Religião-Filosofia-História

No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho (Parte 8/8)
Orlando Fedeli

 
Apêndices Documentais
 
Quem SOMOS NÓS
 
 
O  texto do Simpósio “Quem somos nós”  dado reservadamente  por Plínio Corrêa de Oliveira, em 1966 e 1973, foi publicado por um ex tefepista chamado Boller, no forum Salve Maria.
 
Segundo outro ex tefepista que conheceu o simpósio, desta publicação, foram retirados três pontos:
um referente à chamada Graça de Genazzano, outro sobre "O que terão custado", e finalmente o referente ao mediador necesario entre Nossa Senhora e os tefepistas.
 
Introdução Finalidade do Estudo
 
[Considerações feitas em Fevereiro de 1966]
 
1 - Termos uma idéia global, arquitetónica, de toda nossa vocação
                                                     
Montar uma visão arquitetônica da Causa como um joalheiro monta uma jóia a - num plano antigo ele vai ajustando pedras preciosas velhas e novas, o que resulta uma jóia inteiramente nova. [colar da rainha]
 
Para isso, vamos fazer como um joalheiro que tem um velho plano de uma jóia, e tem um certo número de pedras preciosas antigas na gaveta. Para montar a jóia ele tem que pegar as pedras preciosas velhas, tem que arranjar outras novas, pegar o plano velho e nele encaixar as pedras velhas e as novas. Assim ele monta a jóia.
 
A - Vamos pegar verdades conhecidas com suas consequências, acrescentar verdades novas, e montar uma visão arquitetônica que ganha  muita propulsão e riqueza [ “Verdades novas”?]
 
É um pouco desse modo que vamos proceder. Vamos pegar algumas verdades já conhecidas, delas tirar algumas consequências, juntar a elas algumas verdades que não são inteiramente conhecidas, pô-las todas em ordem e montar o plano segundo uma visão arquitetônica que, nas suas linhas gerais supomos que seja conhecida, embora ela mesma tenha uma porção de pormenores também não conhecidos.
 
No total, a imagem que se despreende é uma imagem muito nova, sobretudo porque o conjunto ganha muita força, muita propulsão, muita riqueza, e vem muito a propósito para nossa formação.[ Total: “imagem muito nova]
 
B - Para o aprofundamento da vocação e a consequente riqueza da ação
 
a - o aprofundamento no conhecimento e no amor à Vocação importarão no aprofundamento do modo mais excelente da ação, que ganha em riqueza substancial
 
Isso vem muito a propósito porque, a partir do momento em que se tiver a idéia conjunta do que seja nossa vocação, essa idéia passa por sucessivos aprofundamentos. Estes, por sua vez, importarão num aprofundamento do conhecimento da vocação e do amor a ela. Portanto, no aprofundamento também do modo mais excelente de fazer as coisas que dizem respeito à vocação. Desse modo toda nossa ação pode ganhar em riqueza substancial.
Pois, quanto mais a ação se ajusta à sua finalidade, quanto mais ela se ajusta ao seu espírito, naturalmente tanto mais rica ela é no melhor sentido da palavra rica.
 
b - de riqueza sobrenatural porque maiores são as graças; de riqueza natural porque o que é feito com consciência do fim, caminha mais diretamente para ele
 
Quer dizer, rica, em primeiro lugar, de riqueza sobrenatural, porque, quanto mais nós estamos fazendo a vontade de Deus e de Nossa Senhora, tanto maiores são as graças. Rica também de riqueza natural porque aquilo que é feito com muita consciência do fim, naturalmente lucra, torna-se muito mais exímio com direção ao fim.
 
c - Vendo a Causa, proclamando o futuro, e não fazendo do "unzinho" um santinho. [liquidar o “unzinho” de cada um em PCO, sendo um com ele].
 
C - Para combater a chacunnière
[ cada um ser o que é] chacun être un queleconque]
A - tentação impalpável, imponderável, mas mais nociva para o Grupo do que todas as outras
 
Há outra razão. Depois de não sei quantos anos de existência do Grupo na nova fase - e eu chamo "nova fase" a que começou depois da aproximação da Martim - depois de não sei quantos anos de existência do Grupo, uma conclusão se nos impõe de um modo positivo: todas as tentações do mundo, todas as tentações da carne, tentações de mau espírito, tentações de apostasia... todas as tentações armadas pelo demônio através da Revolução para desviar as almas do Grupo, enfim, todas as tentações a que um membro do Grupo pode estar sujeito, todas elas não têm sido tão perigosas, nem o consentimento a elas tão nocivo para o Grupo quanto uma tentação impalpável, imponderável - essa sim muito nociva - a tentação de chacunnière .
[Chacunière é tentação metafísicaOF].
 
2 - O que é a chacunnière
 
A - Definição e aplicação
 
Um escritor francês, talvez Montesquieu, deu assim uma definição da ordem do Reino na França: Le Roi, dans son royaume; le gentilhomme dans sa gentilhommière; et chacun dans sa chacunnière. O que indica: o Rei, vivendo para o bem geral; o nobre, para o bem local, e cada um vivendo para o seu bem individual. Em termos de doutrina política e social, pode-se perfeitamente comceber isso. Está bem expresso.
 
a - defeito pelo qual o membro do Grupo faz de sua vida particular sua preocupação capital, só se interessando de modo platônico pela vida coletiva e bem comum do Grupo
 
Por necessidade, tomamos o termo de Montesquieu num sentido pejorativo - que ele evidentemente não lhe dava - para definir o seguinte defeito: a preocupação de cada um, enquanto membro do Grupo chamado para uma missão muito mais alta do que a de simplesmente atuar na sua vida privada, de fazer, do nela atuar, a sua preocupação capital.
 
Isso faz com que o grosso do seu empuxe vá para a vida pessoal, e que, só de um modo mais ou menos platônico, entram o interesse pela vida coletiva, pelo bem comum do Grupo, etc.
 
             b - esse defeito raramente se apresenta de modo explícito
 
Naturalmente a chacunnière não é um defeito que exista de um mesmo modo em todos. Sobretudo não se apresenta, senão muito raramente, em casos agudos, de um modo explícito. Trata-se, antes, de um defeito implícito e vivendo de vários modos em vários graus nas pessoas.
 
Assim, não há membro do Grupo que diga o seguinte: "Agora eu vou cuidar de minha vida particular, e só secundariamente cuidar do Grupo". Isso já representaria um tal grau de ensabugamento que essa pessoa já estaria com um pé na rua.
 
 c - por ele, a pessoa concorda em tese que deve dedicar-se inteiramente ao Grupo. Mas, subconscientemente, por falta de  maturidade, de generosidade e uma série de defeitos na ordem viva das coisa, os assuntos que lhe mordem são os pessoais
 
Mas há um fenômeno subconsciente que é este: a pessoa concorda em tese que deve dedicar-se inteiramente ao Grupo. Mas, por falta de maturidade, de generosidade, por uma série de defeitos na ordem viva das coisas, os assuntos que lhe mordem são os pessoais. Os grandes assuntos são por ele admitidos platonicamente, mas não lhe mordem.
 
d - daí o dinamismo de seu interesse escapa do geral para o particular, do abstrato para o concreto, do metafísico para o físico, do sobrenatural para o natural
 
Então, o mais das vezes, a chacunnière é um defeito subconsciente. Mas, enquanto subconsciente, um defeito muito vivo porque é todo o dinamismo do interesse que escapa do geral para o particular, do abstrato para o concreto, por assim dizer do metafísico para o físico, e do sobrenatural para o natural.
 
e - o abstrato, o metafísico, o sobrenatural ficam, por este defeito,  vistos como valores culturais de que a gente se ocupa um pouco
 
O geral, o abstrato, o metafísico, o sobrenatural ficam, por este defeito, vistos assim como umas lindas categorias do espírito, quase uns valores culturais de que a gente se ocupa um pouco, mais ou menos como certos diletantes gostam de ouvir um pouquinho de música à noite. Os cultores de Chopin são deste gênero: põem pijama, sentam-se comodamente, tocam um disco high fidelity, enternecem-se um pouco com aquele melaço, imergem durante algum tempo naquela ordem irreal, mas ao dinamismo da vida deles não vai para o Chopin. Vai para a vida de todos os dias.
 
Muita gente, sem se dar conta disso, faz de nossos princípios uma espécie de Chopin. A noite na hora de ir para a Sede, pensa um pouco naquelas coisas tão bonitas que "aqueles rapazes tão piedosos", "aqueles senhores tão perseverantes" enunciam. Mas, durante o dia, é aquela vivinha...
 
B - Formas de  chacunnière: vidinha extra e intra Grupo
 
Há duas formas de chacunnière: uma é a forma "baixa", que consiste em um membro do Grupo cuidar da sua vidinha pessoal enquanto não membro do Grupo. Então, de seu empreguinho, seu automovelzinho, seu dinheirinho, sua saudinha, sua familhinha.
Outra é a forma "alta", também muito ruim. Consiste em o indivíduo já não cuidar propriamente da sua vidinha extra-Grupo, mas de, dentro dele, procurar organizar para si uma vidinha agradável.
 
C - Traços característicos do espírito de chacunnière 
 
             a - amor ao concreto, ao episódico, à dispersão e às vantagens pessoais
 
Sintoma característico desse espírito de chacunnière é quando uma pessoa começa a opinar a respeito das atividades e problemas do Grupo, interessando-se mais pelas questõezinhas práticas do que pelos grandes problemas. E, nelas, interessando-se mais por regulá-las de acordo com suas aspirações de amor próprio, vaidade, comodidade, e conforto do que com a vantagem do Grupo propriamente dita.
 
Então começa a opinar e vê-se que todas suas opiniões são, no fundo, animadas pela idéia de dar um certo atendimento à vantagem de caráter pessoal da vida dentro do Grupo. A pessoa não tem nostalgia da vida fora do Grupo, mas tem o desejo e a aspiração de fazer uma vidinha dentro dele.
 
Quer dizer, o indivíduo dado à  chacunnière  tem como nota característica de espírito o fato de que gosta do concreto, não do arquitetônico; do fato episódico sem maior análise, da coisinha concreta, pequena. Gosta de uma vidinha em quenão caiba nada de abstrato, mas apenas o concreto, como por exemplo, uma série cinematográfica e desconexa de impressões, e visões e de dados.
 
            b - tendo horror ao abstrato, tem horror ao recolhimento.
 
Ele tem horror ao abstrato. E, tendo horror ao abstrato, ele tem horror ao recolhimento. Porque este leva ao abstrato, a gente queira ou não. Ele gosta do barulho, do movimento, da dispersão, da rua com muita gente, do vai-e-vem, de tudo. É disto que ele gosta.
 
             c - logo, a chacunnière é o oposto da Sabedoria
 
Ora, o espírito bem formado deveria:
 
- querer o abstrato.
- neste, o arquitetônico, isto é, as verdades que formam um todo, e não apenas umas notas abstratas soltas no ar.
- no arquitetônico, deveria procurar o metafísico.
- além do metafísico, o sobrenatural.
- e  no sobrenatural, arquitetonicamente visto, ele deveria se deleitar. 
 
            Esta é a ordem da Sabedoria, é a Sabedoria .
 
 d - assim a chacunnière  encontra sua expressão mais eminente no espírito "americanista"
 
       O oposto disto é exatamente a chacunnière, que encontra sua expressão mais eminente no espírito "americanista". Pois, para o norte-americano (segundo é apresentado e difundido por Hollywood), o que vale é o fato que passa, a impressão que chama a atenção, a pura sensação física, o horror ao pensamento que conduz ao abstrato, o horror ao arquitetônico.
 
Aquela espécie de doida histérica que é a Estátua da Liberdade na entrada de Nova York, com aquele braço levantado, de um lado brada: "não há moral nem lei". Mas de outro brada também: "não há arquitetura nem metafísica".
 
        e - portanto, o contrário da Idade Média
 
Sendo assim, a chacunnière  é o contrário do espírito da Idade Média, em que todas as almas eram levadas para a ordem dos imponderáveis e para a ordem dos inverossímeis.
Esse espírito norte-americano-hollywoodiano é inteiramente voltado para o ponderável e para o verossímil. E a mentalidade comunista - não precisamos nem explicar - não é o oposto do norte-americano, mas é o arqui-ele. É o materialismo para o qual só o ultra-ponderável existe.
 
Temos, portanto, de um lado, a Sabedoria , da qual Nossa Senhora é a Sede, e que tem toda aquela luminosidade  com cores de vitral  de que a vida era banhada na Idade Média. De outro, temos esse espírito hollywoodiano cujo símbolo é a luz neon, a chacunnière .
 
             f - Mère Marie de Gonzague: exmeplo vivo de chacunnière 
 
Chacunnière por excelência era a Mère Marie de Gonzague, superiora de Santa Teresinha.
 
Ela era uma senhora originariamente de uma família de pequena nobreza da França. Eleita priora, começou a reger o Carmelo. Ela tinha um gato (já é uma enormidade! Uma carmelita que renunciou a todas as coisas, ter um gato! E já se vê o gato aos pés dela, na cela dela com certeza um quartinho um pouco melhor...) Para agradar a ela e obter licenças, em certas ocasiões, era preciso estar em boas relações com o gato. Evidentemente, um modo simbólico de fazer homenagem a ela.
[ como ao João de olhos andaluzes]
Havia uma construção no convento - presumimos que fora do convento - em que ela alojava a família quando esta vinha de algum castelicoque ou de alguma casinha do interior. Quando a família estava lá, as religiosas tinham que prestar certos serviços a ela. Era outra maneira de agradar Mère Marie de Gonzague.
[Como para Dona Lucília e PCO]
Santa Teresinha, quando quis escrever a "História de uma Alma", ela impos como condição para dar a licença, que Santa Teresinha dedicasse o livro a ela. Vê-se a coisa: "minha filha dedicou este livro a mim!"
 
Não passava pela cabeça dela sair do Convento, nem consentir nas tentações do mundo revolucionário do século XIX. Entretanto, dentro do Convento, era a  chacunnière .
 
             g - ainda que tênue, pequenina, a  chacunnière  não deixa de ter mil ramos
 
Outro tracinho característico de chacunnière: uma pessoa, quando nós introduzimos as Orações do Grupo em latim no início e finais de reuniões, fez uma objeção: "eu não gostei muito disso". Apertada, pois se pensava ingenuamente que se tratava de algo do bem do Grupo, saiu-se com esta: "Eu não sei latim. E, depois, tenho muita dificuldade em decorar!..." O que é? Chacunnière.
 
De uma coisinha assim pequena deduz-se uma chacunnière muito grande, porque a  chacunnière é assim: ainda que tênue, pequeninha, ela nunca deixa de ter mil ramos.
 
"Pelo dedo se conhece o gigante". As vezes, por um sinalzinho assim minúsculo de  chacunnière, vai-se aprofundar, aprofundar, acabar-se-á encontrando as raízes de uma árvore.  A  chacunnière  é uma coisa muito perigosa: ramifica muito.
 
D - Chacunnière e Primeiro Mandamento
 
a - há uma nota de caráter pessoal em nosso amor a Deus, que nos é indicado por nossa vocação
 
Nós amamos a Deus não como num Tratado, quer dizer, vendo todas as razões pelas quais Ele é amável, e amando de acordo com essas razões e na respectiva ordem etc. Algo disso naturalmente há e deve haver. Mas há uma espécie de amor mais especificado e mais pessoal a Deus, por onde sua nota tônica vai para os pontos onde Ele quer mais ser amado por nós.
 
E, então, nesses pontos, a graça vivifica mais o assunto, ilumina melhor; a nossa luz primordial converge para aquilo com mais veemência, e isto é que dá o caráter pessoal - e não apenas de Tratato de Teologia - a nosso amor de Deus.
 
A nossa vocação é que nos indica os pontos por onde nós devemos mais amar a Deus, porque toda vocação tem, no fundo, um aspecto de Deus que põe em relevo.
 
A nossa vocação tem os traços necessários para o amor mais dinâmico a Deus. E é assim, considerando esses traços, que nos unimos melhor a Ele.
 
b - ora, a chacunnière é uma forma de tibieza e de mediocridade que se reduz a uma aversão ao verdadeiro amor de Deus
 
A chacunnière é, em última análise, uma forma de tibieza ou uma forma de mediocridade que se reduz a uma aversão ao verdadeiro amor de Deus.
 
Para nós podermos combater a chacunnière, o elemento-meio que temos é evidentemente o estimular em nós o amor de Deus em suas linhas mestras, quer dizer, por onde nós fomos chamados a amá-Lo.
 
c ─ então os interesses de desenvolver nossa vocação, e o de combater em nós a chacunnière, coincidem completamente
 
Independente da existência da chacunnière, o interesse de desenvolver a nossa vocação e o amor de Deus, e, depois, o interesse de combater em nós a chacunnière , esses dois interesses coincidem completamente. E nós podemos, através deles, vencer aquilo que percebemos que é uma tentação permanente para os membros do Grupo.
 
Porque se a luz primordial, a vocação do Grupo é, do ponto de vista espiritual a Sabedoria - isto é, possuir um amor sapiencial de Deus e de Nossa Senhora - é claro que a tentação de pecado capital tem que estar no oposto. E, no oposto não está apenas a Revolução, mas também essa espécie de semi-Revolução que é algo que está para ela como o semi-arianismo está para o arianismo, ou o semi-pelagianismo para o pelagianismo. Quer dizer, é uma diluição do espírito de Revolução, que é esse gostinho de viver uma vidinha própria dentro de um mundo que é o mundo revolucionário, embora pouco importe que ele seja revolucionário.
 
3 - Apendice: para romper o "tendão maldito" 
 
Alguém poderia objetar: essas considerações anteriores são de fevereiro de 1966. Que atualidade elas têm para o momento presente? Para responder parece vir muito a propósito recordar o que foi dito no domingo, 2 de outubro de 1973. É o que segue: 
 
a - A partir de 67 começaram a ser cada vez mais numerosos os que começaram a compreender que não deviam viver uma vida particular, mas fazer uma doação    integral à Causa
 
Do ano 1 até 67, exclusive, ... cada um de nós considerava-se um particular destinado a viver a vida de um particular com seus interesses, seus direitos, seu destino pessoal a ser afirmado, a ser traçado, mas que íamos dando cada vez mais para a Causa.
 
A partir de 67 o acento se deslocou e começaram a ser cada vez mais numerosos os membros do Grupo que compreenderam que se tratava de uma doação integral à Causa. Que a coisa deveria rumar para que essa nossa vida fosse toda consagrada a Ela de maneira que a Causa fosse dona de nós, fosse senhora de nós. E que o corolário da Consagração de São Luís Maria Grignion de Montfort era que nós pertencêssemos completamente à Causa.[ Causa = PCO  SEMPRE VIVA]
 
E, portanto, que nós considerássemos todos os nossos direitos, todas as nossas ambições pessoais, todas as nossas regalias, como devendo ser imoladas em holocausto à Causa. E que esta éra o fim para o qual vivíamos: "é a Causa", e, colateralmente, cada um leva sua vida. O importante era fazer da Causa a nota tônica da vida.
 
Isto foi o que eu comecei a sentir em 1967, mesmo antes dos acontecimentos de  Genazzano.
 
b - Reverso da medalha: enquanto tem sido fácil obter doações exteriores, quando se trata de dar o que os franceses chamam de le fin fond, algo treme, algo hesita, algo cambaleia
  
Mas há o reverso da medalha. Enquanto tem sido fácil obter as doações exteriores, materiais, como por exemplo a pessoa consentir em ir morar num Êremo, entretanto, quando se trata de dar o fino, o fundo, o que os franceses chamam  le fin fond , "o fino mais profundo", à Contra-Revolução, algo fica e algo treme, algo hesita, e algo cambaleia.
 
Há uma espécie de repúdio interior ao mundo da Revolução por onde a pessoa, colocada diante dele, diz e de fato faz o que diz: "eu não tenho parte com ele, e o detesto completamente com toda minha detestação. E eu almejo o Reino de Maria com todas as forças de minha alma".
 
Mas, na hora desta ruptura interior total, qualquer coisa segura e indica uma divisão. E a divisão é responsável por uma vacilação. E esta, por uma insegurança. Por sua vez, a insegurança é responsável por atrasos no progresso, atraso no florescimento, por atrasos na expansão.
 
 c - Há um tendão qualquer que faltaria cortar. Esse, as pessoas não cortam
 
Há um tendão qualquer que faltaria cortar, que fica no mais fundo das almas. Esse tendão as pessoas não cortam.
 
E daí o fato de que o florescimento do "discípulo perfeito" ainda não se deu, quando todos nós deveríamos ser discípulos perfeitos.
 
Quer dizer, o ponto está aí: há uma ruptura interna, algo que a gente vê que dói e que fica naquela região misteriosa da alma que São Paulo chamou de "a junção da alma e do espírito". Nesta ruptura interna há qualquer coisa a obter de Nossa Senhora, que abolutamente precisa de ser obtido; porque, do contrário, não chegaremos até onde queremos chegar.
 
             a - a "fortaleza de gelatina"
 
Os Srs. vêem, então, na vida eremítica, por mais bela que ela seja - ela é até deslumbrante por alguns lados - os Srs. têm os cambaleios e as faltas de solidez, períodos de brilho e períodos de eclipse. Nos períodos de brilho, não há esperança que não se possa conceber. Nos de eclipse, não há receios que não se deva ter. E isso vem em toda a organização do Movimento, de alto a baixo. É o que eu chamava de "fortaleza de gelatina".
 
b - de 67 para cá, se esse tendão se adelgaçou, foi um adelgaçamento muito pequeno. Houve um progresso interior, mas não tocou o ponto fundamental
 
O que se poderia perguntar era se, de 67 para cá, o tendão pelo menos se adelgaçou. E eu devo responder com toda probidade que eu não tenho certeza. Mas que, se houve adelgaçamento, foi um adelgaçamento pequeno.
 
E daí o paradoxo nesse progresso interior, porque, se de um lado o florescimento é muito grande, de outro a seiva que deveria animar esse florescimento não é injetada na proporção do mesmo. Algo deveria ser cortado, um golpe deveria ser vibrado, e isto eu ainda não vejo. Aqui qualquer coisa deveria ser feita.
 
Houve um progresso interior pela graça de Nossa Senhora. Mas esse progresso não tocou o ponto fundamental.
 
D - Qual é esse tendão a ser cortado
 
Qual é esse ponto fundamental, esse tendão?
É uma disposição da alma, bem em seu centro, por onde ela se sente vinculada em algo com o que há de bem no centro da Revolução.
 
Todo e criteriologia
 
1 - Sabermos o que realmente somos em função da r-cr e do panorama histórico em que vivemos
 
A - Tendo como dados: senso católico, conhecimentos históricos, estudo da Cristandade, situação atual da Humanidade,  raciocínio e conclusões
 
Dado aquilo que sabemos que somos e aquilo que sabemos de nós mesmos em função da hora histórica em que nós vivemos, que outras verdades podemos tirar a respeito do que nós efetivamente somos?
 
O método que utilizaremos para isso é o seguinte: vamos tomar um conjunto de verdade em que nos apoiamos, com dados de bom senso e de senso católico, para construir uma série de teorias que dizem respeito à nossa vocação, considerada em face da Revolução e da Contra-Revolução. Considerada, portanto, em face, em função de um panorama histórico, porque a Revolução e a Contra-Revolução são um panorama histórico.
 
Os dados, portanto, são: o senso católico, conhecimentos históricos, o estudo da Cristandade, a situação atual da Humanidade, raciocínios e conclusões.
 
Agora, os senhores não devem ver nessas conferências um conjunto de hipóteses bonitas nem de divagações, mas devem ver aí uma coisa que foi raciocinada e deduzida segundo as legítimas regras do raciocínio de que é apresentado como hipótese quando é hipótese, que é apresentado como certeza quando é certeza. São verdades, portanto, que devem ser tidas como certas e que oferecem ao nosso pensamento verdadeiro pé.
 
B - E os flashes, explicitados e reduzidos a raciocínio
 
Isto dará então o lado raciocinado do simpósio. Primeiro, porque só as impressões profundas são grandes flashes. Depois, porque estando estando explicitada e reduzia a um raciocínio, ainda que nas horas de grande tentação, de grande dificuldade, de grande crise, os flashes desapareçam, a coisa que fica é o que foi reduzido a raciocínio, a princípio.
 
Não é sem razão que depois de Nossa Senhora ver as maiores maravilhas se passarem em torno d'Ela a propósito da Anunciação, do Nascimento do Menino Jesus e dos primeiros fatos de Sua Infância, o Evangelho nos diz que Ela conferia todas essas coisas e as meditava no seu Coração. O que é que era esse meditar?
 
Era tomar todas as coisas que a Ela tinham causado grande impressão - impressão já toda ela razoável, porque Nossa Senhora era concebida sem pecado original e tinha, na ordem da graça e da natureza, qualidades verdadeiramente insondáveis - era tomar essas impressões, já razoáveis, e fazer delas um pensamento definido, articulado,  metódico que A elevasse ainda mais no amor a Deus.
 
C - E "considerando-os em nossos corações”
 
Ora, o que se trata de fazer aqui é tomar todas as coisas que vimos e as considerarmos em nosso coração , no sentido escriturístico da palavra coração, que não quer dizer a sensibilidade apenas - tem algo de sentimento sem ser sentimentalismo - mas sobretudo [mentalidade?] sapiencial do homem. É isto que se trata de fazer.
 
2 - Em função de nosso fim e de nossa fidelidade a ele
 
A primeira coisa que precisamos para nos definir, é tomar um critério de definição.
Ora, um dos melhores critérios que há para alguém definir-se é definir-se em função do seu próprio fim, porque toda coisa vale em vista da  finalidade  e da  fidelidade  que tem a seu fim.
 
Porisso tomaremos esse critério e trataremos de nos definir em função dele.
 
- qual é o fim a que nos propomos?                                                                       - segundo: com que fidelidade nós estamos seguindo esse fim?
 
Mais lógico não se pode ser.
 
O que somos em função de nosso fim ou teoria dos auges
 
I - Aspecto negativo do nosso fim: destruição da revolução
 
Sendo a revolução o auge do mal dedicar-se a sua extinção é o melhor fim de nossa época,  e um dos mais altos da histõria
 
- I -
Introdução: o fim que visamos
 
A - Não visamos apenas um fim, mas o melhor que se possa visar e um dos mais altos que se tem visado na História da Igreja
 
Nós não visamos apenas um fim, mas o melhor fim que se possa visar em nossa época e um dos melhores e mais altos que se tem visado na História da Igreja.
 
Não é modéstia que nos falta, como  os Srs. vêem. Ainda não está enunciado o fim, e já está emitido um juízo de valor prévio em relação e ele:
 
Primeiro: é o melhor fim que se possa visar em nossa época;
Segundo: é um dos mais altos que, em todas as épocas da História da Igreja, se tem visado.
 
Qual é esse fim?
 
Vamos analisá-lo primeiro sob o aspecto negativo, e depois sob o positivo.
 
B - No aspecto negativo esse fim é a eliminação tão radical quanto possível da    Revolução.
 
Sob o aspecto negativo é a eliminação, tão radical quanto possível, do mais graves dos males de nossos dias: o pecado de Revolução. E como esta atingiu, como dizemos na RCR, um grau que é o pior que houve na História da Igreja e da Humanidade, poucas vezes se tem visado um fim tão alto quanto o a que nos propomos.
 
C - Algumas ponderações preliminares
 
Poder-se-á perguntar se esse fim não é, de uma vez, o mais alto.
 
a - Porque não, de vez, o mais alto?
 
Seria um pouco forçado dizê-lo. Porque há certos fatos na História da Igreja que, em sua raiz, visaram um fim  tão elevado, e  o levaram a efeito de um modo tão eminente, que seria um pouco forçado afirmar-se isso [simplesmente] assim.
 
b - a difusão do Evangelho, p.ex., teve características de nobreza muito mais altas.
 
Por exemplo, a difusão do Evangelho, feita principalmente por São Paulo em toda bacia do Mediterrâneo, evidentemente continha por super-eminëncia um fim tão elevado como o nosso. Além disso, tinha tantas outras características de nobreza muito mais altas que, dizer simplesmente que o nosso é o mais alto que houve na História seria uma coisa megalótica, sem o senso das proporções, até irreverente.
 
c - Excessão feita a coisas desse porte, não houve fim mais alto que o nosso
 
Entretanto, o que se pode dizer é que, excessão feita de coisas deste porte - e assim mesmo dentro disso haveria o que dizer - não houve fim mais alto do que o nosso.
 
d - Dizemos "eliminação tão radical quanto possível" porque, havendo demônio, haverá  Revolução
 
A expressão acima usada - eliminação tão radical quanto possível - é uma expressão necessária, porque a Revolução não pode ser extirpada de um modo total. Até o fim do mundo haverá o demônio, e, havendo o demônio, haverá o inimicitias ponam . De maneira que a destruição completa não é possível.
 
Mas a expressão "tão radical quanto possível" significa uma extirpação que leve até os extremos limites do permitido pela Providência.
 
e - É assim num de auge de totalidade, de nobreza, de intransigência, de importância, que se situa nossa vocação
 
Isto é o contrário do radicalismo: é uma afirmação de totalidade. É uma afirmação de auge. E é um auge de nobreza, num auge de intransigência, num auge de importância que se situa a nossa vocação.
 
É assim que nós começamos a entrar no assunto.
 
2 - A Revolução é o auge do mal, porque ela é a heresia total, a negação total da moral, e a suma desordem
 
A  - A Revolução é o auge do mal: 
 
            - porque ela contém, no fundo, a heresia total;
            - porque contém a negação total da moral; 
            - porque é a negação completa de toda ordem eclesiástica e temporal;
            - portanto, estamos combatendo o auge do mal .
 
Considerarmos isto é indispensável para nos darmos idéia da importância de nossa obra.
 
B - A Revolução é a heresia total
 
Por que?
 
a - Porque, sendo panteísta, ela é a mais radical forma de negação de um Deus pessoal. Resumo do que é panteismo.
 
Sendo uma heresia gnóstica e panteísta, a Revolução é a mais radical das formas de negação de um Deus pessoal. É uma forma de ateísmo (panteísmo e ateísmo acabam, no fundo, sendo a mesma coisa) a mais radical que se possa imaginar.
 
Essa forma de ateísmo consiste, em duas palavras, na idéia de que a ordem do ser era, antes da Criação do mundo, uma espécie de abismo sem pensamento e sem ação, parado, deitado em si mesmo, e posto numa espécie de sono de inconsciência completa. Isso seria propriamente a felicidade, porque não haveria outra felicidade senão a de não se conhecer, não se amar, o não pensar, o não querer, o não sentir e o não ser vário... Uma espécie de abismo que, ao mesmo tempo, é e não é.
 
Em determinado momento, dentro desse abismo, deu-se um desastre: um seu elemento interno (dir-se-ia, numa analogia blásfema, uma Pessoa da Santíssima Trindade) conheceu-se (que é algo que lembra a geração do Verbo pelo Pai); depois, amou-se (o que, por sua vez, tem semelhança com a doutrina da processão do Espírito Santo), e esse amor deu num desastre, pois deu na "sofia" ("sabedoria", em grego). Deu na Sabedoria que, em certo momento despreendeu de si seres individualizados, seres concretos: no Universo que nós vemos com seres que têm variedade, que vivem, que sentem, que conhecem, que amam e que sofrem.
 
Ora, para eles isto é um mal. O bem era o caos primitivo.
 
Por isso os seres todos, toda a ordem do ser, devem voltar àquela situação primeira, àquela situação anterior.
 
b - o budismo, panteísta na sua essência, visa a aniquilação da individualidade como meio de voltar ao caos primitivo
 
Esse processo de volta tem mil modalidades, mas sua essência sente-se no budismo. Segundo este, os seres devem ir cada vez mais se desindividualizando, se despersonalizando, tornando átono seu pensamento, tornando átona sua ação, abatendo as fronteiras por onde  têm a ilusão de que um ser não é o outro, etc... até que, ao cabo de transmigrações e encarnações sucessivas, voltem ao buraco inicial de onde nunca deveriam ter saído.
 
O processo, entretanto, depois recomeça, porque esse desastre é quase um desastre necessário, que sempre se reabsorve, mas que sempre acontece de novo. Uma espécie de máquina quebrada que a gente conserta e que necessáriamente se quebra de novo, o que é  próprio das coisas do demônio.
 
c - O evolucionismo, a civilização industrial e a arte moderna, enquanto favorecendo a padronização e a depersonalização, caminham nessa linha
 
A evolução, de que tanto se fala, não é senão essa força existente no Universo por onde as coisas se desindividualizam, re-individualizam, para de novo se desindividualizar etc...
 
A civilização industrial e a arte moderna, enquanto favorecem a padronização, a despersonalização por todos os modos, são  dessas forças da natureza. A civilização comunista, enquanto pondo tudo em comum, também é um elemento de despersonalização e, portanto, uma força da evolução tendendo a levar todas as coisas para o grande buraco terminal.
 
d - O tipo humano daí resultante não é o do bandido clássico que odeia a Deus - como Raul de Cambray -, mas o do monge budista em que todos os limites do eu estão abatidos
 
Se quisermos ter um pouco a idéia do tipo humano que surge daí, não devemos pensar num bandido da Idade Média, como Raul de Cambray, estuante de uma personalidade que odeia a Deus, e que, num pequeno barco se bate em escolhos num mar revolto, como espécie de Siegfried, não louro, mas negro, blasfemando contra Ele, fazendo o Sinal da Cruz em sentido contrário para ofendê-Lo. Essa é uma forma infantil e inicial de ódio a Deus.
 
O verdadeiro ódio é o de um monge budista que procura sua auto-destruição, inteiramente parado, vazio, desindividualizado e, por isto, capaz de pôr fogo em si mesmo como quem põe fogo num outro.
 
Todos os limites do eu estão aí abatidos. Ele é nada, ele é ninguém, ele é vazio.
 
e - essa é a mais completa negação de um Deus pessoal, de toda civilização, cultura, beleza, a sentina para onde convergem toda as possibilidades de impiedade.
 
Ora, de um lado, esta é a mais completa negação de um Deus pessoal e a mais completa afirmação do ateísmo. De outro, é a mais radical negação da civilização, da cultura, da beleza e da dignidade de vida. Portanto, o pior dos males. A sentina para onde convergem todas as possibilidades de impiedade.
Simplificando muito, nós encontramos por detrás de todas as formas de Revolução, em última análise, esta posição gnóstica. Por isto a Revolução é a heresia total.
 
D - A Revolução é a negação total da moral, a suma imoralidade
 
Ao mesmo tempo a Revolução, que é a suma heresia, é a suma imoralidade.
 
a - Um Raul de Cambray é menos imoral que um daqueles monges budistas que perdem o próprio instinto de conservação
 
Exemplificando de novo com um Raul de Cambray: ele, que é arqui-imoral, não o é tanto quanto um daqueles monges budistas de que falamos, embora, na aparência eles não cometam os crimes que Raul de Cambray cometeu. Mas, um homem que é capaz de se suicidar sem, por assim dizer, sentir o próprio instinto de conservação e a própria noção de que é um circuito fechado que se diferencia de todo o resto, este homem atingiu uma violação da moral mais funda do que a de qualquer assasino. E isso é uma deformação do que deve ser o homem, mais funda do que a que existiu em qualquer fascínora do passado.
 
b - como também o são Nogaret e Guillaume de Plaisance, que esbofetearam Bonifácio VIII em Agnani
 
Dois dos homens que nos inspiram maior horror na História, são Nogaret e Guillaume de Plaisance, que esbofetearam o Papa Bonifácio VIII em Agnani. Aliás, no fundo, essa bofetada não foi dada por esses dois sem-vergonhas, mas por de Felipe IV, por suas mãos, e com o espírito dos legistas. Era todo um germen da Renascença que ali cometia o pecado horroroso do morticínio de um Papa, proximamente parecido com o morticínio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso antecedeu muito de perto à morte misteriosa de outro Papa, bem-aventurado, que morreu poucos meses depois para dar origem à eleição daquele vaso de abominação que foi Bertrand de Gothe, francês, que transferiu provisóriamente - mas que imenso provisório - a sede do Papado de Roma para Avignon.
Pois bem, os dois homens que o cometeram esse pecado de esbofetear o Papa, com todas as agravantes que mencionamos, não estavam tão profundamente corrompidos quanto um monge budista de que falamos. Creio não ser preciso dizer mais nada.
 
 E - A Revolução é a suma desordem
 
A Revolução, que é o sumo pecado, a suma imoralidade, é também a suma desordem. Por que que?
 
a - Porque a ordem espiritual decorrente dessa impostação é a maior possível, a aniquilação de toda ordem
 
Porque a ordem temporal e a espiritual decorrentes dessa impostação gnóstica, não pode deixar de ser a maior desordem possível. Ou, em outros termos, a aniquilação de toda ordem. [ Redundância]
 
b - E não se pode imaginar outro adversário pior do que o que estamos combatendo.
 
Nós estamos combatendo, portanto, um verdadeiro auge. É verdade que é para baixo, mas é um verdadeiro auge. E o é porque não se pode imaginar outro pior.
 
E aqui fica, num flash, numa rápida lembrança, todo o horror que existe em nosso adversário.
 
3 - Esse auge de mal atingiu um auge de universalidade
 
A - Porque, pelo caráter universal da Revolução, ela  atinge a Humanidade inteira.
 
Esse adversário que, como se acabou de ver é mau na sua essência, tem, por extensão, uma outra nota de horror que é a universalidade. Quer dizer, ele não é um mal que aflige uma área só da civilização, da Humanidade, mas que, pelo caráter universal da Revolução, ele arrasta a Humanidade inteira.
 
B - Portanto, não é só a ala má, mas a Humanidade inteira que está sendo arrastada
 
Não insisto nesse ponto porque já é muito conhecido. Os Srs. sabem que é o mundo inteiro que está sendo tragado. Não é apenas a ala má da humanidade que vai sendo arrastada, mas é ela inteira. E o vai sendo tão a fundo que, até aqueles que por ofício deveriam ser bons ou parecem ser bons - aqueles que, comparados com a impiedade dão a impressão de piedosos - são arrastados.
 
De maneira que a parte não arrastada é uma parte minúscula, uma gotinha. Esta parte somos nós e pouco mais do que nós.
 
C - E a Revolução entrou até no Santuário. Vaticano II
 
A universalidade não podia, portanto, ser mais tremenda. Basta pensar no Concílio Vaticano II, para se ter a idéia de até onde ela penetrou. Ela não poupou o santuário e, dentro dele, não poupou o Santo dos Santos. É tremendo!
 
 D - E está a ponto de criar uma situação à qual ninguém resista. Chegou, portanto, a um auge de iminência
 
Outra nota que torna muito grave esse perigo é a sua iminência.
 
a - as reformas do Concílio e a tentativa de reconciliação dos russos com o Ocidente, passo enorme para a bolchevização do mundo, mostram essa iminência
 
Seria suficiente pensar na tentativa de reconciliação dos russos com o Ocidente, através de uma manobra para fazer uma civilização semi-comunista e semi-burguesa, que é um passo enorme para a bolchevização do mundo inteiro,  e pensar no Concílio, para vermos como esse perigo é iminente, como está a pique de criar uma situação à qual ninguém resista.
 
4 - Se a Revolução é um auge de negação, nõs somos um auge de totalidade
 
Então, no mal que combatemos, temos:
           
A - Um auge de maldade, um auge de universalidade, um auge de iminência.
 
Isso define:
 
B - O auge de bem, de grandeza, de importância, de santidade do apostolado e da luta que nós empreendemos.
 
Portanto, se a Revolução é um auge de negação, nós somos um auge de totalidade.
 
5 - Como a Revolução, através do conhecimento da opinião pública, está  levando o mundo, como um todo, para o mal...
 
A Revolução perde a sociedade como um todo - e, através dela, as almas - porque conhece a doutrina da Opinião Pública.
 
A - A Revolução considera a sociedade humana como uma sociedade de almas     formando uma opinião coletiva, admitida como certa, e que, sobre elas exerce efeitos tirânicos
 
Quer dizer, ela toma a sociedade humana e considera-a como uma sociedade de almas, isto é, como almas que, em contacto umas com as outras, sacrificam um pouco de sua opinião individual formando, subconscientemente, orgânicamente, uma opinião coletiva - uma super-estrutura de opiniões, uma média de opiniões - que é admitida como certa, e que exerce efeitos tirânicos sôbre os que a admitem.
 
a - A imensa maioria se deixa subjulgar pela Opinião Pública
 
Isso, primeiro porque o homem tem uma tendência natural - e até certo ponto legítima - de concordar com a opinião pública, pois não tem segurança a não ser na opinião coletiva. (Ele se sente muito fraco para estar seguro numa opinião puramente individual. É necessário ser um homem muito excepcional para poder se opor à opinião de todos. A imensa maioria, a quase totalidade, como que se deixa subjugar por falta de segurança individual).
 
            b - Porque ela sanciona com o ódio os que dela divergem
 
Depois, porque, para os travessos do jogo, há sanções. Todo mundo sanciona com o desprezo, com o ódio, quem quebra esta espécie de unanimidade necessária para tentar formar uma opinião própria, seguir uma escola própria. Ou seja, a opinião pública castiga com sanções imensamente vivas, finas e doloridas os seus apóstatas. De tal maneira que isto se aplica até capilarmente. O menor hominho que faça, na menor aldeinha, uma violação ao dogma coletivo, sofre a sanção consuetudinária.
 
Em consequência, por medo ou por covardia, as pessoas cedem diante da opinião pública.
 
B - A Contra Revolução, para conduzir a sociedade humana para o bem, tem que usar também a "arte real" 
 
a - Esse processo de condução da opinião pública é passível de ser reduzido a regras. A "arte real".
 
O processo pelo qual as pessoas elaboram uma opinião coletiva, e a partir dela se deixam dominar pelo bem e pelo mal, é susceptível de ser estudado e reduzido a regras, ou pelo menos a um grande número de regras.
 
E há uma arte de sentir esta opinião pública e de perceber seus movimentos, a que chamamos com uma propriedade um pouco discutível, de "arte real".
 
b - Ela permite a um grupo pequeno dirigir a opinião pública, que tem movimentos de alma como de um indivíduo, mas em anos ou séculos.
 
Ela permite a um grupo como o nosso o dirigir a opinião pública. E dirigí-la tratando-a como se fosse um só indivíduo. Porque, é curioso, esta opinião pública assim constituída, tem todos os movimentos de alma que existem num indivíduo: ela quer, ela não quer, ela hesita, ela se irrita, ela se impacienta, ela se cansa, ela se distrai, ela se sacia, exatamente como um indivíduo. Com a diferença de que, aquilo que o indivíduo realiza em minutos, ela realiza em anos, ou, talvez, em séculos.
 
Então,  precisamos conhecer as doutrinas da opinião pública e portar-nos face a ela como um diretor espiritual se porta face a seu penitente: conhecê-la a fundo, modelá-la, atuar sobre ela e, através dela, sobre os outros indivíduos. Essa é a nossa missão.
 
Quer dizer, nós somos como que diretores espirituais, não de milhões de almas, mas dessa espécie de alma das almas (a expressão é muito má), desse ponto de encontro de todas elas.
 
Aí se compreende as devidas proporções de nosso apostolado.
 
C - "Fazemos apostolado individual?" Só para obter elementos necessários para nossa ação
 
Alguém poderia perguntar: "Nós fazemos ou não apostolado individual?" Nós, de fato, fazemos apostolado individual. Mas o fazemos para trazer almas para o Grupo e assim adquirir elementos necessários para exercer essa ação, e não propriamente para fazer essa outra ação individual, imensamente preciosa, mas de um alcance indiscutivelmente menor. Ou seja: nós formamos um grupo para que ele atue sobre a sociedade, e esta sobre os indivíduos.
 
a - Assim, um Grupo na Guiana, não teria por finalidade a criação de outros grupinhos no país, mas de agir sobre a opinião pública
 
A finalidade de um Grupo na Guiana, por exemplo, não seria a de constituir 500 mil grupos lá, enchendo o país de grupos. A finalidade seria a de, uma vez constituído um grupo, agir sobre a opinião pública por meio de interpelações, e por estas paralizarem, na mente dos indivíduos, o processo revolucionário. Atuar, então, sobre a opinião pública como um todo, e, através da ação sobre a opinião pública, agir sobre os indivíduos.
 
D - Essa é uma sócio-psicologia cujas leis auxiliam a suspender e anular um processo e iniciar outro diferente
 
É verdadeiramente uma sócio-psicologia com o auxílio de cujas leis nós fazemos pressão para suspender e anular um processo, e iniciar um processo diferente.
 
E - Desde que a Revolução inventou esse processo diabólico, temos que utilizar o mesmo meio para conduzirmos nós a opinão pública
 
A partir do momento em que a Revolução inventou esse meio diabólico de ação, por onde, de fato, ela destruiu a Cristandade,  nós temos que tomar esse mesmo meio para o conduzirmos nós.
 
F - Isso significa um auge no estilo de combate, de pontaria certeira, de eficência, de velocidade, e incisão na ação
 
Os Srs. estão vendo que isso significa um auge também no estilo de combate. É um auge de pontaria certa, de eficência, de velocidade e de incisão na ação.
 
G -  Que nos diferencia fundamentalmente dos que nos têm precedido...
 
Neste ponto nós nos deparamos com uma diferença fundamental entre as visões e as concepções da Contra-Revolução e a da obras de apostolado, mesmo santíssimas e boníssimas, que nos têm precedido.
 
Não vamos comparar nossas pessoas, mas comparar finalidades:
 
a - Houve, antes de nós, gente que obrou coisas maravilhosas, e de quem não somos dignos de desatar as sandálias
 
Antes de nós, exceção feita daquela gama de São Paulo e da primeira expansão do Evangelho de que falamos, encontramos gente que fez coisas magnificíssimas, gente que visou coisas verdadeiramente maravilhosas. Comparados com elas, como pessoas, não seríamos dignos de lhes desatar as sandálias dos pés.
 
b - A obra de conduzir a opinião pública, entretanto, não foi pedida a fortes, mas concedida a fracos que devem ser tratados com a misericórdia dos fracos porque são um epílogo
 
Porém, a obra, que nos foi cometida por Nossa Senhora, foi cometida aos fracos que devem ser tratados com a misericórdia dos fracos. Isso porque nós representamos um epílogo.
 
Eu não deduzo, portanto, que nós devamos ser gigantes, porque se deduzisse isto, viciaria pela base o simpósio. A obra que foi dada aos fracos é a de fazer essa coisa espantosa que não foi pedida aos fortes.
 
H - A maioria dos que nos precederam concebiam o apostolado como o atuar nas   almas individualmente consideradas
 
Na maior parte de todas as coisas que nos têm precedido, o apostolado era concebido como o atuar sobre as almas, mas estas  individualmente consideradas.
 
a - Mesmo Cluny e a Companhia de Jesus, que faziam algo do que fazemos, visavam o apostolado individual
 
No apostolado de Cluny, e depois, no da Companhia de Jesus, por exemplo, foi realizado algo do que nós realizamos, mas por uma espécie de velocidade segunda e meio subconscientemente.  Entretanto, mesmo aí, tanto quanto pude ver pelo que tenho lido (que não é grande coisa, mas alguma coisa é, e daria para perceber) o objeto próximo do apostolado eram pessoas. Pessoa... pessoa... pessoa: "atingindo-se cem mil pessoas, atinge-se então uma sociedade humana".
 
Em outros apostolados, eu não vejo traço desse algo senão de um modo tão fino, que  é quase difícil de ser percebido.
 
b - A Idade Média nasceu assim: os beneditinos fizeram apostolado com as pessoas, e estas influiram na sociedade temporal
 
A Idade Média nasceu assim. Os beneditinos, única ordem religiosa existente no começo da Idade Média, fundavam conventos, que formavam pessoas. Essas pessoas eram movidas pelo seu instinto católico, pela doutrina que recebiam do púlpito, no confessionário, no contato com o clero, etc... etc. Daí nasciam os reis católicos, os príncipes católicos, os artistas católicos, os intelectuais católicos, os guerreiros católicos, as pessoas que catolicizaram a ordem temporal medieval que nós admiramos tanto.
 
c - Esse apostolado continua indispensável; mas, desde que a Revolução fez o que fez, devemos agir também como ela age 
 
Nós afirmamos que esse método de apostolado continua indispensável. Não se pode nem pensar em alguma coisa, nessa linha,  que não seja feita por essa forma.
Entretanto, nós afirmamos que, depois que a Revolução fez o que fez, é necessário que se faça o que nós fazemos também.
 
d - o que representa em relação ao anterior um progresso como o do avião em relação ao carro de boi, permitindo-nos compreender porque e no que somos diferentes, e o valor dessa diferença
 
E isso representa um passo enorme em relação ao que fica para trás de nós, como um avião em comparação com carros de boi, permitindo-nos compreender no que é que somos diferentes, porque é que somos diferentes, e qual é o valor dessa diferença.
Depois, uma vez descoberto, este nosso tipo de ação deverá durar até o fim do mundo. É um princípio definitivo.
 
I - E arquitetonicamente fazendo de nosso auge a humilhação do demônio
 
a - Seria impossível a um pequeno grupo, sem o Grand Retour, atingir o demônio num ponto vulnerável  se não fosse através da arte real
 
Os fiéis foram reduzidos a tão poucos que, ou haveria na ordem das coisas, um ponto por onde tão poucos pudessem vulnerar o inimigo, ou a luta seria impossível sem um Grand-Retour. Com o número atual de fiéis, a luta seria impossível. O único meio é haver um ponto, na ordem do real, por onde poucos possam alterar muito.
 
Então, se compreende porque é que a Providência semeia tantos grupinhos por toda parte. E porque esses grupinhos, agindo neste ponto sensível, podem de fato atormentar o gigante.
 
b - Nós, uma liquidação de época, uma capengada, um fim de linha da Cristandade do ponto de vista psíquico e mental, somos o calcanhar que recebe o impulso da Virgem para esmagar a cabeça do demônio
 
Nossa Senhora vai esmagar o demônio na cabeça, quer dizer, no auge dele. No ponto onde ele é esmagado, o é por inteiro.  A Escritura fala expressamente do calcanhar de Nossa Senhora. Ou seja, dessa parte humilde, humílima do corpo, a última em algum sentido da palavra, que toca diretamente no chão, que não tem a nobreza da fisionomia nem a destreza dos dedos nem um pêso próprio, senão do pé que Nossa Senhora deita por cima dele, mas que toca o demônio.
 
             c - Nós que somos o auge do último, pisamos assim o auge da eficácia
 
Então, nós, que somos uma liquidação de época; nós, que somos uma capengada; nós que além de capengada, somos o fim de linha da Cristiandade do ponto de vista psíquico, mental e de capacidade, nós somos o calcanhar que é o fim de linha do corpo. E nós, que somos o auge do último, pisamos no auge da eficácia, no auge do perigo, no auge de adversário.
 
Aqui está a vitoria da humildade de Nossa Senhora por meio de instrumentos muito pequenos.
 
Está escrito de Nosso Senhor que Ele vai destruir o Anti-Cristo com o sopro da boca. E é assim que Deus luta contra o demônio. Porque Deus não vai lutar contra ele numa luta nobre: o demônio se levantando, e Deus manifestando Suas fôrças. Não. Quando Ele quer esmagar o demônio, Ele o faz recolher-se à sua insignificância de um modo humilhante.
 
E nós vencemos não com o sopro da boca de Deus, mas é com o peso do calcanhar de Nossa Senhora neste zero, neste último fraco que somos nós. É com isto que vencemos.
 
d - E assim participamos do que há de auge n'Ela. Nesse sentido somos um auge dos auges
 
Na Escritura há a expressão mons supra montem positus  que se aplica a Nossa Senhora. Um monte colocado por cima de todos os outros montes e que é o monte arquitetônico de todos os montes possíveis.
 
E assim nós, de algum modo nós, e ainda que seja na nossa condição de mero calcanhar, como filhos de Nossa Senhora, com nossa fraqueza,  nossas misérias, com nossa capenguice, debaixo de um certo ponto de vista, trapos humanos afinal, - e eu acrescento mais: com a nossa pouca correspondência, que nesta visualização tem que ser vista com paz e amorosamente, sem indolência, com o desejo de melhorar, mas enfim que tem que ser vista - nós participamos disso de augico que há n'Ela.
Nós somos, nesse sentido, um auge dos auges.
 
J - Para o aprofundamento da vocação e a consequente riqueza da ação
 
a - O aprofundamento no conhecimento e no amor à Vocação importarão no  aprofundamento do modo mais excelente da ação, que ganha em riqueza substancial
 
Isso vem muito a propósito porque, a partir do momento em que se tiver a idéia conjunta do que seja nossa vocação, essa idéia passa por sucessivos aprofundamentos. Estes, por sua vez, importarão num aprofundamento do conhecimento da vocação e do amor a ela. Portanto, no aprofundamento também do modo mais excelente de fazer as coisas que dizem respeito à vocação. Desse modo toda nossa ação pode ganhar em riqueza substancial.
 
Pois, quanto mais a ação se ajusta à sua finalidade, quanto mais ela se ajusta ao seu espírito, naturalmente tanto mais rica ela é no melhor sentido da palavra rica.
 
Quer dizer, rica, em primeiro lugar, de riqueza sobrenatural, porque, quanto mais nós estamos fazendo a vontade de Deus e de Nossa Senhora, tanto maiores são as graças. Rica também de riqueza natural porque aquilo que é feito com muita consciência do fim, naturalmente lucra, torna-se muito mais exímio com direção ao fim.
 
Ver a Causa, proclamar o futuro e não fazer do "unzinho" um santinho.
 
Aspecto positivo do nosso fim: implantar o Reino de Maria
 
Nós vimos o que somos em função do fim que visamos, em seu aspecto negativo,  que é a derrubada da Revolução, e toda bondade desse fim. Devemos agora ver, em seu aspecto positivo, a bondade de nosso fim. 
 
1 - Visamos a organização do mundo com base nos princîpios da rcr levados as últimas consequencias. Isto é, uma super idade média
 
O que visamos no lado positivo, é a organização do mundo inteiro com base nos princípios contra-revolucionários. E queremos que a aplicação desses princípios chegue até as suas últimas consequências, isto é, ao seu auge.
 
A - Para isso, partir de uma base mais radicalmente ela própria, do que o auge que a Idade Média atingiu em seu apogeu.
 
Isso equivale a dizer que nós queremos ter uma ordem de coisas em que os princípios da Contra-Revolução tenham um dinamismo, uma radicalidade, maiores ainda do que na Idade Média.
 
Seria errado, portanto, dizer que queremos construir uma nova Idade Média. Nós somos muito mais ambiciosos: não só queremos fazer aquilo que a Idade Média não fêz, mas queremos partir de uma base ainda mais dinâmica, ainda mais rica, ainda mais radicalmente ela própria do que o auge que a Idade Média realizou em seu apogeu.
 
a - Algo portanto que esteja para a Idade Média como para ela está o que foi de Constantino até seu início.
 
Nós não somos, portanto, como alguém que toma um edifício que estava sendo construído e que foi derrubado depois pelos adversários, e, com base em alguns fundamentos que ainda ficaram, reconstrói e completa o edifício antigo. Não. Para dar uma idéia da coisa, nós queremos uma "Idade Média" que esteja para a Idade Média como para esta esteve a era que vai entre Constantino e o seu começo.
 
Vamos nos exprimir assim: nós queremos ser para o gótico, o que este é para o romano... e ainda mais do que isto, porque dito isto ainda não está dito tudo.
 
b - Portanto até o último fim e radicalidade concebíveis de todos os princípios contra-revolucionários. O auge assim é nosso clima próprio.
 
Isso é o que propriamente nós queremos.
Logo, um auge.
Logo, o auge é o nosso clima próprio.
 
B - Esta super Idade Média será o último auge possível do bem antes dos tempos que precederão o fim do mundo. Portanto, o Reino de Maria.
 
A razão pela qual afirmamos isto é uma razão que está dada na RCR. Limitamo-nos a lembrá-la muito rapidamente.
 
a - Todo ato de virtude ou de maldade quando praticados, provocam na História um duplo movimento: tudo é corrigível, tudo é irreversível
 
Quando uma pessoa comete um mal, um pecado (como também no sentido positivo quando ela pratica uma ato de virtude) há na História um duplo movimento: de um lado tudo é corrigível; de outro, tudo é irreversível. E nós não compreendemos bem o movimento da História se não tomamos em consideração essas duas forças.
 
Vamos dizer, por exemplo, que um de nós faça uma ofensa a um amigo. Se é uma ofensa grave, uma ofensa séria, uma vez feita, ela o está para todo o sempre. Ela pode até ser corrigida, até pode ser compensada, mas está feita.
 
b - Tudo é corrigível na linha da reparação; mas tudo é irreversível porque, um ato, uma vez feito, não pode ser mais recolhido
 
O modo de corrigirmos a ofensa é, nós, para com aquele amigo, no ponto em que o ofendemos, até o resto dos nossos dias sermos mais corteses, mais atenciosos, mais amáveis do que em todo resto do nosso trato. É o aspecto pelo qual o mal é corrigível.
 
Agora, ele é irreversível, não no sentido de que não seja mais perdoado, mas no sentido de que continua a projetar suas consequências. E pode até vir a ser um gerador de bem, de um bem mais grosso, de um bem de mais alta qualidade. Isso porque, ou naquele ponto em que nós fizemos a ofensa, nós nos tornamos mais corretos do que antes, ou não restabelecemos a ordem anterior.
 
c ─ Onde houve um mal, ou há uma superação de bem maior, ou a ordem e a justiça não se restabelecem.
 
Há aqui, portanto, uma espécie de dupla reversibilidade e irreversibilidade. Elas supõem sempre o princípio de que, onde houve uma queda, onde houve um mal, onde houve um erro, ou há uma superação de bem maior do que nos outros pontos, ou a ordem verdadeiramente não se restabelece. E isso tanto na linha da justiça como na linha psicológica.
 
Isso porque o pecado, uma vez cometido, deixa, em quem o praticou, um fundo de atração, de pendor, de conaturalidade com o ato praticado, que supõe uma extirpação.
E esta extirpação, ou é uma extirpação mais radical, de maneira que aquelas raízes de pecado ficam protegidas, ficam abafadas, ficam contrariadas pela muralha de uma virtude mais perfeita, ou se cai de novo no pecado.
 
d ─ Exemplo da contrição de S. Pedro: ou esta era maior que a negação, ou ele cairia outra vez.
 
Por exemplo, a contrição de S. Pedro. Se o pecado de S. Pedro foi 100, a sua tristeza - para falar grosseiramente em termos de números - terá sido 1.000; porque, do contrário, ele teria caido no pecado novamente. Essa regra é clara por si.
 
Outro exemplo é Santo Agostinho. O amor de Santo Agostinho à Igreja e à santidade foi muito maior do que foi seu péssimo apego à heresia e à vida corrupta.
 
e - Portanto, uma vez cometido o pecado de Revolução, é preciso que, nos pontos em que o foi, haja uma força e um vigor muito maiores na linha do bem. Por isso o Reino de Maria tem que ser muito mais do que a simples continuação da Idade Média.
 
Portanto, tendo sido cometido o enorme pecado da Revolução, é evidente que é preciso que, naqueles pontos em que houve Revolução, haja muito mais força, muito mais vigor, muito mais solidez, do que havia antes. Tanto mais força, tanto mais vigor, quanto foi enorme a ruptura. Meça-se o tamanho da ruptura, e fica medido o tamanho da força e do vigor que é necessário para por as coisas nos seus devidos termos.
 
Daí se entende também que o Reino de Maria, ou não existirá, ou terá um vigor, uma solidez que ele não teria na simples continuidade da Idade Média.
 
             f - Assim como um osso se torna mais forte no lugar partido
 
Eu me lembro que na RCR eu uso uma imagem tirada de medicina. Eu consultei sobre isso um médico, que me confirmou a coisa: um osso trincado, no ponto em se solidifica, fica mais grosso e resistente do que era antes.  E isto é um símbolo natural dessa exigência da ordem das coisas, no sentido da justiça, e na ordem das coisas no sentido da psicologia, da formação espiritual e da boa prudência na direção de um homem na sua vida.
 
Então, não é uma afirmação no ar, não é uma espécie de exagero de fervor, mas uma coisa inteiramente racional dizer que nós caminhamos para uma ordem de coisas superior à Idade Média.
 
g - Depois da negação da Revolução, só temos uma reparação possível: chegar ao último auge, à última perfeição, à ordem perfeita, ao Reino de Maria
 
Depois da negação da Revolução, nós só temos uma reparação possível: chegar ao último auge, à última perfeição, à ordem perfeita, ao Reino de Maria. Pois, como praticamente o pecado que se cometeu é o maior que se possa cometer depois do deicídio, a virtude que tem que vir é a maior virtude. E a ordem de coisas que disso deve advir, a melhor de que se possa ser capaz.
 
De maneira que a afirmação de que nós caminhamos para o Reino de Maria - ela tem outras provas em textos de S. Luís Grignion, em revelações de santos, etc... - poderia basear-se muito bem apenas neste princípio da irreversibilidade da História e da exigência da psicologia humana de um maior repúdio ao pecado cometido.
 
Há portanto  duas teses :
 
1 -  Nós teremos que ser melhores do que a Idade Média;
2 -  Como isto aqui é tão ruim que pior só vai ser o pecado do fim do mundo, a virtude que vai vencer isto tem que ser uma virtude tão grande que maior do que ela só a virtude dos homens que viverem nos dias do Anti-Cristo.
 
Não se trata, pois, de dizer que é um sonho, ou que cinco ou dez pessoas se sentaram em tôrno de uma mesa, começaram a pensar e depois disseram: "Eu quero isto", como poderia ter sido outra coisa como por exemplo montar uma idiotice qualquer. Não. Não é isso. É que, ou o mundo acaba, ou tem que ser isto. 
 
h - Isso não sucederá porque queremos. Mas queremos porque isso é que tem que ser feito por uma exigência da História.
 
Isto não vai ser feito porque nós queremos. Mas nós queremos porque é isto que tem que ser feito, porque está na ordem da História e dos séculos que isto se faça. Não fomos nós que criamos um plano; nós apenas percebemos que algo deve ser feito e nos propusemos a fazer.
 
Isto é uma coisa que é muito importante ficar bem clara para se escapar de uma espécie de utopismo. Nós queremos evitar o sumo mal e queremos fazer o sumo bem.
 
i - Desses soldados de Nossa Senhora poder-se-á mais propriamente dizer: "nunca tantos deveram tanto a tão poucos"
 
Quando penso naquele misto de gigante e de palhaço que foi o Churchill, penso exatamente no punhado de soldados de Nossa Senhora, porque, aí sim se poderá dizer: "Nunca tantos deveram tanto a tão poucos".
 
 2 - Logo, nõs somos os Apõstolos dos Últimos Tempos
 
Se nós estamos em ordem ao Reino de Maria, nós somos os Apóstolos dos Últimos Tempos que deverão implantar triunfalmente o Reinado de Nossa Senhora na terra, pois "Reinado de Nossa Senhora" é igual a "Últimos Tempos".
 
Essa consideração é uma consideração muito séria. Mas ela é também uma consideração muito firme. E oferece muito fundamento. Para compreendermos o que queremos isto é muito importante.
 
A.  Na linha do profeta Elias, o último fiel, para as últimas fidelidades
 
                        [Trecho defeituoso no xerox original]
 
B - Crescendo a Igreja sempre em fidelidade, a dos últimos fiéis seria tão grande que eles seriam dispensados da morte .
 
A Igreja, nos seus elementos fiéis, está continuamente crescendo. Sua santidade vai crescendo até o fim do mundo, apesar de todos os males que os homens façam.
 
Se isto é verdade, ao cabo desse crescimento no Reino de Maria, pode-se imaginar a fidelidade dos últimos fiéis, que serão dispensados da morte pelo extremo de sua fidelidade, e assistirão vivos ao Juízo Final.
 
Quer dizer, há uma certa lógica -  mas já não tão férrea, mas, enfim... - uma certa lógica em dizer que depois disso virá o Fim dos Tempos. Ou seja, a ultimíssima santidade, em que a Igreja como que se esgota a si mesma.
 
C - E aí aparecerá o Profeta Elias, tão grande em virtude quanto o Anti-Cristo o será no vício
 
E aí aparece, então, na Terra, aquele homem privilegiado entre milhões que é o profeta Elias. Um santo marcado ainda pela penumbra do Antigo Testamento, ao qual foi dado, junto com Enoch (ele também tão misterioso que dele quase não se sabe nada) esse dom de ser o precursor dos devotos de Maria, e, portanto, dos Apóstolos dos Últimos Tempos. De ser também o Patriarca de todos os fiéis na devoção de São Luís Grignion de Montfort, assinalado por um destino, por uma vocação como nunca nenhum homem teve, que nem se pode imaginar.
 
Como o profeta Jonas, que foi deglutido por uma baleia e depois expelido por ela, Elias foi raptado por um carro de fogo e  levado para algum lugar ignorado para, no fim do mundo, voltar e lutar contra o Anti-Cristo.
 
Elias é em tudo simétrico ao Anti-Cristo. Portanto, tão grande na virtude como o Anti-Cristo no vício.
 
D - Que em certo sentido, é maior mesmo que S. José, S. João Batista, S.Pedro, etc., pois foi precursor deles na devoção a Nossa Senhora, e Seu predileto antes mesmo de Ela nascer
 
Para se ter uma idéia do que é o profeta Elias, damos uma coisa que verdadeiramente desconcerta. A missão de São José foi uma missão maravilhosa. Afinal pensar-se no que é Nossa Senhora, no alguém ser esposo d'Ela... não se pode dizer mais! A missão de São João Batista é uma missão admirável: é a daquele que prepara o caminho do Messias. De algum modo também não se pode dizer mais!... A missão de São Pedro, primeiro Papa... de São João, o Apóstolo do amor... etc., etc., etc.. Está bem: todas essas missões podem ser extraordinárias; entretanto, debaixo de um certo ponto de vista, da piedade para com Nossa Senhora, ponto cuja importância conhecemos, a missão do profeta Elias é, de algum modo, mais extraordinária. Isso  porque ele foi um precursor de São José, de São João Batista, de São Luis Maria Grignion de Montfort.
 
E - o fiel por excelência, para a hora das últimas fidelidades
 
Elias é o homem fiel por excelência, de uma fidelidade, por assim dizer, única, guardado em algum lugar para a hora das últimas fidelidades.
 
É uma coisa verdadeiramente em que uma pessoa se abisma! Só não se compreende como é que nós não rezamos mais para ele, para esse supra-sumo de fidelidade e de predileção! O predileto de Nossa Senhora antes d'Ela nascer! É uma coisa de estontear: Ela não tinha ainda nascido e ele já era o Seu predileto!
 
 Esta visão, que é um estudo dos dados proféticos da visão da História, nos faz entender em que linha nós nos inserimos. 
 
E desde já, prenuncia uma relação especial de nós com o profeta Elias. Mais uma vez, o auge.
 
3 - Para dar glõria a deus (primeiro mandamento)
 
A - Se o valor de uma só alma é um bem inapreciável, que se dirá do trabalho que vise orientar a Opinião Pública, que tem tanta influência na salvação das almas?
 
A salvação das almas é um bem inapreciável. Nosso Senhor teria sofrido tudo quanto sofreu, Nossa Senhora teria sofrido tudo quanto sofreu, ainda que se tratasse de remir uma só alma! Por aí a gente compreende o valor de uma só alma.
 
Ora, se é tão inapreciável o valor de uma alma, o que dizer do apostolado que consiste em orientar aquela espécie de opinião pública, que tem tanta influência sobre a salvação de todas as almas? Dessa opinião pública que não é a salvação de uma alma, mas o é do conjunto das almas?
 
Não que seja automática a salvação de cada alma quando a gente salva a opinião pública. Não que seja também automática sua perdição quando a gente não a salva. Pois as almas têm seu movimento individual e a graça suficiente para tomar uma posição individual.
 
Mas, de que importância ser essa ação para o domínio desse processo que põe em movimento um fato para o qual estão ordenadas graças de uma superior qualidade, e que são as graças enquanto dadas às nações, aos grupos, etc...!
 
B - Porém, mais do que a salvação das almas, queremos a maior glória de Deus. E não entende a Contra-Revolução quem pensa o contrário.
 
Pois bem, isto não basta para nós entendermos o valor de nosso apostolado. Com efeito, não entende a Contra-Revolução quem pensa que essa coisa é principal. O bem da sociedade humana e da salvação das almas é um bem preciosíssimo. Entretanto um "preciosíssimo" perfeitamente secundário.
 
Quer dizer, no nosso espírito está uma coisa muito mais alta do que isto: a glória de Deus! Gloria Patri... et nunc..., isto é, agora. Mais do que a salvação das almas, nós  queremos a glória de Deus.
 
Por quê? Porque nós não fazemos nossa obra por uma espécie de filantropia sobrenatural para que as pessoas deixem de ir para aquela pensão eternamente incômoda, chamada inferno. Não.  Nosso principal fim é a glória de Deus.
 
Eu confesso o seguinte: eu não teria coragem de fazer todo sacrifício que faço e de me escalpelar como me escalpelo, se fosse apenas para que as almas de uns tantos indivíduos que pecaram não vão para o inferno. Pois eu diria: "meu caro, eu lhe aconselho, proponho, você quer ir para o inferno apesar de tudo? Vá! Não me atormente. Eu já faço muito e não vou agora me pôr em sangue por sua causa! Você tem idade, siga seu caminho! Quer perder-se? Olhe, a corda de Judas se encontra à venda também em Taubaté! Compre-a e enforque-se! Em qualquer lugar há figueira para você se enforcar! Está acabado e não me amole!"
 
Agora, por que um esforço que não acaba mais, um sacrifício que não acaba mais, uma dedicação que não acaba mais, o emprego de meios que trituram, para conseguir aquilo que se deve conseguir?
 
É porque está em jogo algo que vale muito mais do que eu e do que qualquer homem nesta terra, e que é a glória de Deus.
 
C - "Glória de Deus" aqui é aquela forma de amor por onde é absolutamente preciso que tudo o que Ele criou se assemelhe a Ele
 
O que é aqui "glória de Deus"? É aquela forma de amor de Deus por onde é absolutamente preciso que aquilo que Ele criou se assemelhe a Ele. E, nisso, lhe dê glória.
 
Santo Tomás diz que a glória da causa consiste em que o efeito reverta para ela, volte-se para a causa. Então, a glória de Deus no universo é que todas as criaturas inteligentes se assemelhem a Ele. Uma vez que as outras já se assemelham e não tem remédio, as inteligentes é que nós queremos, por amor a Ele, que se Lhe assemelhem, e compreendendo que se obedece aí a uma necessidade jurídica e ontológica absoluta, a uma verdadeira imposição. Tem que ser assim e não ha escapatória, porque com os direitos de Deus é assim.
 
D - Há, portanto, um requinte de auge no levar, por amor à glória de Deus, a  arquitetonia das criaturas a dar-Lhe glória
 
Que auge, então, por amor da glória de Deus, levar, não as criaturas individualmente apenas, mas a arquitetonia delas (pela sua opinião pública) a dar-Le glória!
É um requinte de auge!
 
4 – E comandar os séculos futuros pois o mundo será nos prõximos séculos o que for neste
 
Dentro desse auge, encontramos um outro auge. É que nós estamos numa época da História, num século, que comanda outros séculos.
 
O mundo vai ser, durante séculos, aquilo que nós formos neste século de Bagarre, de decisão. De maneira que são séculos de salvação ou de perdição, séculos de glória de Deus nesta Terra que dependem do que agora se fizer. E tantos séculos que a gente se pergunta se isso não vai diretamente até o fim do mundo... E tudo indica que sim.
 
5 - Numa hora em que, não podendo crucificar novamente nosso senhor, atentam contra a Santa Igreja procurando dar a idéia de que ela morreu
 
Nesta hora histórica em que estamos situados, de fato, se está passando a coisa mais parecida possível com a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
 
Uma vez que Nosso Senhor Jesus Cristo, em sua Humanidade Santíssima, é imortal, está sentado à mão direita de Deus Padre, e não pode mais ser atingido pela maldade dos homens, qual é o crime que é possível a eles perpetrar? É o de matar a Igreja Católica, evidentemente.
 
A - como a Igreja não é mortal, procuram adotar uma linguagem e uma legislação que dêem a impressão de que Ela está ensinando o erro e recomendando o mal
 
Como a Igreja Católica, por sua vez, não é mortal, qual o maior crime que se poderia cometer contra Ela? Seria o de dar a impressão de que Ela morreu.
 
Pois bem, é isto que se está fazendo: como, em nome d'Ela não se pode ensinar o erro nem o mal, então, procuram adotar uma linguagem que dê a impressão de que Ela está ensinando o erro, uma legislação que dê a impressão de que Ela está recomendando o mal, de maneira que se tenha a impressão de que aquilo que é mesmo a Igreja Católica morreu dentro da Igreja Católica, e que uma realidade nova se substitui a Ela. É isto que se está fazendo. 
 
B - Crime hediondo como o de destronar uma rainha e maqueá-la como mulher perdida
 
É a mesma coisa que tomar uma rainha, agarrá-la à força e fazer em seu rosto uma maquilagem de mulher perdida.
 
O que se está fazendo é um sacrilégio. Crime pior não pode haver. Mesmo a profanação do Santíssimo Sacramento - que é um crime sem nome - não é um crime tão atroz como este, porque este traz consigo também a profanação do Santíssimo Sacramento. Com efeito, quantas e quantas profanações são feitas por mãos sagradas, que, de um modo ou de outro, pactuam com este desígnio!
 
C - Com a agravante de que o pior está sendo praticado pela traição eclesiástica
 
E o pior é o seguinte: este crime não está sendo praticado sobretudo pela violência do adversário. Está sendo praticado sobretudo pela traição, o que é uma infâmia dentro da infâmia. Não há dúvida que Pilatos, enquanto pró-consul romano, cometeu uma infâmia condenando Nosso Senhor à morte. Mas ele era um pagão, era um filho das trevas. Pior do que ele foram os do Sinédrio, que representaram a Sinagoga, e que traíram a sua missão. É claro. Mas pior ainda do que a Sinagoga foi Judas, que era um dos doze, pois ele traiu mais de perto a Nosso Senhor.
 
Ora, o grosso do crime que se está perpetrando, o está sendo com base na traição. E na imensa traição eclesiástica, e aplaudida muitas vezes por eclesiásticos que não participam ativamente dela.
 
D - Com a indiferença dos que não participam do crime
 
Ainda pior, porém, não é isso. É a indiferença dos eclesiásticos que não aplaudem - há muitos que não o fazem - mas que continuam a comer, beber e dormir como se não tivessem nada com o caso. Preocupam-se com o rádio, a lambreta ou sei lá o que... e deixam as coisas correrem.
 
E - Enquanto que, na ordem temporal, a traição é também cometida pelas cúpulas  podres
 
Simétricamente, na ordem temporal, também a traição está sendo feita por aqueles que a deviam representar.
 
Nós notamos em primeiro lugar, a defecção geral das aristocracias. Elas cometeram a ingratidão multiplicada pela ingratidão. Deus as encheu de benefícos, e elas não agradeceram. E  vivem contentes na sua decadência.
 
A mesma coisa se dá com as famílias tradicionais de países que não tiveram aristocracia, como a Argentina, o Brasil e companhia...
 
Nós temos, então, especialmente a traição das cúpulas podres. Quem quer a Reforma Agrária são as cúpulas rurais. Quem quer a Reforma Industrial são as industriais etc... É uma forma de suicídio.
 
Outra forma de traição é a DC.  Ela é um aparelho de estrangulamento da Civilização Cristã, com o nome de cristão.
 
F - É uma renovação da Paixão diante da qual a vidinha de todos os dias perde toda sua importância, pois o senso do trágico permanente deverá se tornar uma característica permanente do nosso espírito
 
Em suma,  o fundo de quadro é o de quem está assistindo à renovação da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo no seu modo mais agudo e mais exasperado possível, e perto da qual a vidinha de todos os dias perde sua côr.
 
Os Srs. vêem com que cuidado nós procuramos instalar nossas sedes, a fazenda [Morro Alto, onde se realiza o simpósio], organizar a nossa vida, cuidar dos nossos negócios, etc... etc... Isto tudo nós consideramos que deve ser feito num espírito de suma presença da tragédia pela qual nós estamos passando. Se isto for feito com espírito de acomodação, é uma verdadeira perdição.
 
Por exemplo, imaginar a fazenda: "que coisa gostosa! Que panorama! Vou comer pato, depois leitão... vou me refocilar nisto, naquilo"!!! É uma abominação. Porque tudo tem que ser visto como quem está presenciando a imensa tragédia que foi a Paixão de Nossos Senhor Jesus Cristo. Esse senso do trágico permanente  é e deve ser uma das características de nosso espírito.
 
G - Isso supõe a vitória sobre nosso próprio egoismo
 
Como isto é diferente da brincadeira! Como supõe sobretudo uma grande vitória sobre o egoísmo!
 
E o que é o egoísmo aqui? É isto: "eu sou fulano de tal, eu tenho meus direitos,  minhas  aspirações são os prazeres que a vida pode  me  dar. Desejo, enfim, aquilo que um homem pode aspirar na sua existência".
 
Acontece, porém, que nascemos numa época em que, mais do que em qualquer outra época da História, Nosso Senhor Jesus Cristo está sendo crucificado, em que tudo quanto é meu, tenho que renunciar por causa d'Ele. E em que, portanto, eu não posso ter um momento de prazer nem de repouso em que não tenha presente em meu espírito, como fato dominante, que Ele está sendo crucificado, imolado e injuriado. E em que  para mim nada tem importância verdadeira senão lutar para que isto cesse.
 
H - Pois minha vida foi confiscada por Ele
 
Portanto, minha vida foi confiscada. Eu não tenho vida. Minha vida é d'Ele. São os direitos d'Ele, é a causa d'Ele. Enquanto houver esse estado de Paixão, meus prazerezinhos, meus gostinhos, meus arranjinhos, não posso ter em mente minhas coisinhas, a não ser de um modo ultra-secundário, e assim mesmo para a glória d'Ele. E este sentido do confisco de minha vida é o fundo de quadro absoluto, é minha cruz é o fundo de quadro absoluto, «é a minha cruz total e o meu modo de me crucificar com Ele.
 
Portanto, o que eu sou dentro do Grupo, o que os outros acham de mim, o que acham fora, minha familia, minha carreira, vou ser um fracassado da vida ou não, não tem importância, porque estas coisas dizem respeito a uma pessoinha contingente, minúscula, insignificante, e mero ente humano em confronto com Deus. Essa pessoinha se chama fulano de tal como podia chamar-se outro qualquer, porque todos somos nada, pó, cinza. Só Deus Nosso Senhor e Nossa Senhora, são algo.
 
Então, eu tenho que ter a convicção de que estou crucificado, de que renunciei a tudo quanto é meu porque devo renunciar, porque estou vivendo na hora da segunda paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
 
I - O que se diria de um católico que estivesse assistindo a Paixão e quisesse ter um pouco de espairecimento antes do "consumatum est"? Só se responderia com uma bofetada!
 
O que é que os srs. diriam de um católico que está na Via Dolorosa e que vê Nosso Senhor passar, ouve Seus gemidos, recebe o salpico de Seu Sangue, percebe seu cansaço, suas dores mas, como percebe que Nosso Senhor está passando perto e que o caminho para o Calvário ainda é muito longo, volta-se para um botequim e manda servir uma bebida alcoólica, depois joga um pouco, brinca um pouco e diz "na hora do `consumatum est' eu estarei lá. Agora deixa eu me divertir um pouco"?!...
 
De Nosso Senhor disse um dos profetas: "Eu sou um verme e não um homem. Sou o opróbio dos homens e o escárnio de um povo inteiro". Hoje, pode-se dizer o mesmo da Igreja. A verdadeira Igreja está reduzida a um verme. Ela é o opróbrio de todos os homens e o escárnio do mundo inteiro. E dentro dessa Igreja que se arrasta deitando sangue, humilhada, vilipendiada, aos olhos de todo o mundo, o importante para o Sr. Fulano de tal é saber se ele vai ganhar um dinheirinho, se vai comprar um movelzinho bonitinho, se vai arranjar um automovelzinho ou se vai aparecer no Clube com uma roupa bonita para acharem que ele é um senhor importante!
 
A isso só se responde com uma bofetada! Para quem tem senso de fé, só respondendo com bofetada!
 
J - Por isso, até enquanto dormimos devemos ter este fundo de quadro presente
 
E quem não estiver disposto a ter isto estavelmente como fundo de quadro, ou pelo menos a pedir a Nossa Senhora que Lhe dê essa graça, não entende bem o caminho em que entra a Contra-Revolução.
 
Eu não diria que cada participante da luta contra-revolucionária tem isso habitualmente na perfeição que deveria ter. O que quero dizer é que todos deveriam ser assim, e rezar para serem assim. Isto é o que se pede. Isto é o fundamental, pois é nossa Rainha que está sendo maquilada como uma prostituta, que está para ser arrancada do trono. É Nosso Senhor Jesus Cristo que está sendo morto. É diante desta realidade que temos que viver dia e noite. Até enquanto dormimos, isto tem que influenciar nosso sono. Não de um modo nervoso nem histérico, mas de um modo sapiencial, sumamente calmo, tranquilo e sumamente profundo. Assim é que tem que ser.
 
- III -
Traços e Devoções caracteristicas de nosso espírito
 
1 - Os nossos traços característicos
 
A - Tendo a Deus como base, uma noção do bem e do mal, da verdade e do erro levadas até seu ponto último
 
De nosso confronto com a Revolução, já podemos tirar alguns dos traços mais característicos de nosso espírito.
 
O primeiro deles é uma noção - levada até o último ponto - da distinção objetiva entre a Verdade e o Erro, o Bem e o Mal.
 
Quer dizer, há um Deus [sumamente bom e amável, Criador, Pai, Redentor nosso etc.] e nós sabemos como é que as coisas Lhe são semelhantes ou contrárias. É claríssimo.
 
 B - Em tudo, desejo das últimas consequências
 
O segundo é um desejo das últimas consequências e das mais meticulosas, na menor coisa que seja.
 
Por que isto? Porque há um princípio natural que ensina que quanto mais a água cai do alto tanto mais ela tem de ir longe. Quanto mais alto é o motivo donde nós procedermos tanto mais nós temos o desejo das últimas consequências. E como não há mais alto motivo do que o que nos move não pode haver apetite mais tremendo das últimas consequências do que o nosso.
 
C - Com perspicácia, intransigência, iniciativa na luta e pugnacidade
 
a - Perspicácia combativa, intransigência meticulosa e dinâmica
 
Nossa vocação tem a perspicácia do homem que luta. Tem também a intransigência meticulosa, combativa. Pois se é a glória de Deus que está em jogo, a coisa tem que ser feita ali, na chibata.
 
Depois, não é uma intransigência defensiva, mas é uma intransigência que toma a iniciativa, que pula no pescoço do adversário com pugnacidade, isto é, com aquele dinamismo por onde se tem ódio ao mal, ódio ao adversário enquanto mau, vontade de quebrar, de arrasar, de destruir, de liquidar, de acabar com tudo, e que se exprime admirávelmente naquela frase - eu a cito semi-textualmente - "Melhor é morrer do que viver numa Pátria devastada e sem honra".
 
b - diante do que a  chacunnière  é a abominação que intoxica e paraliza
 
Agora, uma pergunta: tem sentido a chacunnière - que tiraniza de modo tremendo e enigmático e que intoxica como ou mais que a cocaína? Tem sentido o prazer da vida privada e pequena, o prazer da vidinha? Tem sentido o amor próprio, o sorvete, o cachorro quente, quando a Pátria está devastada e sem honra? Eu não devo reconhecer que a chacunnière  - como recusa do abstrato, do metafísico, do sobrenatural, em favor do pequeno, do concreto, do material egoístico para minha própria fruição - é uma abominação que me paraliza, me impede a perspicácia, o espírito de luta?
 
C - Amor ao sublime
 
Em todas as coisas que existem, naquilo que o homem é, e naquilo que ele faz, existe a possibilidade de se revelar um aspecto sublime.
 
a - desde a vida espiritual ao formato das vassouras
 
Nós desejamos que  essa possibilidade de manifestação do sublime que há na Terra, seja manifestada desde a vida espiritual até a forma das vassouras.
 
b - Sublime: grau de beleza que tem proporção com Deus
 
Mas, o que é que é o sublime?
O sublime é um grau de beleza que não tem proporção com o homem, mas lhe é superior. Portanto, não é um grau horizontal, igual ao do homem, mas é algo que tem uma proporção com Deus.
 
c - E quanto mais sublimidade se tenha na terra, tanto maior será a manifestação possível de Deus
 
E desde que as coisas, na terra, tenham a maior sublimidade em tudo, isto é: que na sociedade humana se tenha o maior número possível de almas sublimes (o que equivale a dizer a santidade), na arte o maior número possível de monumentos sublimes, na literatura o maior número possível de escritos sublimes, etc... etc..., aí se tem a maior manifestação possível de Deus para os homens. 
 
d ─ O contínuo amor ao sublime é o oposto da apetência da Revolução pelo horrendo
 
E este contínuo amor ao sublime é um dos traços do nosso espírito religioso, em oposição à apetência da Revolução pelo horrendo.
 
e - A santidade é a única forma plena de sublimidade, na qual todas as outras se sustentam
 
Uma alma que não possua santidade, pode alcançar a sublimidade simplesmente a partir do plano intelectual? Absolutamente falando não. Pois a santidade é a única forma plena de sublimidade, na qual todas as outras sublimidades se sustentam.
 
Sem querer fazer demais metafísica, eu recorreria ao seguinte princípio de S. Tomás: "Sempre que haja uma escala de graus, tem que haver um que contenha e que sustente todos os outros". Na questão da sublimidade este grau é a santidade.
 
Acontece, porém, que os santos inspiram muitas vezes a santidade por osmose àqueles que não o são. E a obra de um artista (que seja um homem bom, mas não santo) pode, por osmose, ser inspirada por um santo. De maneira que, absolutamente falando, um homem não santo pode fazer algo de sublime inspirado por santos. Logo, a santidade é o elemento inspirador da sublimidade verdadeira.
 
f - Quanto mais se tenha no Grupo um ambiente de apetência do sublime tanto mais terá todo o resto
 
Notem bem, pois isto tem aplicação prática na vida dos grupos: quanto mais se tiver no Grupo um ambiente de apetência contínua do sublime, tanto mais se terá todo o resto e tudo fica fácil.
 
g - Quanto mais se tiver um ambiente contrário ao sublime, tanto mais tudo ficará mais dificil
 
Quanto mais se tiver um ambiente que é contrário ao sublime, (que é a brincadeira, a vidinha trivial de todos os dias), tanto mais se estará longe da verdadeira fonte de vida e tudo fica difícil. Porque aquilo que é a fonte de nossa vocação, que é o amor ao sublime, fica trincado.
Vê-se aí qual é a condição para as coisas no Grupo andarem bem. Não é a única, mas é uma condição enorme.
 
h - É preciso, entretanto, de vez em quando descansar-se do sublime, porque ele não tem proporção com o homem
 
É preciso, entretanto, não abusar do sublime. Porque o sublime não tem proporção humana, é preciso que se descanse dele, senão não se aguenta.
 
i - Mas é preciso que esse descanso seja tal que, quando se volte ao sublime, se volte com mais apetência; e que o repouso nunca seja no que me afaste dele
 
Para isso, as condições são estas: que essa distenção seja de tal maneira que na hora, de voltar para o sublime, nós voltemos com mais apetite dele, e não apegados ao que é mais baixo. Que esse repouso nunca seja no grotesco, no caricato e naquilo que rebaixa. Tem que ser um repouso que me convide ao sublime e não que me afaste dele.
 
 C - Sacralidade
 
Outro traço de nosso espírito é constituído por alguns princípios da ordem humana por onde ela reflete a celeste e, no fundo, a essencia de Deus.
 
a - Sacralidade maior: convicção do predomínio das coisas propriamente sagradas sobre as profanas
 
O primeiro é a sacralidade maior, isto é, a convicção de que aquilo que é eclesiástico é o centro na terra.
 
A palavra "centro" é fraca, pois o que eu quero dizer é que é a coisa mais alta, para o serviço da qual tudo existe.
 
Então, antes de tudo, a Igreja, dentro d'Ela o Papado, e Ela inspirando tudo.
 
Em resumo, o predomínio das coisas propriamente sagradas em relação às profanas.
 
b - Sacralidade minor: a relação que há nas coisas profanas, entre as que são, a seu modo, mais sacrais, com as que o são menos
 
O segundo traço é a sacralidade minor, que se dá na relação das coisas profanas entre si.
 
Na ordem temporal, aquilo que é mais, é, a seu modo, sagrado em relação àquilo que é menos. P. ex., o patrão é sagrado em relação ao empregado. A bênção do pai para o filho, a do Rei para os súditos.
 
Nas fazendas brasileiras, na época da escravatura, era costume os escravos desfilarem diante do senhor no fim do dia, para serem contados, e, quando passavam diante dele, diziam: "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo". O patrão respondia: "Para sempre seja louvado".
 
Muitas vezes isto tomava o aspecto de uma bênção do patrão para o escravo.
Tem que ser assim. E a fórmula é esta: "ou é isto, ou voce é hereje" e acabou-se. Ou, então, hereje sou eu, a Igreja que me condene, porque eu e o democrata-cristão não cabemos juntos. Um dos dois tem que pular fora.
 
c - Sacralidade natural ativa, e natural passiva
 
Daí [aspiramos a] uma cultura em que tudo seja concebido em função de graus de perfeição, tudo ordenado ao sublime no seu respectivo gênero, e todas as desigualdades concebidas sacralmente numa sacralidade dupla: sacralidade natural ativa e sacralidade natural passiva.
 
d - A sacralidade ativa é a do superior, enquanto reconhecida pelo inferior
 
A sacralidade ativa é a sacralidade do superior enquanto reconhecida e vista pelo inferior. Isto é: quando nós nos colocamos na posição do inferior, vemos a sacralidade ativa residente no superior. O superior enquanto agindo, enquanto se movendo, enquanto sendo o elemento de unidade, de inspiração de todo aquele grupo.
 
Corresponde à sacralidade ativa a idéia do direito divino de todos os superiores. Então, o Rei é sagrado, a "Sacra e Cesarea Majestade dos Imperadores do Sacro Império Romano-Alemão" é sagrada, etc...
 
e - A passiva é a do inferior enquanto visto pelo superior
 
A sacralidade passiva é a sacralidade do inferior enquanto vista da posição do superior, isto é, quando nos colocamos na posição do superior.
 
Corresponde à sacralidade passiva a expressão com que se falava do povo, na Idade Média. Chamavam-no: "o povo miúdo de Deus".
 
A idéia do povo pequeno, a quem Deus protege, a quem Deus ama, e em nome de quem Deus exige que os superiores governem bem, é Deus visto do lado do povo. De onde, uma das piores acusações que se fazia a um Rei num documento pontifício, era: "Tu oprimiste o pequeno povo de Deus". Porque isso correspondia a Nosso Senhor dizendo "Eu estive encarcerado e não me visitastes", "estive nú e não me vestistes" etc., etc.".
 
Já não é mais, então, Nosso Senhor Jesus Cristo existindo no Rei, mas existindo no plebeu...
 
É muito bonito e sem demagogia nenhuma.
 
f - Há necessariamente uma relação sagrada entre patrão e empregado, ainda que um ou ambos sejam péssimos
 
Tomemos, numa fábrica, um patrão e um operário de péssimas mentalidades. A função de patrão de si é sagrada, ainda que seja um homem péssimo. O direito do operário também o é, ainda que o operário seja comunista. Eles podem não realizar essa sacralidade, mas existe na própria relação entre patrão e empregado, um caráter necessáriamente sacral. É como entre esposo e esposa. Ainda que maus, há algo de sagrado no vínculo conjugal, independente do que eles queiram.
 
g - A sacralidade minor ativa e passiva, observadas num reino, dá-lhe um sentido aristocrático-monárquico, com uma nota colegiada
 
A realização da sacralidade minor ativa e passiva na organização do Reino dá num sentido aristocrático-monárquico com nota colegiada.
 
Por exemplo, está bem que um Rei mande; mas, não é normal que ele ouça o que os seus povos queiram lhe dizer? Não é normal que ele não aja sem tomar em consideração o que os seus jurisdicionados pensam? É normal. É a voz da sacralidade minor passiva fazendo-se ouvir no conjunto do funcionamento estatal.
 
h - Quando a sacralidade minor rompe com a maior, ela se destroi a si mesma
 
Quando a sacralidade minor ativa rompe com a sacralidade maior, ela se destrói a si mesma. P. ex., quando o Imperador ou quando o pátrio-poder, rompem com a Igreja, eles se destroem na sua própria substância e se aniquilam. Por isso, um pai herege, em relação a um filho que se torna católico, não tem mais as funções do pátrio-poder na medida em que quiser impor a heresia. O Rei herege é impossível. Ficou herege, precipitou-se no vácuo, e perdeu a realeza.
 
i - A sacralidade minor ativa, quando age de modo grave e irremediável contra suas finalidades, se destrói em relação à sacralidade passiva.
 
A sacralidade minor ativa, quando age contra as suas próprias finalidades de um modo grave e irremediável, ela se destrói também em relação à sacralidade passiva.
 
j - ainda uma incógnita: o que acontece quando a Sacralidade Maior se volta contra seu próprio fim?
 
Problema que eu mal ouso enunciar - eu o enuncio sem saber dar a resposta: quando a sacralidade maior se volta contra seu próprio fim, o que acontece? Eu não sei o que acontece, essa é a resposta, e acho que não foi estudado. Desconfio que nunca nenhum jurista canônico teve a coragem de estudar.
 
Para mim decorre daí um estado de mistério, e a pergunta não é "qual a solução do problema?", mas outra: "uma vez que o problema para mim não tem solução, qual é o meu dever?" [Sede Vacantismo?]
 
D - Princípio de subsidiariedade
 
A ordem da criação é tal que Deus se espelha pelo conjunto do universo. Mas espelha-Se sobretudo pelo homem, que está no ápice da criação.
 
Por isso, quando nós olhamos não para o edifício da criação arquitetônicamente considerado, mas para cada pedra viva que é o homem, então o senso arquitetônico como que desaparece, pois, cada homem considerado em si, é ele mesmo um cosmos, um mundo que, independente de todas as considerações colaterais, é um espelho de Deus.
 
Há aqui uma espécie de bivalência que é meio parecida com a bivalência da sacralidade minor ativa e a minor passiva.
 
De onde, um dos princípios dessa ordem é que ela seja tal que, cada homem possa dar tudo quanto ele contém potencial e individualmente.
 
É, portanto, um prodigioso movimento de dentro para fora e de baixo para cima, e segundo cada luz primordial individual, por onde o homem será, se se tornar santo, uma imagem irrepetível de Deus. E a disciplina disso é o princípio de subsidiariedade.
 
E - Simbolismo
 
Outro traço característico nosso, que tem mil fundamentos na Igreja e em S. Tomás e onde colocamos nossa nota tônica, é a questão do Simbolismo.
 
a - Tudo, no universo, de um modo ou doutro, é símbolo de Deus. E é nesta simbologia que nos exercitamos na prática do amor de Deus
 
Tudo no universo, de um modo ou de outro, é um símbolo de Deus. O universo é um edifício simbólico imenso, em que a parte mais alta é o homem. No reino humano, a parte mais alta é a Santa Igreja Católica; n'Esta, o Papado.
 
A razão principal de cada coisa, pois, não é sua razão funcional, mas sua razão simbólica. Essa função simbólica é o que há de mais poderoso para a formação das almas. E é nesta simbologia que nós nos exercitamos na prática do amor de Deus.
 
A autoridade paterna, por exemplo. Sua razão mais alta não é a de alimentar e educar o filho, mas sim, de representar a Deus junto a ele: Deus enquanto gerando, enquanto nutrindo, enquanto formando etc., etc. Nisto nós colocamos a nota tônica.
 
E colocâmo-la porque a função simbólica é sempre a mais alta na ordem das causas finais.
 
b - Fruto dessa posição é o homem que vive habitualmente considerando as coisas segundo seus símbolos e enquanto conformes ou não a Deus
 
Daí deriva um tipo de homem completamente diferente do homem moderno, porque é um homem que, ao considerar tudo, vive habitualmente uma vida interior, considerando os símbolos das coisas, o por onde esses símbolos se encaixam na simbologia, concordando ( cum corde ), pondo seu coração junto de Deus, no ver e no amar todas as coisas. É o contrário da civilização moderna e da democracia que são fundamentalmente pragmáticas.
 
c - Exemplo: o simbolismo que há no velho sininho do Kremilin que anunciava o nascimento do primogênito do Tzar, ponto de partida para o carrilhonar dos sinos da Rússia inteira
 
(Há um fato que me encheu de alegria quando li, e tenho certeza de que os Srs. todos vão gostar; porque, se há uma coisa verdadeira, é que os Srs. são tocados pelo mesmo espírito e têm uma mesma vocação. Resta saber se a querem realizar. Mas, que têm a mesma vocação, não há dúvida. O fato é sôbre a Rússia czarista).
 
Em geral, o primogênito do Tzar nascia no Kremlin - hoje tão conspurcado. E, naquele recinto constituído por muitos palácios, igrejas, fortalezas, mosteiros, etc. - é uma espécie de Vaticanozinho dos Tzares - quando nascia o primogênito, o aviso era dado por um sino de uma igreja velhinha que lá havia, datada de não sei de que século. Esse toque repercutia nos sinos majestosos do Kremlin; depois, por todos os de Moscou. E assim, " de proche en proche ", por todos os sinos da Rússia.
 
d - exprime uma realidade espiritual mais profunda, que tem um sentido divino, que nos enche de alegria e que causa ódio ao demo-cristão
 
Que o ponto de partida fosse dado por este velho sininho representando uma tradição, e que tanta coisa forte, atual, nova, se dobrasse reverente diante dessa coisa ancestral, fraquinha, mas carregada de todos os valores da história, há nisto algo de simbólico, algo de uma realidade mais profunda, que se pode explicitar.
 
Esta realidade é espiritual, e tem um sentido divino. Por isto este símbolo a nós nos enche de alegria.
 
Um democrata-cristão diria: "Para que isto? Por que não toca uma sereia elétrica?" Nossa vontade é de gritar: "Fora com o democrata-cristão".
 
Ora, nesta questão de sinos e sereias, dir-se-ia que não há nada de religioso. Diriam o norte-americano e o Concílio que se trata de um aggiornamento, que é preciso tornar-se mais atual. Entretanto, nós dizemos que é precisamente o contrário. Há aqui algo de espiritual que é o princípio da ordem do universo, que é uma causa que vibra no seu próprio centro e daí se difunde pelos seus graus até o último. É um princípio metafísico da causa que dá seu primeiro movimento pequeno, mas que por ser a causa grande, se reproduz depois por movimentos sísmicos periféricos enormes.
 
e - São regras metafísicas profundas, que indicam as propriedades intrínsecas do ser, que têm seu fundamento na essência divina
 
Em última análise, são regras metafísicas profundas que indicam as propriedades intrínsecas do ser. E que, por isso, indicam algo do ser criado que tem seu fundamento na essência  divina. Portanto, dizem  algo de Deus.
 
f - símbolo do presente que obedece à continuidade histórica, e da matéria obedecendo ao espírito. Sala do Reino de Maria: tentativa de constituição de um ambiente simbólico
 
O sino grande, tocando por ordem do sino pequeno porque este representa algo de espiritual que é a Tradição, é um símbolo do presente que obedece à continuidade histórica. É também um símbolo da matéria, que obedece ao espírito.
 
Enfim, há mil outras coisas que se poderiam dizer e que fazem parte da exuberância de simbolismo que é o próprio de uma civilização concebida por nós, e que é completamente o contrário da civilização de alumínio, da matéria plástica prática e pasteurizada, do mundo moderno.
 
Não se pode conceber o que somos sem isto. A Sala do Reino de Maria é uma tentativa de constituição de um ambiente simbólico.
 
F - Caráter sapiencial negativista destes traços: o conhecer o bem pelo seu contraste com o mal
 
Que tudo isto que acabamos de ver é sabedoria, é. Pois tudo é um conhecimento das coisas pelos seus últimos fins. Mas é uma sabedoria que tem um caráter negativista. E isto por causa da enorme importância do erro para, por contraste, se conhecer a verdade; do mal, para se conhecer o bem. E - não se assustem - do ódio como uma indispensável, contínua e altíssima manifestação do amor.
 
Como se vê nada disso é ecumênico. Pelo contrário, é o anti-ecumenismo.
 
Por que esta impostação? Porque o homem está num estado de prova - nós não somos anjo - em que lhe é indispensável ter a atenção voltada para o erro e para o mal. E, muito voltada.
 
Além do estado de prova, fomos concebidos no pecado original. Nossos pecados atuais pesam sobre nós. Temos todos os atrativos dos demônios, dos ares e do inferno, o que acrescenta ao estado de prova o estado de luta.
 
G - Conclusão prática: nesta terra, as coisas negativas são indispensáveis para compreendermos a verdade e o bem
 
Conclusão prática: alguém compreenderia verdadeiramente a utilidade e a importância de comer se não sofresse fome? Alguém compreenderia verdadeiramente a importância de se lavar se não houvesse sujeira? Essas coisas negativas são todas indispensáveis à nossa ótica nesta terra para compreendermos a verdade e o bem.
 
Notem que não digo que são capitais, pois capitais são o ensino da Igreja, a Revelação, etc.. Mas são altamente indispensáveis.
 
De onde um sentido continuamente negativista, pois se eu não odiar, eu não amo; se não prestar a atenção no erro, não conheço a verdade, etc... Temos que tirar o veneno do dente da cobra.
 
a - daí nosso grande livro ser a Revolução. Para conhecer a Contra-Revolução, é necessário entender-se a Revolução.
 
Portanto, o nosso grande livro é a Revolução. Quem quizer conhecer a Contra-Revolução entenda a Revolução. É por isso mesmo que eu não dei ao meu livro um título "Ordem e Revolução", como um espírito ultramontano laranja poderia querer, dizendo para pintar primeiro toda a beleza da ordem católica e depois mostrar o mal da Revolução. Não. Seria pintar uma asneira, porque a marcha natural do espírito humano não é essa. A ordem natural do espírito humano - desde que possua os rudimentos da verdade - é: olhar primeiro para o erro, e depois voltar-se para os rudimentos da verdade.
 
b - assim como o Dogma católico cresce à custa das heresias. Cada heresia provoca a definição de mais um dogma
 
É porisso também que o Credo tem progredido à custa das heresias. Cada heresia é um dogma. Quer dizer, é uma marcha negativista, como um jato que faz força para trás e impulsiona o avião para a frente. Niguém vai dizer que o jato é negativista porque a fumaça dele vai para trás. Nós somos aviões "à reação", pois somos reacionários, e vamos para frente fazendo reação.
 
2 - As nossas devoções
 
A - Devoção a Nossa Senhora, à Paixão de Nosso Senhor, e à Sabedoria
 
Primeiro, a devoção à Nossa Senhora; segundo, união com a segunda Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, espírito de Cruz; terceiro, espírito arquitetônico, sapiencial.
 
Não parece que essas três notas são uma decorrência normal do que se acaba de dizer? Parece que sim.
 
E por uma coincidência admirável são os três livros de S. Luís Maria Grignion de Montfort: "Tratado da Verdadeira Devoção"; "Carta Circular aos Amigos  da Cruz", e "O amor da Sabedoria Eterna".
 
Seria horrível, a esta altura, fazer uma conferência desenvolvendo cada um destes temas.
 
B - Devoção entranhada à Santa Igreja, e sem nome ao Santíssimo Sacramento
 
Entretanto, não seria exagero, creio, lembrar que faz parte de nosso espírito uma devoção entranhada à Santa Igreja Católica Apostólica e Romana, uma devoção ardente ao Papa - nossa vida é um "Viva o Papa" ininterrupto - e, finalmente, uma devoção sem nome ao Santíssimo Sacramento.
 
É muito nosso, por exemplo, não apenas rezar, mas introduzir todas as atividades de nossa vida dentro da atmosfera do sagrado. E um tipo de capela que tivesse qualquer coisa de sala de capítulo, de oratório preponderantemente, de sala de armas, e de sala de trabalho, essa seria a nossa capela.
 
3 - Flash resumitivo do que foi dito: a figura da Rainha destronada
 
Depois de feitas essas considerações, nós nos poderíamos perguntar se existe uma imagem, um flash, alguma coisa que possa concatená-las, todas, numa figura ou numa impressão. Eu diria que sim: é a imagem da "Rainha destronada".
                       
A - Se considerarmos Nossa Senhora como verdadeira Rainha do Universo, não de modo simbólico, mas por disposição de Deus...
 
Se nós consideramos que Nossa Senhora é verdadeira Rainha do universo, não apenas de um modo simbólico, porque uma bonita coroa de ouro Lhe foi dada para pôr na cabeça das Suas imagens, mas porque Ela tem a disposição e o governo de tudo quanto se passa abaixo de Deus;
 
B - Que Seu reinado se realiza na medida em que as almas se conformarem com o que Ela quer...
 
Se nós consideramos, em segundo lugar, que o Reino de Nossa Senhora na Terra se realiza pela conformidade das almas dos homens com o que Ela quer. Portanto, com a conformidade dos costumes, da Civilização, das Leis da vida pública com o que Ela quer;
 
C - Podemos dizer que, na imensíssima maioria das pessoas, Ela só tem restos de influência,
 
Se consideramos isso, nós podemos dizer que na imensíssima maioria dos homens Nossa Senhora tem apenas restos de influência. Seria exagerado dizer que não tem influência nenhuma, Ela tem restos de influência. Mas são apenas restos, são pequenos restos. Restos tão pequenos que, se desaparecerem, desaparece tudo. É como um sorvete que está no sol. Não só o sorvete já está quase derretido, digamos, mas uma vêz que ele está no sol é inelutável que ele desapareça. São, portanto, restos que estão engajados num processo de destruição que torna inevitável o desaparecimento deles.
 
D - Isso justifica a metáfora da "Rainha Destronada".
 
O que justifica a seguinte metáfora: Nossa Senhora é como uma Rainha que está sentada no Seu trono. A sala está cheia de inimigos. Os inimigos já arrancaram o dossel. Já tiraram da fronte veneranda d'Ela a coroa de glória a que Ela tem direito. Já Lhe arrancaram das mãos o cetro. Ela está amarrada para ser morta.
 
E - Ainda agora, se o clero e o que resta da nobreza, fossem santos, a Revolução morreria neste minuto
 
Ainda agora, ainda agora, os que representam a ordem histórica da Cristiandade, se quizessem, evitariam tudo!
 
Eu sustento que, se o que existe hoje de aristocracia, em toda a prostração em que a aristocracia caiu, fosse verdadeiramente santo, os regimes políticos nascidos da Revolução Francesa seriam uma coisa morta. Mas uma coisa morta!
 
Eu sustento, com mil vezes mais razão que, se o clero fosse verdadeiramente santo, a Revolução morreria amanhã, morreria daqui a 5 minutos, morreria agora, já estaria morrendo!
 
Portanto, foram eles que, por sua inação, criaram as condições para o adversário necessáriamente vencer.
Mas há uma coisa pior. Eles estão sendo utilizados para puxar a corda. Quantos membros dessas cúpulas, civil e religiosa a estão puxando. Bem, se eu subo mais alto, eu sou obrigado a me calar, porque ali é Oh puxão, sobretudo da parte de Alguém, com A maiúsculo, que os senhores estão fartos de conhecer.
 
F - E nessa hora Nossa Senhora olha para nós a chorar. Que resposta daremos a esse olhar?
 
Agora, dentro dessa sala cheia de gente poderosa, armada influente, diante da Rainha que não faz outra coisa senão chorar, há um pugilo de fiéis, e Ela evidentemente olha para esses fiéis. E, ou este olhar faz em nós o que o olhar de Jesus coroado de espinhos fêz em S. Pedro, ou não há mais nada para dizer. Evidente. Porque nós somos  os  olhados.
 
Se eu tiver que provar isso, eu tenho  que começar por provar que eu existo e que me chamo Plínio.
 
Graças excepcionais, singularíssimas, contínuas, perdões e anistias um em cima do outro. E um olhar contínuo, súplice.
 
Eu pergunto: Há auge maior na Historia, depois do olhar a S. Pedro, há auge maior na História do que este olhar?
 
G - Ficarei pensando na minha chacunnière?
 
A Rainha vai ser arrancada do trono, pergunta-se, o que nós vamos fazer? Quer dizer, nesta hora deste olhar, isto não me interessa? Este olhar não me interessa? O que eu quero saber é, por exemplo, se quando eu entrar hoje à noite na sede, eu vou ser cumprimentado com cortesia? Se tal serviço que me vai ser dado não vai além de um certo limite de serviço que eu entendo que me convém? É isto?!
 
Naturalmente eu não quero de nenhum modo incluir aí as limitações que às vezes fatores nervosos obrigam a opor ao nosso trabalho. Isto é uma outra questão. Eu falo da tibieza, não falo do nervosismo. Aliás, os Srs. sabem bem, porque vêem isso a todo momento, como eu respeito os fatores nervosos. Acho até que um dos modos bonitos de lutar pela Rainha no Seu trono é aceitar com resignação o nosso próprio nervosismo e as limitações que ele nos impõe. Mas, isto posto de parte, o fenômeno  chacunnière  existe. E eu não conheço nada melhor do que essa consideração da Rainha que nos olha - e que olha chorando - e que nos pede o nosso auxílio para evitar esse último lance.
 
H - Eu, quem sou? "O homem a quem Nossa Senhora olhou". O resto não interessa. Terá Ela olhado em vão?
 
Eu confesso que sinto esse olhar dia e noite sobre mim.
 
Não que eu sinta na ordem das visões ou das revelações. Não. Eu o sinto pela luz da fé; eu o sinto pela graça que não nos abandona nenhum instante; eu o sinto nas nossas sedes, nas reuniões, nas comissões, nos simpósios, neste simpósio.
 
Então, quem sou eu? Eu sou o homem para quem Nossa Senhora olhou!
Mas serei o homem a quem Ela terá olhado em vão? O que é que sou?
 
I - "Isso é uma pressão tremenda!" Sim, mas cheia de benignidade, de perdão e de afago materno
 
Alguém dirá: "Isso é uma pressão tremenda!"
 
Eu respondo: é verdade. Mas cheia de amor, de benignidade, de perdão, cheia de afago materno.
 
Essa pressão eu a anuncio, eu não a faço. Ela está nos fatos. E deveria ter para nós o valor de uma meditação que dia e noite estivesse junto a nós.
 
Os senhores compreendem a pena que eu tenho de membros do Grupo que vejo às vezes atolados, imersos na chacunnière! Por que? Porque eu não posso deixar de ter pena. Eu teria vontade de dizer para eles o que Nosso Senhor disse à Samaritana: "Se tu conhecesses o dom de Deus!" Se tu conhecesses o olhar de Nossa Senhora! Olhar que, no meio de tantos auges, tem que importar também num auge de doação. Tem que importar.
 
J - Mas que recompensa no Céu: através dos olhos d'Ela, participar da Visão Beatífica que Ela mesma tem!
 
Mas este auge vai dar num outro: os Srs. já pensaram, apesar de sermos quem somos, qual vai ser a nossa recompensa no céu?
 
Quem foi chamado a servir tanto em auges tais... Quando, afinal, nós tivermos fechado os nossos olhos, e que esse caminho de perigo, de risco, de sofrimento e de luta tiver cessado, os senhores já imaginaram qual vai ser o auge próprio para nós?
 
O auge vai ser, no Céu, esse olhar que nunca mais se desviará de nós, que estará em nós para todo o sempre!
 
E como Nossa Senhora é a medianeira, através dos olhos d'Ela, uma participação na Visão Beatífica que Ela mesma tem.
 
K - "Este é o homem a quem Nossa Senhora olhou na hora do abandono que Lhe respondeu sim!"
 
Se algum dia se fizer um epitáfio para um de nós e se colocar, "aqui jaz fulano: o homem a quem Nossa Senhora olhou na hora de Sua aflição e que disse sim", esse será o maior epitáfio que se possa fazer, não tem mais nada, está tudo dito. Na hora do abandono completo, quando ninguém estava ao lado d'Ela, esse estava !
 
L - Esse olhar confisca totalmente. Mas é um confisco com justa indenização
 
Os senhores compreendem, esse olhar de fato nos confisca. Por que? Porque, quando a Rainha está assim, e pede por auxílio, esse pedido é uma ordem total, não tem conversa.
 
É verdade que é um confisco com justa indenização, mas recebemos uma ordem que é um confisco. Tudo quanto é nosso, deixa de o ser. Nós somos inteiramente d'Ela. A chacunnière perde sua razão de ser.
 
 M - A chacunnière é um roubo, uma felonia, a traição .
 
Proudhon disse: "A propriedade é um roubo". Nós podemos dizer: a chacunnière  é um roubo, a  chacunnière  é uma felonia, a  chacunnière  é a traição.
 
Os Srs. notem que eu estou graduando muito minhas palavras. Eu não quero dizer que uma alma que, por misérias que não cabe aqui sondar, tem uma infidelidade a Nossa Senhora, ou tenha quantas infidelidades queira a Nossa Senhora, que Ela não vai ter pena dessa alma depois desse olhar, e que Ela não vai ainda render essa alma.
 
Uma coisa é o fraco que, com a culpa dos fracos, entratanto reconhece pelo menos esta ordem de valores e quereria seguí-la. Outra coisa é o que não quer, que não quer ver o Grupo assim, tem birra em que as coisas no Grupo sejam assim, procura dentro do Grupo consciente ou inconscientemente trabalhar para manter o espírito de  chacunnière  e, portanto, representa uma espécie de reação maliciosa ao olhar de Nossa Senhora. Aqui é uma coisa diferente. Pois a permanência empedernida e consciente na chacunnière é uma coisa pior do que pecados que a fraqueza humana pode levar a fazer, e é disto que mais especialmente eu falo.
 
É o que eu tinha que dizer.
 
- II -
 
ESTAMOS PROPORCIONADOS A ESSE FIM?
 
i - A debilidade da Revolução
 
Ficou provado, na parte anterior, que o fim que visamos é um fim bom. Agora devemos nos perguntar se estamos à altura desse fim que nos propomos, se estamos em condições de realizá-lo. Ou seja, se o fim é bom para nós, porque ele pode ser ótimo em si, mas não ser bom para nós. Como, por exemplo, dar um grande concerto é um fim lícito, de algum ponto de vista ótimo, mas não é um fim bom para mim porque eu não sei cantar.
 
A pergunta é, então, se esse fim é bom para nós. Pois a Revolução é uma coisa tão imensa, tão poderosa, tão velha, tão enraigada, que se pode perguntar se não é ridículo que pretendamos derrubá-la.
 
Eu me lembro, logo no começo da Pará, fomos visitar um porta-aviões norte-americano em Santos. Tempos depois, alguém contou-me o que se deu com ele, uma coisa idêntica a que se dera comigo: uma sensação de estar arrasado  naquele porta-aviões, porque aquilo era um farelo do poderio norte-americano, entretanto era uma coisa imensa... Nós, cinco formiguinhas, andando naquilo com a intenção de derrubar não o farelo, mas a montanha! Quer dizer, uma desproporção tremenda.
 
Então, nossa causa é proporcionada a nós?
 
 
1 - De si, tanto a Revolução quanto a Contra-Revolução são fracas. Elas dependem de um ato de vontade do homem
 
 A - A debilidade intrínseca da Revolução e da Contra-Revolução
 
Fundamentalmente falando, a Revolução, em si mesma, intrinsecamente, é um fenômeno muito fraco, muito débil, por mais que ela pareça forte.
 
Santo Inácio de Loyola, nas suas meditações, representa Satanás como uma espécie de rei sinistro sentado num trono, mas um trono de fumaça, um trono de fuligem. Portanto, num trono de ilusão, de trevas, de mentira, de zero, de nada, que qualquer vento dispersa. Pois bem, esse trono de fumaça é também o trono da Revolução. E, em última análise, a solidez da Revolução está no seguinte: os homens, abrindo sua alma para os defeitos da sensualidade e do orgulho, abrem porque querem. E, enquanto eles tiverem a alma aberta para isto, a Revolução é muito forte. Mas, a partir do momento em que eles queiram fechar sua alma para isto, a Revolução é muito fraca. Porque toda ela está na dependência do homem e de um ato que os homens, afinal, podem fazer ou deixar de fazer.
 
De maneira que não se pode dizer que ela tem um  poder que esteja fora do  livre arbítrio humano, fora das decisões do homem. Não tem.
 
É o homem que faz a História e que pode, de um momento para outro, acabar com a Revolução como também com a Contra-Revolução.
 
a - A partir do momento em que o homem medieval fechou sua alma para as virtudes da castidade e da humildade, não houve instituição que mantivesse de pé a Idade Média.
 
A ordem medieval existia porque o homem tinha a alma aberta para as virtudes da castidade e da humildade. A partir do momento em que ele resolveu fechar progressivamente sua alma para essas virtudes, não houve Sacro Império, não houve Papado, não houve Inquisição, não houve nada que conseguisse frear a coisa.
 
No fundo, tanto a Revolução quanto a Contra-Revolução são muito débeis. Desde que o homem queira, ele muda e destrói as estruturas mais espetacularmente sólidas. Depende da graça querer, depende da graça ter quem corresponda a ela, depende de ter chegado a hora designada por Deus, enfim, de uma série de circunstâncias de ordem natural e sobrenatural.
 
De sorte que esse poderio aparente da Revolução é uma coisa que não persuade ninguém.
 
b - Uma diposição de alma que muda, pode mudar toda uma estrutura histórica. A Revolução não pode resistir a fatores naturais, nem sobretudo a sobrenaturais
 
Logo, uma disposição de alma que muda, é uma estrutura enorme, uma história toda que se muda com essa disposição de alma. Quantos exemplos assim a história apresenta, de coisas que cessam porque uma disposição de alma cessou e de disposições de alma que às vezes cessam repentinamente!
 
A Revolução, pois, é fraca. Ela não resiste a fatores naturais e muitíssimo menos a fatores sobrenaturais.
 
c - Exemplo: a queda do império de Napoleão
 
Tomem o Império de Napoleão. O Império de Napoleão foi subindo, subindo, subindo, e em determinado momento caiu por inteiro. Os Senhores me dirão: "Foi a maçonaria quem quis". Eu respondo: "É verdade, mas a maçonaria não penteia contra pelo. Se ela fêz, é porque havia uma porção de circunstâncias que tinham até certo ponto fechado as almas das pessoas para a era napoleônica".
 
Certa vez, Napoleão atravessava a cavalo a avenida dos Champs Elysées, que era a avenida do triunfo dele e o povo aplaudia, aplaudia... e o embaixador da Dinamarca, fino como todo dinamarquês, julgando oportuno fazer um agrado a ele, acercou-se e disse: "Majestade, que trono sólido!", e Napoleão respondeu: "Cuidado, Senhor embaixador, os homens se vingam dos aplausos que nos dão". Quer dizer, ele sentia que aquela embriaguês, aquela sêde de ver um homem glorioso estava se apagando no espírito do povo francês, e que havia uma instabilidade nas bases psicológicas do seu trono. Ele sentia isso, e ele tinha bem razão, porque ele foi, tempos depois, numa vaia, num assobio, de Paris até a ilha de Elba.
 
B - Em concreto, a Revolução está hoje fracassada. Mostra-o o desastre do comunismo na conquista da opinião pública .
 
Quando se analisa o mundo de hoje, percebe-se a fraqueza da Revolução. Por isto que ela é obrigada a andar devagar, por etapas, ao passo que por vontade dela ela pularia como um leão. Por que não pula? É porque, em última análise, ela não domina a maioria dos homens, ou melhor, ela ainda não domina inteiramente a maioria dos homens.
 
Prova-o o fracasso do comunismo na conquista da opinião pública.
 
[Nota: estas conferências foram pronuciadas em 1965. Portanto, quando o comunismo ainda estava muito bem instalado na Rússia e o jogo era o de ainda ser uma ameaça evidente para todos com facia feroce] .
 
a - Teoricamente falando, o marxismo teve tudo para alcançar êxito
 
Marx, há mais de cem anos, lançou seu manifesto. Há mais de cem anos eles têm todo o dinheiro, todos os meios de publicidade, têm tudo para lançar à vontade a doutrina marxista. Tudo que uma doutrina possa ter como recursos humanos para ser lançada, o marxismo teve. Eu não sei se os Srs. já pensaram mas, em cada eleição, teóricamente falando, as bases da ordem social deveriam estremecer. Pois, afinal, o que se pergunta aos pobres é o seguinte: "Voces querem ficar com o dinheiro dos ricos? Se quiserem elejam deputados que façam leis nesse sentido". Em cada eleição se faz isto.
 
b - Entretanto, há cem anos os comunistas realizam eleições no mundo, e a resposta às suas doutrinas tem sido negativa. Não ganharam nenhuma elição livre
 
Há cem anos que se realizam eleições no mundo e há cem anos que a resposta vem sendo negativa. Essa é a verdade. Eleição eles não ganharam nenhuma. Falam de Gallup, não há melhor Gallup do que uma eleição, e, o que deram essas eleições? Nada! Alguém dirá que eles tomam um país à força e preparam a Opinião Pública. Eu digo que está bem, mas nos lugares onde eles tomaram conta, eles não foram capazes de preparar a Opinião Pública. A prova é a Rússia, por exemplo. Os Srs. já imaginaram o sucesso das Forças Secretas se elas pudessem abrir as portas da Rússia, entrar todo mundo do Ocidente à vontade, realizarem uma eleição livre, fiscalizada pelo U. Thant, com algum Cardeal Cicognani junto para benzer tudo direitinho, eleições honestíssimas, com um resultado de 98,3% dos russos votando pelo comunismo? Se eles pudessem fazer isto não fariam? Fariam imediatamente. Era a consagração do Regime deles. Era a maior vitória. Não fazem. Não se pode entrar. Não se pode sair. Não se pode ver o que está lá dentro. Não se pode conversar com as pessoas, cadeia, perseguição, etc... É isto.
 
c - Isso quer dizer que eles não dominaram a Opinião Pública
 
O que dizer? Eles não dominaram a Opinião Pública. Fracassaram nos países onde tinham superlativamente tudo para fazer aquilo. O que que eles conseguiram na Hungria, na Tchecoslovaquia, etc.? Nada! China? Nada! Ainda há pouco o Chang-Kai-Chek dizia uma coisa que eu acredito piamente: "Se os norte-americanos deixassem as tropas dele desembarcar na China, ele acabava com a Guerra do Vietnam, e acabava logo, porque ele tem apôio popular na China, o que faria o poderio chinês ruir por terra". E eu acredito nisto inteiramente. Esse é o famoso poderio do comunismo! Não conseguiram nada em nenhum lugar!
 
d - Não há então contradição em se afirmar que a Revolução é um fenômeno avassalador? Não. A Revolução tem um domínio muito grande no mundo, mas não alcançou tudo o que queria e enfrenta resistências
 
Alguém dirá: "Mas o Sr. não sustenta que a Revolução é fenômeno avassalador? O Senhor não falou, na parte anterior, da iminência da vitória da Revolução?".
 
Eu digo, não, não há contradição entre as duas afirmações. Eu disse que a Revolução tem um domínio muito grande no mundo e que ela vai alcançando as suas finalidades, que ela está mesmo a pique de as alcançar inteiras, mas que há resistências - tanto é que ela não as alcançou todas ainda e sobretudo não alcançou como ela quereria alcançar.
 
e - Não conseguindo entrar pela porta régia, ela tem que entrar pela porta dos fundos: violência, astúcia, baldeações ideológicas, o que mostra que enfrenta resistências
 
Ela não vence entrando pela porta régia. Ela vence entrando pela porta dos fundos. Exatamente, a termo de violência, astúcia, baldeações ideológicas, etc..., o que mostra que resistências ela encontra.
 
Ora, de algum modo podemos dizer essas resistências estão mais fortes do que nunca, e este é um traço da atual situação que é preciso considerar.
 
f - se a Revolução está a pique de ganhar, é pelo que ela conseguiu nas cúpulas, não nas massas
 
Porque, se é verdade que a Revolução está a pique de ganhar, ela está a pique de fazê-lo pelo poder que conseguiu nas cúpulas: sobretudo na mais inesperadas das cúpulas.
Se não fosse isso, ela perderia de um momento para outro. De maneira que, de fato, na massa, naquilo que não é cúpula, o poder dela, debaixo de certo ponto de vista, está menor do que nunca.
 
Assim, embora seja iminente [sua vitória], pela complexidade inerente a este tipo de acontecimentos, pode-se dizer que a fraqueza dela está grande.
 
Aí está um dado natural que nos mostra como a Revolução não tem aquela onipotência que a gente poderia sonhar. É um dado natural em que entra muito de sobrenatural, porque se a Revolução não conseguiu tal influência, deve-se, em última análise, a fatores de caráter sobrenatural.
 
C - A Revolução, ou não corre e perde as cúpulas; ou corre e perde as bases
 
a - Tomo movimento de homens tem uma elite interna que constitui sua força propulsora, que lhe dá dinamismo .
 
Todo movimento ideológico ou de qualquer outra natureza, tem internamente uma elite que constitui uma força propulsora que leva todos os outros para a frente e essa  força tem um dinamismo tal que, se se freia, morre, porque é inerente a toda força propulsora, que, freiada, morra.
 
b - A elite da Revolução caminhou muito mais do que o corpo.
 
Entretanto, por sua própria natureza, se ela for freada, o movimento morre. Por outro lado, se não o é, se cristaliza e mata a Revolução
 
Ora, a força propulsora do demônio ou da Revolução caminhou muito mais do que o resto da Opinião Pública. De onde, a força propulsora foi muito mais depressa e eles não podem freiar sob pena de matar a Revolução.
 
De outro lado, eles não podem deixar correr muito porque dá cristalizações.
 
c - Daí uma espécie de contradição interna na Revolução que é muito favorável às nossas técnicas
 
Então forma uma espécie de contradição interna da Revolução que faz com que ela, em nossa época, de um lado seja obrigada a correr muito, mas de outro lado, dê margens a cristalizações muito grandes. Isso exatamente é um fator muito favorável para as nossas técnicas.
 
d - É a velha metáfora da cobra cuja cabeça está se separando da cauda.
 
Exemplos
 
Lembram-se daquela metáfora da cobra cuja cabeça está querendo andar mais depressa que a cauda? Há, por exemplo, toda uma esquerda católica, democratas cristãos, Temoignage Chrétien , etc., intransigente e aborrecida com os próprios meios termos que altos dignitários eclesiásticos são obrigados a usar.
 
Agora, por que é que ele é obrigado a usar? Porque ele tem medo das cristalizações. Mas isto coloca numa dificuldade os  arditi : no excesso de entusiasmo, eles constituem uma fonte de fraqueza para as cúpulas.
 
Seria como se eu, aqui dentro do nosso movimento, tivesse uma ala ardida que eu não conseguisse frear. isso para mim não seria uma força, seria uma fraqueza, porque eu seria arrastado, muitas vezes, a atitudes que eu não quero e que poderiam comprometer a causa inteira. Aquelas cúpulas estão tentando sair-se do caso como podem. Resta saber que dificuldades eles encontrarão no caminho. E que dificuldades mesmo nós podemos opor a eles. São os segredos de Nossa Senhora.
 
D - Hoje a Revolução, com cúpulas podres eclesiásticas, conta com ocasião incomparável de levar a Igreja a um erro tático tremendo
 
A Revolução não pode parar também por outro motivo que nós esperamos nunca mais se apresente. É que ela conta com a ocasião incomparável de levar a Igreja Católica a um erro tático tremendo.
 
Quer dizer, ela tem que correr com a Igreja, e isto forma dentro dela uma contradição interna altamente favorável a nós.
 
Essas são as debilidades da Revolução.
 
2 - Resposta a uma objeção
 
A - Uma vez que os fatores decisivos na luta R-CR são de ordem sobrenatural, não é melhor, em vez de ficar medindo o poder do adversário nos fatores naturais, confiar de vez na Providência?
 
Por que desenvolver tanto esses fatores que, embora possam ter uma causa sobrenatural, são, na sua essência, fatores naturais? Não devemos confiar exclusivamente na Providência e deixar de olhar tanto se o outro é mais poderoso ou menos?
 
Resposta:
 
a - Temos graça suficiente para confiar na proporção do perigo que enfrentamos, e não maiores que eles
 
Nós temos a graça suficiente para confiar na proporção do perigo que enfrentamos, e não para confiarnos na proporção dos perigos maiores que nós temos que enfrentar.
 
Vamos reduzir os perigos aos seus devidos termos, e confiar na graça quanto aos seus termos reais. Nós não devemos ser megas e procurar ter um heroismo em face de um perigo maior do que ele é.
 
b - É de boa lei reduzir o perigo às suas devidas proporções, e, no que for maior que nossas forças, confiar. Aí entra Nossa Senhora
 
É normal, é de boa lei reduzir o perigo às suas devidas proporções, e depois graduar, em face disto, a nossa confiança. Porque a confiança heróica é dada na proporção da necessidade. Necessidade consiste nisto: que mesmo feitos os descontos, ainda reste algo de tão poderoso, que realmente precisamos de toda confiança na graça para vencer.
 
E aqui entra Nossa Senhora.
 
ii - Porque somos fortes
 
1 - Aliança especial de Nossa Senhora com o Grupo
 
O primeiro fator fundamental de nossas forças e das coisas mais intrínsecas ao Grupo, é a aliança de Nossa Senhora conosco.
 
Essa ligação de Nossa Senhora conosco, ver-se-á, não é uma ligação qualquer, uma ligação como ao longo da História, Ela tem condescendido em ter com outras pessoas a quem Ela tem favorecido.
 
A - Essa aliança é tal, que a pessoa, para apostatar, tem que fazer força. Nossa Senhora a segura pelos cabelos. A "Teologia do Sabugo"
 
Há uma coisa dentro do Grupo que me impressiona muitíssimo, e que, com certeza, impressiona os Srs. também: é o número relativamente muito pequeno de apostasias. A pessoa, para apostatar, precisa fazer tal força, que tem que ser uma espécie de herói do mal para conseguir apostatar.
 
Segundo uma alma convertida hoje, mas a quem Nossa Senhora teve muito que perdoar, essa alma, no seu período de crise, não entendia porque não saía do Grupo. Ela não tinha coragem de sair e não queria sair mesmo. Quando essa pessoa me procurou e me revelou o seu estado de alma, ela me disse: "Olhe, eu fiz tal coisa e meu estado de alma é este. Agora V., querendo, tem todo o direito de me por para fora. Eu sei que eu mereço sair, mas eu não sei porque  até hoje não saí e não quero sair. Nossa  Senhora me segura pelos cabelos no Grupo".
 
A imagem é esplêndida! É como a de um náufrago que está inteiramente largado, mas que Nossa Senhora misericordiosamente segura pelos cabelos. Bem, essa é uma das almas mais fervorosas que temos hoje em dia.
 
Quantas situações há assim?
 
a - O sabugo, que tem tudo para sair, fica preso ao Grupo pelo homoplata
 
Entra aqui uma coisa muito curiosa, não sei se os Srs. tem pensado  nela, é uma espécie de "Teologia do Sabugo". O sabugo é um seguro pelos cabelos. Se quizerem, nem pelos cabelos, seguro pelo homoplata. Ele teria tudo para cair, tudo para ruir, tudo para sair. Ele fica.
 
b - Ele tem estabilidade impressionante, e ainda presta serviços.
 
Conserva-se inclinado a 10º do solo, seguro por um Anjo
 
E se há uma coisa impressionante no Grupo, é a estabilidade dos sabugos. Não só eles vão continuando, mas  à la longue , ainda fazem figura e ainda prestam algum serviço. Eu, às vezes, vejo nessas nossas campanhas cada sabugo se mover e fazer coisas que eu fico impressionado! Agora, o que é? Vê-se que Nossa Senhora está em relação àquela alma num estado de tristeza profunda, mas a conserva, por uma espécie de Torre de Pisa, mas de uma Torre de Pisa cuja estabilidade a geometria não consegue explicar. Um anjo segurando uma Torre de Piza assim a 10 graus do solo, esta é a definição do sabugo.
 
c - Sua presença é uma das mais admiráveis manifestações da aliança de Nossa Senhora com o Grupo
 
A presença do sabugo em nosso meio é uma das mais admiráveis manifestações da aliança de Nossa Senhora com o movimento. É uma mostra de que há uma espécie de transmissão do espírito de Nossa Senhora para o Grupo, de que há uma espécie de aliança por onde Ela está de algum modo presente em cada alma de membro do Grupo. Há coisas neste sentido de arrepiar.
 
Por exemplo, o Fulano. Ele foi expulso do Grupo. Foi expulso por razões que eu não posso declinar, mas que justificam tanto, que ele mesmo reconhece que a expulsão foi ato merecido. Está bem, o Fulano fora do Grupo permanece mais ou menos como um objeto lançado fora de um Sputinik e que continua do lado de fora a acompanhar o sputinik. Ele não se dá com ninguém, não tem relações com ninguém. Vive sozinho em casa, num isolamento tremendo. Uma vida de um membro do Grupo sem o Grupo. O mais engraçado é que ainda ressentido com o Grupo, a tal ponto que eu estou com ele e ele não me diz nem uma palavra do Grupo. Outro dia eu fui visitá-lo, e sentei-me no sofá. Encontro pelo meio o "Diálogo". Quer dizer, ele compra na rua e lê e não me diz uma palavra, de tal modo ele está sentido conosco. É um infiel, mas ainda assim Nossa Senhora o segura dessa maneira.
 
O André me pediu para voltar, com mil oportunismos, com mil venalidades. Está bem: no fundo de tudo, a gente vê que que alguma coisinha fica. É uma coisa incrível.
 
B - E essa aliança é a nossa grande força, nossa grande arma
 
É um modo de Nossa Senhora provar essa aliança com o movimento. E esta é a nossa grande força, a nossa grande arma. Diante d'Ela todas as outras são secundárias.
 
 
2 - Técnicas RCR + Maquininha + Ocasião + Hora da Providencia = vitõria
 
A -  Técnicas RCR
 
             a - O domínio do demônio e da Revolução se dá por técnicas de Opinião                        Pública. Nossa Senhora nos deu conhecimento dessa técnica. A R-CR
 
Está mais do que provado que grande parte do domínio do demônio e da Revolução está em técnicas por meio das quais eles fazem progredir o processo revolucionário no seio da Opinião Pública. Ora, acontece que Nossa Senhora deu ao Grupo o conhecimento dessas técnicas, o que não só se prova lendo a RCR, mas também examinando os fatos concretos. Nós temos - porque Nossa Senhora deu, mas afinal temos - um meio por onde nós de fato podemos meter um punhal, podemos levantar a escama da sucuri e atingir a sucuri sem escama, atingí-la na sua própria carne e de um modo vivo. Isto está nas nossas mãos, é evidente. E isto é um fator de força. Pois, se a técnica para o mal foi um fator nas mãos deles, é claro que tem que ser também um fator em nossas mãos. Sei que é dado por Nossa Senhora, mas se Ela deu, não posso fazer a pesagem da situação sem tomar em consideração o dom d'Ela.
 
b - Nossa técnica consiste em apontar o lado fraco da Revolução, onde ela corre demais, e provocar cristalizações pelo susto.
 
Agora, no que consiste, essencialmente, essa técnica? Consiste em tentar colocar do nosso lado a maioria, mostrando o lado mau da Revolução que corre demais. Quer dizer, assustando a maioria e cristalizando-a. É sempre essa técnica.
 
c - O "Em Defesa" = "Católicos heresias-brancas: uma heresia está arrebentando dentro da Igreja!"
 
Todos os nosso livros obedecem a isso. O "Em Defesa", em suma, é o seguinte: "Católicos liberais prestem atenção, uma heresia está arrebentando dentro da Igreja!". Esse livro escrito há 23 anos atrás, era uma previsão exata do que está acontecendo hoje. Esse livro matou [na época] o Progressismo no Brasil, que era o veículo da heresia. Até hoje [1965] o Progressismo no Brasil não é nada. Depois, assustou a grande maioria do clero que não ficou do nosso lado, mas não ficou também do lado deles. Parou. O resultado disso é que a Democracia Cristã ficou um partido pequeno no Brasil, porque a DC vive do Progressismo como nós vivemos da Ave-Maria. E a marcha do Brasil para a esquerda se tornou muito mais lenta.
 
A RCR não tem em mira o que tem o Progressismo. A RCR é uma disposição de todas as nossas doutrinas que em contreto têm uso dentro do nosso movimento. É o nosso livro fundamental.
 
d - RAQC = "Proprietários: Cuidado com o socialismo e o comunismo que estão chegando!"
 
Mas a RAQC é inteiramente isso. É feita para frear a Revolução no seguinte modo: "Proprietários: cuidado com o socialismo e com o comunismo que estão chegando!" O fato é que até agora a RA não se aplicou no Brasil e o livro teve tanta repercussão que tornou o Grupo uma potência nacional, o que prova que conseguimos colocar muita gente do nosso lado.
 
e - "Bucko", "Diálogo" etc. o que são? Fundo de nossa tática:
 
O "Bucko" é o seguinte: "Padres e católicos, cuidado, o comunismo quer exigir de vós uma coisa que não podeis fazer!".
 
E o "Diálogo", o que é? Em síntese é: "Católicos, cuidado, vós estais sendo levados sem perceber ao comunismo através do ecumenismo!"
 
                        1 - Desmascarar o jogo e fazer parar a marcha
 
Qual o fundo dessa tática? Eles percebem que só podem andar velando a marcha; e nós só podemos fazer parar a marcha revelando o jogo. É claro! É de uma simplicidade modelar, é isso.
 
                         2 - Revelar sempre apresentando uma questão de consciência
 
Este revelar, para morder individualmente o leitor e criar para ele um problema, vem sempre acompanhado de uma questão de consciência: "Cuidado, se V. concordar com a Revolução, V. é um herege; está perdendo sua alma!" Com maior ou menor clareza está sempre isso. No RAQC é: "Cuidado, Padre ou leigo, V. perde sua alma"! Ou, "V. é um ladrão?".
 
                         3 - Isso sempre com um pressuposto: dar um caráter religioso, nunca laico.
 
As técnicas das interpelações são filhas diretas desta visão. Tudo isto tem sempre um  pressuposto: é dar a estas questões um caráter religioso, nunca laico.
 
Alguém, quando lançamos a RAQC, me aconselhou que, em vez de um livro religioso, fazer um livro exclusivamente técnico mostrando que a RA é contra os interesses do país etc., "porque é muito mais simpático". Eu respondi: "Simpático, mas perfeitamente ineficiente. A propriedade privada e qualquer outro assunto, ou se sustenta em base religiosa, ou não tem nenhuma força.
 
No Chile, o candidato à Presidência da República derrotado pelo Eduardo Frei, convidou um grupo de nossos estudantes universitários para jantar com ele, e, durante o jantar disse-lhes: "Eu não compreendo como é que Vs. conseguiram fazer tal alvoroço com a interpelação de Vs. Pois eu dei argumentos, dei dados estatísticos, etc., durante minha campanha, e ninguém se incomodou. Agora Vs. levantam a questão religiosa, e vem todo esse caso".
 
                         4 - Porque a única coisa que tem vida é a Igreja Católica
 
É claro, porque a única coisa que tem vida é a Igreja Católica e o que não fôr argumento religioso não vale nada. Pode-se dar como apêndice, como na RAQC, mas é linha auxiliar e que só se usa quando é indispensável.
 
No que diz respeito às técnicas é isso.
 
B - "Maquininha"
 
a - O que é a "maquininha": pequenos grupos que, explorando algumas relações e utilizando as técnicas RCR, causam muito dano ao adversário
 
O que é a "maquininha"? São os pequenos grupos de pessoas muito dedicadas e homogêneas, mas francamente minoritárias que, como dizia São Luís Maria Grignion de Montfort, são recrutados um a um - aqui sim é um trabalho de caráter individual - e que estão espalhados numa orla litorânea que vai de S. Luís do Maranhão até Santiago do Chile.
 
Esses grupos manejam algumas relações que têm e que não são muitas, e usam, contra a Revolução, técnicas publicitárias cujos efeitos, pelos manifestos na Argentina e no Chile, os Srs. conhecem.
 
b - maquininha bem equipadinha, cujos resultados nos causam espanto a nós mesmos
 
Essa é a "maquininha". É uma maquininha, se quizerem, bem  equipadinha. Ela tem comissões, tem serviço de imprensa, tem mil coisas, até relaçõezinhas; mas, no conjunto, é uma maquininha. Entretanto, se dissermos que é uma formiga, temos que convir que ela é uma formiga muito grandinha, que ela é até um colossinho para o tamainho. Para derrubar o Pão de Açucar é melhor do que uma formiga comum!
 
Apesar disso, quando nós analisamos o que nós temos feito, a simples análise do que temos feito já nos deixa espantados. Nós não compreendemos como é que nós pudemos fazer o que temos feito.
 
c - embora não tenha feito senão um milionésimo do que queria, só é uma potência na medida em que uma mosca que saiba atrapalhar o é
 
Ora, o que nós temos feito não é senão um milésimo ou um milionésimo do que nós queremos fazer. Quer dizer, a simples obra realizada por nós, e que é um  milionésimo do que nós quereríamos fazer, nos parece um colosso. Aí os Srs. compreendem como nós somos pequenos.  É preciso não reduzir nada da realidade.
 
E, nesse sentido, quando se diz que o Grupo é uma potência, etc., etc., é até verdade. Mas em que termos, com que nuances?
 
É como, por exemplo, uma mosca que queira e saiba atrapalhar. Ela pode tornar impossível esta reunião. Nesse sentido a mosca é uma potência. Entretanto, não passa de uma mosca. Entendamos bem em que sentido somos uma potência. O resto é megalice.
 
C - Ocasião
 
Como a Revolução está obrigada a correr demais, a toda hora há transgressões perigosas. Esses momentos constituem para nós a ocasião boa de intervir.
 
D - Hora da Providência
 
a - necessidade + impossibilidade = hora da Providência
 
Joseph de Maistre e inúmeros tratadistas ensinam que  necessidade mais impossibilidade é igual a hora da Providência .
 
Ou seja, quando uma coisa se torna absolutamente necessária e ao mesmo tempo absolutamente impossível, está caracterizada a Hora da Providência.
 
b - Deus deixa muitas vezes tudo ruir antes de intervir para mostrar que a vitória é d'Ele
 
E justificam dizendo que os grandes acontecimentos da História, sobretudo da história dos interesses de Deus, se dão em circunstâncias tais que Deus deixa tudo ruir para que fique muito claro que a vitória que haja é d'Ele. Logo, a hora para Ele intervir é quanto tudo ruiu.
 
c - Depois do Vaticano II, tudo ruiu. Então a hora d'Ele intervir chegou
 
Ora, depois do Vaticano II, os Srs. não têm dúvida de que tudo ruiu. O que se disse a respeito dos nobres, a respeito do clero indica um fenômeno mundial. Está tudo perdido. Ora, de outro lado, tudo não pode estar perdido. Portanto, chegou a hora em que alguma coisa tem que acontecer, não é verdade?
 
O abbé Saint Laurent, no "Livro da Confiança", enuncia isto assim: "quando tudo, tudo está perdido, aí é a hora de preparar o incenso e acender as luzes, porque o momento do Te Deum está próximo". Ou seja, a vitória.
 
E - Daí a fórmula: técnicas RCR + maquininha + ocasião + hora da Providência = Vitória
 
a - Essa conjunção de fatores nos possibilita um sucesso que humanamente falando não teríamos .
 
Por essa conjunção de dados nós temos a possibilidade de obter um sucesso que humanamente nós não teríamos. Notem a recíproca também é verdadeira: nós devemos dizer que não se trata nem de uma obra meramente humana, nem de uma obra toda ela milagrosa. Vê-se que há meios humanos nos quais a Providência quer atuar.
 
b - O exemplo de Santa Teresa: "três ducados + Teresa + Deus = um Carmelo fundado"
 
Certa vez, Santa Teresa saiu para fundar um Carmelo. Para tanto tinha no bolso apenas três ducados, que era moeda pouco valiosa da época. Então, perguntaram a ela: "Madre, o que a Sra. vai fazer com esses três ducados? Não é muito pouca coisa?". Disse ela: "Três ducados para Teresa é nada. Teresa para Deus é arquinada. Mas, três ducados + Teresa + Deus fundam um Carmelo". E, de fato, se fundou o Carmelo.
 
Dentro dessa linha, nós não temos apenas uma coisa tirada de boa doutrina ou boa teoria, mas temos também o conforto de uma confirmação pela experiência.
 
Quer dizer, a experiência prova que isto é assim. E se a Providência nos deu também experiência, devemos nos socorrer dela para aumentar a nossa fé, porque nós devemos nos servir de todos os meios para aumentá-la.
 
Santo Agostinho fazendo um comentário a respeito de São Tomé, o censura desenvolvendo a censura de Nosso Senhor. Depois, ele diz: "Oh! Bem-aventurado Tomé, como tu andaste mal! Entretanto, não deixa de ser verdade que da ponta de teus dedos pendeu a fé de milhões de pessoas!" Pois milhões de pessoas creram, porque ele tocou. Aqui também. Uma vez que a Providência nos dá a experiência, sirvâmo-nos dela.
 
 
- III -
O RESTO QUE VOLTARÁ
 
1 - Teoria Geral
 
A - Introdução : uma teoria que corrobora o que foi dito
 
a - quando o bem está na iminência de ser esmagado totalmente, é que ele ressurge. Teoria do "resto".
 
Eu conduzo, nesta altura, o pensamento para uma teoria que abre muitos panoramas, muitos horizontes e corrobora o que acaba de ser dito, sobretudo a respeito do conceito de Hora da Providência.
 
Esta teoria é para explicar que,  enquanto não chegar o fim do mundo, quando o bem está na iminência de ser totalmente esmagado, ele ressurge, e que, portanto, a hora de sua ressurreição é exatamente o momento de seu supremo esmagamento.
 
b - Mais ou menos enunciada na RCR, nasceu da observação histórica recebendo depois confirmação teológica
 
É para ilustrar isto que vem a teoria do "Resto Voltará".
 
É uma teoria que está enunciada de algum modo na RCR. Aliás nasceu como uma observação histórica nossa e só depois recebeu uma confirmação teológica de parte de D. Mayer, o que mostra a objetividade de nossa observação.
 
B - Essa teoria na Sagrada Escritura:
 
O profeta Isaías teve vários filhos aos quais ele deu nomes proféticos. Um deles chamou-se "Shear Yashub", em latim "Residuum revertetur", em português, "o resto que voltará", para manifestar sua confiança e sua esperança no Messias que haveria de vir.
 
a - As várias decadências da Humanidade, e o ressurgimento dos restos que permanecem fiéis
 
Por que é que Nosso Senhor Jesus Cristo é um resto? E por que o resto que "voltará"?
A humanidade toda tendo caído no estado de pecado, houve um pecado que deu no Dilúvio, ficou um resto que depois refloresceu. Houve depois outro pecado que deu na dispersão da Torre de Babel. Quando os povos foram se tornando cada vez piores, apareceu uma nação eleita que era o resto de toda a humanidade que apostatara e que se salvava. Era um povo eleito, uma gota dentro da imensidade do mundo antigo. Este resto, por sua vez, não foi fiel, e dele salvou-se a Casa de David.
 
b - Nosso Senhor Jesus Cristo: o "resto" da Casa de David
 
Mas a Casa de David também não foi fiel, e dela salvaram-se Nossa Senhora, São José, Sant'Ana algumas poucas outras pessoas e sobretudo, sobretudo, Nosso Senhor Jesus Cristo.
 
Os Srs. vêem, são restos concêntricos, restos uns dos outros. Há uma catástrofe, salva-se um resto; esse resto entra em decadência, sucede depois outra catástrofe, salva-se o resto; quando a coisa chegou quase às proporções de um indivíduo, de uma pessoa, essa pessoa é Nosso Senhor Jesus Cristo e, nesta Pessoa, há então uma explosão e tudo aquilo que tinha sido apagado, contrariado, calcado aos pés, jorra para o alto de um modo magnífico, e é o Redentor do gênero humano que vai fazer o Império de Deus voltar à terra.
 
Este é o fato comentado pelos intérpretes da Escritura e é coisa inteiramente segura.
 
2 - A Nossa Teoria
 
Bem, desta coisa segura nós tiramos, por analogia, esta observação histórica.
 
A - Na luta entre os filhos da Virgem e os da Serpente, depois de um embate, um lado sempre reduz o outro a um resto
 
Na luta entre Nossa Senhora e o demônio, entre os Filhos da Virgem e os da Serpente, sempre que um dos dois lados vence, ele reduz o outro a um resto, quase a nada. Por sua vez, se esse resto não se deixa aniquilar, quando ele ressurge - não digo que haja um fatalismo histórico; não é necessário que o outro fator ressurja - ele ressurge mais forte do que era no período de seu esplendor. 
 
B - Por isso a violência da  Bagarre  será maior que as anteriores:o Anti-Cristo mata Elias, e o "resto", Nosso Senhor, destrói definitivamente o Mal
 
Isso explica porque a violência da  Bagarre  vai ser maior do que todas as anteriores. E explica também que, quando chegar a ocasião do Anti-Cristo, o demônio, por assim dizer, manda seu primogênito à terra, e Deus manda Elias, que é por excelência o varão da destra de Nossa Senhora. O Anti-Cristo mata Elias e daí o ponto final, o "resto", Jesus Cristo, esmaga definitivamente o resto mau.
 
C - Exemplos de "restos": o povo judeu
 
Os Srs. considerem a nação judáica. Ela foi péssima. Em consequência foi dispersada e passou na humilhação não sei quanto tempo. Entretanto, a partir do momento em que nossa tibieza livremente permitiu que a direção dos acontecimentos passasse para os filhos dela, eles ressurgiram mais poderosos do que eles eram quando tinham uma nação.
 
Se confrontarmos o poder judáico hoje com o que era o poder judáico no tempo da Judéia, para olhos judáicos, o templo de Salomão não é nada em comparação com a fortuna do Rotschild, evidente.
 
E de fato aqueles sonhos messiânicos a respeito do domínio do mundo - o domínio de Nosso Senhor Jesus Cristo com o  sinal menos na frente - eles estão realizando do mar até o outro mar, da montanha até a montanha. Eles ressurgiram muito mais tremendos do que eles eram.
 
D - No auge do ressurgir do poder deles, começamos a surgir nós. Nós somos o "resto", a "continuidade" do quê?
 
Agora, no auge da ressurreição do poder deles, começamos nós a aparecer, como um resto que volta, pois  se há algo que somos, o que nós somos é o "resto".
 
Então, quem é que nós somos para que uma lei milenar da Teologia da Hitória tornasse necessário o nosso aparecimento? Nós somos o resto de quê? Como quem diz "resto", diz de algum modo "continuidade", nós somos os continuadores do quê?
 
A resposta a estas perguntas faz com que o que estamos dizendo sobre nós mesmos tome uma força muito maior. Passemos, pois, a elas.
 
3 - Nós somos uma continuidade de uma graça
 
A - Há uma continuidade que está nas intenções de Deus. Consiste num certo gênero de graças que Ele quer dar em épocas diversas, e que não supõem necessariamente continuidade histórica nem de pessoas
 
Como é que uma coisa, nesta ordem de idéias, pode ser continuidade de outra?
 
Em primeiro lugar, pode haver uma continuidade que esteja toda nas intenções de Deus.
Essa continuidade consiste num certo gênero de graças que Ele quer dar à Humanidade em épocas históricas diversas, e que, à medida que são correspondidas, Ele aumenta ou diminui. Ou pode até aumentar em ordem contrária à correspondência.
 
Houve uma ingratidão, Ele dá uma graça maior. Mas essas são graças que não exigem necessariamente que haja uma continuidade histórica de uns com os outros homens que as recebem .
 
Podem ser grupos, ou podem ser até pessoas que nem se conhecem e que não tenham uma espécie de continuidade, e que repousa inteiramente na continuidade da ação divina.
 
B - Segunda continuidade: de pessoas e de ação divina, em que a graça é dada, através de longa sucessão, a um para que a transmita a outro. Ex.: S. Luís G. Montfort e os ultramontanos do século passado
 
Há um outro modo pelo qual se pode dar essa continuidade, que é um complemento desta. É a continuidade de pessoa a pessoa que têm relações umas com as outras, de maneira que Deus dá a graça para um indivíduo A, e deseja que esse indivíduo a transmita para o indivíduo N, através de uma longa sucessão. A esta N vai ser dado mais ainda, mas que a causa segunda atue também e haja. Portanto, uma continuidade de indivíduo a indivíduo, além da continuidade da ação divina.
 
Por exemplo, S. Luís Grignion teve uma indiscutível  continuidade deste tipo com o movimento ultramontano do século XIX. Através da influência dele sobre a Vandeia, levantou-se a bandeira do exército católico e monárquico, defendendo a idéia do Altar e do Trono, ou seja, da ordem espiritual e temporal, contra o igualitarismo que começava a ser percebido e detectado. Era a chouannerie, que, por sua vez, acabaria embicando no movimento ultramontano do século passado.
 
C - Terceira continuidade: a de instituições que vão  recebendo, ao longo dos séculos missões mais ricas, até chegar um momento culminante da História
 
Existe uma terceira forma de continuidade, mais rica até do que a segunda, e que é a continuidade de instituição, que ao longo dos séculos vai recebendo essas missões cada vez mais ricamente até o momento culminante.
 
D - Nós somos continuadores dessas três formas de continuidade. Demonstração.
 
a - Desde que o homem soube dos planos da Encarnação, soube que o sentido mais denso da História ia começar. O Profeta Elias foi um desses; assim, foi o primeiro devoto de Nossa Senhora
 
De que modo essas continuidades coincidem em nós?
 
Desde o primeiro momento em que o homem soube da Encarnação, ele soube também de Nossa Senhora e soube das vitórias de Nossa Senhora. Soube o sentido mais denso da história que ia começar. mas todos os intérpretes estão de acôrdo em afirmar que, depois disto, o primeiro episódio na Escritura que fala de um modo mais definido, mais claro, mais nítido a respeito de Nossa Senhora é exatamente quando o profeta Elias viu aquela tal famosa nuvem da qual veio depois a chuva, chuva enorme, primeiro prenúncio de Nossa Senhora.
 
Então, nós temos Santo Elias que aparece como o primeiro grande devoto de Nossa Senhora e como aquele que deverá intervir em Suas grandes batalhas na luta contra o Anti-Cristo. Ele é o grande devoto d'Ela. Ele, o portador de uma graça, de um espírito, está na cabeceira de toda a série de grandes luminares de Igreja que falaram de Nossa Senhora. Ele é o primeiro de uma graça mariana, a qual é um prenúncio da graça do advento do Verbo. Como a nuvem produz a chuva, Nossa Senhora produziria a vinda do Messias.
 
b - Vieram depois S. João Batista, São João Evangelista etc., até S. Luís Maria Grignion de Montfort, que foi o mais alto expoente da devoção mariana
 
Depois vem S. João Batista que exultou no seio materno, quando ouviu a voz do Nossa Senhora.
 
Em seguida, S. João Evangelista foi aquele a quem Nossa  Senhora foi dada como Mãe. Mais adiante, Santo Efrém, o grande devoto de Nossa Senhora, o "Citarista do Espírito Santo". Depois, passando por outros, entre os quais S. Bernardo, nós vemos que um crescimento da Mariologia e da devoção a Nossa Senhora na Igreja alcança seu mais alto expoente em S. Luís Maria Grignion de Montfort, porque eu não creio que a respeito da devoção a Nossa Senhora se possa dizer algo de mais alto do que S. Luís Grignion de Montfort disse. Aquilo pode ser comentado, pode ser desenvolvido, mas não pode ser acrescido... Eu fico pasmo com a riqueza, com a solidez daquilo! Eu não sei o que se possa dizer mais do que está ali dentro! Eu acho um nec plus ultra!
 
Os Srs. vêem, é um conjunto de graças mariais, trazendo consigo o sentido da luta contra a heresia, inerente a todos os glorificadores de Nossa Senhora e marcando uns pontos altos de caráter místico e religioso na luta entre o bem e o mal. São, vamos dizer, emissões de graças de Deus que vão preparando o Reino de Maria, porque à medida que a Mariologia vai crescendo, naturalmente vem o Reino de Maria.
 
c - Nós somos continuadores dessa graça de implantar o Reino de Maria, que tem seu nascedouro em Santo Elias, chega a um apogeu em S. Luís Grignion, e que terá seu ápice novamente em Elias, na batalha contra o Anti-Cristo.
 
Entretanto, tudo quanto se fêz para difundir a devoção de S. Luís Grignion de Montfort, não deu na aparição de algo como o Grupo. A aparição do Grupo, com todas as suas misérias, para quem Nossa Senhora olha e pede para restaurar-Lhe o Reino, é uma coisa que está na linha de um movimento que, visto a partir de Deus, das graças da Mariologia, é uma continuidade que vai de Santo Elias,e passando por todos esses santos que acabo de mencionar. Graça que aflora em nós, não como definição de uma doutrina, mas como a realização de um anseio de S. Luís Grignion de Montfort: os Apóstolos dos Últimos Tempos, que são uma consequência de toda uma série triunfal de aparições de Nossa Senhora.
 
A graça que recebemos de querer implantar o Reinado de Maria é uma continuação dessas graças que têm no seu nascedouro Santo Elias, e que vão dar nele  porque, na suprema batalha, será ele quem conduzirá a luta, que é sempre a luta por Ela. Ele está no começo, ele está no fim. Esta enorme grandeza dele nos atesta uma espécie de movimento que volta à sua origem. Ele é a origem e depois o movimento culmina nele de novo.
 
d - Esse filão de pessoas teria tido uma conexão histórica? Parece que sim. O espírito de Elias comunicado a Eliseu
 
Passemos para o segundo tipo. Este filão de pessoas teriam tido uma conexão histórica, uns teriam conhecido os outros?
 
No que diz respeito a Santo Elias e seus continuadores, há poucos dados. Mas eu digo que esses dados levam a crer que houve continuidade no Antigo Testamento. Nós, antes de tudo, tivemos notícias daquele episódio muito misterioso do espírito de Elias que se comunicou a Eliseu. Elias tinha uma missão, e ele foi arrebatado num carro de fogo. E Eliseu, convidado a continuar a obra de Elias, respondeu a Deus que só poderia fazê-lo se recebesse o "duplo espirito de Elias" - expressão tão parecida com "Espírito de Maria" usada por S. Luís Grignion. Então, no momento de subir ao Céu, Elias jogou seu manto sobre Eliseu e com o manto passou-lhe seu espírito.
 
Quer dizer, é um espírito, mas é um espírito tão definido, que meio carismaticamente se transmite através de um manto, de um objeto material. Uma espécie de sacramental que Elias transmitiu a Eliseu, como uma espécie de legado preciosíssimo.
 
e - Os essênios teriam sido continuadores de Elias e teriam dado na Ordem do Carmo
 
Ora, tudo leva a crer que os essênios, ao longo do Antigo Testamento, formaram  uma ordem religiosa que se dizia fundada por Santo Elias. Diz-se S. João Batista foi essênio e até que Nosso Senhor Jesus Cristo o foi. Esses essênios provávelmente tiveram um carisma que se foi estendendo através das várias gerações para dar na Ordem do Carmo.
 
f - Por esse lado haveria uma continuidade de Santo Elias à Ordem do Carmo, com teólogos sustentando de quando em vez a teoria de S. Luís G. de Montfort 
 
Nós teríamos, assim, uma continuidade de Santo Elias para a Ordem do Carmo, na qual, sustenta D. Mayer, houve toda uma continuidade de teólogos (não ligados pelo tempo, mas que surgiam de quando em quando) que sustentavam a teoria que ulteriormente S. Luís M. G. de Montfort haveria de dar no Tratado da Verdadeira Devoção.
 
Os Srs. vêem, portanto, que, dentro de um terreno nebuloso em que possuímos poucos, mas muito importantes dados hitóricos, tudo é sugestivo de uma grande concatenação, de um grande filão de almas que se tocaram umas às outras.
 
g - Em que aquele imponderável quase secreto da devoção a Nossa Senhora de que fala S. Luís G., leva à idéia de um espírito por excelência que chegou até nós, numa concatenação que se toca como que pela ponta dos dedos.
 
É um ambiente cheio de penumbra, mas no qual, quanto mais se olha, tanto mais tudo convida a afirmar que aqueles tais mistérios da graça e da natureza, aquele tal " quid ", de que fala S. Luís Grignion na introdução do Tratado, e que é um imponderável quase que secreto da devoção a Nossa Senhora. Leva também à idéia de um espírito, que é um espírito por excelência, o mais requintado de todos, o mais agudo de todos, o mais rico de todos e que, por uma continuidade, vai se transmitindo, e que chegou até nós.
 
Nós percebemos que isto forma um imenso veio que, visto no seu conjunto, acaba se nos apresentando como uma unidade de homens que se tocaram uns aos outros pelo menos com a ponta do dedo.
 
h - Isso daria sentido à nossa pertencença à Ordem Terceira e ao empenho que o demônio tem em dela nos fazer  sair
 
Então, nossa inserção na Ordem Terceira teria um sentido evidente, e toda essa luta do demônio para nos fazer dela sair também tem seu sentido. Sobretudo se atendermos ao fato de que Santa Teresa viu, numa futura crise da Igreja, carmelitas lutando nas batalhas de Nossa Senhora como verdadeiros heróis.
 
Depois, os Srs. sabem, eu conheci o Tratado da Verdadeira Devoção através de Santa Terezinha, que foi carmelita e que carmelita!
 
Então, vejam, as coisas se tecem até nos pormenores puramente individuais, fazendo de nós uma continuidade de graça, mas uma continuidade, por assim dizer institucional, que vem desde Santo Elias.
 
i - São das tais verossimilhanças que são tão, tão verossímeis, que acabam servindo de demonstração.
 
Analisadas estas sugestões históricas, eu não chegaria a dizer que era absurdo que isto não fosse assim. Mas eu diria que, depois de feita a história, o espírito acaba recusando a admitir que isto não seja deste modo.
 
Não é propriamente absurdo mas o espírito se recusa. É uma das tais verossimilhanças, que são tão, tão, tão verossímeis que acabam servindo de demonstração.
 
j - Pergunta: "O Sr. dá a isso o caráter de verdade inteiramente demonstrada"? Resposta: de hipótese tão sumamente provável, que negá- la seria absurdo
 
Pelos argumentos que dei, ao menos no meu espírito, isto fica na linha de uma hipótese sumamente provável, cuja veracidade se demonstra por este lado, que negá-la vê-se que seria absurdo. Porque, depois que a hipótese se levantou - não posso dizer que há uma prova - mas a partir do momento em que a hipótese se levantou, a gente olhando tudo o mais quanto a gente sabe do assunto, percebe que seria um absurdo que não fosse isto. E então, deste lado é que a certeza da hipótese se faz. É assim que a argumentação se faz.
 
k - Nossa graça é desse porte; por mais que sejamos capengas e pouco generosos, estamos na linha das graças e das pessoas
 
A nossa graça é desse porte. E por mais que nós sejamos pessoinhas capengas, pouco generosos, nós estamos nessa linha de graças e nesta linha de pessoas.
 
4 - Se, do ponto de vista doutrinário, não acrescemos nada ao movimento mariológico, do ponto de vista Inimititias Ponam acrescemos muito
 
A essa primeira idéia, assim um pouco colateralmente, seria preciso colocar uma segunda: se é verdade que nós, do ponto de vista doutrinário, não acrescemos nada ao movimento mariológico, nós, do ponto de vista do "Inmicitias ponam" nós acrescemos muito.
 
A - Papel da RCR e do MNF nessa batalha
 
Porque a RCR (que não é senão a espinha dorsal de um corpo que tem cabeça, membros e costelas, que é o MNF) e sobretudo no MNF, se dá o fato de que toda natureza, todo significado, todo o alcance, todos os métodos da luta ficam postos muito mais claros. O que é, de algum modo, um esclarecimento a respeito da própria Nossa Senhora enquanto inimiga, enquanto General dos exércitos de Deus. E dos métodos de luta dos filhos d'Ela contra a serpente, e da própria luta d'Ela contra a serpente, que se esclarece nisto.
 
De maneira que não é só dizer que nós somos o começo dos Apóstolos dos Últimos Tempos. Mas é dizer que, mesmo nesse corpo doutrinário, alguma coisa nós damos que, sem ser diretamente sobre a celeste pessoa d'Ela, entretanto diz muito a respeito d'Ela.
 
É um pouco como quem, para dar a história de Foch, não fizesse tanto a biografia dele mas desse o sentido da luta que ele conduziu contra os alemães. Seria algo que mostraria muitos aspectos da personalidade dele, não é verdade?
 
B - Que é uma continuidade histórica
 
a - As nações americanas são uma continuidade da Europa medieval, que, por sua vez, são uma continuação da Civilização Cristã
 
As nossas nações americanas são uma continuidade histórica da Europa medieval. É preciso notar bem isto.
 
A Civilizaçã Cristã que temos é o prolongamento da Civilização de Constantino, de Carlos Magno etc.
 
Eu protesto com toda força contra essa idéia de que Carlos Magno, Constantino, S. Luís, S. Fernando, Santo Henrique, etc., são figuras que nada têm que ver com nossa história. É a mesma coisa que eu dizer que a história de meu pai não tem nada que ver com a minha...
 
b - porque a história do Brasil começa assim "houve uma vez Portugal"; e a deste país: "houve uma vez um Constantino, um Carlos Magno"
 
A história do Brasil começa assim: "Houve uma vez Portugal..."  Mas a história de Portugal começa assim: "Houve uma vez um Império Romano...". E, portanto, assim: "Houve uma vez um Imperador Constantino... Houve um Carlos Magno..." etc.
 
Portugal é uma parcela da Cristandade. Espanha é exatíssimamente a mesma coisa.
 
Portanto, nós somos uma continuação da Europa Medieval. Isto é o primeiro princípio que é preciso pôr por inteiro.
 
c - Qualquer coisa que não for isso, é nacionalismo besta
 
Qualquer coisa que não for isso é um nacionalismo besta.
 
C - A aristocracia rural brasileira era continuidade histórica da nobreza portuguesa, como o Império do Brasil o era do reino de Portugal
 
Segundo ponto, a aristocracia rural brasileira - perpetuada no Império -  era uma continuidade histórica da nobreza portuguesa, como o Império do Brasil o era do Reino de Portugal.
 
a - assim, somos, por descendência de sangue e continuidade de missão história, os descendentes dos Cruzados que expulsaram os mouros de Portugal. Essa é a nossa honra
 
Nós somos, em parte por descendência de sangue, em parte por continuidade de missão histórica, os descendentes dos Cruzados que expulsaram de Portugal os mouros. Essa é a nossa honra. 
 
b - "E foi numa casa dessa aristocracia que colhi essas doutrinas em estado vivo"
 
E foi numa casa dessa aristocracia que eu colhi essas doutrinas em estado vivo, não como vinham pelos livros, mas pela continuidade histórica verdadeira.
 
c - Importância, para essa continuidade, da presença dos Príncipes, filhos de S. Luís e do Beato Nun'Alvares, entre nós
 
Em S. Paulo e em outros lugares do Brasil há muitos outros remanescentes dessa aristocracia rural e há sobretudo D. Luís e D. Bertrand, cujas presenças são altamente simbólicas dentro dessas perspectiva.
 
Não é pela honra boba e social de serem Príncipes, porque, socialmente falando, infelizmente no Brasil isso perdeu seu valor. Humanamente falando, ninguém dá importância a eles. Socialmente falando, o título vale pouco. Mas, históricamente, são eles filhos de S. Luís, filhos do Bem-aventurado Nuno Alvares Pereira, fundador da Casa de Bragança, e que estão lutando conosco. Há uma continuidade importantíssima aí.
 
d - E os filhos do povo que nos acompanham, são filhos da imigração católica, da Cristandade de várias eras
 
Aqueles que são gente do povo e nos acompanham são filhos do povo católico português, do povo católico italiano, se quizerem são filhos do povo pouco mais ou menos católico sírio, mas enfim são cristiandades de várias eras que confluem para cá com a fé que receberam de seus maiores.
 
D - Somos restos reunidos por Nossa Senhora. Somos bem a raça da Virgem que luta contra a Serpente
 
Tudo isto é um resto historicamente contínuo. Nós somos restos da Cristandade, restos da Igreja reunidos por Nossa Senhora. Nós somos bem a Raça da Virgem que luta contra a raça da serpente.
 
E - Logo, nós somos este resto que voltará por uma impulsão incontenível da graça para atuar na Bagarre e Grand Retour
 
Se nós somos resto, se o resto volta, segue-se que resto que este resto que nós somos, voltará.
 
Este resto voltará por uma impulsão incontenível da graça, que, por uma ação destruidora e justiceira, a bagarre , irá por abaixo a Revolução e, por uma obra de sua misericórdia, o Grand Retour , irá restaurar todas as coisas.
 
F - E a praticabilidade da obra que temos diante de nós está no fato de que tudo será feito pelo próprio Deus
 
Não há, pois, nenhuma incongruência em supor que esta ordem revolucionária seja destrutível, porque o grosso da destruição não vai ser feita por nós.
 
A maquininha, que vai tocar alguns pontos fundamentais, vai parecer aos olhos dos homens como a grande destruidora. Mas, quando se prestar bem atenção, ver-se-á que, de fato, o semear a divisão entre os maus, o atirar uns contra os outros etc., tudo foi feito pelo próprio Deus.
 
Compreende-se, então, a praticabilidade da obra que nós temos diante de nós.
 
G - Se bem que nosso Estandarte será o ponto de aglutinação dos que querem instaurar o Reino de Maria, isso será obra de uma ação especial da graça tocando as almas dentro e fora da TFP para que atinjam a santidade necessária
 
Por outro lado, é claro que nosso estandarte vai ser o ponto da reunião, o ponto de adesão de todos que querem instaurar o Reino de Maria. Mas é também verdade que essa será uma ação especial da graça que  terá que tocar as almas dentro e fora do Movimento para que elas possam de fato atingir aquela santidade necessária para a constituição do Reino de Maria.
 
E isso de um modo tal que também o aspecto positivo será feito por uma intervenção capital da graça, e que nossa ação representará o modesto papel dos 7 pães e dos 7 peixes, muito importante por ser indispensável, por ter sido querido por Nosso Senhor, mas apenas isso.
 
5. Grand Retour e Bagarre
 
A - O que entendemos por Bagarre
 
( O Sr. poderia explicitar melhor o que o Sr. entende por  Bagarre e Grand Retour ? )
 
[Bagarre  é uma palavra francesa que significa tumulto, confusão, rixa, motim. Nós, muito brasileiramente, a tomamos num sentido figurado próprio para designar o que julgamos que serão os prováveis castigos preditos por Nossa Senhora em Fátima para o mundo pecador]
 
a - Bagarre: a grande destruição da obra da Revolução
 
A Bagarre , substancialmente, deverá ser uma grande destruição. A destruição da obra da Revolução, o que equivale dizer, de toda a sociedade humana que ela elaborou, dos homens que a lideraram e da obra material que ela marcou com o seu espírito.
 
Essa destruição suporia a convergência de vários cataclismas; uma crise interna que destrua, por obra dos maus, essa obra em conjunto; um morticínio tremendo, guerras, guerrilhas, vinganças particulares e, possivelmente, epidemias, catástrofes cósmicas e termonucleares.
 
b - Provavelmente com uma intervenção sensível e oficial de demônios, com efeitos misteriosos e imprevisíveis
 
E tenho a impressão, embora não possa garantir, de que vai haver uma intervenção direta do demônio, sensível e oficial na vida da Humanidade, mal se disfarçando, e com efeitos também imprevisíveis e misteriosos, pois quem nesta base pode prever qualquer coisa? Mas eu acho que sem isso não vai. Por exemplo, na liquidação final, tenho a impressão de que se vai ver demônios levando gente uivando para dentro do inferno.  Embora não possa afirmar isso, eu digo, entretanto, que seria arquitetônico, razoável, e nada mais.
 
Esse trabalho negativo seria acompanhado de um trabalho positivo, de três grandezas diferentes de baixo para cima, das menos importantes para as mais importantes.
 
c - Muita gente se arrependerá e se salvará antes de morrer
 
Primeiro, muita gente se arrependerá e se salvará antes de morrer.
 
B - Grand Retour : grande retorno dos que restarem às vias do ultamontanismo
 
a - Muitos dos que restarem se converterão seriamente ao ultamontanismo. É o que chamamos Grand Retour
 
Segundo, muitos dos que ficarem vivos se converterão, mas sériamente, para o ultramontanismo. É o que chamamos Grand Retour. É retour, porque é uma volta completa. É Grand porque uma quantidade enorme de gente se converterá.
 
b - Com isso a propulsão da história passará para as mãos dos ultramontanos que organizarão o Reino de Maria e darão origem aos Últimos Tempos
 
Terceiro, com esse Grand Retour a propulsão da história passa automaticamente para as mãos dos ultramontanos, que organizam o Reino de Maria e dão origem aos Últimos Tempos.
 
C - Últimos Tempos e Apóstolos dos Últimos Tempos
 
a - É a última era anterior ao fim do mundo, de que fala S. Luís G. de Montfort, em que a vida da Igreja e dos Estados estará em mãos dos Apóstolos dos Últimos Tempos. É o Reino de Maria
 
O que são esses "Últimos Tempos"?
 
Não são o último finzinho. São a última era, que pode ser muito longa (não é por ser último que deve ser pequena; o último período da vida de um povo pode ser muito longo), e em que a vida, - e não o poder, notem bem - da Igreja e do Estado devem estar em mãos dos Apóstolos dos Últimos Tempos de que fala São Luís Grignion de Montfort, pois deve continuar a haver um Papado que é Soberano; e deve continuar a haver um poder temporal que, na sua esfera subordinada, seja soberano também.
 
b - Em que o principium vitae desse período deverá vir desses Apóstolos assim como na Idade Média vinha de Cluny
 
Mas o principium vitae, a vitalidade, o espírito, vem desses Apóstolos dos Últimos Tempos, como, por exemplo, na Idade Média a vida vinha de Cluny e de suas abadias, embora o poder fosse do Papa ou do Imperador.
 
É certo que o poder deles será inteiramente válido mesmo que não sejam Apóstolos dos Últimos Tempos. No entanto, eles devem deixar-se inspirar, e não governar, pelos Apóstolos dos Últimos Tempos. E poderão ser eles próprios, o que seria a perfeição da ordem, Apóstolos dos Últimos Tempos.
 
c - A duração do Reino de Maria dependerá do Papado e Império se deixarem influenciar pelos Apóstolos dos Últimos Tempos, e da fidelidade destes à sua missão
 
Quanto à duração do Reino de Maria, todo o problema consiste em que o Papado e o Império se deixem influenciar pelos Apóstolos dos Últimos Tempos e em que estes sejam fiéis à sua missão. Porque se um ramo de Apóstolos dos Últimos Tempos fizer como os Templários; ou, se o Papado e o Império não se deixarem influenciar, a coisa cai, vem o fim do mundo.
 
d - Quando estes decairem, a maldade será tão grande que atingirá um climax. Virá então o fim do mundo
 
Quando este fator Apóstolos dos Últimos Tempos cair, a maldade será tão grande, que ela atingirá o seu climax. Porque, uma vez que a perfeição da Igreja foi rejeitada, a iniquidade chegará ao seu cúmulo. E aí seria o fim do mundo, o que é diferente dos Últimos Tempos.
 
Eu receio muito que a rejeição comece pela deterioração dos Apóstolos dos Últimos Tempos. Receio muito. Corruptio opitimi, pessima .
 
e - Como corruptio optimi, pessima, somente os Apóstolos dos Últimos Tempos infiéis poderão derrubar o edifício que virá
 
No fundo, só mãos régias ou sacerdotais poderiam derrubar a Cristandade Medieval. E foram elas que o fizeram.
 
Também, no fundo, só Apóstolos dos Últimos Tempos poderão derrubar o edifício que virá. É tão grande a força das coisas católicas que, ou elas se matam, ou elas morrem. De fora ninguém as derruba. Elas só podem morrer por dentro, não tem conversa.
 
Os Srs. estão vendo que tudo isto tem muito de hipotético; mas, são hipóteses que é preciso fazer.
 
f - Os últimos que permanecerem fiéis serão continuação da raça espiritual de Elias que, pelo muito sofrimento, não passarão pela morte mas serão glorificados em vida e levados para o Céu
 
Nessa hipótese, os filhos de Santo Elias desaparecem? Não. Os últimos que forem fiéis vão ser a continuação dessa raça espiritual bendita, e, alguns autores sustentam que eles não vão morrer porque vai ser tal o sofrimento deles que não passarão pela morte. Serão glorificados em vida, e irão para o Céu.
 
g - Embora hipótese, são aplicações de dados de bom senso e de fé a realidade futuríveis, e isso é tão arquitetônico, que é provável que seja assim
 
Eu tenho muita simpatia por esta hipótese, que são aplicações de dados de bom senso e de fé a realidades futuríveis. Quer dizer, não se pode dizer que isto vai ser assim, mas é preciso admitir que isto é tão arquitetônico, que é provável que seja assim.
 
D - Se somos o resto que permanece em meio à Revolução, somos o resto que voltará. Se somos o resto que voltará, somos o começo dos Apóstolos dos Últimos Tempos. Se somos Apóstolos dos Últimos Tempos, somos o principium vitae do Reino de Maria
 
Eu acredito que só os Apóstolos dos Últimos Tempos e mais um punhadinho de fiéis restarão para o fim do mundo que será o fim dos últimos tempos.
 
Então, o que é que somos nós? Eu acho que se todas essas coisas são plausíveis, prováveis, etc., nós somos, no apogeu da Revolução, o resto que existe.
 
É difícil não achar que o sejamos, porque, se não existe nem em nós, em quem é que existe?
 
Agora, se somos nós o resto que existe, esse resto voltará. Se somos o resto que voltará, somos o começo dos Apóstolos dos Últimos Tempos. Se somos Apóstolos dos Últimos Tempos somos o principium vitae do Reino de Maria.
 
- IV -
Parte biográfica, ilustrativa da teoria dada
 
1 - O modo como as idéias do Fundador se formaram e depois se comunicaram aos seguidores foi à maneira de continuidade.
 
Nós não somos criadores de doutrina nenhuma. Nós somos um resto ideológico, um eco. Pois o modo pelo qual as minhas idéias nasceram no meu espírito, e depois se comunicaram aos Srs., foi bem exatamente à maneira de uma continuidade.
 
Para compreender isso, infelizmente é indispensável um pouco de biografia.
 
A - Nascido da conjunção de duas famílias semi-contra-revolucionárias, recebeu uma herança religiosa e monárquico-liberal, não comuns, mas não ultramontana
 
Eu nasci da conjunção de duas famílias semi-contra-revolucionárias, trazendo, tanto da parte de meu pai como de minha mãe, uma herança católica geral, mas um pouco mais fervorosa e mais séria do que o comum, e uma herança monárquico-liberal, mas liberal mesmo, sem nada de ultramontano.
 
B - No colégio, primeiro contacto com a Revolução através de meninos de famílias mais avançadas no processo revolucionário
 
Eu formei meu espírito nesse ambiente e entrei muito cedo no colégio, onde tive o contacto com o mundo moderno. Embora fosse muito menino ainda, com 10 anos de idade, eu tive um choque enorme no contacto com esse mundo, porque eu percebi a diferença que havia entre o espírito de minha família e o espírito que dominava os meus colegas do colégio, que eram de famílias mais avançadas no processo revolucionário.
 
a - por um fenômeno de gerações, esses filhos eram muito mais avançados que os próprios pais
 
E esses meninos, como filhos dessas famílias, eram mais avançados ainda que os pais. De maneira que, entre eles e eu havia, por um fenômeno de gerações, uma defasagem de uma geração inteira. Daí o meu choque com eles ser muito brusco.
 
b - todo centro visto de um extremo se parece com o outro. Assim sua família, vista em contraste com os meninos, parecia ainda mais conservadora
 
S. Tomás diz que todo ser de natureza intermediária, visto de um extremo, se parece com o outro. Por exemplo, olhando um mulato o preto o acha branco, e o branco o acha negro. É natural. E isto se deu comigo. Minha família, que era intermediária e ideológicamente mulata, vista do Colégio, parecia um prodígio de ordem, de compostura, de distinção, de boas maneira, de seriedade, de decência, de religião.
 
c - daí o ver nela uma série de valores de que era inconscientemente portadora, e criando uma cristalização contra o ambiente do colégio
 
Então, vi nela uma série de valores de que ela era portadora sem ter consciência disso, e fui, aos poucos, com reflexão, etc., etc., cristalizando uma oposição ao ambiente do colégio.
 
d - Uma das primeiras coisas que notou foi uma homogeneidade entre a impureza, a trivialidade e a malandragem
 
Cada um nasce de um jeito. Eu nasci e sou muito cerimonioso, por natureza. Detesto intimidades triviais, brincadeiras, etc. A coisas desse gênero, meu temperamento tem horror. Sou profundamente cerimonioso, por natureza.
 
Depois, minha mãe, muito doente, entregou grande parte de minha educação a uma fraulein alemã da Baviera, que me abriu as portas [da imaginação para] a Corte européia.
 
Meu natural, muito ávido e apto a isso, penetrou nesse inteiramente palácio. De repente, chego ao colégio... são aqueles meninos americanizados, malandros, acanalhados, etc., etc. E me chamava muito a atenção que, os de maneiras mais vulgares, eram também os mais porcos.
 
E formou-se bem, no meu espírito, que a impureza era uma forma de trivialidade e de malandragem.
 
Então, impureza, impiedade, malandragem e trivialidade passaram a ser aspectos de um mesmo estado de abjeção, de desordem, de sordície, que me repugnava inteiramente e com o qual eu entrei em luta.
 
e - Perseguição até na rua quando morre o tio, apresentado como grande inimigo da Religião
 
Pelas tantas, aconteceu que caiu sobre minha cabeça isso assim: logo no meu primeiro ano de colégio um tio meu morreu. E, por ter o mesmo sobrenome, não sei... os padres chegaram na aula e disseram para cada turma: "Morreu um grande inimigo da Igreja, Fulano de tal". Naturalmente corria o zum-zum, caçoadas, etc., etc... E eu, querendo dominar a onda com uma atitude violenta...
 
A coisa foi tão longe que até os moleques da rua me agrediram. Como um menino é capaz de fazer, eu endureci tremendamente minha posição contra tudo isso que se me apresentava como a boca do inferno.
 
f - A alternativa entre a molecagem e a não molecagem, entre a que lhe parecia ser a Cidade de Deus e a que era para ele a Cidade do demônio. Os rudimentos da RCR
 
Na época, no recreio, discutia-se um pouco o assunto molecagem-não-molecagem. Os alunos mais moleques eram os mais porcos, os mais vulgares, os mais sem fé. Na minha cabeça de menino se apresentava a alternativa: minha família é o lugar da ordem, é a "Cidade de Deus" (depois eu verifiquei como isto era falso!!!), onde havia a Fé Católica.
 
Minha mãe - uma pessoa que venero profundamente mas que era liberal - antes de nós aprendermos a falar papai e mamãe, ensinou-nos a mostrar onde estava a imagem do Coração de Jesus.
 
Então, minha casa era "o lugar da religião, da fé, da não-molecagem, da pureza" (porque as porcarias que eles faziam não contavam diante de mim, de maneira que pensava que não as havia), e era o lugar "das boas maneiras, da boa educação". Em casa havia muita cultura francesa, falava-se o francês, o que dava um certo tonus francês ao ambiente da casa.
 
Pelo contrário, no colégio, tudo aquilo me parecia uma espécie de "Cidade do demônio", porque eram moleques, porcos, vulgares e sem fé. Eram o mundo moderno.
 
Não sei se os Srs. estão vendo um rudimento da RCR nesses nexos de quantidade afins entre si, e irrevogavelmente contrárias umas às outras numa luta que domina a vida.
 
g - O hábito das longas divagações e das leituras para explicar o fundo do que era "seu caso"
 
Antes mesmo de começar a tomar o hábito da leitura, eu fazia longas divagações, muito longas. Depois comecei a ler livros de política internacional, de história, etc., para compreender o que é que estes valores tinham de comum, de um lado e doutro, para explicar-me a mim mesmo o fundo daquilo que era o "meu caso", mas que eu percebia que era o caso do mundo .
 
C - De onde começar a perceber a traição de sua família àqueles ideais e a nela perder, com excessão da mãe, a fé, restando-lhe só a verdadeira Cidade de Deus, a Santa Igreja Católica
 
De onde eu perceber a traição de minha família aos ideais que ela parecia ter. Tirando mamãe, e assim mesmo descontando nela o aspecto liberal, eu perdi a fé na minha família.
 
Mas restava-me a verdadeira Cidade de Deus, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, minha Mãe verdadeira.
 
a - A Ela, como fonte de energia e vida, transferiu todo seu amor, confiança, entusiasmo, centralizando isso na veneração ao clero
 
Porque eu tinha começado a prestar atenção e a entender que a Religião Católica era não só a doutrina que justificava as verdades que eu queria defender, mas era a fonte de energia e de vida segundo a qual se tinha esse espírito. E passei a transferir para a Religião Católica todo o meu amor, toda a minha confiança, todo o meu entusiasmo, centralizando tudo isso no clero. Então, uma veneração pelos sacerdotes, pelos bispos. Pelo Santo Padre, nem se fala, uma veneração, não sei, indizível, verdadeiramente inexprimível.
 
Posteriormente, eu percebi também a defecção neste campo.
 
b - Com a defeccção do clero, restou-lhe a Santa Igreja traída, abandonada, perseguida.
 
Então, o que que restou? Restou a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, minha Mãe verdadeira, traída, abandonada, perseguida. Minha Mãe! Eu preferia cair morto aqui a deixar de crer de leve que só Ela é minha Mãe adorável! Mas o clero, na quase totalidade de seus membros...
 
2 - Ao longo desse trabalho ideológico nasceu a RCR e a TFP, pois suas idéias se transferiram aos discípulos.
 
Ao longo deste trabalho de destilação ideológica, nasceu a RCR, os nossos livros. E, para abreviar, o Movimento.
 
A - Nossa ideologia não é senão o legado doutrinário da Civilização Cristã no qual foram desencavadas as verdades esquecidas.
 
Ideologicamente, o que é isso? É o legado da Civilização Cristã como era vivo nas aparências da vida de família que peguei , como o sol que depois que se põe, embora esteja posto, ainda deixa uma certa claridade que se pode chamar dia.
 
Foi isso que eu peguei da Civilização Cristã, à qual eu dei, pelo favor de Nossa Senhora, toda minha fidelidade. Eu tomei esse legado doutrinário e fiz com ele uma obra de arqueologia, desencavando de dentro dele tudo o que eram as verdades esquecidas e fazendo tudo quanto so Srs. estão vendo.
 
B - Não como doutrina nova, mas como alguém que toma um tecido já começado e continua a tecê-lo
 
Notem bem o fato fundamental: isso nunca foi uma doutrina nova. Nem uma obra nova. É como quem toma um tecido que está tecido até uma certa parte, e continua a tecê-lo. É uma explicitação do que os maiores pensavam; é uma arquitetonização do que eles pensavam. Mas a matéria prima sacrossanta foi deixada por eles. A isso dou muita importância.
 
C - Por isso, nosso apostolado é o de "eco", o de quem, como discípulos da Sagrada Hierarquia, pega a doutrina do passado e a repete, ampliando-lhe o som. Na ordem ideológica, é a suprema fidelidade
 
Qual é, pois, ideologicamente o nosso apostolado? É um apostolado de eco. Toda nossa doutrina é o eco do magistério que recebemos. O eco amplia o som. Não o conserva apenas, mas o amplia. Assim a nossa doutrina amplia a do passado, mas como o eco.
 
O único sino verdadeiro é a sagrada hierarquia. Se ela emudeceu, nós continuamos sua voz e a ampliamos. Mas não como o sino: apenas como discípulos, como o eco. O eco é um discípulo do sino. Nosso apostolado é o apostolado de discípulos.
 
Na ordem ideológica é a suprema fidelidade. Não se pode levar a fidelidade mais longe.
 
Quem somos nõs enquanto Grupo
 
I - Nõs somos um Grupo Profético
 
Na primeira parte desta série nós tratamos de nós em função de nosso fim. Na segunda, vimos se estávamos proporcionados a ele. Vamos agora entrar noutra ordem de idéias, isto é, ver quem somos nós enquanto Grupo.
 
1 - Nosso Grupo é um Grupo Profético
 
A - Conversa com D. Mayer .
 
Eu já contei a um ou outro uma conversa que tive com D. Mayer. Foi ainda antes de mamãe morrer. Portanto, antes de 1968.
 
Estávamos os dois tomando refeição em casa (mamãe estava de cama). E ele - lembro-me ainda do jeito dele - estava mexendo uma xicarazinha de café, na sobremesa. (Os Srs. sabem que mexer uma xicara de café é um gesto altamente pensativo). E, de repente (estávamos numa conversa muito íntima) ele escorregou o seguinte:
 
a - Objeção: "na atual situação anormal da Igreja, compreende-se a existência da TFP. Mas, depois da Bagarre, com uma Hierarquia que cumpra sua missão, ela não terá mais razões de ser";
 
"Eu compreendo bem a posição do Grupo na atual situação da Igreja. Mas eu não vejo bem como ele, numa situação normalizada da Igreja, poderia existir. Porque o Grupo  tomou a si tais prerrogativas, tais interesses na direção da Igreja, uma função tal, que, dentro de uma Hierarquia que cumpra sua missão, o Grupo não tem razão de ser. Eu não sei qual será a posição dele depois da Bagarre ...".
 
b - Resposta, 1: O Grupo sempre pertencerá à Igreja discente como discípulo e súdito, como também o será da classe social dirigente surgida no Reino de Maria;
 
Eu respondi a ele: "D. Mayer, a posição do Grupo, eu a entendo da maneira seguinte: depois da Bagarre, o Grupo nunca deverá pertencer à Igreja docente; ele permanecerá sempre na Igreja discente. Ele é discípulo, é súdito.
 
"O Grupo também nunca terá o governo de um Estado. Seu papel é de ser súdito dos reis, dos imperadores, dos senhores que nascerem da ordem histórica criada no Reino de Maria.
 
c - 2: Terá, entretanto, a missão de enunciar, a título de opinião privada, a doutrina verdadeira e a falsa em matéria de Revolução, e os rumos a serem seguidos para se combater a doutrina falsa e modelar o espírito da Humanidade no sentido contra-revolucionário
 
"Mas eu entendo que o Grupo tem a missão de enunciar, em matéria de Revolução e a título de opinião privada, qual é a doutrina verdadeira e qual a falsa; quais os rumos que devem ser seguidos para combater a doutrina falsa, para fazer triunfar a verdadeira, para modelar todo o espírito da Humanidade de acordo com a posição contra-revolucionária, e para atingir a luta contra a Revolução.
 
d - 3: Um Papa pode não seguir isto, mas ái dele, porque suas mãos ficarão maculadas com o crime da derrubada do Reino de Maria.
 
"Um Papa pode não seguir isto; é o direito dele. Ai, entretanto, daquele que não seguir, porque derruba o Reino de Maria e fica com as mãos maculadas com esse crime! "O que é que Vossa Excelência acha deste modo de ver?".
 
Ele, continuando a mexer interminavelmente a xícara mas me olhando fixamente com uma posição de cabeça um pouco inclinada e os olhos assim... - ainda lembro-me da cena como se fosse hoje - me respondeu:
 
e - "Essa era a posição dos profetas no Antigo Testamento. Não eram forçosamente reis nem sacerdotes, mas sua missão era a de, sem jurisdição, guiar os reis e sacerdotes exprimindo-lhes a vontade divina".
 
"Essa era a posição dos profetas do Antigo Testamento. O profeta não era o rei nem era o sacerdote, embora  per accidens  tenha acontecido que algum rei ou algum sacerdote tenham tido uma missão profética. A missão do profeta era guiar o rei e os sacerdotes, mas sem jurisdição. Ele é um guia, alguém que exprime a vontade divina. Os reis e os sacerdotes que não seguiram foram punidos. Mas ele não era rei, nem sacerdote. É isso que V. entende?".
 
f - "Prever o futuro é uma tarefa secundária do Profeta. Sua missão principal é a de conhecer as vias de Deus e indicá-las ao povo eleito".
 
Depois acrescentou: "Prever o futuro era uma tarefa secundária do profeta, não era a tarefa principal. A principal missão do profeta era conhecer as vias de Deus e indicá-las ao povo eleito".
 
g - Isso está bem para o Antigo Testamento. Mas vale ainda para o Novo?
 
Eu disse: "D. Mayer, esta conversa tomou uma gravidade que não permite mais que ela seja uma mera conversa entre Plínio e D. Mayer. Ela é agora uma conversa de um fiel com um bispo da Igreja Católica. Pelo amor de Deus, eu lhe peço que me diga se a nossa posição, no Novo Testamento, é heterodoxa".
 
h - "Isso é inteiramente ortodoxo, e pode existir assim no Novo Testamento".
 
D. Mayer respondeu: "Não, ela é inteiramente ortodoxa. Isto pode existir assim no Novo Testamento".
 
i - Esta é a idéia do que é que o Grupo julga ser
 
Eu disse: "Bem, Vossa Excelência tem aqui, então, a idéia do que é que o Grupo julga ser".
 
Ele ficou quieto e mudou-se de assunto.
 
B - Provam-nos as nossas obras...
 
Se se perguntar se é o que o Grupo tem feito, eu acho que é indiscutível que  sim.
 
a - O caráter profético da R-CR
 
Quando o Dr. X fez uma saudação aos que partiam para o Concílio em 1962, ele teve esta expressão que me pareceu muito feliz. Ele disse: "Bastaria que o Concílio tomasse a R-CR como centro das cogitações a partir das quais ele vai doutrinar e legislar, para a situação do mundo estar salva".
 
O Dr. X nessa ocasião certamente não sabia deste fato que estou contando. Entretanto, sem querer nem pensar nisso, enunciou algo que é o que D. Mayer  chama, num sentido que terá com certeza amplitudes maiores ou menores, mas num dos sentidos plausíveis da palavra, o caráter profético da R-CR.
 
b - sendo da R-CR, também o é de seu autor, e, por participação, daqueles para quem o livro foi escrito
 
Mas se esse caráter profético é da R-CR, seria difícil negar que ele o é também de quem escreveu a R-CR. E seria difícil negar que ele, por participação, é também daqueles para quem foi escrita a R-CR e a quem incumbe, sob a direção do homem da R-CR fazer a luta contra a Revolução.
 
c - o profetismo, visto assim, é um carisma que não foi privilégio apenas da Sinagoga, mas que continuou na Igreja
 
Portanto, o profetismo assim visto é um carisma que, é evidente, continuou na Igreja e não foi apenas privilégio da Sinagoga.
 
C - ... E a nossa vida
 
a - A pré-história do Grupo mostra que a Providência, apesar de longos períodos de aparente abandono, lhe fornecia dados e elementos que foram constituindo a possibilidade de ser, em determinada hora, um grupo carismático
 
Ao longo de minha vida, ao longo da pré-historia do Grupo, apesar de parecer que a Providência nos tinha abandonado várias vezes, apesar de parecer que Ela não nos dava importância, que não nos endossava, Ela nos ia dando uma porção de dados, de elementos, que foram constituindo para nós as possibilidade de ser o Grupo carismático numa determinada hora. Para se constatar isso, é só questão de refazer a história do Grupo.
 
b - Permitiu depois longa prova de desinteresse pessoal e de confiança levada ao verdaeiro absurdo, o que caracteriza o profeta. Ele tem que ser mártir de sua própria missão
 
Depois, Ela permitiu que, longamente, houvesse uma prova. Uma prova de desinteresse pessoal e de confiança, levada aos maiores sacrifícios, ao verdadeiro absurdo, que é o que caracteriza o verdadeiro profeta. O profeta tem que sempre dar prova de confiança na Providência. Sua ação tem que ser absurda, salvo um auxilio d'Ela, do contrário, não é profeta. Ele tem que ser desinteressado, tem que ser mártir de sua própria missão, senão não é profeta.
 
Essa prova - a espera - foi de algum modo o pior dos martírios. Mas foi uma espera que Deus quis que eu tivesse, como quis que Noé tivesse, que Abraão tivesse, que Nosso Senhor Jesus Cristo tivesse - poder-se-ia montar uma teologia a respeito disso - para afinal chegar a um determinado momento em que, inexplicávelmente, aquilo que a gente pensava que não frutificava, começa a frutificar... na última hora.
 
D - É o que o momento histórico exige
 
a - Houve algo a dizer ao mundo sobre seu pecado que nem Fátima, nem os documentos pontifícios, nem grandes Santos previram, e cuja plenitude deveria ser predita por nós
 
Houve algo a dizer ao mundo, sobre seu pecado, que os Santos não previram (p. ex., S. Pio X, Santa Teresinha, mesmo S. Luís Grignion), que a Igreja não previu em nenhum documento pontifício, que Fátima não previu, mas cuja plenitude deveria ser predita por nós.
 
Ora, isto corresponde completamente à nossa doutrina do Eliato, do profetismo.
 
b - A Providência permitiu esse silêncio porque queria exatamente que o profetismo aparecesse, levando adiante uma ação que recolhe em si todas as graças de Fátima
 
A Providência permitiu o silêncio da Igreja e dos Santos exatamente porque queria que o profetismo nascesse.
 
Quer dizer, Nossa Senhora quis instituir um grupo profético, um grupo por quem, sem milagres, pela inspiração, fosse dado prever o que aconteceu,  mais definidamente do que  em Fátima está previsto. Dizer coisas que a mensagem de Fátima explica, mas que contém muito mais do que a mensagem de Fátima contém. E foi dado a esse grupo mais do que isso, levar adiante uma ação que recolhe em si todas as graças de Fátima e que é a única coisa que existe no mundo atual que possa parecer um instrumento humano para a vitória do Imaculado Coração de Maria.
 
E notem, Fátima não foi a nossa origem. Nós não começamos a pensar o que pensamos porque vimos Fátima. Quem me conhece há mais tempo, pode atestá-lo. Ná houve um gesto, um ato, um desejo meu que  não representasse uma tendência para o que está hoje. Vendo as minhas primeiras conversas de menino, percebe-se que o profetismo tinha começado a nascer.
 
c - Portanto,  foi-nos dada uma missão nova, profética, extra-oficial, mas que os homens têm que tomar em consideração
 
Portanto, uma missão nova, uma função nova, que não foram dadas a outros, mas que foram dadas a um poder profético e o poder profético investido de uma missão, é verdade, extra oficial, entretanto, evidente... evidente pelos fatos... e que os homens têm que tomar em consideração.
 
Ela não é oficial porque não foi objeto de uma instituição divina direta, nem foi oficialmente instituída pela Igreja de Deus; mas,  quand même , uma certa instituição oficial não lhe falta.
 
d - Só se compreende que a Providência possa ter abandonado a Igreja ao ponto em que abandonou desde que tivesse instituído o profetismo. Do contrário Ela teria desertado da Igreja
 
Por isto que, se todos os estudos sobre o Papa herege são verdadeiros, só se compreende que a Providência possa ter abandonado a Igreja ao ponto em que a abandonou, desde que tivesse instituído o profetismo. Porque, do contrário a Providência teria desertado da Igreja. E não haveria na Igreja, hoje, lugar nenhum, nem grupo nenhum, nem pessoa alguma à qual se pudesse apelar para encontrar o verdadeiro caminho.
 
Portanto este profetismo brota do solo sagrado da Igreja, pelas leis da Igreja.
 
Na derelictio da autoridade papal e das autoridades legítimas, na derelictio geral, algo fica de pé. E o que é? O Profetismo.
 
c - Se nem ele permanecesse de pé, o que sobrava? Se não existíssemos seria o caso de procurar algo como nós. Procurem! Não existe.
 
E uma pergunta se impõe: se nem esse profetismo ficasse de pé, o que é que restava? Logo, tinha que ficar de pé.
 
Se não houvéssemos nós, era o caso de procurar algo como nós dentro da Igreja Católica pela face da terra. Procurem!... não existe.
 
Alguém poderá dizer: "Não existe, mas poderá aparecer". Eu respondo: "Pode ser que apareça. Mas, então, devemos dizer que nós estamos pelo menos na linha desse profetismo, e que se deve seguir-nos até isso aparecer.
 
d - Se tudo nos foi dado para preencher inteiramente essa missão, por que esperar que venha um outro?
 
Sem dizer que a hipótese não é muito cabível, pois, uma vez que tudo nos foi dado para preencher inteiramente essa missão, por que esperar que venha outro? Se nós preenchemos a missão, não é funcional que apareça outro".
 
Sempre que este problema ficar difícil para os Srs., lembrem-se: "a não fazer isto, eu vou me guiar por minha cabeça e terei que assumir as responsabilidades. Guiar-me-ei? Assumirei as responsabilidades?
 
Para qualquer um, guiar-se nessas medida e nessas proporções é impossível. Realmente, há um convite universal para as atenções se voltarem para nós e para aceitar conosco.
 
Os Srs. dirão: "O Sr. é um mega!" Eu respondo: "Está bom, vamos dizer que seja; então, nós caímos numa situação de absurdo, porque, com quem se vai acertar o passo? Com ninguém! Ou seria com os velhos nacionalistas de Buenos Aires? Se não é com eles com que é? Com o Cruzado Espanhol? Com Ousset? Com quem então?
 
e - Vasculhamos o mundo inteiro e não encontramos ninguém
 
Se os Srs. me apresentarem alguém, eu interrompo o Simpósio e vou falar com ele e me colocar a seu serviço, com um alívio transubstancial para mim.
 
Nós vasculhamos o mundo inteiro, as menores esperanças. Com que cuidado, com que boa vontade, nós procuramos um por um! Arquiduque Otto, eu me lembro de minha emoção quando fui almoçar com ele em Clairefontaine, quando o conheci, apertar as mãos de um Habsburgo... eu tinha a impressão de que aquilo era sangue sagrado. Bem, ocultismo, miséria! Príncipe Alberto da Baviera, herdeiro de Maximiliano, zero, imoralidade, liberalismo, horrores, bebedeiras, etc... etc... Homem, não houve porta em que nós não batêssemos, não houve horizonte onde nós não fôssemos desiludidos. A mais recente delas Mme. Nhu... nós julgávamos os Nhus uns heróis; não passam de uma espécie de democracia cristã, interconfessional, etc... Os tradicionalistas italianos... tudo se desfaz em si. O Carlismo na Espanha, com suas várias correntes... Fal Conde, Sivatte, D. Hugo Carlos... recebemos o diretório carlista em Paris, publicações, etc., à procura dos restos sagrados do Carlismo para ver se encontrávamos alguma vida. Nada! Austria, nada! O Sr. Pedro visitou para nós vários círculos da nobreza alemã, austríaca, nada! nada! nada! Irlanda, EUA, nada! Pe. Halton, eu não tenho coragem de dizer aos Srs. que nessa crise sigam o Pe. Halton.
 
Depois, é preciso dizer, com que paciência foi feita essa procura, com que cuidado, com que respeito! E ainda continuamos a procurar, mas não se encontra. Se existe alguém em torno dos Srs. digam quem é!
 
É o caso de dizer como Veuillot: "Interroguei o silêncio e ele não me respondeu". O que que eu possa fazer!
 
Eu sou mega? Ou há uma megacatástrofe?
 
Pelo contrário, eu já disse: nós podemos ser comparados, aos pés da Cruz, não com as Santas mulheres, mas com os ladrões. O ladrão, aos pés da Cruz se converteu. Nós ao menos procuramos estar aos pés da Nosso Senhor na Cruz, e  sofrendo.
 
Esse é o núcleo, ou se tem essa fidelidade ou não se tem nada. Não é uma questão de capacidade; é preciso ter a missão.
 
Se eu dissesse aos Srs. para confiar em outra pessoa, os Srs. não confiariam. Teriam assim um primeiro momento de sobressalto monárquico, daí a dez minutos estavam pensando em outra coisa.
 
f - Todos os que estão unidos a esta Causa, são chamados a participar dessa confiança das gentes
 
E os Srs., enquanto ligados a nós, participam disso, dessa cofiança das gentes. O vigor, o calor que as coisas de voces alcançam vem muito dessa espécie de graça especial da confiança que de fato voces incutem. Agora, rompam conosco e verão se isto continua...
 
E - É o que a harmonia da história pede
 
a - As harmonias da História pedem que Deus tenha instituido profetas da causa da alienação.
 
As harmonias da História pedem que Deus, ao menos em determinado momento, tenha instituido profetas para serem os profetas da causa da alienação. O combate à Revolução, pela contra-revolução, nunca teria atingido toda a radicalização necessária enquanto não fosse um combate de profeta contra profeta.
 
Como a bagarre se define como a luta entre os homens que são partidários da alienação e os da desalienação, no auge dessa luta teria que haver profetas dos dois lados.
 
b - A próxima guerra será de profeta contra profeta, de anjos contra demônios
 
A guerra franco-prussiana de 1870 D. Bosco qualifica de primeira guerra mundial porque impressionou o mundo. A guerra de 1914 foi mundial porque dela tomou parte a porção mais notável do mundo. A guerra de 1938-1945 foi mundial porque quase o mundo inteiro nela esteve. A próxima guerra será mais do que uma guerra mundial, será uma guerra universal. Nela entrará o universo inteiro. E será uma guerra de profeta contra profeta, uma guerra de anjos contra demônios.
 
F - E corroboram-no a nossa ortodoxia, nosso discernimento da situação, nossa missão de guiar, e o nosso discernimento dos espíritos
 
 
a - O carisma de nosso profetismo não é o da profecia oficial, e vale como as visões particulares em relação às revelações oficiais
 
O carisma de nosso profetismo não é o carisma da profecia oficial, a profecia oficial com Nosso Senhor Jesus Cristo está encerrada. Depois d'Ele falar o que mais?
 
Trata-se, pois, de algo que vale como as visões particulares valem em função das revelações oficiais. Mas não se tem o direito de negar as revelações particulares quando elas se apresentam com argumentos verdadeiros. Não é pecado contra a fé, mas pode ser um pecado contra a verdade histórica. Porque há todas as razões para crer nessas revelações como efetivamente tendo sido dadas.
 
b - um aspecto desse profetismo é a ortodoxia; outro, a clareza
 
Agora, um aspecto desse carisma que nos foi dado é a nossa ortodoxia. Que há lampejos disto no nosso modo de ser não há dúvida nenhuma.
 
A clareza com que o Grupo discerne o que vai suceder, discerne nas situações qual é o golpe que deve ser dado, esta clareza, com tanto sistema, com tanta segurança, é uma coisa que é própria a quem tem a missão de guiar.
 
c - essa graça da ortodoxia existe para guiar em face da Revolução
 
Eu tenho certeza que eu faria um papel de presunçoso e mentiria diante de Nossa Senhora se eu dissesse que a ortodoxia do Grupo é o resultado da força de inteligência que nós temos, e não se deve a um auxílio sobrenatural especial da graça. Se eu dissesse isso, mentiria. Eu acho que isto não só tem uma causas sobrenatural, mas acho uma graça assinalada, uma graça especial, em função da desolação em que a Igreja caiu.
 
Essa graça de ortodoxia existe para guiar nesta situação, e é uma graça que tem uma ligação com o profetismo, com o carisma profético...
 
Os Srs. percebem que nós temos as graças especiais para perceber a Revolução como marcha, como não houve até aqui uma coisa assim. As previsões feitas nos dois jornais, por anos a fio, nem uma desmentida pelos fatos...
 
Eu não sei o que os Srs. pensam das reuniões de sábado... São uma acrobacia que, sem o auxílio da graça, não vai, porque uma pessoa assume as responsabilidade de prever continuamente o que vai se passar; chama os amigos de longe para assistirem essas previsões, e elas se realizam sempre. Já nem passa pela cabeça de ninguém que não se realizem. ±s vêzes realizam-se de modo chocante.
 
Essa graça o que é? É a graça de guiar em face da Revolução.
 
d - Dela resultam a segurança de doutrina, de previsão e de ação
 
Mais. As nossas obras, as nossas doutrinas são examinadas com microscópio por nossos adversários mais ferozes... por um episcopado inteiro, para ver se encontram algum erro. Nada! Não pode haver maior prova de ortodoxia!
 
Então, os Srs. têm: segurança de doutrina, segurança de previsão e segurança de ação.
 
e - Onde o carisma do profetismo se manifesta mais claramente é no discernimento dos espíritos
 
Entretanto, onde eu noto uma ação de carisma mais clara do que nunca em mim é no discernimento dos espíritos.
 
Não é normal que uma pessoal leve o discernimento dos espíritos, o conhecimento das psicologías, do bom espírito, do mau espírito das pessoas, do que está se passando com o interlocutor quando eu falo com ele, ao ponto em que me é dado levar.
 
Ainda durante esse Simpósio aconteceu um fato curioso. O Sr. Hilário me truxe uma fotografia de um agente que a firma do Rubens queria contratar, pedindo que eu desse uma resposta sobre a psicologia dele. Bem, eu olhei a fotografia, pareceu-me ver a psicologia do agente em todos os seus matizes. Depois pensei: Quem é o homem no mundo a quem se consulta por correspondência, para saber sobre o caráter de uma pessoa e ver se a contrata ou não?!.
 
É uma graça.
 
2 - Nosso profetismo tem a missão de representar a grandeza
 
A - Com a Revolução gnóstica e igualitária, o que o demônio mais quer negar no mundo é toda forma de grandeza espiritual temporal, implantando a vulgaridade
 
a - Por isso o que o mundo contemporâneo mais abomina e crucifica é a grandeza enquanto algo pairando acima de tudo, dando vida a tudo
 
O conteúdo da nossa mensagem profética é o seguinte: por causa da Revolução gnóstica e igualitária, o que o demônio quer negar no mundo é toda forma de grandeza temporal e espiritual. Porque ele quer acabar com a grandeza, em todos os graus e por a vulgaridade completa. O que o mundo contemporâneo mais deseja abater é a grandeza, enquanto algo pairando acima de tudo, absorvendo tudo, e dando via da tudo. E a grandeza enquanto cheia de força, reprimindo o mal, lutando contra o mal. É o que ele mais odeia, mais abomina, mais crucifica.
 
b - De encontro à Revolução, o Profeta é o homem da grandeza em toda linha
 
Tudo quanto Nossa Senhora obteve que fosse posto em mim na ordem da natureza e na ordem da graça, é a simbolização da grandeza. Porque é isto. Eu significo isto. De encontro à Revolução gnóstica e igualitária, eu sou o homem da grandeza em toda linha. Desde aquela fotografia quando eu tinha 22 anos - e que já tem grandeza para um moço daquela idade - é a grandeza.
 
A grandeza como que? Como envergadura de horizontes, como elevação de onde vem o meu pensamento, como ritmo de lógica sapiencial, superior, como qualquer coisa que desce sacralmente muito do alto . Toda a doutrinação que eu apresento é uma doutrinação feita com simplicidade, mas é majestosa . Isto eu sei bem!
 
A linguagem, para aquilo que ela tem que servir, é única e tem grandeza, tem distinção, tem porte, mesmo quando diz as coisas mais banais. E é um modo de manusear as palavras, de maneira que as palavras mais comuns produzem um efeito contínuo de grandeza, mesmo ao falar das coisas mais insignificantes. O tipo de educação que eu recebi, de ancestralidade que eu tenho, tudo, tudo na ordem natural, como na ordem sobrenatural, ruma para a afirmação dessa grandeza sacral e dessa grandeza que está em choque com o mundo inteiro .
 
Se me perguntarem o que é que eu sou, assim como S. Francisco de Assis foi a pobreza ou S. Bernardo o recolhimento, eu digo que eu sou a grandeza .
 
Isso não tem dúvida. E meto medo. Os nossos adversários têm pânico de mim. Eu falo e eles não respondem. Voces viram aquelas conferências em Belo Horizonte. O auditório tinha oposição a granel, mas tinha medo.
 
B - Grandeza impessoal, sacral
 
A grandeza em que perspectiva?
 
Primeiro, é uma grandeza impessoal e sacral.
 
Não se trata aqui de dizer: "olha eu..." etc... etc... Graças a Deus disso eu estou certo, voces nunca me viram megalar de mim mesmo, nunca! Por exemplo, eu ter acabado de fazer uma conferência e procurar puxar prosa sobre ela para estudar os efeitos, ou qualquer coisa. Voces nunca me viram terminar uma conferência e degustar os aplausos dela. Não podem ter visto, porque isto eu não faço. Eu afirmo de pés juntos que voces nunca podem me ter visto fazer isso.
 
Aliás, o meu temperamento fleugmático me ajuda muito porque o que está no meu temperamento é o seguinte: "está aplaudindo? Olhe, se vaiasse era do mesmo jeito, porque não me incomodo com voces!" É fleugma pernambucana. É assim. Nem é uma virtude, mas eu quero indicar que o maior inimigo não está deste lado interno.
 
É, portanto, uma grandeza impessoal, é uma grandeza sacral.
 
C - Grandeza militante...
 
É uma grandeza que tem mais estas notas: ela é militante e é sofredora. E essas duas notas é preciso tomar em consideração. Porque não é uma grandeza de pavão, mas é uma grandeza que está continuamente em luta, porque, onde eu entro, é indicutível que entro com meu desafio. Por mais polido, por mais amável que eu entre, eu entro no desafio.
 
A minha presença, o meu modo de ser, é um insulto, é uma insolência em relação à Revolução.
 
Isto não tem dúvida. Ainda que eu seja amável, que eu entre risonho, para a Revolução è um insulto. E ela sente, e ela se vinga.
 
Por isto a minha vida é um combate contínuo, Inclusive para me fazer aceitar pelos que me são mais chegados. Continuamente lutando contra a vulgaridade de um, a megalice de outro, para fazer aceitar a grandeza.
 
Essa grandeza tem do seu lado o testemunho do adversário. Nunca um adversário disse que eu fosse um homem insignificante. Voces não podem ter ouvido dizer: "Ele é um tipo comum, inteiramente vulgar!". Nunca! Porque eles sentem que é tão falso que não podem dizer; gostariam de fazê-lo, mas não podem.
 
Eu não sei se contei um episódio do Fachini com minha sobrinha, logo que minha sobrinha se casou com o filho dele. Eles estavam no Rio, dormindo no Hotel Glória. O Fachini chegou ao Rio de automóvel, e foi também para o Hotel Glória. Telefonou para o filho dizendo que ele fosse logo para a seu quarto, de chambre mesmo, que ele tinha uma comunicação urgentíssima para fazer-lhe. Ele pensou não sei o quê, minha sobrinha ficou também alarmada. Daí uns minutos volta o filho dando uma risada. "Sabe por que é que meu pai me chamou? Para dizer o seguinte: que ele esteve com o Motta, e que este lhe disse que tinha uma grave imputação para fazer ao Plínio. E que a imputação é esta: "Tão inteligente quanto parece ele não é"!!.
 
Não sei se vêem o último do reconhecimento da grandeza. Porque não é poder dizer que é burro, porque não pode. Não podiam dizer "O Plínio é burro". Não sai! A única acusação é que "não é tão inteligente quanto parece". Quer dizer, parece muito inteligente, mas tanto assim também não é. Isto é o que dois inimigos meus, confabulando, encontraram para dizer de mim.
 
De outro lado, onde eu entro estraga tudo para eles. O que é uma outra formulação de grandeza, evidentemente. Por que? Porque é um estrépito, é uma coisa capital. Não é um fatinho. Eles sentem em mim o inimigo deles. O inimigo por excelência. Isto é o depoimento dos nossos adversários.
 
D. Grandeza sofredora
 
Grandeza sofredora! Os Srs. compreendem o que é, para o meu temperamento, o sentir isto assim. Porque, se uma pessoa apática não se incomoda muito com aplausos, ela, entretanto, não gosta nenhum pouco de luta. E não gosta de sentir em si o ódio do país inteiro.
 
Ora, o que eu tenho amotinado contra mim é o ódio de um país inteiro.
 
Não há um lugar onde eu apareça que não tenha alguém que não me odeie. Ou onde, em 24 horas de convívio, eu não vou ser odiado. Não é bem verdade?
 
Depois, no sacrifício de tudo: comodidade, fortuna, relações, tudo, sacrifício completo! E não é sacrifício assim da língua para fora...
 
Mas todos os profetas tiveram isto. Eles foram feitos para ir contra a onda. Eles levantaram a onda toda contra si, arrastaram todas as inimizades, e cumpriram sua missão na dor e na cruz.
 
Não houve um que não fizesse isso.
 
Agora, francamente, o que é que me falta a mim a não ser me matarem!
 
Além disso, a maneira de Nosso Senhor agir com o profeta é esta: chama-o para algo, dá o caminho, e permite que a ponte se quebre no meio dele. Permite a perplexidade sem ansiedade, com paciência, aceita na oração. Como Nosso Senhor, profeta é uma vítima.
 
 Quem não vê a cruz e o sangue na vida dos profetas não é capaz de enlevo nem pelo profeta, nem pela Paixão de Nosso Senhor .
 
Nosso Senhor me enlevou sobretudo pela Sua Paixão.  Todos os escravos e seguidores d'Ele, ou se enlevam pelo sofrimento ou não dão enlevo.
 
E - Grandeza desinteressada
 
O mundo contemporâneo acusa a grandeza, em primeiro lugar, de interesseira: o homem só quer ser grande por interesse pessoal, para se beneficiar e para oprimir os outros.
 
Depois, acusa também a grandeza de ser inimiga daquilo que é pequeno; que ela, quando encontra o pequeno, o massacra e o tritura.
 
Ora, os meus quarenta anos de luta mostraram que o que Nossa Senhoa se aprouve dar-me, foi a grandeza. E eu, a vida inteira, julguei uma obrigação minha ser fiel a isso e, onde quer que estivesse, representar a grandez. Consequência, eu fui o apedrejado e o crucificado da grandeza.
 
a - para se fazer aceitar, bastaria ao profeta  colocar-se numa posição condescendente para com o mal, abaixando todas as barreiras
 
Se eu quisesse fazer uma carreira, era só o eu não ser a grandeza num estado  militante, me meter numa posição condescendente, não ver o mal, ser gentil, ser lhano, ser desembaraçado, abaixar todas as pontes, inaugurar um regime de omissões, de silêncios, de me fazer aceitar. Eu teria subido incomparavelmente mais alto. Como eu renunciei a isso, eu sofro um sofrimento enorme! Eu aguento no peito o impacto do ódio de um país inteiro, o que
 
não é brincadeira. Em qualquer lugar em que vou, eu sinto o ódio que me persegue, eu sinto a má vontade, o vazio, o ostracismo.
 
Logo, seu eu renunciei, eu não sou ambicioso. Porque se eu o fosse, eu pegaria os trapos velhos dessa grandeza e jogava no lixo; modernizava-me, e, em pouco tempo, seria o que quisesse.
 
E se pudesse dúvida haver, o episódio do Galo Branco a tiraria.
 
O Galo Branco era Presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo. Estava o Fasano vazio e ele sentado no fundo diante de uma garrafa de vinho. Eu não o conhecia. Ele terminou, aproximou-se de nossa mesa - estava também o Viriato Correia - e disse: "Dá-me licença? Eu queria dizer uma coisa". "Pois não", eu disse dando a impressão de estar um pouco tocado, "pois não o que é que queria dizer? Faça o favor pode dizer"! - "O discurso, Plínio, é dirigido a voce. V. não percebe o que é que está se dando. V. é um homem que o normal a esta hora seria ser Governador de São Paulo. E já ter sido Ministro de Estado, e mais de uma vez. Voce poderia visar as mais altas coisas - fazendo alusão à Presidência da República.  Voce não tem vergonha, nessa sua idade, de viver na penumbra em que vive, sendo que voce tem todos os cordéis do futuro na mão? Voce não percebe que voce está se afundando, que está se destruindo? Desista do caminho que voce está seguindo e venha comigo porque eu faço o seu futuro! Eu reconcilio voce com o Motta e abro para voce as portas da carreira política. Mas não continue a se afundar por aí dessa maneira! Porque voce, nas suas condições, está se enterrando, se suicidando na penumbra por esta forma?! Isto é uma vergonha da sua parte!" Daí, no fundo da sala, o Geraldo deu uma risada. Ele o invectivou: - "Voce é um bôbo, cala a boca! O que estou dizendo é coisa muito séria, não venha com essa risada!" E afastou-se.
 
A mensagem dele era, evidentemente: "Eu tudo te darei, se ajoelhando me adorares".
 
E ajoelhar e adorar significava afinar com a hora. E eu não afinei. Se isto não é desinteresse, eu não entendo nada. E desinteresse que atrai a perseguição.
 
Eu sou a grandeza perseguida, crucificada, odiada enquanto grandeza e por ser grandeza. Mas afirmando sempre a força da lei. A minha atitude é continuamente a de S. João Batista: "A ti não é legítimo estar fazendo o que fazes. Por isso não conte com minha adesão. Eu não só não finjo que não sei, mas afirmo dentro da linha do bom senso, da civilidade mínima comum - portanto não como um gagá - que enquanto voce for filho das trevas, entre voce e eu não pode haver pacto".
 
b - não o fazendo, ele se prega na cruz e se torna incompreendido até para seus mais próximos
 
Agora, será possível que eu seja um cretino a ponto de não compreender que, com essa fidelidade, eu me sacrifico a tudo, eu me prego numa cruz, eu enterro a minha vida, tornando-me incompreendido até pelos mais próximos, até aqui dentro?
 
Eu nunca julguei que tinha direito de fazer de mim esse elogio. Mas, afinal de contas chegou um determinado momento em que a incompreensão é tanta, e que nós chegamos tão perto dos acontecimentos que, não tendo um anjo do céu aparecido para dizer isto, eu sou obrigado a dizê-lo.
 
O Paulo acompanhou, por exemplo, desde a Faculdade de Direito, a minha atitude. É impossível que ele não preste testemunho de que eu era a seriedade, a dignidade, a compostura, num ambiente completamente decomposto. E que muito ódio que vinha por cima de mim era por causa disso.
 
Todo mundo viu como eu recusei as tentativas de embuchamento que me foram feitas, inclusive do lado eclesiástico, e como eu sacrifiquei a minha carreira como quem sacrifica um papel velho, atirando-o ao lixo, sem uma hesitação, sem um pranto, sem nada, com a naturalidade de um inconsciente, sempre dizendo Praesto Sum, isto é, eu estou pronto para a imolação, eu estou pronto para o sacrifício, faça-se a Vossa Vontade. E, outra coisa, sem ser com ar de bôbo, lutando de todos os modos para que isso não acontecesse, mas tendo acontecido, lutando de todos os modos para que acontecesse na menor medida do possível.
 
Em todas essas circunstâncias, os Srs. nunca me viram duvidar, nunca me viram abatido a respeito da Providência. Os Srs. nunca me viram com medo de que a Providência não cumprisse o que Ela prometia.
 
F - Grandeza protetora
 
Isso sobre o desinteressse. Agora, algo sobre a proteção do pequeno.
 
A grandeza, como é chamada de interesseira, também o é de opressora dos pequenos. Entretanto, vejam, eu, um geração-velha, transformei-me num protetor, naquele que carrega um mundo de estropiados, um mundo de gente sem eira nem beira, que não andaria por nenhuma via e por nenhum caminho, que não seria nada se eu não estivesse a toda hora carregando.
 
Inclusive gente desprezada pelo mundo, desprezada fora, e que aqui encontra quem lhe faça o papel de Bom Samaritano.
 
Mais ainda: tudo que é pequenino, que não é intoxicado pelo espírito da Revolução, tem uma particular facilidade de confluir para mim, para pedir a minha proteção. Uma facilidade para até abusar de minha proteção.
 
Tanto é verdade que a verdadeira grandeza não afugenta os pequenos, nem os devora, mas os atrai. Tomem aí rapazinhos saídos não sei de que antros sociais. Não são nada. Eles não têm medo de minha grandeza, eles não se afugentam. Eles não se sentem nem opressos e nem dominados, nem espezinhados.
 
Por exemplo, aquela saída da Consolação. Não é verdade que toda aquela gente confluia para ali para sentir um pouco de proteção? Havia medo de minha grandeza ali? É o que atrai a eles!
 
O pequeno, quando não é revolucionário, sente uma atração, um imã pela grandeza. Essa é a realidade.
 
A minha missão foi, desde pequenino, de representar a grandeza com esta afirmação: à plebe revolucionária eu toco, eu expulso. Os verdadeiros pequenos, porém, encontram em mim um pai, um protetor, um explicador do caminho, encontram tudo quanto quiserem. Desses eu não sou o contrário. Eu sou o complemento. E sou-o com o sacrifício de minha existência. Por eles eu me deixo sugar até o martírio. Eu só não deixo mais porque eu morreria se o permitisse.
 
Isso prova bem como a grandeza desmente o que a Revolução diz dela. E, neste sentido, eu sou um símbolo de Contra-Revolução.
 
Resultado, os pequenos afluem do mundo inteiro à procura da grandeza. Não se iludam, essa gente não vem atraída por concessões demagógicas. Eu vejo o ódio que isso provoca. Mas esse ódio é um ódio do inferno. Porque há algo do sorriso de Nossa Senhora em poder apresentar ao mundo uma grandeza que os pagãos não ousam negar. Até hoje nunca me chegou aos ouvidos que alguém dissesse que eu sou um homem insignificante. Nunca me chegou aos ouvidos.
 
Agora, esta coincidência do desmentido vivo de tudo quanto se diz da grandeza, no momento em que a grandeza é até abandonada pela Igreja, porque Paulo VI está fazendo isso, esta coincidência não indica algo sobre o que é preciso pensar?
 
G - Grandeza incomprendida
 
a - Todos os que amarem isto, participam desse profetismo
 
Todos aqueles que amarem o que eu estou dizendo, que queiram compreender o que eu estou dizendo, que me queiram perdoar alguma falta que eu tenha cometido ao longo disso, que queiram ser como eu sou e fazer o que eu faço, esses participam desse profetismo. Esses levam consigo o carisma.
 
b - Mas o Grupo sempre viu essa manifestação de profetismo como uma reivindicação estulta de superioridade pessoal
 
Se o Grupo tivesse querido ser a grandeza crucificada, como o nosso apostolado teria sido muito melhor! Mas eu creio que nunca se entendeu bem esse sentido dessa grandeza. Ela sempre foi vista como uma reivindicação estulta de superioridade pessoal!
 
 
3 - Nosso profetismo tem também a missão de ser um sÍmbolo vivo da Sabedoria, da Sacralidade e da Hierarquia
 
 
A - Símbolo vivo da Sabedoria, da sacralidade e da hierarquia
 
  • Se toda difusão de doutrina é uma difusão de graça, primeiro dado;
  • Se, segundo, a difusão de uma doutrina raríssima é a difusão de uma graça raríssima;
  • Se, finalmente, aquilo que é raríssimo, normalmente é altíssimo,
 
Então, o homem que elabora essa doutrina e tem a missão de a difundir é não apenas um mestre que ensina a doutrina - nem um estrategista e político que sabe dirigir a guerra, que sabe recrutar as pessoas e orientar as batalhas, não é também só isso, que são recursos naturais, - mas  deve ser o símbolo do espírito que ele difunde: um símbolo vivo.
 
Como o lírio é o símbolo da pureza, assim o homem pode ser o símbolo de algo.
 
E o que é que essa graça? Evidentemente é a graça de um sabedoria sacral e hierárquica. É a sacralidade e a hierarquia.
 
B - Irradiação, convívio e osmose
 
E esse homem, portanto, deve ser o ponto de irradiação no convívio com ele, e quaisquer que sejam as condições no convívio dos que convivem com ele - sem emitir em juízo de valor sobre os que convivem com ele, eu acho que é um valor que na maior parte dos casos é excelente, mas não vamos emitir um juízo de valor a este respeito - há uma circulação da graça nesse convívio que prepara para o discernimento dos espíritos e acaba dando esse discernimento.
 
Portanto, há um discernimento dos espíritos a meu respeito. E um discernimento dos espíritos a respeito disto, meu, enquanto presente nos que convivem comigo. Não é, portanto, ver o espírito deles, mas o meu enquanto presente neles, que é uma coisa diferente.
 
Agora, isto o que é que é? É o espírito da Igreja Católica. Não é outra coisa senão a Igreja Católica comunicando suas virtualidades pelos modos habituais a fiéis batizados, filhos d'Ela. Isto não é nada de insólito, é a vida da Igreja, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana...
 
Daí decorre o desejo de, tanto quanto as circunstâncias de tempo e de lugar permitam, vir receber (esse espírito), no convívio, no contacto, no conselho. E, no conselho não para a vida espiritual, mas para o que a gente desejar fazer etc.
 
O reconhecer que isto é assim, o querer, o desejar que as coisas possam funcionar assim, o desejar, tanto quanto se lhe dá, e o contentar-se com tão pouco quanto se lhe dá, isto é a impostação da alma por onde isso vai.
 
Isso a gente vê com todos os profetas do Antigo Testamento. Havia um discernimento de espírito do povo para perceber que eles eram profetas. Os que se abriam para este discernimento o seguiam; os que se fechavam, não viam neles o que viam os que os seguiam. É natural.
 
C - Unicidade
 
Não me cabe a mim julgar o que a Providência faz. Ela quis, em determinado momento, quis ter um único homem que fosse fiel.
 
Ela quis dar a este homem a situação que tinha um profeta no Antigo Testamento, em pleno Novo Testamento.
 
D - Ver no profeta um profeta
 
Isto fica tão provado de todos os lados, tão evidente, que a gente pode dizer: ou nossa posição é uma demência ou isto é uma verdade. Ver no profeta um profeta, mas ver com esse discernimento sobrenatural. E tomar em relação a ele não a posição que se toma em relação a um líder, a um intelectual, a um bom político, a um bom amigo, a um Senhor educado, sei lá o que. Mas saber exatamente passar por cima das considerações de ordem pessoal, e ver o profeta. Isto é a graça nova. É por-se diante disto: "eu conheci na minha vida um profeta. É um profeta em carne e osso. Não é nem um pouco um profeta admirável como os do Aleijadinho - aqueles homens com aquela personalidade possante, aquela coisa magnífica - mas, enfim, é o que Nossa Senhora deu para o crepúsculo d'Ela. Ela quis este profeta assim. Mas ele documenta a sua missão. Ela se tornou para mim evidente. Na medida em que eu me aproximo dele me santifico, na medida em que eu me distancio eu me perco. Ele, portanto, foi posto para me guiar e para guiar muitos. E provavelmente para guiar a Igreja nesta pasmosa defecção".
 
E - O momento histórico exige
 
Depois de se ter enunciado esta verdade, a gente se pergunta se era possível, na atual situação da Igreja, Deus não visitar por meio de um profeta. Neste eclipse geral de toda a hierarquia era possível?
 
O que é mais improvável: que este profeta exista, ou admitir que ele não exista? Não é mais improvável admitir que ele não exista? Tudo bem pensado, se este profeta não existisse, não era o caso de procurarmos juntos onde ele está? Porque deve haver. A situação da Igreja é tal que deve haver! Evidente!
 
Agora, nós devemos tomar esta verdade tremenda na sua simplicidade, na sua naturalidade, e tomá-la com todas as suas consequências.
 
 F - O que é o profeta? 
 
a - É aquele que, assistido pela graça, conhece sua missão, se dirige para ela, e a graça opera a realização dessa missão por seu intermédio
 
O profeta se prova por onde? Profeta não é o que vê o futuro. Mas como é que ele prova que é profeta? Ele prova que é profeta quando a obra que faz é a  que se pode esperar de um profeta.
 
E quando ele é assistido pela graça, de maneira que a graça através dele faz aquilo que da graça a gente poderia esperar. Isto é um profeta.
 
Quer dizer, ele conhece a missão. Ele se dirige rumo a ela e a graça opera a realização da missão através dele.
 
Que isto coincide com o nosso caso, é uma coisa tão vista que eu não vou perder tempo para demonstrar!
 
b - É que reune em si as qualidades naturais e sobrenaturais que o habilitam especialmente para fazer o que faz
 
Outra coisa que é própria do profetismo é o seguinte: quando a pessoa do profeta reúne em si qualidades naturais e sobrenaturais que o habilitam especialmente para fazer o que faz.  Quer dizer, não é só o auxílio que a graça presta à ação dele, mas é o ter equipado a ele com qualidades naturais e sobrenaturais para fazer o que faz.
 
c - Com absoluto desapego do que está fazendo
 
Eu teria que prestar contas muito severas a Nossa Senhora se eu pusesse qualquer forma de vaidade no que eu estou dizendo. Eu faço continuamente exame de conciêncica a respeito do seguinte ponto: se de repente aparecesse um profeta diante de mim, e que eu visse que a minha missão foi apenas conduzí-los a ele e cessar, qual seria a alegria e a atitude de minha alma? Se seria de uma alegria enorme: "Afinal Nossa Senhora vai ser servida melhor do que comigo e eu me alegro com isto! Vinde, aqui está ele! Vamos serví-lo todos  juntos! O exemplo da obediência, de entusiasmo, vou dar eu! Eu encontrei meu guia! Eu encontrei meu Pai!" Se eu encontro esta disposição de alma em mim, eu posso estar sereno. Se eu não encontro, eu estou colocando algum apego, eu estou traindo a minha missão. Não há dúvida.
 
Graças a Deus, o meu exame de consciência é muito tranquilo a respeito disso.
 
Eu vou dizer mais. Não é o apego. É o excessivo peso da Cruz que poderia levar o meu defeito de pessoa apática e indolente, com um fundo de displicência em relação às coisas, a dizer que a carga está aqui, que eu vou deixá-la, e que eu vou me abanar. O defeito de minha alma podia dar por aí e não para apegar-me.
 
4 - Nosso profestimso é, de algum modo, a presença de Nossa Senhora na Igreja
 
Dada a influência de Nossa Senhora na Igreja, o profetismo do Novo Testamento é, de algum modo, a presença de Nossa Senhora na Igreja.
 
5 - Profetismo e Fé
 
A - A Fé foi a virtude que eu mais amei
 
a - Quem tem fé viva, tem vida espiritual pujante
 
Para nós não há problema intelectual nem espiritual que possa ser resolvido senão em função da fé.
 
De todas virtudes, a que eu mais amo - mais do que a pureza - é a fé. Foi a que mais cultivei, porque a fé é a raiz de toda a vida espiritual. Quem tem fé viva tem, vida espiritual pujante. Quem não tem fé viva, não tem vida espiritual pujante...
 
b - Se aplicarmos a fé aos dados da História, conheceremos que tem que haver uma bagarre, e nela creremos com toda alma
 
Se nós tivermos espírito de fé, quer dizer, se soubermos aplicar a fé aos dados da História, teremos o conhecimento, que tem algo de profético, das harmonias da História. Nós conheceremos que deve haver uma bagarre e, porque a bagarre deve existir, nós creremos nela com toda a nossa alma.
 
A partir do momento em que acreditarmos na bagarre com toda a firmeza, a partir desse momento nossa fé atingiu os pontos que nossa vocação precisa que estejam claros para que ela se realize.
 
É preciso ter fé. É preciso ter paixão pelas coisas da fé...
 
B - O nosso caso pessoal se reduz a um problema de fé
 
O caso pessoal dos casos pessoais de um membro do Grupo vai dar nisto: "o que é que me dificulta de ter fé tão grande quanto eu quisera? O que é que é que me dificulta de ter paixão tão intensas quanto devera? Por que é que eu não vejo isso que o Dr. Plínio vê? Por que é que, vendo, eu não me entusiasmo? E continuo, pelo contrário, preocupado com o pneumático do automóvel com que vou para São Paulo?".
 
"Fé!".
 
C - Como ter fé?
 
Como ter fé? Como ter a fé que move as montanhas?  Cor Sapientiale et Inmaculatum Mariae: opus tuum fac . Fazei-o à maneira do Segredo de Maria.
 
Aqui estamos um pouco como um boneco de barro antes de receber o Espírito de Deus. O boneco está inteiro. Vamos pedir para Nossa Senhora que sopre o seu espírito em nós. Que tenhamos nós o espírito d'Ela como Eliseu teve o de Elias e estará tudo feito.
 
Cor sapientiale et Inmaculatum Mariae, opus tuum fac.
 
II - Nosso profetismo é a sintese de todo o passado da Igreja com algumas notas especiais
 
1 - O crescimento da Igreja em graça e santidade
 
A - Esse crescimento apresenta aspectos e propriedades diversos segundo suas etapas, como as belezas da alma humana em suas várias idades
 
Conforme o Apocalipse, a Igreja Católica tem, como tudo quanto é vivo e humano, um crescimento, mesmo na ordem da graça. Até o Menino Jesus "crescia em idade, em graça e em santidade perante Deus e os homens".
 
Essa doutrina do processo de crescimento é, no fundo, o oposto da doutrina do processo de putrefação, do processo de deterioração, que é a Revolução.
 
O crescimento apresenta aspectos diversos, com propriedades diversas, segundo as suas etapas, e revela belezas próprias da alma humana, em cada fase.
 
Uma é, por exemplo, a beleza da alma no vigor da adolescência e na maturidade; outra é a beleza da alma na forma de ancianidade - não da senilidade - do homem que se tornou muito velho, que tem uma sabedoria super-eminente e requintada, mais preciosa ainda do que a sabedoria da maturidade.
 
B - Assim pode-se descrever a beleza da vida da Igreja em cada uma de suas etapas, desde as catacumbas até a última flor, que foi o Pontificado de S. Pio X
 
Ora, isto que existiu com o Menino Jesus, com Nossa Senhora e existe, na natureza, com cada homem, isto também existe na Igreja Católica. Daí Ela ter tido matizes como, por exemplo, a verenabilidade ainda patriarcal e simples da Igreja nos seus primórdios; o heroísmo, tinto de sangue, da Igreja no tempo das perseguições; a sublimidade do espírito eremítico, que levava Imperadores, homens do povo, generais, a atravessarem o deserto para conversarem com eles meia hora; a perseverança e a gestação da sabedoria medieval nos períodos das invasões; a sabedoria medieval depois da normalização da vida; a sabedoria da Contra-Reforma, do movimento ultramontano nascido com as reações à Revolução Francesa; e, finalmente, uma última flor, último sorriso, no Pontificado de S. Pio X.
 
Cada uma dessas fases da Igreja apresenta um aspecto novo e nós podemos dizer que o Espírito Santo vai gerando na Igreja sucessivas famílias de almas para as várias etapas.
 
2 - A vista disso, O que somos nõs?
 
A - Antes de tudo, uma escola espiritual, com isso de próprio que é o admirar e amar cada fase e cada aspecto da Igreja com transportes de veneração, tendo como ponto de vista nosso a síntese
 
Somos, antes de tudo, uma escola espiritual. E essa escola de espiritual é uma síntese de todo o passado da Igreja.
 
Todas as grandes devoções se integram em nós com uma nota de síntese. O que nos é próprio é admirar e amar cada fase da história da Igreja, cada um dos ritos orientais ou ocidentais, com transportes de entuasiasmo, como se fôssemos um só com aquilo, compreendendo isso como um capítulo do qual somos a síntese. O ponto de vista da síntese é o nosso.
 
B - e como características especiais as devoções ao Santissimo Sacramento, a  Nossa Senhora e ao Papa
 
Mas com algumas características especiais. A primeira, uma devoção especial para com as três rosas dos bem-aventurados: a devoção ao Santíssimo Sacramento, a devoção à Nossa Senhora e a devoção ao Papa.
 
a - Com uma nota nova de não só rezar, mas de introduzir todas as atividades possíveis da vida na capela, na presença do Santíssimo Sacramento.
 
A nossa nota nova, tanto quanto eu imagino, na adoração do Santíssimo Sacramento, consistiria numa capela não mais com gente exclusivamente rezando - oxalá as tivesse o dia inteiro - mas com gente trabalhando, lendo, fazendo coisas altas dentro da Capela.
 
Como eu gostaria de chegar à capela e ver membros do Grupo desenhando, lendo, escrevendo, estudando, etc., tudo muito discretamente para não transformar a capela num salão de trabalho!
 
Então, já não seria só rezar diante do Santíssimo Sacramento, mas seria viver em companhia do Santíssimo Sacramento. É muito nosso não só rezar, mas introduzir todas as atividades da vida dentro da atmosfera do sagrado.
 
Donde, um tipo de capela que tivesse qualquer coisa, de oratório preponderantemente, de sala de capítulo, de sala de armas, e sala de trabalho. Esta seria a nossa capela.
 
Quanto à devoção à Nossa Senhora, a piedade S. Luís Grignion é o  nec plus ultra . E dele nós já tratamos atrás.
 
b - Sempre filhos e escravos ardorosos do Papa
 
No que diz respeito à infalibilidade papal, o Papa é o centro da ordem e da beleza do universo, o princípio máximo da reductio ad unum. Ele tem as chaves de ouro e a de prata. A de ouro para ligar e desligar as coisas de terra. É o poder supremo e indireto do Papa também na ordem temporal, quando entra matéria de pecado. P. ex., um decreto imoral de um Rei, o Papa o pode declarar nulo. Esse é o nosso ideal de monarquia papal e é a chave de prata. Nós somos os filhos e os escravos do Papa. Nossa vida é um "Viva o Papa!" ininterrupto. Tudo em nós visto por um certo ângulo é um "Viva o Papa quand même!". Mas por respeito, nem dizendo quand même . O quand même é um brado dentro do nosso coração e mais nada... e nem podia deixar de ser.
 
c - Tendo as devoções ao Sagrado Coração de Jesus, Imaculado Coração de Maria e Infância espiritual como notas tônicas
 
Outras duas notas importantes são as devoções ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria. E, para terminar, a capenguice e a Infância Espiritual.
 
3 - Todos catõlicos, todo apostõlicos e todos fiéis, ainda que nos façam injustiça
 
 A - A  essência do Grupo é viver da seiva da Igreja
 
Em relação às condições normais da Igreja, evidentemente a essência do Grupo é o viver da seiva da Santa Igreja Católica. O ser um ramo, um galho desta àrvore divina, num certo sentido, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, de maneira tal que o Grupo não é outra coisa senão uma pequena parcela desta instituição. Mas uma pequena parcela que, por assim dizer "adora" esta instituição. E a "adora" de tal modo que a prefere incomparávelmente mais do que a si próprio.
 
Isso de tal modo que, se fosse para o bem da Santa Igreja, qualquer um de nós deveria imolar o Grupo sem hesitação, sem vacilação, com entusiasmo e ficar alegre de o ter imolado, porque no Grupo o que nós amamos é a presença da Igreja dentro dele. Afinal de contas, para nós a Igreja é tudo, mas absolutamente tudo nesta terra.
 
B - Eu não quero ser outra coisa senão um varão católico
 
Com Concílio, sem Concílio, faça o clero o que quiser, "pinte o caneco" como entender, a Igreja é a Igreja, da qual nós apaixonadamente, transbordantemente, com um entusiasmo do qual estouramos, não queremos ser outra coisa senão filhos, membros d'Ela e a Ela obedientes.
 
Esta é a nossa definição. De tal maneira que, p. ex., eu nunca achei que houvesse um título mais bonito dado a quem quer que fosse do que o título de "Rei Católico" dado ao Rei da Espanha. Porque, quando de alguém se pode dizer que, por antonomásia e por excelência, é o católico, ter-se-á dito da pessoa o paroxismo do belo, do bom, do verdadeiro, do perfeito.
 
Para mim todas as bem-aventuranças estão contidas dentro disso, pois a palavra católico contém tudo quanto de bom e belo, de verdadeiro e de justo existe no vocabulário humano de tal modo, que não se poderia dizer mais do que isso.
 
Se alguém, no meu epitáfio, pusesse: Fuit vir Catholicus, eu, dentro de minha sepultura, estremeceria de alegria. Porque eu não quero ser outra coisa senão um varão católico.
 
C - O ponto de concentração da fidelidade
 
a - Fiéis até quando perseguidos
 
Agora, na prática, nós vivemos num período em que a Igreja está num estado de prova ou de mistério e em que a própria hierarquia eclesiástica está na situação em que os Srs. conhecem.
 
Então, dentro da Igreja, nós que somos leigos, que fazemos o papel da plebe eclesiástica, o que é que nós somos?
 
Nós não somos senão o ponto, nao de concentração, não da autoridade nem do poder, porque não temos nenhuma autoridade e nenhum poder; nós somos o ponto de concentração da fidelidade. É isso que somos.
 
Não da fidelidade para com o superior cujo pensamento e se gente acata. Não também da fidelidade ao superior cujas ordens e pensamentos não se entende, entretanto se segue, mas de uma fidelidade que vai mais longe: é a fidelidade a uns superiores que, em tão grande quantidade, fazem coisas que por fidelidade à Igreja nós devemos censurar com a mais veemente das censuras. Quer dizer, nós permanecemos fiéis, até na hora em que eles, em toda a medida que a infalibilidade permite, se manifestam infiéis.
 
Nós permanecemos fiéis até quando eles nos perseguem; e perseguem por nossa fidelidade; não por caprichos, por birra, porque não é por isso que nós somos perseguidos, mas é por nossas fidelidade. Ainda aí nós permanecemos fiéis.
 
b - E fiéis não só à Hierarquia presente, mas à de todos os séculos
 
Para compreender, naturalmente, essa fidelidade, nós temos que considerar que a hierarquia católica não é apenas a hierarquia atualmente existente, mas é a hierarquia de todos os séculos, incluída a hierarquia constantiniana. Que há uma solidariedade indestrutível entre essas várias etapas dessa hierarquia; que a fidelidade não pode ser só a esses de agora, mas a um legado comum de todos.
 
Isto tudo ponderado, nós somos fiéis. E se há uma coisa que não nos passa pela cabeça nem de longe, é que possamos romper com ela.
 
Se por uma eventualidade da qual Nosssa Senhora nos livre, eles nos punissem a ponto de nos proibir de entrar numa igreja, nós ficaríamos do lado de fora rezando e beijando as próprias paredes da edifício, a escadaria do lado de fora, porque aquele é o templo único e verdadeiro de Deus e nós queremos estar unidos com ele para a vida e para a morte.
 
c - De modo que, ainda que ela se desligasse de nós, nós não nos desligaríamos dela. É o verdadeiro confisco
 
Ainda quando ela se desligasse de nós, nós não nos desligaríamos dela.
 
Quer dizer, é a fidelidade levada ao seu auge e ao último limite.
 
De outro lado, isso seria feito sem ressentimento, sem ódio, mas continuando com toda a possibilidade de amor, de submissão de de flexibilidade, até o último ponto.
 
d - A ela não obedecendo só no caso em que nos mandasse trabalhar contra ela. Aí a fidelidade nos levará a dizer não.
 
É verdadeiramente o confisco: nós nos demos a Ela e somos d'Ela para que Ela faça de nós o que quiser, inclusive a injustiça. Só uma coisa não se pode pedir de nós - e aí não obedeceremos - é querer que nós trabalhemos contra Ela. Mas aí, ainda será a fidelidade que nos levará a dizer não. Eu não concebo que a fidelidade possa ir mais longe. É uma espécie de martírio vivo.
 
Essa doutrina da fidelidade faz com que nós compreendamos que tudo quanto nós ensinamos e tudo quanto nós dizemos, não seja senão um eco, como já mencionamos anteriormente. O tom, o som, é o deles.
 
e - Prolongando, no silêncio, com toda fidelidade, o seu som, pelo "apostolado do eco"
 
Vinte séculos de Igreja soaram e esse som enche nossa alma e sai pela nossa língua. O sino são eles, nós somos o eco do sino. Nós não temos autoridade; nós somos o eco da autoridade. Como acontece com o eco, ele amplia o som do sino e o leva longe, prolongando seu som, até no momento em que o sino já se calou.
 
Então, prolongar no silêncio, prolongar com toda fidelidade, sem pretender por algo que já não estava pelo menos implícitamente dentro e fazer com que essa semente continue a germinar, aumentar até - esta é a nossa finalidade, este é o "apostolado do eco". Nós não somos outra coisa do que isto.
 
f - Num super-auge de fidelidade à Hierarquia
 
Eu pretendo, eu desejo, espero, quero, imploro, rogo a Nossa Senhora, que tudo quanto eu diga seja um eco do que foi dito por todos aqueles que me precederam, um eco de toda a Sagrada Hierarquia Católica Apostólica Romana.
 
É este o sublime apostolado do eco, ou da super-fidelidade, que nos explica a nós mesmos diante da Igreja. Explica como Grupo, explica como indivíduos.
Realmente, se isto não é um auge, eu perdi o conceito da palavra auge. Eu não sei que mais é auge.
 
D - Ainda quando odiados e desprezados
 
Essa meditação faz muito bem, porque todos nós brasileiros temos no fundo da alma alguma coisa de ressentido...
 
a - Mesmo quando recebido com furor, precisamente por causa da fidelidade, não ter um pingo de ressentimento
 
E nessas hora muito duras, nada provoca mais ressentimento do que a pessoa, transbordando do afeto mais superlativo, ir a alguém e - não é ser desdenhado, mas o outro voltar-se para ela com furor e dizer: "Mas voce ousa ter para comigo esta fidelidade!? Onde é que voce está com a cabeça? Eu odeio e desprezo a sua fidelidade! E agora vou  tratá-lo como o pior dos traidores, seu Iscariotes, porque voce é fiel!" E a pessoa não ter um pingo de ressentimento. Pelo contrário, ter a alma serena como nos momentos mais serenos da vida e dizer: "Que graça, apesar de tudo, eu poder afirmar `Eu sou todo seu'. Injurie-me quanto quiser, mas eu o amo desde que procede de voce, porque eu fui confiscado!"
 
Isso é a doação de si, contra os ressentimentos.
 
Os Srs. sabem como a graça de vencer o ressentimento é uma graça preciosa para brasileiro.
 
b - "Mas... tanto assim?!". Sim, e se não for assim o auge não foi atingido
 
É possível, (eu não quero dizer que tenha havido), é possível que enquanto eu falo aos Srs., pensando neste extremo ato de humildade que se pede, em um ou outro dos Srs. o ressentimento tenha feito este movimento. É possível. Provavelmente tenha passado algo assim: "Como?! Mas é tanto assim? Que coisa!...".
 
Pois bem, é assim. E se não for assim, o auge não foi atingido.
 
Eu diria da Igreja Católica o que Santa Teresa diz de Nosso Senhor: "Ainda que não houvesse Céu eu amaria a Igreja Católica, ainda que não houvesse inferno eu A temeria, porque Ela é unicíssima, queridíssima minha, com exclusão de qualquer coisa, de maneira que qualquer coisa eu só quero na medida em que seja  d'Ela, unida a Ela. E quanto mais eu A vejo pisada, traída, desfigurada... tanto mais eu A amo.
 
4 - Nossa Senhora quis que, num dado momento, tudo dependesse de um sõ
 
Nós somos uma família de almas. Isto é, um patrimônio de graças que nos é dado em comum, e na medida em que estejamos em comum, na medida em que sejamos participantes deste um, e estejamos unidos a ele.
 
É, portanto, o consórcio nesta graça, ou nestas graças, que faz de nós um, uma só missão, uma só graça e uma só graça haurida na participação. Eu emprego aqui a palavra consórcio no seu sentido etimológico latino de "identidade de sorte", de destino. Então a sensação que todos nós temos é que, ou ficamos unidos, ou nos perdemos.
 
Aqui está o clou , aquilo que é a alma do Grupo e que é esta participação na graça de um único homem que ficou fiel.
 
5 - Ele se tornou, portanto, um mediador "necessario"
 
A - A teoria da mediação
 
a - Tudo o que se diz de Nossa Senhora pode-se dizer, de certo modo, da Igreja.
 
Nós vamos entrar, no momento, numa teoria que é audaciosa. Mas quem poderá dizer que ela é falha?
 
É a seguinte: tudo aquilo que se diz de Nossa Senhora, diz-se, de algum modo, da Igreja Católica. Como tudo quanto se diz da Igreja Católica se diz de Nossa Senhora.  E se é verdade que Nossa Senhora é Medianeira de Todas as Graças, é verdade que, num outro sentido da palavra, a Santa Igreja Católica o é também. Porque nós recebemos todas as graças na Igreja, com a Igreja, e pela Igreja. E fora da Igreja não há salvação.
 
b - Nosso Senhor é o Medianeiro fundamental, único e necessário. Nossa Senhora é a nossa Medianeira junto a Jesus Cristo. A Santa Igreja, num sentido diverso, é nossa medianeira junto a Nossa Senhora
 
Nosso Senhor Jesus Cristo, num sentido máximo e fundamental, é nosso mediador único e necessário junto a Deus.
 
  APÊNDICE II
 
DISCURSO DO CARDEAL FRANC RODÉ
Sois da estirpe dos heróis e dos santos
Calorosas palavras do Cardeal Franc Rodé a Mons. João Scognamiglio Clá Dias, na entrega da medalha “Pro Ecclesia et Pontifice”.
No momento de vos entregar a condecoração com a qual o Santo Padre quis premiar vossos méritos, vêm-me à mente as palavras de São Bernardo, no início de seu tratado De laude novæ militiæ: “Faz algum tempo que se difunde a notícia de que um novo gênero de cavalaria apareceu no mundo”. Essas palavras podem ser aplicadas ao momento presente. Com efeito, graças a Vossa Excelência, surgiu uma nova cavalaria não secular, mas religiosa, com um novo ideal de santidade e um heroico empenho pela Igreja.
Neste empreendimento, nascido em vosso nobre coração, não podemos deixar de ver uma graça particular dada à Igreja, um ato da Divina Providência em vista das necessidades do mundo de hoje.
O ideal que propondes àqueles que são vossos é o de seguir a Cristo no grande movimento dos Arautos do Evangelho, com radicalismo evangélico, “combatendo sem trégua — como diz São Bernardo — uma dupla batalha, seja contra a carne e o sangue, seja contra os espíritos malignos do mundo invisível”.
Obrigado, Monsenhor, por vosso nobre empenho, obrigado por vossa santa audácia, obrigado por vosso amor apaixonado pela Igreja, obrigado pelo esplêndido exemplo de vossa vida. Vós sois da estirpe dos heróis e dos santos!
Testemunho sobre os Arautos
Em declarações à TV Arautos, o Cardeal Franc Rodé referiu-se a esta Associação como “uma nova grande família religiosa que nasceu na Igreja, graças ao gênio do Monsenhor João”.
Conheci os Arautos do Evangelho inicialmente na Eslovênia, quando era Arcebispo de Liubliana, e depois, evidentemente, quando cheguei a Roma, como Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
O que me impressionou muito foi, para começar, a personalidade do fundador e superior geral, o Mons. João Scognamiglio Clá Dias. É uma pessoa extraordinária, um carisma manifesto e, sobretudo, creio eu, um grande organizador e um homem capaz de levar atrás de si tantos jovens.
Ontem estivemos no Centro de Formação das Moças, estes dias estou aqui no Tabor, onde vivem centenas de rapazes, e vejo o entusiasmo, a alegria de ser cristãos, a alegria de pertencer à Igreja e de servir ao Reino de Cristo. Tudo isso faz parte do carisma dos Arautos do Evangelho.
Em Roma, cerca de 15 estudantes arautos estão se preparando para serem, mais tarde, professores aqui no Tabor, na Faculdade de Teologia.
Os Arautos do Evangelho representam para mim a novidade que se manifesta nos últimos anos na Igreja: um grande dinamismo apostólico, um grande amor à Igreja, uma grande fidelidade ao Papa e à Santa Sé.
Aqui não se tergiversa, aqui não há nenhuma tentação de se desviar da doutrina reta e sã da Igreja, e os Arautos do Evangelho estão provando isso todos os dias. O que me impressiona também é a disciplina. Aqui existe ordem, disciplina, vontade de trabalhar e de fazer algo por Cristo e pela Igreja.
Ademais, o que é raro no mundo de hoje, o culto da beleza na expressão mais alta e mais nobre da palavra: a Liturgia, os cantos, a orquestra, todo o comportamento dos Arautos do Evangelho é extremamente nobre, distinto, grande, belo!
Sinto-me feliz de poder dar hoje meu testemunho sobre os Arautos do Evangelho, com grande otimismo para o futuro. É uma nova grande família religiosa que nasceu na Igreja, graças ao gênio do Mons. João, e que seguramente tem um grande porvir na Igreja, para o bem do Reino de Deus.
http://revista.arautos.org.br/RAE93-Cardeal-Franc-Rode-comemora-aprovacoes-pontificias.asp

    Para citar este texto:
"No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho (Parte 8/8)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/pco-viii/
Online, 25/03/2017 às 08:34:48h