Igreja

Annibale Bugnini e a maçonaria: simples boato ou uma suspeita razoável? Mais uma resposta ao Padre José Eduardo
Eder Moreira

Em seu vídeo contra o tradicionalismo, o Reverendíssimo Padre José Eduardo abordou a questão da relação entre Bugnini e a maçonaria. Na sua breve consideração, colocou o assunto no nível de pura especulação. A acusação contra o arquiteto da Missa Nova não teria prova documental, devendo, portanto, ser ignorada como preconceito tradicionalista. Ademais, como observou o Padre, Bugnini negou, veementemente, as acusações de ligação com a maçonaria.

Em resumo, essa ideia de um Bugnini maçom deve ser descartada como improvável. Dois motivos seriam suficientes: 1) Bugnini se declarou inocente das acusações. 2) A Missa Nova foi aprovada pelo Papa, garantindo, por esse ato, que ela não foi contaminada pelos dedos de um agente da maçonaria.

Perdoe-nos a franqueza, Padre José Eduardo, mas sua argumentação carece de sólida fundamentação. Prefiro acreditar que o sr. desconhece o assunto, para não aventar uma malícia deliberada em sua exposição. É uma pena que o seu critério, tão minucioso contra os protestantes, não reverbera em sua análise da Missa Nova e do Vaticano II.

Para uma avaliação equânime dessa “especulação”, será preciso considerar – para além da confissão de inocência – os documentos e fatos comprobatórios da acusação. Nesse sentido, basearemos – a princípio – nossa exposição no livro do padre Charles Theodore Murr, que expõe informações sobre a investigação realizada pelo Arcebispo canadense Joseph Gagnon.

Como prévia da exposição, convém elucidar, sucintamente, do que se trata o livro em questão, e qual a relação do Padre Charles com o Arcebispo Gagnon. Para tanto, reproduzo um excerto do prefácio:

“Mas muito mais importante, e a principal razão pela qual registrei essas memórias, é a necessidade de abordar a reforma objetiva da administração central da Igreja de Cristo. O Arcebispo Gagnon foi encarregado pelo Papa Paulo VI de investigar a acusação de que a Cúria tinha sido infiltrada por homens associados a organizações que pretendiam a destruição da Igreja Católica Romana ou, pelo menos, sua completa neutralização como força de oposição ao secularismo e ao relativismo. Foi relatado ao Santo Padre que prelados influentes e de alto escalão eram, na verdade, maçons. Ele pediu ao homem que tenho a honra de contar entre os meus mais queridos amigos e maiores mentores para realizar uma investigação. Ele fez isso com um grande custo pessoal, um preço que testemunhei em primeira mão. O Arcebispo Gagnon compilou um dossiê exaustivo que NÃO LHE DEIXOU DÚVIDAS DE QUE ESTAS ALEGAÇÕES CHOCANTES ERAM DE FATO VERDADEIRAS” (Pe. Charles Theodore Murr. Murder in The 33rd Degree: The Gagnon Investigation into Vatican Freemasonry. Independently published, 2022, p. XVI).

Da investigação realizada pelo Arcebispo Gagnon – por solicitação de Paulo VI – é importante ressaltar a convicção inabalável do prelado mediante as provas coletadas. Conforme exprimiu sua testemunha (Pe. Charles Murr), as documentações não deixaram dúvidas de que as acusações eram de fato verdadeiras

Essa informação – talvez desconhecida para o Padre José Eduardo – mostra que a questão não é um puro preconceito tradicionalista. A propósito, o Arcebispo convencido pelas provas não era um Lefebvrista!

Para dar mais robustez a essa questão, é importante destacar que, mesmo antes da investigação do Arcebispo Gagnon, os Cardeais  Dino Staffa e Silvio Oddi acusaram Bugnini (responsável pela nova liturgia) e o Cardeal Baggio (responsável pela sagração de novos bispos) de serem membros da maçonaria. A descrição do fato pelo Padre Charles não é uma simples especulação:

“Alguns anos mais tarde, dois Cardeais altamente respeitados da Igreja Católica Romana – o Cardeal Dino Staffa, Prefeito da Assinatura Apostólica (o Tribunal Supremo da Igreja Católica) e o Cardeal Silvio Oddi – reuniram-se em privado com o Papa Paulo VI e entregaram-lhe documentação de natureza muito condenatória [...] Os documentos condenatórios diziam respeito a dois membros de alto escalão da Cúria Romana: o Cardeal Sebastiano Baggio, Prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, e o Bispo Annibale Bugnini, Vice-Secretário da Sagrada Congregação para o Culto Divino. Com as provas em mãos, Staffa e Oddi acusaram formalmente Baggio e Bugnini de serem maçons ativos e, como tais, traidores infiltrados no governo central da Igreja Católica Romana. A gravidade do assunto não poderia ser maior, dados os cargos que estes homens ocupavam” (Pe. Charles Theodore Murr. Murder in The 33rd Degree: The Gagnon Investigation into Vatican Freemasonry. Independently published, 2022, p. 24).

Com base em provas documentais, Paulo VI solicitou uma profunda investigação. Para tanto, o Vice-Secretário de Estado, Cardeal Benelli, sugeriu o Arcebispo Édouard Joseph Gagnon. Após três anos de investigação, o prelado designado elaborou um dossiê denso e fartamente documentado. Em maio de 1978, o Arcebispo Gagnon apresentou a Paulo VI, em audiência, o resultado do seu exaustivo trabalho investigativo.

Convicto de que Bugnini e o Cardeal Baggio (responsável pela nomeação dos Bispos da Igreja) eram maçons infiltrados, o Arcebispo Gagnon advertiu o Papa: “Vossa Santidade me perdoará por dizer isto, mas um maçom está orquestrando o próximo conclave.  Para todos os efeitos e propósitos, o Cardeal Baggio está nomeando o vosso sucessor” (Pe. Charles Theodore Murr. Murder in The 33rd Degree: The Gagnon Investigation into Vatican Freemasonry. Independently published, 2022, p. 81).

Nessa mesma audiência, o Arcebispo Gagnon expôs ao Pontífice algo que o próprio Cardeal Staffa havia lhe transmitido:

“Pouco antes de morrer [...] o Cardeal Staffa pediu para falar comigo. Ele me contou que em 1972, e novamente em 1975, na qualidade de Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, ele e o Cardeal Oddi vieram falar com Vossa Santidade sobre este mesmo homem [Cardeal Baggio] e sobre o Arcebispo Annibale Bugnini. Eles forneceram a Vossa Santidade evidência documental para verificar essas acusações extremamente graves. Incluo cópias da mesma em meu relatório. Eles indicaram que ambos os homens eram e, presumo, ainda são, maçons com poderosas conexões maçônicas – e que muitas dessas conexões, Santo Padre, levam diretamente ao Instituto para as Obras de Religião (o Banco do Vaticano)” (Pe. Charles Theodore Murr. Murder in The 33rd Degree: The Gagnon Investigation into Vatican Freemasonry. Independently published, 2022, p. 81-82).

Paulo VI confirmou o fato declarado pelo Arcebispo Gagnon: “’Isso é realmente verdade’ o Papa admitiu: ‘os cardeais Staffa e Oddi vieram até nós com as acusações, acusações que entregamos ao Arcebispo Benelli para investigar” (op. cit., p. 82).

Mesmo já tendo ouvido do próprio Benelli sobre a conclusão de sua investigação, Gagnon perguntou ao Pontífice o que Benelli havia descoberto.

Paulo VI respondeu com a seguinte declaração:

“Benelli concluiu que os relatórios sobre o Arcebispo Bugnini eram bem fundamentados... COM BASE NOS QUAIS DECIDIMOS ENVIAR SUA EXCELÊNCIA AO IRÃ COMO NOSSO NÚNCIO” (op. cit., p. 82).

Essa informação confirma que Paulo VI não desprezou as provas contra Bugnini. Pelo contrário, com base nos relatórios do Cardeal Benelli, decidiu o Pontífice enviar Bugnini para o Irã.

Segundo o Padre Gottardo Paqualetti, que trabalhou com Bugnini no Consilium, o Papa não revelou o motivo da pesada medida contra o fabricador da Missa Nova:

“A sua maior dor foi devida ao fato de ter sido removido sem que as razões do afastamento lhe fossem comunicadas. Até o Papa, que o recebeu em audiência, não disse nada sobre isso

https://www.clerus.org/clerus/dati/2007-11/23-13/DossieLitUmaBabel.html

Como revelou o Padre Murr, testemunha do Arcebispo Gagnon, as provas convenceram o Papa Paulo VI, que não considerou mero boato tradicionalista as provas contra o encarregado da Missa Nova.

Entretanto, o Papa que já havia punido Bugnini – porque se convenceu pelas provas – não quis prosseguir com a questão. Em razão da idade avançada, recomendou ao Arcebispo Gagnon que guardasse a investigação para o próximo Pontífice.

Por esses trechos do depoimento do Padre Charles, fica evidente que a acusação contra Bugnini não é simples boato ou preconceito tradicionalista.

Quando eu estava produzindo esse artigo, um amigo que acompanha meu trabalho me enviou um documento. Trata-se de uma entrevista que o Gagnon concedeu à Revista 30 Dias em 1991.

Diante de algumas aparentes dissonâncias entre as palavras do Gagnon e o relato do Murr, resolvi escrever ao reverendo sacerdote.

A seguir, minha primeira pergunta ao Padre Murr:

“Na mesma entrevista (1991), Gagnon afirma que entregou seu relatório a Paulo VI; no entanto, ele acreditava que o Papa não tinha tempo para ler seu relatório investigativo e, portanto, não teve oportunidade de tomar medidas. Entretanto, em seu livro, Padre, o sr. afirma que Paulo VI não desejava revisar o dossiê, que Gagnon deveria manter e apresentar ao próximo Papa. Como essa aparente discrepância pode ser resolvida?”

Para esse questionamento, o padre Murr me devolveu a seguinte explicação:

“Talvez, então – o Arcebispo Gagnon não quisesse declarar tão claramente a reação do Papa Paulo VI, ou seja, que ele devolveu (para Gagnon) o(s) dossiê(s) entre eles sobre a mesa sem aceitá-los (muito menos lê-los). O Arcebispo Gagnon voltou para o carro onde eu o esperava com os mesmos documentos com os quais havia entrado. Ele próprio me contou tudo o que acabara de acontecer entre ele e o papa” (Padre Murr. Email de 19/11/2025)

Na sequência, coloquei uma segunda aparente divergência:

“O entrevistador perguntou a Gagnon se o sucessor de Paulo VI — ou seja, João Paulo I — havia lido o relatório, e Gagnon respondeu que não, porque o diretor espiritual do Papa o convenceu de que o curso de ação mais adequado seria enviar o dossiê de Gagnon para a Congregação para a Educação Católica. No entanto, em seu livro, o sr. afirma que o Papa João Paulo I leu o dossiê de Gagnon, que houve uma audiência entre ele e o Papa, e que — por causa do dossiê — o Papa convocou Sebastiano Baggio ao Vaticano, presumivelmente para afastá-lo da posição responsável pela nomeação de bispos”.

A resposta do Padre Murr:

“Quanto à segunda questão, só posso presumir que Gagnon não se sentiu tão à vontade para divulgar detalhes dessas coisas a um entrevistador de revista como se sentiu comigo, que morava com ele, com Mons. Mario Marini ou com o Prof. Roberto de Matteo. É verdade que o dossiê acabou nas mãos do Cardeal Silvio Oddi na Congregação para o Clero e que Oddi o trancou no cofre da Congregação. É igualmente verdade que o dossiê foi então roubado justamente desse cofre e seu paradeiro continua desconhecido até hoje” (Padre Murr. Email de 19/11/2025).

Com toda a paciência, o reverendo sacerdote resolveu o que parecia ser uma sutil divergência,

Para reforçar a descrição histórica do Padre Murr, que era amigo do arcebispo Gagnon e acompanhou o seu trabalho investigativo, acrescento a confissão do historiador Roberto de Mattei, que prefaciou a versão italiana do livro do Padre:

“Achei este livro, Assassinato em 33º Grau, uma leitura fascinante. Seu autor, Padre Charles Murr, é um padre americano que viveu, estudou e trabalhou em Roma de 1972 a 1979. Esses anos decisivos de sua vida romana permitiram que ele escrevesse um relato maravilhoso de muitos eventos importantes que se desenrolaram diante de seus olhos. Não é apenas o estilo narrativo agradável e envolvente que torna seu livro tão convincente, mas a descrição precisa dos personagens e, acima de tudo, a própria história perturbadora, a da investigação [de 1975-1979] sobre a Maçonaria dentro do próprio Vaticano, realizada por um prelado altamente exemplar. Conheço alguns dos fatos e conheci alguns dos principais personagens descritos no livro de Dom Murr e posso confirmar a absoluta precisão histórica dos eventos que o próprio autor testemunhou. O seu não é apenas um livro de memórias, mas uma preciosa contribuição histórica para melhor compreender a complexa realidade que é a Cúria Romana”. 

https://www.corrispondenzaromana.it/international-news/prof-de-mattei-backs-fr-murrs-claims-about-the-1978-vatican-investigation-into-freemasonry/

Roberto de Mattei confirma a precisão histórica do relato do padre Murr, justamente porque conheceu alguns dos fatos e alguns dos principais personagens relacionados. Portanto, além do padre, temos mais uma testemunha dos fatos narrados pelo amigo do Arcebispo Gagnon.

A título de curiosidade, escrevi ao Padre Murr para perguntar quais foram os contatos com os quais Roberto de Mattei soube dos fatos da investigação. Então, recebi a seguinte resposta:

“O Prof. De Mattei soube dessas coisas pessoalmente pelo Monsenhor Marini e pessoalmente pelo Cardeal Gagnon. Ele também as soube por outras fontes confiáveis.

Don Carlos T. Murr”

Agradeço ao padre Murr pela resposta à minha indagação!

Conclusão: temos duas testemunhas dos fatos que convenceram os Cardeais Staffa, Oddi, Benelli, e o próprio Papa Paulo VI, das relações do Bugnini com a maçonaria.

Dizer, portanto, que a acusação é pura especulação sem provas, é um puro preconceito continuísta do Padre José Eduardo!

Para dar mais força às declarações do Padre Murr e do Roberto de Mattei, adiciono a lista publicada pelo maçom Mino Pecorelli, em setembro de 1978. Na relação de nomes que são apresentados como membros da maçonaria, aparece o Monsenhor Annibale Bugnini. É claro que a lista em si não é uma prova inquestionável. O peso maior vem do próprio relato do Padre Murr confirmado pela confissão do Roberto de Mattei.

Entretanto, a lista do Pecorelli, contendo o nome do Bugnini, ganha confiança na medida em que outros fatos são conectados!

Já temos o testemunho do Padre Murr e a declaração do Roberto de Mattei. Somado a isso, o jornalista Andrea Tornielli menciona uma troca de cartas entre a maçonaria e o Bugnini, contendo o plano para a destruição da liturgia:

“‘Caro Buan, comunicamos o encargo que o Conselho dos Irmãos estabeleceu para ti, de acordo com o Grão-Mestre e os Príncipes Assistentes ao Trono, e te obrigamos (...) a difundir a descristianização mediante a confusão dos ritos e das línguas e de colocar padres, bispos e cardeais uns contra os outros. A Babel linguística e ritual será a nossa vitória, como a unidade linguística e ritual foi a força da Igreja (...) Tudo deve acontecer no prazo de dez anos’. (14 de julho de 1964).

Grão-Mestre incomparável (...) a dessacralização prossegue rapidamente. Foi publicada uma outra Instrução, que entrou em vigor no dia 29 de junho p.p. Já podemos cantar vitória, porque a língua latina vulgar é soberana em toda a liturgia, inclusive nas partes essenciais (...) Foi dada máxima liberdade de escolha entre os vários formulários, à criatividade particular e ao... caos! (...) Em suma, com esse documento creio ter disseminado o princípio da máxima libertinagem, segundo as vossas disposições. Lutei duramente contra os meus inimigos da Congregação para os Ritos e tive que recorrer a toda a minha astúcia para que o Papa a aprovasse. Por sorte, encontramos o apoio dos amigos e irmãos da Universa Laus, que são fiéis. Agradeço pela soma enviada e esperando vos ver em breve, vos abraço. Vosso Irmão Buan’ (2 de julho de 1967)”

https://www.clerus.org/clerus/dati/2007-11/23-13/DossieLitUmaBabel.html

É claro que alguns questionam essas mensagens, alegando grosseria no modo de expressão. Mas, é preciso lembrar que estamos apenas complementando a prova principal: o depoimento do Padre Charles Murr. Ademais, citamos essas cartas entre a maçonaria e um tal Buan, porque na lista do Mino Pecorelli, Bugnini é designado justamente pelo pseudônimo Buan, o mesmo “apelido” constante nas cartas sobre a destruição da Missa:

“BUGNINI Annibale : 23/4/1963 - Matricola 1365/75 - BUAN (pronunzio in Iran)” (Cf. Carlo Alberto Agnoli. La Maçonnerie à La Conquête de L’Eglise. 1997, p. 16).

Esse mesmo autor – Carlos Alberto Agnoli – analisa a lista do Mino Pecorelli, desenrolando fatos que evidenciam a ligação dos prelados denunciados com a maçonaria. Um deles é o Cardeal Villot, Secretario de Estado de Paulo VI: 

“Após sua morte, porém, um livro intitulado ‘Vida e Perspectivas da Maçonaria Tradicional’, de Jean Tourniac, Grande Orador da Grande Loja Nacional da França, foi encontrado entre seus pertences. Na capa desse livro, havia duas dedicatórias manuscritas a Villot, uma do próprio autor e a outra do Grão-Mestre da mesma loja. Diante desse documento, a declaração ‘formal’ do cardeal de nunca ter tido ‘em nenhum momento de sua vida a menor ligação com a Maçonaria’ parece, francamente, pouco crível” (Cf. Carlo Alberto Agnoli. La Maçonnerie à La Conquête de L’Eglise. 1997, p. 9).

Curioso encontrar entre os pertences do Cardeal Villot, que aparece na lista de maçons do Pecorelli, um livro de um maçon, com dedicatórias ao Cadeal do próprio autor do livro e do Grão mestre da Loja.

O próprio assassinato do Mino Pecorelli – alguns meses depois de publicar sua lista maçônica – não deixa de ser algo intrigante:

“O próprio Pecorelli era membro da Loja Maçônica Propaganda Due (P2) e, seis meses após a publicação desta lista, ele foi encontrado assassinado (20 de março de 1979)” (Taylor Marshall. Infiltration: The Plot To Destroy The Church From Within. Crisis, 2019).

Embora esse conjunto de elementos sejam suficientes para elevar a questão para muito além de um simples boato tradicionalista, temos a própria obra do Bugnini – a Reforma Litúrgica – que confere uma certa autenticidade para as cartas trocadas entre o tal Buan e o Grão Mestre da Maçonaria.

Para o limite dessa resposta, considerarei apenas a Instrução Geral do Missal, obra maliciosa do Bugnini para protestantizar a Missa Católica.

Em nossa resposta ao pentecostal Padre José Eduardo, mostramos que Bugnini desobedeceu ao Papa Paulo VI, não enviando a Instrução Geral para a Congregação para a Doutrina da Fé. Essa manobra revelou a má intenção desse maçom, que fez de tudo para aproximar a Missa Católica da Ceia Protestante.

 https://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/pejoseeduardomissanova/

 

 

Na mesma resposta, apontamos o Nº. 7 da referida Instrução, que foi alvo do Breve Exame Critico. A definição de Missa (do Bugnini) era escandalosamente protestante:

A Ceia dominical é a assembleia sagrada ou congregação do povo de Deus, reunindo-se sob a presidência do sacerdote, para celebrar a memória de Nosso Senhor” (Nº. 7).

Em sua obra magistral, o Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira ressaltou, com uma precisão cirúrgica, os problemas subjacentes na Instrução Geral e no Novus Ordo Missae. Para além da definição protestante de Missa, fruto da intenção protestante do Bugnini, a célebre dissertação do Arnaldo demonstrou todo o protestantismo bugniniano na Instrução Geral. O ofuscamento do caráter sacrifical da Missa – para agradar aos protestantes – é algo incontestável.

Após demostrar que, nenhuma vez sequer, aparece a palavra transubstanciação na Instrução Geral, Arnaldo observa que tal omissão, sobretudo em um documento de natureza doutrinária, foi objeto de censura pelo Papa Pio VI, contra o Sínodo de Pistóia. A propósito, é curioso como o Vaticano II carrega em si os mesmos erros desse Sínodo Jansenista.

Para dar um pouquinho de luz ao continuísta Padre José Eduardo, transcrevemos o respectivo trecho da obra do Arnaldo:

“A ausência do termo transubstanciação na Institutio é incompreensível. Em 1786 reuniu-se em Pistóia um Sínodo jansenista, que aprovou várias proposições sobre a Eucaristia. Nelas falava-se, contudo, em presença real e admitia-se mesmo a plena cessação da substância do pão e do vinho nas espécies consagradas. Mas não empregava a palavra transubstanciação” (Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira. A missa Nova de Paulo VI: O que Pensar? Brasília: Edições Veritatis Splendor, 2023, p. 37-38).   

Na sequência, Arnaldo observa que essa tal omissão terminológica (transubstanciação) foi condenada por Pio VI com os seguintes designativos:

perniciosa, prejudicial à exposição da verdade católica sobre o dogma da transubstanciação, e favorecedora dos hereges”.

Para o Papa Pio VI, não se pode omitir assim um termo inequívoco (transubstanciação). Mas, como adverte o Pontífice, cumpre sempre empregá-lo na exposição do mistério da presença real de Cristo das espécies consagradas.

A propósito, Arnaldo ressalta que a Instrução Geral do Bugnini, redigida para explicar o que é a Missa, tem um texto ainda pior do que o do Sínodo de Pistóia:

“Nota-se ademais que a Institutio, especialmente redigida para explicar o que é a Missa, nem sequer declara – como pelo menos declarou o Sínodo de Pistóia – que há a presença real de Nosso Senhor na Eucaristia, e que com a Consagração cessam as substâncias do pão e do vinho” (Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira. A missa Nova de Paulo VI: O que Pensar? Brasília: Edições Veritatis Splendor, 2023, p. 39).

Para “justificar” essa injustificável protestantização da Missa, escandalosamente explicitada no Nº 7 da Instrução Geral, a Comissão Litúrgica do Bugnini formulou as seguintes considerações:

“Os padres (Cardeais e Bispos membros da Comissão) consideraram certas dificuldades manifestadas recentemente a propósito de alguns pontos da Institutio Generalis Missalis Romani. Eles recordaram que a Institutio Generalis não é um texto dogmático, mas uma pura e simples exposição das regras que ordenam a celebração eucarística; ela não deseja dar uma definição da missa, mas apenas apresentar uma descrição do rito” (Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira. A missa Nova de Paulo VI: O que Pensar? Brasília: Edições Veritatis Splendor, 2023, p. 41).

Embora relativamente extensa, convém transcrever a resposta do Arnaldo a essa desculpa bugniniana:

“Essa afirmação é falsa. A Institutio está repleta de afirmações doutrinárias. Ninguém ousará dizer, por exemplo, que não tem caráter doutrinário a seguinte asserção do número 1: ‘nela (na Missa) encontramos o cume da ação pela qual Deus santifica, em Cristo, o mundo, e do culto que os homens oferecem ao Pai, adorando-O por Cristo Filho de Deus’. Isso será a ‘pura e simples exposição’ de uma regra que ordena a celebração eucarística? – Semelhantes conceitos doutrinários encontram-se a cada passo em todo o documento. O mesmo se diga do supracitado número 7. Como negar que aquele texto contenha uma afirmação sobre matéria dogmática que ordenam a celebração eucarística? Quais as ‘regras’ que aquele tópico contém? Se quisermos evitar sofismas, devemos absolutamente reconhecer que o número 7 da Institutio contém uma asserção doutrinária que fundamenta as ‘regras que ordenam a celebração eucarística’ posteriormente apresentadas pelo documento. O Missal Romano tradicional – isto sim – contém vários documentos introdutórios que não são ‘textos dogmáticos’, mas ‘puras e simples exposições das regras que ordenam a celebração eucarística’. Como já observamos, uma comparação ainda que sumária entre os aludidos documentos e a recente Institutio, revela de modo inequívoco a natureza doutrinária desta última, e meramente prática dos primeiros. Acresce que quando a Institutio estava em elaboração, a própria Comissão Litúrgica dizia que o documento deveria conter ‘PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS, normas pastorais e rubricas para a celebração da Missa” (op. cit., p. 41). 

Por fim, em uma declaração na ocasião da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Medelin (30/8/1968), Bugnini qualificou o conteúdo da Instrução Geral, com os seguintes termos: “uma ampla exposição TEOLÓGICA, pastoral, CATEQUÉTICA e rubrica, que é uma introdução à COMPREESÃO e á celebração da Missa” (op. cit., p. 41).

De forma precisa, Arnaldo mostrou que a escusa continuísta não salva a capciosa e protestante Instrução Geral do maçom Annibale Bugnini.

Sabemos que a obra magna de Bugnini é a Missa Nova. Ora, se a Instrução do Missal contém, propositalmente, um tangível sabor protestante, isso indica, logicamente, que o mesmo tempero foi adicionado na própria estrutura do Novus Ordo Missae.

As evidências contidas na Instrução e no próprio Missal, corroboram as provas que convenceram Paulo VI, o Cardeal Staffa, Benelli, Silvio Oddi e o próprio investigador (Arcebispo Gagnon) de que Bugnini era um agente da maçonaria, e cuja missão era aproximar a Missa Católica da Ceia Protestante.

Tudo indica que Bugnini era maçom!

Isso não é simples boato tradicionalista, Padre José Eduardo!

Existe um dossiê, fruto de uma profunda investigação!

E como relatou o Padre Murr, confirmado pelo Roberto De Mattei, Paulo VI se convenceu, mandando para o Irã, o maçom Annibale Bugnini.

Mas, o Padre José Eduardo objeta, dizendo que a aprovação do Papa é o selo de garantia contra a o dedo maçom do Bugnini.

Essa escusa é simplesmente burlesca!

Ora, se o simples ato de aprovação do Papa, independente da circunstância, garante a ortodoxia de um texto (ainda que manipulado por dedos inimigos), porque isso não aconteceu com a Instrução Geral do Missal, que Paulo VI aprovou contendo um forte tempero protestante do Bugnini? E tal era o sabor protestante que, muito a contragosto, o texto teve que sofrer leves retoques, para parecer mais católico e menos protestante!

O Papa Paulo VI literalmente aprovou um texto protestante do maçom Bugnini!

Sua tese é falsa, Padre José Eduardo!

O Sr. que tanto fala de lógica, acabou sustentando uma tese irracional. Ora, sendo Bugnini maçom – e tudo indica que sim – ele fez um novo rito com sabor maçônico. Com efeito, ainda que o texto maçônico tenha sido aprovado, ele continuou com tempero maçônico, pois os pontos problemáticos não foram retificados.

Para desfecho, trazemos um fato da história da Igreja que fragiliza a concepção errônea do Padre José Eduardo:

“Conta o P. Dulac que no consistório secreto de 23 de maio de 1923, o então Papa Pio XI interrogou os cardeais da Cúria sobre a oportunidade de convocar um concílio ecumênico. Eram cerca de trinta: Merry Del Val, de Lai, Gasparri, Boggiani, Billot… Billot dizia: ‘Não podemos dissimular a existência de divergências profundas dentro mesmo do episcopado… que podem dar lugar a discussões que se prolongariam indefinidamente’. Boggiani recordava as teorias modernistas, das quais dizia: parte do clero dos bispos não estão isentos. ‘Esta mentalidade pode inclinar certos Padres a apresentar moções e introduzir métodos incompatíveis com as tradições católicas’. Billot é ainda mais preciso: manifesta seu temor de ver o concílio ‘manobrado’ (sic) pelos ‘piores inimigos da Igreja, os modernistas, que já se preparam, como demonstram certos indícios, para introduzir a revolução na Igreja, um novo 1789” (Raymond Dulac. La Collégialité Épiscopale au Concile du Vatican apud Dom Marcel Lefebvre. Do Liberalismo à Apostasia. Rio de Janeiro: Editora Permanência, 1991, p.96).

Portanto, o Papa Pio XI e o Cardeal Billot não acreditavam que, por causa da infalibilidade pontifícia, deveriam menosprezar a ação modernista em um Concílio. A aprovação papal não é uma fórmula mágica que transforma heresia em ortodoxia. Isso se pode dizer da Missa Nova que, sendo obra de um maçom, continuou protestantizante, ainda que sob a chancela do Papa.

Que Nossa Senhora tire as escamas dos seus olhos, padre José Eduardo. Que a Graça de Deus te faça enxergar claramente a realidade, como nos tempos em que o sr. era aluno do nosso saudoso professor Orlando Fedeli.

In Corde Maria Regina
Eder Moreira

 

    Para citar este texto:
"Annibale Bugnini e a maçonaria: simples boato ou uma suspeita razoável? Mais uma resposta ao Padre José Eduardo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/bugninimaconaria/
Online, 29/03/2026 às 20:02:46h