Igreja

O Papa, a Consagração da Rússia e a pequena nuvem de Santo Elias
Alberto Zucchi
No próximo dia 25 de março, dia da Anunciação, o Papa Francisco fará a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. O anuncio deste evento causou grande surpresa e muita perplexidade no mundo católico porque essa ação do Papa não era esperada.
 
Imediatamente após o anuncio do papa vários bispos declararam que se uniriam a ele nesta consagração, o que aumentou a surpresa e a perplexidade. E, surpresa das surpresas, até o CELAM, a conhecida reunião dos Bispos da América Latina, centro do esquerdismo e da teologia da libertação, manifestou que participará, com o Papa, deste ato.
 
Como a grande maioria dos católicos sabe a Rússia, juntamente com Portugal são os dois países citados por Nossa Senhora quando das aparições de Fátima. Nossa Senhora previu ainda a conversão da Rússia e pediu a Consagração desta nação pelo Papa, em conjunto com os bispos, ao Imaculado Coração de Maria.  Pedido agora que o Papa Francisco se dispõe a atender.
 
Diante desta notícia, como sempre, no meio “internautico” da “tradilândia” não faltaram comentários absurdos e descabidos.
 
Para atender alguns de nossos amigos e leitores que gostariam de uma reflexão de nossa parte apresentamos um pequeno comentário sobre este tema.
 
Em primeiro lugar é necessário se alegrar, elogiar e apoiar esta ação do Papa. Ainda que muitas de suas atitudes mereçam muitas criticas, não se pode jamais esquecer que ele é o representante de Cristo na Terra e que suas ações tem grande repercussão espiritual.
 
Nosso Senhor Jesus Cristo, até em Pilatos que o ameaçava condenar a morte, reconheceu a autoridade afirmando que ele tinha esse poder porque lhe foi dado do alto. Assim, é claro que a autoridade que o Papa tem, e que foi conferida diretamente por Nosso Senhor, é mantida apesar de seus erros.
 
Em nossos recentes debates com os sedevacantistas ficou claro quão absurda é a tese de não se considerar Francisco como Papa.
 
Por isto, é uma obrigação que todos nós católicos rezemos para que o Papa mantenha sua decisão e de fato realize a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração. Ademais, que apoiemos com os meios que dispomos, principalmente com nossas orações, essa ótima atitude, e que também participemos desse ato nos unindo em oração ao Santo Padre e a todos os bispos. É o que a Montfort fará.
 
Mas será que agindo desta forma o Papa Francisco estará atendendo ao pedido de Nossa Senhora? Esperamos e nos parece que sim, mas, ainda que não atenda exatamente o que Nossa Senhora pediu, é um ato bom que deve ser apoiado.
 
Tendo tratado do que realmente é importante neste caso, podemos ainda fazer outra consideração: a pergunta que muitos se fazem é o que teria levado o papa a tomar a decisão de realizar esta consagração? Porque de repente se preocupar com a consagração da Rússia quando o seu papado sempre se caracterizou por uma assistência material e concreta aos necessitados, deixando para um segundo plano as questões espirituais?
 
Se o papa organizasse com os bispos uma coleta mundial em favor dos refugiados não haveria surpresa, mas consagrar a Rússia significa reconhecer que o Papa tem poder sobre a Rússia. Ninguém consagra o que não é seu. Ademais, afirmar que a Rússia é do Papa, ainda que de uma maneira simbólica é um golpe no ecumenismo, tão querido pelo próprio Francisco.
 
É claro que a ação do papa Francisco demonstra que ele estaria muito preocupado, talvez até assustado, mas com o que? A primeira hipótese que poderia ser apresentada é a eclosão de uma guerra de proporções mundiais.
 
Entretanto, ao menos com as informações que estão disponíveis para o grande público, isto neste momento, não parece provável. Ainda que a imprensa esteja distorcendo os resultados da guerra em favor da Ucrânia parece claro que o poderio militar e a efetividade do exército russo são muito menores do que se esperava. A principio se acreditava que a guerra seria resolvida de forma rápida em favor da Rússia, e o que se constata são as dificuldades significativas em dominar a Ucrânia.
 
Sendo assim, que chances de vitória a Rússia teria em promover uma guerra contra os países da OTAN? 
 
Parece que seriam chances mínimas, e isto certamente não passa despercebido das autoridades russas.
 
Assim, um ataque russo, para ter esperança de sucesso deveria ser um ataque nuclear. Mas isto representaria um risco de proporções gigantescas para a própria Rússia, o qual neste momento, nem de longe, Putin parece disposto a correr. A própria disposição da Rússia em negociar a paz com a Ucrânia, apesar de manter suas condições para parar a invasão, demonstra isto. Parece que soluções extremadas não estão nos horizontes de Putin, ao menos por enquanto.
 
Também as consequências econômicas da guerra, apesar de significativas, parecem ter um alcance limitado. Vai se formando um consenso que haverá apenas um impacto imediato da guerra na economia. Por exemplo, em relação ao preço do petróleo, que rapidamente aumentou muito, mas já começa a recuar; aos fertilizantes, ao trigo... Mas no médio prazo a tendência é de uma acomodação.
 
Então, diante deste quadro podemos repetir nossa pergunta: o que o papa sabe que o público em geral, como nós, não sabe? Ou perguntado de outra forma: O que teria mudado no pensamento do papa e o que teria feito ele mudar? Que relação tudo isto teria com Fátima e com a consagração da Rússia?
 
Neste momento só podemos divagar um pouco sobre o assunto, e para isto nos utilizaremos do livro do Padre Malachi Martin: A Casa Varrida pelos Ventos.
 
Padre Malachi foi um padre que teve importância significativa no Concílio Vaticano II sendo secretário do cardeal Bea e, portanto, um modernista. É provável que tenha mudado, pois posteriormente defendeu doutrinas conservadoras dando grande destaque e importância as aparições em Fátima e afirmando conhecer o teor do terceiro segredo de Fátima.
 
No final da vida, misteriosamente pediu redução ao estado leigo, mas mantendo o privilégio de poder rezar missa em privado, e segundo consta, celebrava exclusivamente a Missa Tradicional. De toda forma, foi uma pessoa que possuía grande conhecimento de toda a política interna e externa do Vaticano e descreveu essa política em vários romances que escreveu.
 
O livro ao qual nos referimos é um romance, certamente o mais importante dos escritos pelo Padre Malachi, que se passa durante o pontificado de São João Paulo II e que tem como tema central a ação do papa na Igreja e no mundo. O livro denuncia a existência de grupos dentro da Igreja que constituíam uma rede secreta satanista, de pedofilia, de proteção e divulgação do homossexualismo, que incluam crimes financeiros e que, é claro pretendiam mudar a doutrina e a moral da Igreja.  
 
O livro ainda trata de uma união desses grupos com movimentos maçônicos de fora da Igreja que pretendiam implantar uma república mundial para preparação da vinda do Anticristo.
 
Muitos dos fatos apresentados no romance como supostamente fictícios foram posteriormente confirmados como verdadeiros, o que demonstra que o livro não é uma mera ficção, mas uma história real transformada em romance, e confirmam que o padre Malachi era uma pessoa muito bem informada. O próprio padre Malachi posteriormente declarou que noventa por cento de tudo que estava no livro era verdadeiro e que os personagens que aparecem no livro tiveram seus nomes trocados, mas eram reais.
 
O livro apresenta um papa com muitas dúvidas e com ações contraditórias que hora favorecia grupos modernistas, hora favorecia os conservadores. O papa sofria uma enorme pressão da cúria e dos grupos secretos de dentro e de fora da Igreja, o que o colocava em uma situação de não saber como deveria conduzir a Igreja e de reconhecer que não agia bem nas suas tareas papais. O livro chega a apresentar uma cena onde o papa se confessaria de ter conduzido mal a Igreja, pois acreditava que o seu desleixo seria um pecado.
 
Assim, desiludido com seu próprio desempenho e muito angustiado, o papa deposita suas esperanças de solução em uma atuação direta de Nossa Senhora na história. Já no final do romance o papa resolve realizar uma viagem de peregrinação para a Rússia e para a Ucrânia, onde acreditava que Nossa Senhora se manifestaria de forma clara. Suas esperanças eram baseadas no segredo de Fátima, que, é claro, São João Paulo II conhecia no romance e na vida real, e muito provavelmente o Padre Malachi também conhecia na vida real.  
 
Já no fim do romance, porque na vida real o papa não viajou para a Ucrânia e para a Rússia, ele fez questão de viajar para esses dois países em peregrinação acreditando firmemente que ocorreria uma clara manifestação de Nossa Senhora, e que essa manifestação seria a solução para os graves problemas em que se encontrava a Igreja: um barco em que o capitão não sabia mais o que fazer para conduzir. Reproduzimos a seguir um pequeno trecho do livro que demonstra a situação em que a peregrinação se realizava:
 
“Na cidade de Lvov como em Kiev, o Papa eslavo queria ver tudo e, mais uma vez, em tudo era dominado por multidões entusiasmadas a cada passo do caminho...”
 
Depois de visitar a Ucrânia o papa vai para Moscou onde também há multidões que vão ao seu encontro e onde Mikhail Grobachev, que já não era mais secretário geral do partido comunista, conversa com ele de forma privada.
 
Mas tudo isto não foi suficiente para agradar ao papa que ficava triste porque a manifestação que ele esperava de Nossa Senhora não acontecia.
 
“Muitos que cercavam Sua Santidade naquela manhã comentaram sobre o quanto ele [o papa] tinha envelhecido, desde a última vez que o viram, e notaram uma certa submissão em sua atitude. No entanto, exceto alguns íntimos como Slaterry, Gutmacher e Lucadamo, ninguém imaginou que a emoção dominante nele era uma profunda e comovente tristeza. Ele chagava às últimas horas de sua peregrinação, e nenhum sinal da Rainha dos Céus foram enviado a ele”
 
O Papa então exausto pela viajem e profundamente decepcionado pela ausência de manifestação de Nossa Senhora, abandona seu roteiro e se dirige Mosteiro de Jasna Góra em Częstochowa, na Polônia onde pensa em renunciar.
 
Seria possível, então, que o papa Francisco, assim como aconteceu com São João Paulo II, constatando a confusão doutrinária, moral, disciplinar e até mesmo financeira, em que se encontra a Igreja - e não é necessário aqui detalhar os inúmeros casos que demonstram essa confusão - também tenha se voltado para a esperança de uma intervenção de Nossa Senhora? E não seria razoável, como no caso do romance do padre Malachi que essa intervenção estaria relacionada à Fátima, ao segredo e à Rússia?
 
É claro que tudo não passa de hipótese, mas enquanto este artigo é redigido há pequenos sinais de mudança. Muito pequenos, como a nuvem que apareceu sobre o céu de Israel enquanto Santo Elias rezava para que a seca tivesse fim. Nuvem esta que simboliza Nossa Senhora.
 
Logo se dirá que sou um otimista. É verdade: a hipótese colocada é otimista. Mas, em se tratando do Papa e do papado existem razões, e não é ilusório, para ser otimista. Quem nos dá certeza de vitória é o próprio Deus.
 
Quem diria quinze dias atrás que o CELAM se uniria ao papa na consagração da Rússia? Quem diria que Dom Paulo Evaristo Arns, o grande fundador do PT e protetor incondicional da Teologia da Libertação passaria os últimos anos de sua vida rezando o terço e convidando todos aqueles que estavam próximos a ele a fazer o mesmo? Porque então não esperar uma mudança no representante de Cristo na terra?
 
Porque não ter esperança em uma mudança, ainda que não seja uma mudança como a de São Paulo, mas uma mudança de pensamento que abandone a esperança de realizar uma utopia terrena e coloque essa esperança, de salvação das almas na intercessão de Nossa Senhora? Talvez seja uma pequena nuvem que logo se dissipe, mas porque não esperar que essa pequena nuvem se transforme em uma enorme chuva, que ponha fim a esta longa seca, e que novamente traga ao mundo as graças que tanto necessitamos?
 
O que nos cabe agora é rezar, e é isto que faremos no momento em que o papa estiver consagrando a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. A melhor oração é a Missa. E se Deus quiser, estaremos na Missa, a Missa de sempre, neste momento.
 
Alberto Luiz Zucchi

20-03-2022


    Para citar este texto:
"O Papa, a Consagração da Rússia e a pequena nuvem de Santo Elias"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/consagrussia/
Online, 19/05/2022 às 05:43:19h