserável, nenhum fruto tiro, pois falto à caridade para com vossas esposas. Perdoai-me por amor de vossa Paixão sagrada.

Depois, quando fui falar àquela criatura, acuso-me de que fiz uma grande hipocrisia, fazendo-me ser reputada pelo que não sou. E suposto que fiz aceno às vossas criaturas, não mereci que elas me entendessem. E assim signifiquei ter a minha alma unida convosco [diz isto porque estando no locutório com uma de suas tias, foi alí arrebatada em êxtase; tinha acertado com outras freiras que, quando fizesse certo aceno, levassem-na embora da grade, porque pressentia o êxtase]; e bem sabeis quantas vezes anda distraída fora de vós. Mostrei ser religiosa: e bem sabeis vós o que sou. Clamo a vós misericórdia, e perdão desta grande hipocrisia, e vos ofereço o vosso Sangue, por meu remédio derramado com tanto amor. Se me mandais para o inferno, ó Senhor, como o mereço! O meu devido e próprio lugar será aos pés de Judas, pois tanto vos tenho ofendido.

Fui depois dar o sustento necessário ao meu corpo. Porém, que intenção tive eu de vos agradar e honrar nesta ação? Não me lembrei de apresentar-vos tantos pobrezinhos, que porventura andam muito tempo batendo pelas portas em busca de um bocado de pão, e talvez que não acham quem lhes o desse. E eu miserável e indigna, sem algum trabalho meu (e o que é pior, sem merecimento), me provê a religião [a Ordem Carmelita] de tudo o necessário. E não só cometi contra vós esta ofensa, senão de mais a mais outra, que fui ocasião daquela vossa esposa falar tantas palavras em lugar onde eu sabia não ser lícito falar. Eis aqui, Senhor, como em todas as minhas obras não acho mais que ofensas vossas. Como, pois, poderei aparecer em vossa presença e pedir-vos mercês e graças, e a encomendar-vos vossas criaturas, sendo tantas as minhas culpas que não mereço useis comigo de misericórdia? Porém, Senhor, aquele amor que vos moveu a baixar à terra, e derramar vosso Sangue, ele vos mova a ter misericórdia com a minha alma.

Depois, quando não fui louvar-vos em companhia das outras vossas esposas, foi só por minha culpa. Porque tanto que aquela criatura me disse, que não fosse, logo me acomodei a ficar. Ah Jesus meu! Se ela me pedira outra qualquer obra de caridade, não me acharia tão pronta. Ó Deus meu, como quero eu ter confiança de chegar onde para sempre vos louve em companhia dos Anjos, se tão facilmente falto em vos louvar em companhia de vossas esposas? Eu vos ofereço o vosso Sangue, para que mediante seu valor infinito, me concedais misericórdia.

E nas obras que fiz, que intenção tive, Deus meu, de vos honrar e glorificar; pois vejo que mais me pesa do tempo que vós com vosso favores me levais, do que do tempo em que falo em vos oferecer a minha alma? É verdade que fiz sinal àquelas vossas virgenzinhas de que era hora de silencio, mas não considerei quanto mais obrigada era eu a estar em silêncio unida convosco.

Depois, quando houve de invocar o Espírito Santo, estava com a mente tão desviada de vós, que me não lembrava o como se havia de fazer: de sorte que as outras que não têm tanto tempo de religião, tiveram mais prudência que eu. Eis aqui, meu Jesus, como em todas as obras tenho faltas. Como poderei, pois, aparecer em vossa presença, tendo-vos tão ofendido? Torno a oferecer-vos o vosso Sangue, que só mediante o seu valor, espero perdão.

E que grande falta foi aquela outra, quando houve de fazer aquela obra? Por poupar-me a um pouco de trabalho em dar alguns passos, faltei ao que era obrigada a fazer, e vali-me de outra que me fizesse caridade, e eu não fiz caridade com a minha alma. Mais interesse tive em não me cansar um pouco, do que em que vós não vos afastásseis de mim. Em todas as minhas obras acho defeitos. Porém vós, não olhando para vossas ofensas, senão para vossa bondade, de novo me atraístes a vós, onde me destes tanta luz, que se a désseis a outra qualquer alma, faria mais fruto, do que em mim miserável.

Depois fui dar refeição ao meu corpo, e não me lembrei de tantos pobrezinhos que não têm de que sustentar-se, e a mim, Senhor, me dais provisão com tanta largueza. De novo vos apresento vosso Sangue por tantas ofensas, que contra vós cometo.

Ai de mim, Jesus meu, que estamos no fim do dia, e não fiz coisa alguma sem ofensa vossa! Pois agora, que farei? Ó meu Deus, se tanto vos tenho ofendido neste dia, não quero eu acrescentar mais outra ofensa, qual seria não confiar em vossa misericórdia. E suposto, Senhor, que a não mereço, todavia o vosso Sangue, que por mim derramastes, me fará confiar em vós, que me haveis de perdoar”.

E o seu biógrafo, no relato de sua vida, continua:

Feito este exame, ainda sem sair do êxtase, se retirou a um lugar oculto do Convento, onde tomou uma aspérrima disciplina [isto é, flagelou-se], em castigo destes levíssimos defeitos. Deste modo examinava esta alma a sua consciência cândida, e assim a sacudia do mínimo pozinho que a pudesse manchar”.

O reconhecimento de nossa miséria

Depois de vermos este exame de consciência de uma santa, como aparecerão diante de Deus as distrações voluntárias que temos durante nossas orações e nossos terços, recitados com a pronúncia toda atropelada, com os olhos curiosos de ver o que se passa a nossa volta, com falta de modéstia do corpo e cheios de impaciência no espírito, interrompendo-o pelo menor motivo?

Como aparecerão as missas que assistimos sem preparação, tendo a memória ocupada com muitas coisas que não têm importância na hora da missa? E os padres que rezam missa com tanta negligência na observação dos ritos, com pressa e inquietação?

Como aparecerá o modo com que tratamos nossos próximos, quando estimamos maliciosamente suas ações ou, o que é pior, suas intenções? Como aparecerá nosso interesse por seus defeitos naturais e morais, nossas desculpas para não ajudá-los nas suas necessidades, o fato de criarmos atrito com eles por um motivo leve e mesmo por nenhum motivo ou por amor próprio ferido?

E nossas palavras de queixas, mentirosas, inúteis, de orgulho, de elogio próprio, murmurações? Como aparecerão nossos pensamentos tidos longe da presença de Deus, nossas obras feitas com intenções menos retas?

E se não encontramos tantas faltas assim em nosso exame, é porque nos falta diligência em fazê-lo e humildade. Se uma grande santa como Santa Maria Madalena de Pazzi, que tinha todas as suas ações bem cercadas pela santa regra do Carmelo, encontrava no fim do dia tantas coisas para se penitenciar, o que será de nós, que vivemos no mundo? Assim como não há rio que não recolha lodo, galhos e folhas nas suas margens, assim também não há homem que não cometa faltas nas suas relações com os outros homens ao longo de um dia.

E, se neste exame de consciência, Santa Maria Madalena de Pazzi pede perdão a Deus até de coisas que não são pecados e que não são coisas a serem acusadas em confissão, mas de coisas que podiam ter sido feitas com maior perfeição, o que será de nossa negligência em fazer penitência pelas faltas grandes que cometemos?

Não há dúvida de que nenhum de nós tenha qualquer motivo para se orgulhar e para se crer virtuoso. Ao contrário, depois de examinarmos nossas consciências – e nelas encontraremos misérias em maior número e gravidade do que as que Santa Maria Madalena de Pazzi via em si mesma e das quais fazia grandes penitências –, devemos nos humilhar diante de Deus e nos inclinar à compaixão das misérias e desgraças do próximo, considerando-as de certo modo como próprias, enquanto prejudicam nosso irmão e enquanto podemos nos encontrar em situação semelhante ou pior: “Por que tu olhas a palha que está no olho de teu irmão, e tu não vês a trave que está no teu olho?” (S. Mateus VII, 3).

Que grande exemplo de humildade nos dá Santa Maria Madalena de Pazzi. Ela compreendeu bem a parábola do fariseu e do publicano.

Deus mesmo manifesta em máximo grau a sua onipotência compadecendo-se misericordiosamente de nossos males e remediando nossas necessidades.

A humildade e a caridade andam juntas. Tendo maior luz de nossas misérias, compadeçamo-nos também das de nossos próximos e busquemos ajudá-los, sobretudo pelo exemplo. Quantos de nós, para não dizer todos, fomos levados ao amor de Deus e a uma vida melhor depois de conhecermos alguém exemplar, que mostrava na sua vida a luz e a beleza que existem em servir a Deus, e que suportou nossas misérias com paciência e misericórdia para nos conduzir até um lugar mais alto?

A prática da humildade

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, onde naufragam inúmeras almas.

Assim, para dar ao leitor alguns instrumentos que permitam a obtenção desta virtude tão fundamental da vida cristã e sua prática, apresentaremos, na próxima parte (e última) deste artigo, os principais meios para chegar à verdadeira humildade de coração.


segunda-feira, janeiro 16th, 2012 at 4:30pm

Despretensiosas Considerações de Leituras

Ivone Fedeli

Na Pascendi, que acabo de reler, São Pio X fala, ao tratar da ação dos modernistas, segundo a tradução oficial em português, publicada no site do Vaticano[1], nos “perniciosos conselhos” que os “mais perigosos inimigos da Igreja” “tramam” “já não fora, mas dentro da Igreja”.

Como a acepção de “conselho” que cabe no trecho é a de “assembleia de pessoas que deliberam sobre certos assuntos”, muito mais que a de “opinião, parecer sobre o que convém fazer”[2] e como quem “trama”, fá-lo de forma oculta e traiçoeira, o trecho, sem dúvida, parece aludir a reuniões secretas mantidas por eclesiásticos – “dentro da Igreja” – para planejar sua ação de substituição da “verdade católica” por sua perniciosa doutrina, cujo núcleo é, segundo São Pio X, a “imanência vital”.[3]

Portanto, São Pio X denuncia a existência de uma sociedade secreta, formada por padres, dentro da Igreja, com objetivo de substituir a doutrina da Igreja por uma doutrina contrária a essa.

Que é essa a interpretação correta do texto papal, só se confirma quando se lê o Motu Proprio Sacrorum Antistitum, publicado por São Pio X em 1º. de setembro de 1910, ou seja, três anos após a Pascendi:

“Nenhum bispo ignora, acreditamos, que uma raça perniciosíssima de homens, os modernistas, mesmo depois de a encíclica Pascendi Domini Gregis ter-lhes tirado a máscara, não desistiu de seu propósito de perturbar a paz da Igreja. Eles não cessaram, com efeito, de procurar e de agrupar em uma associação secreta novos adeptos e de inocular com eles, nas veias da sociedade cristã, o veneno de suas opiniões, pela publicação de livros e de brochuras de que eles suprimem ou disfarçam o nome dos autores.”[4]

Aqui o texto é claríssimo: “clandestinum foedus”, “associação secreta”, em português corrente, “sociedade secreta”. Ora, como é evidente e muito claramente mostra o grande especialista em sociedades secretas, A. H. de Oliveira Marques, as sociedades secretas quando condenadas ou perseguidas, não se dissolvem, apenas se tornam ainda mais secretas para continuar a agir[5].

É verdade que muitos historiadores afirmam que os modernistas, após a condenação de São Pio X, submeteram-se e desapareceram e, com eles, o Modernismo.

Jean Rivière, por exemplo, em seu famosíssimo Le Modernisme dans l’église, não hesita em asseverar que “com o juramento antimodernista[6] terminou a história da crise doutrinária que grassava havia dez anos. A partir desse momento, tudo autoriza a considerar o modernismo como desaparecido”.[7]

Embora, em português, o termo “desaparecido” possa ser sinônimo de “oculto” – o que o Modernismo se tornou, sem dúvida – a tese do autor é clara. Desaparecido aqui é sinônimo de aniquilado, destruído.

E para apoiar sua tese, Rivière cita autoridades. E autoridades de simpatias modernistas, o que, segundo ele, daria mais peso a suas opiniões. Houtin, por exemplo, que afirma:

“Um olhar lançado sobre a catolicidade, em 1911, oito anos depois da eleição de Pio X, bastava para constatar que o Soberano Pontífice tinha nela inteiramente restabelecido a ordem teológica. Em quase todo lugar ele tinha conseguido esmagar os inovadores.”[8]

E também Schnitzer: “Na França o modernismo parece inteiramente morto; na Itália, também, ele não se mexe mais; na Alemanha, ele voltou à ordem.”[9]

Ora, ao contrário do que quer Rivière, o fato de serem até líderes modernistas, como Schnitzer, que afirmam que o modernismo morreu não prova absolutamente a sua destruição. Pelo contrário. Claro que o que eles queriam é que os católicos – e o próprio Sumo Pontífice, se fosse possível enganá-lo – pensassem que o inimigo estava morto ou, melhor ainda, nunca tivera vida.

É, aliás, uma tática corrente das organizações secretas, quando denunciadas, procurarem fazer crer que nunca existiram ou, pelo menos, que se dissolveram.[10]

Isso mesmo afirmava, em um interessantíssimo artigo escrito para comemorar os cinquenta anos do Sacrorum Antistitum, Monsenhor Joseph Clifford Fenton, que atuou como perito do Cardeal Otavianni no Concílio Vaticano II:

“No Sacrorum antistitum São Pio X assevera muito claramente da existência de uma aliança secreta ou um foedus clandestinum entre os modernistas de seu tempo. Por qualquer que seja a razão, essa verdade, observada e atestada por São Pio X, e claramente evidente para qualquer pessoa que se dê ao trabalho de estudar a história do movimento modernista, sempre foi singularmente desagradável para os simpatizantes do Modernismo e para os Modernistas. Parece ter sido precisamente com o objetivo de causar confusão sobre esse ponto em particular que os partidários do Modernismo tenham tido extremos cuidados para iludir as pessoas, fazendo-as imaginar que a oposição a Loisy, a Von Hügel e a seus comparsas, dentro da Igreja Católica, era fundamentalmente obra de uma secreta aliança de sinistros e reacionários católicos.”[11]

                Ou seja, o interesse dos modernistas era fazer crer que sua sociedade secreta nunca existira, que nem sequer o Modernismo existira ou que, se acaso tinha existido, tinha se desintegrado com as condenações de São Pio X.

                Coisa muito difícil de acreditar e em que mais bem informados nunca acreditaram. Outro perito do Concílio Vaticano II, o Padre Berto, por exemplo,

“estava persuadido da persistência dessa sociedade secreta. Ele o afirmava mais fortemente que nunca próximo ao fim do Concílio, em 1965: ´Há os cegos, sim, há os surdos, e medíocres e covardes. Mas nem cegueira, nem surdez, nem mediocridade, nem covardia fornecem a explicação exaustiva do que nós vemos. É preciso que haja “outra coisa”, e essa outra coisa só pode ser a persistência do modernismo no sentido da Pascendi, a persistência da sociedade secreta dos modernistas´ ”.[12]

                Sem tratar das causas daquilo a que se assistia, e muito menos de sociedades secretas modernistas, também o Cardeal Ratzinger afirma em suas memórias que os eventos do Concílio eram espantosos, preocupantes – “a mudança no clima eclesial, que ia se manifestando cada vez mais, me inquietou profundamente”[13] – e, justamente, provocadas por uma inexplicável e inexplicada sujeição de determinados bispos a determinados teólogos:

“Ao voltar de Roma eu encontrava o ambiente eclesiástico e teológico cada vez mais eufórico. Aumentava a impressão de que nada na Igreja estava firme e tudo podia ser revisto. Cada vez mais o concílio aparecia como um grande parlamento, que podia mudar tudo e a dar a tudo uma nova forma, de seu jeito. [...]

“O que estava acontecendo, porém, era de um alcance ainda mais profundo. Se os bispos, lá em Roma, podiam modificar a fé (pois assim parecia ser), por que, afinal, somente eles? Em todo caso, ela podia ser mudada; assim parecia, contrariamente a tudo o que se pensara até então; parecia não estar mais subtraída ao poder humano de decisão; era determinada por ele, ao que tudo indicava. Sabia-se, entretanto, que os bispos aprendiam com os teólogos aquelas novidades que agora apresentavam; para os fieis era um fenômeno curioso que seus bispos parecessem mostrar em Roma um rosto diferente daqueles que tinham em casa. Pastores, que até então eram considerados rigorosamente conservadores, apareciam de repente como porta-vozes do progressismo – mas isso vinha de sua própria cabeça? O papel que os teólogos tinham assumido no Concílio criava, de forma cada vez mais clara, uma nova autoconsciência entre os doutos, os quais agora se entendiam como os verdadeiros administradores do conhecimento, e, por isso, não podiam mais aparecer como subordinados aos pastores”.[14]

                Ninguém ignora que essa reviravolta, essa tomada de poder pelos teólogos, mais que consentida, promovida por alguns bispos, fora cuidadosamente preparada em reuniões sigilosas antes e durante o Concílio. Com efeito, como afirma Wiltgen,

“O público quase não ouviu falar da poderosa aliança estabelecida pelas forças do Reno [os teólogos e bispos da Alemanha, Áustria, Suíça, França, Holanda, banhados pelo Reno, e da vizinha Bélgica] e do papel considerável que ela representou na elaboração da legislação conciliar.”[15]        

                Na mesma obra o autor dá vários exemplos de como, em comissões não oficiais, alguns bispos e alguns teólogos tinham preparado com antecedência e com minúcia sua ação durante o concílio.

Dezessete bispos holandeses, por exemplo, reuniram-se para discutir os esquemas prévios enviados por Roma a todos os bispos do mundo. Decidiram que prepararia sobre eles um comentário que seria largamente difundido entre os Padres Conciliares, comentário esse que acusava de fraqueza todas as constituições preparadas por Roma e elogiava enormemente o esquema sobre a Liturgia, único dos esquemas de caráter progressista, pois a Comissão litúrgica preparatória era dominada por expoentes do movimento litúrgico.[16]

“De fato”, esclarece Wiltgen, “o autor único do comentário, publicado a coberto do anonimato [sempre o anonimato, já denunciado por São Pio X], era o Pe. Schillebeeckx, O.P., de origem belga, professor de dogma na Universidade Católica de Nimègue e teólogo da hierarquia holandesa. Seu texto criticava violentamente as quatro constituições dogmáticas, que ele acusava de representar apenas uma escola de pensamento teológico. Só o último esquema [o da liturgia] era, segundo ele, uma verdadeira obra prima.”[17]

                Não é uma grande coincidência o fato de que todos os esquemas prévios tenham sido rejeitados durante o Concílio, com exceção do esquema sobre liturgia?

Tudo indica, portanto, que, longe de ter desaparecido, as alianças, conselhos, ou sociedades secretas dos modernistas – que já durante o Concílio eram chamados de progressistas[18] – continuavam ativíssimas.

Aliás, tratando do tema da sociedade secreta modernista num estudo recentíssimo, Roberto de Mattei conclui:

“Os historiadores ignoram o problema levantado por São Pio X e apresentam o Modernismo como uma corrente brotada espontaneamente do curso irrefreável da história. Quem leva a sério as palavras do Pontífice, não pode deixar de pôr-se a pergunta que levanta Jean Madiran: “Em que data a associação secreta dos modernistas cessou de existir? Não se pode sequer perguntar se por acaso ela não se teria ulteriormente “reconstituído”; para “reconstituir-se, ela tem que ter cessado de existir”; mas ignora-se se e quando ela tenha terminado. Mas não apenas se ignora a resposta; finge-se ignorar a pergunta”.[19]

Todas essas considerações, baseadas quase inteiramente em antigas leituras, ocorreram-me em consequência da uma leitura nova. A leitura, ainda em curso, de uma biografia do Padre Auguste Valensin, obra velha já de cinquenta anos, mas que eu nunca tinha lido[20].

            

    Comprovando as afirmações de São Pio X – que fala de “publicações em que eles [os modernistas] suprimem ou disfarçam os nomes dos autores” – , é sob as iniciais M.R. e H.L. e sem assinar o Prefácio que escrevem, Marie Rougier e o, então padre, Henri de Lubac, pai da Nova Teologia, condenada por Pio XII na encíclica Humani Generis, de 1956.

                E quem é o Padre Valensin? Menos conhecido do público em geral, o padre Valensin foi um Jesuíta, ordenado em 1910, professor de Filosofia na Faculdade Católica de Lyon e cuja importância como elo entre os modernistas e os criadores da Nova Teologia foi fundamental.

                Embora selecionados com o espírito de uma hagiografia, espírito que os pequenos trechos que conectam as citações de Valensin reforçam, os textos escolhidos para publicação por De Lubac, contam muitos fatos interessantes e curiosos.

                Alguns sem relação com problemas doutrinários, como, por exemplo, a dolorosa provação familiar de Valensin ao descobrir, já noviço Jesuíta – e irmão de um padre na mesma Companhia, já próximo da profissão solene, o Padre André Valensin – que seu pai era um judeu convertido, que, tendo escondido esse fato a seus filhos durante toda a vida, teve-o revelado por sua morte, já que os procedimentos legais necessário nessa ocasião obrigaram ao exame de documentos.

                Naquele tempo – 1902 – as constituições Jesuítas proibiam a admissão na Ordem Jesuíta de qualquer pessoa de raça judia, desde um decreto promulgado no século XVI por uma Congregação Geral da Ordem. O impedimento era dirimente e foi dirimido, sem que haja nisso nenhum desdouro para os dois irmãos.

                O que soa estranho, no entanto, é o fato de que o Padre Auguste Valensin, que segundo De Lubac “devia ter por sua raça um interesse cada vez mais profundo”, a tal ponto  levar esse “interesse” que, “em seu leito de morte, encontrará subitamente uma força extraordinária para se proclamar, como São Paulo, Judeu filho de Judeu”.

A comparação com São Paulo não parece cabível, pois São Paulo quando trata desse tema na Segunda Epístola aos Coríntios[21] é para desqualificar outros pregadores, judeus como ele, de raça, que queriam introduzir entre os cristãos práticas judaizantes. E tanto é verdade que ele, que só se gloria na Cruz de Cristo[22], se sente completamente desvinculado dos judeus que logo em seguida fala deles usando não a primeira pessoa do plural – nós, os nossos – mas a terceira, eles: “Cinco vezes os judeus me deram os quarenta açoites menos um.”[23] E, na hora da morte, é cristão, que, com o sangue, São Paulo se proclama.

Mas, enfim, esse é um fato que, embora curioso, nada tem a ver com o problema de que vínhamos tratando. Muito mais do que isso, o que chama atenção na biografia hagiográfica do Padre Valensin são sua amizades, suas ligações.

Por exemplo, Blondel, de quem se torna aluno na Universidade de Aix em 1897, aos dezoito anos. E de quem divulgará a obra, tomando o cuidado de envolvê-la em brumas, para evitar as condenações:

“De ainda maior gravidade são as cumplicidades de que se beneficia o filósofo modernista [Blondel] para espalhar discretamente sua doutrina: para responder às acusações argumentadas dos grandes teólogos romanos, ele pode, sobretudo, contar com o Padre Auguste Valensin (Jesuíta) que protege a filosofia blondeliana mergulhando-a em neblina; ele não hesita em usar citações truncadas de Blondel, fazendo cuidadosamente desaparecer todas as passagens heterodoxas. Existem, assim, duas versões de Blondel: uma versão oficial, revista e corrigida pelo Padre Valensin, para poder enfrentar sem perigo as controvérsias com os teólogos romanos, e uma versão clandestina, abundantemente difundida (por baixo do pano) nos seminários, nas casas de formação religiosa e nas universidades”.[24]

Sobre os anos de formação de Valensin, quando se inicia seu contato com Blondel, diz De Lubac: “O mestre desses anos é Maurice Blondel. Sabe-se pela Correspondência publicada os vínculos que logo se deviam estabelecer entre eles.”

                Vínculos profundos, sem dúvida, pois no momento de decidir sobre sua vocação – que De Lubac atribui, sem citar sua fonte, à influência de A Ação, o livro de Blondel cuja condenação, que ameaçava sempre, ele temeu toda vida[25], a ponto de impedir até sua morte o lançamento da segunda edição[26] – nesse momento, depois de consultar por carta o Padre Bremond, Valensin, a conselho deste, escreve para Blondel.

                O Padre Bremond, o primeiro consultado, morava em Lyon, tinha feito seus estudos como Jesuíta na Inglaterra, pois os Jesuítas estavam banidos da França. De onde ele e o jovem Valensin se conheciam? Que relações tinham? Não se diz. Bremond foi professor de Teilhard de Chardin, e considerava-o brilhante. Teria sido também professor de Valensin? Talvez. Bremond era de Aix.

                Bremond era de Aix. E era modernista. Violentamente modernista. Grande amigo de Tyrrell. Tyrrel, que era calvinista, converteu-se ao catolicismo em 1879, entrou na Companhia de Jesus em 1880, foi ordenado em 1891, expulso da ordem Jesuíta em 1906 e excomungado em 1907. Excomungado vitando. Mas Bremond foi a seu enterro e fez nele um pequeno discurso.

                Claro, era seu amigo. Amicíssimo. Tanto que foi para ele que Tyrrel escreveu, sem nenhum temor:

“Roma não pode ser destruída num dia, mas é preciso fazê-la cair em pó e em cinza de modo gradual e inofensivo; então nós teremos uma nova religião e um novo decálogo”.

                Diz-me com quem andas e eu te direi quem és.

                Bremond era também amicíssimo de Von Hügel, um dos primeiros defensores do ecumenismo e, segundo Loisy um importante “agente de ligação”[27] entre os modernistas da Inglaterra, da França e da Itália.

                E Bremond, por sua vez, abandonará, também ele, a ordem Jesuíta, em 1904.

                Mas Bremond aconselha Valensin, que lhe pedira conselho. Sabe que o jovem pensa em ser religioso. E hesita… “sob que hábito? Branco ou preto? A priori… eu tenderia para o branco – um dos meus amores também…”[28]

Vê-se que o discernimento de Bremond quanto a vocações era grande. Na vida religiosa, sem hesitar, ele só supõe que Valensin possa escolher entre Jesuítas e Dominicanos. E são tantas as ordens e congregações… Por que seria? Talvez porque era a elas que pertenciam, em grande parte, os grandes líderes modernistas… Hesita e encoraja Valensin a consultar Blondel.

                Na carta a Blondel, Valensin interroga:

“Jesuíta, Dominicano, Oratoriano, até Dominicano ensinante; – eu pensei longamente nos dominicanos – pouco nos Jesuítas; eu não conheço os Oratorianos”.[29]

                Curioso. Se ele não conhece os Oratorianos, por que, entre tantas e tantas ordens e congregações, os Oratorianos lhe vieram à cabeça? Será que seus amigos tinham amigos nos Oratorianos? Não sei.

                O que se sabe é que o Padre Laberthonnière era Oratoriano. Modernista. Amigo de Blondel, diretor dos Annales de philosophie chrétienne, onde o filósofo escrevia, desenvolvendo as teses que formulara em L’Action.

                O que se sabe, também, é que foi entre os Oratorianos – talvez por pura caridade, certamente – que foi recebido e viveu até a morte o Padre Primo Vanutelli, que fora modernista, mas que, abjurando seus erros, prestara o juramento antimodernista exigido por São Pio X. Mas jurara falso. Segundo seu executor testamentário, Francisco Gabrielli, que publicou em 1978 o testamento de fé do padre Vanutelli[30],

“o seu posto é entre aqueles modernistas que permaneceram, depois da condenação, dentro da Igreja, que se dobraram à sua disciplina, mas mantendo no coração as suas íntimas convicções”.[31]

É verdade. Manteve, em seu coração, até o fim, suas convicções. Convicções completamente contrárias à doutrina da Igreja. O próprio Vanutelli se pergunta, em certo ponto de seu “testamento espiritual” em que ele nega até mesmo a divindade de Cristo:

“E se alguém que lesse estas folhas me perguntasse: ‘E que sobra, então do Cristianismo, se Jesus não é Deus?, respondo-lhe desde já: Sobra pouco, pouco; Deus, o anseio e a alegria do universo”.[32]

                Bem, mas voltemos a Valensin. Afinal, o Padre Vanutelli nem era Oratoriano. Só vivia com eles. E Valensin sequer conhecia os Oratorianos… Hesitava principalmente entre Jesuítas e Dominicanos, com tendência para os Dominicanos, que Bremond também preferia.

                Mas Blondel preferiu os Jesuítas…Valensin foi fazer um retiro com os Dominicanos e decidiu: será Jesuíta.

                E foi Jesuíta.

                Como Jesuíta será amigo e protetor de Teilhard, será mestre de De Lubac, o qual, por sua vez, será o pai da Nova Teologia que, condenada por Pio XII, terá seus mestres e suas doutrinas reabilitadas no Concílio Vaticano II. A influência do pensamento de De Lubac no Concílio é incalculável.

                É verdade que, segundo Wiltgen, durante as votações do Concílio Vaticano II,

“A posição dos bispos de língua alemã sendo regularmente adotada pela aliança europeia, e a posição da aliança sendo, o mais das vezes, adotada pelo Concílio, bastava que um teólogo fizesse sua opinião ser adotada pelos bispos de língua alemã para que o Concílio as fizesse suas. Ora, tal teólogo existia: era o Padre Karl Rahner S.J.

Em princípio, o Padre Rahner era apenas o teólogo do Cardeal König. De fato, numerosos membros das hierarquias alemã e austríaca recorriam a suas luzes… Durante uma conversa privada, o Cardeal Frings declarou que o Padre Rahner era ‘o maior teólogo do século’”.

                Mas é verdade também, que, segundo afirmava o Osservatore Romano em oito de setembro de 1991, ao louvar De Lubac como sendo “sem sombra de dúvida um dos maiores fundadores da teologia católica contemporânea”, que “nem Karl Rahner nem muito menos Hans von Balthasar seriam pensáveis sem ele.”[33]

                Como se vê, uma cadeia completa, sem elo faltando, de pessoas e de ideias, do Modernismo ao Concílio Vaticano II. Uma corrente em que os elos, embora muitas vezes invisíveis para o grande público católico, sempre se mantiveram bem firmes, bem coesos.

                Concluímos aqui estas reflexões. São apenas simples – despretensiosas –  reflexões de leitura que oferecemos a nossos leitores.

Claro, não se trata de uma demonstração acadêmica. Muito mais, de uma conversa entre amigos, que se dizem, simplesmente, o que lhes parece.

                Mas há teses acadêmicas sobre o tema. Não, infelizmente, sobre a questão da sociedade secreta modernista, levantada por São Pio X e cuidadosamente enterrada pelos modernistas.

Mas sobre a questão das ligações, pessoais e doutrinárias.

O historiador Jürgen Mettepingen publicou em 2010 um estudo sobre a Nova Teologia. Um estudo que já comprei, mas ainda não li, e que, pelo índice, parece interessantíssimo. O nome do livro é Nova Teologia – Herdeira do Modernismo, precursora do Vaticano II.[34]

                O título promete. Quem sabe possa ser ocasião de novas, e igualmente despretensiosas, reflexões.

São Paulo, 14 de janeiro de 2011.
Festa de Santo Hilário de Poitiers, que defendeu a divindade de Cristo.



[2] São os dois sentidos que o Dicionário Aurélio atribui ao termo.

[3] Para uma compreensão da importância doutrinário do imanentismo, ver FEDELI, Orlando. A Religião do Vaticano II – Parte II in www.montfort.org.br.

[4] PIO X, Santo. Motu Proprio Sacrorum Antistitum. Acta Apostolicae Sedis, ano II, v. II, n. 17, p. 44. Tradução nossa.

[5] Cfr. OLIVERIA MARQUES, A. H. História da Maçonaria em Portugal – v. I – Das Origens ao Triunfo. Cap. I – Da origem às primeiras perseguições, p. 21 e ss.

[6] Publicado em apêndice ao Motu Proprio Sacrorum Antistitum, que citamos acima.

[7] RIVIÈRE, Jean. Le Modernisme dans l’Église. Paris: Librairie Letouzey et Ané, 1929, p. 538.

[8] HOUTIN, A. Histoire du Modernisme Catholique. p. 385, apud RIVIÈRE, op. cit. p.538.

[9] Apud RIVIÈRE, op. cit. p.538.

[10] Cfr. OLIVEIRA MARQUES, ibidem.

[11] FENTON, Joseph Clifford. The Sacrorum Antistitum and the background of the oath against Modernism in The Ecclesiastical Review. Outubro, 1960, p. 244. Tradução minha

[12] CHAMPROUX, Anne Isabelle et alii. La compagnie De Lubac in Savoir e Servir, tomo 56 p. 81. Tradução minha.

[13] RATZINGER, Cardeal Joseph. Lembranças de minha vida. Autobiografia parcial (1927-1977). São Paulo: Paulinas, 2007. pp. 113-114.

[14] Idem, pp. 112-113.

[15] WILTGEN, Pe. Ralph M. Le Rhin se jette dans le Tibre – Le Concile Inconnu. Paris: Editions du Cédre, 1976. p. 7. Tradução minha.

[16] Cfr. DE MATTEI, Roberto. Il concilio Vaticano II – Uma storia mai scritta. Torino: Lindau, 2010, p. 238. Tradução minha.

[17] WILTGEN. Op. cit., p. 23. Tradução minha.

[18] Sobre essa identificação entre Modernismo e Progressismo, além de ligações históricas, pessoais, se poderia dizer, fáceis de constatar, ver, para os aspectos doutrinários, MESSINEO, Pe. Antonio. Civiltà Cattolica. “Il progressismo contemporâneo”, q. 2541 (1956), pp. 225-238, apud DE MATTEI, op.cit. p. 96.

[19] DE MATTEI, Roberto. Il concilio Vaticano II – Uma storia mai scritta. Torino: Lindau, 2010.

[20] M.R. e H.L. ( Marie Rougier e Henri de Lubac). Org. Auguste Valensin – Textes et Documents Inédits. Paris: Aubier Éditions Montaigne, 1961. Todos os textos citados são de minha tradução.

[21] Cfr. 2Cor 11, 22.

[22] Cfr. Gl 6, 14.

[23] 2Cor 11, 24.

[24] Apud CHAMPROUX, op. cit., p. 52.

[25] Porque fazia questão de continuar dentro da Igreja, para poder continuar seu trabalho de conquista dos intelectos para o Modernismo. Numa carta a De Lubac, que o censurava por timidez na exposição de suas ideias, ele diz: “ quando, há mais de quarenta anos, eu abordei problemas para os quais não estava suficientemente armado, reinava um extrinsecismo [a doutrina de que a revelação é exterior, de que “a Fé vem pelo ouvido” (Rm 10, 17)] intransigente e seu tivesse dito então tudo o que você deseja, eu me teria acreditado temerário e teria comprometido todo o esforço a tentar, toda a causa a defender, enfrentando censuras que teriam sido inevitáveis e, certamente, retardantes. Era preciso ter tempo para amadurecer meu pensamento e cativar os espíritos rebeldes.” Apud CHAMPROUX, op.cit. p.52.

[26] Cfr. LÉTROUNEAU, Alain. L’herméneutique de Maurice Blondel: son émergence pendant la crise moderniste. Montréal: Edition Bellarmin, 1998. Blondel et la crise moderniste, pp. 16 e ss. O que Blondel temia era a condenação nominal de sua obra. O imanentismo, que ele defende, foi condenado por São Pio X na Encíclica Pascendi, como sendo o núcleo do Modernismo.

[27] Cfr. NEDONCELLLE, Maurice. La pensée religieuse de Friedrich von Hügel. Paris: Vrin, 1935 p. 75 apud DE MATTEI, op. cit. p. 72.

[28] DE LUBAC. Op. cit. p. 19.

[29] Idem, ibidem.

[30] GABRIELI, Francesco. Ed. Il testamento di fede di don Primo Vanutelli in Centro Studi per la Storia del Modernismo, Fonti e Documenti, no. 7 (1978), pp. 119-253, apud DE MATTEI, op. cit. p. 80.

[31] Idem, ibidem, p. 81.

[32] Idem, ibidem, p. 81.

[33] Apud CHAMPROUX, op. cit. p. 47.

[34] METTEPENNINGEN, Jürgen. Nouvelle Thélogie – New theology – Inheritor of Modernism, Precursos of Vatican II. Londres: T & T clark International, 2010.


quarta-feira, dezembro 28th, 2011 at 8:15pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (Parte 1 de 3)

Publicado em Artigos da Montfort

Mário Silva Martins

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (Parte 1 de 3)

 

Introdução

A humildade é uma das virtudes mais importantes da vida cristã. Ela é tão importante que os autores espirituais costumam consagrar páginas abundantes a tratar dela.

A humildade não é, certamente, a maior de todas as virtudes. Várias virtudes estão acima dela, dentre as quais a fé, a esperança e a caridade. Mas, em certo sentido, ela é a virtude fundamental de todo o edifício espiritual, um fundamento negativo, removendo os obstáculos para receber o influxo da graça, que seria impossível sem ela.

Neste sentido, a humildade e a fé são as duas virtudes fundamentais de todo o edifício sobrenatural. Este edifício apoia-se sobre a humildade como sobre um fundamento negativo (removendo os obstáculos) e sobre a fé como sobre um fundamento positivo, estabelecendo um primeiro contato com Deus.

Davi louva grandemente a humildade no Salmo 118:

Foi bom para mim ser humilhado, para que eu aprenda vossos preceitos” (Salmo CXVIII, 71).

Muitas pessoas que eram puras e simples de coração, sem falsidade, terminaram com a alma estragada depois de acolherem o orgulho, que é um vício bem sorrateiro.

Observemos que não são as humilhações que santificam, mas a humildade. Por isso São Tiago escreve que “Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes” (S. Tiago IV, 6).

Os maus endurecem nas provações, mas os bons se corrigem.

Alguns padecem humilhações com rancor, outros com generosidade. A estes últimos, Deus concede graças abundantes.

Foi para mostrar o quanto a humildade é agradável aos olhos de Deus que Nosso Senhor contou a parábola do fariseu e do publicano. Esta parábola é um exemplo do qual cada um deve tirar proveito, seja ele fariseu, seja ele publicano.

Estamos no começo do mês de março do ano 30, algum tempo depois de Nosso Senhor ter contado a parábola do ecônomo infiel e antes da ressurreição de Lázaro, a aproximadamente um mês da sua crucificação e morte. Estando antes na Galileia, Nosso Senhor percorre agora a fronteira entre a Galileia e a Samaria, descendo até o vale do rio Jordão.

O fariseu e o publicano

E ele disse também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos como justos e desprezavam os outros” (S. Lucas XVIII, 9)

Aqui também, como na parábola do ecônomo infiel, a finalidade é anunciada antes. Os ouvintes aos quais Jesus dirigia esta parábola eram ou fariseus ou discípulos imbuídos do espírito farisaico, e que manifestavam os dois grandes sintomas de uma das mais graves doenças morais: o orgulho. Jesus queria curá-los.

Aos seus próprios olhos eles eram justos, tendo atingido a santidade perfeita, e “desprezavam os outros”. São Lucas, na versão original de seu evangelho, em grego, usa aqui um termo muito expressivo e que não é usado por nenhum outro evangelista. Este termo, traduzido comumente por “desprezar”, significa propriamente “aniquilar, tratar como nada”.

O conceito de excelência própria e o desprezo dos outros andam juntos, como a humildade e a caridade. Jesus mostrará a estes orgulhosos, do modo mais dramático, o horror com que Deus os vê.

Dois homens subiram ao templo para orar: um fariseu e outro publicano” (S. Lucas XVIII, 10).

Estes dois personagens são modelos bem conhecidos, diametralmente opostos na sociedade judaica da época de Nosso Senhor. O primeiro, o fariseu, representa a perfeição dos costumes, a ortodoxia completa da fé. O outro, o publicano, a desmoralização e a indiferença religiosa. Na medida em que o primeiro era estimado, venerado, o segundo era sumamente desprezado.

O termo “fariseu” vem do adjetivo aramaico “perishaiia”, que significa “separados, distintos”. Provavelmente o termo foi cunhado pelos seus adversários, porque os fariseus se chamavam a si mesmos de “companheiros” e de “santos” (Mons. Francesco Spadafora, Diccionario Bíblico, vocábulo Fariseos, p. 211, 1959, Editorial Litúrgica Española, Barcelona).

O templo era, como as nossas igrejas, “uma casa de oração” (S. Lucas XIX, 46) e os israelitas devotos gostavam de frequentá-lo para invocar o nome de Deus, sobretudo durante certas horas, como na oferta do incenso. Esta oferta era feita duas vezes ao dia, antes do sacrifício da manhã e depois do sacrifício da noite, sendo o ponto culminante dos ritos realizados ao longo do dia.

O termo “subir” é bem exato, porque o templo havia sido construído sobre o monte Moriá.

O fariseu, de pé, orava em seu interior desta maneira: Ó Deus, vos dou graças porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem mesmo como este publicano” (S. Lucas XVIII, 11).

Nosso Senhor nos apresenta os retratos dos dois personagens, fariseu e publicano, ambos rezando. Os detalhes são poucos, mas foram escolhidos com grande fineza psicológica.

Ambos estão de pé, conforme o uso que prevalecia entre os judeus:

Salomão colocou-se de pé diante do altar do Senhor em presença de toda a assembleia de Israel e extendeu as mãos” (II Crônicas VI, 12).

Encontramos também no Antigo Testamento o exemplo de Ana, curada de sua esterilidade por sua oração, e que deu à luz Samuel. Quando ela vai ao Templo oferecer a Deus a criança de sua promessa, ela lembra ao sumo sacerdote Heli: “Eu sou a mulher que se encontrava de pé, diante de ti, orando a Deus aqui” (1 Samuel I, 26).

E quando vós estiverdes de pé para orar, se vós tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, a fim de que vosso Pai que está nos céus vos perdoe vossas ofensas”. (S. Marcos XI, 25).

Mas Nosso Senhor utiliza dois termos diferentes, conforme o texto grego, para descrever esta atitude, o que nos permite ver uma intenção particular no uso de cada um deles.

Para o fariseu, Nosso Senhor utiliza um termo que carrega muita ênfase, parecendo indicar uma postura forçada, afetada. É o mesmo termo que Jesus emprega no sermão da montanha ao dizer:

E quando orardes, não sejais como os hipócritas que amam orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das praças para serem vistos pelos homens; em verdade vos digo, eles já receberam seu prêmio” (São Mateus, VI, 5).

Diversos comentadores, analisando a construção do texto grego, tiram das palavras de Nosso Senhor uma interpretação que permite construir uma cena um pouco mais rica, na qual o soberbo fariseu isola-se voluntariamente da multidão das pessoas que rezam para evitar o contato com elas para, assim, não ficar impuro. São Jerônimo, porém, ao traduzir esta passagem, escolheu uma interpretação mais natural e perfeitamente possível do texto grego. Assim, o fariseu estaria de pé orando interiormente.

Seja como for, as duas cenas possíveis de construir a partir das palavras de Cristo, ainda que ligeiramente diferentes, são perfeitamente compatíveis e de modo algum opostas.

O fariseu inicia a sua oração com as palavras “Ó Deus, vos dou graças”. Este começo é irrepreensível, pois a ação de graças é uma parte essencial da oração. Infelizmente, sob o pretexto de exprimir a Deus o seu reconhecimento, o fariseu faz o seu elogio pessoal nos termos mais audaciosos:

Buscai nas palavras dele o que ele quis pedir a Deus; não quis orar, mas louvar-se” (Santo Agostinho, Sermão 115).

O fariseu continua: “…não sou como os demais homens…”.

Ele divide a humanidade inteira em duas categorias. Sozinho, ele forma a primeira delas – perfeita, evidentemente –, amontoando “os demais homens” na segunda.

Mas quem são, para ele, os outros homens? Ele os caracteriza com o auxílio de três palavras que designam três dos vícios mais vergonhosos: ladrões, injustos, adúlteros.

Depois, fixando seus olhos no publicano que orava à distância, o inclui na sua suposta oração, usando-o como um fundo obscuro sobre o qual as cores brilhantes de suas próprias virtudes brilhariam com maior esplendor. Santo Agostinho chega a considerar este ato como um “insulto” (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 1º. Comentário ao Salmo 70, 2).

Jejuo duas vezes por semana, dou o dízimo de tudo o que possuo” (S. Lucas XVIII, 12).

O fariseu passa, agora, do elogio de sua pessoa para o elogio de suas obras. Antes mostrou o que não faz e agora mostra o que faz. É o lado positivo de sua santidade, depois de examinar o lado negativo dela.

Ele menciona com agrado duas obras que excedem os deveres obrigatórios de um judeu. A primeira é a de jejuar duas vezes por semana. Jejuns de devoção eram freqüentes entre os judeus, e quem queria aparecer como piedoso jejuava duas vezes por semana, de preferência nas segundas e quintas.

No Evangelho de São Mateus Nosso Senhor descreve a afetação com que os fariseus praticavam o jejum: “E, quando jejuais, não o façais com um aspecto triste, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os homens vejam que jejuam; em verdade vos digo, que já receberam sua recompensa” (S. Mateus VI, 16).

A segunda obra do fariseu é dar o dízimo. O termo usado por São Lucas e que comumente é traduzido por “tudo o que possuo” significa mais precisamente aquilo que se ganhava ao longo de um ano, e não a propriedade total de alguém. Assim, aqui o fariseu não se refere ao dízimo restrito aos produtos que vinham do campo e do gado e que era imposto pelo legislador: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e descuidais do mais importante da lei, a justiça, a misericórdia e a fé!” (São Mateus XXIII, 23).

A oração do fariseu mais parece o discurso de um credor que deseja relembrar seus direitos a quem lhe deve. Entretanto, tais disposições não eram raras no mundo farisaico. A oração que o rabi Nechunia ben Hakana costumava fazer ao sair de suas aulas nos mostra bem este espírito:

Eu vos dou graças, Senhor meu Deus, porque a minha parte me foi destinada entre aqueles que visitam a casa do conhecimento, e não entre aqueles que trabalham nos cantos das ruas; pois me levanto cedo e eles se levantam cedo: desde a aurora eu me dedico às palavras da lei, mas eles se aplicam a coisas vãs; eu trabalho e eles trabalham: eu trabalho e recebo uma recompensa, eles trabalham e não recebem nada; eu corro e eles correm: eu corro para a vida eterna, mas eles correm em direção ao abismo” (Berachoth, f. 28, 2).

E o publicano, estando de pé à distancia, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo: Ó Deus, tem piedade de mim pecador!” (S. Lucas XVIII, 13).

Contraste admirável! Temos aqui o desenho de uma humildade perfeita manifestada por muitas coisas. Primeiramente, na escolha do lugar: “estando de pé à distancia”. Ele está longe do santuário, perto do qual, ao contrário, encontra-se o fariseu. Depois, na atitude: “não ousava sequer levantar os olhos ao céu”. Seu sentimento de miséria era tão vivo que ele não fazia nem mesmo um ato tão natural àqueles que oram: elevar os olhos aos céus. Além disso, “batia no peito”, como um verdadeiro penitente. Mas é, sobretudo, nas suas palavras que vemos a diferença em relação ao fariseu. Sua oração é profunda e sai de um coração contrito e humilhado: “Ó Deus, tende piedade de mim pecador!”.

Nosso Senhor, conforme a versão grega original, coloca na boca do publicano palavras mais fortes do que aquelas que chegaram até nós por nossas traduções: “Eu, o pecador por excelência!”.

É dizer muito com poucas palavras. De fato, fala muito diante de Deus quem se reconhece como pecador.

Eu vos digo: este desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (S. Lucas XVIII, 14).

Nosso Senhor afirma cheio de majestade: “Eu vos digo”, isto é, afirmo isto porque eu o sei. São palavras cheias de peso na boca de quem é Deus e conhece perfeitamente o mais profundo das almas.

O publicano voltará para sua casa puro de todo pecado, tendo sido justificado, completamente justificado, conforme a expressão usada por Nosso Senhor. Sua oração humilde ultrapassou as nuvens, sua contrição foi um sacrifício de agradável odor a Deus, que lhe concedeu perdão.

O fariseu também deixou o templo, sem dúvida acreditando ter dado muita honra a Deus e tendo ganhado maiores méritos. Mas como as palavras de Nosso Senhor, que é Deus, são terríveis em relação a ele: “o outro não”!

Santo Agostinho escreveu belas páginas a respeito desta parábola:

O publicano não ousava levantar os olhos aos céus. Por que ele não olhava o céu? Porque ele se olhava a si mesmo. E eis que, examinando-se a si mesmo, começou a ter desgosto e é assim que ele agradou a Deus.

Tu, ao contrário, tu te elevas, tu elevas a cabeça. Ora, o Senhor diz ao orgulhoso: Tu não queres olhar tua miséria? Pois bem, eu a olharei! Tu queres que eu desvie meus olhos dela? Então, não desvie os teus.

O publicano não ousa levantar os olhos aos céus: ele se examina, ele se condena. Ele faz de si mesmo seu próprio juiz, e Deus defende sua causa. Ele se pune, e Deus lhe faz misericórdia. Ele se acusa, e Deus o defende. Deus o defende tão bem que seu juízo foi: O publicano desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado. Ele examinou sua consciência, diz o Senhor, e Eu, Eu não quis examiná-la. Eu o ouvi clamar em minha direção: Desviai os olhos de meus pecados! (Salmo L, 11). Mas quem pode pronunciar tais palavras, a não ser aquele que diz também: Minha falta, eu a conheço (Salmo L, 5)?

Quanto ao fariseu, ele também, meus irmãos, era um pecador. Ele podia dizer: Eu não sou como o resto dos homens, desonestos, ladrões, adúlteros; ele podia jejuar duas vezes por semana e dar o dízimo de seus lucros, mas ele não deixava de ser um pecador. E mesmo quando ele não tivesse um só pecado na sua consciência, seu orgulho teria bastado para acusá-lo. E, entretanto, ele ousava falar deste modo!…

Mas então, quem é sem pecado? Quem poderá se gloriar de ter um coração puro, ou de ser inocente de toda falta (Provérbios XX, 9)? Este não o era, é verdade; mas, no seu erro, ele não sabia o que tinha ido fazer no templo. Ele se encontrava na casa do médico, como que para se curar e, dissimulando suas chagas, ele apresentava os membros que estavam sadios…

Deixa, então, o Senhor cobrir as tuas chagas: não o faça tu mesmo. Pois, se tu tens vergonha de mostrá-las, o médico não as curará. Que Ele as cubra com um bom remédio e as cure. A chaga que o médico cobre será curada. Mas se o doente quer cobri-las por si mesmo, a única coisa que conseguirá fazer é escondê-la. E de quem ele a esconde? Daquele que tudo conhece” (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 2º. Comentário ao Salmo XXXI) .

Pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado”.

Jesus conclui a parábola com esse grande princípio moral, o qual aparece também em outras ocasiões: quando Nosso Senhor observara que alguns convidados escolhiam os primeiros lugares (São Lucas XIV, 11) e ao repreender os escribas e fariseus (São Mateus XXIII, 12).

Esta insistência quanto à humildade é outro sinal de quanto ela é importante aos olhos de Deus. Pois quando Deus, na Sagrada Escritura, insiste muito a respeito de algo, é porque é coisa de grande importância. É o caso da esmola, da penitência e também da humildade.

Uma vez que Deus nos mostra o quanto a humildade lhe agrada, achamos necessário tratar um pouco mais dela. Depois de termos apresentado o comentário da parábola do fariseu e do publicano, vamos dar um exemplo de humildade na vida de uma grande santa, Santa Maria Madalena de Pazzi. Por fim, daremos ao leitor alguns instrumentos que permitam a obtenção desta virtude tão fundamental da vida cristã.

Continua em Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo – parte 2


quarta-feira, dezembro 28th, 2011 at 7:07pm

As últimas conversas de Santa Terezinha antes de sua morte

Publicado em Artigos da Montfort

A publicação dos relatos dos últimos dias de Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face procura dar a conhecer algo  daquela que São Pio X chamou “a maior santa dos tempos modernos”.

Amilton Lagos

Introdução

                Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, popularmente conhecida como Santa Terezinha, é conhecida principalmente pela sua grande obra “A História de uma Alma” onde conta sua vida e suas reflexões religiosas. Neste artigo, reproduziremos alguns trechos dos textos recolhidos em um “carnê amarelo” (retirado das “Oeuvres complètes de sainte Thèrese de Lisieux”) com as conversas que as carmelitas tiveram com Santa Terezinha certo tempo antes de sua morte, quando já se tinha detectado a presença da tuberculose, que não possuía tratamento na época, assim como o relato de seus últimos momentos.

                As irmãs carmelitas já percebiam que Santa Terezinha tinha um comportamento acima da média e, por isso, aproveitavam as oportunidades que tinham para conversar com a irmã doente para tentar obter algo de edificante para si mesmas. Santa Terezinha não podia falar muito (para não se fatigar e agravar a doença), deste modo cada pequena conversa corresponde a um dia determinado.

Pequenas pérolas da pequena Teresa

                Sua resignação à vontade de Deus transparece claramente nos seus pensamentos, quando diz, no dia 15 de maio do ano de seu falecimento (1897), que gostaria de ir até Hanoï (que ela imaginava como uma ilha longínqua, abandonada de tudo e de todos) para sofrer bastante pelo bom Deus e ficar completamente sozinha sem ter consolação alguma na terra. E quanto à idéia de ser útil nesse lugar, tal não lhe passava pela cabeça, pois considerava que nada de útil haveria para fazer.

Ao perguntarem a Santa Terezinha como ela suportava todas as dores que vinham de sua tuberculose, ela respondia que não conseguia mais sofrer, pois que todo sofrimento lhe era então doce, pois compreendia o porquê do sofrimento (29 de maio).

Ao meditar as frases do livro “Imitação de Cristo”, Santa Terezinha não teme em dizer que Lamennais, personagem que já sabia ter más idéias – na encíclica Mirari Vos de Gregório XVI podemos encontrar algumas de suas idéias liberais condenadas – tinha dito algo de bom ao explicar como Nosso Senhor no Horto das Oliveiras sofria enormemente, mesmo podendo gozar de todas as delícias da Trindade ao mesmo tempo (6 de julho).

                Certas irmãs, ansiosas para acharem significações místicas a tudo, buscam prever a data da morte de Santa Terezinha de modo que ela ocorresse numa data especial, uma festa de Nossa Senhora p.ex., mas ela, mais sóbria, dizia: “Corram atrás de datas quanto quiserem, por mim eu não quero mais… já corri muito atrás de datas… ” (9 de julho). Alguns dias mais tarde, no dia 15 de julho, uma irmã lhe diz: “Você morrerá talvez amanhã (festa de Nossa Senhora do Carmelo) após a Comunhão” ao que Santa Terezinha responde: “Oh! Tal não se assemelha à minha pequena via. Eu sairia (do quarto onde estava doente) para morrer? Morrer de amor após a Comunhão é belo demais para mim. As pequenas almas não poderiam imitar isso”.

                Ao ajudá-la a se preparar para a confissão, em 8 de julho, e receber a Extrema-Unção, uma irmã a ajuda a lembrar os pecados cometidos por cada sentido do corpo e, ao tratar do olfato, Santa Terezinha mostra a sutileza de sua alma: “Eu me lembro que em minha última viagem de Alençon até Lisieux, eu utilizei uma garrafa de água de Colônia que Madame Tifenne me tinha dado e fiz isso com prazer”.

                No dia 13 de julho, algumas irmãs sugerem reunir dinheiro para comprar coroas de rosas para colocarem em Santa Terezinha após sua morte, mas ela, relutante, diz que prefere que tal dinheiro seja gasto para resgatar alguns selvagens na África.

                Quanto à generosidade do sofrimento, dizia Santa Terezinha que “seria feliz de suportar os maiores sofrimentos, mesmo que apenas para fazer Deus sorrir uma só vez” (16 de julho).

                Sobre o assunto da alimentação do convento, Santa Terezinha conta que lhe serviam um prato que tinha um gosto horrível, mas achavam que ela gostava pois que comia sem reclamar, todavia ela pede, agora que se aproxima da morte, que esse prato não seja dado às outras pobres irmãs, mostrando que para si não se deve fazer caso de tal coisa, mas para servir aos outros se deve buscar dar algo de bom (24 de julho).

                Na conversa do dia 25 de julho, Santa Terezinha conta uma história pessoal que lhe ensinou a não dar grande importância ao que os outros acham de nós: “um dia após a minha tomada de hábito, um senhor me vê junto à nossa Madre Superiora e diz: ‘Oh! Como é forte essa moça! Como ela é robusta!’ e eu saí toda humilhada do elogio recebido quando a irmã Madalena me para diante da cozinha e me diz: ‘Mas o que ocorre com você, minha pobre irmãzinha Tereza do Menino Jesus? Você está cada vez mais magra! Se continuar assim, com esse rosto que faz tremer, você não seguirá por muito tempo a regra!’ Após escutar apreciações tão opostas, eu não podia mais dar qualquer importância à opinião das criaturas, seja de elogios, seja de reprovações”. Ainda nesse dia de 25 de julho, uma irmã lhe diz que acabava por desejar a morte de Santa Terezinha para não vê-la mais sofrer tanto ao que responde a Santa: “Não se deve dizer isso, pois sofrer é precisamente o que me agrada na vida”.

                Ao falar de suas meditações sobre o Evangelho, Santa Terezinha dizia: “o que me agrada ao pensar na Sagrada Família é de imaginá-la numa vida toda comum. Não tudo aquilo que nos contam, tudo aquilo que supomos. Por exemplo, contam que o Menino Jesus depois de ter petrificado as aves da terra, assoprava sobre elas para lhes dar a vida. Ah! De modo algum! O pequeno Jesus não fazia milagres inúteis desse tipo, mesmo que fosse para agradar a sua Mãe (…) tudo na vida deles ocorria como na nossa. Quanta penas, quantas decepções! Quantas vezes criticavam o bom São José! Quantas vezes recusamos de pagar-lhe seu trabalho! Oh! Como nos espantaríamos ao saber tudo o que ele sofreu!” (20 de agosto). No dia seguinte (21 de agosto), Santa Terezinha continua suas meditações sobre o Evangelho: “para que um sermão sobre a Virgem Maria me agrade e me faça algum bem, é preciso que eu a veja na sua vida real, não na sua vida de suposições; e estou certa que sua vida real devia ser toda simples. Nós a mostramos inalcançável, mas precisaríamos mostrá-la imitável, mostrar suas virtudes, mostrar que ela vivia da fé como nós (…) É bom falar de suas prerogativas, mas não se deve parar nisso, e se ocorrer, em um sermão, de sermos obrigados do começo ao fim a exclamar: ‘Oh! Oh!’, uma hora basta! Quem sabe se alguma alma não irá mesmo até sentir um certo afastamento de uma criatura tão superior e diga ‘Se é assim, então irei brilhar como puder num canto escondido’ O que a Virgem tem a mais que nós, é que ela não podia pecar, que ela era isenta de toda mancha original, mas por outro lado, ela tinha menos sorte que nós, pois que ela não tinha uma Nossa Senhora para amar”.

                Em uma alusão a Santa Teresa d’Avila, a Madre Superiora pergunta à Santa Terezinha em 4 de setembro: “Você prefere, apesar de tudo, morrer que a viver?” e ela responde: “Oh minha Mãezinha, eu não prefiro uma coisa ou outra, eu não poderia dizer como nossa mãe Santa Tereza (d’Avila): ‘eu morro por não morrer’. O que o bom Deus preferir e escolher para mim, eis o que me agrada mais.”

                No dia 14 de setembro, Santa Terezinha ao perguntarem se preferia escolher agonizar ou não na hora da morte, responde de um modo diferente, mas de mesmo princípio, daquela sua conhecida frase “Eu escolho tudo” dizendo: “Eu não escolheria nada (nem agonizar, nem não agonizar)”.

Últimas horas

Para terminarmos e mostrar como ela edificava todos os que a rodeavam até no último momento de sua vida, traduzimos aqui o relato do seu último dia na terra, numa quinta-feira do dia 30 de setembro de 1897, feito pela irmã Inês de Jesus:

Durante a manhã eu (irmã Inês) a (Santa Terezinha) vigiava durante a Missa. Ela não me dizia nada. Ela estava esgotada, ofegante; seus sofrimentos, eu presumia, eram inexprimíveis. Num determinado momento, ela juntou as mãos e olhando à estátua da Virgem Maria disse:

- Oh! Eu rezei a ela com grande fervor! Mas é uma agonia pura, sem mistura alguma de consolação.

Eu lhe disse algumas palavras de compaixão e de afeição e acrescentava que ela tinha bem me edificado durante sua convalescência.

- E você, as consolações que tinha me dado! Ah! Como elas são enormes!

Durante todo o dia, sem um instante de trégua, ela permaneceu, podemos dizer sem exageros, sob verdadeiros tormentos. Ela parecia estar no fim de suas forças e, todavia, para nosso espanto, ela podia se mexer, se sentar no seu leito.

- …Veja, nos dizia ela, como tenho forças hoje! Não, eu não vou morrer! Eu ainda tenho forças por vários meses, talvez até mesmo vários anos!

E se o bom Deus o quisesse, diz a Nossa Madre, você o aceitaria?

Ela começou a responder, na sua agonia:

- Seria bem necessário…

Mas se corrigindo na mesma hora, ela diz com um tom de resignação sublime e caindo novamente sobre seu travesseiro:

- Eu quero com certeza!

Eu pude recolher essas exclamações, mas é bem difícil de transmitir o seu tom:

- Eu não creio mais na morte para mim… Eu creio apenas no sofrimento… melhor assim!

- Ó meu Deus!… Eu amo o bom Deus! O minha boa Virgem Maria, venha em meu socorro!

- Se isso é a agonia, o que é então a morte?!…

- Ah! Meu bom Deus!… Sim, ele é muito bom, eu o vejo muito bom…

E olhando para a Virgem Maria:

- Oh! A senhora sabe que estou me sufocando!

Para mim:

- Se você soubesse o que é se sufocar!

O bom Deus vai ajudá-la, minha pobrezinha, e terminará logo mais.

- Sim, mas quando?

- …Meu Deus, tenha piedade de vossa pobre menina! Tenha piedade!

Para Nossa Madre:

- Ó minha Madre, eu vos garanto que o cálice está cheio até a boca!…

- …Mas o bom Deus não vai me abandonar, certamente… …Ele nunca me abandonou.

- …Sim, meu Deus, tudo o que quiser, mas tenha piedade de mim!

- …Minhas irmãzinhas! Minhas irmãzinhas rezem por mim!

- …Meu Deus! Meu Deus! Vós que sois tão bom!!!

- …Oh! Sim, vós sois bom! Eu o sei…

Depois do ofício de Vésperas, Nossa Madre colocou sobre seus joelhos uma imagem de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Ela olhou por um instante e disse o quanto Nossa Madre lhe tinha garantido que ela logo mais iria acariciar Nossa Senhora como também o Menino Jesus nessa imagem:

- Ó minha Madre, apresentai-me logo à Virgem Maria, eu sou um bebê que não agüenta mais! … Prepare-me para bem morrer.

Nossa Madre lhe respondeu que tendo sempre compreendido e praticado a humildade, sua preparação já estava feita. Ela refletiu por um instante e pronunciou humildemente essas palavras:

- Sim, me parece que nunca busquei outra coisa senão a verdade; sim, eu compreendi a humildade de coração… parece-me que sou humilde.

Ela repetiu ainda:

- Tudo o que escrevi sobre meus desejo de sofrimento. Oh! É bem verdadeiro!

- Eu não me arrependo de me ter entregado ao Amor.

Com insistência:

- Oh! Não, eu não me arrependo, muito pelo contrário!

Um pouco depois:

- Eu nunca teria crido que era possível sofrer tanto [nota: nunca aplicamos nela injeção alguma de morfina]! Nunca! Nunca! Eu não posso compreender tal coisa senão pelos desejos ardentes que tive de salvar as almas.

Por volta das 5 horas, eu estava sozinha perto dela. Seu rosto mudou de repente, compreendi que era a última agonia. Quando a Comunidade entrou na enfermaria, ela acolheu todas as irmãs com um doce sorriso. Ela segurava seu Crucifixo e o olhava constantemente. Durante mais de duas horas, a respiração rouca arranhava seu peito. Seu rosto estava congestionado, suas mãos roxas, ela tinha os pés congelados e tremia todos seus membros. Um suor abundante caia em gotas enormes sobre seu rosto e inundava suas bochechas. Ela estava sob uma opressão cada vez maior e lançava às vezes pequenos gritos involuntários para respirar. 

Durante esse tempo tão cheio de agonia para nós, escutávamos pela janela – e eu sofria bastante – o canto de vários pássaros, mas tão fortemente, de tão perto e durante tanto tempo! Eu rezava para o bom Deus de os fazer calar, esse concerto me perfurava o coração e tinha medo que ele cansasse nossa Terezinha.

Durante outro momento, ela parecia ter a boca tão ressecada que a irmã Genevieve, achando que a aliviaria, lhe colocava nos lábios um pequeno pedaço de gelo.Ela o aceitou lhe fazendo um sorriso que nunca me esquecerei. Era como um supremo adeus.

Às 6 horas o Angelus soou, ela olhou longamente para a estátua da Virgem Maria.

Enfim, às 7 horas e pouco, Nossa Madre tendo despedido a Comunidade, ela suspirou:

- Minha Madre!? Não é isso a agonia?… Não irei morrer?…

Sim, minha pobrezinha, é a agonia, mas o bom Deus quer talvez prolongá-la por algumas horas. Ela retoma com coragem:

- Ora bem!… Vamos!… Vamos!… Oh! Eu não quereria sofrer menos tempo…

E olha seu Crucifixo:

- Oh! Eu o amo!…………………………. Meu Deus… Eu vos amo………………………….

De uma hora para outra, após ter pronunciado essas palavras, ela caiu suavemente para trás, com a cabeça inclinada para a direita. Nossa Madre fez soar imediatamente o sino da enfermaria para chamar a Comunidade. “Abram-se todas as portas” dizia a Madre no mesmo instante. Essas palavras tinha algo de solene, e me fizeram pensar que no Céu o bom Deus o dizia também a seus anjos.

As irmãs tiveram o tempo de se ajoelhar em torno do leito e foram testemunhas do êxtase da pequena Santa que morria. Seu rosto tinha tomado a cor de uma flor-de-lis que tinha quando em plena saúde, seus olhos estavam fixados no alto, brilhantes de paz e de alegria. Ela fazia alguns movimentos de cabeça, como se Alguém a tivesse divinamente ferido com uma flecha de amor, depois retirado a Flecha para a ferir novamente… A irmã Maria da Eucaristia se aproximou com uma vela para ver de mais perto seu olhar sublime. Diante da luz dessa vela, não houve movimento algum de suas pálpebras. Esse êxtase durou o tempo de um “Credo”, e ela deu seu último suspiro.

Após sua morte, ela conservou um sorriso celeste. Ela estava com uma beleza encantadora. Ela segurava tão forte seu Crucifixo que foi necessário arrancá-lo de suas mãos para enterrá-la. A irmã Maria do Sagrado-Coração e eu fizemos tal serviço, com a irmã Amada de Jesus, e notamos que ela não parecia ter mais do que 12 ou 13 anos. Os membros do seu corpo permaneceram flexíveis até o dia do seu enterro, numa segunda-feira, no dia 4 de outubro de 1897.

 [tradução nossa]