Religião-Filosofia-História

No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho (Parte 4/8)
Orlando Fedeli

 
TERCEIRA PARTE: A MENTALIDADE ROMÂNTICA DE PCO
 
 
 
 
 
  
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
“Niente più bugiardo che un epitafio”
(Provérbio italiano).
Nada há mais mentiroso do que um epitáfio, diz um provérbio italiano. Com efeito, a vaidade humana ultrapassa os limites da vida, e o orgulho faz questão de se manter vivo e ativo além dos umbrais da morte. O homem deseja manter a memória de seu prestígio, mesmo estando morto, e, para isso, por vezes, faz registrar epitáfios que perpetuem sua fama. Ainda que falsa.
Plínio Corrêa de Oliveira, que sempre aspirou honras, queria que em seu túmulo fosse registrado que ele foi, em vida, totalmente católico.
Teria sido isso realmente verdade?
Demonstramos a doutrina errada de Plínio por meio de seus textos. Vimos como sua doutrina da inocência primeva era contrária à Fé católica, e como todos os seus demais princípios eram afins com a Gnose, e especialmente com a Gnose e o subjetivismo idealistas.
Entretanto, quem errou tanto em matéria de Fé, quem tanto iludiu a outros sobre si mesmo e sobre sua verdadeira doutrina, quem se auto-proclamava “o varão católico todo apostólico” – Plinius, Vir Catholicus et Totus Apostolicus –  merecia ele realmente esse epitáfio? Ou seria ele um epitáfio merecidamente... “italiano
Ele queria mesmo que essa afirmação, em latim, fosse colocada como epitáfio, em seu túmulo.
Queria, pois, continuar enganando os crédulos mesmo depois de morto.
Eis o que sobre ele publicaram os seguidores de Scognamiglio:
“De uma notável humildade, [Dr. Plínio] era insensível aos louvores. Apenas um elogio era capaz de fazê-lo emocionar-se, por vezes, até as lágrimas:“Vir catholicus, et  totus apostolicus, plene romanus”. Nada mais do que isto ele pretendia ser: “Varão católico, todo apostólico, plenamente romano”. São as palavras  que, de acordo com seu desejo, constituem o epitáfio inserido no seu túmulo, no cemitério da Consolação. (Editorial “Vir Catholicus”, in “Dr. Plínio”, Ano II, n0 15 , Junho de 1999, p. 4).
E católico ele não foi.
Desde moço, ele tinha uma noção heterodoxa da religião da qual se dizia defensor.
Que era a religião Católica Apostólica Romana para Plínio? Como Plínio Corrêa de Oliveira, considerava o Catolicismo?
Vimos que PCO, quando se tornou dirigente da Liga Eleitoral Católica, declarou que considerava o Catolicismo a forma mais elevada e genuína de espiritualismo (Cfr.Plínio Corrêa de Oliveira, Liga Eleitoral Católica --- A Postos! Artigo publicado no “O Legionário”, em 15 de Janeiro de 1933, apud Catolicismo, Maio de 1983, Ano XXXIII, N0 389, p.5).
Quer dizer que, para Plínio Corrêa de Oliveira—o varão que se pretendia totus catholicus--, o Catolicismo não era tido como a única religião verdadeira. Era apenas “a mais elevada e genuína forma de espiritualismo”.
O que não é uma confissão de Fé católica, mas uma afirmação típica de quem buscava votos sem se definir francamente. Um candidato maçon, visando votos,  não diria diferentemente.
Vimos ainda que ele afirmou num artigo no Jornal da Constituinte, em 1933- 1934, que ele considerava que não existia uma única doutrina que pudesse se inculcar como senhora dos espíritos. Portanto, que o Catolicismo não poderia pretender converter a todos os homens. (Plínio Corrêa de Oliveira, Jornal da Constituinte, 23 de  Novembro de 1933, citado no editorial da revista “Dr. Plínio”, com o título “15 de Novembro de 1933 – Na Abertura da Constituinte”, Ano  VII, Novembro de 2.004, N0 80, p. 5).
E essa formulação, tipicamente liberal, é bem imprópria para um crociato do século XX. Ela é, no fundo, negadora de que o catolicismo seja a religião divina que Jesus Cristo mandou que fosse ensinada a todos os homens.
Essa frase de Plínio é um absurdo, que só um liberal poderia defender. E só um Deputado “católico” moderno diria isso num ambiente liberal, para não desagradar seus colegas membros de certas sociedades secretas.
E Plínio, na década de 30, logo depois de Pio XI ter condenado o ecumenismo na encíclica Mortalium Animos (1929) se mostrava ecumênico ao modo do Vaticano II, isto é, como os modernistas já o eram desde a Belle Époque.
No jornal O Legionário, órgão católico que ele dirigia, ele se punha como ecumênico, pois dizia que não queria reavivar velhas desuniões com os “irmãos de crença”. Isto é, que não queria desagradar aos protestantes. Afinal, eles tinham votos, que mesmo sendo poucos, convinha cortejar.
Plínio, o crociato do século XX era ecumênico na linha do Padre Congar e do Abbé Lambert Bauduin:
Esta é a grande verdade que o fracasso do totalitarismo revela. Relembramo-la nesta ocasião memorável, não para reavivar dissídios com irmãos de crenças, mas para declarar que – excetuada esta grave lição que contem o suco de toda a trágica experiência destes últimos anos tão ricos em ensinamentos – tudo esquecemos, que só queremos olhar para o futuro” (Revista Dr. Plínio”, Ano II, Setembro de 2.000, N0 30, p.26. O destaque é nosso).
O “vir catholicus” não queria reavivar dissídios com os “irmãos de crenças”. Naqueles tempos da Mortalium Animos de Pio XI, Plínio o varão que tumularmente pretendia ser “totus catholicus”, era irênico.
Já antes, ao tomar posse da direção do jornal O Legionário, em 1928, Plínio escrevera:
“Até então o Legionário tinha uma certa tendência para se dirigir ao grande público no interesse de conquistá-lo. Era escrito, em parte, para converter para a religião católica aqueles que não eram católicos, em parte para afervorar e orientar os que já eram católicos.
“Lendo o jornal “Sept”, compreendi que isso estava errado, (sic) pois um jornal de pequeno formato ou de pequeno tamanho, ou devia dirigir-se para um público especial, influente e não pequeno, e através desse público influenciar todo o conjunto, ou não adiantava para nada.O Legionário, então, deixou de ser um jornal feito para converter os não católicos, mas para formar uma mentalidade”. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo “O Legionário - Arma de Batalha pela Igreja”in Revista “Dr.Plínio”, Ano VI, N0  61,  Abril de 2.003, p. 27). 
Está aí uma confissão preciosa das finalidades de Plínio Corrêa de Oliveira: inspirado pelo jornal modernista Sept: o varão pretensamente todo católico e todo apostólico considerava que era errado usar um jornal pequeno para converter os hereges e para afervorar os católicos.
E isso está escrito num artigo cujo título falava em batalhar pela Igreja!
Ele não visava defender ou difundir a Fé católica, mas difundir uma “mentalidade”.
Qual?
Qual era, então, a finalidade de Plínio?
Muito vagamente dizia que era difundir uma mentalidade!
            Veremos, mais adiante, que a mentalidade que Plínio Corrêa de Oliveira procurou difundir entre os católicos era a mentalidade em que sua mãe o formara: a mentalidade romântica.
E ele confessou que decidiu fazer assim por influência da revista modernista Sept.
Naquele tempo, poucos sabiam que era o periódico Sept, e que pensavam os dominicanos franceses que inspiravam essa revista. Mas, hoje, é um escândalo vir a saber que Plínio Corrêa de Oliveira iniciou sua carreira de líder católico, inspirando-se na revista Sept. E ele vai passar a vida dizendo-se devoto de São Pio X,  cuja obra a revista Sept, sendo modernista, combatia. O líder “ultramontano” brasileiro era seguidor de uma revista modernista. Tais coisas acontecem só no Brasil.
Se o imperador Dom Pedro II era republicano, e o Marechal Deodoro, proclamador da República, era monarquista, porque um líder que se dizia ultramontano, Plínio, não poderia seguir a inspiração de uma revista modernista?
Para ele, ser “ultramontano” devia depender de que lado das montanhas se está. Assim , todo mundo pode se dizer “ultramontano”...
Prossegue Plínio:
Transformei então o “O Legionário” num órgão especializado para o Movimento Católico. Não tinha por fim ajudar os católicos a converter não católicos, mas formar sua mentalidade (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo “O Legionário - Arma de Batalha pela Igreja”in Revista “Dr.Plínio”, Ano VI, N0  61,  Abril de 2.003, p. 27).
Plínio visava então formar os católicos numa certa mentalidade que não os afervorasse, e nem combatesse, e muito menos, convertesse, os hereges. Perdão, “os irmãos dissidentes”.
Caso não se tivesse, por escrito, essa confissão ecumênica e liberal explícita de Plínio, ela seria inacreditável!
Devemos agradecer a Monsenhor Scognamiglio o ter permitido que os amigos dos Arautos do Evangelho publicassem esses textos de Plínio Corrêa de Oliveira, nos quais fica patente que o pretenso “varão todo católico e todo apostólico”, não pretendia nem converter hereges, nem afervorar os católicos, mas apenas formar os católicos numa mentalidade diferente da que tinham, na mentalidade de Plínio: a mentalidade romântica.
Portanto, o que Plínio determinou fazer no jornal O Legionário – nem converter hereges, nem afervorar católicos – era o oposto de que faria um homem que desejava ter por epitáfio “Vir totus catholicus et totus apostolicus”. Daí, se conclui que ele quis fazer de seu túmulo um out-door de auto propaganda, um elemento a mais na criação de seu mito.
E veja-se que “paradoxo”, ou melhor, que contradição: um homem que se pretendia imortal redigir seu epitáfio!...
Isso foi, pelo menos, um paradoxo...fúnebre.
Só Plínio seria capaz dessa proeza dialética, sem despertar o bom senso de seus fanáticos.
E tudo isto comprova quanta razão têm os italianos ao considerar que: “Nada há mais mentiroso do que um epitáfio”.
 
 
 
Acabamos de ver Plínio afirmar que seu objetivo, seguindo o modelo da revista modernista Sept, era “difundir uma mentalidade” no meio católico.
Qual era essa mentalidade?
Examinando toda a sua obra—TFP, Sempre Viva, Arautos do Evangelho – se vê claramente que essa mentalidade foi a do Romantismo. E o Romantismo é gnóstico e revolucionário. Portanto, Plínio foi um revolucionário, travestido de católico tradicionalista.
Que essa mentalidade que Plínio desejava difundir era a do Romantismo se comprova também por inúmeros textos dele. Toda a revista “Dr. Plínio”, assim como o livro Dona Lucília -- do qual Scognamiglio assumiu a autoria, o comprovam. Como também agora os livros Inocência Primeva e o Notas Autobiográficas que vimos citando.
Plínio mostrou que, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, se registrou uma luta entre a mentalidade americana – Yankee – triunfante na guerra, e a mentalidade dos derrotados na Guerra, pois
verificou-se a queda na Europa do que representava a tradição, hierarquia, esplendor de vida, amor à beleza das formas, dos gestos e das atitudes. E com o declínio dessas tradições, simultaneamente, o advento da influência norte americana. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo “O Transatlântico e o Cais”, in Revista Dr. Plínio, no. 65, p.27).
E Plínio tomava posição nitidamente a favor do que ele denominava “tradição”. Ora, ver a Belle Époque como tradicional e hierárquica era considerar romanticamente essa época.
Sem dúvida, é verdade que com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, morreu a Belle Époque, que era a época do domínio das monarquias amancebadas com o liberalismo, mas que Plínio absurdamente considerava como sendo o último resplendor da Idade Média.
Aliás, a defesa da Belle Époque é repetida várias vezes por Plínio e por aquele que foi a menina de seus olhos, João Scognamiglio.
Por exemplo, ao fazer sua auto biografia, Plínio, tratando da Belle Époque  disse de um modo saudosista e deformador do passado:
Era tudo diferente! Ainda havia um resto de perfume da Belle Époque, que trazia consigo um pouco das brisas do Ancien Régime, que por sua vez tinha uma certa continuidade histórica com a Idade Média(Plínio Corrêa de Oliveira, “Palestra autobiográfica”, in revista “Dr. Plínio”, Ano VI, Novembro de 2.003, N68, p. 28. Destaques do original).
E também a defesa do Ancien Régime — da Monarquia Absolutista – sem qualquer crítica religiosa, moral e política, era sonho de monarquista romântico, que, por saudades sentimentais da Monarquia, não distinguia o Absolutismo da Monarquia católica, como existiu na Cristandade medieval.
No livro Dona Lucília, cujo muito provável autor é Dr. Plínio, sonhadoramente se define a “Belle Époque” como
Período da História do Ocidente caracterizado pelo requinte da vida de sociedade, da cultura, das boas maneiras, do vestuário e da existência em geral, restos preciosos do regime anterior à Revolução Francesa. Durou desde as últimas décadas do século passado até os trágicos cataclismos político-sociais provocados pela Primeira Guerra Mundial” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p.73, nota 2).
Repare-se como se dá valor excessivo às “boas maneiras” e ao “vestuário”, e não se fala da corrupção moral dessa época. E as brisas do “Ancien Régime” eram moral e fisicamente mal cheirosas. No Ancien Régime, em Versailles não havia nem banhos e nem banheiros. Pior ainda, havia escândalos monstruosos numa corte corrupta.
Essa opinião sentimental sobre a Belle Époque foge escandalosamente da verdade histórica. Basta lembrar que a “Belle Époque” foi a época do Modernismo na Teologia, da Arte Moderna, do Decadentismo de Oscar Wilde, do Anarquismo e do Bolchevismo, do Néo-Colonialismo, inteiramente econômico, e de uma enorme decadência moral.
A chamada Belle Époque foi uma época corrupta, decadente e inconsciente de sua própria podridão, que se divertia em cabarés à beira do abismo da Primeira Guerra Mundial. Por isso, um autor a denominou com perspicácia de “o alegre Apocalipse” (Cfr. João Marcos Coelho, Beethoven e o Romance de Formação”, artigo in Cultura, Suplemento dominical do jornal O Estado de São Paulo, 8 de Outubro de 2006, caderno D6).
Repetindo a opinião de Dona Lucília e de seu filho PCO, Scognamiglio, o ““autor”” do livro Dona Lucília, não só considera a Belle Époque como escrínio conservador “dos restos preciosos do regime anterior à Revolução Francesa” – sem fazer, como dissemos, qualquer restrição à corrupção e ao Absolutismo do Ancien Régime – como chega ao cúmulo de considerar o período anterior à Primeira Guerra Mundial como sendo um crepúsculo tornado majestoso pelos últimos fulgores da Idade Média !
(...) voltemos nosso olhar para o estado do mundo nos anos anteriores a essa conflagração [a Guerra de 1914]. Naquele tempo refulgem ainda, nas nações ocidentais e cristãs os últimos fulgores da civilização medieval“ (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol.II, p. 9).
            Realmente é muita vontade de mitificar o passado, ver “Fulgores da Idade Média” na Belle Époque. Que luneta  romântica saudosista de lentes cor de rosa usaram Plínio, Dona Lucília e Scognamiglio para ver fulgores medievais nessa época suja e tenebrosa?
         E sempre que o “autor” do romance “Dona Lucília” faz referência à corrupta “Belle Époque”, ele coloca algumas expressões recendentes de romantismo para elogiá-la:
         “Cena da qual se exalavam alguns dos delicados perfumes da Belle Époque “ (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p.109).
[...]
         “Continuemos a acompanhar Dona Lucília no momento em que o brilhante mundo da Belle Époque atingia seu apogeu” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p. 137).
[...]
         “Menor não era a sua admiração pelo esplendor daquela requintada sociedade dos últimos anos da Belle Époque, que então atingia seu máximo reluzimento” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p.162).
[...]
         “É contemplar aquele ambiente todo, denso de imponderáveis da aristocracia, de elevação de espírito, últimos ecos da Belle Époque. Jamais ela se esquecerá dessas soirées” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p. 170).
            O “autor” se atreve até a ver na Belle Époque restos da Idade Média:
Naquele tempo refulgiam ainda, nas nações ocidentais e cristãs os últimos fulgores da civilização medieval” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. II, p. 9).
E ousa apresentar, ao lado da monarquia austríaca, as monarquias russa e prussiana, como “veneráveis” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. II, p. 9).
Até os bailes da Belle Époque seriam admiráveis e castos, já que Dona Lucília e seu “filhão” os freqüentavam  por  assim considerá-los:
O que restava de pomposo no teor de vida de então ainda exigia o comparecimento a bailes em elegantes e distintos trajes, inspirados em geral nos modelos franceses” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. II, p. 15).
E PCO falando ventriloquamente pela “pena” de Scognamiglio, escreveu sobre o Romantismo:
Movimento artístico e literário que dominou o século passado, o romantismo, ao lado de péssimos veios filosóficos, apresentava interessantes traços culturais e psicológicos. Razão disso foi o fato de a intelligentzia  do movimento ter sido obrigada a contentar uma sociedade a qual, após passar pelas desventuras da Revolução Francesa, tendia a abraçar uma posição melancólica em relação aos infortúnios de que tinha sido vítima, bem como a reagir contra o racionalismo e a frivolidade do classicismo.
Se de um lado glorificou-se a tristeza em dramas e óperas trágicas, de outro propiciou-se o aparecimento de estudos históricos que reabilitaram a Idade Média, favorecendo a tendência ao sério e ao maravilhoso. Eis, na conjugação destes elementos, o pano de fundo de tantos acontecimentos do século XIX”.
(João S. Clá Dias, Dona Lucília, Art Pres, São Paulo, Setembro 1995,Vol.I , p. 95, nota 1. O destaque é do “autor”).
        Vê-se, pelo que diz o “autor”, que, apesar de criticar ele  “os péssimos veios filosóficos” do romantismo, ele via com simpatia o “maravilhoso”, tal como foi promovido por essa escola literária. [De onde será que ele retirou o termo “veios”? Creio que sei de onde...].
 Desconhecia o “autor” que o “maravilhoso” do romantismo tinha fundamento na teosofia de Franz Von Baader e de Novalis, que a haviam bebido em Jacob Boehme. O Romantismo é uma corrente artística, doutrinaria e psicologicamente gnóstica. Conforme Alain Besançon, ele foi o veículo usado para introduzir a Gnose na Igreja. Por sua vez, Jamil Mansur Haddad, em seu livro Romantismo Brasileiro  e as Sociedades secretas do tempo, afirma: “Se nem sempre o Romantismo foi maçônico, a Maçonaria foi sempre romântica. [...]“O espírito maçônico é o espírito romântico” (Jamil Mansur Haddad, op. Cit. p. 49).
E, como primeira conclusão de sua obra diz Mansur Haddad:
        1 – O Romantismo e a Maçonaria traduzem um mesmo estado de espírito. Ambos são a tradução de um momento eminentemente individuado da evolução do espírito humano (J. M. Haddad, op. cit. P. 109). O Romantismo e Maçonaria traduzem um mesmo estado de espírito.
            Uma mesma mentalidade.
Ora, Plínio tinha mentalidade romântica.
            Logo...
Será tão difícil concluir esse silogismo? 
        Ora, toda a obra que focalizamos está prenhe de mentalidade romântica. E o seu “autor” não condena de modo absoluto essa escola de arte, e se revela completamente embebido de mentalidade romântica.
Era também verdade que em 1918, o granfinismo corrupto da Belle Époque agonizou ferido de morte pela american way of life.
 Ao findar a Guerra Mundial, os Estados Unidos despontaram como a nação líder na política internacional, e o prestígio de sua vitória permitiu ao seu Presidente, Wodroow Wilson, impor ao Mundo a Sociedade das Nações e a “american way of life”.
A SDN fracassou. O american way of life está aí.
O cinema, Holywood, o jazz, a mecanização, o automóvel,  o método Taylor, o otimismo, e a democracia liberal americana, eram as marcas da nova mentalidade Yankee, triunfante na Guerra estúpida:na drôle de guerre.
            Da chamada Belle Époque, o romântico ““autor”” do romance Dona Lucília – isto é, seu inspirador, PCO -- elimina quer o culto religioso da Ciência e da técnica, quer o misticismo herético embutido na Filosofia de Bergson e de Blondel, quer ainda a irrupção da heresia Modernista.
        A admiração positivista da Ciência se manifestou, por exemplo, na Exposição Universal de Paris, em 1889, para comemorar o centenário da Revolução Francesa. Para festejar e marcar essa data, é que se construiu o “monumento ao parafuso” --  a Tour Eyffel – como verdadeiro “marco fundador da nova ordem científico-tecnológica” (História da Vida Privada no Brasil  República: da Belle Époque à Era do Rádio, Nicolau Sevcenko et allii, Companhia das Letras, 1998, p. 10).
  Esse mesmo autor mostra que
No fim do século XIX, o impacto e a difusão das novas máquinas deixavam claro que um modo de vida mecanizado e acelerado viera para ficar. A Grande Exposição parisiense de 1889 transformou essa constatação num ato de fé e entusiasmo no século da Ciência e da Técnica que se abriria. (Sevcenko, op. cit. P. 12).
        Estava então na linha dessa “Fé” laica e na esperança de triunfo de uma Nova Era científica, a instalação de uma paródia elétrica da estrela de Belém. “A gigantesca estrela iluminada no topo do Pavilhão da Eletricidade -- [na Exposição Universal de 1889] – portanto, não apenas simbolizava uma inovação técnica, mas tal qual aquela outra no início da Era Cristã, era o emblema que guiaria a humanidade na nova fase histórica inaugurada pelas tecnologias modernas”( Sevcenko, op. cit., p. 10).
        Por volta de 1900 o poder da tecnologia estava muito além do que qualquer outro século jamais sonhara. Não havia precedente histórico para o que se passava... Isso suscitou um otimismo curioso, uma fé que afirmava, com efeito, que estávamos no caminho certo  (...) o poder do conhecimento resolveria todos os problemas e nos alçaria a mundos novos e utópicos. ( I. Tolstoi, The Knowledge and the Power, p. 205, apud Sevcenko,p. 514).
        Segundo comenta Sevcenko, a respeito do papel do cinema nessa visão utópico-religiosa da Belle Époque:
É o escopo da nova era, quando as grandes potencialidades da vida não mais dependerão de fontes religiosas, acadêmicas ou do saco de dinheiro, mas transbordarão aos rincões mais remotos da terra ao comando do mais humilde herdeira da inteligência divina. ( Sevcenko, op. cit., p. 520).
        Essa era a nova “Fé” sobre a qual se fundava o século XX. Essa era a aurora da Nova Era de Auschwitz e do Gulag, do Vaticano II e de Picasso.
        Mas, em contra partida a esse triunfo da técnica, Plínio afirmou ainda que, no raiar do novo mundo, em 1918, depois da Primeira Guerra Mundial,
As riquezas do espírito, as arquetipias, as maravilhas que nos dariam vontade de fugir da terra para pensar só nelas, tudo começava a ser posto de lado. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo “O Transatlântico e o Cais”, in Revista “Dr. Plínio”, N0 65, p.28. O destaque é nosso).
E destacamos, nesse texto, o desejo de fugir da terra porque isso era típico da mentalidade gnóstica do Romantismo, o querer fugir da terra, fugir da realidade.
Os românticos — como todos os gnósticos — detestavam o mundo em que vivemos, queriam fugir da terra e procuravam explicar os males relativos existentes no mundo atual, como resultantes de uma queda da Divindade, e como se esses males fossem substanciais. Ora, isso contrariava o que Deus diz na Sagrada Escritura, que “Deus viu todas as coisas que tinha feito e eram muito boas” (Gen. I, 31).
A Gnose – e o Romantismo por ser gnóstico – é uma revolta contra as penas que Deus impôs ao homem ao ser expulso do paraíso terrestre, para este vale de lágrimas. Sendo assim, o Romantismo se constitui como uma recusa à cruz, e como um sonho de recuperar a inocência primeira e de retornar ao Éden, pelo menos pelo sonho.
Plínio acreditou nesse sonho. É o que vimos em seus textos sobre a Inocência Primeva.
Plínio disse que até sua própria tão decantada concepção de Revolução e de Contra Revolução provinham de sua mentalidade embebida de Romantismo que se opunha à mentalidade yankee:
Trata-se de considerar, agora, quais foram as impressões primeiras que determinaram na minha alma essas reflexões e pensamentos sobre a Revolução e a Contra-Revolução”.
As impressões que alguém nas minhas condições podia ter eram de duas espécies diferentes. Umas oriundas do relacionamento humano de pessoa a pessoa ou num ambiente social; outras vinham do contato com a natureza. A nota tônica, contudo, era dada pela impressão do convívio humano, que mostrava esse entrechoque da tradição romântica do século XIX e da Belle Époque do início do século XX contra o vento dito “norte-americano” que começava a soprar e como os homens agiam em função dele” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Transatlântico e o Cais, in Revista “Dr. Plínio“, Ano VI, Agosto de 2.003, N0 65, p. 29. Os destaques são nossos).
Portanto, a mentalidade que Plínio queria defender em 1930 era a mentalidade romântica, vigente ainda na Belle Époque, e que se opunha à nascente e crescente “american way of life”.
Nessa última citação acima colocada, Plínio afirma explicitamente que “a nota tônica, --[que determinou suas reflexões e pensamentos sobre Revolução e Contra Revolução] -- contudo,
era dada pela impressão do convívio humano, que mostrava esse entrechoque da tradição romântica do século XIX e da Belle Époque do início do século XX contra o vento dito “norte-americano.
A tradição e a Contra Revolução plinianas foram então gestadas pela mentalidade romântica da Belle Époque!
Está aí confessado: a Tradição e a concepção de Contra Revolução de Plínio eram fruto de sua mentalidade romântica.
Nesse texto, fica patente que Plínio considerava que a Tradição, que ele defendia e na qual fora formado, era a expressa pelo Romantismo da Belle Époque.
Plínio registrava então que, após a Primeira Guerra mundial, houve um confronto entre duas mentalidades:
a) Uma mentalidade racionalista, técnica, prática, -- que Plínio chamava de mentalidade yankee;
b)Outra mentalidade, que Plínio chama de tradicionalista, é reconhecida por ele como romântica, antirracionalista e anti técnica.
Aqui convém lembrar que, durante todo o século XIX,  houve oposição entre os partidários do ateísmo anticlerical da Revolução Francesa, seguidoras do romantismo chamado realista e naturalista, de caráter panteísta e esposada pelo Grande Oriente,  e uma corrente mística, intuitiva, de caráter gnóstico, correspondente ao Romantismo lírico e simbolista, defendida pela Maçonaria mística do tipo da maçonaria escocesa, ou rosa-cruz.
Os liberais racionalistas, em 1889, para comemorar o centenário da Revolução Francesa, ergueram a Torre Eyffel, -- o Monumento ao Parafuso – torre símbolo de sua mentalidade técnica, e de sua esperança na realização da Utopia, enquanto que os adeptos da mentalidade romântica lírica, mística e mágica, construíram, nos Alpes da Baviera,  pelas mãos do Rei Luís II, “discípulo” do nazista “avant la lettre”, Richard Wagner, o castelo de Neuschwanstein, o Monumento à Lenda.
 E Plínio admirava muito o castelo de Neuschwanstein, castelo de fadas à la Walt Disney, castelo postiço de tijolos e magia feito por um rei homossexual e suicida. Nos êremos da TFP, havia fotos de Neuschwanstein envolto em nuvens, e sob essa foto se escrevera: “Paradisologia”, para indicar o sonho edênico desse castelo de lendas.
Convém registrar, para bem da verdade, que Plínio fazia um leve reparo ao Romantismo, chamando-o de “entorpecente psicológico”.
No artigo — “O Transatlântico e o Cais” – que citamos mais acima, Plínio faz uma leve reserva ao Romantismo:
Quer dizer, nas tradições do século XIX e da Belle Époque nem tudo era bom odor, pois havia nelas uma espécie de entorpecente psicológico: o romantismo. Era um passado em que apareciam juntos, se quiserem, os heróis da Contra-Reforma misturados com os românticos, como, por exemplo, Chopin. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Transatlântico e o Cais,  in Revista “Dr. Plínio“, Ano VI,  Agosto de 2.003, N0 65, p. 31. Os destaques são nossos).
 E Plínio conta, então, como ele era tentado pelo entorpecente psicológico do Romantismo:
Vou me descrever a mim mesmo.E na hora de me descrever para mim mesmo, o próprio enlevo pela tradição que eu amava, e pela Igreja que eu quase diria adorava, levava-me a perceber o reflexo dessas coisas na minha alma e a ser tentado de enlevar-me comigo. Era a hora exata em que os estampidos de Wagner, ou melodias ultra-melosas de Chopin me passavam pela memória.
Eu tinha tendência a identificar minha pessoa com a tradição – não por minhas próprias qualidades, mas porque em mim se refletia aquela tradição que eu amava. Ora, nessa identificação, havia o convite para uma posição admirativa e lânguida a respeito de mim mesmo”.
Era a tentação para o romantismo: a ilusão de ótica por onde a pessoa se põe no centro de tudo, põe-se como foco da tradição, põe-se como o modelo da Contra–Revolução e já não tem interesse em olhar para a História, a não ser na medida em que se sente encaixado ou relacionado ao menos pela fantasia, com a História”. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo “O Menino e o Mar”, in Revista Dr. Plínio, Ano VI, Setembro de 2.003, N0 66, p. 20. Destaques nossos).
Mas foi exatamente isso que Plínio fez a vida inteira: colocar-se no centro de tudo. Se ele fez alguma coisa na vida, foi identificar-se com a Contra Revolução, com a Tradição, e, sacrílega e soberbamente, identificar-se com a própria Igreja, a tal ponto que se dizia, na TFP: “A Igreja é Dr. Plínio”.
 E ele se colocava continua e obsessivamente no centro da História. Tudo acontecia, em Washington, em Paris, em Roma e em Moscou, --ou na Barra Funda, -- por causa dele.
E colocamos em epígrafe deste livro o texto em que Plínio confessa que caiu exatamente nessa tentação:
“Quando a vocação, o thau, se explicita na alma de uma pessoa, esta é levada a me ver como um todo. Por que me vê como um todo? Porque eu personifico a Contra Revolução” (Plínio Corrêa de Oliveira, apud João Scognamiglio Clá Dias, em epígrafe à sua 10conferência do Retiro V aos Arautos do Evangelho sobre a Unidade do Súdito com o Fundador, p. 1).
Prossegue Plínio em sua confissão:
O mau efeito dessa tentação era como algo lânguido que eu sentia dentro de mim, e pensava: --- [É típico do estilo romântico de Plínio inserir falas dele mesmo, ou de outrem, em seus textos, tornando-os monólogos ou diálogos imaginários] -- “Não posso consentir nesses pensamentos porque neles há alguma coisa  de mau. O que seja, eu o saberei depois. Mas o fruto é ruim. Eu preciso ter a serviço dos meus ideais o ímpeto do “hurrah” da cavalaria. E tudo o que me afastar desse ímpeto é mau. Tais pensamentos podem ter coisas boas misturadas, mas fundamentalmente têm algo ruim dentro. Não e não!” Nunca mais ouvi as músicas que eram conexas com esse estado de espírito. Nunca mais Chopin, Wagner, Liszt,  para não falar de Mendelsohn e Brahms.
Essa introspecção langorosa e derretida de si próprio é a substância do romantismo. Schumann tem uma música chamada “Revêrie”. “Revêrie” quer dizer sonho. A gente vai ver, o tema do sonho é ele, enquanto se admira e tendo entusiasmo consigo. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo  O Menino e o Mar in Revista Dr. Plínio, Ano VI, Setembro de 2.003, N0 66, p. 20-21).
Eis aí, Plínio confessando o que já provamos: sua tendência, e mesmo, a sua queda e assunção da tentação romântica: a de personificar a Contra Revolução.
Mais uma vez, foi exatamente isso que Plínio fez a vida inteira: sonhar a respeito de si mesmo, imaginando-se a Contra-Revolução, a Igreja, O Profeta, O Inocente, O Imortal, o Inerrante. O que Plínio admirou a vida inteira foi Plínio Corrêa de Oliveira.
E “sonho” sempre foi um de seus termos preferidos. E uma de suas atividades preferidas. Sonho era termo obsessivo, como também o uso de termos típicos do Romantismo como “sentir”, “sentimento”, “impressão”, imponderável”, “imaginar”,  sensação, etc. E não adianta ele fazer um falso exame de consciência auto ilusório, dizendo:   
Nossa Senhora me ajudou a fazer a escolha de tal maneira que do romantismo não ficasse nada e, espero eu, que algo tenha ficado do “hurrah” da cavalaria, da fidelidade à tradição (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo  “O Menino e o Mar” in Revista Dr. Plínio, Ano VI, Setembro de 2.003, N0 66, p. 21).
Da fidelidade à tradição romântica ficou muito nele!
Para não dizer quase tudo.
Do “hurrah”da Cavalaria...
Veremos...
 
 
 
Não cremos ser necessário demonstrar que o Romantismo colocou a imaginação e o sonho acima da Razão. Inúmeros especialistas em estudos sobre o Romantismo já demonstraram a irracionalidade dessa escola de arte, a supremacia que ela dava à imaginação e o sonho sobre a razão. Tanto nessa escola de Arte, como na Filosofia Idealista alemã se recusava o real. Citaremos apenas algumas obras para quem se interesse consultar ou pesquisar esse tema:
Albert Béguin, L´Âme Romantique et le Rêve — José Corti, Paris, 1966
Auguste Viatte, Les Sources Ocultes du Romantisme: Illuminisme et Théosophie– Honoré Champion, Paris,1979. 
Georges Gusdorf, Le Romantisme, Payot, Paris,  2 volumes, 1982-1983- 1993.
Dennis de Rougemont, L´Amour et L´Occident.
Gerd Bornheim, “A Filosofia do Romantismo”, in J. Guinsburg, O Romantismo, Perspectiva, São Paulo, 1978.
Benedito Nunes, “A Visão Romântica”, in J. Guinsburg, O Romantismo,  Perspectiva, São Paulo, 1978.
Michael Löwy, Redenção e Utopia, Companhia das Letras/Schwarcz, São Paulo 1989
Michael Löwy / Robert Sayre, Revolta e Utopia, Vozes, Petrópolis, 1995).
Que Plínio Corrêa de Oliveira tinha tendência a sonhar e a negar a realidade, acreditando ser real o que ele imaginava, se tem a prova no que ele mesmo contou de si mesmo.
“E essa idéia do viver em algo que não é o real [o mundo inexistente dos seres possíveis em Deus], mas que poderia ser o real algum dia e no qual a minha alma quereria viver, passou a constituir uma espécie de tendência freqüente no meu espírito” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano  IV, Novembro de 2.001, no. 44, p. 16. O destaque é nosso).
Esta é uma confissão clara da mentalidade sonhadora e romântica de Plínio Corrêa de Oliveira.
Nela, Plínio confessa:
1.      Que tendia a  negar, a recusar e a fugir do real.
2.      Que sonhava com a possibilidade impossível de viver no mundo imaginário dos seres possíveis.
3.      Que esse mundo irreal, um dia, poderia vir a ser real.
4.      Que essa tendência era freqüente em seu espírito.
      Toda a vida de Plínio e da senhora mãe dele comprovam, à farta e ad nauseam, esse espírito sonhador e romântico do fundador da TFP. PCO transmitiu sua mentalidade totalmente fantasista a seus discípulos. Qualquer observador medianamente inteligente constata essa mentalidade sonhadora nas manifestações da TFP, em todo  o modo de ser dos tefepistas e dos autointitulados Arautos do Evangelho, assim como nas publicações deles.
2 - Fuga do Real para o Mundo de Sonhos do Não-Ser
Evidentemente, todos esses sonhos revelam um desejo de fuga, uma tentativa de sair de si mesmo, de ser outro, identificando-se com o outro – literalmente a vontade de buscar um êxtase  [Extase significa sair de si]  naturalista – de caráter pseudo religioso, como era típico nos falsos êxtases gnósticos. É uma busca de êxtase com base na própria natureza, como se o homem pudesse, por si mesmo, fugir do metafisicamnente contingente, para alcançar o “Absoluto”, o sobrenatural, a Divindade.
E Plínio transferia essa imaginação de fuga sonhando com matérias, beirando o “não ser”, chegando também a sonhar as pessoas como elas não eram e não podem ser.
Agora essa manifestação de excelências contida naquele nacarado transparente-- [O tal vaso do Imperador] – transposta para a ordem dos seres vivos, levar-me-ia a pensar na possibilidade de existirem almas com uma força pétrea, e almas com uma ductibilidade e uma transparência de zéfiro. E na possibilidade de haver puros espíritos diversos entre si como são diversos entre si os mil estados da matéria. Ora, estes são os anjos, habitantes do Céu.
E então aquele meu mundo de sonhos, aquele ambiente mítico onde eu desejava morar não é quimera nem fantasia. É o Paraíso Celeste”. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu, revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, No 44, p. 19. O destaque é nosso).
Alguém diria que exageramos ao fazer a acusação de caráter religioso dessas imaginações delirantes. Mas é ó próprio Plínio que confessa que essas  imaginações tinham caráter religioso:
Não é difícil entender que essas meditações – [Meditações? Eram imaginações] – seriam de caráter religioso, e que se fosse materialmente possível semelhante situação, eu me sentiria feliz ao extremo, por me ter sido franqueado o conhecimento de umas tantas coisas muito mais valiosas pelas quais os homens têm apreço.
Compreendi, pois, o que era a santidade, a perfeição e a divindade da Igreja Católica, aplicando aos vitrais o mesmo raciocínio feito a propósito do órgão” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo “Flashes” com a Santidade da Igreja, in revista “Dr. Plínio”, Ano VII, Novembro de 2.004, N0 80, p. 20. O destaque é nosso).
Repare-se, antes de tudo, que esse desejo de morar dentro de outros seres permitiria a Plínio alcançar um certo “conhecimento” de caráter religioso.
Note-se também, como o autor dessas frases absurdas confunde pensamento com  imaginação. E uma imaginação delirante.
Sonhos de um homem que desde muito cedo se julgou um ser extraordinário.
Sonhos de um homem que se imaginou profeta, imortal e inerrante!
E o pior é que Plínio identifica um céu material com esse seu sonho de gozo. E que dizer de seus sequazes que tomam esses sonhos como realidade, e esses delírios como doutrina excelsa, desejando que esse imaginário “céu” tecnicolor de Holywood fosse materialmente possível?
***
Um dos escravos de Dr. Plínio, Leo Daniele, o escravo Plínio Tobias da Sempre Viva, — pessoa de certa inteligência — percebendo o romantismo sonhador que embebe toda a obra e todo o “pensamento” imaginativo de Dr. Plínio, tentou defender Dr.Plínio de nossa acusação de ser ele um sonhador romântico, fazendo distinções entre sonhar e sonhar, num opúsculo que os Provetos da TFP publicaram com o título A Cavalaria Não Morre—Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira.
Vejamos seus sofismas.
 
 
 
Em muitíssimos números da revista Dr. Plínio aparecem textos de Plínio C. de Oliveira nos quais as palavras “sonhar” e “sonho”, são empregadas de modo positivo e simpático, como se viver sonhando fosse excelente, e não um vício a combater.
Já citamos vários textos do Profeta de Higienópolis que atestavam sua mania de fugir da realidade através do sonho, querendo ser qualquer coisa,  imaginando mundos de fábula que o levavam, como ele mesmo disse, a criticar o mundo real tal qual ele é.
            Logo mais adiante veremos outros textos de mesmo teor.
Como dissemos, no mesmo sentido, há provas da mentalidade sonhadora e romântica de Plínio Corrêa de Oliveira, num pequeno livrinho intitulado A Cavalaria Não Morre, editado pela chamada TFP dos Provectos, com excertos do pensamento de Plínio, recolhidos pelo eremita Leo Daniele, membro da seita secreta Sempre Viva, onde ele responde pelo codinome de escravo “Plínio-Tobias“, livrinho no qual Leo Daniele procura defender o sonhar de Plínio como legítimo e não romântico.
Esse livro, em sua introdução “Ao Leitor”, apresenta algumas restrições ao sonhar e ao sonho, que, entretanto acabam condenando o que Plínio disse durante sua vida sobre o sonho.
Leo Daniele tenta salvar Plínio da acusação de sonhador romântico com distinções matizadas entre sonhar e desejar:
“O português é um idioma repleto de matizes. Da mesma forma como é possível ter sentimento sem ser sentimental, é possível sonhar sem ser um sonhador. Pois esta última palavra carrega conotações pejorativas e até censuráveis”.
“O povo lusitano, por exemplo, sonhou com inúmeras conquistas. E realizou várias delas. Nossa Pátria-Mãe, marcada por um sólido bom senso, constitui uma nação de sonhadores? Muito pelo contrário. Poucos povos têm o senso do pão-pão, queijo-queijo, como o possui o lusitano”.
“É que existe sonhar e sonhar. Na concepção pliniana, sonhar não é fugir da realidade, mas pelo contrário, encontrá-la. Nada mais desprezível que sonhar quimeras. Nada mais respeitável—e necessário – que “sonhar realidades”. Pois nessa concepção sonhar é desejar, e os desejos são o que move o acontecer humano” (Leo Daniele, Ao Leitor, Apresentação ao livro A Cavalaria Não Morre, excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, Coleção “Canticum Novum”. O destaque é nosso).
Sem dúvida, todo homem tem sonhos quando dorme. E nem todo mundo é sonhador.
Sem dúvida ainda, em português, como, aliás, em outras línguas também, a palavra sonhar pode significar desejar. Mas Plínio, como já sobejamente provamos por inúmeros textos, sonhava de olhos abertos e sonhava o que era impossível. Por exemplo, sonhou- desejou ser -- ser urubu.
Veremos isso, logo mais.
Como também sonhava irrealidades, desejando que fossem reais. Sonhava seres possíveis inexistentes mas que, de tanto querer que eles existissem, acabava por dizer que eram sonhos de coisas existentes... De certo modo.... Depois reconhecia que queria viver num mundo irreal. E isso é ser sonhador no pior sentido do termo.
Para recordar, repetimos aqui um texto já citados, que desmente rotundamente o que Leo Daniele diz acima.
“E essa idéia do viver em algo que não é o real, mas que poderia ser o real algum dia e no qual a minha alma quereria viver, passou a constituir uma espécie de tendência freqüente no meu espírito” (Plínio Corrêa de Oliveira, in revista Dr. Plínio, Ano  IV, Novembro de 2.001, No 44, p. 16. O destaque é nosso).
 E vimos que Dr. Plínio , como Dona Lucília, gostava de mitificar.
Se Leo Daniel considera que condenar o mundo real e sonhar quimeras são atos desprezíveis, e que só vale “sonhar” realidades, então ele condenou Plínio que sonhou quimeras, mitos, e  até “quase não-seres”.
E Leo Daniele afirma: “Nada mais respeitável — e necessário – que “sonhar realidades”.
Sonhador é quem confunde quimeras com realidades.
Ora, para Plínio os seres possíveis em Deus, seres inexistentes, de algum modo eram realidades existentes, e,  na Transesfera, eles seriam até o ápice da realidade. Logo, seria possível sonhar esses seres inexistentes-existentes.
Sutilezas redacionais de quem é “sempre vivo”.
Sonhar “realidades”, para Plínio era imaginar um mundo que não existe. Ele sonhava com um mundo que fosse um paraíso terrestre. Plínio, como todo romântico, queria retornar, por meio do sonho, ao paraíso da inocência perdida. Daí, ele dizer-se “O Inocente”, ou aquele que recuperara a Inocência Primeva, julgando-se sem pecado original. Daí, sua esperança ou crença na sua própria imortalidade.
Quereria Leo Daniele sonho mais irreal do que julgar-se imortal? E entretanto, Plínio sonhou com sua imortalidade nos dois sentidos dados por Leo: sonhou como desejo, e sonhou como sonho mesmo. Só que morreu, e o sonho da TFP acabou.
The dream is over...
Esse desejo de fugir do real que Plínio professava e defendia,-- típico da mentalidade romântica - se manifestava, por exemplo, no que ele dizia dos quadros de Claude Lorrain. O comentário dele dos quadros desse pintor é exemplo claro de como ele gostava de fugir da realidade através de uma arte que embalava seus sonhos de irrealidade.
Escreveu Plínio, desmentido Leo Daniele:
Depois de Zurbarán e do Beato Angélico,o pintor cujas obras mais me impressionaram foi Claude Lorrain”. (...) “Lorrain é o pintor do sol. Seus quadros são fantasias em torno do astro diurno(...)”. “Em geral os temas de suas pinturas são fruto de uma privilegiada imaginação, misturando-se neles elementos antagônicos e quase se diria contraditórios”.(...) “Tudo isso é irreal, imaginário e chega ser inconciliável: escadas de mármore banhadas pela água do mar (que corrói essa pedra facilmente), ruínas romanas ao lado de torres medievais, próximas a palácios clássicos, camponeses fazendo festas a bordo de navios, personagens bíblicos ao lado de homens do século XVII... Ele toma esses elementos díspares e pinta quadros de realidades que nunca existiram. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Feerias de Sol, Belezas de Deus, in revista “Dr. Plínio”, Ano III,  Janeiro de 2.000, N0 22, pp. 32-33. Os destaques são nossos).
Nesse texto, Plínio confirma seu amor pelo irreal, por um imaginário que não existe, o que é claramente típico da mentalidade romântica.Sonhadora.
Para Plínio, a super realidade não era deste mundo, mas a dos seres possíveis inexistentes, mas que existiriam pelo seu sonho, na Trans-esfera, que ele também sonhou.
E Dr. Plínio vai ser ainda mais claro na defesa da mentalidade característica do Romantismo.
“Pergunta-se, então, qual o mérito dessa concepção artística. A resposta, a meu ver, é que tudo isto convém ao pintor para iluminar por um certo tipo de luz de sol, também ela mirífica e transcendente da realidade -- (Sic!?). Ele cria coisas em ordem a um sol igualmente criado pelo seu talento. Ao término de uma fabulosa tela, Claude Lorrain terá composto uma situação natural que ele gostaria muito fosse verdade, e cuja existência encheria a sua alma. Não se trata, pois, de uma pura fantasia, mas de uma criação. Ele gerou tudo aquilo para formar um mundo dourado e irreal, que atrai profundamente o senso artístico de incontáveis pessoas apreciadoras da arte pictórica” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Feerias de Sol, Belezas de Deus revista “Dr. Plínio”, Ano III,  Janeiro de 2.000, N0 22, p. 33. Os destaques são nossos).
Depois de quase defender o sufrágio universal no campo do gosto estético, Plínio, como o faziam os românticos, parte para o ataque contra os que são contra o sonho, e que defendem a realidade concreta conhecida pelos sentidos e pela inteligência, isto é, pelos que defendem a verdade no sentido católico:
“Algum espírito menos afeito a idealizações poderia objetar contra o valor e a admiração que se tributam aos quadros de Lorrain, porque não se deve gostar do que é imaginário. E nas pinturas dele tudo—incluindo a própria luz do sol, sans lequel les choses ne seraient que ce qu´elles sont – é imaginário e, por conseguinte, anorgânico”.
“Esta é uma objeção perfeitamente estúpida, porque faz parte da organicidade do homem ter uma certa saudade do Paraíso, perdido após o pecado de nossos primeiros pais. E ter, portanto, uma necessidade equilibrada, sem descabelamentos, de imaginar coisas que ele sabe não existirem nesta terra de exílio, mas que podiam ter existido no Éden, e que poderão existir no paraíso Celeste. Assim, longe de merecerem nosso desprezo, os quadros de Claude Lorrain são quase uma pré-visão do Céu Empíreo.” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Feerias de Sol, Belezas de Deus revista “Dr. Plínio”, Ano III,  Janeiro de 2.000, N0 22, p. 33. Os destaques são nossos).
Leo Daniele nos responderia que sonhar é desejar as realidades do paraíso terrestre.
O Paraíso terrestre foi real para Adão e Eva, e Deus realmente os expulsou dele. Por causa do pecado original, estamos exilados do paraíso terrestre. O Romantismo quer se infiltrar no Éden, para fugir do vale de lágrimas da realidade concreta. Para fugir da cruz. O Romantismo sonha com o retorno ao paraíso original pelo sonho do milenarismo. Isso é fugir da Cruz,e não tomá-la, para seguir a Cristo.
O sonho de recuperar o Paraíso terrestre é uma fuga da realidade em que Deus nos colocou.
E Plínio não sonhava apenas com imaginários lugares edênicos. Tinha também sonhos milenaristas, quer sobre uma Idade Média romanticamente idealizada, quer sobre um futuro Reino de Maria completamente quimérico com ruas de porcelana ou de cristal, e homens angelizados.(Veremos isso, mais adiante).
Para Marx é a Economia que move a História. Para Plínio, era o sonho o motor da História.
O primeiro capítulo do livro A Cavalaria Não Morre tem por título Sonhar Realidades, e nele se lê o seguinte excerto de Plínio:
 “Entre o sonho e o sono...”
A História é, na alma dos homens um movimento pendular entre o sono e o sonho. (...). Os sonhos e as aspirações são o motriz da História” (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira,  in A Cavalaria Não Morre,  Coleção “Canticum Novum”, p. 18. O destaque é nosso).
Se a palavra sonho só é válida quando significa desejo, por que unir sonhos e aspirações?
Se sonhos = desejos, se aspirações = desejos, então escrever que Os “sonhos e aspirações são o motriz da História” seria escrever desejos e desejos são o motriz da História. O que é uma redundância gagá.
Claro que a palavra “sonhos” na frase de Plínio citada acima não significa desejo. Quer dizer sonhos mesmo.
Que no texto “Ao Leitor” o escravo Plínio Tobias (Leo Daniele) procurou apenas fugir da acusação de Romantismo, se comprova facilmente pelo que está impresso nesse mesmo.
“O sonho é uma alta forma de discernimento.
“Não se pode dizer que o sonho seja mera imaginação. O sonho é um alto discernimento da verdade, pelo que ela tem de mais razoável, de mais sério e de mais belo” (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre,  Coleção “Canticum Novum”, p. 54. Os destaques são nossos).
Evidentemente, Leo Daniele não estava aí se referindo aos sonhos que temos ao dormir, que são puro produto da imaginação, sem controle da inteligência e da vontade. Ele estava se referindo a sonhos de olhos abertos.
Ora, crer que o sonho, mesmo o de olhos abertos, permite um alto discernimento da verdade é contrário à doutrina católica e tomista e contrário ao bom senso. O discernimento da verdade só o temos quando nossa inteligência aceita o objeto real tal qual ele é, sem distorções. A verdade é a adequação entre a idéia do sujeito conhecedor com o objeto conhecido. E isso só é alcançado quando nenhum desejo, nenhuma paixão tolda a visão do intelecto. Por isso, dizia Dante que era preciso olhar a realidade com “occhio chiaro e con affetto puro”(Dante, Paradiso, VI , 87).
Olhar tudo com olhar claro e com afeto puro, porque o olhar toldado pela paixão, e o afeto desregrado deturpam a visão das coisas como elas são. Sonha quem não quer aceitar a realidade que temos diante de nós, neste vale de lágrimas. Sonha quem quer fugir da cruz. Por isso disse bem um poeta – poeta até romântico, pois até o diabo, por vezes, diz : “Ái Jesus!” --: “Quem sabe olhar e sofrer, sabe tudo”
Agora o senhor Leo Nino Foscolo Daniele – o escravo Plínio Tobias  da Sempre Viva-- cita texto de Plínio no qual sonhar significa uma coisa, pelo menos em parte, ligada à imaginação, mas que seria algo muito mais elevado, pois seria “um alto discernimento da verdade”.
 Portanto, um ato do intelecto.
Logo, desmentindo e contradizendo a explicação anterior de que, para Plínio, sonhar seria desejar, que é um ato da vontade.
 Que Leo Daniele escolha então: sonhar é ato da vontade ou ato do intelecto? E o sonhar de olhos abertos pode ser ou não um ato da imaginação, como defendia PCO?
 
Noutra página desse opúsculo citado, se afirma que O Sonho é que ajusta as cogitações e as vias do homem” (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre, Coleção “Canticum Novum”, p. 58. O destaque é nosso).
Portanto, seria o sonho  --ato de desejar  – que ajustaria as cogitações.
Portanto, se assim fosse, o desejar antecederia o cogitar, o que é uma gagueira, pois nada pode ser desejado pela vontade, que não tenha sido antes concebido, cogitado pelo intelecto.
Logo, Plínio nem sempre usava a palavra sonhar como desejar, como Leo Daniele pretendeu que fosse, mas, usava o termo sonhar em seu sentido próprio, que não é desejar, e sim imaginar.
E quem imagina algo para fugir do real é precisamente aquele que sonha no pior sentido palavra.  No sentido romântico do sonhar.
E era o que Plínio praticava desde menino, e esse era  o sentido que ele defendia.
            Mais além, se lê nesse livro, com excertos do pensamento de Plínio, que o sonhar estaria ligado à Fé:
A grande atmosfera de sonho prepara a alma para a fé. Depois de a alma com fé receber esta preparação, ela voa de dentro da fé para a santidade. (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre,  Coleção “Canticum Novum”, p. 56. O destaque é nosso).
Se, como garante Leo Daniele, se para Plínio sonhar significasse desejar, o desejo é que prepararia a alma para o ato de fé. Ora, isso faz conceber a Fé não como uma virtude intelectual, como ela é, mas passando a ser exclusivamente uma virtude moral, dependente da vontade, do desejo, e não da adesão da inteligência a verdades reveladas por Deus. O que é um erro teológico.
Se sonhar significa exatamente o que quer dizer a palavra sonhar, então a Fé estaria relacionada ao imaginário, e não a verdades reais. O que também é herético.
            Plínio tenta escapar à acusação de milenarismo, dizendo:
Não se trata de restaurar o paraíso – isto cheiraria a milenarismo – mas de criar uma ordem de coisas tendente a algo que, tanto quanto possível, corresponda a um certo desejo do paradisíaco que há em nós. (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre,  Coleção “Canticum Novum”, p. 25. O destaque é de nossa reponsabilidade).
Mesmo ao tentar escapar da acusação de milenarismo, Plínio afirma que no homem haveria “um desejo do paradisíaco” aqui na terra. O que é exatamente o que pretende o milenarismo.
Mas, segundo Leo, desejar para Plínio, pode significar sonhar.
E mais adiante diz Plínio:
De sorte que ficou no homem uma certa nostalgia do paradisíaco, não só do paraíso celeste, mas também de uma vida terrena com uma nota paradisíaca. (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre,  Coleção “Canticum Novum”, p. 28. Os destaques são nossos).
Ora, querer “uma vida terrena com uma nota paradisíaca”, é exatamente milenarismo.
E não se pode ter saudades daquilo que não se conheceu. Só Adão e Eva poderiam, ter saudades do Éden.
Mas Plínio vai mais além, pois que coloca na vida humana algo de angélico:
A Cristandade seria tanto quanto possível um espelhar fulgurante da ordem paradisíaca e da ordem angélica entre os homens. (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira,  in A Cavalaria Não Morre,  Coleção “Canticum Novum”, p. 30. Destaques nossos).
Que significa dizer que a Cristandade medieval foi um espelhar da ordem angélica entre os homens?
Em certo sentido, muito analogicamente, isso poderia ser dito. Mas lembrando que Plínio afirmava que o homem pode ser angelizado,  e que, em um sermão, Monsenhor Scognamiglio garantiu que o homem tem também natureza angélica, essa frase se torna então bem suspeita. A frase deixa o campo analógico, passando para o campo metafísico. E aí, então, ela se torna frase bem errada.
Essas concepções sonhadoras e imaginárias, tendentes ao milenarismo são relacionadas com um imaginário mundo de seres existentes “ab aeterno” que Plínio Corrêa imaginou descobrir através da realidade material imperfeita, e que existiriam numa outra esfera de ser, de que não falam nem a revelação, nem a doutrina católica.
Tais seres ab aeterno estariam acima dos anjos e muito próximos de Deus, “sendo quase Deus”.
Já demos inúmeras citações de PCO defendendo o sonho.
 Vejamos, agora, algumas afirmações de PCO, nas quais ele deixa patente sua mentalidade romântica e sonhadora no pior sentido do termo. Essas citações são novas provas cabais da mentalidade romanticamente sonhadora do fundador da TFP, mentalidade cultivada por ele, e por ele considerada como a visão católica da realidade.
 
 
Plínio sonhou até –  e no pior sentido, desejou -- ser urubu.
Claro que se afirmássemos isso sem prova material, diriam que era uma invencionice caluniosa de nossa parte, e calúnia inacreditável. Damos, então, a prova concreta e impressa do sonho de Plínio de ser urubu.
“Com o vôo do urubu imersão num mundo de sonhos”
Avisamos Leo Daniele que esse sub-título urubusal não é nosso. Essa “preciosidade” deve ter sido obra de seu ex colega da Sempre Viva, o seu muito estimado João Clá, hoje, Monsenhor Scognamiglio. Pois esse subtítulo consta da revista “Dr Plínio” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44, p.16. 1a coluna).
Plínio confessa que sua mentalidade era a de tentar fugir constantemente do real para um mundo ideal com o qual ele sonhava.
Ainda quando menino, -- porque essas tendências más começam cedo --no Colégio São Luis, em aulas duras, ele ficava espiando, pela janela da classe, um urubu voando no céu azul, e sonhava... ser urubu.(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0  44 p. 16).
E eis o texto em que ele expõe o seu sonho urubusento, enquanto sofria de tédio – tédio também tipicamente romântico-- em uma aula que Plínio mal suportava:
Em certas ocasiões eu via um urubu cortando o firmamento e não sabia tratar-se de um bicho feio como notei anos depois. Desse pássaro eu conhecia apenas o lindo perfil, seu vôo gracioso e seu esplêndido jogo de asas. É verdade que dele se vê apenas a silhueta, mas as silhuetas têm suas elegâncias e o urubu era uma, deslizando pelo ar. De vez em quando voava com uma asa que parecia curta e a outra longa, ou então se virava e era a outra asa que então se virava e era outra asa que crescia e a anterior parecia menor.
Quando percebia que ele planava e não batia as asas, eu pensava: “ Como deve ser gostoso ser urubu! E como seria  agradável se eu, a esta hora, pudesse desprender-me desta carteira, deste papel, deste papel onde, com uma letra perenemente feia, estou rabiscando coisas e sobre o qual, brincando com a bomba da caneta tinteiro, deixo cair gotas de tinta e fico aborrecido...
Então eu imaginava algo diferente. Como era menino, não sabia dar formulação ao meu próprio pensamento, mas o que me ia no espírito era: “Ah! Se eu pudesse sair voando pela janela, cortar o ar como um urubu, e morar dentro do azul muito tempo, sentar-me sobre as nuvens, dormir um pouco sobre elas e brincar com o vento de tal maneira que ele me levasse delicadamente para onde eu queria; ou  se eu tivesse o prazer de fendê-lo sem grande esforço – isso seria uma diversão muito agradável, num mundo de sonho, mundo que não existe” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo  O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44, p.16. 1a coluna. O destaque é nosso).
Preguiça. Tédio. Fuga através do sonho. Eis Plínio sintetizado em sua infância. E como ele, menino mimado e cheio de delicadezas, lembra o Jacinto de Tormes do Eça de Queirós, do A Cidade e as Serras, morrendo de tédio, bocejando, no luxuoso e requintado apartamento 202, da Avenida Champs Elysées, em Paris, na Belle Époque.
Como um típico romântico, Plínio Corrêa de Oliveira queria fugir da realidade, e, através do sonho, queria viver “num mundo de sonho, mundo que não existe”.
[Noutro número da Revista “Dr. Plínio”, repete-se essa narração, mas com algumas diferenças de palavras:
“Às vezes eu vislumbrava um urubu cortando o firmamento. Não sabia tratar-se de uma ave feia, como depois me foi dado constatar. Dele eu conhecia apenas a linda silhueta,seu estupendo jogo de asas e o vôo elegantíssimo. De determinado ângulo, uma de suas asas me parecia curta e a outra , longa. Quando o pássaro virava, era esta asa  que crescia e a anterior parecia diminuída. Agradava notar, sobretudo – a mim pouco amigo do esforço físico -- que o urubu planava e  não voava ao sabor das correntes de ar”.
“Diante desse espetáculo da ave deslizando pelo azul do céu, eu refletia: “Como deve ser gostosa a existência desse urubu! E como seria  deleitável se, a esta hora, pudesse eu me desprender desta carteira, deste vigilante, deste papel em que, com uma letra perenemente feia, estou rabiscando coisas ou deixando cair gotas  de caneta tinteiro, e sair voando pela janela! Elevar-me no ar como o urubu, morar dentro do azul, sentar-me ou dormir um pouco sobre as nuvens, e brincar com o vento de tal maneira que ele me levasse delicadamente para onde eu quisesse, ou me permitisse desfrutar do prazer de fendê-lo sem grande esforço! Isso seria para mim um entretenimento muito agradável, num mundo de  sonho, que não existe” (Plínio Corrêa de Oliveira, Revista “Dr. Plínio”, Ano I, Março de 1099,  N0 11, p. 7. Repetimos o texto, com essas variantes, para  evitar que houvesse tergiversação por parte dos responsáveis pela Revista “Dr. Plínio”. Os destaques são nossos.].
     
Busca de prazer através do sonho. Mas desde que sem esforço. Pois PCO sempre foi “pouco amigo do esforço físico”,isto é sempre foi preguiçoso. E a preguiça causa sempre o tédio.
Já na infância e gozando da “Inocência Primeva”, Plínio era preguiçoso a ponto de identificar a virtude com a sua cama. E era glutão. E era tendente à covardia. E era “modesto”  e humilde como só a Inocência Primeva podia permitir...Pois que ela subsiste mesmo sob um mar de pecados.
 Sonhar viver em deleites num mundo que não existe, eis Plínio preguiçoso sonhador, querendo viver romanticamente num paraíso montado por sua imaginação.
E Plínio prossegue sonhando:
“Pedras, vitrais, olhares: a vida num ambiente mítico”
“Na mesma época, acontecia-me com freqüência outra situação que passo a descrever:
“Aqui no Brasil é comum encontrar pedras que nada têm de precioso, mas cujo colorido é muito bonito. Desde cedo, em passeios pelos campos, habituei-me a notar essas pedrinhas e a catá-las. Minha idéia era a seguinte: como seria gostoso morar dentro de um ambiente que fosse todo da cor daquela pedra, da consistência que ela parecia ter, onde eu pudesse respirar e ficar sossegado, sem ter que falar com ninguém, nem ninguém comigo. E colocando meu temperamento nas condições da pedra, assimilando tudo quanto tem na pedra, e por assim dizer, “esmeraldando-me”, “rubinizando-me”, “safirizando-me”, de maneira que algo daquilo como que se entranhasse em mim e me enriquecesse com aquilo. Era para mim uma história de fadas sem fadas, em que a fada era o puro ambiente, era a pura cor dentro da qual eu moraria, e, durante algum tempo, encontraria meu contentamento”.(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo citado in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44, p.16. 2a coluna. Os destaques são nossos).
Eis aí o resultado de ter sido formado por Dona Lucília com contos de fadas e historietas românticas: querer morar e viver num ambiente que seria... “a fada”.
Imagine-se viver no ambiente-fada!!!
E esse ambiente ser o interior de uma pedra. E desejando que algo da pedra se entranhasse nele.
Se isso não é desvario romântico então as  palavras não têm mais significado.
E prossegue Plínio Corrêa de Oliveira:
“Daí o gosto que sempre conservei por esses tipos de pedras.
“E daí, também, meu verdadeiro êxtase quando descobri que os vitrais de algum modo me satisfaziam esse desejo. Depois, quando descobri que certos olhares indicavam que determinadas almas como que vivem numa pedra ou numa água interior, ou num ar interior e que elas habitam em algo ou algo habita nelas – metafisicamente – que é como um líquido no qual elas existem e que trás fecundidade, força, serenidade, inspirações, vôos, que constituem uma espécie de redoma dentro da qual a pessoa vive. E essa idéia do viver em algo que não é o real, mas que poderia ser o real algum dia e no qual a minha alma quereria viver, passou a constituir uma espécie de tendência freqüente no meu espírito” (Plínio Corrêa de Oliveira, revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, No 44, p. 16. Os destaques são nossos).
Que estranha afirmação!
Haveria pessoas cujo olhar indicaria que nelas haveria – ou que elas habitariam --“uma água”, “um ar” interior, num universo “metafisicamente” (Sic!) distinto do universo real.
Nessas pessoas habitaria algo, e elas mesmas, reciprocamente, habitariam também nesse algo, que habitaria nelas. Metafisicamente!
Que doutrina estranha!
Fica parecendo a história do xoró—coisa inexistente – posta no avesso, dentro de outro xoró, posto no direito...
            Que significava isso, para Plínio?
Se havia pessoas que metafisicamente possuíam algo que outros seres humanos não tinham, isso faria uma diferença metafísica na humanidade.
Haveria, então, homens metafisicamente superiores aos demais? Ou seria apenas uma qualidade acidental nesses homens?
Essa afirmação de Plínio é tão grave quanto “exótica”, mas está bem de acordo com a mentalidade pseudo-aristocrática, grãfinamente sonhadora de Plínio, e que ele incutiu em seus adoradores.
Imagine-se sonhar em safirizar-se, esmeraldizar-se...
Como PCO devia julgar ser chato ser Plínio, visto que ele queria de todo jeito ser outro. Aliás, esse desejo de ser outro foi nele cultivado por Dona Lucília que o fantasiava no carnaval, dizendo que, durante três dias ele deveria viver o que representava em sua fantasia: ser marquês, ser rajá, ser bruxo, ser toureiro, etc. Ser, enfim, outro. Por três dias. Ele acabou se fantasiando de profeta a vida inteira.
Mas, dialética e paradoxalmente, Plínio queria ser só Plínio. Pois humildemente dizia:
“O fato de eu ser eu dava-me muito contentamento. Não me reputava melhor que os outros” (PCO, Notas Autobiográficas, vol., I, p. 123).
Mas Dona Lucília recomendava a ele que jamais se esquecesse que ele era mais que os outros. Por isso, ele jamais deveria ir no banco de trás do automóvel. Que os coleguinhas dele se amontoassem lá atrás...
Ou ainda modestamente dizia Plínio de si mesmo:
 “Como isto me diz respeito! Como se relaciona comigo! Que coisa magnífica! Que bom é isto, e como é bom eu ser eu!” (PCO, Notas Autobiográficas, vol., I, p. 124).
E falando de suas cobertas e de sua cama, PCO comentou:
“Como isto está bem. E como sou bem aquinhoado!” (PCO, Notas Autobiográficas, vol., I, p. 300).
E daí, para fora.
Esse devia ser o nome de uma langorosa canção de jazz americano, ao estilo de Holywood nos tempos da Segunda Guerra, talvez. Devia ser um fox cantado por Frank Sinatra, ou por outro “crooner” qualquer da década de 40 ou 50.
Horrível!
Mas dela nos lembramos – com pesar -- ao ler o que diz Plínio de conversas em troca de olhares.
Vejamos, então, um momento, como Plínio misturava o plano metafísico com o romantismo vulgar, a respeito de olhares...
E na alma de mamãe havia inúmeros aspectos pelos quais ela conversava muito mais pelo olhar, timbre de voz, gestos das mãos, do que propriamente pelo sentido das palavras”.
A esse propósito, tomo a liberdade de fazer uma comparação que nos lábios de um filho, pode parecer excessiva, entretanto é a única que encontro para exprimir minha idéia”.
Quando criança, às vezes eu ficava sozinho, à noite, contemplando o céu estrelado. Como muitos, tinha a sensação de que a abóbada celeste não era inteiramente fixa, mas sim como um grande toldo circular, —[Quem sabe: “um pálio de luz desdobrado...”?] – dilatando-se ou se encolhendo de modo suave. E que esse movimento comunicava um certo impulso de fole àqueles astros, os quais por isso cintilavam. Tomava-me a impressão de que as estrelas de certo modo dialogavam comigo—[Ora, direis, ouvir estrelas, poetara o romântico Bilac...] --, e,quando mudavam de posição, olhavam-me em silêncio”.
“Eu sabia que isso não tinha fundamento, e dizia a mim mesmo: “É verdade, mas não pode ser mera ilusão, deve haver algo de real nisso”. [Note-se o sonho romântico arrombando as portas do bom senso na alma de Plínio: a ilusão tinha que ter algo de real! O ideal seria real. Exatamente o que crê e diz a mentalidade romântica!].
“Somente depois de homem feito consegui explicitar o que eu sentia. Deus criou o firmamento de maneira a causar essa impressão nas pessoas. E embora não seja a autora desses movimentos, a  abóbada celeste o é dessa sensação. Esta tem como origem remota e suprema a Deus Nosso Senhor, criador do céu”.
“Esse pensamento me parece elevado e belo, porque exprime o valor metafísico dessa sensação que nos colhe ao contemplarmos uma noite estrelada”.
[Atenção! Plínio vai passar do plano poético-“metafísico” para o plano materno-filial...].
“Ora, de modo análogo ao que ocorria comigo ao considerar o firmamento, quando conversava com mamãe, muitas vezes tinha a impressão de estar dialogando com duas estrelas (os seus olhos), as quais pulsavam e  fitavam-me, dizendo coisas sem relação imediata com os assuntos por nós tratados. E eu sentia que lhe respondia também dessa forma, e assim conversamos durante quase 60 anos até a morte dela. Esse foi o contributo que ela me proporcionou para compreender a riqueza da conversa” (Plínio Corrêa de Oliveira, Conversa e Amor ao Próximo, in revista “Dr. Plínio”, Ano VIII, Outubro de 2.005, N0 91, pp. 10-12. Os sublinhados são nossos para ressaltar os termos tipicamente românticos de Plínio).
Ressaltamos que nada disso que está escrito é de nossa responsabilidade. Foi PCO quem escreveu isso tudo. Nós só copiamos o que ele escreveu, e que Scognamiglio publicou. E que Padre Royo Marin aprovou. Não temos nada com isso.
E ainda bem que foi o próprio Plínio que teve a preocupação de notar que usou uma comparação excessiva para um filho com relação à sua mãe.
Realmente, jamais vimos um filho ter tal idéia, que, por respeito às pessoas em foco, nos abstemos de comentar.
Mas pior ainda são as palavras de Plínio, publicadas por Mons. Dr.  Scognamiglio na Autobiografia de Plínio, que já tivemos ocasião de citar. Aí vão elas, de novo por fins didáticos, ipsis litteris, tais como foram publicadas, e com as aspas e as reticências postas por Mons.Scognamiglio:
Em certos dias tudo começava mais tarde, pois eu permanecia conversando com mamãe...Minha irmã e minha prima tinham afazeres de meninas, naturalmente um tanto separados dos meus, e não participavam dessas conversas. Nessas ocasiões, mamãe parecia existir apenas para mim! Eu sentia que “ela penetrava em mim” e eu “penetrava nela” por assim dizer...Então lhe pedia para contar alguma história”.(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008,10 vol., pp 236-237).
Se nós tivéssemos publicado tal texto...
E é claro que nós só explicamos esse texto pela doutrina de Plínio da fusão de todos os eus num só eu, como vimos anteriormente.
Voltemos aos sonhos e imaginações “metafisicamente” românticas de Plínio.
Contou Plínio que em sua casa havia um vaso de alabastro que fora de Dom Pedro II:
Contemplando os matizes daquele alabastro, eu podia imaginar toda a sorte de cores possíveis. E, na linha de meus sonhos de criança, também toda a sorte de mundos, de realidades, de perfeições possíveis.(...)”Ele [o vaso de alabastro] tinha isso de próprio: fazia pensar em certas qualidades da matéria, pelas quais esta às vezes é mais excelente porque é dúctil, é mais, é mais excelente porque é flexível, é mais excelente porque é transparente. Ou por oposição, será excelente porque é inductil, é inflexível e é opaca. São formas de excelências diferentes da matéria. Podemos imaginar então um objeto cuja perfeição estivesse na flexibilidade e leveza de um “quase não ser”, como podemos também pensar numa linda pedra, cuja excelência está exatamente no seu compacto magnífico” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44,, pp. 18-19. Os destaques são nossos).
Note-se como a mentalidade de sonho, cultivada por Plínio, o levava a imaginar “outros mundos, outras realidades, objetos cuja perfeição fosse quase a de “não ser”.
Para Plínio, como para os românticos o não-ser seria desejável.
O que leva a perguntar se para Plínio--- como dizia o Romantismo -- o ser era pior que o não ser.
Contou ainda Plínio que, certa vez, foi jantar num restaurante ao longo do Rio Arno, em Florença, restaurante que ele diz ser “Quase lacustre”(Sic!). (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44, p. 16).
Pobre rio Arno transformado pela literatice de Plínio de fluvial em lacustre.
 O Doutor-sabe-tudo não diferenciava lacustre de fluvial.
Imagine-se então um restaurante “quase lacustre” em um rio!..
 E contou ele:
”Então, pela fenda eu via o rio passar sob o piso do estabelecimento.
“A água do Arno parece uma pedra líquida (Sic!), não é transparente como podem imaginar uma pedra preciosa, mas opaca, de um verde que seria da cor de um azinhavre, pouco escura. Era como um rio de azinhavre correndo ali por baixo, que me dava uma impressão ultra deleitável.
“E eu, jantando sobre o Arno, um rio com sua densa história, com sua tradição, vendo-o correr e admirando aquela substância líquida, veio-me de imediato o pensamento: “Como seria bom morar dentro do Arno, quer dizer, num ambiente que fosse como o Arno!” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu, revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44, pp. 16-18).
Em Plínio, havia uma verdadeira obsessão em “mergulhar” em outros seres,-- pessoas, objetos, paisagens, ou em cores--, escapando para um outro mundo, para uma outra realidade imaginada só por ele. Tal qual Alice mergulhando num espelho, ou num tronco, para chegar ao país das maravilhas.
Veja-se uma narração de Plínio sobre uma tentação ao tomar banho no mar:
“Tive uma outra tentação muito tempo depois – com uns 15 ou 16 anos – no mar também.
“Estávamos vários moços brincando dentro d´água, em frente ao Parque Balneário. Era um dia de sol muito bonito. Uma onda me submergiu e, não sei como, fui para o fundo do mar, e senti aquela areia sedosa, agradável. Conservei os olhos abertos e a cor da água me pareceu magnífica. Não senti nenhuma vontade de respirar.
“Pensei o seguinte: “Aqui estou num pináculo de bem estar total, num ambiente maravilhoso. Se eu me deixar ficar aqui – veio-me à mente meio confusamente – “fico com isso para toda a eternidade. Se eu morrer afogado, de algum modo engulo tudo quanto está aqui e realizo um deleite perfeito que a vida não me dará. Não é melhor eu não respirar, mas segurar  a respiração e deixar-me morrer?
“Mas veio-me logo ao espírito o seguinte:
“O que você fará  é uma coisa malfeita. Você sacrifica algo de muito mais alto e que vale  muito mais do que o que você tem aqui”. E interveio logo a idéia religiosa: “Suicídio é pecado, você não pode consentir”. No mesmo instante, decidi: “Isso eu não posso fazer, deixe-me respirar”. Subi e a tentação tinha passado” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Encanto sem Medida pelo Mar, in revista ”Dr. Plínio”, Ano V, Maio de 2.002, N0 50, p. 25. O destaque é nosso).
Note-se a curiosa e pouco normal maneira de narrar um fato. Plínio fala de si para si, tratando a si mesmo na terceira pessoa, como se ele fosse um outro. Ele fala consigo mesmo e  se chama de você. Como se ele fosse outro. E ele conta o fato como se suas imaginações estranhas precedessem até mesmo a reação natural do instinto de conservação, debatendo consigo mesmo se deveria se suicidar ou não.
E de novo, ele imagina mudar de realidade, passando do mundo concreto – ou, nesse caso, líquido: o mar – para um mundo imaginado de sonho.
7 – Mergulhar no Azul Absoluto dos Vitrais
 Numa igreja, ele, ao ver uns vitrais românticos, ao estilo do século XIX,  imaginava-se a mergulhar no azul absoluto, ou no verde absoluto:
“Admirei aquele esplendor e pensei:
“Que cores! Como seria agradável morar dentro de um desses vitrais! Se houvesse um espaço habitável, onde tudo fosse como essa apoteose de colorido, e eu pudesse passear de vitral em vitral por vários ambientes, sem qualquer empecilho, apenas me alimentando dessas cores, do ar e do perfume condizentes com elas, eu seria capaz de perceber harmonias e belezas de uma ordem do ser maravilhosa, que não pertence a esta terra.
“Se eu pudesse morar nesse espaço, perceberia também que minha alma se sentiria completamente realizada ao fazer tal excursão através do mundo dessas cores banhadas pelo sol. Então, penetrar num verde ou azul absolutos, observar todo o percurso da luz – desde a aurora até o crepúsculo – através dessas cores que iriam mudando de tonalidades sem ninguém me interromper nem perturbar! O tempo todo estaria ali, tecendo reflexões e contemplações baseadas nesses coloridos...” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo “Flashes” com  a Santidade da Igreja, in revista “Dr. Plínio”, Ano VII, Novembro de 2.004, N0 80, p. 20. O destaque é nosso).
Conta Dr. Plínio que, quando ele era ainda menor de dez anos, foi introduzida em São Paulo a gelatina. E que ele era entusiasta de comer gelatina, mais por causa da cor do que pelo gosto da gelatina.
“Em certo sentido — dizia ele — eu “comia a cor”.
“Parecia-me que, ao ingeri-la, entrava em minha substância pessoal alguma coisa contida naquela cor, de maneira que eu me sentia enriquecido na minha personalidade e ficava entusiasmadíssimo com a gelatina. Eu tinha a idéia de que, na ordem do ser, aquilo simbolizado pela gelatina elevava-me e dignificava-me, ao entrar em mim. Eu não pensava isso por amor-próprio ou pelo desejo de outros verem  -- sabia perfeitamente que não ia ficar verde por ter comido uma gelatina dessa cor – mas por sentir que qualquer coisa do aspecto psicológico do verde entrava em mim e aumentava a minha familiaridade com aquilo que era bom e digno”(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Vol.I, pp. 365-366).
Que pensamento mais estapafúrdio: engolir o aspecto psicológico do verde. E o verde tem psicologia?
E engolir isso, que não existia no verde, causaria em Plínio um enriquecimento da personalidade de Plínio.
Teria sido preciso levar esse menino ao médico.
Ou então explicar-lhe que esse desejo de fusão nos outros e nas coisas, era uma tentação típica da Gnose romântica, buscando fundir o  próprio eu no todo do universo e nos outros.
  
 
 
Que Plínio desde muito jovem se acreditava superior a muitos, se tem a prova nas suas seguintes afirmações:
“Várias vezes, até fazer quinze anos, veio-me a seguinte idéia à mente: “Mas, afinal, quem sou eu?” Porque os horizontes para os quais eu era chamado, eram horizontes maiores que os do comum das pessoas com quem eu tratava. Sobretudo, eram horizontes mais elevados. Então, vendo esta diferença de horizontes, e vendo que os outros não ligavam para essas coisas mais altas, eu me perguntava: “Mas, afinal, quem sou eu?” Que papel eu tenho? Será que eu tenho alguma coisa a fazer?” (Plínio Corrêa de Oliveira, O Reino de Maria na alma do Senhor Doutor Plínio: “Minha Biografia Íntima”, Sagrado Coração de Jesus –XXIX—Curso de Formação São Bento-Praesto Sum—Saúde, p.5).
Por vezes, um raio de bom senso perpassava por sua cabeça, e Plínio desconfiava um tanto de seu desvario:
“Eu me perguntava o seguinte: “Essa idéia não será megalice? Afinal de contas, será que não estou imaginando coisas a meu respeito?”(Idem, p. 6).
Afinal!!! Um raio – um flash  -- de lucidez!
Mas essa reação do bom senso durava pouco...
E então ele se convenceu de ser “O Inocente”, o homem que havia recuperado a inocência primeva, de possuir a inocência de Adão, sem o pecado original.
Daí, ele se julgar capaz de ver o mundo de modo “inocente”.
E essa maneira de ver era bem semelhante ao modo de ver romântico, imaginando mundos que não existiam senão em sua fantasia, mas que, apesar de dizê-los irreais, ele acabava acreditando que eles realmente existiam.
Vimos que, considerando uma gota de orvalho, ele acabou imaginado um mundo orvalhal.
Agora vamos ver Plínio sonhando um universo císnico. E quando ele fala do cisne e da concepção císnica que ele imagina com que o cisne via o mundo, ele, Plínio, estava, de fato, imaginando-se o cisne.
“Mais adiante a criança vê um cisne. Ela fica maravilhada! Vê o modo pelo qual ele se move dentro d´água, e tem a impressão de que o cisne vê todas as coisas não como elas são, mas como ele é. De maneira que em vez de o cisne ver o que está na margem como de fato é, ele vê todas aquelas coisas com aspectos “císnicos”. Quer dizer, como elas seriam se elas fossem proporcionais a ele”.
[Devia ser um cisne que lera Schelling...Um cisne idelaista, pois via o mundo não como o mundo é, mas como ele julgava que o mundo era].
“Depois, ele vê um pavão e pensa: “O pavão está fazendo essa roda toda, e está fazendo essa roda no quintal da casa, perto das galinhas. Ele não está vendo nada disso. Ele tem como que uma imaginação por onde ele vê um universo “pavônico” que não existe, mas para o qual ele é proporcionado”
O inocente tem a impressão  -- ele sabe que não é a realidadede que as imagens das coisas dão a idéia de que  o pavão vive em função de uma imaginária ordem pavônica, e que o cisne vive numa imaginária ordem “císnica”, e que assim há muitas ordens possíveis que não existem, mas para as quais ele homem é todo feito. Portanto, não existe só o pavão em si, mas um universo pavônico, um universo císnico. Haveria então, por exemplo, o universo “leônico”, uma coisa fantástica.
“Vemos então que há vários universos possíveis que não foram criados, que são muito superiores ao universo que nós vemos, aos quais tendemos inteiramente” (Plínio Corrêa de Oliveira, O Reino de Maria na alma do Senhor Doutor Plínio: “Minha Biografia Íntima”, Sagrado Coração de Jesus –XXIX—Curso de Formação São Bento-Praesto Sum—Saúde, p.8-9. Os destaques são nossos).
Note-se como Plínio passa sutilmente:
a) de um reconhecimento de que a realidade imaginada não existe.
b)Para depois admitir que há muitas ordens possíveis de ser
c) E que o homem é feito para essas realidades imaginadas, irreais, mas possíveis.
d)Que esse universos possíveis são muito superiores ao universo que vemos.
e) Para enfim concluir: “Portanto, não existe só o pavão em si, mas um universo pavônico, um universo císnico. Haveria então, por exemplo, o universo “leônico”, uma coisa fantástica
Que platonismo gnóstico desbragado!
Essa sequencia de ideias retirada de um texto de Plínio comprova sua mentalidade completamente romântica e sonhadora, -- muito semelhante ao mundo das idéias do Gnosticismo platônico-- e tendente a repelir o universo que vemos e no qual vivemos. E isso é próprio de uma mentalidade gnóstica.
Coitado do cisne! Até o cisne de Plínio tinha megalomaníacos sonhos, no irrealismo sonhado por Plínio.
 Para quem é romanticamente obcecado, até os cisnes e pavões passariam a ver as coisas não como são, mas como sonhariam que fossem. É claro que isso ocorre comumente em sanatórios psiquiátricos.
Evidentemente, Plínio se retratava a si mesmo no cisne e no pavão, e o modo como ele imaginava como o cisne e o pavão viam o mundo—não como o mundo é, mas como eles o imaginam—é o modo como Plínio via a realidade: como um simples trampolim para saltar, por meio da imaginação, para os mundos “císnicos”, “pavônicos” e “leônicos”.
Para os mundos plinianos.
Era uma visão onírica da realidade, sabendo que ela não existe, mas, desejando tanto que ela existisse, que ora ele negava a sua existência, mas sempre afirmando, que era para ela ele tendia inteiramente.
Plínio é um romântico típico.
Plínio era um gnóstico romântico.
E essa visão onírica do mundo, não como ele é, mas como ele quereria que o mundo fosse, o levava a desprezar, do modo como fazem os gnósticos,  o mundo real, com os seus galinheiros e galinhas cacarejantes e sujas. Levava-o a sonhar um mundo císnicamente pliniano, para depois, ao constatar a realidade, repelir com nojo a realidade das margens pantanosas, para viver, em sonho, num lago azul sem lama, onde somente cisnes brancos deslizassem suavemente à flor da água cristalina e fresca.
Plínio queria corrigir o mundo tal qual Deus o fez, especialmente tal qual ele se tornou após o pecado original.
Já citamos este texto de Plínio, mas só o repetimos, agora, por razão didática, e para fazer compreender o sistema do “profeta de Higienópolis” que pretendia corrigir a obra de Deus.
“Daí vinha a tendência minha a recusar coisas enganadoras, como a de querer imaginar que realmente existiam coisas assim, mas com homens de carne e osso, com mulheres de carne e osso, e com coisas materiais sensíveis. Eu sabia que isso não existia. Imaginar que eu conheceria nesta terra um determinado ambiente humano que seria mais ou menos assim, eu também sabia que não seria possível. Mas eu sabia que em alguma medida as coisas terrenas são leváveis até lá, de forma que a minha primeira idéia de Contra Revolução foi a de caminhar para esta perfeição.
“Quer dizer, não era ainda a Contra Revolução, era a idéia em função da qual no choque contra a Revolução eu disse: “Não”!
 “A partir disto, nasceu uma crítica ao mundo real em torno do qual eu estava – uma crítica do mundo visto fora da do fundo de garrafa, aquém do fundo de garrafa--, e esse mundo eu o via com algumas coisas muito belas e que não eram indignas de estar postas em relação com o fundo de garrafa e, por outro lado, com coisas muito reprováveis, despiciendas, erradas e tortas. De onde uma idéia de e que ele deveria ser corrigido e de que se todos os homens –sempre a idéia seguinte: eu sou igual a todos os homens, logo todos os homens são iguais a mim --, em cujas cabeças há a mesma coisa que há na minha, se eles tivessem a limpeza de alma de fazer essa operação que eu faço, eles todos puxariam junto comigo as coisas para uma linha onde elas não estão, e eles seriam de um modo como eles não são”.
“Eu sentia que o impulso de minha vida era fazer isso”.
(Plínio Corrêa de Oliveira, O Reino de Maria na alma do Senhor Doutor Plínio: “Minha Biografia Íntima”, Sagrado Coração de Jesus –XXIX—Curso de Formação São Bento-Praesto Sum—Saúde, p.11. Os destaques são nossos).
Contra Revolução, para PCO, seria ser contra o real tal qual ele existe hoje, após o pecado original.
E essa recusa do mundo tal qual ele é, por vontade de Deus, é uma revolta revolucionária.
Desses sonhos e dessa recusa da realidade, com seus defeitos, desse desejo de ”corrigir o mundo” tal como foi feito por Deus, e mudado por Deus em “vale de lágrimas”, depois do pecado de Adão, é que nasce a pergunta típica da mentalidade romântica e gnóstica: “ De onde vem o mal? ”
 Conta PCO, que, quando ouviu contar a história de Adão e Eva, e soube da serpente sua reação foi: “Por que Deus não põe essa porcaria fora? Se tudo devia dar certo, para que a serpente?” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, vol.I, pp. 605-606).
“Por que Deus criou  a serpente?”
“Aquilo me parecia difícil de explicar e eu disse para mim mesmo: “Não vou pensar mais nisso, até ficar mais velho e ter o espírito em condições de resolver o problema. Então entenderei” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, vol.I, p. 606).
 Unde malum?, diriam os gnósticos.
Por que Deus criou o demônio e permitiu o mal, perguntam os românticos. Para Plínio tudo “devia dar certo”. Como nos romances e filminhos românticos.
Lembramo-nos de PCO contando como, no Colégio São Luís, uns meninos lhe contaram como eram geradas as crianças, rindo dele porque ele acreditava em cegonhas entregadoras de bebês como por sedex. Quando ouviu como se concebiam as crianças, ele disse que respondera: “Vou perguntar para mamãe, se é assim”. E que, depois, vendo alguns parentes, ele pensava: “Esse fulano -- ou essa fulana -- bem que seriam capazes de fazer tal porcaria”.
Assim nasceu o catarismo tefepista. E Anna Katharina Emmerick completou essa lição, falando em concepção humana pela palavra e não por sexo. Idéia que encantou PCO...
A mentalidade de Plínio, da TFP e dos Arautos é romântica e com nítidos traços de Gnose.
        E Plínio afirmou que sua noção de Contra Revolução -- nascida da mentalidade romântica ainda vigente na Belle Époque, e que ele confundia com a Tradição -- tinha relação com o imaginar um mundo como ele não é, e que o levava a querer corrigir o mundo.
A Contra Revolução de Plínio não visava defender a Igreja e restaurar a Cristandade, tal como concreta e historicamente ela foi, e como deve ser, mas a instituir nas mentes um sonho imaginário e a viver em função desse sonho imaginado.Numa Belle époque. Com mamãe.
 A Contra Revolução de Plínio, na medida que não era histórica, era romântica e gnóstica.
Isso é ser revolucionário.
A “Contra Revolução” de Plínio e da TFP era revolucionária.
Assim se enganam ingênuos que sonham com “restaurações” monárquicas e aristocráticas.
 
 
 
Mas, pode-se examinar os efeitos desses sonhos e desse sonhar exacerbado até o desvario da mente.
A admiração pelas perfeições excelsas dos seres possíveis—entre eles os seres possíveis “Ab aeterno”, o mundo císnico e pavônico-- levava os seguidores de Plínio a considerar as criaturas materiais como muito inferiores, tendendo a desprezá-las.
Comparado com o universo císnico sonhado, o mundo concreto em que vivemos não passava de um galinheiro sujo e lamacento.
Na TFP, a super admiração pelo ideal inclinava as pessoas a desprezar o concreto, do aqui e do agora. Como os românticos, eles tendiam a considerar que apenas “o ideal é o real”.
PCO fugia constantemente do mundo real para um mundo imaginário platônico, típico da Gnose. E quando, por acaso, encontrava algo ótimo, logo procurava naquilo um defeito, que lhe permitisse dizer que poderia haver algo melhor. E no mundo da Trans esfera, então, haveria aquilo mesmo, mas em estado sublime.
Daí, ele recorrer continuamente a termos idealizantes como arquetipia, quintessência, arquétipos, protótipos, mito, mítico, modelos, sonho, impressão, sensação, sentir, etc.
A essas palavras, ele procurava dar um sentido diferente do normal, para não cair diretamente num idealismo platonizante, mas logo suas distinções eram esquecidas, e a força do significado verdadeiro acaba voltando, e se impondo. O resultado era a formação de uma mentalidade completamente romântica.
Em que pese as justificativas deslizantes de Leo Daniele.
 Isso ocorria tanto mais facilmente quanto o próprio Dr. Plínio, na verdade, usava esses termos realmente em sentido romântico e idealista, sendo suas distinções meras cortinas de fumaça, para não se reconhecer, de plano, o seu romantismo.
Destarte, é bem compreensível que, na boca dos enjolras, sonho e mito acabassem significando – tal como na mente de Plínio -- sonho e mito mesmo.
 Mito em que se deveria desejar viver. Mito com o qual se deveria viver sonhando.
Claro que isto levava a opor o mundo real – insuportável—ao mundo ideal, sonhado. Daí, uma concepção dialética da Natureza.
A natureza, tal qual ela se nos apresenta aos olhos, seria má. A “natureza”, tal qual Plínio fazia sonhá-la, seria esplêndida.
Assim também era entre os românticos alemães e franceses: a natureza era, de um lado, um cárcere do espírito absoluto; de outro, era  o medium, o meio, o veículo para alcançar a comunhão com a Divindade.
Aplicando essa oposição dialética à natureza humana, o resultado era o mesmo: o homem, tal como o temos, é péssimo, e cheio de misérias. O homem-mito seria angelicamente “dourado”. Na Transesfera pliniana, o homem não teria nem carne e nem osso, assim como a limodadérrima não teria nem limão nem limonada. Como não cair na Gnose, se Scognamiglio – repetindo as lições de PCO—incutia e incute ainda hoje a seus Arautos--, que eles são querubínicos e serafínicos?
Os Arautos julgam-se superiores aos anjos. Ora, já diz o ditado qui fait l’ange...
Quem quer bancar anjo... fait la bête.
Essa oposição radical entre mundo real e mundo sonhado é tipicamente gnóstica. Toda Gnose nasce da recusa de aceitar a contingência do ser criado, como se ela fosse um mal metafísico.
Os maniqueus já haviam montado a sua Gnose com base nessa pergunta – Unde Malum? -- que confundia mal moral (as ações pecaminosas) com o mal enquanto ser (o mal enquanto ser não existe, pois tudo quanto existe tem pelo menos o bem da existência).
Para os maniqueus, haveria dois deuses: o Deus do Bem e o Deus do Mal, que teria criado este mundo e o homem com uma dualidade de bem e de mal.
Santo Agostinho demonstrou em seu Livro Contra Manichaeos que o Mal absoluto – o Deus do Mal , oposto ao Deus bom—não existe e nem pode existir. Porque existir é um bem. Existir é melhor do que não existir. Sendo assim, se o mal absoluto existisse, ele teria o bem da existência. Então ele não seria o Mal absoluto. Logo, o Mal, enquanto ser, não existe. O Mal é uma falta de ser, ou uma falta de ordem num ser. O Mal metafísico não existe.
Para a Gnose, em toda natureza haveria uma dualidade de bem e de mal. O dualismo é típico da Gnose.
Plínio, tendo evidentes elementos gnósticos em sua doutrina, tinha que afirmar um dualismo na natureza humana.
 
 
 
Na revista “Dr. Plínio”, foi publicado um texto do falecido imortal  “Profeta” inerrante de Higienópolis, que  fala das tendências boas e más que existem no homem, artigo no qual ele afirma que as tendências más
“constituem como que um outro homem dentro dele”. “É o inimicus homo, que tem uma inteligência sujeita a erro e facilmente claudica, uma vontade tendente ao mal e uma sensibilidade que lhe faz  achar agradáveis muitas coisas contrárias à finalidade e à natureza dele, bem como à ordem posta por Deus no universo.
“Então se dá o grande entrechoque dos “dois homens”, dos dois temperamentos, das duas vontades e duas inteligências. Importa que o homem bom, o homem novo, vença o homem mau e o velho, para então, sob o amparo de Nosso Senhora, correspondermos aos desígnios divinos sobre nós” (Plínio Corrêa de Oliveira, in revista “Dr. Plínio”, Ano VIII, Fevereiro de 2.005, N0 83, p. 25).
Que São Paulo ensinou que no homem, por causa do pecado original, há duas “vontades” – dois quereres numa só faculdade volitiva, e não duas faculdades volitivas--, uma querendo o bem, e a outra apetecendo o pecado, disso não há dúvida. Sem dúvida, depois do pecado original, em cada homem há uma luta como se nele houvesse dois homens, duas vontades: o “homo iniquo et doloso” e o homem filho de Deus.
Mas esse “homem iníquo e doloso” causado pelo pecado original, não é um outro homem substancial existente no ser humano.
Dizer que no homem há realmente dois homens, com duas inteligências, duas almas etc.,  isso é completamente novo. É pliniano. É fábula pliniana.
Na alma do homem, há uma só inteligência e uma só vontade.
Esta vontade, pela corrupção trazida pelo pecado original tende ao pecado e ao mal. Mas não se pode dizer que na alma humana haja realmente duas vontades. Essa é uma forma só analógica de falar que não se pode tomar literalmente. Muito menos se pode dizer que haja na alma humana duas inteligências. No homem há uma só inteligência, que, por causa do pecado de Adão, tende ao erro, mas que continua única no homem.
Entretanto, noutro texto, Plínio vai mais longe ainda, pois diz taxativamente que, no homem, haveria uma parte angélica e outra humana:
A parte animal do homem pode sufocar temporariamente as manifestações de sua parte angélica. Nunca pode, porém, destruí-la radicalmente” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Mundo Precisa de Santos, in revista “Dr. Plínio”, Ano II, Novembro de 1999, N0 20, p. 26. O destaque é nosso).
      Parte angélica no homem?
      Aí o erro está exposto escandalosamente: no homem haveria uma parte angélica. Plínio toma a alma como sendo algo de angélico aprisionado na animalidade.
Como esse homem podia se dizer tomista se nem sabia que a natureza humana não é composta de uma parte angélica e outra animal. Monsenhor Scognamiglio –de firmeza única em São Tomás – vai repetir essa besteira de boca cheia. Afinal, ele agora é Doutor...
Monsenhor Scognamiglio, depois de se doutorar, num sermão espaventoso pelo conjunto de absurdos que afirmou, disse que no homem há seis ou sete naturezas. E as foi enumerando e contando nos dedos:
“Nós somos bem complicados, porque nós temos leis diferentes dentro de nós.
“A parte angélica quererá uma coisa, mas a parte animal quererá outra, a parte vegetal outra, e a parte mineral pesará num sentido também diferente, então são leis diferentes, que no paraíso terrestre estavam inteiramente coordenadas, inteiramente ajustadas com o dom de integridade. Esse dom de integridade fazia com que tudo no homem, e na mulher, fossem perfeitos e obedecessem a um princípio mais alto que era o princípio da fé, um princípio ligado com Deus.
“Perdido o dom de integridade começa a verdadeira bagunça, o verdadeiro caos.
“Porque São Paulo mesmo vai dizer:”Sinto em mim duas leis”. Mas ele podia dizer que sentia cinco leis, porque uma é a lei dos minerais, outra a dos vegetais, outra a dos animais, outra a do homem enquanto tal, e outra a da graça. Porque ainda não estou considerando o mecanismo da graça, que seria uma quinta natureza que existe no homem batizado.
        “E, então, como vai o homem saber o que ele deve fazer, e o que ele não deve fazer?”(Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, sermão A Lei do Senhor é perfeita, em 25 de Janeiro de 2010, HTTP://tv.arautos.org/movie/show/*OcOrxFDbOyozopB
Sem dúvida instalou-se a bagunça na cabeça do Monsenhor Doutorado
E que bagunça! Isso é que doutorar-se em direito pelo avesso.
E esse Monsenhor acabava de receber o título de Doutor, suma cum Laude, em Roma ! E afirma que no homem há várias naturezas, inclusive que no homem há uma parte angélica. E esse “Doutor” garantiu aos membros da banca examinadora de sua tese que tinha”firmeza única em São Tomás”.
Para sempre mais heréticos atrevimentos!
Monsenhor Scognamiglio aprendeu que no homem há uma parte angélica. E aprendeu essa tolice no MNF de Dr. Plínio.
Nota Zero  para ele!
E para o MNF.
E para Plínio, de quem ele colou essa besteira.
O Romantismo de PCO vai fazer com que ele veja a natureza como intrinsecamente má. Se no homem haveria algo de praticamente divino --(a Inocência Primeva)—por outro lado esse aspecto divino estaria encarcerado numa natureza também substancialmente má. Como todo romântico autêntico e consciente de seu romantismo é gnóstico, todo romântico vai ver especialmente duas coisas como más na natureza humana: a o livre arbítrio e o corpo material, E por isso, o romântico condenará, como os cátaros, a reprodução sexual.
PCO era romântico e gnóstico. Por isso ele dirá que o livre arbítrio é mau. E ele também sempre manifestou grande ojeriza pela reprodução sexual e pelo casamento.
Isso chegou a tal ponto que, já por volta de 1958 ou 59, nos escandalizamos ao constatar que no grupo do Catolicismo de Belo Horizonte se cantava uma cançãozinha na qual se chamava a mulher de a “intrínseca”, para dizer que a mulher seria intrinsecamente má...
Entrosadinhos os mineiros, já naquele tempo.
      Certa ocasião Plínio, deu uma concepção absolutamente gnóstica do homem:
      “Todos os homens recebem graças suficientes para se salvar. Também isto é de Fé. Mas, de fato, pela maldade humana que é imensa, muito poucos, se salvariam só com a graça suficiente. É preciso que a graça seja abundante para vencer a maldade do livre arbítrio humano” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Vítima Expiatória, in revista “Dr. Plínio”, Ano II, Outubro de 1999, N0 19, p. 26. O destaque é nosso).
Como? !
Maldade do livre arbítrio?!
Isso nunca foi doutrina católica!
 Isso cheira a jansenismo desbragado.
Tomando literalmente o que o autor em foco escreveu, isso é maniqueísmo. É catarismo. É jansenismo. Isso nunca foi católico. A menos que o autor não saiba realmente escrever.
Analisaremos mais adiante essa citação (Quarta Parte, Capítulo VIII, Erros de Plínio sobre a Graça) mas considerando que o livre arbítrio é uma capacidade dada por Deus ao homem, capacidade essa que o torna livre e responsável por seus atos, capaz de ter mérito ao cooperar com a graça, e de culpa ao pecar, afirmar que o livro arbítrio é mau, é considerar que há algo com maldade na própria natureza humana. E isso, tomando a frase como ele  a diz concretamente, é tese gnóstica.
Haveria que considerar a ignorância de Plínio e a possibilidade de erro de expressão. Contudo o autor era pessoa muito capaz, tinha possibilidade de vencer sua ignorância doutrinária. Ele teve graça suficiente para não cair nesse erro. E ele se presumia conhecedor do assunto.
Ademais, os muito graves erros anteriores de caráter gnóstico que encontramos em sua doutrina levam seriamente a suspeitar de que ele tinha uma tática montada – e camuflada --para ensinar a Gnose com sutileza, Gnose cujo sistema explanaremos mais adiante. 
Mais  ainda: ele queria ensinar e ser ouvido como se fosse profeta e inerrante, o que o tornaria culpado, ainda que por simples ignorância e imprudência no escrever. Deve-se ler essa citação no contexto de toda a doutrina que Plínio expunha, o que aumenta a probabilidade de culpa, e não de erro material, no modo do autor se expressar.
Essas citações mostram de modo patente uma concepção dualista do homem. E essa concepção é a da Gnose, vendo no homem duas substâncias, uma boa, e outra má.
Claro que se poderá alegar engano de expressão. Só que as citações da revista “Dr. Plínio” foram impressas e publicadas anos depois da morte de Plínio. E podendo ter sido corrigidas, não o foram.
Pois quem se atreve a corrigir um profeta inerrante?
      Todos que entravam em contato com a TFP logo notavam que havia um tema delicado: a questão do casamento, e uma certa ojeriza pela mulher.
      Na gíria tefepista toda mulher—exceto Dona Lucília, claro—era chamada “fassura”.
PCO denominava “fassur” todos os seus adversários ou inimigos doutrinários. Essa palavra tinha origem na Sagrada Escritura, onde se conta que um sacerdote de nome Fassur se opôs violentamente ao Profeta Jeremias, punindo-o fisicamente (Cfr. Jer., XX, 1). Como PCO se julgava profeta inerrante, ele seria como Jeremias, por isso seus inimigos eram “Fassures”.
Depois, esse nome foi causando todo um vocabulário muito particular do grupo de PCO—uma verdadeiro jargão esotérico – no qual fassura era inicialmente sinônimo de prostituta, e afinal se tornou sinônimo simplesmente de mulher. Fassurar seria agir pecaminosamente, trair, ou cometer ato sexual. Fassurada passou a ser ato sexual, e assim por diante.
PCO não se casou e desprezava quem se casasse. Casar, na TFP,  era sinônimo de apostatar.  No grupo de Plínio, havia alguns veteranos que se haviam casado, e que, por isso mesmo eram tidos como membros de segunda classe: Dr. Fernando Furquim de Almeida, Dr. Azeredo, Dr. Adolpho Lindenberg, Dr. Arruda, e alguns poucos mais. Todos os que entraram a partir de 1952, eram solteiros. Quando um deles quis se casar, teve que fazer isso secretamente, casando-se numa igreja, mas não comunicando a ninguém seu novo estado. E quando descobriram que essa pessoa se casara, essa pessoa foi expulsa sem piedade, seus objetos e roupas queimados, e essa pessoa nunca mais pode participar do grupo.
PCO era admirador fanático das Visões e Revelações de Anna Katharina Emmerick. Essa falsa vidente romântica lamentava  que Deus tivesse feito a reprodução humana por via sexual. Ela dizia que Deus poderia ter feito isso de modo muito menos repugnante. E sempre que via uma noiva, ela chorava.
“Quando ela tinha 16 ou 17 anos, os pais pensaram em casá-la, mas ela recusou porque tinha uma invencível aversão pelo estado matrimonial (25):
"Quando já em minha primeira juventude eu fui instruída de modo sobrenatural a respeito da geração temporal dos homens, sem ter que pensar muito sobre o assunto, a minha fantasia, pela graça de Deus, nunca se preocupou com isso, e, quanto ao que me concerne, permaneci totalmente inocente a respeito dessas coisas, e essa questão era para mim mais uma causa de aversão e de compaixão para com as pessoas do que algo contra o que tivesse que lutar, como as outras crianças. Ainda muito criança, eu fazia censuras a meu Deus amado dizendo que podia ter feito essas coisas de modo diferente. Eu sempre tive aversão pelo casamento. E quando via uma noiva não podia deixar de chorar (Nota 26)".
“Ora, esta aversão ao casamento não é natural, e indicava nela, ou idéias gnósticas, ou pelo menos, uma mentalidade doentia. Jamais uma santa pensaria assim”.
 (Nota 26- Anton Brieger,Der Gotteskreise, Hans Verlag, Munschen, 1966, Anna Katharina Emmerick Visionen und Leben Erich Wewel Verlag, MUnchen- Freiburg, 1974, p. 224, in Tese de Doutorado de Orlando Fedeli na USP—Elementos Esotéricos e Cabalísticos nas Visões de Anna Katharina Emmerick, USP, São Paulo, capítulo III, p. 203 -204).
Essa falsa vidente gnóstica e romântica, fazia entender, como fora comum em várias seitas gnósticas, que o pecado original teria sido o ato sexual entre Adão e Eva.
Dizia ela, como dizia o gnóstico  Jacob Boehme, autor que está na raiz do Romantismo, que Adão e Eva, antes do pecado, eram feitos de luz e sem sexo. A geração humana, antes do pecado, seria por meio da palavra humana... (Orlando Fedeli na USP — Elementos Esotéricos e Cabalísticos ns Visões de Anna Katharina Emmerick, USP, São Paulo, capítulo V, pp. 383-388 e pp 412 -418).
Ora, o Cardeal Ratzinger condenou essa posição gnóstica em seu livro O Sal da Terra:
A uma pergunta do Jornalista Peter Seewald o então Cardeal Ratzinger , hoje Papa Bento XVI respondeu:
 "Certa vez o senhor classificou a sexualidade como uma espécie de mina flutuante e como força onipresente. Isso soa mais como uma atitude de rejeição em relação à sexualidade?"
 
Cardeal Ratzinger:
"Não, não é o caso, porque seria contra a fé que nos diz que o Homem é criado por Deus no seu todo, e o Homem foi criado por Ele como homem e mulher. A sexualidade não é, pois, nada que só tenha surgido depois do pecado, mas faz realmente parte do plano da criação de Deus.Porque criar o Homem como homem e mulher siginifica criá-lo de modo sexuado, de forma que de fato pertence ao conceito originário da criação e, assim, ao originalmente bom do ser humano". (Extraído do Livvro " O SAL DA TERRA", Peter Seewald, Ed. Imago,Rio de Janeiro, RJ, 1997, p. 79).
Por isso tudo, a prática da castidade na TFP era algo muito problemático, gerando mentalidades escrupulosas até o desespero, assim como graves problemas de ordem moral. E sempre que alguém queria se casar, era logo posto fora da entidade. Quando, acusamos na década de 80, essa posição contrária ao casamento e à reprodução na TFP, PCO fez uma reunião geral, na qual disse, que, desde então, quem quisesse se casar poderia fazê-lo, mas seria reduzido ao nível de correspondente e esclarecedor. Isto é, era posto fora da TFP.
        Algumas pessoas de bom nível social e muito competentes, apesar de casadas foram admitidas no grupo, e algumas delas entraram até na Sempre Viva. 
        O paroxismo se alcançou quando Dr. Plínio cogitou de que no Reino de Maria que iria ser instaurado por ele, haveria a restauração da geração humana como teria sido no paraíso terrestre, segundo a descrição de Anna Katharina Emmerick: a reprodução humana seria por meio da palavra, e não mais por via sexual.
        Por respeito e caridade, queremos ficar por aqui nessa questão, respeitando casos pessoais dolorosos, a fim de manter este estudo apenas em nível intelectual, tratando nesta questão moral somente no mínimo necessário para completar o quadro doutrinário romântico que Dr. Plínio criou e desenvolveu até o paroxismo na TFP e na Sempre Viva.
        Mas é bom recordar o ditado francês: “Qui fait l’ange, fait la bête”...
 
  
 
Relacionada com toda a questão sexual e também com a teoria dos seres “ab aeterno”, está a misteriosa teoria da “angelização” dos homens, ou, pelo menos, de alguns homens.
Nunca se nos deu  a oportunidade de ler as conferências do MNF sobre a “angelização”, mas o pouco que filtrou desse assunto é bem suspeito.
Na apostila elaborada por Átila Sinke Guimarães, -- O processo humano --à qual já fizemos referência, e que é apresentada como sendo um arcabouço do MNF, lêem-se coisas muito estranhas. Por exemplo, de uma teoria das duas cabeças no homem.
E tratar das “duas cabeças do homem” depois de afirmar a dualidade da natureza humana, e a maldade do livre arbítrio, leva a acentuar a convicção de que, com Dr. Plínio, se está em face de um heresiarca gnóstico. 
Ao se referir à “teoria das duas cabeças” – que desagradável e esquizofrênica expressão! – Átila, reproduzindo o pensamento de Dr. Plínio, escreveu o seguinte:
“O que chamamos de primeira cabeça corresponde ao que seria a parte do homem que tem algo de comum com o anjo, ou a parte do conhecimento ou da ação do homem naquilo que ele tem de comum com o anjo. Enquanto que a segunda [cabeça] corresponderia àquilo que o homem tem de comum com o conhecimento, com o instinto animal”. (cfr. MNF – “O Processo Humano” p. 79 – Editora Vera Cruz – S. Paulo, 1972).
Dizer que o homem tem “algo de comum com o anjo” é, pelo menos, ser pouco preciso, pois parece que se afirma que, no homem, exista algo substancialmente angelical.
Esta imprecisão se agrava quando se vem a saber que no “Praesto Sum” Scognamiglio ensinava aos pobres “enjolras” que “nossa vocação é ser anjos”   
Ser anjos! Como? Como, meu Deus?
 E acabamos dever que Monsenhor Scognamiglio ainda agora num sermão, afirmou que o homem tem também natureza angélica.
Outro erro é o de afirmar que “o homem tem de comum com o conhecimento, com o instinto animal”.
O conhecimento humano não é animal. O homem tem uma alma racional. Ele é dotado de intelecto e vontade, que o fazem ser imagem de Deus. No animal, não há conhecimento intelectual.
O que Átila Sinke Guimarães expõe da doutrina de Dr. Plínio sobre a natureza humana e seu conhecimento é completamente contrário à doutrina Católica e é um absurdo inacreditável.
São erros de uma grosseria cornificiana.
Ora, que essa informação sobre a existência de algo angélico no homem unido a algo animal é procedente, se tem a confirmação em textos da revista “Dr. Plínio” onde há teses de Plínio beirando o dualismo.
“Sendo o homem constituído por dois princípios distintos, corpo e alma (...)”
(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Sociedade de Almas e o Conceito de “Temporal”, in revista “Dr. Plínio”, Ano  IV, Agosto de 2.001, N0 41, p. 9)
É muito inexato dizer que o homem é constituído por dois princípios: corpo e alma.
E a coisa fica pior ainda, quando se lê, noutro texto, que a alma seria de ordem angélica. O que é um absurdo.
Disse Plínio:
“O homem é constituído de dois elementos: a alma e o corpo. Este pertence ao reino animal, enquanto a primeira estaria na ordem angélica. Porém não somos centauros de anjo e bicho, um espírito angélico que penetrou no num mundo animal irracional. Temos um alma que, por sua natureza, deve estar ligada a um corpo, e vice –versa” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Noções Gerais de Temperamento –I, in revista “Dr. Plínio”, Ano VII, Dezembro de 2.004, N0 81, p. 20. O destaque é nosso).
  Dizer que a alma humana estaria na ordem angélica é bem errado. Ainda bem que o restante da citação corrige o grave erro expresso no início do parágrafo. Mas, se se notou o erro, teria sido melhor eliminá-lo, e não dar uma explicação complementar, mantendo o texto errado. Nota-se um vai e vem contínuo no significado dado às palavras usadas, e uma variação nas definições, uma ambigüidade de conceituação que induz a erro.
O que leva à suspeita de que se usava propositalmente uma tática de afirmar e de negar, de avançar e recuar, típica dos modernistas e dos gnósticos, em seu esoterismo.
Explica-se a asserção tefepista de que, no céu, Dr. Plínio ocupará o trono de Lúcifer, e que ele será “angelizado”, como seriam “angelizados” os membros da TFP, que correspondessem inteiramente ao “Profeta”.
E é de espantar que se lhe tenha querido atribuir o trono de Lúcifer?  Quem no universo quereria ter o trono de Lúcifer? Só  Dr.Plínio mesmo.
Estando vago o trono, pode deixar que ele o ocupa.
Afirma-se que isto é possível, porque alguns homens poderão alcançar tal perfeição que sobrepujarão os próprios anjos. Que nesses homens, o lado-anjo que haveria no homem, dominaria de tal modo o lado-animal, que este seria como que eliminado, tornando-se então o homem angelizado.
Ensinava-se na TFP que Nossa Senhora, no céu, está acima dos anjos e é servida por eles. O que é verdade.
Mas que seria mais natural e mais condizente com a natureza da Virgem Maria, que ela fosse servida por uma corte de seres humanos... mas uma corte de seres humanos  angelizados.  O que é mentira.
Evidentemente, a corte dos Arautos angelizados. A corte da angelical Sempre Viva.
Nos hospícios, se topa com cada evidência!
Os homens que seriam chamados a alcançar tal perfeição estariam no céu acima dos anjos. Essa seria a vocação da TFP.
 Claro !!!
Daí se dizer, lá, naquele tempo: “Nossa vocação é ser anjos”.
Que Plínio continuou a pensar que era possível um homem se tornar anjo, se tem a prova numa citação que dele faz Scognamiglio aos Arautos do Evangelho sobre a Sempre Viva.
Depois de dizer que pertencer à Sempre Viva é mais do que ser Papa, Plínio C. de Oliveira vai, se possível, ainda mais além ao dizer que todo membro dessa sociedade secreta alcançaria o nível angélico:
Quer dizer isto é ser anjo, é um estado angélico na terra, e mais não se pode dar” (João Scognamiglio, in Retiro V, 10a Conferência, A Unidade do súdito com o Fundador, p. 10, letra E. O negrito e o sublinhado são nossos, num texto que nosfoi dado, e que pertenceu a alguém que esteve presente nessa palestra secreta).
      Ser da Sempre Viva seria ser anjo!!!
Com tanta confusão, com tanta ambiguidade, com tantos delírios é natural que surgisse quem afirmasse rotundamente que, no Reino de Maria, alguns homens – da TFP , claro-- poderiam vir a ter asas, e poderiam voar [afirmação do Sr. Ghiotto ao Sr. Luis Cláudio, em 1983, e testemunho de D.J. P.].
O pobre rapaz apenas tirou uma conclusão de tudo o que constava que Dr. Plínio dizia a respeito desse tema.
 Por exemplo, Dr. Plínio afirmou que “no Reino de Maria, devido à excelência da graça, o corpo humano terá propriedades que hoje nem imaginamos” [depoimento assinado  por D. J. P.].
Por que, então, não teria ele asas?
Tanto mais que o mesmo Dr. Plínio asseverava que “No Reino de Maria, o homem poderá voar até a lua, sem espaçonaves” [testemunho assinado de D. J. P.].
Julgamos que estas afirmações de Dr. Plínio podem estar relacionadas com outra idéia que ele costumava externar com freqüência: a da glorificação dos corpos de alguns homens, sem que eles morram, e sem que eles sejam ressuscitados.
Dr. Plínio acreditava que os homens bons, que vivessem na época do fim do mundo, não morreriam, nem ressuscitariam, mas seriam glorificados em seus corpos, diretamente, ainda vivos.
Daí, a idéia de que alguns homens – isto é, ele--- não morreriam. E ele procurava fundamentar tal idéia abstrusa -- que justificaria a crença na sua imortalidade -- citando a frase do Credo católico: “De onde há de vir julgar os vivos e os mortos”. E Plínio interpretava que a palavra “vivos”, nesse artigo do Credo, significava que, no fim do mundo, alguns homens seriam preservados da morte corporal.
Se isto ia acontecer com alguns homens no fim do mundo, porque não aconteceria com ele, vivo,-- muito vivo-- em Higienópolis?
Afinal de contas, Higienópolis não é o fim do mundo.
Era o que, evidentemente, ele pensava que ia acontecer com ele mesmo: não morreria.
Morreu.
Está morto até hoje.
Porque,  “quant on meurt, c’est pour longtemps”.
E embora a Editora que publica a revista mensal --“Dr. Plínio”, editada pelos amigos, que Scognamiglio nomeou para isso, significativamente se chame Editora “Retornarei Ltda.”,  Plínio, morto em 1995, ainda não retornou.
Já se marcaram vários “retornos” do falecido Plínio. Ele ia ressuscitar três dias depois de sua morte.
Falhou.
 Seis meses depois. Houve uma visão de um eremita, garantindo isso. 
Não aconteceu.
Ia ser no ano 2.000.
Não foi.
De 2.005 não passaria.
Passou.
Ia ser em 2.007.
Isso mesmo!
 Em 2.007!
Não aconteceu.
Quem diria? Um sebastianismo tupiniquim, no século XX e XXI...
E, com a “Bagarre”, não poderia dar-se o mesmo?
[Bagarre seria o castigo que Dr. Plínio anunciou para muitas datas já transcorridas, datas sempre adiadas, mas que seus fanáticos esperam até hoje. Bin Laden é a atual esperança deles. Bin Laden. Bin Aids. Hoje deve ser Bin Marcola, ou Achmedinenjad].
  Evidentemente, um desses homens – como os do fim do mundo -- que teria seu corpo glorificado, sem passar pela morte, seria Dr. Plínio, que se acreditava ou se fazia crer imortal.
Em Higienópolis!
Plínio está hoje no cemitério da Consolação!
 E eles acreditam que está intacto.
Ora, os corpos glorificados são luminosos, imortais, impassíveis, ágeis, e capazes de atravessar a matéria. Por isso esses homens glorificados não morrerão jamais, brilharão, voarão, etc.
Seria este o ser “angelizado”?
Essas teorias a respeito dos seres “ab aeterno” e da possível angelização dos membros da TFP servem apenas para acentuar ainda mais o altíssimo conceito que os tefepistas tem de si mesmos, que os leva a se considerarem seres superiores a todos os demais homens, e, quiçá, superiores aos próprios anjos.
Scognamiglio disse que “Dr. Plínio está acima dos Serafins”.
Disse isto sem ficar vermelho.
Dizia-se na TFP que ele só ficava vermelho, quando dizia a verdade.
Não é natural que este orgulho os leve a desprezar os que não são da TFP?
Eles são os “filhos da luz”; os demais são filhos das trevas. Eles são os angelizados; os outros são os empedernidos e materializados. Eles são a Igreja; os demais são os precitos. Os que não têm salvação. Porque – vários o dizem – “fora do grupo não há salvação”.
Este orgulho não deixava de ter repercussão e aplicação dentro da própria TFP, onde os eremitas do “S. Bento” e do “Praesto Sum” se julgavam e se comportavam como os eleitos, os que estavam em vias de angelização, desprezando a sabugada que era o resto do grupo, e muito especialmente os que se casavam, pois que, enquanto viviam com suas esposas, ficavam impossibilitados de angelizar-se.
Deste modo, orgulho e desprezo são duas notas constantes, na mentalidade dos seguidores do Profeta de Higienópolis.
 
 
Sendo anjos PCO e seus sequazes teriam um conhecimento intuitivo próprio dos seres angélicos, um conhecimento a-racional e a-lógico.
      “Ora, o homem pensa através de três operações irredutíveis: a simples apreensão, o juízo e o raciocínio. Enquanto os hegelianos procuram reduzir as três operações ao raciocínio, o intuicionismo procura reduzir tudo ‘a primeira apreensâo. Simplesmente não dispomos de tal apreensão angélica” (Mário Bruno Sproviero, A Verdade e a Evidência, in L. J. Lauanad e Mário Bruno Sproviero, Verdade e Conhecimento- Tomás de Aquino, Martins Fontes, São Paulo, 1999, p.100).
É bem conhecida a posição anti intelectual e anti racional da Gnose e do Romantismo.
 A mentalidade romântica de Plínio tinha que levá-lo a uma ojeriza da razão, e à defesa de um modo de captação do real – tipicamente romântico --que não fosse intelectual, mas intuitivo, pelas impressões, pelo sentir, como ele dizia, ou através de um sentimento.
Na mesma apostila do Jour-le-Jour, que acabamos de citar, Plínio distingue o modo de conhecer do anjo e o modo de conhecer do homem.
“O anjo é um ser cognoscente voltado sobre si mesmo, de tal maneira que ele não precisa de nenhum objeto externo para conhecer. Ele vê a si mesmo, e, em si, ele vê tudo” (MNF – “O processo humano”, p.79)
Ora, é exatamente assim que Dr. Plínio dizia que conhecia todas as coisas e elaborava todas as suas teorias, isto é, examinando o que ocorria nele mesmo, e não fora dele.
Plínio pretendia ter um modo de conhecer que seria angélico e não humano.
Dr. Plínio não estudava. Ele, recebendo impressões vindas de fora, do mundo, ele via e examinava o que elas produziam em seu espírito,  ele notava então o que já havia nele mesmo, as matrizes do ser que existiriam inatas na alma humana--  e, depois, explicitava o que tinha visto em si mesmo, socraticamente.     
 No máximo, ele utilizava as coisas exteriores como acicates ou despertadores, para explicitar o que ele já tinha, no imo de sua alma.
Como já vimos, foi examinando-se, que ele constatou ser “inerrante”.
Depois disso, seria de espantar saber que, na TFP, se dizia que Dr. Plínio conhecia as coisas ao modo dos anjos? Que seu modo de conhecimento dispensaria as informações dos jornais e dos livros? Ele conheceria as coisas pela ”aerologia”.
Para saber, por exemplo, o que pensava a opinião pública do Rio de Janeiro, ele dizia que lhe bastaria dar umas voltas de carro pelas avenidas da “cidade maravilhosa”. Com isto apenas, ele saberia perfeitamente o que o carioca pensava de Brizola, ou o que seria preciso fazer para acabar com o brizolismo.
Ou, mais ainda, dando umas voltas de carro por Itaquera, lhe seria suficiente para compreender como ia, e para onde ia, a política internacional.
Eta estupendo poder itaqueral!
O conhecimento de Dr. Plínio não seria humano. Seria “aerológico”. Seria “trans-esférico”. Seria profético. Seria inerrante. Seria o conhecimento do homem inocente.
Nessas condições, não é de surpreender que tenha havido na TFP quem afirmasse que Dr. Plínio era um anjo, ou, pelo menos, a hipóstase de um anjo. E Scognamiglio dizia que Dr. Plínio estava acima dos serafins!
 Na Quarta parte deste livro estudaremos mais a fundo a doutrina do conhecimento de Dr. Plínio, para constatar como ela se opõe à doutrina tomista católica.
 
 
Na ladainha de D. Lucília, uma das invocações diz “Mãe da Trans-Esfera, rogai por nós”.
Como dissemos, nunca nos foi comunicado, nem explicado, o que seria essa misteriosa Trans-esfera. Como também nunca nos explicaram o que seria o “Trans-tema”, que, segundo A.B.A. “poderia ser explorado como sendo algo com relações com a gnose”. Só agora, com a publicação da obra A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, é que pudemos conhecer fielmente impressa a doutrina esotérica de PCO sobre a Trans-Esfera.
Os militantes e eremitas que saíram conosco da TFP ouviram João Scognamiglio explicar – bem mal--o que era a Trans-esfera nas reuniões do “Jour-le-Jour”, no Praesto Sum.
Na concepção pliniana, não existiria apenas o nosso universo.
O que é estranho porque universo só pode ser um só. No Credo se diz: “Creio em um só Deus, Criador do Céu e da Terra,  de todas as coisas visíveis e invisíveis”.
Em vários sistemas gnósticos se concebem vários mundos entre a Divindade e a natureza material.
Diziam eles que era preciso preencher o intervalo entre a Divindade e o mundo material.
Ora, Dr. Plnio dizia e Scognamiglio – fiel intérprete dos desígnios do Profeta – teria explicado que, segundo Dr. Plínio, haveria, em ordem ascendente as seguintes esferas de ser:
a) – A subesfera, dos demônios;
b) - A esfera humana;
c) - A esfera angélica;
d) - A Transesfera (talvez a  dos seres ab aeterno, ‘chi lo sa’);
e) - A esfera divina.
        Noutra oportunidade, falando a um grupo mais fechado, Scognamiglio dizia que podia falar sem receio... Abramos pois os ouvidos para ouvir...
Scognamiglio disse, então, a seus sequazes na seita secreta a Sempre Viva que haveria três universos...
“Deus criou todo o universo. Além de criar o universo, Ele ainda cria sobre o universo natural, o sobrenatural. Sobre o universo sobrenatural, Ele ainda cria o universo da união hipostática, o que é algo de cair de costas de grandioso, é magnificissimo” (J. Scognamiglio, Jantar em 3 de Maio de 1998, p. 3).
Há que se observar que Scognamiglio jamais estudou Filosofia, Teologia, Direito ou qualquer outra coisa senão o MNF do Profeta. Mas mesmo sendo ele um ignorante, ele deveria conhecer pelo menos o catecismo. Como pode ele dizer que “Deus ainda cria?
Deus criou todas as coisas de uma só vez.
Não há disjunção de um “universo sobrenatural” criado sobre um universo natural.
A graça sobrenatural foi concedida aos anjos e aos homens que pertencem ao único universo criado por Deus.
E não existiu um outro universo da união hipostática. O Verbo se encarnou num homem, no seio da Virgem Maria que pertencia ao único universo criado por Deus. Se houvesse um universo da união hipostática distinto de nosso universo, Cristo não seria homem como nós e não teríamos sido redimidos
Essa separação de três universos criados um sobre os outros é um absurdo que jamais pertenceu – e nunca poderia pertencer – à doutrina católica.
Mas na Cabala, que é a Gnose judaica, assim como no Shiismo, Gnose do Islam, se fala de várias esferas que a partícula divina, caindo do pléroma na materialidade deste mundo, teve que atravessar. E no Grande Retorno do éon divino, após a morte e libertação da partícula divina presa no homem, o éon tem que atravessar várias esferas guardadas por arcontes, e só conhecendo certos sinais e senhas pode atravessar todas as  esferas completando sua libertação e retornando ao pléroma divino.
Explicava ainda o imã Scognamiglio que, para Dr, Plínio, qualquer ação que fosse feita por um homem, neste mundo, teria repercussões nas demais esferas. Assim, se se cometessem pecados em um lugar, se atrairia para esse lugar uma influência da subesfera demoníaca. Por outro lado, toda ação boa teria repercussões nas esferas angélica e na “transesfera”.
Ora, na Gnose shiita se ensina o mesmo: toda ação na esfera humana repercute e atua em todas as demais esferas inclusive na divina.
 Agora sabemos que não foi só isso que PCO revelou.
Certo é que João Scognamiglio deu essas explicações aos eremitas e militantes no Praesto Sum, para formá-los no espírito do Profeta. E sua autoridade como fiel expositor do pensamento e do espírito de Dr. Plínio eram totais na TFP.
Tomemos, pois, esses ensinamentos como foram dados por J. Scognamiglio.
Agora, mesmo com essas revelações scognamiglianas fica difícil de entender como Dona Lucília poderia ser “Mãe da Trans-Esfera” como se rezava na ladainha de Dona Lucília, oficialmente composta por dois eremitas comparsas de Scognamiglio. Que falou pela boca deles, assim  como PCO falava pela boca de Scognamiglio. Portanto, o verdadeiro autor da ladainha de Dona Lucília deve ter sido o próprio filho dela: Dr. Plínio.
Tomando, pois, as exposições de Scognamiglio como fiéis e verazes – E como é difícil de fazer isso !!! -- não podemos deixar de notar uma clara semelhança com as teorias do teósofo romântico Franz Von Baader.
 
Para esse teósofo romântico alemão, cabalista e seguidor da Gnose de Jacob Boehme, existiriam, em ordem ascendentes as seguintes esferas:
a) - a esfera diabólica, resultante da queda de Lúcifer;
b) - a atual esfera material humana, resultante do pecado original;
c) - a esfera angélica;
d) - a esfera primitiva do homem em que havia uma matéria espiritual;
e) - a esfera divina;
(cfr. E. Susini, “Franz Von Baader et le Romantisme Mystique”, vol. II, pp. 283-311).
E Von Baader afirmou que o mundo, tal qual ele se nos apresenta é um mundo decaído, e que a vida temporal é má em si mesma, e corrompida. E dizia “o visível não é o verdadeiro, e o verdadeiro não é o visível” (cfr. Franz Von Baader apud E. Susini ob cit vol I, p. 275).
E como isso cheira às doutrinas gnósticas sonhadas por Plínio.
Entretanto, Von Baader considerava que o homem atuando no mundo visível, fazia, ao mesmo tempo, algo no mundo invisível, ou esfera superior.
Era como se o homem, ao agir, movesse o ponteiro de um pantógrafo na esfera humana, ou esfera visível, mas, ao mesmo tempo, fizesse o braço maior do pantógrafo desenhar a mesma coisa, em escala maior, numa esfera superior (cfr. E. Susini ob cit, vol II, p. 288).
É inegável que estas ideias parecem com o que ouvimos Dr. Plínio dizer na TFP.
 
 
Um membro da TFP, inteiramente entrosado e embebido das idéias e da mentalidade do Profeta, manifesta, no dia a dia, uma curiosa obnubilação a respeito da atuação das causas segundas.
Qualquer coisa que ocorra de bom seria feita diretamente por Deus. Tudo o que acontece de ruim e de errado seria resultado da ação direta do demônio.
Assim, se um tefepista faz uma viagem, e a estrada é esburacada, se um pneu fura, é o demônio que está metendo a pata para prejudicar a TFP. Se um gravador emperra, é o capeta que está agindo para que não se ouça uma palestra do Sr. Dr. Plínio, e, para combater a ação diabólica, se joga água benta sobre o aparelho. Um membro da TFP se casa e morre pouco depois: foi castigo por sua apostasia. Se ele sai do grupo e ganha na loteria: é o demônio que o está comprando.
Por outro lado, se há um crepúsculo luminoso e colorido, é D. Lucília que está se manifestando. Se alguém julga ter visto nuvens em forma de “L” sobre o cemitério da Consolação, é um sinal de que Deus quer aprovar a devoção a D. Lucília. Se um raio cai num túmulo próximo ao da mãe de Dr. Plínio, foi proteção do céu, porque “quem está junto dela nada sofrerá”.
E foi um príncipe que nos contou isso.
O que comprova que príncipes podem dizer tolices e serem contaminados por mentalidade herética e sectária.
Em tudo, na TFP, se tende a ver manifestações sobre, ou preter-naturais.
Cai um cetro de uma imagem de N. Senhora, é sinal de que Ela está entregando seu poder à TFP. Um membro da TFP vai a um restaurante e lá, ao comer, fura o céu da boca. Depois, vai ao médico e se constata que o ferimento é um câncer que aflorou e a pessoa vai morrer dessa doença. Foi maldição divina. E outro membro do grupo, passando em frente a esse restaurante, comenta: “Que castigo!”. Como se a pessoa tivesse morrido de câncer na boca por ter tido o “mundanismo” de ir ao restaurante.
E se há lugar que os tefepistas frequentam, quase mais que as Igrejas, são os bons restaurantes. Dr. Plínio lhes deu o exemplo.
Tais atitudes se assemelham às de Lutero que em tudo – nas moscas, macacos, papagaios, raios e ventos – via manifestações do demônio.
Os membros da TFP estão sempre atentos – como os protestantes pietistas, que deram origem ao Romantismo – aos “sinais”, que manifestariam constantemente a vontade de Deus. Neste sentido, a própria história, em todos os menores fatos, seria uma revelação contínua de divindade. Tanto J. Scognamiglio quanto Átila ensinaram que Deus se manifesta e se revela na História, o que é uma idéia típica do idealismo e do romantismo. Repetida pelo Vaticano II. São os “sinais dos tempos”, que todo modernista julga saber interpretar, numa espécie de meteorologia teológica.
Estes casos que contamos acima foram reais. Nós mesmos os ouvimos contar lá dentro.
Especialmente, os membros da TFP se voltam para os “sinais” e profecias de Bagarre, grande castigo que Dr. Plínio foi profetizando e adiando, ano após ano, e que viria acabar com o mal do mundo, eliminar a cafeína do café, a  geração humana através do sexo, e mil outras coisas mais.
  Qualquer inundação no Blangadesh,  --e como há inundações no Blagadesh! Até parece a marginal do Tietê! --  qualquer terremoto no Japão, no Haiti ou no Chile, um buraco na Flórida, um furacão nos Estados Unidos, uma aurora boreal no Canadá, clamava-se: “É a Bagarre”.
Contavam-se os mortos em catástrofes naturais ou em acidentes com uma certa volúpia: quanto maior fosse o número de vítimas, mais próxima estaria a Bagarre.
No espaço de dez ou doze anos, vimos e ouvimos tais ventos e tais rugidos que achamos difícil acreditar que dantes uma época tenha ouvido ventos tão grandes e tão numerosos, pois nosso tempo vê o sol e a lua perderem seu brilho, as estrelas caírem, e os homens ficarem angustiados, os grandes ventos e as águas rugirem. Tudo se acumula”.
Quando Dr. Plínio disse isso?
Nunca.
Parece frase dele, mas não é.
Não se pense que esta frase é de Dr. Plínio, o profeta de Higienópolis.
Parece, mas não é.
É de Lutero, o profeta de Wittemberg (cfr. “Pecado e Culpa no Ocidente”, artigo de Gilles Lapouge – Suplemento dominical de O Estado de São Paulo, N196, ano 3 de 11/03/1984 p. 3, 2a coluna).
O que criticamos na TFP não é a afirmação de que Deus e o demônio possam atuar nos fatos concretos, e na História, pois isto é católico. Errada é a tendência a exagerar, vendo, em tudo e sempre, atuações sobrenaturais ou preter-naturais. Consideramos completamente exagerada – e tudo o que é exagerado é também errado--  a concepção de que Deus e o demônio estão constante, continua e diretamente agindo nos fatos, de tal modo que se tende a diminuir a importância, e até, por vezes, a negar a ação das causas segundas, ou pelo menos a deixarem-nas à sombra.  No caso à sombra de Lúcifer.
Em concreto, isto provoca a formação de uma mentalidade de tendência dualista.
 
 
Estamos num fim de uma época histórica e todos se dão conta disso. Não há quem não veja que nos aproximamos de uma crise apocalíptica, quer ela venha sob a forma de guerra atômica ou nuclear, quer por vitória (muito temporária) do comunismo, quer por derrocada completa das instituições, instaurando-se a selvageria universal. A própria Igreja está numa crise jamais vista. Parece que até “as potências do céu foram abaladas”.
Muitos até, -- pessimistas — falam em Fim dos Tempos, ou pelo menos em Anti Cristo.  Os sede vacantistas não estão longe dessa tentação.
Houve outras épocas com crises terrivelmente semelhantes à nossa: a derrocada do império romano no século V, a desintegração do mundo medieval no século XIV, a era da Reforma. Hoje, porém, a crise é mais universal e mais profunda do que em qualquer outra época. A crise é tão terrível que alguns, como João Paulo II, temem pela sobrevivência da humanidade e da civilização.
Há quem fale no Anti-Cristo. Nossa Senhora em Fátima não fala em fim da humanidade. A Rainha do Céu e da Terra fala num terrível castigo no qual haverá o aniquilamento de nações inteiras. Fala em sofrimentos para os bons e que “o Santo Padre terá muito que sofrer”.
Qual Santo Padre?
 Jacinta, uma das videntes de Fátima, viu uma multidão atacando o Vaticano, e dentro um Papa chorando e rezando. Tal ainda não se deu.
Das revelações de Fátima, a Igreja mantém, guardado a 7 chaves, o chamado Terceiro Segredo do qual foi publicada apenas a visão tida pelas três crianças videntes, mas não a explicação da visão dada por Nossa Senhora.
No final de sua mensagem, Nossa Senhora prometeu: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará, e será dado ao mundo algum tempo de paz”. Ela garantiu ainda que “a Fé se manteria em Portugal” e que “O Papa consagrará a Rússia a meu Imaculado Coração e a Rússia se converterá”.
É evidente, pois, que o castigo anunciado em Fátima aniquilará apenas uma parte da humanidade, mas que, assim como a Rússia e Portugal, outras nações poderão sobreviver.
Tudo indica que haverá uma guerra aniquiladora, possívelmente atômica.
Caso o Comunismo da Rússia triunfasse – portanto, o marxismo – seria difícil compreender a prometida conversão da Rússia.
Uma derrota calamitosa ajudará a convertê-la?
 É possível.
Tudo isto está envolto em mistérios que a Providência Divina não permite aos olhos humanos sondar até o fim.
Nós cremos em Fátima. Cremos que haverá um grande castigo. Cremos que esse triunfo de Nossa Senhora dará ao mundo “algum tempo de paz”, isto é, de tranqüilidade na ordem.
Mas não cremos que esse Triunfo do Imaculado Coração de Nossa Senhora se dê tal como Dr. Plínio dizia com uma transformação da própria natureza, e da natureza do  homem.
*     *      *
Antes de tudo, convém salientar que é natural que um grupo perseguido e muito fechado, vivendo num verdadeiro gueto, acabe caindo em expectativas místico-messiânicas, quando ele deixa de se ancorar firmemente na Fé Católica.
Foi o que aconteceu com inúmeros grupos e seitas de caráter místico. Coisa desse tipo ocorreu na TFP, e fez seus membros deslizarem lentamente para um sectarismo realmente delirante.
Evidentemente, neste deslizamento, teve papel primordial o processo místico-psicológico que se deu em Dr. Plínio, e que o levou da posição adotada em público de líder católico “ultramontano”, à pretensão de ser um profeta chamado a fundar o Reino de Maria de que falava S. Luis de Montfort.
Não julgamos sem importância no processo interior de Dr. Plínio, suas tendências místicas, mal influenciadas por deformações de educação, e por crenças de baixo valor religioso, tais como as provenientes das Visões gnósticas de Anna Katharina Emmerick, que fala de uma futura época feliz da humanidade e da Igreja, renovadas.
Já vimos que na TFP se vivia na expectativa escatológica e apocalíptica, de um grande castigo prometido em Fátima, e que, na gíria do grupo se chamou de Bagarre.
Cronologicamente, na TFP, se acreditava que haveria uma Grande Conversão geral, o “Grand Retour”; a Bagarre; a glorificação de Dr. Plínio e de D. Lucília; a instauração do Reino de Maria.
Vejamos o que se dizia – o que sabemos que se dizia – nos círculos discretos da TFP a respeito desses eventos futuros.
Essa expressão “Le Grand Retour” (O Grande Retorno) fora usada em certos movimentos esotéricos, no sentido de um retorno da humanidade a um estado original divino.
Conforme uma versão que se ensinava na TFP, os membros do grupo tinham a vocação de fundar uma nova Idade Média, super esplendorosa, que seria o Reino de Maria. Ora, natural e sobrenaturalmente falando, eles não tinham as capacidades e as virtudes que os habilitassem a tanto. Deus então proveria as suas deficiências por um derrame extraordinário de graças, para que eles se tornassem dignos e capazes de fundar uma nova civilização. Seria como que um novo Pentecostes que os transformaria – e ACE fala dele (cfr. ACE – Visiones y Revelaciones Completas, vol. I, p.584, 621 – 622, Ed. Guadalupe e Buenos Aires, 1953). Esse “retorno” daria aos membros da Sempre Viva, além de graças sobrenaturais extraordinárias, dons de fazer milagres portentosos, valores naturais. Fala-se, na TFP, que a própria natureza recuperaria propriedades que teve no Paraíso.  (Testemunho do eremita do Êremo de São Bento, D. J. P.). E  ACE também afirmava que um novo Pentecostes traria efeitos na própria natureza (ACE - ob cit, vol I, p. 584).
Tais graças e favores – explicava-nos o escravo Plínio Eliseu ( Plínio Xavier V. da S., em tempos idos, vividos e sofridos – não seriam dados apenas aos membros do grupo. Muitas pessoas receberiam graças extraordinárias e se converteriam, podendo se constituir assim na base do “Reino de Maria”.
Não tivemos idéia de perguntar, então, a Plínio Xavier por quê e como tal distribuição de graças e favores do Céu seria um “Retour”. Que ele seria “Grand” era fácil de entender. Mas por que “Retour” ? Não tivemos idéia de perguntar, porque, nesse tempo, confiávamos, aceitávamos, não analisávamos o que ele nos dizia.
Recentemente, alguns de nossos alunos, que conosco saíram da TFP, e que foram nela mais entrosados, contaram-nos que a expressão “Grand Retour” teria “algo mais” que Plínio Xavier, ou não sabia, ou não nos quis comunicar.
“Grand Retour” seria, sim, uma graça especial concedida pouco antes da Bagarre, que faria as pessoas retornarem à “inocência primeva”, isto é, ao mesmo estado de inocência em que Dr. Plínio julga que já estaria hoje, e que lhe permitiria, segundo ele dizia, ter um domínio completo da natureza, e uma comunicação mais fácil com o bem.
Seria, aliás, isto o que se pediria na chamada Oração da Restauração,  que Dr. Plínio compusera no Restaurante Giordano, numa roda grande de gente muito pouco piedosa, “enquanto Dr.Plínio comia uma pizza”: que se restaurasse a “inocência primeira”. É o que se pede a Nossa Senhora (ou a D. Lucilia?) na citada Oração da Restauração, nome tipicamente martinista. Tanto que não se sabe bem a quem essa oração era dirigida, porque quer Dr. Plínio, quer Scognamiglio rezavam essa oração, em público, voltados para o quadrinho de D. Lucilia.
Parece-nos, pois, que a explicação dada por nossos alunos à expressão “Grand Retour” se enquadra melhor com o estranho conceito de inocência que Dr. Plínio tem de si mesmo e com toda a concepção (que se verá, logo mais adiante) de Reino de Maria, dada pelo profeta de Higienópolis.
Por “Bagarre” se entendia na TFP, um grande castigo que a TFP procurava identificar com o que fora predito por Nossa Senhora de Fátima. O termo francês significa briga, querela de rua. Por extensão, confusão.
Vejamos o próprio Dr. Plínio explicar o que seria a tal Bagarre:
“O que entendemos por Bagarre
[Pergunta]  (O Sr. poderia explicitar melhor o que o Sr. entende por  Bagarre e Grand Retour ? )
“[Bagarre  é uma palavra francesa que significa tumulto, confusão, rixa, motim. Nós, muito brasileiramente, a tomamos num sentido figurado próprio para designar o que julgamos que serão os prováveis castigos preditos por Nossa Senhora em Fátima para o mundo pecador]
“a - Bagarre: a grande destruição da obra da Revolução
“A Bagarre, substancialmente, deverá ser uma grande destruição. A destruição da obra da Revolução, o que equivale dizer, de toda a sociedade humana que ela elaborou, dos homens que a lideraram e da obra material que ela marcou com o seu espírito.
“Essa destruição suporia a convergência de vários cataclismas; uma crise interna que destrua, por obra dos maus, essa obra em conjunto; um morticínio tremendo, guerras, guerrilhas, vinganças particulares e, possivelmente, epidemias, catástrofes cósmicas e termonucleares.
“b - Provavelmente com uma intervenção sensível e oficial de demônios, com efeitos misteriosos e imprevisíveis
“E tenho a impressão, embora não possa garantir, de que vai haver uma intervenção direta do demônio, sensível e oficial na vida da Humanidade, mal se disfarçando, e com efeitos também imprevisíveis e misteriosos, pois quem nesta base pode prever qualquer coisa? Mas eu acho que sem isso não vai. Por exemplo, na liquidação final, tenho a impressão de que se vai ver demônios levando gente uivando para dentro do inferno.  Embora não possa afirmar isso, eu digo, entretanto, que seria arquitetônico, razoável, e nada mais” (Plínio Corrêa de Oliveira, Simpósio, Quem somos nós, n0 5, A, p. 68  Original  salvemar http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc)..
Na TFP esperava-se esse castigo como uma libertação messiânica transformante da realidade do mundo.E isso nada tem a ver com a profecia de Fátima.
Já dissemos como, na TFP, qualquer cataclismo natural, qualquer pequena inundação era vista como “ A Bagarre” que estava chegando. Vejam-se agora dois textos de Dr. Plínio sobre sinais de Bagarre:  a situação do Brasil [em código, Holanda] e a neblina do Caminho do Mar.
 É Scognamiglio quem conta o que PCO pensava e dizia:
 “E então disseram que a maior prova da vinda da Bagarre estava não nos fatos que ele [Dr. Plínio] comentou, mas na indignação que ele manifestou na reunião. Pois ele fazia cada comentário da situação da Holanda, [Holanda, nome código para designar o Brasil] e se indignava de ver como é que querem jogar a Holanda [Brasil] num caos e sem razão nenhuma. O caos pelo caos e sem argumentação nenhuma. (...)
E ele ainda dizia numa reunião, que estamos tocando com as mão as águas da B. [Bagarre] e agora ele comentava: eu em outra ocasião da História da Hol. [Brasil] em que foi muito séria, eu analisei, e não digo hoje, mas eu sinto que a B está começando. Não é mais colocar os dedos na B [Bagarre] portanto.” (o sublinhado é do texto).
Tais frases são do “Jour-le-jour” de 26/06/1983, repetindo um “Santo do Dia” de Sábado.
Em 1982 já, a Bagarre estava começando. E até agora nada do apocalíptico anunciado aconteceu.
“Ele [Dr. Plínio] contou que naquele dia tinha ido fazer as orações na estrada velha de Santos, ‘e me fez lembrar os velhos tempos que eu ia a S. [Santos] de carro. Só que hoje tudo mudado, tem agora uma represa que no tempo não havia, com terra aparecendo, varas espetadas, represa horrorosa. Depois um castelinho que no meu tempo era um restaurante com comidas importadas, licores, caviar, etc , e eu era entusiasta das paradas neste restaurante. [É sempre o mesmo Dr. Sofrimento. Que vida crucificada, meu Deus!] Pois eu me cansava muito na viagem. Hoje este restaurante está abandonado e nem se dava pra ver o mirante da cidade de S [Santos]. por causa da neblina. E de tudo isso eu tirei uma conclusão da proximidade da B. [Bagarre] tudo dá errado. Só dá certo combater o erro, isso é a única coisa que dá certo, o resto dá sempre errado” (Jour le jour. Cartas recebidas de S. Paulo nos USA, 14/2/1983).
Decididamente, o Profeta estava em seus dias pessimistas. Copiamos esse texto para que não se nos acuse de forçar a nota: represa horrorosa + falta de caviar + restaurante fechado + neblina que impedia de ver Santos do alto do mirante da serra = proximidade da Bagarre.
Lógico!
É assim que são formados os jovens da TFP.
E agora os dos Arautos.
O ET [Extra Terrestre, personagem de um filme que PCO fez toda a TFP assistir] também foi outro sinal próximo de Bagarre. Durante a Bagarre haveria um ET em cada esquina, vindo diretamente do inferno, num disco voador, para ser adorado pelas multidões satanistas.
Vejamos agora como o Dr. Plínio imagina a Bagarre.
“No MNF de 5 feira comentava-se [sic] os castigos da B. [Bagarre] e a cólera de Deus na B. ‘Imaginem uma Sra. muito bonita, muito bela, formosa mas que de repente fica um elefantão. O peso das gorduras são [sic] tais que ela tem que andar se arrastando pelas paredes. [?] Mas não é uma feiura só externa, mas um reflexo da feiura da alma dela. É um horror diferente do que o da pancada, do fogo, é um horror inteiro.
 [Parece pois que além dos castigos físicos – pancada, fogo – haveria uma transformação física dos corpos dos maus, refletindo a maldade de suas almas].
“Imaginem um outro exemplo. Um homem que vai dormir, e que no dia seguinte acorda e se sente uma aranha. Braços peludos, pernas peludas e pretas. É a exteriorização do defeito moral, e todos notam.
“É assim que eu imagino a B.
“Então a humanidade vai piorando cada vez mais, até chegar a um alge [sic] que Deus vem e dá um ultimatum. Põe a humanidade entre a faca e a parede, e uma última possibilidade de conversão.
“Os que recusam a conversão, neles se dariam a transformação externa, [sic] e se endureceriam no pecado.
“Então seriam pragas sucessivas, à maneira das pragas do Egito. E os maus transformados desta maneira, ostentariam a feiura e diriam: “Assim é que se é”.
        “E os bons que no ultimatum aceitaram a conversão, terão que ter oposição aos maus e o detestarem [sic] E no detestar o mau [sic] externados nos corpos horrorosos deles, os bons vão se alcandorando, se purificando, vão ficando mais belos exteriormente.
“Os maus diram [sic] que a feiura deles é um fato consumado e não reconheceram o castigo” (Jour le jour. Cartas de S. Paulo 12/06/1983 – o sublinhado e os erros de digitação e de gramática são do original).
Há nesse texto explicitamente a afirmação de que a Bagarre acarretará uma modificação física nos bons e nos maus, uma como que metamorfose. Não está dito, mas parece implícita a idéia de que haverá uma modificação na própria natureza humana, e que os bons no Reino de Maria, além de belos e formosos, possuirão um corpo “alcandorado” e “purificado”.
E Dr. Plínio afirmou que, no Reino de Maria, devido à excelência da graça, o corpo humano terá propriedades que hoje nem imaginamos. "Não seria de surpreender que estas propriedades que Adão tinha no Paraíso Terrestre, a telepatia ...”
E Dr. Plínio, o homem que pensava ter a inocência primeva adâmica, contava que, quando era pequeno teve vários casos de telepatia, vendo fatos ocorrendo a uma distância enorme de onde ele estava.(Cfr. PCO, Notas Autobiográficas, vol., I, pp. ).
Para nós, isto é sonho romântico quiliástico, e delírio.
O castigo que Nossa Senhora previu em Fátima não transformará a natureza. Não tornará os corpos dos bons gloriosos, nem os dos maus horrorosos, como ocorrerá após a ressurreição da Carne, no fim do mundo. Dr. Plínio transpõe para a Bagarre o que ocorrerá após a ressurreição dos mortos. O Reino de Maria dele, será pois o equivalente da eternidade na terra. E isso não é católico.
Alguém pergunta a Dr. Plínio: "Como o Sr. imaginara [sic] na última guerra da BG [Bagarre] a cor da nuvem?”.
[É uma pergunta que alude a D. Lucília que gostava da cor lilás]
Ao responder a essa pergunta meteorológica, Dr. Plínio afirmou que se poderia imaginar a bagarre como o fim do mundo. Falou então da ressurreição dos corpos, com uma ressalva que lhe era cara
"só não estaram [sic] ressurrectos os últimos justos, que estes não vão morrer. Portanto não vão ressuscitar, vão passar a ser corpos gloriosos no momento que forem levados ao céu.
“Vocês podem imaginar a alegria se um ente que entra no seu próprio cadáver ressurrecto. Vocês podem imaginar a alegria maior de um que não morreu, e que percebe que virou glorioso de uma hora para outra. É uma alegria, que só maior do que esta é ver Deus face a face" (Jour le jour Palavrinha para os hispanos, 26-I-83, 4ª. feira).
Estas palavras preparavam o público para a idéia de "glorificação de Dr. Plínio”. Porque, se ele é imortal, é claro que com ele se dará isso: de repente ele terá seu corpo glorificado. Por que então isso não se dará na própria Bagarre?
E prossegue o imortal Profeta de Higienópolis:
"Bem, também, como é que a gente pode imaginar as últimas luzes e as últimas cores da BG? É uma pergunta que a gente pode fazer [Qualquer pergunta se pode fazer, ainda que estapafúrdia].
“A gente pode imaginar dois modos. Uma desordem sobre a terra, uma coisa medonha, de tal maneira que por exemplo, haja nuvens de lama no céu, gotejando imundise [sic] sobre a terra. E a terra aberta em crateras, donde aparecem materias imundas, de todos os lados e os injustos, os que estão sendo punidos e castigados com pavor da morte, fugindo de todos os lados, sabendo que se forem atingidos pela morte podem cair no inferno. Eles não se arrependem e não querem cair no inferno, estão dando pulos, empurrando outros para não cair ele etc etc.
“Voces podem imaginar também todos paralizados pelo terror diante de uma tempestade de feras e pássaros que caem em cima deles. Crupúscolo [sic] pavorosos, cores de incendio, cores de sangue, dominando o panorama. Pode-se imaginar tudo isto muito razoavelmente. - É uma coisa que pode bem ser, não é verdade” [É de aterrorizar qualquer enjolras [novato da TFP].
“Pode-se imaginar pelo meio, de repente num ponto radioso um anjo, brandindo uma espada. E que faz sinal para outros virem também. Veem aquele corte de anjos começa a ceifar e a desipar [sic] E eles com um pavor dos anjos. O pavor que o criminoso tem do policial. Pode-se imaginar. São alguns aspectos possíveis da BG." (Jour le jour Palavrinha para os hispanos, 26-I-8 3, 4ª. feira).
Que Deus tenha misericórdia dos pobres hispanos que ouviam isso, de nós que lemos esse texto, e também do datilógrafo do "Jour-le-jour" do “Profeta”, porque, se Deus punir os erros de gramática e de datilografia dele, cremos que ele terá muito a pagar. Lá iria ele para as “profundas” com uma gramática portuguesa do Mobral na mão, vendo o Dr. Plínio, João Scognamiglio e os demais eremitas alcandorados, purificados, angelizados, entrando no Reino de Maria...
E, na Bagarre, correrão algum perigo Dr. Plínio e seus discípulos?
Parece que não, pois tudo se passará como num filme, com "happy-end" garantido para os “mocinhos” do filme.
"Bem, agora a BG como é que vai ser, mostrar a majestade de Deus [Atenção! É o Profeta quem fala].
“É uns castigos longos e ordenados, [sic] ou em determinado momento explodindo, de maneira que tudo que é sinédrio maldito estoure, se mostre. E nós vejamos dos antros mais secretos e poderosos (...), os homens sairem como uns potros, e com as mãos para baixo e os pés para cima, atormentados, emquanto [ah! datilógrafo amobralado!] nos vermos [sic] passar e nós estamos em paz. E eles temtam [sic!] avançar contra nós, e chegam pertinho e não podem, e vem a morte e els se delaceram [sic] e se transformam em bolhas asquerosas, que se escorre [sic] pelo chão. Quer dizer eu acho que esta é a BG mais terrível. E que a majestade de Deus se manifesta na infâmia suprema em que eles ficam. não sei se estar [sic] " (Jour le jour, Conversa de sábado à noite, 22-I-83).
Assim, Dr. Plínio imagina a Bagarre. Hoje. Datilográfica e gramaticamente – e mentalmente-- não há dúvida: ela já se instalara na TFP.
Outrora, PCO falava em guerras, lutas, isolamento dos membros do grupo, perseguições. E prevenia que não se imaginasse a "Bagarre", como se devêssemos ficar, num camarote, assistindo os demônios levarem os maus, vivos, para o inferno. Era uma concepção mais realista. Depois, a imaginação dele se tornou mais romântica, cada vez mais cinematográfica.
Os inimigos chegariam bem pertinho, mas não alcançariam os bravos alcandorados tefepistas!
Onde estaria Dr. Plínio durante a Bagarre?
Em vários lugares. Pois ele dizia que então ele gozaria do dom da ubiqüidade, aparecendo real e fisicamente junto a todos os seus filhos nos lugares mais diferentes do mundo, para protegê-los, já que eles se dispersariam para obedecê-lo.
Mas onde estaria ele, de fato, isto é, não miraculosamente? Esperava-se que conforme ele mesmo dissera, que provavelmente ele estaria no Tibé, na montanha dos Profetas, junto com Santo Elias, como conta Anna Katharina Emmerik. E Átila - o escravo Plínio Márcio da Sempre Viva- considerava que essa era uma hipótese admissível e não descabelada (Cfr. Átila Sinke Guimarães, Refutação a um Investida Frustra – vol I -  PP. 368-369).
Destruídos os maus, finda a Bagarre, instaurar-se-ia o Reino de Maria. Dar-se-ia então a "glorificação" de Dr. Plínio e de D. Lucília.
Que significa aí "glorificação"?
Eis um termo analógico que permite a Dr. Plínio brincar de esconde-esconde no matagal das analogias.
Glorificação significaria o reconhecimento de sua santidade assim como a de D. Lucília? Ou significaria a transformação de seu corpo em corpo glorioso?
É certo que se acredita - graças às revelações de Nossa Senhora do Olvido - que muitos homens ressuscitarão na Bagarre. Se isto é assim, D. Lucília tem que ser uma das pessoas que vai ressuscitar. Na TFP enjolrática [dos novatos mais fanatizados por Scognamiglio], isto é tido como absolutamente certo, e duvidar disso é prova de ser "fumaça", "sabugo" e "inimica vis". Só os "fedelianos" não acreditam nisso. E os fedelianos eram tidos como precitos condenados ao inferno em vida.
Portanto, D. Lucília ressuscitaria e seria glorificada. Dr. Plínio, porque é imortal, jamais ressuscitaria. Seria glorificado de repente, mesmo em vida.
Havia quem pensasse, dissesse e propagasse que a glorificação de Dr. Plínio e D. Lucília teria ainda outro sentido.
Haveria uma cerimônia para fundar o Reino de Maria, cerimônia da qual o próprio Cristo e a Virgem Maria participariam, vindos do céu expressamente para glorificar o Profeta [Dr. Plínio].
Será preciso alertar o leitor para essa loucura que contraria o dogma de que Cristo virá apenas no fim do mundo, para julgar os vivos e os mortos?
Para os membros da nova TFP scognamigliana, porém, isto é um detalhe secundário, uma objeção "plock-plock", de gente que lê. Que lê livros grossos de Teologia. Uns "canecas-amassadas". Scognamiglio não lê. O Profeta não deixa que ele leia, e não gosta que se leia, ou que se estude
Para a imaginação dos enjolras, a cerimônia inaugural do Reino de Maria consistirá numa procissão ou cortejo, formado - é evidente - pelos eremitas de São Bento e do Praesto Sum, cantando o "Lève-Toi", hino exlatador da glória de Plínio, em cuja letra se exige que aqueles que ofenderam Dr. Plínio - a Igreja e o Estado - lambam o chão diante dele.
“Et les deux pouvoirs léchamt la terre,
Acclament le grand vainqueur de cette guerre”.
Sobre o cortejo de eremitas, certamente, esvoaçarão anjos.
Dr. Plínio, D. Lucília virão depois dos eremitas marchando, de hábito. Todo mundo olhando...
E, finalmente, virão Nossa Senhora e Jesus Cristo.
Em dado momento, pára o cortejo, e Cristo proclama Dr. Plínio, profeta de Nossa Senhora, Varão da Dextra de Maria. E Dr. Plínio então declara fundado o Reino de Maria.
Todo mundo - alcandorado e purificado - grita óh! fe-no-me-nal. E o novo Papa - que ficou um tanto de lado - vem se prostrar diante do Profeta e etc. (O etc significava lamber o chão).
Oh! Nooooossa!
 Um sucesso...
 Um delírio.
 Qual é a fonte desse delírio enjolrático? Veja-se este texto de Dr. Plínio:
 "Então sim, a gente possa imaginar a primeira posição [sic] do RM [Reino de Maria], meio posição [procissão], meio desfile temporal, com todos os justos que se salvaram e que aclamam o Reino d'Ela, e que proclamam a Vitória d'Ela, com pontífice santo, um grande monarca, um novo Carlos Magno, [Reminiscências de Joaquim de Fiore] aí a gente tem a impressão de anjos pouco mais ou menos visíveis, esvoaçando de todos os lados, e todo mundo com a sensação de estar vendo Nossa Senhora. Aí eu nem sei o que dizer." (Jour le jour - conversa de sábado à noite, 22-01-83).
Realmente, parece que ele não sabia o que dizia.
Como advirá esse Reino?
O próprio Dr. Plínio hesitava, ora dizendo que viria repentinamente, ora gradualmente.
 "Audete quod dixit Propheta...":
"Imaginem que fosse dado a alguém - e este alguém está aqui nesta sala, este alguém constitui as 15 congr. (Exclamações) [congregações, isto é, as 15 TFPs, Dr. Plínio é as 15 TFPs. Ele, e só ele] - fosse dado a alguém, não descobrir um continente nesta terra, mas fazer assim com a mão pelos ares, e fazer com que tomasse figura o mais belo dos continentes que jamais existiu (Exclamações). A considerável altura da terra, belo como o Paraíso [que cheiro de Anna Katharina Emmerick, ob cit. vol. II, pgs. 14 e 28] ordenado e santo como um santuário e uma catedral, forte como uma fortaleza, atraente como um pedaço do Céu. Era só fazer este gesto num momento de piedade, num momento de coragem. Sabendo que fazendo este gesto, podia até expor a vida, mas fazê-lo (Noooossa !! Fenomenal !!).
“Imaginai alguém que estivesse diante de um pelotão de execução dos com. [comunistas]. E os comunistas dissessem: "Vamos matá-lo" E ele tivesse um raio de luz que lhe dissesse: "Peça a N. Sra. que você vai ser levado para um lugar que se incorporará à terra e, será o RM [Reino de Maria] –
[Lá vai Dr. Plínio para o monte dos Profetas...]
“Ele dirá aos com.: "Não temo os vossos tiros, não temo o vosso furor. Ó Maria levai-me. E depois disso eu voltarei!" E vem trazendo um continente novo para a terra.
“Esse que trouxe para a terra um continente novo, esse que trouxe para a terra um jardim que será o jardim de Maria, não terá feito muito mais do que o que descobriu a América? - Ora, o que dizer este gesto? O que eu entendi por este gesto? Eu entendi a postura da alma" (Jour le jour - Grafonema de 19-2-1983. Graf. 4, Santo do dia - Sábado).
Não é uma cena bonita?
É sensacional.
Imaginem a decepção do pelotão de execução, vendo Dr. Plínio sendo levado para a montanha dos Profetas.
Imaginem , ele partindo e clamando que nem o General MacArthur: ”I shall come back”.
 E imaginem ele voltando e trazendo um continente? Esse homem que vai trazer um novo continente à terra - esse homem é Dr. Plínio - é maior que Colombo, sem dúvida alguma.
Pode não ser tão modesto, mas é maior que Colombo.
Mas que continente é esse?
Que Shangri-lá é esse que PCO traria para a Terra?
Dir-se-nos-á que isto é uma mera fantasia. Que é uma "hipótese".
 Mas que estranha fantasia e delirante hipótese e como ele se parece com a descrição do Paraíso de Anna Katharina Emmerick ou do seu monte dos Profetas. Como ela se parece com certas lendas shiítas sobre a "Terra de Hûrqalia".
Aliás, a própria montanha dos profetas de Anna Katharina Emmerick, seria a montanha cósmica Albors, o Sinai místico.
Certamente Dr. Plínio jamais leu Henry Corbin, jamais leu textos shiítas, ou do budismo amidistas. Mas é certo que ele leu Anna Katharina Emmerick. Que leu pelo menos pedaços da obra dela.
 A obra era de quatro grossos volumes...
E era sem figuras...
Mas do que ele leu, ele gostou. Ele mesmo nos disse que lera o trecho da Montanha dos Profetas.
Julgamos que a semelhança desse continente celestial que Dr. Plínio incorporaria à terra com a Hurqalia shiita, e com a "terra ocidental", e com a própria Montanha dos Profetas é, não o fruto de uma inspiração direta nesses textos, e sim o resultado de uma típica mentalidade que recusa o mundo tal qual ele é. E que cai no desvario.
 Típica dessa recusa é esse continente que vem dos ares negando a lei da gravidade, pela qual Dr. Plínio tinha muita antipatia, e a qual ele se comprazia em ver, um dia, vencida.
Imagine-se.
Noutras ocasiões, Dr. Plínio apresenta a vinda do Reino de Maria como gradual:
"E que a glória de N. Sra. creio que se revelará gradualmente quando o espírito dEla começar a brilhar, e começar a aparecer.
Agora na natureza renovada e com o espírito dEla, brilhando de um modo extraordinário, e com um conjunto de circunstâncias incomparável." (Jour le jour, Conversa de sábado à noite, 22-1-1983).
De novo, se afirma que haverá algo como uma transformação - uma renovação - da natureza, o que é um nítido traço milenarista, nesse futuro Reino imaginado por Dr. Plínio.
Tal sonho de uma futura transformação da natureza é confirmado por um texto que vai mais longe, pois indica uma transformação de sentido metafísico do mundo, no futuro Reino de Maria.
 "Bem ele faz uma análise do que vai ser o RM. Ele diz que o RM vai ser uma era tão extraordinária que nós vamos ter a sensação de que o "pulchrum"... Agora as palavras dele [Scognamiglio nunca foi dado à metafísicas, e iria se atrapalhar na explicação. Afinal de contas ele nunca estudou e nem fez qualquer curso superior. E mesmo assim virou Monsenhor... E ficou Doutor! Coisa que o Profeta jamais conseguiu. Por isto ele cede a palavra ao Profeta]:
"Aqui nós temos um dado a mais sobre o que seria o RM. O tipo de beleza de "verum, bonum, pulchrum" do RM, um "verum" que seria tão claro aos olhos que a gente diria que ele borbulha à maneira de evidência. Não será inteira evidencia é claro, mas se diria que. Um "bonum" que é tal, que se diria que é irrecusável. Um "pulchrum" que é tal que se diria que jorra do interior de todas as coisas"
[E, extasiado, comenta Scognamiglio, que nunca pensou se o transcendental verum é evidente nos seres:]
"E pensar que a causa disso tudo já existe entre nós" (Jour le jour, telefonema de Scognamiglio aos USA, 20-3-1983).
O que se deixa entrever é que o Reino de Maria será como que um retorno ao Paraíso, em que os homens seriam reconduzidos ao estado de inocência. De qualquer modo, essa mudança metafísica, será na verdade, uma anulação pelo menos de algumas conseqüências do pecado original. E isto é sonho gnóstico e milenarista. Isto não é católico.
Veja-se a continuação do texto acima:
"Ele continua: "Se os homens fossem inteiramente fiéis nessa linha do RM, do que virá no RM. Se houvesse uma fidelidade inteira, e portanto não houvesse nenhum desvio, eles seriam tais que em determinado momento NSJC [ Nosso Senhor Jesus Cristo] mandaria Enoc e Elias conviverem com eles (exclamações) [Lembremo-nos que se espera que Elias venha a conviver com Dr. Plínio, o varão totalmente fiel]. “E que em determinado momento, para premiar essa fidelidade, o mundo terminaria com uma glorificação da humanidade vindo pessoalmente NSJC. Que aí então para glorificar a este ponto terminal, ele escurraçaria os demônios, etc etc. e seria o juizo final. Ele disse que não vai ser assim, vai ser como nós sabemos. Mas, acho que o convívio, eu levanto a hipótese, dos últimos que forem fiéis no fim do mundo, vai ser tão elevado, tão excelente, tão magnífico, que, independente de Enoc e Elias virem para punir os maus, viriam para visitar aqueles bons”.
[É por isso talvez que já foi posta uma cadeira para Elias, em Itaquera, para quando Elias vier visitar Dr. Plínio]
“E que a sociedade daqueles bons realizaria em si esplendidamente, alguma coisa que anteriormente não foi realizada. Ele disse: "É uma hipotese que me é grato imaginar. Até que ponto ela tem fundamento? Creio que nem estudando o Cornelio [Cornélio a Lápide] nos meus póstumos [sic] dias eu chegaria a desvendar isso Mas é uma hipótese" (Jour le jour, telefonema de João Scognamiglio aos USA, em 20-2-1985).
Póstumos dias ??!
Então Dr. Plínio planejava estudar Cornélio a Lápide nos seus póstumos dias? Que confusão é essa? Que Significa, aí, póstumos?
Mas analisemos o texto.
Primeiro, Dr. Plínio se põe uma contradição: se os homens forem inteiramente fiéis aconteceria a vinda de Enoc, Elias e Cristo. Depois, previne que não será assim. A seguir, se insiste na hipótese e pergunta que fundamento ela tem.
Em seguida, se admite a possibilidade de sua realização. Mas essa hipótese que afirma ser-lhe grata, "meu Cornélio" – que certamente ele nunca leu, exceto alguns trechos que lhe passaram -- talvez possa prová-la como tese. E conclui: mas é uma hipótese.
Nesse vai e vem, percebe-se o espírito de Dr. Plínio tentado de se entregar, sem reserva, ao sonho gnóstico de um Reino de Deus na terra, que ele sabe que é tese herética. Mas quem sabe, no Cornélio, se encontre um "biais" pelo qual ele possa ser apresentado como coisa ortodoxa?...
Quem sabe?... É uma hipótese... E que lhe é tão cara...
E que é abominável, para quem sabe que o mundo é um vale de lágrimas, e sabe que isso vai contra a ortodoxia e o bom senso.
Nesse Reino de sonho dever-se-ia mudar a Salve Rainha tirando o "vale de lágrimas".
Há outros textos que poderiam ser acrescentados. "O brilho de Pentecostes é no RM que realizará nos homens o seu esplendor total (Nooooossa) [sic] (Jour le jour, grafonema de 4-9-1983, Santo do dia de 4 feira).
As almas serão então transformadas por um como que novo Pentecostes, - ou será o antigo mesmo - e a água Perrier será mais Perrier.
"A perrier" depois da BG vai ser um colosso" (Jour le jour).
E, na TFP, se comentava que, segundo Dr. Plínio, no Reino de Maria, o café perderia a cafeína, e que não haveria mais chocolate, por ser bebida intemperante. Talvez não haja mais mexericas e caquis porque são frutas vis das quais o profeta não gostava. Como também não poderia haver doce de nozes. Plínio condenava tudo o que vinha de semente...
Como Dr. Plínio não comia nozes, caju, castanhas, amendoim,  no futuro Reino de Maria não se poderia mais comer tortas de nozes - uma delícia - ou cocadas.
Discutia-se se no Reino de Maria haveria eletricidade, mas sabia-se – porque Dr. Plínio o disse- que as ruas seriam pavimentadas de porcelana... Ou de cristal. E se garantia que nessas ruas de porcelana não haveria escorregões, causadores de fraturas do fêmur. Dizia-se que, no Reino de Maria,  haveria moedas de ouro maciço com a efígie de Dr. Plínio e de D. Lucília. (W. para I. V. em 20-10-1981).
E as catedrais teriam vitrais feitos de pedras preciosas e portas de ouro maciço. E talvez haveria uma catedral só para receber um güante de ferro de Roland - o esquerdo.
Era um dos planos do profeta fazer essa catedral para o guante esquerdo de Roland:
"Outro dia saindo do ASM [Auditório São Miguel] comentando Roland disse (Dixit Propheta): "Que bom seria termos uma luva de Roland. Ele deu a direita para S. Miguel, mas se nós pudéssemos ter a esquerda. Eu seria capaz de fazer uma catedral no RM, para ela" (Jour le jour, cartas recebidas nos USA, fevereiro de 1983).
Não há dúvida. Quem é capaz de ficar sonhando em obter o güante esquerdo de Roland, é capaz de fazer qualquer coisa, quer seja no Reino de Maria, quer em... sonhos. Aliás, mais fácil do que encontrar esse güante esquerdo de Roland, que já deve estar enferrujadíssimo depois de tantos anos, em algum ferro velho da Espanha, seria fazer uma novena para São Miguel, para ver se ele não cede - ou pelo menos empresta - o güante direito que nos museus do Céu deve ter sido bem conservado.
Decididamente, Dr. Plínio acabou confundindo lenda com realidade. Ou, como todos os românticos, ele afirma que a poesia - a lenda -, é mais verdadeira que a História.
 Essa era a tese de Brentano, o castíssimo secretário de ACE.
E que será, e que fará a TFP no Reino de Maria?
Ela será uma ordem de cavalaria de escravos - guerreiros - monges - exorcistas, mas que não terá poder jurídico a não ser em um pequeno feudo.
Mas feudo bem rico, sem dúvida. Scognamiglio em matéria de dinheiro é perito...
"Ele comentou tratando de como é que ele no RM, queria construir um castelo numa ilha para (...) todo grupo, ...(Jour le jour, telefonema de João Scognamiglio aos USA, 12-2-1983).
Tinha que ser numa ilha. A utopia gosta de ilhas e o quiliasma exige isolamento.
Todas essas sonhadoras transformações na natureza, nas almas e nos corpos, no Reino de Maria, culminariam com uma mudança no próprio modo de a humanidade se propagar.
Quando o Dr. Plínio leu - Leu ou não leu? - em Anna Katharina Emmerick (Para nós, ele disse que não leu esse pedaço), que no Reino de Paraíso a procriação não seria por conjunção corporal, e sim por meio da palavra, ele confessou que ficou encantado com a idéia.
Se foi assim no Éden, porque não seria assim, ou parecido no Reino de Maria?
Se o café vai perder a cafeína, e o "verum" será mais "verum", e os corpos dos bons serão alcandorados, porque não imaginar uma mudança na reprodução humana?
Se os tefepistas angelizados terão asas, porque a reprodução humana não poderia ser mudada?
Na TFP, oficialmente, sempre se ensinou a doutrina ortodoxa quer sobre o casamento, quer sobre a procriação. Aprendemos lá, o que ensina a Santa Igreja, isto é, que o casamento foi instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo; que o estado de virgindade é superior ao estado matrimonial; que alguns que são chamados a uma vida religiosa mais elevada devem renunciar ao casamento por um amor mais alto, e que este era o caso de muitos na TFP; que entretanto o grupo não proibia o casamento, tanto que vários de seus membros eram casados.E etc.
Isso sempre foi dito... oficialmente...
Entretanto não se pode dizer que os membros casados da TFP gozassem de alta cotação.
Com a fundação dos êremos e o estabelecimento de votos religiosos, o problema dos elementos casados  se tornou mais agudo.
Era evidente que, com os êremos, eles se tornaram elementos de 2a classe do grupo. Bravamente, alguns dos casados foram até o heroísmo de fazer votos de castidade, ao que parece, com o consentimento de suas esposas.
Começamos a estranhar quando elementos casados se tornaram eremitas e até camaldulenses, passando a viver separados de suas esposas. Parecia-nos que, pelo menos em alguns casos, a pressão psicológica e moral exercida pela opinião pública interna, forçara um tanto essas separações.
Aqui e acolá, pontilhavam frases, especialmente entre enjolras que frequentavam o Praesto Sum, que indicavam uma perda de equilíbrio nessa questão tão delicada. Porque uma prática de castidade sem a devida fundamentação doutrinária pode facilmente resvalar para posições gnosticizantes.
Filtravam frases, escapavam “hipóteses” estranhas...
Espantava-nos vir a saber que alguns afirmavam que o membro do grupo que casasse era apóstata. E apontavam-se casos de elementos do grupo que se casaram e tiveram morte prematura e terrível, como castigo de sua "apostasia".
Esta frase dita e repetida por vários, fazia supor que  casamento contrariava a Fé, já que apostatar é renegar a Fé. Ora, a Fé católica aprova o casamento e a reprodução.
Outros, ainda mais ousadamente, se atreviam a dizer que "o casamento é a legalização da “fassurada" [do ato sexual].
E criticava-se a vida conjugal, pois que nela havia "um prazer imundo". Eram frases de enjolras, é verdade, mas frases que indicavam um clima errado e uma formação extremamente falha.
A doutrina “discreta” interna, difundida à boca pequena por Scognamiglio, divergia da doutrina oficial sobre o matrimônio...
Responsável pelo clima errado e pela formação heterodoxa era João Scognamiglio com suas fanatizadoras aulas no Praesto Sum.
Sabemos, por exemplo, que ele lá defendeu a tese de que o pecado original afetou não só o homem, mas toda a natureza, especialmente no que tange a reprodução. Que esta teria sido mais afetada nos vertebrados mamíferos, do que nas aves, e mais nas aves que nos peixes, que não se unem fisicamente para se reproduzir.
Nos êremos, começaram a aparecer aquários...
Talvez fosse mera coincidência. Mas o exemplo dos peixes nos foi um sinal de alerta. Pois não eram exatamente os peixes que os cátaros citavam como exemplo de reprodução não corporal e portanto mais pura? (cfr. Arno Borst - Les Cathares, pg. 158, Payot, Pais - 1978).
Evidentemente Scognamiglio jamais lera nada sobre os cátaros.
Seu exemplo não provinha de uma leitura. Acreditamos que seja uma mera coincidência, ele e os cátaros darem exatamente o mesmo exemplo.Porque mentalidades iguais dão os mesmos exemplos.
Mas, se era certo que ele não lera nada sobre os cátaros, se era absolutamente certo que ele era incapaz de montar um sistema de pensamento organizado, católico ou cátaro, pouco importa, é também absolutamente certo que a coincidência do exemplo indicava e confirmava o aparecimento de uma tendência de pensamento gnosticizante na TFP. E por esse tempo julgávamos que o responsável por ela era apenas João Scognamiglio.
Em julho de 1982, J. Scognamiglio repetiu, no Praesto Sum, uma palestra de Dr. Plínio na qual este defendeu a tese de que no Paraíso Terrestre a reprodução humana teria sido diferente da atual, e que no Reino de Maria ela voltaria a ser não sexual.
Julgávamos que Scognamiglio não explicara bem o pensamento de Dr. Plínio, que normalmente se expressava com mais cuidado. Contudo, o fato provava que, pelo menos no Praesto Sum, se ensinava uma doutrina gnóstica sobre o casamento.
Quando denunciávamos o fato a Plínio Xavier, para surpresa nossa, ele confirmou que Dr. Plínio dissera isso mesmo, numa palestra a que o próprio Plínio Xavier assistira.
O erro não era então de João Scognamiglio, e sim de Dr. Plínio. Nessa questão, Scognamiglio fora mesmo "fiel intérprete dos desígnios" e ensinamentos de Dr. Plínio.
 Explicava-se a dificuldade de Dr. Plínio em atender nossa denúncia contra Anna Katharina Emmerick e condenar sua tese de que a reprodução humana, no Éden, teria sido por meio da palavra.
Em 1983, soubemos que em conversa com V. de O. a respeito de nossa carta de ruptura, que Dr. Plínio reconhecera que essa tese de Anna Katharina Emmerick da reprodução humana por meio da palavra o encantara, e que ainda o encantava. Que não externava esta sua simpatia por essa tese, porque D. Mayer lhe dissera que embora Doutores do Oriente tivessem defendido essa tese, os do Ocidente se opuseram a ela. E que por isso, por respeito por esses Doutores, ele se calaria sobre o assunto.
Ele se calara...Oficialmente... Mas suas simpatias e encantamentos pela reprodução pela palavra e sua repulsa pelo ato conjugal, doutrina que Ele ensinava discretamnete, se manifestavam pela boca do "fiel intérprete de seus desígnios", no Praesto Sum, e depois eram repetidas em formulações chapadamente heréticas pelos ouvintes do "imã" Scognamiglio.
Apesar de todas as discussões que mantivemos, na TFP, sobre esse tema, até hoje a tese é defendida por Scognamiglio, e ao que saibamos, não foi ainda retratada: na TFP e entre os Arautos do Evangelho se crê e se espera – mas nunca oficialmente -- que no futuro Reino de Maria a reprodução humana será diferente do que é hoje. Provavelmente seria por meio de palavra. Para encantamento de Dr. Plínio.
*     *      *     
Sintomática dessa posição gnosticizante na TFP, no que tange a reprodução humana, é uma curiosa parábola contada por Dr. Plínio para ilustrar as relações das famílias dos membros do grupo [As famílias de pessoas do Grupo eram apelidadas de FMR= Fonte de Minha Revolução, ou Círculos Mundanos] com a TFP. A parábola tal como nô-la contaram alunos que a ouviram era a seguinte:
Uma rainha magnífica viajava um dia com seu filho, por uma estrada, em sua carruagem. Em certo ponto do caminho, porém, a criança caiu da carruagem, que prosseguiu. A rainha não percebeu o acidente. Um casal de carvoeiros, que passava pelo local, encontrou o menino e o recolheu.
O filho da rainha cresceu na casa dos carvoeiros, no meio de toda sujeira produzida pelo carvão. Algo, porém, fazia o menino sentir que ele era estranho na casa, e que sua origem era outra.
Um dia, ele se encontrou com a raínha, que ele desconhecia ser sua mãe. Ambos se olharam e se reconheceram. A raínha retomou o príncipe, seu filho, e o levou para o seu magnífico palácio.
Entretanto, os carvoeiros não se conformaram com a perda de seu filho adotivo, e, de vez em quando, iam esmurrar a porta do palácio da rainha reclamando seu "filho" de volta.
*     *      *     
Esta é a parábola contada por Dr. Plínio, tal qual nos foi transmitida por nossos alunos, que a aprenderam na TFP. Contaram-nos eles que o próprio Dr. Plínio fazia a aplicação da parábola.
A rainha é Nossa Senhora. O príncipe é cada um dos membros da TFP, que são na verdade príncipes do Céu. Os carvoeiros seriam os pais carnais dos membros da TFP. O palácio é a TFP. Os "pais", desesperados por terem seus filhos levados por N. Sra. para o palácio da TFP, para que cumpram sua vocação mais alta, vão bater às portas das sedes, reclamando seus "filhos" de volta.
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Curiosa e estranha parábola...
Por ela, os pais carnais não seriam os verdadeiros pais, e sim puramente adotivos. Na casa daqueles que os geraram, os membros da TFP seriam estrangeiros. Lá viveriam sujos, uma vida prosaica e sem valor.
Não é à toa, como vemos, que Dr. Plínio compara a saída de um jovem de sua casa, para ir para a TFP, à saída de Lot da cidade maldita de Sodoma.
Curiosa e estranha parábola... que faz os membros da TFP serem estrangeiros na casa dos que os geraram fisicamente, casa cheia de impurezas do carvão e da... geração (?)
Curiosa e estranha parábola que tanto se parece, em suas figuras e termos, com as parábolas gnósticas. Nas seitas gnósticas se ensinava que o homem é estrangeiro na terra, porque sua "pátria" verdadeira seria o pléroma divino.
O imo do homem seria uma partícula divina, que pelo pecado do éon Sofia, teria caído da divindade no mundo impuro da matéria, ficando então aprisionado num corpo material.
Pela reprodução carnal, a partícula divina enclausurada no homem, passaria, de geração em geração, no cárcere de carne. Porém, ao tomar conhecimento (Gnosis) de sua origem divina, a centelha divina que existe no homem se libertaria do cárcere do corpo. Para isto, normalmente, o homem teria que renunciar a todo contato carnal.
É claro que, nessa teoria, a relação entre pais e filhos fica totalmente desvalorizada.
Repetimos: nós não cremos que Dr. Plínio ou Scognamiglio tenham lido obras gnósticas. Eles nunca devem ter lido, por exemplo, o Conto da Pérola”.
 Todavia, julgamos muito sintomático que Dr. Plínio conte tal história. Ela manifesta uma mentalidade e impostações gnósticas, que acaba produzindo os mesmos frutos, parábolas e afirmações paralelas às da Gnose antiga.
Por romantismo de TFP entendemos pois a dupla tendência do pensamento e da mentalidade de Dr. Plínio.
A primeira tendência é a de ter uma admiração enlevada por um mundo idealizado em que habitam os seres "ab aeterno", as imagens de lenda, os vultos históricos e as pessoas amadas mitificadas pela imaginação do profeta, por uma vida numa Trans-Esfera idealizada.
A segunda, a de um desprezo por todo ser real, por toda realidade do "hic et nunc", se comparada com os arquétipos.
É essa dupla tendência que dá à mentalidade de TFP um tom e um  caráter gnóstico, que isola a TFP da realidade objetiva, e a faz ter uma atitude de “reserva” –sejamos misericordiosos-- para com o matrimônio e até mesmo repugnância pelo ato conjugal.
E essa dupla tendência que a leva a recusar o tempo em que ela vive, voltando-se ou para uma Idade Média de sonho, ou para uma esperança de um Reino de Maria quiliástico em que as ruas de porcelana serão percorridas por seres alcandorados, angelizados, isto é imateriais... Voltando-se para um mundo de sonhos em uma Trans-Esfera císnica e ab etérnica.
 
 
Com o que foi dito nesta Terceira Parte de nosso trabalho, cremos ter deixado provado e patente que Plínio Corrêa de Oliveira tinha uma mentalidade completamente romântica, imaginativa e sonhadora, desejosa de fugir do real, do aqui e do agora.
Ele mesmo confessou ter tido sempre tendência ao Romantismo, e, apesar de declarar que combateu essa tendência, seus sonhos, sua defesa dos sonhos, seus desejos de ser outro que um homem, -- por exemplo, querer ser urubu—seus desejos de “megulhar” em outros seres para se rubinizar, se esmeraldizar, se safiriar, etc. demonstram claramente seu desejo de fuga de seu eu. Juntando a isso, ao mesmo tempo, um orgulho imenso de ser Plínio. Dessa contradição provinha seu desejo de escapar desse mundo concreto, material, contingente contaminado pelo pecado, universo imundo pleno de coisas horríveis, e alcançar um outro mundo espiritualizado, onde Cristo seria seu sósia, e um só com ele, Plínio.
E lá partiu Plínio sonhando universos oníricos:  o universo do pavão, do cisne, dos seres ab aeterno, universos descobertos imaginariamente nos semáforos de São Paulo.
Daí, sua fuga onírica-geográfica de um Grande Êxodo de todo o grupo para um local remoto em Mato Grosso, ou seu  arrebatamento para a Montanha dos Profetas, na Bagarre, para se encontrar lá com Elias e Enoch...Daí, a esperança delirante de ser angelizado, e de voar para outros mundos.
 Dessa mentalidade sonhadora nasceu ainda a fuga da história pelo sonho da instauração de um Reino de Maria milenarista numa natureza edênica.
Finalmente, a fuga ontológica imaginada por Plínio a Trans Esfera.
Negar que tudo isso é sonho de uma mentalidade, que dificilmente se poderia deixar de classificar como patologicamente romântica, é impossível.
Plínio se comprazia nesses sonhos que ele sabia serem fugas da realidade, só por não resistir a esse prazer onírico? Ou isso era por tática, para revelar ou velar sua doutrina secreta, conforme percebia resistência ou adesão a seu sistema gnóstico?
Sua inteligência lhe mostrava a falsidade dessas imaginações patentemente delirantes. Ele oscilava entre ceder aos sonhos ou resistir a eles, ou avançava ou recuava, conforme sentia a recepção favorável ou escandalizada de seus ouvintes.  Disso provinham as oscilações que se manifestavam ao dizer, por exemplo, que os seres possíveis que ele imaginava não existiam realmente, mas que de algum modo tinham que existir, sem explicar uma afirmação nem a outra. Era um wishfull thinking lutando contra o bom senso, e também um desejo de ocultar, por vezes, por tática o que desejava revelar.
Ele cedia ao sonho, porque fora formado em uma mentalidade sonhadora. Cedia, porque achava isso gostoso. Cedia à tentação romântica, porque isso lhe trazia vantagens: era admirado, cultuado, servido, ganhava propriedades – consta que, ao morrer, ele tinha mais de cem apartamentos –adquiria domínio sobre pessoas, passava a ser tido como Profeta, imortal, inerrante, dono do Conhecimento superior intuitivo a absoluto –a Gnose—, etc. E isso tudo o inebriava...
Era uma tentação de megalomania, que levava à paranóia.
Mas julgamos que era também fruto de uma tática típica de seitas secretas, que velam e revelam.
O clima vivido na TFP e  entre os Arautos, com Monsenhor Scognamiglio, aguardando a Bagarre e a Ressurreição de Plínio, é realmente um clima absurdamente paranóico.
A mentalidade indiscutivelmente romântica de Plínio Corrêa de Oliveira o levou a montar um sistema de pensamento, uma ideologia aparentemente católica, mas, no fundo, gnóstica que ele levou ao desvario.
        Todavia, ele era suficientemente inteligente para compreender a loucura do sistema que montara, tão cheio de contradições.
Por exemplo, ele se dizia imortal. Se ele, de fato acreditava nisso, ele era louco.
Se não acreditava, era um cínico.
Em Fevereiro de 1995, recebeu ele o diagnóstico de que tinha câncer disseminado por muitos órgãos, Mesmo assim declarou que, embora muitos cressem que ele não era imortal, ele dizia “não estar tão seguro disso”...
Dizia isso para manter a “comédia” em que não acreditava?
Quereria causar com sua morte inevitável a maior decepção entre seus fanáticos de modo a detonar a seita que fundara?
Acreditava ele no que dizia?
Era um louco?
Era um cínico?
Veja-se, outro exemplo de contradição perplexitante.
Durante décadas ele ficou anunciando a Bagarre como iminente. Embora marcasse datas de modo vago, não foram raras e nem vagas as ocasiões em que declarou que, “agora”, a Bagarre não deixaria de acontecer. Dava prazos curtos: 5 anos, um ano...
E a Bagarre não vinha.
Como seus fanáticos não se decepcionavam com os anúncios de Bagarre que ia chegar e jamais chegava?
Isso era um mistério.
Isso é perplexitante.
Veja-se a seguinte confissão terrivelmente perplexitante de Scognamiglio em Fevereiro de 1996, do que Dr.Plínio lhe dissera exatamente um ano antes, em Fevereiro de 1995, mês em que PCO soube ter câncer em estado terminal:
“Ele é profeta, ele tem discernimento dos espíritos, ele é inerrante, ele discerne e vê o futuro, ele vê a situação do Grupo, vê que o Grand Retour não vem, não vem a Bagarre, não vem o Reino de Maria e as forças dele ele sente dentro de si que estão sumindo. Então o que vai dar tudo isso?
É um drama tremendo.
(...)
“Houve a Guerra do Iraque. Ele [PCO]disse:
-- “Olha, agora bem que pode ser a Bagarre
“Eu [Scognamiglio] estava a sós com ele num almoço, logo no começo do almoço, e disse:
“Sr.Dr. Plínio, o senhor me conhece, Bagarre para mim eu queimo tudo, me lanço na idéia de Bagarre inteiro, e depois chega a notícia: --“Não, não é a Bagarre ainda ? Eu me quebro. Eu já entrei em várias dessas e mais uma eu me quebro completamente. Queria saber do senhor com certeza se o senhor me garante de que é a Bagarre mesmo”.
 “Quá ! Quá ! Quá!  -- deu uma gargalhada assim com gosto—“meu filho, é duro lhe dizer, mas não posso lhe afirmar. Pode ser que tudo volte para trás. Então não se atire, apenas considere a hipótese de longe”. (João Scognamiglio, Jour –le –Jour, 4 de Fevereiro de 1996).
Incrível!!!
Que concluir desse relato?
Plínio acreditava no que dizia?
Plínio era um cínico que em nada acreditava?
Era um paranoico representando um personagem?
Lendo esse último texto, veio-nos à mente, o relato da morte de Hassan Sabbah, o Velho da Montanha, um Gnóstico shiita persa.
 Num catre miserável, estava o chefe dos Assassinos, dominador do Oriente, o senhor de Alamut. Junto dele seu mais fiel sequaz Kya Burzug Humid, que ia ser seu sucessor no comando da seita dos Assassinos Shiitas.  O Velho da Montanha, agonizante ia passar-lhe o último segredo da seita. O fanático seguidor do Velho da Montanha ouve afinal o Grande Segredo da seita:
“Nada é verdadeiro. Tudo é permitido”
Algo disso aconteceu entre Plínio e Scognamiglio.
E como essa seita romântica se mantém de pé, e com a aprovações perplexitantes?
Quando saímos da TFP, tivemos ocasião de ler alguns livros sobre paranóia. Neles se contava como um paranóico tem alto poder de persuasão, a ponto de um paranóico, habitando uma aldeia isolada da Sibéria, ter o poder de convencer de sua loucura toda a aldeia. Nas ilhas ou aldeias sectárias, acontece algo parecido.
Mas é evidente que o Vaticano não é uma ilha. Ignorância dos fatos secretos de uma seita e outros meios humanos de influência explicam certas aprovações. Os casos recentes dos Legionários de Cristo e da Toca de Assis, Institutos aprovados pela Igreja explicam algo.
O que explica o sucesso de Monsenhor Scognamiglio?
           
“Não há nada de oculto que não venha a ser revelado” (Luc. VIII, 17).
 
 
 

    Para citar este texto:
"No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho (Parte 4/8)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/pco-iv/
Online, 28/04/2017 às 18:52:02h