Religião-Filosofia-História

No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho (Parte 3/8)
Orlando Fedeli

 
SEGUNDA PARTE: A CONTEMPLAÇÃO SACRAL DO UNIVERSO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
Logo no primeiro capítulo da Segunda Parte do livro em foco, capítulo que trata da contemplação “sacral” como antídoto do laicismo, Plínio faz uma exigência, à qual ele é totalmente infiel:
A terminologia é elemento relevante em qualquer estudo. (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, ed. cit., p. 67).
Sem dúvida. Essa é uma grande verdade. Que ele imediatamente viola, ao dar sentidos particulares aos termos que ele vai empregar.
Essa era uma tática costumeira em Dr. Plínio: afirmava que ia usar um termo em certo sentido especial ou impróprio. Depois, passava para o sentido próprio do termo, e, a seguir, voltava para o impróprio, ou para o sentido “especial”, praticando uma anfibologia terminológica bem cômoda para sofismar e, se fosse preciso, se defender, caso alguém apontasse erro em suas demonstrações.
Com essas anfibologias, tinha ele sempre uma rota de fuga aberta contra objeções possíveis.
Assim, nessa mesma página acima citada, logo depois de afirmar a importância da terminologia precisa, ele diz que vai usar os termos contemplação e sacral em sentido particular...
Razão tinha então Paulo Corrêa de Brito Filho, quando, preveniu o leitor desse livro, dizendo que Dr. Plínio não tinha ordem lógica em suas conversas, e nem usava terminologia precisa. (Cfr. Paulo Corrêa de Brito Filho, Ao Leitor, p. 16, na apresentação da obra que estamos analisando).
Se “contemplação” e “sacral” são palavras tomadas em sentido particular, importa, antes de tudo, compreender bem o que significam, então, para Dr. Plínio, essas palavras , nessa segunda parte de seu livro.
Vejamos o que ele entendia por contemplação.
A palavra contemplação normalmente significa olhar longamente algo, procurando compreender o seu sentido mais profundo.
É o que expõe, por exemplo Hugo de São Victor ao distinguir os vários modos e graus de pensamento ou  modos de conhecimento humano: por cogitatio, meditatio, speculatio ou contemplatio.
Para esse pensador medieval do século XII, depois de nomear as coisas, em conseqüência do conhecimento de algo através de sua forma substancial, o homem deveria meditar mais profundamente o seu significado simbólico. Essa tarefa é árdua, e Hugo de São Victor a compara com o cavar de um poço para encontrar água. O trabalho de cavar é duro, e muitas vezes frustrante.  Só depois de pensar arduamente no que uma coisa é, o homem chegaria a compreender como essa coisa reflete algo de Deus, através de vestígios, símbolos imagens e semelhanças com Deus.
Conforme explicará, já no século XIII São Boaventura, nas coisas irracionais há apenas vestígios de Deus. Nos seres que pensam e conhecem – anjos e homens – há imagens de Deus, visto que neles, como em Deus, há inteligência e vontade. Finalmente, nos seres que conhecem, pode haver ainda semelhança com Deus pela presença neles da graça santificante, da santidade, que é a vida de Deus na alma.
A meditação, então, com dificuldade procura ver os vestígios de Deus nas coisas criadas, isto é, a unidade, a verdade, o bem e a ordem das coisas. Isso se faz com esforço.
A seguir, o homem, pela especulação busca ver, como num espelho, como em todas as criaturas se espelham simbólica e analogicamente as qualidades invisíveis de Deus, segundo o que São Paulo ensinou na Epístola aos Romanos, que, depois da criação, as qualidades invisíveis de Deus, tornaram-se visíveis, nas coisas criadas(Rom. I, 20).
Depois, o homem deve reconhecer ainda como as imagens de Deus, e a semelhança com Ele brilham nos anjos e santos.
Finalmente, o homem deve relacionar tudo o que conheceu com esforço pela meditação, pela especulação simbólica, pelas imagens e semelhanças de Deus nas coisas e nos seres conhecedores, e em suas ações, considerando, a seguir, o conjunto delas, e  como esse conjunto das coisas reflete a Deus. Isso é que seria a “contemplatio” uma consideração intelectiva e amorosa de tudo o que se conheceu e compreendeu. 
Hugo de São Victor compara a meditação penosa com a lenha verde ao fogo. Esta com dificuldade pega fogo. Ela se aquece e sua seiva borbulha fervendo numa das extremidades do ramo verde. Sua seiva ferve e exala mau cheiro. Nessa fase, há muita fumaça e não há fogo. 
Assim também é a meditação no coração do homem, fazendo as paixões ferverem e emitirem mau cheiro e a fumaça das distrações. Mas sem a chama da compreensão da verdade. Sem o calor do amor. Só fumaça. Sem luz da verdade e sem o calor do amor.
Depois, quando a madeira se seca ao fogo, de repente, irrompe uma labareda que se agita, e sempre sobe em direção ao céu. Ela tem mais brilho do que calor. Essa chama representa a alegria da especulação que permite ver a Deus “in speculo” através dos símbolos. Na especulação há luz brilhante e agitada, mas pouco calor ainda.
Pouco a pouco, a labareda envolve a madeira num abraço suave e constringente, que vai penetrando nela, e reduzindo-a a brasa. E quando tudo estiver em brasa, já não há mais madeira mas só fogo, de tal modo que a madeira poderia “dizer” já não sou eu que vivo, mas o fogo é que vive em mim. E não há nem fumaça, e nem labareda. Mas as brasas pulsam só com luz e calor, com verdade e amor. Essa é a contemplação. 
Sem dúvida, essa explicação de Hugo de São Victor é magnífica, e de beleza única pela verdade que tem, expressa com tanta poesia.
Nada de semelhante a isso aparece em Plínio Corrêa de Oliveira, que se limita a falar apenas em contemplação sensível, reduzindo-a a um olhar admirativo e sensível, isto é , com sensações ou impressões, produzindo nele apenas imaginações, que ele confunde com pensamentos.
Por exemplo, ao “contemplar”  um copo de chopp, ele deveria buscar apenas os vestígios de Deus que poderiam existir nesse ser artificial, pois o chopp não é um ser racional, e nem foi criado diretamente por Deus, mas feito pelo homem. 
Ou poderia compreender os símbolos que no copo de chopp  possam existir. Em concreto, ao analisar um copo de chopp, Plínio se limita a imaginar um super chopp, que fosse idealmente dourado. Um chopp onde habitasse a luz...(Ver mais adiante, página XYZ, o texto de PCO sobre o degustar de um copo de chopp).
Esse método imaginativamente contemplativo, ao extremo,  redunda na fórmula romântica expressa por Novalis:
Enquanto dou ao que é vulgar um alto significado, ao que é comum um aspecto enigmático, ao conhecido a dignidade do desconhecido, ao finito uma aparência infinita, eu o torno romântico. (In Mario Puppo, Il Romanticismo, Ed Studium, Roma, 1973, p. 80).
Claro que nessa apresentação do romantizar, feita por Novalis, o essencial está no atribuir imaginativamente valores dialeticamente contrários a alguma coisa. A dialética gnóstica é um dos elementos essenciais do romantismo.
Romantizar é dar valor sublime ao prosaico, ou tratar vulgarmente o sublime.
O Romantismo imagina. Sonha. Delira.
A Sabedoria católica é virtude intelectual.
Ela medita e compreende.
Plínio só imagina.
Vejamos como Plínio utiliza um segundo método de iludir, mutilando convenientemente suas citações.
Para fundamentar a sua  noção de contemplação, Plínio cita o Padre Tanquerey: “contemplar, em geral, é olhar um objeto com admiração” (Padre A. Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Livraria Apostolado da Boa Imprensa, Porto, 6a edição, p. 145, in PCO. A Inocência…, p. 67).
Com essa simples citação, PCO coloca Tanquerey como dando apoio à sua tese de contemplação  “imaginativa-admirativa”.
A admiração vai desempenhar um papel importante nos desvarios plinianos. Daí, ele procurar apoiá-la na autoridade de um autor considerado como Tanquerey.
Este é um autor bem conhecido e bem afamado. E, com razão, ele diz que o contemplar exige o admirar. Mas admirar é principalmente olhar com os olhos do intelecto, amando algo que se compreendeu. Admirar não é apenas ficar olhando materialmente e... "imaginando”, sonhando, como dizia PCO.
O autor do livro em foco simplesmente omite o mais importante do que diz Tanquerey. E o que ele mutila o restante da explicação de Tanquerey (Veremos isso, logo mais), no que ela contraria a sua noção de contemplação somente sensível e imaginativa, sem intelecção. 
Tanquerey trata da Contemplação no Livro III de sua obra sobre ascética e mística, quando discorre sobre a Via Unitiva. Distingue ele contemplação natural de contemplação sobrenatural, uma distinção essencial, que Plínio omite.
1297. 1o Contemplação natural. “Contemplar, em geral, é olhar um objeto com admiração. Há uma contemplação natural, que pode ser sensível, imaginativa ou intelectual. 
1 - É sensível, quando se fita longamente e com admiração um belo espetáculo, por exemplo, a imensidade do mar ou uma cadeia de montanhas.
2 - Chama-se imaginativa quando, pela imaginação, alguém se representa longamente com admiração e afeto, uma coisa ou uma pessoa amada.
3 - Denomina-se intelectual ou filosófica, toda a vez que se detem o espírito com admiração, e por meio de uma simples vista, sobre alguma grande síntese filosófica, por exemplo sobre o Ser absolutamente simples e imutável, princípio e fim de todos os seres”.
1298 – 2o Contemplação sobrenatural. Há também uma contemplação sobrenatural, e é dela que falamos. Vamos expor a sua noção e as suas espécies.
A) Noção. O termo contemplação designa em sentido próprio, um ato de simples vista intelectual, abstraindo dos diversos elementos afetivos ou imaginativos que a acompanham; mas quando o objeto contemplado é belo e amável, é acompanhado de admiração e amor”. (AD. Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1940, Livro III, nos 1297-1298, p. 810. Destaques nossos).
Tanquerey trata então da  contemplação sobrenatural que exclui os aspectos afetivos e imaginativos.
E a noção de contemplação de que Plínio trata, na obra que estamos focalizando, é fundamentalmente sensível e imaginativa, e não intelectiva, e muito menos então sobrenatural. Mais ainda, ela é o oposto do que diz Tanquerey da contemplação sobrenatural,”simples vista intelectual”. 
Como na doutrina pliniana a admiração terá papel bem importante, voltaremos, a tratar dela mais a fundo.
Os organizadores da edição do livro em foco, -- não PCO-- enxertaram uma definição mais exata de contemplação para dar mais ortodoxia ao que diz Plínio:
A contemplação sacral é, pois, a contemplação da imagem, da semelhança, ou dos vestígios de Deus no Universo – ou seja, no mundo que nos cerca, nas cidades, nas famílias, nas instituições, na arte, nos animais, nas plantas, nos pormenores de cada objeto. (PCO, A Inocência… enxerto posto na p. 69).
Porém, nos textos de PCO não se fala disso seriamente. É só de admiração sensível e imaginativa, sonhadora, que PCO trata.
Vimos então dois métodos – jeitinhos plinianos—para enganar seus leitores ou ouvintes: a imprecisão terminológica e a mutilação das citações.
Imprecisão terminológica, pois Plínio usa um termo, ora num sentido próprio, ora num sentido particular, e ainda em outros matizes secundários, num camaleontismo terminológico que lhe permite passar de um sentido para outro, praticando uma anfibologia que lhe garante o sofismar, tendo sempre aberta uma porta de fuga, para quando for pego num erro, dizer que não usou o termo apontado no sentido condenável, mas noutro. 
Um terceiro jeitinho pliniano para ir enganando sutilmente o leitor são as suas in-definições. Nada mais vago e impreciso que as definições de PCO, nas quais, muitas vezes, ele usa comparações vagas e termos dúbios. Ele fala de “não sei quê”, de “um como quê”, de “um imponderável”, de um “parece que” etc.
No final, não se tem nada claro o que, de fato, ele exprimiu. Suas definições brumosas são sempre cortinas de fumaça que permitem a ele escapar de objeções possíveis, ou insinuar erros sem dizê-los muito expressamente.
Quarto jeitinho escorregadiamente saponáceo pliniano para iludir o leitor são suas distinções imprecisas e por vezes por neologismos.
Veja-se a distinção entre sacro e sacral, feita por Dr. Plínio, nesse livro. O termo sacral não existe na língua portuguesa. Plínio usava a palavra sacro (sagrado) para referir-se, como todo o mundo faz, à esfera religiosa. Sacral foi um neologismo que ele tirou do francês, provavelmente de Maritain, pois que essa palavra aparece no Petit Robert, dando como exemplo uma frase de Maritain, para se referir à esfera temporal sacralizada na Idade Media. Contemplação sacral seria então o olhar com admiração os seres do mundo não religioso (Cfr., A Inocência…p. 75).
São Paulo afirma taxativamente que as qualidades invisíveis de Deus, depois da criação, se tornaram visíveis nas coisas criadas (Rom I, 20).
O universo foi feito semelhante a Deus. Tanto que Jacob chamou o local em que viu a escada ligando o céu à terra de Bethel, Casa de Deus, pois o universo material é semelhante ao Criador, e o Universo é como que sua casa (Bethel).
E no dicionário da língua portuguesa de Houaiss, a palavra sacral aparece apenas como adjetivo referente ao osso sacro. Portanto, sem nenhuma relação com algo de sagrado.  
Essa distinção entre o mundo religioso (sagrado), e o mundo profano (sacral) não existente nem na Teologia, vai ser levada por PCO a extremos, a ponto de  separar quase que totalmente – como se não tivessem relação – o que é essencialmente religioso (sagrado) do que é profano ou laico (sacral); a separar a atividade dos santos, daquela dos leigos, como se, ser santo, fosse o contrário do que é um leigo:
Embora devamos ser grandes admiradores dos santos que restringiram sua ação à esfera religiosa, é natural que a atividade dos leigos tenha em vista especialmente o mundo temporal. (PCO, A Inocência…, p. 77).
Uai!
 Os santos só atuaram na esfera religiosa?
Os leigos devem se limitar à esfera temporal?
Por que então o leigo Plínio tratava de doutrinas religiosas?
E a esfera religiosa é estanque face à esfera temporal?
Afirmar que os leigos devem cuidar só do “sacral” (temporal) e não do sagrado é contrariado pelos santos que buscaram santificar a esfera religiosa e a civil também.
É o que fez Santa Joana d’Arc. Como conseguiu ela unir santidade e laicidade? Sagrado e profano?
E o que fez Santa Francisca Romana, enquanto leiga?
A formulação imprecisa de PCO  ao distinguir sagrado de sacral tende a separar santidade e laicidade, sagrado e profano, a esfera religiosa da esfera temporal,  a separar a Igreja do Estado.  Como se a santidade ficasse restrita à esfera religiosa ou eclesiástica, não se preocupando com a esfera temporal. O que é puro liberalismo.
Isso parece comprovar que PCO se inspirou mesmo em Maritain, no usar essa palavra.
É isso que explica porque Plínio Corrêa de Oliveira, que se apresentava como o paladino da ortodoxia e do “sacral”, defendeu a separação entre a Igreja e o Estado, quando foi Deputado da Constituinte, no Rio de Janeiro, na década de trinta, conforme consta de seus discursos e debates publicados no Diário Oficial daquele tempo. Nessa ocasião, como leigo, ele estava tratando da esfera temporal...
É bem conhecido que a tese liberal da separação entre Igreja e Estado foi condenada por Pio IX no Syllabus.
Nenhum tradicionalista—mormente europeu—defenderia a separação entre Igreja e Estado. Nenhum escritor tradicionalista se permitiria chamar de “Cruzado do Século XX” quem defendesse a tese liberal da separação entre Igreja e Estado.
Entretanto, eis o que defendeu Plínio C. de Oliveira, como deputado "católico", na Assembléia Constituinte de 1934, conforme o texto oficial, publicado no Diário da Assembléia Nacional:
O Sr. Correia de Oliveira  -- “Julgo representar bem o pensamento católico. E posso afirmar a V. Excia. que o episcopado brasileiro não deseja absolutamente a restauração da união da Igreja ao Estado, pelo simples motivo de que, sendo uma situação, em tese, ideal, porquanto reconhece à Igreja verdadeira os direitos que tem, em virtude de seu mandato divino, é, no entanto, uma situação de fato que provou mal na experiência que tivemos  durante o império. (Plínio Corrêa de Oliveira, Debate na Assembléia Nacional Constituinte, in Diário da Assembléia Nacional,  Quinta Feira, 14 de Dezembro de 1933, p. 409,  1* coluna).
Eis aí Plínio, defendendo a tese liberal de Monsenhor Dupanloup sobre a separação entre Igreja e Estado, adotando a famosa distinção liberal entre tese e hipótese.
E não bastando, o ter defendido a tese liberal condenada pelo Syllabus, Plínio Correa de Oliveira, que sabia adaptar-se aos ambientes, conhecendo a influência do positivismo na Maçonaria Brasileira e Republicana, ele, oficialmente monarquista e católico, fez pior.
Veja a quem ele citou, para firmar sua tese liberal :
O Sr. Corrêa de Oliveira -- "Peço permissão para contraditar o conceito do orador, apresentando-lhe a opinião de Augusto Comte, que disse que a distinção entre os poderes espiritual e temporal foi feita exatamente pela Igreja. (Plínio Corrêa de Oliveira, Debate na Assembléia Nacional Constituinte, in Diário da Assembléia Nacional,  Quinta Feira, 14 de Dezembro de 1933, p. 409,  1* coluna).
Embora seja verdade que a Igreja distingue – e distinguir não é separar -- o poder espiritual e o temporal, socorrer-se da autoridade do positivista Augusto Comte é lamentável. Se ele quisesse citar Comte como argumento ad hominem, ele poderia tê-lo feito, sim, mas tinha a obrigação de fazer alguma restrição ao fundador do positivismo. Restrição que o Sr. Plínio Corrêa de Oliveira não fez.
Um quinto jeitinho ludibriador de PCO era a redundância circular, que faz o leitor perder o rumo, pelas voltas e reviravoltas  que Plínio dava às suas frases torcicolosas, para o leitor perder o seu norte.  Veja-se esta, por exemplo:
O homem deve ter um olhar habitualmente contemplativo e meditativo  a respeito das coisas que vê, para ser um contemplativo da vida terrena. Quer dizer, uma pessoa que olha a vida terrena e é capaz de contemplá-la. (PCO, A Inocência… p. 69).
Precisão terminológica produz clareza. A redundância, torcicolosa e circular, desnorteia e nada explica.
Finalmente, um sexto método de ilusionismo usado por PCO consistia em simplesmente usar como sinônimos palavras que não eram equivalentes. Por exemplo: imaginar em lugar de pensar, sentir como compreender, impressão como conhecimento.
A “contemplação sacral” de que fala PCO em seu livro  tem sentido bem diverso do que aparentemente significa.
É com esses métodos redacionais que Plínio de romântico se transvestiu de líder católico. Tomista.
 
 
 
A compreensão dos vestígios de Deus, nos seres irracionais, da imagem de Deus nas criaturas dotadas de inteligência e vontade, e da semelhança com Deus, nas almas santas, que vivem em estado de graça, só é possível através de ato intelectual. Nunca pela mera imaginação.
Quando Plínio faz o que ele chama de exercício de “transcendência sacral”, por exemplo, “Degustando um copo de chopp...”, na realidade, ele faz o que Novalis  fazia e recomendava fazer para romantizar: dar ao vulgar um valor sacral, por meio da imaginação.
Isso nada tem a ver com a contemplação mística católica que é essencialmente intelectiva, e se fundamenta na realidade objetiva do ser. Nunca no imaginário.
É então um exercício de “contemplação” imaginativa romântica o que Plínio vai fazer à página 302 desse seu livro, onde se reproduz a “contemplação sacral” de Plínio sobre o chopp, intitulada Degustando um chopp...(PCO, A Inocência…, p. 302).
Veja-se na contemplação sacral do copo de chopp o que  PCO imagina:
Não terei entendido um chopp se não conseguir imaginar o chopp perfeito. Depois de o ter imaginado, esse chopp imperfeito me faz compreender um ser possível que é a alegria de minha vida.
(...) No chopp, eu via a possibilidade de ser muito mais do que era, e esta possibilidade me falava de Deus. (PCO, A Inocência…, p. 302).
Esse exercício de “contemplação sacral” mostra como Plínio passava do “imaginar” para a “compreensão” de um ser possível que seria a alegria de sua vida, -- um super chopp--  algo “que lhe falava de Deus”.
Por isso mesmo, na “admiração” e na “contemplação” plinianas se repetem, literalmente ad nauseam, termos típicos do romantismo como “sentir”, “ter a sensação”, “ter a impressão”, “imaginar”, “sonhar”, “idealizar”, “ter o ideal”  etc.
Exatamente o que Tanquerey exclui da contemplação sobrenatural.
Novalis resume a posição romântica, quando escreve: “O pensamento é apenas o sonho do sentir, é um sentir entorpecido”(Apud Gerd  Bornheim, A Filosofia do Romantismo, in J. Guinsburg, O Romantismo, ed. Perspectiva, São Paulo, 1978, p. 96).
PCO também vai valorizar antes o sentir do que o compreender:
Por exemplo, no artigo “O Senso Comum e a Procura do Absoluto” (In Revista “Dr. Plínio”, N0 71, Fevereiro de 2.004, p. 27 -30), Plínio afirma que o primeiro passo para “saborear os bens espirituais “ consiste em sentir:
Não se trata apenas, ou sempre, de fazer a explicitação das coisas percebidas pelos sentidos. O passo inicial indispensável é uma espécie de sentir do qual nascerá mais tarde a explicitação. Esta seria o segundo estágio, menos imprescindível, enquanto o primeiro é o mais precioso, porque dele depende o resto do processo. (Plínio Corrêa de Oliveira, O Senso Comum e a Procura do Absoluto, in Revista Dr. Plínio, ano VII, N0 71, Fevereiro de 2.004, p. 27. Os destaques são nossos).
Portanto, para PCO, o fundamental e o mais precioso seria uma espécie de sentir.
E ele insiste nesse ponto como fundamental:
Insisto na importância desse primeiro sentir: sem uma espécie de vivência (palavra perigosa, mas adequada às nossas reflexões) muito rica do objeto ou situação apreendidos pelos sentidos as etapas posteriores serão nulas. (Plínio Corrêa de Oliveira, O Senso Comum e a Procura do Absoluto, in Revista Dr. Plínio, ano VII, N0 71, Fevereiro de 2.004, p. 27, O destaque é nosso).
Portanto, um primeiro sentir existencialisticamente “vivencial” seria o essencial para a compreensão.
Só depois viria a explicitação do que havia já de conhecimento inato na alma.
É no capítulo II dessa segunda parte de seu livro, que Plínio vai tratar especialmente da admiração como ponto de partida –e de chegada- da contemplação sacral. (PCO, A Inocência…, p. 85).
E logo ele dá o que julga ser o  conceito da admiração:
“A admiração — etapa primeira da contemplação sacral—é a capacidade de se maravilhar. E de se maravilhar humilde e desinteressadamente. Podemos dizer que a admiração é uma virtude `cristianíssima´” (PCO, A Inocência…, p. 86). 
Estranha formulação.
O maravilhamento – o “émerveillement”, como diz PCO em francês é um modo de se emocionar. É uma reação sensível. “Émerveillement” no dicionário francês significa “maravilhamento, pasmo”.
Nem todo homem tem  emotividade, ou sensibilidade em mesmo grau, que possa levar ao pasmo. Alguns homens são pouco emotivos, e reagem com frieza diante de fatos ou coisas que em outros causam entusiasmo, sensação ou pasmo. Nem por isso não compreendem. São Tomás compreendia muito, e entretanto era pouco emotivo. 
A admiração é comum a muitos homens. Ela é causada pela compreensão do alto valor de algo, ou da manifestação muito clara de uma verdade. Ela pode produzir uma emoção maior ou menor na sensibilidade das pessoas, pois que elas são desigualmente emotivas. Daí, haver graus de maravilhamento e pasmo. Mas não é que pessoas emocionalmente frias sejam incapazes de compreender e de admirar. E sendo a admiração um ato natural, ela não pode ser dita uma virtude cristianissima, portanto virtude sobrenatural. Há maometanos capazes de admirar certos valores ou ações. E neles essa admiração é apenas natural, posto que eles não têm vida sobrenatural, visto que não são batizados.
Plínio diz então:
A admiração tem dois graus. Um grau é a admiração daquilo que a pessoa tem diante de si. E outro grau é reportar essa coisa a Deus Nosso Senhor, de maneira a colocá-Lo no termo final dessa admiração. “Deus é o autor do que estou admirando, e tem isso de modo infinito. Mais do que ter isso, Ele é isso. (PCO, A Inocência…, p. 86. O destaque, com cheiro de panteísmo, é do próprio Plínio). 
Que imprecisão sublinhada!
"Deus é isso"?
Para ser benevolente, diga-se que foi uma imprecisão. Mas com cheiro e sabor de panteísmo. Ou de Gnose.
Mas ainda bem que, desta vez, a coisa admirada foi referida a Deus e não a seres possíveis como a um super-chopp da Trans-esfera...
Depois de dizer que aquilo que admiramos penetra em nós, Plínio vai voltar a dizer mais uma coisa contraditória.
Infelizmente as pessoas são mais ensinadas a praticar a virtude do que a admirá-la. Ora, em relação a toda virtude, é preciso ter uma admiração profunda, uma admiração razoável que proceda da razão (sic), da inteligência iluminada pela fé. E é depois de prestar à virtude esse preito de admiração que se tem a disposição de ânimo necessária para praticá-la. Portanto, é só depois que se admirou a virtude como se deve que se está em boas condições de praticá-la. (PCO, A Inocência…, p. 69. O destaque é nosso).
Seria bem difícil ter uma admiração razoável que não procedesse da razão...
Só Plínio poderia imaginar esse impossível.
Toda admiração razoável necessariamente tem que proceder da razão.
E como diz PCO que há pessoas mais ensinadas a praticar a virtude do que a admirá-la, e logo depois diz que é só depois de admirar a virtude é que se tem a disposição para praticá-la?
Afinal, é possível praticar alguma virtude sem tê-la antes admirado, ou não?
Imprecisão. Ambiguidade. Confusão.
Daí ele dizer:
Tudo aquilo que vemos, portanto, é para nós um exercício de maravilhamento. Em francês se diz:  émerveillement.
Cada coisa convida o homem a imaginar  como ela seria se fosse maravilhosa. (PCO, A Inocência…, p. 69. O negrito é nosso).
 Note-se como ele passa logo do maravilhar-se para o imaginar.
O autor que examinamos é, por vezes, astutamente ambíguo:
Vejam-se, estas duas frases: 
Além do aspecto diretamente religioso da vida de piedade católica, nosso espírito deve subir às mais altas elucubrações, sem nunca perder o senso da realidade na qual atuamos. Isso não significa deixar-se levar por sonhos, devaneios inúteis e estéreis, e sim um empenho em aprofundar-se continuamente nas coisas de Deus. (PCO, A Inocência…, p. 77. Os destaques são nossos).
Note-se a contradição flagrante de PCO: claro que só tem o senso da realidade quem não se deixa levar por sonhos e devaneios. Ora, PCO vai defender os sonhos. Vai elogiar o sonhar! Vai viver sonhando.
Como então PCO fala até em “sonhar realidades”?
Como escreveu ele que:
A França, este sonho que põe o mundo a sonhar ou A França que não sonha é um arrabalde de si mesma. (PCO, A Cavalaria não morre, excertos do pensamento de Plínio Correa de Oliveira, selecionados por Leo Daniele, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo,1998, pp. 16 e 37).
E como o primeiro sub título do capítulo II da segunda parte do livro sob nosso exame afirma: “O verdadeiro pensador deve examinar acuradamente a realidade”(PCO, A Inocência…, p. 93). E logo na página seguinte, Dr. Plínio diz que ao invés de aprender nos livros, ele sabia tudo por uma intuição interior, que lhe bastava explicitar para julgar de todas as coisas exteriores a ele.
Mas então ele não examinava acuradamente a realidade exterior, e sim o que ele imaginava ser a sua realidade interior, as suas supostas matrizes inatas do ser.
Já tivemos ocasião de examinar esse texto que aqui repetimos:
Eu tinha, talvez, uns 25 ou 30 anos--- [Foi entre 1933 e 1938, quando ele começou a dar aulas de Historia em Faculdades, por nomeação política, sem jamais ter estudado História regularmente] – quando compreendi que o melhor de minha vida intelectual não consistia tanto em aprender coisas sobre o que não sabia, quanto em encontrar os conceitos para exprimir o que por mim mesmo tinha percebido. Aliás, como é bem sabido, essa é a característica de todo verdadeiro pensador, como eu pretendia ser. (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação sacral do Universo, ed. Cit. p. 94). 
Intuição interior de si mesmo e explicitação do que há no interior do homem essa é a fórmula da ciência pliniana. E isso é puro modernismo gnóstico.
 
 
 
Outro ponto a criticar na doutrina de PCO é a sua noção errada dos símbolos.
É bem conhecida a definição do Pseudo Dionísio de símbolo. “Símbolo é o inteligível no sensível”. Todo símbolo necessariamente é algo material que remete a uma idéia ou valor espiritual.
Do concreto, o símbolo faz passar para o abstrato e para o espiritual. Para Dr. Plínio dar-se-ia o inverso: passaríamos do conhecimento inato para a análise do concreto. Daí, para Plínio, o símbolo material viria confirmar conhecimento anterior e interior inato no homem. Analisaremos essa inversão feita por Dr. Plínio com relação aos símbolos mais adiante, neste livro, quando tratarmos da teoria de Dr. Plínio sobre o conhecimento inato do homem, e o que ele chamava de câmara obscura. (Cfr. Quarta Parte, cap. V, sobre a Gnose da TFP).
O “doutor” da antiga TFP – e pusemos desta vez a palavra “doutor” entre  aspas porque ele foi doutor somente imaginativamente... na Trans-Esfera - aparentava seguir a doutrina católica a respeito do conhecimento das qualidades invisíveis de Deus através das qualidades visíveis das criaturas, conforme ensina São Paulo na Epistola aos Romanos (I, 20).
Na realidade, ele fazia uma grande confusão entre símbolos, transcendentais, imaginação, conhecimento conceitual, intuição e abstração, entre seres possíveis e entes de razão, entre seres imaginários, como as quimeras e as fadas, e seres possíveis na mente divina. Uma salada metafísica e epistemológica é o que havia na mente imaginativa de Plínio, praticamente única fonte original de seu “saber” trans-esférico.
Veja-se  a confusão que ele fazia a respeito do que é símbolo.
O universo material é um edifício simbólico imenso.
No sentido comum, o símbolo é algo convencional. Por exemplo, um símbolo de trânsito: convenciona-se que tal figura indica determinada coisa a fazer ou deixar de fazer. (PCO, A Inocência…, p. 97).
Ora, sinal de trânsito não é um símbolo. É só um sinal.
Por isso, é convencional.
O sinal é gratuito.
As letras e os números que usamos são sinais convencionais. Não são símbolos. Assim a letra P em nosso alfabeto indica um som consonantal diferente da mesma letra no alfabeto grego. O sinal para designar três unidades – o sinal 3 – entre os romanos era indicado pelo sinal III.
Sinais são convenções humanas.
O símbolo não é convencional.
O símbolo é natural.
É feito por Deus.
A serpente tem, em si, no seu ser e no seu modo de atuar, um significado posto pelo Criador.
O símbolo é natural e objetivo.
Plínio não sabia a diferença entre símbolo e sinal.
Como já dissemos, a definição de símbolo normalmente usada é a que foi elaborada pelo Pseudo Dionísio: “Símbolo é o inteligível no sensível”.
Símbolo é, pois, uma idéia compreensível pela inteligência humana, colocada por Deus num ser material, para fazer conhecer analogicamente algo espiritual, sobre natural ou preter natural.
O morcego é símbolo do demônio, porque é um "rato" que voa. Ele não enxerga na luz. Só vê nas trevas. Vive de cabeça para baixo, e vive do sangue alheio. Todos esses modos de ser, e todas essas imagens fazem pensar no demônio.
Isso é objetivo.
Embora objetivo, o símbolo natural é também ambíguo.
A pomba é, ao mesmo tempo, símbolo de mansidão e de insensatez. Cristo nos disse que fôssemos mansos como as pombas. Mas Deus, no Antigo Testamento, amaldiçoou a cidade que se torna insensata como as pombas (Sof. III, 1).
A serpente é símbolo de traição. Mas também o é de prudência. O fogo representa o amor de Deus, o Espírito Santo. Mas ele representa também o inferno.
PCO parecia desconhecer a doutrina dos símbolos, muito usada pelos autores patrísticos e medievais.
Na página 99 do livro em exame, Plínio dá uma certa concepção correta de símbolo. Mas, a aplicação que imediatamente faz dela é errada.
Diz ele corretamente: “Existe símbolo quando há semelhança entre determinado objeto concreto e alguma coisa de abstrato ou de espiritual. Aí se caracteriza perfeitamente a definição de símbolo”. (PCO. A Inocência…, p. 99).
Mas o exemplo que ele dá é errado, pois nele confunde símbolo com comparação, ao dizer que  o trovão lembra o rugido do leão. (Cfr.PCO,A Inocência…, p. 97). O exemplo contraria o que ele definiu. Entre o trovão e o rugido do leão não colocou Plínio nada de abstrato.
Entre o rugido do leão e o trovão há apenas semelhança de som que permite uma comparação.  Um não é símbolo do outro.
E o segundo exemplo que ele dá, logo na frase seguinte, é infeliz e mostra, de novo, que ele não entendeu o que definiu:
Tomemos, por exemplo, esta pena de ave. É um objeto que, por um jogo de circunstâncias análogo ao da espada, simboliza o escritor. Durante muitos séculos, as penas das aves serviram como meio para o homem escrever. Mas entre a atividade intelectual de compor e a atividade  manual de escrever há uma certa semelhança, uma certa afinidade. A pena da ave – com aquela espécie de cartilagem central em linha reta e aquela parte da pena propriamente dita – tem uma flexibilidade, uma facilidade em ser conduzida, que lembra a destreza com que o escritor desenvolve o seu pensamento. O próprio fato de aquele cabo ser meio compridão, de tal maneira parece a longura, se assim se pode dizer do pensamento—de um pensamento cheio de construções, de arrières pensées – que se pode dizer que entre o métier de escritor e uma pena há algo mais do que simplesmente a coincidência histórica de aquilo ter servido durante muito tempo, como instrumento de trabalho para o escritor. (PCO, A Inocência…, p. 99).
Que confusão!
Como “entre a atividade intelectual de compor e a atividade  manual de escrever há uma certa semelhança, uma certa afinidade”?
Diz um ditado italiano que “a caligrafia é a ciência dos asnos”. Isso para dizer que até alguém pouco inteligente pode ter habilidade em escrever com boa caligrafia, que é apenas uma habilidade manual.
Quando se diz: “Machado de Assis foi uma das penas mais brilhantes da literatura brasileira”, se faz uma metáfora. Não se fez um símbolo.
A metáfora une diretamente um sujeito a um predicativo dele: Machado de Assis, pena ilustre (Machado = foi uma pena ilustre). Ricardo, o Leão da Cruzada (Ricardo = foi um  leão na cruzada). Essas são metáforas, que são uma forma de comparação nas quais se elimina o comparativo “como”.
O leão é símbolo de valentia. Isso porque na forma física do leão, na maneira como ele ataca, se vê, analogicamente, o valente que não teme o perigo.
O leão é símbolo de grandeza. Não só por sua juba majestosa. Mas também porque ele é incapaz de ver coisas pequenas, e assim ele se torna símbolo da grandeza que uma alma humana pode ter, ao desprezar o que é mesquinho. “Aquila non capit muscas”, diz o ditado.  “Leo non capit mures” (A águia não caça moscas, e o leão não caça ratos).
O porco é símbolo de baixeza, porque ele tem uma dobra no pescoço que o impede de olhar as estrelas. E assim ele se torna símbolo do homem materialista e impuro, que só olha para as coisas baixas, e jamais para o céu.   Isso não é convencional.
No texto de Plínio sobre a pena e o escritor, ele só faz comparações. E algumas delas ridículas como a que se refere ao “próprio fato de aquele cabo ser meio compridão”, e se o compara com a “longura” do pensamento do escritor. Ele poderia ter comparado a pena com colher de pau para remexer sopa num panelão.
Plínio não conhecia as diferenças entre símbolo, sinal, comparação, metáfora, metonímia etc.
Daí, essas infantilidades meio “compridonas” e com uma longura”…
É o que dá pretender tirar tudo da própria cabeça, sem querer estudar…
E que dizer de sua admiração a um pensamento cheio de construções, de arrières pensées”?
Só temarrières pensées” quem não é franco e nem leal...
Teria sido essa uma confissão involuntária? Quer-se mais uma prova do que a intuição explicitadora de Plínio é capaz de descobrir, isto é, de fazer confusão?
Êi-la:
A via abstrativa é que chega à verdade por meio de raciocínios; a via simbólica é aquela que, operando sobre determinadas formas, cores e sons de objetos expressivos, dá ao indivíduo a noção de que as exterioridades daquelas coisas lhe revelam, através dos sentidos, uma essência misteriosa, recôndita, de caráter simbólico, existente dentro delas. (PCO. A Inocência…, p.100. Os destaques são nossos).
E via abstrativa seria a do raciocínio...
A abstração não é um raciocínio. Este é sempre composto de uma premissa maior, uma premissa menor e uma conclusão.
Pela abstração captamos a forma substancial de um ser como idéia, retirando-a intelectivamente da matéria do ser.
Raciocinar não é abstrair.
Segundo PCO, a via simbólica permitiria chegar à noção de uma “essência misteriosa”, de caráter simbólico, existente dentro das coisas…
Se a essência é existente, está em ato, e então não é uma coisa de “caráter simbólico”, existindo dentro de outra coisa.
Que confusão genial!
Se fosse assim, a bravura simbolizada pelo leão estaria substancialmente no leão. Plínio diria que ela estaria ”inviscerada” no leão...
O que dá o que pensar. E suspeitar.
Fica patente que Plínio não sabia o que é símbolo, nem o que é abstração, nem o que é essência.
É o que dá confiar só na própria “intuição” interior. Isto é, sua “batatada”, como dizia o próprio PCO, sem saber, fazendo uma metáfora.
É o que no Brasil se chama vulgarmente de “chutar”, para enganar, fingindo que se sabe algo.
E continua Plínio a sua sabedoria simbólica chutológica:
O emprego das duas vias de conhecimento é, portanto,  necessário para o conhecimento da realidade. Porque os conceitos abstratos só chegam a seu termo final de elaboração quando convertidos novamente em imagens ou figuras. (PCO, A Inocência…, p. 100).
Os conceitos abstratos só chegariam a seu termo final de abstração se forem convertidos em símbolos concretos??? 
Não é uma maravilha dialética chutológica? O abstrato só é realmente abstrato se, no final, voltar a ser reduzido ao concreto.
E PCO se dizia tomista. Um tomista que considera que os fantasmata são o termo final do processo abstrativo, quando para São Tomás eles são meios para chegar ao conceito abstrato. Às idéias abstratas. Idéias abstratas que PCO julga concretas.
É o que dá confiar na explicitação da intuição interior proveniente das primeiras impressões.
Plínio diz ainda:
Os símbolos inferiores servem para compreender melhor os superiores nos quais melhor se conhecerá a Deus. É claro que Deus é sempre o termo último. (PCO., op.cit., p. 101).
Assim se iria de símbolo em símbolo. E não de símbolo a uma coisa ou qualidade real, simbolizada num ser material inferior, até chegar à última realidade espiritual absoluta, que é Deus.
Essa formulação de Plínio não explicita que os símbolos são  coisas reais materiais que nos falam analogicamente de Deus, realidade espiritual  absoluta e última. Se ela fosse uma formulação correta, como se poderiam incluir nela os possíveis da Trans-Esfera, seres imaginários e não reais?
Para que, PCO os imagina, se a escala dos seres reais remete a Deus?
Valentemente Plínio continua intuindo e explicitando:
Por exemplo, uma natureza morta, digamos uma cesta de laranjas atrás da qual há uma jarra. No quotidiano, trata-se geralmente de algo banal, a que nem prestamos atenção. Mas o verdadeiro artista capta o significado de cada laranja e de cada maçã naquela cesta, e o da jarra, e o coloca em evidência, de uma maneira sugestiva. (PCO, A Inocência…, p. 101).
Que absurdo!
Poder-se-ia estudar que símbolo existe na laranja, ou na maçã. Mas cada laranja concreta não tem um símbolo particular só daquela laranja singular. O símbolo existente na laranja vale para todas as laranjas. Somente quem nada entende de símbolo, além do que tira da própria cabeça, pode procurar um símbolo particular de cada laranja singular.
De novo, PCO cai no que Novalis chamava de romantizar: dar ao banal - a cada laranja - o significado simbólico do sublime.
Outra prova da confusão de Plínio sobre o que é símbolo se tem na sua afirmação de que o belo é símbolo do bem:
O belo é símbolo do bem, a verdadeira beleza simboliza o bem; conseqüentemente a verdadeira arte simboliza a moral. (PCO, A Inocência…, p. 104).
Que confusão estudantil!
Todos esses conceitos pseudo filosóficos mal digeridos por PCO demonstram uma ignorância completa de alguém que nada estudou seriamente, e que usa termos em sentido impróprio, baralhando tudo.
O bem é um transcendental. Isto significa que todo ser, pelo fato de ser, é bom. Todo ser foi criado por Deus, e enquanto criatura, todo ser é coisa, é algo, é um, é bom, é verdadeiro, e é metafisicamente belo.
Ens, res, aliquid, unum, verum, bonum são transcendentais do ser. Cada um deles explicita algo que está contido na noção de ser. Os transcendentais não são símbolos uns dos outros. Eles explicitam algo que já existe na idéia de ser (ens).
Portanto é um absurdo dizer, como faz Plínio que o belo é símbolo do bem, e que a arte simboliza a moral.
Os símbolos expressam analogicamente algo. Os transcendentais são conceitos metafísicos, não são símbolos, pois tudo o que é metafísico é abstrato, e tudo o que é símbolo exige algo de concreto, algo material.
São Tomás não julgava o belo um transcendental. Outros filósofos o tem como tal. O verum é o transcendental relacionado com a inteligência, enquanto o bonum é buscado pela vontade.
Ora, São Tomás define o belo como o bem claramente conhecido. Portanto, no belo se tem a junção de dois transcendentais: o bem (bonum) com o conhecimento claro dele: o verum. E o conhecimento claro do bem  é a verdade- o verum – sobre aquele bem. Portanto, o belo se relaciona com a alma toda. O bonum com a vontade, o verum com a inteligência, e o belo (o pulchrum) com a sensibilidade e com a alma toda. O bonum se relaciona com a vontade, o verum com a inteligência, e o belo (o pulchrum) com a inteligência, com a vontade e com a sensibilidade, portanto, com a alma toda.
Logo, o belo não é um símbolo do bem. Como o verum não é um símbolo do unum e do bonum. Como já dissémos, os transcendentais não são símbolos uns dos outros, mas todos eles expressam algo inerente à idéia de ser.
PCO defende uma nova “metafísica”... imaginativamente simbólica:
É preciso haver na sociedade toda uma cultura voltada para a metafísica, não para uma metafísica seca e cartesiana, mas para uma metafísica viva, empapada de símbolos. (PCO, A Inocência…, p. 105).
Ora, a Metafísica é a ciência do ser enquanto ser. Ele não é cartesiana. Ela é aristotélica e tomista. Jamais cartesiana. O cartesianismo foi o início da oposição moderna ao que é metafísico. E sendo a Metafísica a ciência do ser enquanto ser, ela é a ciência essencialmente abstrativa, enquanto os símbolos exigem o inteligível no sensível. Uma Metafísica empapada de símbolos – que exigem materialidade, que exigem o sensível—deixaria de ser Metafísica. Plínio quer o abstrato-concreto. O abstrato sensível. O absurdo realizado imaginativamente.
E Plínio falar em Metafísica “viva” lembra a tradição viva de Blondel e dos modernistas. É um puro slogan de Plínio. Um non sense.
Mais adiante, voltaremos a tratar da doutrina dos símbolos de PCO. Por ora, basta de tantas confusões plinianas pseudo filosóficas.
 
 
 
Passemos à análise da tese central da Segunda Parte desse livro de Plínio Corrêa de Oliveira, na qual ele trata da Contemplação Sacral do Universo.
Vimos que, no Credo, em seu artigo primeiro, afirmamos com certeza que o único Deus, Pai todo poderoso, criou todas as coisas “visíveis e invisíveis”.
No Verbo, “todas as coisas foram feitas, e sem Ele nada foi feito” (São João, I, 3).
Toda a segunda parte do livro de PCO que estamos analisando, se fundamenta na noção dos “seres possíveis” em Deus, noção que PCO deturpa, caindo verdadeiramente em desvarios de imaginação por compreensão errônea do que são os “seres possíveis” em Deus.
O erro metafísico  fundamental de Plínio nessa questão é julgar que o que é possível idealmente, o que está em potência, está também em realmente em ato. O possível seria existente.
Ora, esse erro é o mesmo em que caiu o modernista Karl Rahner, a alma negra e modernista do Vaticano II.
Ainda recentemente, a revista Sì Sì, No No, acusou esse erro em Rahner:”O erro capital de todo, o edifício filosófico-teológico de Rahner é o de transfrmar subjetivisticamente o que é possível idealmente no que é realmente existente em ato. Mas, “a posse ad esse non valet illatio”, ”a passagem do possível ao real não é lícita”; por exemplo, o fato de que eu possa vir a ser milionário não significa que eu o seja realmente em ato” (Padre Paride Pacifici, Rahner: Concilio tradito o compiuto?, In Sì, Sì, No, No, Ano XXXVI , N0 5, 15 de Março de 2010, p. 3).
Plínio incide no mesmo erro modernista do modernista Rahner.
E Plínio “pensa” como Alice. Ele não mergulha no espelho, nem na toca do coelho. Mergulha em sua imaginação, levado por suas impressões e sonhos, e imagina estar mergulhando no universo dos possíveis em Deus.
E por isso delira.
E com ele deliram, até hoje, tanto os chamados Provectos da velha TFP, como os Arautos do Evangelho do agora condecorado   e Doutorado - quem diria? - Monsenhor Scognamiglio.
Teria sido esse um impossível realizado?
A questão dos seres possíveis é sutil. Com relação a ela, pode-se cair em dois erros opostos:
1) negar que existam seres possíveis em Deus, recusando o que ensina até o Catecismo para crianças: que Deus poderia criar muitos outros mundos, diferentes deste em que vivemos, mas sempre análogos ao Criador;
2) afirmar que os seres possíveis tem existência atual. Que os seres possíveis em Deus, seres que Ele poderia criar, existem de fato, ainda que de modo “latente”, como insinua PCO.
Deus não fez os seres possíveis, pois não considerou conveniente e nem necessários, para a ordem do Universo, criá-los. E  se os tivesse feito, eles já não seriam seres possíveis. Seriam seres criados em ato.
Outra grande confusão feita por Plínio Corrêa de Oliveira, nessa questão dos seres possíveis em Deus, foi a de identificar esses seres possíveis em Deus com seres imaginados pelo homem.(Analisaremos esse erro, mais adiante, de modo mais completo).
Dr. Plínio, levado por sua mentalidade romântica, elaborou uma doutrina imaginativa, e sonhou um mundo de seres possíveis, mundo que até teria poder de atuar sobre os homens, e sobre o qual, nós homens, também poderíamos atuar. A esse mundo dos seres possíveis—aos quais ele acaba atribuindo, de modo mais ou menos velado, existência real –ele chamou de mundo da Trans--Esfera.
É o mundo “maravilhoso” de Alice, aquele a que Plínio chegou.
Dr. Plínio fez tal confusão, deslizando lentamente da afirmação correta que os seres possíveis, de fato, não existem, para depois passar paulatinamente a declarar que eles existem de algum modo, para, afinal, dizer que eles têm poder de atuar. Que portanto estão em ato, pois só o que está em ato pode atuar.
Ora, ser possível é o que está em potência de existir. E o que está em potência não atua.  Só pode atuar o que está em ato.
 Para que se compreenda melhor o que são os seres possíveis em Deus, --tema metafísico bastante árido, sutil e bem pouco conhecido – somos obrigados a tratar dele, agora, mais detalhadamente.
Se somos obrigados a levar nossos leitores através dessa região árida do pensamento, é só para deixar clara a confusão de PCO. A culpa desse parênteses  árido é, pois, a teoria  tropicalisticamente “escolástica” de Plínio.
Usaremos, para essa viagem metafísica penosa, o livroElementos de Filosofia de Monsenhor Thiago Sinibaldi, 4ª edição, Volume I, Roma, Via del Banco  S. Spirito, 12, 1923).
 Segundo a Filosofia escolástica, deve-se compreender que os seres se dividem em seres reais e seres possíveis.
“Possibilidade de ser é a aptidão do ente para existir” (Mons. T. Sinibaldi, Elementos de Filosofia, Vol. I, p. 365).
Se um ser, hoje, existe, é porque antes ele tinha a possibilidade de existir.
A possibilidade de existir pode ser :
1- intrínseca;
2- extrínseca.
A possibilidade ou aptidão do ente para existir é intrínseca, quando as notas constitutivas desse ente necessariamente não se excluem mutuamente. São notas compatíveis entre si. Por exemplo, um círculo quadrado não é possível vir a existir, porque a quadratura exclui a circunferência. Algo ser, ao mesmo tempo, quadrado e circular, é essencialmente contraditório. Portanto, círculo quadrado não é um ente possível.
A possibilidade ou aptidão do ente para existir é extrínseca, quando tem base na suficiência da causa eficiente. Por exemplo, Deus pode criar outros mundos. Isso é possível, porque Deus é infinito e onipotente, e então Ele poderia, se quisesse, criar outros mundos que analogicamente refletissem suas qualidades, que são de grau infinito. E Deus, sendo onipotente, é capaz de criar tais mundos semelhantes a Si.
Por isso, quando o Catecismo pergunta: pode Deus criar outros mundos? A resposta é sim, pois Deus é onipotente, e poderia criá-los para refletir suas qualidades de modo analógico, desde que seus componentes não tivessem contradição intrínseca, entre eles. Deus não pode criar o absurdo.
Mas Deus só pode criar o que for intrinsecamente possível.
Pois está escrito que “no Verbo todas as coisas foram feitas, e sem Ele nada foi feito” (Jo, I,3).
Como também está escrito no livro de Jó: ”Sua vontade fez tudo o que quis” (Jó, XXIII 13).
Deus pode fazer muitos outros mundos, sem dúvida, mas só fez o que quis.
Portanto, se Ele não fez os possíveis, foi porque julgou desnecessário fazê-los, embora pudesse fazê-los.
A possibilidade extrínseca supõe a intrínseca; porque nenhuma causa eficiente pode produzir o que não é intrinsecamente possível. (Mons. T. Sinibadi, op cit., Vol.I, p. 365).
Há, pois, entes reais (entes atuais),e entes possíveis (entes em potência).
Negar que haja entes possíveis seria negar a onipotência divina. Como seria também negar a liberdade de Deus Criador.
Os seres possíveis possuem notas constitutivas não contraditórias entre si, e isso os torna capazes de receber existência atual. Isso é possível porque: a essência e a existência dos entes reais são coisas reais. A essência e a existência dos entes possíveis são coisas possíveis.
A essência do ser possível é uma essência de ordem ideal. (Ideal, no sentido de que existe apenas na mente divina como idéia, e não ideal no sentido idealista, indicando coisa super-perfeita, como que divina em si mesma, como queriam os românticos).
A essência do ser possível não é atual, pois não existe na ordem atual, mas pode receber a existência que presentemente não tem. Pois, se a tivesse, esse ente não seria mais um ente possível, mas sim um ente real, atual. Ele existe apenas numa ordem ideal, isto é, na mente divina.
Quando se diz que a essência do ente possível é real, ou que as criaturas possíveis são dotadas de essência real, a essência se chama real, não porque existe na ordem real, mas porque é capaz de existir nessa ordem real, isto é, porque é real em potência, embora não seja real em ato. (Mons.Thiago Sinibaldi, op. cit., Vol. I, p.  867, nota 1).
O ser possível em Deus difere do ser atual ou real. A realidade pode ser referida à essência ou à existência. O ser possível não pode ser dito atual ou real, quer quanto a ter sua essência no mundo real, quer com relação à sua existência.
Possível e atual, quanto à existência, se contradizem. O possível ainda não existe. O atual existe em ato. A essência só possui o ser atual com o ato da existência. É contra a razão dizer que um ser possui um ser essencial sem ter existência. Conforme ensina São Tomás (De Potentia, Q. 3, a. 5, ad 2)., a essência não pré existe ao ser. Deus dando o ser, lhe dá uma essência junto com a existência.
O possível não está em ato.
Portanto, há seres possíveis que são distintos do nada.
Henri de Gand cometeu o erro oposto ao de negar a possibilidade dos seres possíveis: ele defendeu que o ser possível teria que ter um ser real, atual.
Esse filósofo, que viveu no século XIII (1217-1293), defendia a tese de que os seres possíveis possuem um ser atual, real, e ele chamava o ser atual de essência, e que Deus ao criá-los lhes dava o ser atual da existência.
Ora, se  o ser atual da essência do ser possível foi produzido, ele era possível antes da sua criação. Portanto, ele não tinha ser antes da sua criação. Ou então, se esse ser não foi produzido, então ele seria ser incriado, ser necessário, sempre em ato. Mas, então, ele nunca teria sido possível, pois esteve sempre em ato, existindo. E então ele jamais foi ente possível.
Para fazer engolir a opinião errada de Henri de Gand, alguns seguidores de Duns Scoto disseram que o ser possível era um ser  diminuto, intermediário entre o ser lógico e o ser real. Se esse ser possível, ser diminuto, fosse real, se cairia no erro de Henri de Gand. Se se supõe esse ser como uma coisa ideal realmente existente, cai-se no platonismo, que defendia a existência real das idéias universais, como subsistentes em si mesmas. Cai-se no realismo ontológico, admitindo um mundo das idéias realmente existente noutra esfera...que poderia ser chamada de uma Trans-Esfera...
Veremos, mais adiante, como se encontram doutrinas semelhantes nas seitas gnósticas, especialmente, por surpreendente que seja, na Gnose shiita.
 
 
 
1 - Pode o homem conhecer os seres possíveis em Deus?
Há um fenômeno curioso, a gravidez psicológica, que mais corretamente dever-se–ia chamar de gravidez imaginária. Uma delas custou a vida de Robespierre, e mudou a História do mundo.
Certas mulheres, não conseguindo conceber, acabam por se declarar grávidas sem ter realmente concebido. E é tal a influência da psiquê no ser humano que essas mulheres pseudo grávidas, apresentam até o ventre realmente entumescido, e, entretanto, a concepção delas é falsa.
Foi o que aconteceu com uma velha de 69 anos — Catherine Théot –que em 1793 se imaginou grávida do Messias, e que esse messias seria Maximilien Robespierre.
O Maximilien real ficou tão contente com o fato que foi visitar aquela que ia ser a sua “mamãe”. Quando o deputado Vadier contou o fato na Convenção, quebrou-se o mito de Robespierre. Foi uma risada só. No dia seguinte a risada – a guilhotina—lhe cortou a cabeça. Tal é o poder do riso. Tal é o ridículo de ceder à imaginação.
Contamos isso, para lembrar que a concepção humana tem muita analogia com a concepção intelectual, tanto que a idéia formada por abstração intelectiva se chama de conceito.
Pois há também “concepção”  puramente imaginativa, análoga à gravidez psicológica, e tão falsa e impossível como ela.Pois imaginar não é conceber.
Conceber os possíveis de Deus é impossível , pois que o homem desconhece o que Deus é em sua substância divina, como desconhece os possíveis da mente divina, pois que estes, estando em potência, não podem ser conhecidos. Só se conhece o que está em ato.
Nossa imaginação capta as imagens sensíveis dos seres reais, podendo até combiná-las, por exemplo, formando a imagem de um cavalo com chifre. Mas imaginação não é capaz de produzir conceitos. Ela é voltada para o concreto. O conceito é abstrato.
A distinção entre imaginar e compreender é muito comumente confundida por aqueles que são formados de modo romântico, que super valorizam a imaginação e não compreendem o que é a abstração intelectiva.
Seres imaginários que podemos inventar – por exemplo, chifre em cabeça de cavalo, ou centauros, ou o Pégaso — simplesmente só misturam acidentes de espécies diferentes. A imaginação não é capaz de conceber uma nova espécie de ser diferente das existentes no mundo criado.
No mundo feito por Deus, temos minerais, vegetais, animais, homens e anjos.Estes seres refletem as qualidades invisíveis de Deus.
Cada  um dos reinos existentes na criação tem uma gama de seres imensa, que hiperbolicamente dizemos “infinita”, espelhando qualidades de Deus em diversos graus. Deus fez o mundo assim, para que o homem pudesse compreender através das coisas criadas as qualidades invisíveis de Deus. Deus poderia criar muitos outros mundos, mas só criou o que quis, sempre semelhante a Ele. Poderia fazer outros seres e outros mundos. Não os fez por não nos serem necessários outros mundos. E embora esse outros mundos possíveis na mente divina pudessem vir a existir , Deus não lhes deu existência. E não podemos conceber como eles seriam, pois para isso precisaríamos conhecer ou a substância divina ou os seres meramente possíveis na mente divina. Como não conhecemos essas duas coisas, não podemos conceber seres diversos dos existentes na criação. Quando a imaginação inventa seres inexistentes, ela mistura apenas acidentes materiais de várias espécies. Inventa monstros ou utopias.
Claro que Darwin quis imaginar um ser intermediário entre o animal e o homem, -- o chamado elo perdido, um macaco com chupeta – mas isso é sonho “cientifico”. Também Nietzsche e Hitler imaginaram um futuro Super Homem. Mengele tentou criá-lo. Foi essa a fonte dos crimes eugênicos do Nazismo, que causou também os massacres dos campos de concentração. A imaginação humana “cria”, isto é, inventa seres inexistentes, misturando acidentes de espécies diversas. Jamais é capaz de conceber uma espécie realmente nova.
Pois Plínio romanticamente confundiu imaginação com intelecção. Possível com existente em ato. Imaginar com contemplar.
Mas os seres imaginados pelo homem não são os possíveis da mente divina, e os seres possíveis em Deus nada têm em comum com o fantasiado pelo homem.
Dr. Plínio confunde o que ele imagina com seres possíveis na mente divina.
Para desfazer essa confusão—perdoem-nos nossos leitores—depois da travessia do problema árido dos possíveis, somos obrigados a levá-los através do cipoal emaranhado do mundo da imaginação.
Vimos que Deus poderia criar muitos outros mundos, sempre análogos ao ser divino, porque Deus é onipotente, e porque seu ser é infinito. Mas Deus só fez o que quis. “Sua vontade fez tudo o que quis” (Jó, XXIII 13). Vimos também as duas condições exigidas para que houvesse seres possíveis em Deus, e como esses seres possíveis são potenciais e não atuais. Eles não existem em ato. Não são seres reais.
Pergunta-se agora: o homem tem a possibilidade de conhecer como seriam esses seres possíveis existentes idealmente na mente divina?
Claro que não podemos ter idéia deles.
O homem só pode conhecer os seres criados, a realidade exterior a nós além do próprio eu. O homem só pode conhecer seres que existam em ato.
São Tomás ensina, repetindo Aristóteles, diz:
“E como claramente ensina o filósofo,nada se conhece enquanto está em potência, mas só enquanto está em ato” (São Tomás, Suma Teológica, I, Q. LXXXIV, a. 2).
Concluindo:
Dos seres possíveis em Deus, o homem só pode saber que eles existem na mente divina como possíveis, isto é, em potência, mas nada pode saber deles, pois não são seres existentes em ato. Deles, o homem pode compreender apenas que eles seriam concebidos como análogos às qualidades infinitas de Deus, e que não podem ter contradição intrínseca.
Mas, nós não sabemos como eles poderiam ser.
Mais não podemos saber, porque não conhecemos a mente divina, e nem podemos conhecer o que Deus é em si mesmo.
Só podemos cogitar algo a partir dos seres reais que Deus criou e que conhecemos.
2- Que podemos conhecer, cogitar, ou que podemos imaginar, a partir da realidade criada, que conhecemos?
Vejamos, primeiro, o que conhecemos abstratamente em nosso intelecto, como também a distinção entre ens rationis e seres possíveis
O que conhecemos por abstração e racionalmente são os seres existentes atualmente. Deles, por abstração, conhecemos a forma substancial, expressa em nós pelo conceito que formamos das coisas.
O conhecimento da realidade dos seres reais, nós o temos  como idéias abstratas.
Fazemos dos seres de mesma espécie conceitos universais, por exemplo, o conceito de boi, de asno, de homem  etc. Chamamos de universal o termo que engloba todos os seres de mesma espécie.
O universal existe em nossa mente como ens rationis, ser de razão, e subsiste nas coisas concretas como forma substancial delas.
Por exemplo, a idéia de homem (animal racional) só existe em nossa mente como conceito universal. O universal não existe andando na rua. Em concreto, conhecemos os indivíduos humanos, e conhecemos que neles subsiste o conceito universal de homem como forma substancial. Mas, na rua só encontramos José, Antônio, Margarida, Joaquim, Antonieta. Jamais encontramos o homem, animal racional, perambulando por aí. (E muito menos  encontramos o animal racional – o homem-- na TV, ou em Brasília, essa ilha onírica da ideologia).
Somos, pois, capazes de conceber seres de razão, como o são os nossos conceitos universais.
Seres de razão são os que existem em nossa mente sem possibilidade de existirem na realidade concreta.
Exemplos de seres de razão são os universais, a noção de nada, ou a de qualquer privação de ser, como a cegueira, a ignorância, a surdez etc.
Por isso, também, a idéia de mal enquanto ser é contraditória. Mal é a carência do que deveria existir em um ser, ou a carência de ordem que deveria existir. Os exemplos que demos de cegueira, surdez exprimem o mal por carência de ser. O mal enquanto ser  não pode existir, porque existir é um bem, e ser equivale a existir.
A diferença de seres possíveis em Deus dos seres de razão  (ens rationis), na mente humana, é que os seres possíveis em Deus têm potência de existir, não existindo em ato, enquanto os seres de razão não têm possibilidade de existência real, de existência em ato.
Os seres de razão não devem, pois, serem confundidos com os seres  possíveis em Deus. Os seres de razão, repetimos, não têm potência de existência, e os seres possíveis em Deus têm potência de existência.
Falando apenas de modo humano, pois em Deus não há nem antes e nem depois, antes da criação, a idéia de homem, enquanto possível, existia na mente divina. Depois de criado, o homem deixou de ser um possível em Deus para se tornar um ser criado em ato. O que é possível não pode estar em ato, e não pode, pois, atuar.
Portanto não há nada em comum entre seres de razão existentes, apenas em nossa mente, sem potência de existência real, e os seres possíveis em Deus, que têm potência de existência, mas não a têm em ato. Só um profeta inerrante poderia identificar ens possibilis e ens rationis.
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Vejamos, agora, como usamos a imaginação para nos ajudar a pensar, e que seres imaginários podemos conceber.
O homem, tendo alma racional e corpo material só pode compreender abstrativamente graças ao auxílio dos sentidos externos e internos. (Cfr.Na IV parte deste livro, a doutrina do conhecimento de São Tomás). Um desses sentidos internos é a imaginação que fornece ao intelecto, com a cogitativa, as imagens sensíveis das coisas existentes. Por ora, nesta parte deste livro, vejamos apenas o que a imaginação pode conceber.
Com a ajuda da imaginação, o homem pode conceber:
a) invenções;
b) obras de arte ficcionais;
c) ideologias, como as utopias e os milenarismos;
d) seres puramente imaginários, que podem ser congruentes ou incongruentes.
a) Invenções
Conhecendo os seres criados por Deus, e conhecendo as leis da natureza, somos também capazes de imaginar, e depois de conceber um ser artificial,  fazendo um invento.
A mente humana pode ter idéia de um ser artificial possível de ser inventado. Por exemplo, o homem que inventou  o avião, excogitou a possibilidade de inventar um aparelho que voasse. Quando conseguiu realizar o avião, aquele possível humano, que esvoaçava por sua cabeça, deixou de ser possível. Passou a voar fora de sua cabeça. Passou a ser real.
Julio Verne, ao escrever Vinte Mil Léguas Submarinas, concebeu uma artefato capaz de navegar sob as águas. Aquele submarino do Capitão Nemo era um ser “possível”, existente em potência na mente humana. Era uma coisa que só foi efetivada realmente no século XX. Feito o submarino, ele deixou de ser um possível humano, para se tornar ser realmente existente em ato. Embora sem o capitão Nemo que continuou ficção, ser imaginário.
As invenções, antes de sua realização em ato, tinham potência de serem feitas artificialmente pelo homem. Por isso, elas não eram seres de razão, já que tinham potência de se tornarem reais. Inventadas, tornaram-se reais.
Portanto, um ser possível humano, um aparelho concebido na mente de um inventor, que se torna uma artefato realmente produzido, não deve ser confundido com seres possíveis em Deus.
Claro que também os artefatos humanos somente se realizam se obedecem as leis naturais postas por Deus para reger a natureza. O que contraria as leis naturais não funciona.
b) Obras de arte ficcionais
Assim também, com base em seres reais e concretos que conhecemos, podemos conceber personagens fictícios, personagens idealizados, mas que representam certos modelos ideais humanos, quer do ponto de vista moral, psicológico ou intelectual.
Nosso Senhor nos apresentou a figura do bom Samaritano como modelo moral, e Eça de Queiroz criou figuras arquetípicas como as de Fradique Mendes, do Gonçalíssimo Mendes Ramires, e a do Pacheco. Do talentoso Pacheco. Figuras imaginárias, mas quão instrutivas.
Podemos ainda montar fábulas nas quais animais falam exemplarmente, figurando atitudes humanas, para que retiremos ensinamentos morais preciosos.
Infelizmente, hoje, não se fazem mais fábulas...
Esopo e La Fontaine morreram “il y a longtemps...”E hoje, nem sequer os homens falam exemplarmente.
Saudades das fábulas...  Antigamente, até os animais “falavam”.
Nas fábulas.
Hoje, poucos homens têm palavra.
E há quem faça restrições mentais para enganar com palavras.
Nas obras de arte devemos distinguir aquelas que são feitas inteiramente com base na realidade, respeitando a coerência constitutiva dos seres criados, das artes puramente imaginativas, como por exemplo, os rostos humanos imaginados por Arcimboldo, feitos de legumes, frutas ou verduras, absolutamente impossíveis de serem reais no mundo criado.
c) Ideologias. Utopias e Milênios
Assim como concebe inventos, o homem também pode conceber sistemas de organização religiosos, político-sociais, e econômicos.
Todos esses sistemas montados pelo intelecto ou pela imaginação humana só funcionarão se efetivamente obedecerem as leis naturais impostas por Deus ao mundo criado.
Uma invenção que não respeitasse as leis naturais não funcionaria. Do mesmo modo, não funcionam as ideologias, as utopias e os sonhos milenaristas, ainda que concebidos por algum falso profeta, em Higienópolis, pois as ideologias utopias e milenarismos não respeitam as leis naturais.
Toda ideologia é subjetivista  e parte do erro de julgar que é o pensamento que cria o real. A verdade é objetiva, e a realidade não muda, se concebemos uma idéia diferente do que a coisa é.
Uma ideologia é um sistema de conceitos subjetivos que pretende submeter a realidade objetiva ao pensamento ideal.
O resultado é sempre catastrófico.
Os homens podem conceber em suas mentes sociedades ideais, que não correspondem ao que existe, como existe, ou contrariando os princípios naturais. Quando o homem faz isso, ele inventa uma utopia, ou sonha um milênio impossível.
O país da Cocanha era sonho de gulosos e de preguiçosos, sonhos do que não existe e nem poderia vir a existir. E o reino da Utopia, por contrariar as leis naturais, não podia funcionar. E caso se tente estabelecer a utopia à força, contra a lei natural, se cria um inferno. É o que constatou Karl Popper, ao dizer que, “sempre que se tentou criar o céu na terra, se montou um inferno”. É o que comprovaram Auschwitz e os Gulags.
Ainda hoje, deparamo-nos, num jornal, com uma frase brilhante. O que é coisa rara.
Era num artigo sobre a utopia do progresso dominante nos séculos XIX e XX,  comentando uma obra de Hans Jonas.
Ei-la:
O paradoxo é que o progresso converte o sonho da felicidade em pesadelo apocalíptico (Oswaldo Gianoia, Uma heurística do medo, artigo in O Estado de São Paulo, 3 de Abril de 2010, p. 2).
A utopia do progresso e da liberdade é circundada por cercas de arame farpado e metralhadoras. E dentro das cidades da Utopia, há câmaras de gás assassinas. Recordemos que a Utopia marxista cercou-se com o muro de Berlim.
Não se pense que apenas os sistemas totalitários modernos (nazismo, socialismo, comunismo) são utópicos.
Também a democracia liberal é uma utopia, pois se fundamenta na mentira de que os homens são iguais, quando eles são apenas semelhantes.  A democracia liberal quer eliminar todos os privilégios a pretexto de acabar com toda hierarquia, destruindo o que ela considera preconceitos políticos. É o que se defendia, até pouco tempo atrás, na TV, nos comícios, nas tribunas e nos jornais, junto com o princípio da rotatividade de quem está no poder.
Até chegarem o Fidel em Cuba e o Chavez na Venezuela, que ficaram. Até chegar o Evo eleito pelos votos da maioria, e que quer ficar. Porque a igualdade sem privilégios – aquela pregada por Fidel, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Lula do PT-- não existe, e que ela é impossível de ser implantada, está mais do que provado, pois que ela só se mantém com mensalão para alguns privilegiados, bolsa voto para dar sustento... aos que as distribuem, para que eles se mantenham no poder, e abafando a justiça. Adeus rotatividade democrática.
Quem está, fica.
E fica como está.
Pois não são bem simbólicos da mentira da ideologia liberal os prédios do Legislativo, construídos em Brasília?
Esses prédios do Legislativo em Brasília são bem significativos: de um lado, há uma cuia para cima; de outro, uma cuia emborcada. A primeira diz: “Me dá um mensalão”. A outra sussurra baixinho: “Deixa que eu abafo”.
Essa é a democracia sem privilégios.
Um ser “possível”...na cabeça de Rousseau.
E do Ulisses Guimarães com sua Constituição cidadã.
Um sonho.
Ou... um pesadelo.
Pesadelo, sim, pois não foi com o apoio da maioria, democraticamente, que o genocida Hitler se tornou Chanceler vitalício?
Democraticamente.
Que nem o Chávez.
Que nem o Evo.
Que nem...
É melhor nem pensar.
As ideologias são sonhos idealistas contrárias ao mundo real, às suas leis e princípios. Elas funcionam tanto quanto uma roda quadrada.
Utopias e Milênios
Sempre que se dá uma crise histórica grave surgem movimentos de fuga que imaginam sociedades ou lugares absolutamente perfeitos.
A Utopia de Thomas Morus foi uma obra desse tipo. Essa tentativa de imaginar uma sociedade perfeita vai ser uma constante dos movimentos panteístas (utópicos) e gnósticos (milenaristas), por vezes com tentativas de fundamentação religiosa. É o que veremos no Shiismo, quando ele fala da terra de Hûrqalyâ.
As utopias são panteistas, racionalistas, mecanicistas, cientificistas e tecnicistas. Crêem que a ciência e a técnica, no futuro, vencerão todo o mal humano e social: a doença, a morte, a ignorância a miséria e criarão o reino da felicidade na terra.
Os milênios são as utopias da Gnose. O milenarismo é irracional, organicista, mágico, e aspira a um retorno ao paraíso terrestre primevo. Sonha –exatamente como Plínio --com a vida na inocência primeva.
Ambos — utopias e milenarismos -- são revoltas anti-metafísicas contra a contingência e se manifestam na fuga do real, na fuga do aqui e do agora, isto é, na não aceitação de que o espaço e o tempo limitam o ser humano e o fixam num lugar, numa curta existência.
O Romantismo, sendo gnóstico e contra o real, procurava fugir da realidade através de sonhos, viagens para terras fabulosas distantes. Fazendo isto, ele reconhecia implicitamente seu caráter de evasão.
O longínquo,  o amor do que está longe, e não o amor do próximo, como Deus manda, é que atrai o gnóstico, assim como o romântico. O romântico prefere a recordação de um fato mais do que o fato. Daí, se extasiar com diários onde registra suas recordações.
Prefere recordar o passeio que fez, do que o passeio real.
Na Antiguidade, já se procurava localizar a sociedade ideal em terras bem longínquas. É o caso da Atlântida de Platão (República, Timeu etc.) a ilha de Panchaia de que fala Evêmero, as ilhas dos Bem-Aventurados etc.
Thomas Morus cristalizou para sempre essa lição da utopia com a ilha, ao situar sua sociedade ideal em "algum" lugar (u topos, em nenhum lugar) da América. A Nova Atlântida de Bacon também estava numa ilha perdida na imensidão do Pacífico (Francis Bacon, A Nova Atlântida, Abril Cultural, São Paulo, 1973).
Campanela, por sua vez, isola a sua Cidade do Sol num oceano de florestas, numa terra próxima a Taprobana (Tomas Campanela, A Cidade do Sol, Abril Cultural, São Paulo, 1973).
Nos séculos XVII e XVIII, escreveram-se muitas obras utópicas que deram continuidade às utopias do Protestantismo do século XVI e prepararam a Revolução Francesa.
No século XVII , na França: "Lê-se Hobbes, a Utopia de Thomas Morus e principalmente um certo número de utopias romanescas: A terra austral conhecida de Gabriel de Foigny (1676), a História das Sevarambos de Denis Veitas (1677), a História de Clajava ou ilha dos homens razoáveis, de Claude Gilbert (1700), a Idéia de um reino feliz ou relação de uma viagem do príncipe de Montberand na ilha de Naudely de Lescovel (1703), as viagens e aventuras de Jacques Massé de Tyssot (1710)(...). Ora, todos esses Estados imaginários são governados por políticas as mais audaciosas. Elas ultrapassam as doutrinas mais ousadas de Rousseau ou de Morelly. A propriedade nelas é desconhecida; tudo é de todos." (Daniel Marnet, Les origines Intelectuelles de la Revolution Française, Collin, Paris, 1947, p. 20).
À medida que o mundo foi ficando conhecido, o ecúmeno foi empurrando a utopia cada vez mais "além do horizonte azul". No livro de James Hilton, Horizonte Perdido, às vésperas da segunda Guerra Mundial, a utopia, fugindo do cataclisma que ia começar, se refugiou num vale misterioso do Himalaia, o Shangri-lá, lugar de felicidade e de longa e pacífica vida (James Hilton, Horizonte Perdido, Ed. Record, Rio de Janeiro).
Hoje, estando toda a terra conhecida, vasculhada e bisbilhotada pelos satélites-espiões e pelo olho vítreo da televisão, o remédio foi transferir a utopia para as estrelas, coisa de que faz, com presteza e facilidade eletrônicas, a Science-Fiction.
Com o auxílio dos foguetes modernos ou dos poéticos veleiros antigos, através do sonho ou de projeção planificada, a utopia  ou o milenarismo são sempre  fugas de homens em crise, que não vêem, ou não querem enfrentar, os problemas do seu tempo.
Além de situar a cidade ideal nos antípodas do real, no "u-topos", ou no "no where", na Neverland, num Neuschwanstein de sonho, os utopistas e milenaristas a isolam do mundo concreto mau. Não lhes é suficiente a distância: eles querem garantir a assepsia absoluta do “maravilhoso” sonhado escondendo-a atrás de oceanos, florestas, desertos ou montanhas. Os felizes membros do reino idealizado são enclausurados e emparedados no Shangri-lá ou na cidade hipodâmica. Fogem do mundo real para um êremo da fantasia num “Grande Êxodo” imaginativo.
"O país utópico se caracteriza também pelo seu isolamento que à primeira vista, não é senão artifício literário: ele se explica muito pela necessidade de descobrir uma terra totalmente diferente da nossa, da qual jamais se ouviu falar(...). Entretanto o isolamento não é somente geográfico, ele é imposto pela própria estrutura da utopia. Esta tem a fobia da contaminação, porque o contato com sistemas diferentes seria uma nova infração ao princípio da uniformidade e poderia fornecer ao indivíduo pretestos para o ressurgimento de idéias tais como liberdade ou opção." (Alexandre Cioranescu – L’avenir du Passé, Gallimard, Paris, 1972, p. 330).
Na realidade, todo país utópico ou todo milênio se situa na alma humana. A ilha da Utopia está dentro dos sonhadores. Utopia e Quiliasma surgem nos grupos que vivem em ghetos doutrinários, ilhas da imaginação.
Na TFP, típico gueto sonhador, PCO imaginou fazer um “Grande Êxodo” dos membros da TFP para algum lugar inacessível, quando viesse a grande crise que ele chamava de Bagarre, um castigo universal para o mundo revolucionário e do qual escapariam apenas os melhores membros da TFP. No Reino de Maria, que PCO ia fundar –e ele dizia que não morreria antes de fundá-lo – o mundo retornaria à inocência primeva do Éden.
Além disso, nesses movimentos utópicos e milenaristas, há a fuga do tempo. São comuns os “mergulhos” no “maravilhoso” sonhado que eles situam ou no futuro próximo, ou no longínquo passado. Ou por trás de um espelho.
Por isso, Plínio imaginou seu paraíso primevo numa Trans-esfera que só existia mesmo em sua imaginação. Por isso, ele montou uma ordem (durante muito tempo clandestina) de eremitas e camaldulenses, usando roupas teatralmente medievalescas, fechados em “ilhas” que ele chamou de êremos. É dessas “ilhas” de sonho que vieram os  Arautos do Evangelho, que, hoje, cansados de viver na solidão de suas “ilhas”, estão sempre viajando. Física e oniricamente. Voam ao céu, em helicópteros, ou passeiam em carros de luxo, pensando estar cavalgando corcéis medievais. Sonhando ser cavaleiros da Távola Redonda.
Quantos movimentos românticos fugiram para uma Idade Média de sonho! Os Arautos do Evangelho, nascidos da imaginação romântica de PCO, perambulam pelas ruas do século XXI, vestidos – ou fantasiados?-- de cavaleiros medievais, sonhando proezas de cavalaria andante. Com botas de cavalaria. Sem cavalos. Cavalgando sonhos.
Enquanto buscam avidamente donativos muito reais.
Fugindo do tempo e buscando dólares.
Este tipo de utopia deveria ser chamado de ucronia pois ele fala, não do lugar, mas do tempo que não existe. O mundo é mau. As relações ideais ainda não existem ou já não existem. O correspondente das ilhas comentadas (...) é aqui colocado, não no espaço, mas no tempo.
(...) A relação dela com o tempo histórico é parecida com a Utopia de lugar com o espaço geográfico. "Em algum tempo" não significa "nunca", mas tampouco denota uma época bem conhecida. Ao contrário, o conhecimento histórico rigoroso pode ser mortal para a utopia de tempo, pois ela precisa não da verdade mas da perfeição. Importante para ela é que o tempo privilegiado, aquele "quando" feliz, diga não ao tempo presente. (Jerzy Szachi,  As Utopias, Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, p. 49).
Toda ucronia sonha com algo que “era uma vez” num passado indefinido e como que eterno.Por isso PCO gostava das histórias de fadas. Era uma vez...
E salientamos que a utopia “não precisa da verdade, mas da perfeição”.
PCO que o diga.
Todas as utopias são ucronias (...) uma maneira de conjurar o tempo (...) um modo de negar a morte situada também no final do tempo.
A utopia se apresenta ante nós como a descrevem viajantes ou sonhadores: estática num eterno presente. (...) Assim a utopia expressa essa noção do tempo oposto ao Ser, relativo ao Devir, à imperfeição, ao mal - à morte. (Jean Servier,  – História de la Utopia, Monte Ávila Ed., Caracas, 1969, p. 235).
Estas palavras de Jean Servier mostram bem o caráter anti-metafísico da ucronia, pois ela visa eternizar o presente, deter o fluxo do tempo, imobilizar o agora. Ora, isto é próprio da eternidade, que é o presente fixado. Mas a eternidade só é possível ao Ser Absoluto, e não ao ser contingente. E de novo se manifesta, aqui, a rebelião contra o estado de imperfeição ontológica, da contingência, e o desejo de ser o Absoluto, ou procurando forçar Deus a entrar na História (escatologia milenarista e messiânica), ou paralisando o tempo.
Mannheim cita um texto de Mestre Eckhart que comprova bem essa rebelião anti-metafísica: "Nada afasta mais a alma do conhecimento de Deus que o tempo e o espaço." (Meister Eckhart - Schriftenund Predigten, apud Karl Mannheim – Ideologia e Utopia, Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1976, p. 239).
Gilles Lapouge observa uma curiosa contradição dialética nessa fuga do tempo.
"Uma inclinação secreta conduz a utopia ao nihilismo. Novo paradóxo da doutrina. Esta nasce do horror ao devir. Ela se forja contra as obsessões do declínio. Preferir a eternidade à história, é negar que as coisas passam e que os homens se substituem. Ora, tudo funciona como se a morte, expulsada pela utopia dos seus refúgios favoritos (túmulos, envelhecimento, dor, mal), reintroduzida contaminaria o conjunto do aparelho." (Gilles Lapouge – Utopie et Civilisation, Flammarion, Paris, 1978, p. 102).
Todo romântico sentimental foge do real.  E a fuga do real é sempre uma fuga irracional, anti metafísica e, portanto, tendencialmente gnóstica.
d) Seres imaginários possíveis e impossíveis.
Para completar a distinção entre seres possíveis em Deus e o que pode imaginar o homem,  devemos tratar também dos entes imaginários como o saci, a medusa, o centauro, as fadas de que tanto gostava PCO.
Os seres imaginários, nada, absolutamente nada, têm a  ver com os possíveis em Deus, em que pese a inerrância de Plínio Corrêa de Oliveira.
    A imaginação humana é capaz de unir imagens de seres diversos, montando um ser inexistente na realidade. Tomando a imagem de montanha, e juntando-a à imagem de ouro, pode-se conceber um Everest de ouro. Que não existe na realidade.
Mas uma montanha de ouro poderia existir, pois os elementos constitutivos dela não são incompatíveis entre si.
A imaginação pode forjar também coisas incongruentes como o Pégaso, a Medusa, o Batman, o Saci Pererê, ou o Tocha Humana, o centauro e a sereia. Seres imaginários impossíveis de existir, porque unem idealmente elementos incompatíveis de serem notas constitutivas de um ser real.
Uma mulher que tenha serpentes vivas na cabeça, em lugar de cabelos é impossível de existir. Nesse ser, haveria uma incongruência constitutiva que o torna impossível de ter existência real. Um cavalo com asas é impossível de existir na natureza, pois a estrutura do cavalo é incompatível com a sustentação por asas.
Os seres imaginários se distinguem dos seres de razão, porque os seres de razão não podem ser imaginados enquanto seres reais. Dos seres imaginários podemos montar uma imagem, dos seres de razão nem imagem podemos ter.
O ser imaginário é confundido com ser de razão, porque tanto uns quanto o outro não podem ter existência em ato.
Dr. Plínio desconhecia todas essas distinções. Daí, a grande confusão que fazia entre seres possíveis, seres de razão e seres imaginários, lenda e realidade, mundo real e mundo de sonhos.
Plínio Corrêa de Oliveira, cujos delírios “metafísicos” estamos focalizando, falava e elogiava os contos de fadas pelos quais ele foi deformado em sua infância. E atribuía a esses contos grande valor.
PCO gostava de contos de fadas com os quais sua mãe alimentara e envenenara sua imaginação. Esses contos romantizaram sua mente, pois meteram na alma de Plínio a idéia falsa de que haveria uma “maravilhosa” ordem ideal inexistente, sonho que ele iria comunicar aos tefepistas.
E ele justificava esses contos mirabolantes, dizendo:
A criança gosta que lhe narrem contos de fadas, que são irreais, porque lhe dizem algo que é verdade no reino do além; é um envelope fantasioso que contém uma verdade magnífica, oculta.
Através do senso do ser procura-se obscuramente uma ordem ideal”, imaginando-a realizada em seres análogos aos que são conhecidos, idealizando seres aqui conhecidos num grau mais alto, procurando ver em pessoas imaginárias, idéias e conceitos correlatos a tais seres. (O Universo é uma Catedral, excertos do pensamento de PCO, por Leo Daniele, Ed. Brasil de Amanhã, São Paulo, 1997, p. 229. Os destaques são nossos).
Já vimos que, por “senso do ser”, PCO entendia uma capacidade inerrante inata no homem, capacidade recebida junto com a inocência primeva. Ela daria ao homem um conhecimento interior das matrizes dos seres, e, ao mesmo tempo, um dom inerrante para escolher o que o completasse ontologicamente, a fim de atingir sua própria perfeição absoluta num mundo ideal. Mais: permitindo-lhe alcançar a “unicidade” do ser.
Como vimos, eram sonhos plinianos com o monismo. Aspirações ao pléroma gnóstico.
Nesse texto acima citado de PCO, se tem a prova do mal que fazem os contos de fadas, insinuando nas almas infantis idéias de verdades ocultas, de seres irreais com poderes secretos, num mágico reino do além inexistente, mas sugerido como existente. Desse modo é que se destrói o princípio de não contradição na inteligência infantil. E isso cria “profetas”... do além.
E o além  pode residir em Higienópolis.
Plínio gostava de contos de fadas...
As fadas são seres míticos com poderes mágicos. Os contos de fadas surgiram em substituição das histórias dos santos. Estes faziam milagres. As fadas, em vez de falar ao nome de Cristo, usam varinhas de condão. Seus portentos são preter naturais, que sugerem verdades e poderes ocultos e secretos.
As fadas são fantasias inventadas pela imaginação humana. O que é humano não é divino, e vice versa.
Quando Plínio, fundamentando-se na idéia dos seres possíveis em Deus, juntou a eles, um mundo imaginário, incluindo nele as fadas, fez uma mixórdia metafísica-imaginária delirante e envenenadora. E dessa mixórdia nasceram a TFP e os Arautos do Evangelho.
Será preciso provar que as fadas nada tem a ver com os possíveis em Deus?
Por favor, dispensem-nos disso.
Contos de fadas são deformantes, porque substituem o sobrenatural pelo prodígio mágico.
São produtos de imaginações desviadas para um naturalismo esotérico, que prepara o espírito da criança a acostumar sua mente a buscar, por mera curiosidade vã, um mundo “mítico” imaginário. E isso conduz rapidamente para a magia e para o preter natural diabólico.
Aliás, o termo “fada” provem de “facta”, o que está destinado a acontecer. O factum é o fado, o destino, idéia falsa que nega o livre arbítrio humano. E Plínio vai falar da maldade do livre arbítrio...Vai falar da dualidade da natureza humana.
Ora, a condenação do livre arbítrio leva diretamente ao anomismo. Leva a considerar a lei de Deus simplesmente como uma “tabela dos dez mandamentos”...
E os contos de fadas, ademais de serem fantasiosos, eram sensuais.
As fadas, como as sereias, nas mitologias pagãs atraíam pessoas para atos libidinosos. Como a erótica princesa Dahut, filha do Rei Gradlon, soberano da mítica cidade de Ys, onde a lenda bretã fixou a “catedral engloutie” musicada pelo romântico simbolista e gnóstico Debussy,  lenda muito estimada pelo romântico e gnóstico PCO.
“No fim do século XVII, um sacerdote escocês, o reverendo Kirk, de Aberdoyle, compilou um tratado que se intitula A República Secreta dos Elfos, das Fadas e dos Faunos. Em 1815, Sir Walter Scott fez publicar esse manuscrito. Diz-se do senhor Kirk que as Fadas o arrebataram, porque havia revelado seus mistérios” (Jorge Luis Borges e Margarida Guerrero, O Livro dos Seres Imaginários, Editora Globo,São Paulo, 2000, p. 198).
Como Plínio podia então elogiar as historias de fadas com suas pseudo “verdades ocultas”?
Desse modo, os seres imaginários criados pela fantasia ou pela mitologia não podem ser tidos como seres possíveis da mente divina, que desconhecemos.
Ligar as fadas, entes míticos imaginários, com poderes mágicos, preter naturais, aos seres possíveis em Deus, é delírio.
 Mitos e fábulas pagãs foram causadores da idolatria.
E muito ingenuamente não se pense que os ídolos pagãos eram estátuas inocentes. A Sagrada Escritura, nos salmos e nas Epístolas de São Paulo afirma que “todos os ídolos pagãos são demônios” . omnes dii gentium daemonia”(Ps. XCV,5 ; I Cor. X, 20).
E os mitos pagãos, cheios de seres irreais, física e moralmente monstruosos, eram imaginações suscitadas pelos demônios, e não seres possíveis de virem a existir.
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Haveria que falar ainda dos sonhos gnósticos de mundos irreais idealizados fora deste universo material em que vivemos.
Em todos os sistemas gnósticos se imaginam seres bizarros existentes acima da esfera real terrena, existindo numa esfera imaginária, ou preter natural, fora da natureza visível.
Para a Gnose, existir no mundo real, seria o mal.
Isso porque o amor a um ideal inexistente, mas imaginado, é um dos meios para fugir do real, de escapar das limitações do ser contingente: o espaço e o tempo.
Os românticos, como gnósticos que eram, odiavam o mundo real e imaginaram mundos ideais.
Como já dissemos, Clemens Brentano, o secretário e redator da pseudo visões e revelações cabalistas de Anna Katharina Emmerick, —muito estimadas por PCO e pela TFP—, desde pequeno, imaginou um reino ideal, perfeitíssimo, que chamava de Vadutz. Nesse país inexistente, que Brentano não queria que existisse, fora de sua imaginação, no mundo real mau, nesse reino tudo seria admirável. Mas quando um tio mostrou ao pequeno Clemens Brentano, num mapa, que realmente existia a cidade de Vadutz, capital do Lichtenstein, o pequeno Brentano chorou copiosamente, pois se a cidade de Vadutz existia no mundo real e material, então ela não seria boa. Existir seria o mal. Todo o real seria desprezível e condenável.
Esse ódio do Romantismo ao ser, à existência e ao tempo, ao “aqui” e ao “agora”, fazem dele um movimento claramente gnóstico. Por isso, Plínio imaginava a limonada perfeitíssima,-- sem limão e sem limonada--, num mundo ideal da Trans-esfera.
A mesma fuga do real pode ser encontrada nos livros do gnóstico Lewis Carol: Alice no País do Espelho, e Alice no País das Maravilhas.
Muitas dessas notas calham perfeitamente para caracterizar o sonho da Trans-Esfera de PCO e da TFP– mundo dos possíveis ideais inexistentes-existentes—, a ponto de que aquilo que vamos analisar agora poderia muito bem ser intitulado “Plínio, passando do Real ao país das Maravilhas”, através da “contemplação” admirativa do sonho.
PCO caiu num desvario desse tipo ao imaginar um mundo maravilhoso, que ele chamou o mundo da Trans-Esfera, para o qual buscou fundamentação filosófica-teológica, ligando esse mundo imaginário aos seres possíveis em Deus, tal como se lê, no livro que estamos focalizando.
O resultado foi um delírio shiita, em que se misturam seres possíveis com seres de razão, com seres imaginários, com sonhos e divagações milenaristas, com pseudo teologia do sonho e metafísica manca.
Por que falamos de sonho shiita?
Porque na Gnose shiita – que Plínio nunca leu—existem idéias impressionantemente paralelas e semelhantes ao que imaginou Plínio na sua “Trans-Esfera”. Porque todas as fugas do real são parecidas.
Vejamos, então, agora, como exemplo de fuga gnóstica do real, o mundo shiita de “Hûrqalyâ”, mundo que tanta semelhança tem com os delírios trans-esféricos de Plínio, da TFP e dos Arautos do Evangelho.
 
 
 
Todos os sistemas gnósticos detestam o mundo criado por Deus, não aceitando as limitações dos seres contingentes. Por isso, em todos os sistemas gnósticos se pretende ser preciso evadir-se deste mundo - tido por mau—para um outro mundo superior, onde não haveria morte, doença, misérias, limitações do ser. A Gnose é um pecado anti metafísico. O milenarismo - concepção típica da Gnose-- sonha com um mundo superior, uma supra realidade, vista como um Reino de Deus, numa terra espiritualizada. Tal sonho é comum a todas as escolas gnósticas.
Todo mundo imaginado pelos homens em revolta contra o que Deus criou, só pode pertencer à esfera humana, e nunca aos possíveis em Deus.
Platão e os românticos sonhavam um mundo ideal subsistente em si mesmo, e não como meros possíveis na mente divina. Um mundo ideal com existência atual.
Também em muitos outros mitos gnósticos se fala de terras ideais, ou de locais mágicos, como o castelo do Rei Arthur, ou o mundo de Alice.
Essa foi também uma posição típica da Gnose do Romantismo, no qual encontramos o Vadutz de Clemens Brentano. Ou o Shangri-Lá de James Hilton.
E, nas visões de Anna Katharina Emmerick, se fala da Montanha dos Profetas, que existiria no Tibet, onde estariam o Profeta Elias e Enoch, aguardando a hora de voltar ao mundo real, para combater o Anti Cristo.
Junto com Dr. Plínio, claro, pois que ele acreditava que, na Bagarre, ele seria levado para a Montanha dos Profetas num carro de fogo. A morte do imortal Plínio C. de Oliveira o impediu de ser arrebatado para a Montanha dos Profetas, no Tibet, onde ele passaria o tempo estudando Cornelio a Lapide, numa gruta.
Numa gruta confortável, entenda-se...
Ora, essa Montanha dos Profetas amada e desejada por Plínio, é identificada por Henry Corbin com a montanha Qaf dos shiitas, com o Albors dos persas, com  a Terra do Ocidente, com a Oberland, e com o Mont Salvat das lendas medievais, isto é, com o Mont Ségur dos cátaros e dos nazistas (Cfr. (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, IV Vol., pp. 378-379, 406; vol. II, pp. 154, 170, 189, 225-226, 282  etc.).
Para lá é que iria Plínio Corrêa de Oliveira.
E esse sonho de ir também para a Montanha dos Profetas, para se encontrar com Elias, Plínio o teve ao ler textos das pseudo visões de Anna Katharina Emmerick, que faz longas descrições dessa Montanha irreal.
Citaremos o que diz a Gnose shiita sobre o “mundo imaginal” para que se compare, depois, com o que dizia Dr. Plínio sobre a sua Trans-Esfera, ensinada, picadinha e em miúdos, pelo imã Scognamiglio em suas reuniões para os eremitas, na sede dos Arautos, no São Bento, e no Presto sum, quando dava o Jour le Jour do Profeta de Higienópolis aos jovens que pretendia fanatizar, para depois iniciá-los na seita secreta, a Sempre Viva. A seita embutida nos Arautos, e que não foi aprovada pelo Vaticano...
No Shiismo, se fala do mundo da Hûrqalyâ, terra mágica onde estaria a Montanha Qaf, numa esfera além das esferas. Portanto, numa Trans-Esfera...Num mundo “sur-réal
A doutrina shiita admitia a existência de um mundo imaginal—o mundo imaginal de Hûrqalyâ – intermediário entre o nosso mundo e a esfera angélica, onde espírito e matéria se encontrariam, transmutando-se uma no outro.
“Hûrqalyâ”... era um mundo imaginal que ... “Sohrawardi gostava de chamar pela expressão de Na-Kojâ- Abâd-(Literalmente, “país do Não-Onde”. (...) Ele é o ”Não-Onde”, mas ao mesmo tempo é realmente uma Terra, um país (âbâd) e é exatamente o país onde acontecem os eventos dos relatos místicos. É um país no qual se é admitido ver; mas nenhum daqueles que o viram é capaz de mostrá-lo. Só pode encaminhar para ele, não a evidência conceitual de uma demonstração teórica, mas a força de um evento realizado, e este só pode ser dito num relato. De onde, se ele não dispõe de uma metafísica que daria direito ontologicamente ao “terceiro mundo” de Hûrqalyâ, que não é o mundo do intelecto, nem o mundo da percepção sensível, nossa hermenêutica será incapaz de lhe dar direito à sua realidade. Ela o confundirá  com o “imaginário”, com o “irreal”, e o  relato só lhe proporá coisas “imaginárias”. (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, II Vol., p. 188. Os destaques são do original).
Não podemos deixar de interromper esta citação sem chamar a atenção do leitor para o flagrante paralelismo dessa concepção shiita com o mundo dos possíveis, que PCO diz não existir, e, ao mesmo tempo, diz que, de certo modo, existe. Como também do paralelismo do papel do imaginal, substituindo a metafísica, quer na doutrina shiita, quer na “ontologia” imaginativa exposta por PCO.
Continuemos a ler Henry Corbin:
“Foi por isso que nós insistimos  precedentemente sobre a importância metafísica do esquema dos três mundos em Sohrawardi e em todos os filósofos místicos a ele aparentados. Corolariamente, é reconhecer o valor noético pertencente de pleno direito à percepção imaginativa e à consciência imaginativa” –[exatamente como lhe dá PCO]—“a qual não é a “fantasia” (uma metafísica que a enquadra como aquela que aqui se lhe dá direito, a preserva justamente das extravagâncias às quais ela está abandonada, quando a filosofia a considera apenas como “fantasia” segregando o “irreal”). A percepção imaginativa é o órgão próprio da penetração num mundo que não é nem o imaginário, nem o irreal, mas o imaginal”. (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, II Vol., p. 188. Os destaques são do original).
Essa valorização do conhecimento através da imaginação defendida pela Gnose shiita tem patentes coincidências com o valor noético que Plínio Corrêa de Oliveira atribui à imaginação em sua concepção do mundo dos seres possíveis, formando um mundo irreal—mas de certo modo real – do que ele chama de trans-esfera.
É o que veremos.
Prossigamos a citação de Henry Corbin que estamos colocando:
“Esse mundo imaginal não se pode dizer onde ele está. Quem o viu, não pode mostrá-lo. É por isso que ele é dito o “Não-Onde” (nâ- kojâ) em persa, no sentido em que ninguém se orienta para ele utilizando coordenadas do mundo geográfico ou astronômico, compreendido como a Esfera das Esferas. Quando se diz que ele ”começa na superfície convexa desta [esfera], e para sugerir a passagem “além” da esfera das esferas— [Portanto, para  uma Trans-Esfera, como diz PCO] --, no cume da montanha cósmica de Qaf. É a passagem do exterior das coisas (o exotérico, ta éxô), para o interior das coisas (o esotérico, ta esô), a passagem da história exterior para a verdadeira história, a interior” (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, II Vol., p. 188 e 189. Os destaques são do original).
Veremos como também Dr. Plínio prefere a história interior – a das lendas, a dos mitos -- à história exterior dos fatos.
     A passagem para o mundo imaginal consiste em mudar-se do mundo concreto material para um mundo no qual o material se espiritualiza, e no qual o espiritual se concretiza em duas dimensões apenas, num mundo imaginal. O que sem dúvida é uma doutrina gnóstica, inimiga da realidade material tal qual Deus a criou e a disse boa.
“Partir de um ponto qualquer do mundo terrestre visível, o molk, é progredir em direção a seu ponto de origem, isto é, antes de tudo em direção desse mundo da Hûrqalyâ, que é o  mundus imaginalis, o intermundo, no qual o espiritual toma corpo e figura, e onde o que é corporal se espiritualiza, em Formas e Imagens autônomas, do qual nossos autores [shiitas] repetem que elas subsistem livres de toda outra matéria que sua própria luz, à maneira de imagens num espelho” (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, I Vol., p. 147).
É lá o “lugar” onde existiria a “limonadérrima” de PCO. Sem limonada e sem limão...
O Mundo Imaginal da Hûrqalyâ é um não lugar, uma utopia, fora do mundo geográfico ou astronômico, situado na “esfera das esferas”.
A esfera das esferas do shiismo bem lembra a Trans–Esfera tefepista da qual veremos, logo mais, a conceituação pliniana...
Ir para  o mundo da Hûrqalyâ, seria sair do mundo das dimensões sensíveis, passando para uma “quarta dimensão” (Henri Corbin, op. cit., vol. II, p.226).
Veremos como, com Dr. Plínio, se assumem doutrinas muito semelhantes.
Por exemplo, relacionando o mundo da Trans-Esfera – o mundo imaginal, a Hûrqalyâ —com os arquétipos no Verbo divino.
“Hûrqalyâ, é o mundo imaginal, o mundo das formas imaginais e das imagens-arquetípicas. Os seres e as coisas, “vistos em Hûrqalyâ”, têm então a profundidade de um espelho. De nenhum modo se trata de um modo de conhecimento ainda inferior, precedendo um conhecimento face a face: mais do que uma reminiscência pauliniana, o velut in speculo deve sugerir aqui o sentido verdadeiro e etimológico de toda mística especulativa” (Henri Corbin, op. cit., vol. IV, p.287.Os destaques são do original).
“Onde está Hûrqalyâ, esse mundus imaginalis que não é exatamente o mundo das idéias platônicas, mas o mundo das Idéias-Imagens, mundo das Formas e Figuras do universo sensível no estado de “matéria sutil”, mundo que tem extensão, mas que é de pura luz?(...) “é preciso não esquecer também que ele [o mundo da Hûrqalyâ] está também no invisível de nosso próprio mundo; mais exatamente num invisível que se torna visível para a visão interior, desde que tivermos compreendido como as Formas eternas pertencem ao mundo da Alma (Malakut) entram em contato com as matérias perecíveis do universo sensível.
“Essas Formas aí chegam do mesmo modo que a Forma de uma pessoa humana “entra” num espelho” (Henri Corbin, op. cit., vol. IV, p.289. Os destaques são do original).
A doutrina shiita é também messiânica. Os shiitas como muitos gnósticos, aguardam um Messias – o XII Imam, ou Imam da Ressurreição--, que transformará este mundo mau num mundo perfeito espiritualizado.
O XII Imam viveria, hoje, no mundo imaginal da Hûrqalyâ, um não- lugar:
“Meditar a invisível pessoa do XII Imam, é penetrar na “Terra Celeste” de Hûrqalyâ, a qual oferece tanta semelhança com a Terra da Luz, a Terra Lúcida do maniqueísmo. “Ver o Imam em Hûrqalyâ”, para retomar de novo essa expressão de um eminente shaykh shaykhî , é vê-lo onde ele está de verdade: no mundo ao mesmo tempo concreto e supra sensível, e com o órgão apropriado que requer a percepção de um tal mundo, -- mundo paralelo ao nosso mas de outra natureza” (Henri Corbin, op. cit., vol. IV, pp. 330-331. Os destaques são do original).
“Ver o Imam em Hûrqalyâ”, subentende que o mundo supra sensível de Hûrqalyâ e o mundo material sensível coexistem, se interpenetram, se contém um no outro; Hûrqalyâ está, ao mesmo tempo, acima de nós, entre nós, e no interior de nós. Quando, por nossa inconsciência, ele não está no interior de nós, ele não pode ser nem conhecido nem reconhecido por nós “em nenhum lugar”, porque nada pode ser conhecido exteriormente a não ser graças a uma modalidade correspondente que esteja em nós” (Henri Corbin, op. cit., vol. IV, pp. 308-309).
Então, como ensinava Plínio, também na Gnose shiita se afirma que: “nada pode ser conhecido exteriormente a não ser graças a uma modalidade correspondente que esteja em nós”.
Plínio não dizia diversamente, quando afirmava que os nossos melhores livros somos nós mesmos.
Em suma, um desvario.
Todas essas citações mostram como é comum à visão gnóstica do  mundo a concepção de um mundo superior a que se poderia aceder por meio da imaginação ou de uma intuição mágica. O que o shiismo, Gnose persa—concebeu com o mundo da Hûrqalyâ, PCO concebeu com a sua Trans-Esfera.
Veremos, mais à frente, como a Trans-esfera  imaginal de PCO se assemelha a essas terras de sonho da Gnose.
 
 
 
Deixemos Dr. Plínio nos falar, enfim e agora, na segunda parte dessa obra delirante sobre a Inocência Primeva, de outros mundos que ele sonhou e dos quais não tratam nem a Sagrada Escritura, nem a Geografia, nem a Astronomia. Um mundo ideal, feito do que ele chama erradamente de “seres possíveis”, confundindo imaginário com possível.
Possíveis” seriam as coisas que Plínio imaginava e que ele identificava com os seres possíveis, na mente divina. E esses entes possíveis, que existiriam apenas na mente divina, e que nunca foram criados, formariam um universo possível, ideal, perfeito, inexistente. Mas que seria, pelo menos de certo modo, real, existente. A esse “universo ideal”, PCO chamava de mundo da Trans-Esfera.
Para Dr. Plínio, imaginando, fantasiando, é que se alcançaria esse mundo ideal, o mundo “sacral” por excelência.
Esse processo imaginativo e idealizador se iniciaria na infância, quando a inocência primeva reinaria na alma de todo homem. Portanto, todos os homens - mesmo sem o Batismo--, através do “senso do ser” poderiam atingir esse “conhecimento” salvador.
Todos os homens então, pelo “senso do ser” procurariam alcançar uma “ordem ideal” que eles conheceriam por meio das matrizes universais inatas neles.
Esse universo ideal era imaginado como realizado, num mundo do além, por seres análogos aos do nosso mundo concreto, porém muito mais perfeitos, pois que não teriam matéria. O que de melhor haveria em nosso mundo, existiria perfeitíssimo, sem nenhuma limitação e defeito, sem matéria, nesse mundo ideal.  Seria um universo de puros seres ideais.  Com limonadérrimas sem limão e sem limonada. E com o super chopp ideal.
Entre o mundo real e imperfeito em que vivemos e o mundo ideal do Absoluto, haveria vários paraísos imaginários, uns análogos aos outros, até o mundo supremo do Absoluto Absolutíssimo. De grau em grau, cada um desses “paraísos” imaginários, numa sucessão indefinida de analogados, iria até um mundo totalmente ideal, que PCO chamava mundo da Trans-Esfera.
E Plínio achava que os contos de fadas teriam isto de bom:  eles aguçariam esse imaginado e imaginativo “senso do ser”, na criança, que permitiria  a ela chegar ao imaginário mundo do Absoluto imaterial.
Relembramos o que PCO diz do efeito dos contos de fadas na alma da criança:
“A criança gosta que lhe narrem contos de fadas, que são irreais, porque lhe dizem algo que é verdade no reino do além; é um envelope fantasioso que contém uma verdade magnífica, oculta.
“Através do senso do ser procura-se obscuramente uma ordem ideal”, imaginando-a realizada em seres análogos aos que são conhecidos, idealizando seres aqui conhecidos num grau mais alto, procurando ver em pessoas imaginárias, idéias e conceitos correlatos a tais seres” (O Universo é uma Catedral, excertos do pensamento de PCO, por Leo Daniele, Ed. Brasil de Amanhã, São Paulo, 1997, p. 229. Os destaques são nossos).
E ainda:
“Se a pessoa for fecunda em formar noções ideais, muito sub-conscientes, mas efetivas, a respeito do que a cerca, ela vai buscando um universo ideal. Ela sabe que esse universo ideal não existe, mas tem a noção de que, de algum modo, deve existir” (O universo é uma Catedral, excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira” por Leo Daniele, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1997, p. 233. Os destaques são nossos).
Portanto, o universo que Plínio imagina é:
1) Puramente imaginário;
2) Mas, “imaginando-o realizado, num universo fantasioso que ele chama de ideal;
3) Universo que ele qualificará com o termo “sacral”;
4) Que formaria o que ele vai denominar de Trans-esfera;
5) Universo absolutamente contraditório, pois que não existe, mas teria que existir, pelo menos de algum modo.
6) Que os contos de fadas contam coisas irreais aqui, mas que são “verdades no reino do além”.
7) Contos da fadas contariam verdades ocultas.
8) Finalmente, as coisas existentes no mundo atual seriam análogas a esse mundo da Trans-esfera, e não a Deus. O que faz substituir Deus pela Trans-esfera.
Como estas doutrinas de Dr. Plínio lembram o que vimos do poder noético e criativo da imaginação admitido pela Gnose shiita de Sohrawardi, como nô-la expôs Henry Corbin.
Deus, ser absoluto e real, na doutrina de PCO, é então substituído como analogante primeiro, pelo mundo ideal (inexistente-existente) da Trans-Esfera, imaginária, irreal, inexistente, apenas “possível”, mas que deveria existir. Um universo inexistente, portanto vazio, é que seria o modelo analogante de tudo o que existe no mundo concreto inferior. Desse modo, tudo o que existe realmente seria semelhante, e participante desse mundo idealizado. Ontologicamente vazio. O existente seria participação do vazio.
Plínio insiste—inicialmente-- que o mundo dos seres puramente ideais da Trans-Esfera não existe: ”E à medida que a pessoa vai conhecendo esse universo, vai tendo em gérmen a idéia-[SIC! Idéia ou imaginação?] --de um universo ideal. Este universo ideal, ele sabe que tal qual imagina, não existe, mas que de algum modo algo deve existir(Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, ed. cit., p. 161. Os destaques são nossos).
É a Hûrqalyâ da TFP.
Que não existe. Mas que deveria existir. Pelo menos de algum modo.
Isso vai contra o princípio de não contradição. É pois um absurdo.
Já na página 183 desse mesmo livro, Plínio diz: “Como conciliar isso –[a exigência de objetividade] – com  a recomendação de viver continuamente numa trans-esfera, fazendo transcendências, buscando os absolutos? Não há contradição, pois esse mundo da contemplação sacral é real sob vários aspectos, e, enquanto real, é que deve ser vivido. Não se trata de um sonho, de um pensamento sem consistência. São realidades aparentadas entre si: a da contemplação e a da execução” (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, ed. cit., pp. 182 -183. Os destaques são do autor).
E que cheiro de shiismo nessas palavras de PCO...
Passa-se vagamente, num lusco fusco de afirmações e de negações, do inexistente para o existente. O que permite, se for preciso, negar que se aceita o inexistente. Como também crer e viver como se, de fato, ele existisse.
Dessa maneira, o que não existia passa a ser realidade. O imaginado é definido como a realidade da contemplação por exercícios de “transcendências”...
Portanto, o “universo ideal” que Plínio imaginou, seria “real sob vários aspectos”. O que é bem esquisito. Como algo é “real sob vários aspectos”?
Ou é real, ou não é real. O mundo “transcendente” da Trans-esfera seria  composto de realidades tais que seria possível viver nelas. Viver na Trans-esfera?
De novo, o delírio.
Para chegar a essa conclusão onírica, Plínio vai levando o leitor por onze capítulos, nos quais mistura trechos de doutrina católica com suas imaginações descabeladas, deslizando dos símbolos para o idealismo subjetivista, até chegar ao imaginário delirante. E prevenimos que nesse livro editado pela ex TFP—pela TFP dos Provectos—se evitou colocar como Dr. Plínio chegou a imaginar a Trans-esfera onde existiriam desde toda a eternidade-- seres ab aeterno--, possíveis não criados, existentes não-existentes.
Como na Hûrqâlya shiita.
Porque no imaginário real-irreal de Plínio e da TFP, há também os seres “ab aeterno”. Que não existem. Mas que existem. Como o comprovariam os semáforos de São Paulo.
Mas, deixemos, por ora, esses textos semafóricos para mais tarde...
Veremos isso, mais adiante.
Por ora, fiquemos folheando o novo livro publicado pelo Instituto Plínio Corrêa de Oliveira.
Essa doutrina pliniana, cheirando à Gnose platônica e romântica foi confirmada pelo volume publicado pelos Arautos do Evangelho Notas Autobiográficas de Plínio Corrêa de Oliveira. Mons. Scognamiglio, como entende muito pouco do que lê, e menos ainda do que diz e do que escreve, e como acredita que sempre pode ludibriar os outros, ousou publicar textos do MNF que os Provectos da TFP censuraram.
Nesse livro, é possível colher vários exemplos de exercícios imaginários de PCO por meio dos quais ele imaginou esse mundo ideal.
Eis alguns:
1) os gramados do Jardim da luz na Belle Époque:
No livro Notas Autobiográficas, à página 259, há uma fotografia de PCO, lá pelos seis ou sete anos, usando saia, a passear no Jardim da luz. E eis o que ele “pensava” nesses passeios:
“Havia ali grandes canteiros de grama bem cultivada, que pareciam imensas esmeraldas (...) E, em certas zonas para onde ninguém ia, a vegetação fazia sentir seus charmes e seu bons odores, com uma acolhida afável e sorridente. Isso fazia-me pensar em parques de uma outra ordem, numa outra esfera, em jardins etéreos e arquetípicos, que não existiam, mas eram possíveis...Eu passava por ali vendo aquelas ondulações e quase fingia  que brincava, enquanto minha alma esvoaçava por outras paragens...
Imaginado esse píncaro de beleza, sentia que era possível a existência de uma outra ordem universal, mais bonita do que esta e para a qual eu tendia. Numa palavra só, eram saudades do Paraíso numa alma inocente” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Vol. I, p. 254. Os destaques são nossos).
Para Plínio sentir seria pensar.E nesse texto, é patente o sonhar a irrealidade como se ela fosse real, e mais desejável que o real. O que é tipicamente romantismo.
2) Passeio no Parque Antártica:
Bem menino ainda, tendo encontrado um local, no parque, “uma espécie de ilha” de vegetação e de sombra e chão coberto de musgo aveludado,  conta PCO que pensava o seguinte:
“Aquele frescor, aquela penumbra e aquela natureza verdejante que “cantava” e “brincava” no seu isolamento, distinta em relação a todo o resto, deixou-me encantado! Pensei: “O ambiente ensoleirado, a poeirada ordinária com a bicharada revoltada, fiquem por lá! Aqui estou eu dominando a natureza como um rei, e protegido por ela como por um pálio. Este é o meu lugar!”Então declarei: “Isto é meu!”.
E ele proclamou essa ilha –sempre a ilha-- seu reino, e o chamou de “Baltasar”.
“Depois, com o maturar do tempo, voltava-me à mente com freqüência a recordação dessas impressões e eu pensava. “Aquele frescor e aquele conjunto me falam de um valor mais alto do que a soma de todos os aspectos do “Baltasar”. Aquilo remete para algo de mais elevado. É como se houvesse ali a presença de um ser etéreo e impalpável, superior a mim e a todas essas coisas com as quais ele não se confunde e do qual elas não são senão um símbolo que, de certa maneira, atua sobre mim. Não sei o que é esse ser, mas em tudo isso a minha alma precisa aprofundar-se...”  (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Vol. I, p. 370. Os destaques são nossos).
3) contemplando uma pintura renascentista ou barroca.
Veja-se o texto abaixo, longo. Longo, mas bem elucidativo do que Plínio diz que imaginava, quando era ainda bem pequeno, e publicado por Mons. Scognamiglio, como coisa séria, e confiante no apoio de alguns eclesiásticos:
[Os textos entre colchetes, assim como os destaques, são de  nossa responsabilidade].
“O mundo dos possíveis e o desejo do céu”
“Eu freqüentava [Plínio deveria ter então uns quatro para cinco anos] também a mansão de um grande fazendeiro enriquecido, na mesma avenida Brigadeiro Luís Antonio, onde havia uma grande galeria que transpunha a casa de ponta a ponta, dando acesso a todo os quartos e salas do único pavimento. O teto era pintado à maneira da mitologia greco-romana e eu, sem saber disso, olhava aquelas cenas e refletia como podia.
“Aquilo dava a ilusão de que alguém havia rasgado o teto e se podia ver diretamente o céu azul com algumas bonitas nuvens. Esse “rasgão” era circundado por uma balaustrada, também em estilo clássico, atrás da qual apareciam deuses, deusas, semi-deuses e semi-deusas do Olimpo, representados como personagens esplendorosos e bem-ordenados, homens fortes e mulheres bem constituídas, vestidos com uma simplicidade clássica de bom gosto, com coloridos lindíssimos e movendo-se num fundo quimérico e mítico. O conjunto apresentava um jogo de luzes que me agradava enormemente”
De passagem, note-se que, ou Plínio era um gênio que observava tudo tão bem, e que se exprimia já, aos quatro anos, como Plínio aos 70 anos, ou que Plínio, aos 70 anos falava como criança de cinco anos, e que desde a infância nada mais havia progredido na capacidade de se exprimir.
É claro que tudo isso nunca foi pensado dessa forma, e com essa expressividade, por uma criança  que, por mais genial que fosse, não poderia ter esses conceitos. Isso é pura invencionice retrospectiva, para criar um auto-mito e ser admirado por basbaques e fanáticos. Ou por espertalhões...
Prossigamos na citação:
Lembro-me de duas deusas muito bem vestidas. Pareciam-me pessoas excelsas, conversando num terraço, que eu imaginava revestido de mármores muito superiores aos da galeria do fazendeiro. Elas estavam num misto de unidade e alteridade que eu concebia extraordinário. Evidentemente, o autor da pintura não devia ter pensado nisso, mas o meu senso do ser --[dado pela inocência primeva de PCO] – produzia uma figura de acordo com a sua própria retidão”.
“Eu imaginava o que elas estariam pensando. Tinha idéia de que as duas eram primas e travavam uma alta conversa que, depois, passaria a ser mais familiar, tratando, por exemplo, sobre o frio, que estava causando resfriado a uma delas.[Que tema elevado para deusas. Vai ver que elas eram tão hipocondríacas como Dona Lucília!]
“Eu olhava e pensava: “Como isso é maravilhoso! Elas são mais nobres do que as pessoas em torno de mim! A natureza humana deveria ser muito mais elevada!”. Percebia serem aquelas cenas irreais, mas achava que a sociedade, à força de se aprimorar, poderia chegar a algo parecido com aquilo. E concluía que, na ordem do possível, havia seres com aquela grandeza, os quais hipoteticamente, faziam parte da criação”.
[Eis aí, Plínio aos cinco anos,  desprezando a natureza humana como ela é, e elaborando a doutrina dos seres possíveis em Deus, coisa que São Tomás só veio a conhecer bem adulto.
Claro que tudo isso foi inventado por Plínio adulto, mitificando o seu ser infantil.
…“Et flatteurs d’applaudir...” diria Lafontaine.
E depois de idealizar o mundo, começava imediatamente a crítica do mundo real e concreto:
“E dizia para mim mesmo: “Por que estas pessoas que andam no corredor não fazem como eu, não olham para aquilo e compreendem como deveriam ser? Por que não conversam assim, como essas mulheres? Seria muito mais agradável... Olha como se relacionam: gargalhadas, brincadeiras, tratando-se todos de ‘você’. Não seria melhor que eles vivessem como essas figuras do teto?”
“Além do diálogo das deusas, eu imaginava os jardins, as casas, a atmosfera e o estilo do mundo que as cercava. Concebia isso à maneira de uma harmonia, traduzível em música, com melodias delicadíssimas e altíssimas, de um som “super-prateado” as quais se requintariam a si próprias, de maneira a produzir alguns acordes que as pessoas captariam com o entendimento, mais do que com o ouvido. Seria uma música extraordinária, mais compreendida do que escutada.
“Esses pensamentos levavam-me imediatamente a uma pergunta: “haveria possibilidade de algo mais maravilhoso do que isso? Como seria? Não se poderia conceber uma espécie de céu assim, mas muito mais bonito e magnífico do que este? Onde pára a linha do magnífico e do maravilhoso?  Qual é o ponto em que a minha concepção se detém e diz: ‘para mim bastou! Cheguei a ver e a experimentar o ápice do maravilhoso?’ Há, então, uma ordem de coisas de beleza absoluta, perfeita e imutável?
“Essa ordem encheria a minha alma! Para ela fui feito e não queria apenas conhecê-la, mas entrar nela. Sinto que isto me transformaria e faria de mim o Plínio que devo ser”.
“Esse era o caminhar do meu espírito: tendia para a beleza perfeita, para a magnificência incomparável e para aquilo diante do que eu pudesse dizer: “Afinal bastou! Eu encontrei e possuo. Sou feliz!”
“Era uma consideração global do universo, tendo em vista que ele não é constituído por um conglomerado de maravilhas jogadas a esmo, mas, pelo contrário, existe nele uma ordem hierárquica e monárquica que era preciso amar. Não sabia, mas essa meditação era essencialmente religiosa e, imaginando isso, percebia que Deus estava próximo de mim. Notava em mim mesmo algo de diáfano e leve, sentindo-me bom e direito, desejando coisas retas, o que me causava uma gáudio semelhante a uma harmonia interior que, nos seus extremos, tocava no céu”.
“É preciso notar que, pelo medo de me abrir sobre esses assuntos com qualquer pessoa—por perceber que ninguém conversava sobre isso e que poderiam considerar-me um desequilibrado se o fizesse --, eu guardava essas reflexões para mim mesmo. Essas cogitações davam-me uma co-naturalidade com o metafísico que  tocava os “sinos  e minha alma” o dia inteiro, a largas badaladas. Essa era a minha vida e, evidentemente, no contato com mamãe, isso reluzia muito e me encantava...”(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas autobiográficas, editora retornarei, São Paulo, 2008, I vol., pp. 399 a 403. Os destaques são de nossa responsabilidade).
Ao par do desprezo pelos homens como eles são, o sonho de um mundo etéreo e irreal. Tudo movido por impressões e sensações conduzindo à imaginar—a sonhar—com um outro universo idílico, noutra esfera.
E o palavreado pretensamente metafísico é história da carochinha romântica, gnóstica e pseudo mística para enganar papalvos ou...
Considerar isso a sério raia pelo teratológico.
 
 
Esse é o título do capítulo V da segunda parte do livro de Plínio agora editada por seus sequazes “Provectos”.
Scognamiglio – agora Cônego de Santa Maria Maggiore—já publicara muitos textos de PCO retirados das discretas reuniões do MNF de Plínio, na revista “Dr. Plínio”. Um tesouro de... delírios.
O mesmo tema da busca do Absoluto fora exposto pelo Secretário do MNF, Átila Sinke Guimarães, numa apostila resumindo o MNF, em Dezembro de 1972, intitulada O Processo Humano. Essa Apostila foi aprovada pelo próprio Dr. Plínio, quando ela foi publicada e difundida entre os membros do grupo, em 1972. Nela há principalmente dois capítulos versando sobre esse tema, capítulos que complementam bem o que foi agora publicado no livro A Inocência Primeva, que estamos focalizando.
Uma análise completa dessa doutrina se teria apenas se fossem estudadas as 43.000 páginas do MNF, pois o que foi publicado sobre o MNF é  sempre maquiado para esconder as heresias mais chocantes. Mesmo assim, muita coisa apareceu, permitindo afirmar com segurança que a doutrina de Plínio Corrêa de Oliveira sobre o Absoluto era inteiramente gnóstica.
A doutrina pliniana do Absoluto se fundamente no princípio de que há, inata no homem, uma noção matriz do Ser Absoluto, isto é, da Divindade.
“O homem tem uma matriz do espírito, que contém os elementos para a formação da idéia de ser absoluto. Se ele não tivesse essa matriz, ele não poderia compreender a noção de ser contingente. E, portanto, o dormir dentro dele dessa como que noção do ser absoluto é anterior à própria noção de ser contingente que ele forma” (Átila Sinke Guimarães, MNF - O Processo Humano ( Resumo), apostila mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo, Dezembro de 1972, p. 35).
Essa apostila foi aprovada por Dr. Plínio e foi vendida a algumas pessoas da TFP.
Esse texto contém erros bem graves:
1)  É falso que haja idéias inatas no homem;
2) É falso afirmar que só se compreende o ser contingente, tendo antes a idéia de Ser Absoluto.
O oposto é o verdadeiro: conhecemos que há um Deus infinito e onipotente, um ser absoluto, por meio das qualidades visíveis do universo criado. É isso que ensina São Paulo (Rom., I, 20). PCO ensinava o oposto de São Paulo e do que está na revelação.
3) Afirmar que há inata no homem uma matriz do espírito que contem os elementos para dar ao homem a formação da idéia do se Absoluto, da qual o homem retiraria a compreensão de sua contingência, insinua erro bem mais grave que o simples fideísmo.
Para Plínio, essa matriz da idéia do Absoluto existente inata na alma humana, é que daria origem à própria noção de contingência, que amarguraria o homem, provando sua limitação. Ora, PCO afirmará que o ser não pode ter limites. A contingência do ser criado seria uma anomalia a ser vencida. Por isso o homem teria uma sede inata de unir-se e fundir-se no Absoluto.(Mais adiante daremos a citação comprovadora disso).
Que o pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, expresso no que se conhece hoje do MNF, é claramente gnóstico fica mais claro quando ele, tal como o gnóstico Mestre Eckhart, afirma que o ser humano, sendo contingente, é nada:
“O fundamento da moral sobre o conhecimento é exatamente de que o exclusivo amor de si não é nada, e que o seu próprio ser não é nada, e que, portanto, tem que tender para Deus” (Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo Humano (Resumo), apostila mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p.37. Os destaques são nossos).
Ora, essa recusa de aceitar a contingência do ser criado é a raiz da Gnose, e de seu pecado anti metafísico que repele a analogia do ser. Quer-se ser tudo ou nada. Mas recusar sempre toda contingência.
Ou há o ser absoluto, ou o nada. Todo ser contingente seria ilusório. Nada.
Insinua-se que, no fundo, o homem teria logo de substancialmente divino. Idéia que será confirmada explicitamente a seguir.
Com efeito, ficará claro a seguir que, no pensamento idealista de PCO, idéia de ser é idêntica a ser. Quando ele diz então que há uma idéia inata de Absoluto no homem, ele entende que essa idéia é o próprio Ser Absoluto. Deus.
Deus seria imanente no homem.
Para PCO, o ser não pode ter limites: "O limite é coisa que repugna o ser" (Apostila O Processo Humano, p. 37). A contingência do ser criado seria uma anomalia a ser vencida. Por isso o homem teria uma sede inata de se unir ao Absoluto, a sede de identificar-se com o Absoluto, com a Divindade. E se ao ser repugna ter limites, como se explicaria a existência de seres contingentes?
Para Plínio, "o próprio ser [do homem] não é nada" (Átila Sinke Guimarães, MNF - Apostila - resumo O Processo Humano, p. 37). Os seres contingentes seriam ontologicamente nada, não-seres. O que os tornaria existentes seria a presença do ser absoluto neles. Daí, concluía Plínio que "Deus é o ser dos seres" (Átila Sinke Guimarães, MNF - Apostila - resumo O Processo Humano, p. 36).
E é claro que essa matriz inata do ser absoluto, o homem  a recebeu com o que Plínio chama de “o senso do ser”, recebido de modo inato, diz ele, com a Inocência Primeva. PCO, muitas vezes, prudente e astutamente, omite que esse senso do ser é o senso do ser Absoluto, da Divindade.
No capítulo V do livro agora editado pelos Provectos, à página  107, se diz prudentemente que: “Entretanto, há no homem uma ‘sede como que inata do absoluto’(PCO, A Inocência Primeva..., p. 107). E prova da maquiagem mal feita é que na página seguinte se tirou o prudente e maquiador “como que”: “2- A Sede inata do absoluto” (PCO, A Inocência Primeva..., p. 108).
Da verificação de sua contingência face à matriz inata do absoluto que haveria nele, no homem se daria início a um processo—que no MNF se denomina O Processo Humano – pelo qual o homem procuraria sanar sua contingência, tida como má, como injusta carência,  buscando completar-se, e tornar-se o Absoluto.
Esse “processo Humano” teria fases, assim resumidas por Átila em sua Apostila reveladora:
O processo humano é o conjunto dos seguintes elementos:
a) “a carência do homem”;
b) “a apetência para a satisfação das carências”;
c) “a procura do absoluto para satisfazer essa carência”;
d) “a união com o absoluto”;
e) “a transformação [do homem] no absoluto”.
(Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo Humano (Resumo), apostila mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p.37. O escalonamento dos itens e o que está entre colchetes é de nossa responsabilidade, visando tornar bem clara as etapas da divinização do homem, pela doutrina pliniana).
Fica evidente que na concepção pliniana do “processo humano”, assim como na enumeração de suas etapas,  a existência do esquema clássico da Gnose.
O homem procura o Absoluto nele mesmo, ou no universo.
Porque no homem existe inata a idéia de Absoluto, o homem começa por procurar o Absoluto em si mesmo, e, depois, nas criaturas.
Na Apostila O Processo Humano, se mostra que  “O homem pesquisa de fato sempre o absoluto, mas o absoluto que ele pesquisa não é apenas a santidade, a bondade, mas pode ser também o ser. Quer dizer, o homem, por exemplo,  quando ele ama o absoluto, ele também é o absoluto em si, e a esse título, ele se ama a si mesmo” (Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo Humano (Resumo), apostila mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p. 47. O negrito é de nossa responsabilidade).
Amando o Absoluto, o homem se identifica com o Absoluto. O homem se tornaria divino.
Portanto, o homem não só tem  em si a idéia inata do Absoluto, mas ele mesmo é o Absoluto encarcerado na contingência, buscando libertar-se da finitude e realizar-se, de novo, na identificação com o ser Absoluto, no final do “processo humano”.
       “O elemento integrante à noção de processo é algo que tem um começo, um desenvolvimento e um fim. Portanto, o processo por excelência seria algo que começa e cuja tensão para o fim vai ficando cada vez mais forte à medida que vai chegando ao fim. E o termo em que o processo se realiza não é a morte, mas é a obtenção do fim próprio e a fixação no fim, de maneira que o apogeu do processo é algo de definitivo. Ele se fixa no apogeu de si mesmo” (Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo Humano (Resumo), apostila mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p. 30. Os destaques são nossos).
No final do Processo Humano, o homem se torna Deus. Co Substancial a Deus.
Será preciso deixar mais clara ainda a Gnose pliniana, da TFP e dos Arautos? Pois agora, Monsenhor Scognamiglio confessou, por escrito, em sua doutoral tese, que o pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira está na raiz da formação dos Arautos.O que ele ocultou e negou durante uns dez anos, foi de novo reafirmado. Para sua condenação.
Para suprir sua carência o ser contingente que o homem é agora, usa o que PCO chama de seletivo, capacidade que lhe foi dada junto com a inocência primeva, que lhe permite escolher o que, de fato, completa suas carências, e rejeitar o que o afasta do Absoluto.
“A partir de mim mesmo vou procurando em todas as criaturas algo que satisfaça a minha carência e que como que me abro para todas, como um leque. Mas, no contato com todas, vou percebendo que todas se enfeixam num ente supremo que é Deus e tudo vai se fechando para outro ponto. “Há, portanto, uma espécie de abertura e de fechamento, que é como que o gráfico das relações do homem com Deus.
“A multiplicidade de minhas apetências é expressão de uma carência fundamental que há em mim como criatura e que procura uma porção de satisfações. Depois de ter procurado todas as satisfações, vou unindo tudo isso numa satisfação suprema que é destinada à minha carência fundamental. Isso teria mais ou menos a forma de um losango” (Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo Humano (Resumo), apostila mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p.37).
Na busca do Absoluto, na busca do Infinito, já o diziam os românticos com Novalis, o homem só encontra o finito.
Mas, lembra PCO, “O limite é coisa que repugna o ser” (Apostila citada , p. 37).
Nessa tese formulada por PCO no MNF está a recusa da analogia do ser, a revolta da contingência, típica da Gnose que é sempre um pecado anti-metafísico.
Portanto, tanto no pensamento de PCO como na Gnose, em toda criatura contingente geme encarcerado algo do Absoluto.
Por isso, PCO, na Apostila-Resumo do MNF, expõe a teoria da alcachofra metafísica, um símbolo da procura do Absoluto divino na coisas criadas. Deixemos Plínio expor seu alcachofral pensamento, tal como foi citado sucintamente por Átila Sinke Guimarães:
“Eu passo daí para uma figura que eu chamaria  alcachofra hipotético. É uma figura destinada a mostrar como, através de vários contingentes e relativos, a pessoa procura o absoluto. Eu imagino uma alcachofra com toda a estrutura que têm as alcachofras que conhecemos, mas com uma peculiaridade que as alcachofras que conhecemos não possuem. Vamos imaginar uma [em] que as pétalas da alcachofra, as mais altas, tivessem sabor mais leve que o fundo, e que à medida que fôssemos aprofundando, o gosto das pétalas fosse se tornando mais intenso.
Eu diria que a pessoa, comendo pétala por pétala, levada pelo gosto, pela apetência de degustar o fundo da alcachofra, iria comendo pétala por pétala até o fundo. Então diria que apareceriam os seguintes degraus: o amor da coisa concreta, o amor da coisa enquanto reflexo de outra, o amor de uma coisa abstrata e a consideração de uma coisa puramente intelectiva. Por aí sucessivamente, chegaríamos a Deus”
Precisão de linguagem.
"A Comissão chegou à seguinte conclusão: a palavra absoluto para nosso uso pode passar, mas desde que nós a reservemos para o fundo da alcachofra. As várias pétalas sucessivas da alcachofra seriam participações sucessivamente mais densas, ou maiores, do absoluto”.(Átila Sinke Guimarães, Apostila O Processo Humano- Resumo do MNF, pp. 43-44).
Se a redação deixa a desejar quanto ao português, do ponto de vista de exemplo didático da idéia gnóstica de que, em todas as coisas, há  uma maior ou menor identificação com algo ontológico e substancial da Divindade, pela presença de partículas divinas presas nas criaturas, didaticamente o exemplo do alcachofra é bem feliz para expor a Gnose.
Mas, doutrinariamente, é uma  teologia de quitanda. E de “quitanda” gnóstica.
Portanto, para PCO, em todas as coisas existe algo de divino.
Por isso, PCO dirá, nessa Apostila, que “Deus é o ser de todos os seres” (Apostila citada, p. 36).
Portanto, em todos os seres se encontraria algo do Absoluto.
O homem, no fundo de seu ser alcachofral, seria o Absoluto.
Seria Deus.
Plínio vai fazer distinções entre o paganismo e a sua Gnose – que ele chama de “Catolicismo’, para ele uma das formas do “espiritualismo”:
“Os antigos pagãos faziam do outono, da primavera, do verão, da glória, da fecundidade, da agricultura, pessoas. Eles não estavam errados na idéia de que, em última análise, isso tem que se personalizar. Eles estavam errados em admitir que se personalizassem em muitos deuses. Nós, católicos,  sabemos que tudo isso se personaliza num só Deus. Dentro dessa concepção, podemos dizer que o absoluto é uma pessoa, Deus Nosso Senhor, que procuramos dentro de todas as coisas” (Palavras de PCO na Apostila resumo do MNF, p. 43. Os negritos são nossos).
Portanto, o “catolicismo” de PCO era uma versão da Gnose para cúmplices e ingênuos. Daí, ser então secreta. E hoje continuar discreta.
De um lado, Plínio afirma que o ser do homem, sendo contingente é nada, e de outro lado, ele declara que Deus está no fundo do ser humano e no fundo de todos os seres contingentes, pois que “Deus é o ser dos seres”.
E não adianta em um livreco com excertos do pensamento de Plínio – pensamentos maquiados – se dizer:
“Os absolutos –[no plural] na concepção aqui adotada, são como que imitações do absoluto que é Deus” (PCO, op.cit., p.113). “Em sentido próprio absoluto é só Deus” (PCO, A Cavalaria não morre,. Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, feitos por Leo Daneile. Artpress, 1998, Glossário terminológico de PCO, verbete Absoluto, p. 235).
Então o Absoluto é só Deus. Mas antes se disse que o homem  no final do processo humano se une e se transforma no Absoluto. Logo, o homem é Deus.
***
Noutro ponto do livro sobre a Inocência Primeva Plínio afirma que “a solução para essa náusea – [a insatisfação atual do homem] – só pode ser encontrada na procura dos absolutos verdadeiros” (PCO, A Inocência… p. 108). De onde se conclui, que há absolutos verdadeiros e outros falsos –no plural--, e que os absolutos verdadeiros conduzem ao Absoluto - ao Absoluto mesmo--, Deus.
Como o Absoluto é Deus, Plínio pergunta se a sede inata de Absoluto existente no homem é essencialmente religiosa ou não.
E ele responde que sim, mas em “termos”.
Lá vêm as distinções plinianas...
E daí vem que, para satisfazer a sede de absoluto, ele compare  a sede de Absoluto à já aludida sede de um super chopp. O que faz da sede do Absoluto metafísico identificar-se com sede física saciada num bar. Daí, ele comparar o degustar um copo de chopp a um ato litúrgico:
“Em termos, porque podem fazer parte dessa sede do absoluto elementos naturais em proporção maior do que os existentes nos atos de culto que levam diretamente ao sobrenatural. Um simples copo de chopp, por exemplo, pode servir para a procura do Absoluto e nele entram mais elementos naturais que num ato de culto” (PCO, A Inocência…, p. 108. Destaque do autor).
E a comparação, além de tola, é escandalosa. Pois é óbvio que no beber um chopp entram mais elementos naturais do que num ato de culto.
Essa frase de PCO é uma prova de seu romantismo, pois ele faz o que diz Novalis, para quem romantizar é tratar o vulgar— um copo de chopp—como sublime, e fazer o sublime, vulgar.
Nessa altura, os provectos seguidores de PCO enxertaram uma citação de São Boaventura que fala dos vestígios, imagens e semelhanças de Deus no mundo criado. Doutrina que Plínio parecia não conhecer, pois que logo em seguida diz uma enorme “batatada” termo com que ele designava tolices de estudante que não sabem a lição, e  se arriscam a dar palpites estapafúrdios, para dar a entender que estudaram.
“Na procura do absoluto, faz-se a busca da semelhança que todo ser tem com Deus e com os seres ápices em cada categoria.
“Assim, uma pessoa que nunca tivesse visto uma chama, vendo-a numa pintura, teria certa idéia do que é o fogo, porém nunca poderia dizer que dele teve uma idéia suficiente. O maior pintor do mundo não me diz, a respeito da chama, o que diz um fósforo aceso.(...) Temos aqui, portanto, dois graus de conhecimento. A pintura e o fósforo aceso são dois relativos que levam ao conhecimento de outro relativo, que é o fogo. Mas em comparação com a pintura e o fósforo aceso, o fogo tem algo de absoluto. Assim, subindo através de relativos podemos chegar a ter certo conhecimento de Deus, o único absoluto propriamente dito” (PCO, A Inocência…, p. 111).
Explicação absurda.
O fósforo aceso não é um símbolo que remete ao fogo. No fósforo aceso, há fogo mesmo. Não há símbolo do fogo. Basta por o dedo na chama de um fósforo para se ter uma bolha real e não simbólica.
Mas, para Plínio, “em comparação com a pintura e o fósforo aceso, o fogo tem algo de absoluto”
Como se no fósforo aceso não houvesse fogo real.
Como se publica essa “batatada” de Plínio como se fosse alta elucubração metafísica?
Depois desse exemplo infeliz, PCO procura explicar, de modo atrapalhado, a chamada Quarta Via de São Tomás de Aquino.
***
A chamada Quarta Via de São Tomás é aquela em que ele prova a existência de Deus pela gradação das qualidades existentes no universo. Se há entes  com a mesma qualidade em graus diversos, isso exige que haja um Ser com aquela qualidade em absoluto. Se há no universo vários graus de entes vivos (vegetais, animais, homens e anjos) isso exige que haja A Vida. Por isso, Cristo disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida”. Enquanto os entes do mundo tem vida, mas não são A Vida, Deus é A Vida.
Com exemplo mais simples, para  mais fácil compreensão de nossos leitores, se Rio de Janeiro é mais belo que Guaianazes, deve existir A Beleza em si mesma, da qual o Rio de Janeiro tem maior participação que Guaianazes. Se Santo Antônio tem mais bondade do que Luiz das Quintas, então tem que existir A Bondade em si mesma. Deus é A Vida, A Beleza, A Bondade, A Verdade.
Deus é a causa de todas as qualidades existentes no Universo. O que no mundo existe em graus diferentes, em Deus existe absolutamente. O que as criaturas têm, Deus é. As criaturas tem bondade ou beleza. Deus é a Bondade, Ele é a Beleza.
Isso é dito e exposto por São Tomás em linguagem metafísica:
“Outros ainda acedem ao conhecimento de Deus a partir da dignidade do próprio Deus: são os platônicos. Com efeito, eles consideram que tudo o que é (alguma coisa) por participação se reporta ao que é tal por sua essência como ao primeiro e supremo; é assim que tudo o que é fogo por participação se reporta ao que é fogo que é tal por sua essência. É então necessário, já que todas as realidades existentes participam do Ser e são seres por participação, é necessário que no cume de todas as realidades exista alguma coisa que seja o próprio Ser por sua essência, de tal modo que sua essência seja o seu ser. E essa realidade é Deus, que é a causa absolutamente suficiente, supremamente digna perfeita de todo ser, e do qual tudo o que existe participa do Ser” (São Tomás de Aquino,  Prólogo ao Comentário sobre o Evangelho de São João, n0 5).
Participação não é identificação.
E Plínio vai dizer o oposto do que ensina a Quarta Via tomista, pois ele afirma que tudo o que existe participa por analogia no Ser Absoluto realmente existente, ato puro, ser necessário.
Para PCO...
“Tudo o que existe é uma participação nisso que não existe” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 230).
Para aplicar a quarta via tomista aos entes criados, devemos lembrar que, nos entes criados, o ente é distinto de sua essência.
A essência de um ente é o que torna aquele ente o que ele é. Entretanto, a essência não tem existência antes da criação. Cada essência é uma possibilidade de ser. Ela só terá existência quando Deus lhe comunicar o ser por participação, o ente.
Em cada coisa criada, a essência está para o ente como a potência está para o ato.
Então, se cada ente criado tem  graus de perfeição diversos, neles há uma participação maior ou menor no Ser em si mesmo, isto é, no Ser que é sua própria essência. Enquanto nos entes criados a essência é distinta do ente, como a potência é distinta do Ato (do ente por participação), então deve existir um Ser no qual o Ato da existência seja idêntico à sua essência. Noutras palavras um Ser cuja essência exija a sua existência. Tal ser é Deus. O Ser necessário.
Vejamos como Dr. Plínio explica a quarta via...
Para exemplificar o que é a quarta via, Dr. Plínio afirma que o desejo de bem que há no homem leva-o  a aspirar algo muito superior à natureza (cfr. p., 120 da obra citada).
“Por bela que seja a natureza – e o é muitíssimo—ela não sacia o desejo de beleza, nem o desejo de bem estar do homem. (...) Os contos das mil e uma noites, os contos de fadas, são artifícios literários para que o homem sinta algo da magnificência dessa natureza para a qual foi criado, e que não encontra nesta Terra. Quando o homem olha para as estrelas—e não sente a insegurança do vôo—ele tem naturalmente vontade de voar, vontade de se por naquelas altitudes”. (PCO, A Inocência…, p. 120. Os destaques são nossos).
As citações não poderiam ser mais infelizes. E não poderiam ser menos metafísicas.
Em primeiro lugar, a quarta via de São Tomás não se fundamenta no desejo de prazer e de conforto sem limites, no desejo de bem estar, mas na compreensão de que o bem finito, em graus diversos, implica que deve existir um Ser que seja o Bem infinito, fonte de todo bem finito, criado analogicamente a Ele.
Dr. Plínio tem a noção de uma quarta via própria de um sibarita, que busca conforto, bem estar e prazer sem limite, -- que busca o super-chopp --- e não a de um católico comum, e muito menos a de um tomista.  Por isso ele usa o verbo sentir e não o verbo compreender. Isso não é transcendência, mas sede insaciável de bens materiais, de sentir-se bem. Daí, a citação absurda das mil e uma noites, uma obra erótica, e a citação de contos de fadas, sonhos de maravilha naturalista, raiando pela magia e pelo esoterismo, dos quais PCO gostava muito pois que sua mãe romanticamente o “formou”—ou deformou—por meio deles, a fim de buscar o que fosse “verdade no reino do além”através de “um envelope fantasioso que contém uma verdade magnífica, oculta”.
O maravilhoso...
Para culminar, veja-se este outro exemplo absurdo dado por PCO:
“Portanto, sempre que existe um predicado em determinado ser, este predicado participa de um predicado de outro ser mais alto.
‘Vamos dizer, por exemplo, o vermelho. Existe toda a gama de vermelhos, mas há de haver em algum lugar da criação, um vermelho perfeito e ideal, o vermelho absoluto, arquetípico, que haja a perfeição do vermelho, e que seja a perfeição do vermelho, e do qual todos os vermelhos participem. É o monarca dos vermelhos” (PCO, A Inocência…, pp. 122-123. Os destaques são do autor).
Veja-se bem: o vermelho absoluto –enquanto ser possível- existiria em algum lugar da criação. Ora, o ser possível não existe em ato em nenhum lugar da criação. Deus, em seu Verbo, conhece todos os possíveis. Plínio transferiu os possíveis para algum lugar da criação. Para um Vadutz ou para um Hûrqâlya qualquer. Portanto, concebe-os como seres reais existentes em ato, e não como possíveis. E isso é romantismo. Isso nunca foi tomismo.
Plínio nada entendeu da Quarta Via. O que ele imagina é um vermelho “ideal”, ”absoluto”, que teria que existir “em algum lugar da criação”.
Ora,  tudo isso é idealismo subjetivista e naturalista. A Quarta Via tomista tem por finalidade compreender que existe o Ser absoluto, ato puro, que não tem matéria. Por isso, Deus não ocupa lugar na criação. Deus é transcendente, infinitamente superior a todo o criado.
Por isso mesmo, em Deus não pode haver o Vermelho absoluto que é uma luz material a não ser como idéia, em seu Verbo e não como coisa realizada materialmente. A luz material existente no mundo, e ela permite ver e conhecer o real concreto, que por isso é símbolo da Verdade, “luz” intelectual, que nos permite conhecer abstrativamente a verdade das coisas.
Deus não tem matéria. A luz física é simplesmente analógica à luz divina, infinitamente transcendente e espiritual.  Quando a Escritura afirma que “Deus lux est” (I Jo, I, 5) – Deus é luz –não significa que em Deus haja luz física. Em Deus há apenas a luz da Verdade, luz intelectual. Deus é luz, e nEle não há trevas, ensinou São João (I Jo., I, 5). NEle, porém, não há vermelho absoluto. Mas só luz espiritual absoluta, isto é a verdade absoluta.
Plínio, com sua imaginação, impressões e sentimentos, é incapaz de compreender o que é a transcendência infinita da Divindade. Por isso, ele se alça apenas ao nível da felicidade mágica dos contos de fadas, ou do bem estar e prazer, da felicidade erótica  das mil e uma noites...
Noutro capítulo, tentando ainda explicar o que é a transcendência, Plínio diz:
“Se um cristal fosse capaz de pensar, poderia imaginar a existência de um ser de natureza superior à sua”( PCO, A Inocência…, p. 132. Os destaques são nossos).
Pensar para Plínio equivale a imaginar.
Ele é incapaz de compreender que abstrair não é imaginar. Daí, seu romantismo naturalista delirante. Tanto que ele vai dizer que ”nós homens, em outro sentido da palavra nos transcendemos uns aos outros” (PCO, A Inocência…, p. 133).
Totalmente falso. Não existe transcendência de um homem sobre outro, pois que transcender é estar acima de outro na ordem do ser. Ora, todos os homens têm a mesma natureza. Logo, eles estão na mesma ordem de ser. Eles não podem se transcender uns aos outros.
Outra afirmação absurda é que Plínio declara que se pode aplicar a noção de transcendência ao mal:
A transcendência pode aplicar-se também ao terreno do mal. (PCO, A Inocência…, p. 137).
O mal não é ser. Logo não existe um mal transcendente.
Se isso fosse realmente possível, se chegaria à conclusão de que assim como existe o Ser absoluto, o Ato puro, existiria também o mal absoluto. E isso é a tese do maniqueísmo.
Santo Agostinho refutou essa tolice no livro Contra Manichaeos, ao dizer que, se o mal absoluto existisse, ele teria o bem da existência. Logo, ele não seria o mal absoluto.
Não existe o mal como ser.
Plínio considerava que a fantasia humana completava a realidade acrescentado-lhe ‘algumas notas irreais” (PCO, A Inocência…, p. 139).
Notas irreais no real são uma contradição metafísica. São delírio que não muda o real.
O transcendente, para PCO, era imaginado e imaginário não cogitado e não real. Daí, as contradições que lhe permitem imaginar o irreal  conciliado com o real.
Portanto, ele passava da transcendência metafísica para o irrealismo imaginativo.  Do real, para o desvario. Por isso, ele afirma com toda a seriedade de um delirante que “É certo, entretanto, que a palavra humana não é capaz de exprimir adequadamente determinados aspectos da realidade. Estes chegam ao conhecimento do homem por via não abstrativa e, por vezes pertencem a uma ordem tão elevada que até superam a força de expressão da palavra”(PCO, A Inocência…, p. 140).
Desse modo, ele colocava o imaginar acima do inteligir.
Ora, é princípio escolástico de que nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos. Pode ser que algo conhecido seja inefável, mas sempre o que foi captado pelo intelecto necessariamente foi abstraído da realidade material.
“Estabelecida uma reversibilidade entre arte e filosofia, o homem  se sentiria explicado no que tem de mais fundo. Assim ele poderia reverter a termos expressos o que percebeu através da via artística. E, em sentido contrário, poderia encontrar na via artística o símile do que vê em termos expressos”
“No mundo do pensamento, a partir do instante em que o homem procurasse habitualmente exprimir o inexprimível, abrir-se-ia uma intercomunicação entre os dois domínios da qual poderia nascer um era nova” (PCO, A Inocência…, p. 140).
Eis aí expresso o sonho do romantismo: exprimir o inexprimível. Conhecer o absoluto. Eis aí a pretensão renovada de alcançar um conhecimento absoluto que permitiria ao homem conhecer o bem e o mal. Eis a tentação de Lúcifer renovada. Adão foi o primeiro romântico.
Plínio foi dos últimos.
Sabe-se como os românticos eram partidários da noite e do mistério, e contrários à luz, à clareza, à lógica, à razão simbolizada pelo sol, amado pelo classicismo.
Novalis escreveu Hinos à Noite. Chopin foi além, pois compôs “noturnos”, termo adjetivo, não substantivo. Plínio gostava de ambientes à meia luz. Gostava do obscuro. Veja-se o seguinte texto dele:
“Todas as vias da contemplação sacral vistas até agora conduzem aos esplendores da luz; o presente caminho, por paradoxal que seja, leva aos esplendores da escuridão, pois seu tema é o ignoto. E o ignoto também tem os seus esplendores” (PCO, A Inocência…, p. 143. Os destaques são nossos.).
Surpreendente.
Dialeticamente surpreendente, num autor que se proclamava católico. Nada surpreendente nos românticos dualistas, para os quais os contrários são iguais. Para os quais o bem equivale ao mal, e o ser ao não-ser.
PCO descobriu os “esplendores da escuridão”. Que simbolicamente seriam  os esplendores do mal. Do demônio, já que São João nos ensinou que “Deus é luz, e Nele não há nenhuma treva”(I São João, I, 5).
E Plínio escreveu um texto intitulado “Fantasmagorias da noite” (Cfr. PCO, op. cit., pp. 227-228), colocado nesse livro que analisamos logo depois de um texto do romântico Chateaubriand, texto intitulado  “Os misteriosos murmúrios das trevas” (PCO A Inocência…, p.226).
Plínio comenta o texto de Chateaubriand e fala em demônios da noite. Como os românticos, que, com Victor Hugo, fizeram poesia para o sol negro que habita o fundo do inferno.
E, então Plínio nos diz que a inocência, tal qual ele a concebe, sem mancha, impoluta, sem pecado original, essa inocência “sacral” é atraída pelo... mistério...das trevas.
Eis um trecho do texto tenebroso de Plínio:
“Um dos aspectos mais característicos da inocência é a facilidade de admitir o mistério, em não se sentir insultado por ele, pelo contrário, conviver com ele e compreender que o mistério não é um negrume hostil, mas uma floresta, cuja simples existência é sugestiva para a mente humana.
“Para a alma inocente, o belo do mistério é o auge da verdade. Pelo contrário, a alma esclerosada pela filosofia das luzes, pelo positivismo e doutrinas congêneres, sente no mistério algo que a atormenta” (PCO, A Inocência…, p. 144. o destaque é nosso).
É exatamente a posição dos românticos inimigos da razão e tendentes ao tenebroso. Portanto, ao mediúnico, ao diabólico. A “sentir o mistério”...
Leiamos Plínio:
“Ora,-- e aqui chegamos ao ponto—a busca da verdade é uma ascensão. E como toda ascensão, o auge dela é um pico nevado, coberto de névoa e que se perde nas alturas. Renunciar a essa névoa é desistir de escalar o pico. Compreender a amá-la é compreender e amar a ascensão. É preciso amar a névoa para apreciar verdadeiramente as alturas” (PCO, A Inocência…, p. 144).
Não é preciso ser especialista em Romantismo para saber que os românticos amavam a névoa, o obscuro, o impreciso que se percebe através de um nevoeiro.
E Plínio conclui dizendo: “Recusar o mistério é fugir do real”.(PCO, A Inocência…, p. 150).
 
 
E, no capitulo seguinte, PCO introduz o leitor no mundo do mistério: no mundo dos possíveis.
Contudo, logo na primeira frase desse capítulo, Dr. Plínio faz uma distinção sutil usando um “também que facilmente escapa ao leitor menos atento, ou mais apressado:
“Seres possíveis: poderiam existir mas não existem”
“A contemplação sacral também pode ter como objeto o campo dos possíveis, ou seja, dos seres que poderiam existir, mas não existem. Assim, quem a ela se dedicar verá desdobrar-se diante de si um verdadeiro universo, pois todo ser existente tem analogia com inúmeros seres que não existem e jamais existirão” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, edição do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, Artpress, São Paulo, 2008, p. 153. Os destaques são nossos).
Analisemos mais de perto essa citação fundamental da doutrina de Plínio.
Note-se em primeiro lugar, que aquilo que Plínio chama de “contemplação sacral” tem por objeto “também os seres possíveis, que não existem.
A contemplação sacral de Plínio, como a contemplação budista, contempla o vazio. O Nada. O Nirvana.
A contemplação sacral de Plínio pode ter por objeto quer o mundo real, quer também coisas irreais: as fantasias delirantes de PCO.
Segundo – e fundamental – “todo ser existente tem analogia com inúmeros seres que não existem e jamais existirão”.
Falso.
Falso e contrário à doutrina católica revelada.
Todo ser criado é análogo a Deus que existe, e não a seres que não existem.
Os seres criados não são análogos a seres imaginários e nem a seres possíveis inexistentes. São análogos a Deus, Ser que existe.
Não é possível haver analogia entre o existente e o que não existe.
São Paulo, na primeira epístola aos Romanos diz: “Após a criação, as qualidades invisíveis de Deus, compreendendo-se pelas coisas feitas, se tornaram visíveis nas coisas criadas”. (Ep. Romanos, I, 20).
Portanto, as qualidades das criaturas permitem-nos compreender analogicamente as qualidades invisíveis de Deus criador. E não ficar imaginando o inexistente, ainda que ele fosse apenas possível.
Plínio afirma um absurdo. Para ele, as coisas existentes não são análogas a Deus que existe, mas a seres possíveis ou imaginários que realmente não existem. Portanto, as coisas existentes seriam análogas ao inexistente.
Dessa forma, Plínio anula a Quarta prova da existência de Deus de Aristóteles e de São Tomás. A Quarta Via que Plínio diz ser fundamento de sua doutrina, levaria a concluir que o mundo seria análogo ao possível não existente, ao vazio. Ao nada. Ao inexistente.
Os seres possíveis na mente divina, somente são tais, porque Deus os concebe como tendo possibilidade de existir para refletirem alguma qualidade objetiva e infinita de Deus. Se não refletissem algo de Deus, eles não seriam possíveis de serem criados.
Mais. Se podemos imaginar um mundo possível puramente “ideal” perfeito, poderíamos imaginar ainda um outro mundo ainda mais perfeito, e assim indefinidamente. Ora, isso tornaria a série de semelhanças entre o mundo e Deus indefinida.
Mas isso contrariaria a primeira e a segunda prova da existência de Deus formuladas por Aristóteles e São Tomás.
Com efeito, esse filósofos demonstraram que a série de mudanças e de causas no universo não pode ser sem fim. Que elas têm que ter um fim. E que esse fim deve ser um Ser em Ato, sem nenhuma potência passiva.
Primeiro, porque  o infinito não pode ser dividido. Qualquer divisão no infinito, produziria o mesmo infinito. O infinito dividido por dois não produz nem meio infinito, nem dois infinitos. O infinito é indivisível.
Logo, a série de mudanças que há no universo, assim como a série de causas e efeitos tem que ser finita. Do mesmo modo, a série de analogados não pode ser infinita, tem que terminar num Ser realmente existente, jamais num possível potencial inexistente em ato.
Logo, é errada a suposição de PCO de que se pode imaginar como analogante primeiro um mundo irreal da Trans-Esfera  perfeitíssimo, inexistente, porque sempre se poderia imaginar um outro mundo mais perfeito ad infinitum. O que faria essa série “indefinida”. Isto implicaria praticamente em negar haver, no início, o Ato puro a que todos os seres criados são semelhantes.  Toda a série de analogados a Deus tem que partir de um ser realmente em Ato, e não de um possível que só existe em potência. O Mundo é análogo ao Ser Necessário, Deus, que existe, Ato puro e não a uma Potência pura inexistente.
O mundo não é análogo a seres possíveis inexistentes.
Plínio coloca no início o vazio. A pura potencialidade. E isso não é católico.
Além disto, Plínio confunde seres possíveis com seres de razão.
Já vimos que, na filosofia escolástica, seres possíveis não existem na realidade. Podem existir apenas na mente divina como essências, mas  sem terem o ato da existência.
Um ser intrinsecamente possível:
1 - tem que ter notas essenciais não contraditórias. Por exemplo, Deus não pode conceber como possível, em sua mente, um triângulo de quatro lados.
2 - tem que ter uma causa capaz de fazê-lo existir e haver circunstâncias que o façam, compatível.
Os seres possíveis dependem intrinsecamente do espelhar analogicamente uma qualidade de Deus.
Não dependem da mera vontade de Deus. Deus não pode criar e nem conceber como possível, algo que dependa só de sua vontade, sem referência de alguma forma, analogicamente a seu ser divino.
Por outro lado, os entes de razão não são seres possíveis. Os entes de razão não existem de per si, fora da mente humana. Eles existem na mente humana como idéias objetivamente conhecidas.
Erra Plínio quando, por vezes, confunde ser possível com ens rationis, ou com seres imaginários. Papai Noel, fadas, a Medusa os centauros, não são seres possíveis. São apenas seres imaginários.
Deus poderia conceber muitos outros seres que refletissem suas qualidades. Estes seriam seres possíveis existentes em sua mente. Não realizados em ato. Não existentes realmente.
Porque se esses seres existissem de modo real, eles deixariam de ser possíveis. Seriam entes realizados e não mais possíveis de serem realizados.
Há contradição entre possível e realizado.
Por que Deus não os fez?
Porque não quis fazê-los.
E são os seres possíveis que Deus não quis fazer, que PCO coloca como fonte de todos os bens dos entes do universo.
E por que Deus não criou todos os seres possíveis?
Aventamos uma resposta.
Todo mestre ensina com exemplos adequados às mentes que quer ilustrar.
E um bom mestre usa apenas os exemplos necessários e mais apropriados para fazer compreender a verdade que quer ensinar. Também o ensinar é regido pela lei da economia.
Deus criou o mundo como ele é, criando nele apenas os seres convenientes e úteis para o homem compreender por meio deles, por meio de suas qualidades visíveis, por analogia,  as perfeições invisíveis de Deus.
Tudo o que existe foi feito por Ele no Verbo, e sem Ele nada foi feito como diz São João, no Prólogo do seu Evangelho. E no livro de Jó, -- nós já o vimos— se afirma que Deus só fez o que quis. Se não fez todos os possíveis, é porque Ele não quis fazê-los, e não os fará. ”Sua vontade fez tudo o que quis”( Jó, XXIII 13).
Para Plínio, “Existe uma escala na qual o primeiro degrau, é o mundo real; o segundo é o arquétipo do real; e, no terceiro degrau e mais elevado, está o mundo dos possíveis” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 157).
Se esta é a escala dos seres reais, que existem, como Plínio coloca em seu ápice, o mundo dos possíveis que não existem?
Portanto, mais elevados na escala real dos seres estariam os possíveis que seriam mais que os arquétipos existentes na mente divina e que são os possíveis em Deus, que são irreais.
Plínio diz que existe uma esfera ápice do real que seria... “o mundo dos possíveis”. Irreais.
Clara contradição.
Essa escala contraditória do real nunca foi ensinada pela doutrina católica. Só em sistemas gnósticos se encontram tais esferas “ontológicas” teratológicas e surrealistas de que não falam nem a Escritura e nem a tradição católica.
Daí, Plínio ter ficado “impressionado” com o filme ET e acreditar que, de fato, existiam ETs no universo.
Ora, Deus fez o homem social, para que ele pudesse amar a outrem, fazendo-lhe o bem. Se Deus tivesse criado seres inteligentes extra terrenos, Ele teria que criá-los com possibilidade de comunicação com os homens, para que houvesse caridade de uns para com  os outros. Por isso, Deus não criou seres com os quais não poderíamos nos comunicar e nem amar.
Não há extra terrenos. Não há ETS de filmes e nem de Plínio.
Deus nos mandou amar o próximo, real. Não os simplesmente possíveis.
Por isso, não é de espantar que Plínio imaginasse existir, como possíveis, outros elementos que os quatro encontrados em nosso mundo:
“Os quatro elementos clássicos – terra, água, ar e fogo—também possuem os seus possíveis. Por exemplo, o mundo dos fogos e das chamas tem evidentemente possíveis, como o mundo da água. “E o mundo do ar? Qual o homem que não tem inveja quando vê um pássaro voar?” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 160).
E desejar voar não implica que existam os seres possíveis. Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Foi por querer voar que  Plínio, um dia, sonhou ser urubu?
Não acreditam?
Veremos isso mais adiante.
Por enquanto, constatemos que PCO imagina todo um universo paralelo como possível inexistente mas que de algum modo existe.
Também na História, diz PCO, poder-se–iam buscar os possíveis, montando mitos sobre pessoas e fatos. Daí, Plínio concluir que o mito vale muito mais que os fatos reais, e que a lenda supera a realidade.
Ao tratar do problema se há “possíveis” na História, PCO vai deixar ainda mais clara sua doutrina de que o mundo real é uma miragem de um mundo irreal e não de Deus. E chegará a afirmar que tudo o que existe reflete o que não existe. O tudo seria imagem do nada. O gnóstico Mestre Eckhart não diria diferente: se o mundo é ser, ele é reflexo do Nada. Essa é afirmação típica da dialética gnóstica. Logo abaixo, daremos as palavras de PCO afirmando esse absurdo. Aguardem, por favor, umas linhas.
“Os possíveis e a História
“Quando imaginamos como teria sido a coroação de Carlos Magno, percebemos que o gosto da História consiste mais em saborear os possíveis que existiram. – [Repare-se: os possíveis que existiram! O que não existia já passou a existir ... na pena de Plínio]—“E creio que a mais alta cogitação que se deve procurar na História não é tanto a explicação dos acontecimentos, mas evocar os possíveis que deixaram de ser [Deixaram de ser? Como pode deixar de ser o que não era ser atual, ser real?] – cuja memória ficou e que constitui, por exemplo, o charme dos cemitérios (quando o cemitério tem charme)” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 159).
Até Plínio se assustou com o seu “charme dos cemitérios”.
O que, aliás, sempre foi uma nota do romantismo: gostar de cemitérios...
Mas não se assustou com sua afirmação contraditória de que houve “possíveis que existiram na História”.
E que absurdo conceber a História não como o conhecimento dos fatos por suas causas, e sim imaginando o que poderia ter acontecido e não aconteceu, o que poderia ter sido, e não foi. Plínio quer transformar a História em conto de fadas. Com verdades ocultas.
Plínio ensinava o oposto do que ensinou São Paulo, pois nesse livro de Plínio  se lê :
“Tudo o que existe é uma participação nisso que não existe” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 230. O destaque é nosso).
Está aí outra prova cabal da Gnose pliniana.
Pensar que o existente participa do que não existe é loucura.
“(...) o universo, para ser plenamente universo—ou seja universal—deve ser o espelho de todos os possíveis. Deve ser tal que todos os universos possíveis, de algum modo nele se reflitam. Estes universos possíveis devem se postular e se refletir uns aos outros” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 157).
Portanto, o universo real teria que incluir os possíveis inexistentes. Logo, para Plínio, eles passaram a ser reais.
O universo real é espelho real de Deus e não dos possíveis. Estes só existem como idéia na mente divina.
Se o universo real necessitasse – para ser plenamente universo—  incluir, e ser espelho, de todo os  possíveis, de todos os universos possíveis-- irreais-- que se refletiriam em nosso universo, esses possíveis estariam postos no lugar de Deus, e os possíveis seriam realmente existentes.
Outra vez o mesmo absurdo. O universo dos possíveis não existe realmente. E por isso o universo real não pode refleti-lo. O universo real é feito semelhante a Deus, Ser por excelência. Deus não é um possível. Existe de fato. É Ato puro, e não um possível.
Plínio havia dito que o mundo dos possíveis de fato, não existia. Mas, na página 159 desse livro delirante, ele afirma o oposto, porque ele vai lentamente deslizando do não existente para o de algum modo  existente, para enfim afirmar:
“Mas este mundo dos possíveis não é uma quimera: à sua maneira ele tem realidade” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 159).
No fundo, para PCO, tanto fazia se os possíveis existissem ou não.
Muito menino ainda, contemplando as cores e decorações de seu quarto, ele imaginava outras cores e outros adornos. Num mundo imaginário de seres possíveis:
“E na minha inocência, regozijava-me com aquela harmonia cromática, degustando-a e raciocinando: “Isso não é ouro, nem medalhão, nem fita, mas figura de ouro, de medalhão e de fita.Eu, portanto, devo imaginar um quarto ornado, não com simples papel, mas com verdadeiro ouro, autênticos medalhões e fitas, sobre uma verdadeira seda. Que efeito produziria? Como seria uma casa assim? E como seriam as pessoas que nela morassem?  Que maneiras, que virtudes teriam? Como seria o resto da decoração da residência? Estou entrando numa espécie de mundo irreal, com cores incomuns. Estou me movendo no mundo interior das minhas idéias. Que lindo é isso!
“Tratava-se da procura de um maravilhoso superior à realidade cotidiana e colocado numa linha arquetípica de belezas ideais. Para mim, nem era necessário que elas existissem, mas bastava-me entender serem concebíveis”(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, vol. I, p. 301. Os destaques são nossos).
Para PCO, tanto fazia se os possíveis existissem ou não. O que ensinava a Religião, a Metafísica e o bom senso não interessava. Importava o que ele imaginava, existisse, ou não, o imaginado.
Tanto fazia ser ou não ser, existir ou não existir, porque, como Bérgson, ele considerava que a existência era um mero fluxo. Eis o seu comentário vendo um jorro de água, caindo no mar:
“Assim é a vida! Os fatos vão saindo de dentro do possível para se tornarem reais e depois se perdem no que já passou, como essa água que desaparece no mar.É bonito ver como isso se sucede. E o ruído que faz essa água caindo no mar é como o rumor dos fatos da vida, quando acabam de acontecer e se perdem no passado. E o ruído que vai, vai, e de repente acaba. Assim é a vida... Que bonito esse jorro! Como é bom que comece, como é bom que dure, como é bom que acabe!”(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, vol. I, p. 212).
E Plínio diz que pensou isso aos quatro anos. Sem ter lido Bergson, de quem ele repete até o termo “jorro” para indicar o fluxo do existente.
Desse modo, fica claro que PCO—aos quatro anos!-- era um gnóstico heraclitano ou bergsoniano, para quem tudo era fluxo. Portanto, que o ser não existia.
E não se diga que ele se refere apenas a fatos, e não a seres, porque ele se refere à água que é ser. É verdade que ele compara o jorro da água aos fatos. Mas, depois, ele vai dizer o mesmo das pessoas que, quando morrem, passam do mundo real e passam para o mundo dos possíveis...
O que é uma teoria que, nega o ser afirmando que há apenas mudança, e como conseqüência, leva à negação da imortalidade da alma.
“As saudades são a lembrança de um pequeno possível que deixou de existir. Assim, quando alguém deixou de existir, fica para nós como um possível” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 159)
Se um possível deixou de existir, era porque antes ele existia em ato.
Logo, ele não era um “possível”.
Para Plínio, então, logicamente, as orações pelas almas seriam orações para os que deixaram de existir...
Acabou-se o purgatório. Só o purgatório?
As almas dos mortos passariam a ser meros possíveis em Deus? Mas então elas não existiriam mais em ato. Se fosse assim, ninguém estaria no céu, no purgatório, ou no inferno.
Mas então não existiriam nem Céu, nem Purgatório e nem Paraíso para os homens.
Para Plínio, quando morremos passamos a ser possíveis e nos identificamos então com Cristo na Trans-Esfera.
Essa doutrina de PCO, ensinada por ele secretamente  no MNF e na Sempre Viva, assim como é repetida por Mons. Scognamiglio entre os Arautos, é completamente herética e gnóstica.
É o que dá não estudar seriamente, nem mesmo o Catecismo, e pretender explicitar o que se tem na cabeça, julgando que a própria cabeça é a fonte do saber absoluto. Da cabeça sem estudo, e com pretensões à sabedoria inata e primeva, saem “batatadas”.
***
Para Plínio, então, o mundo real é semelhante ao que não existe em ato mas que só é possível.
Falso.
Deus existe. Deus é ato puro, E o mundo foi feito por Ele como semelhante a Ele. E não como semelhante a possíveis.
A imaginação de Plínio, ao invés de examinar as perfeições das coisas criadas como reflexos de Deus existente em Ato, as despreza, buscando, perfeições imaginárias ad infinitum, sempre análogas a seres irreais imaginados como mais perfeitos.
Por isso, escreveu Plínio que “nosso universo é uma maquete do mundo dos possíveis” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 156).
O mundo real seria algo semelhante ao mundo dos possíveis inexistentes.
Não. Repetimos: o universo é semelhante a Deus que é O existente. Plínio nega o que ensina a Sagrada Escritura.
Em vez de buscar conhecer Deus que existe como analogante primeiro e universal de todas as criaturas realmente existentes, Plínio corre atrás de fantasmas, sonha seres imaginários como possíveis. Plínio ensina a buscar ilusões, fantasias, mitos, irrealidades, sonhos, quimeras.
Deus é o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis – mas sempre reais, existentes em ato – está longe das “cogitações de Plínio”—puras imaginações-- que vivia para o irreal, para o ideal, para os seres possíveis . Nunca para o real.
Deus não criou ilusões.
Mas Plínio ousa escrever que Deus criou ilusões. Ao falar dos mistérios e fantasmagorias da noite, Plínio afirma:
“Sei que são só ilusões. Mas Deus as criou para falar de Si. E também do anti Ele”(PCO, A Inocência…, p. 228).
Deus teria criado as ilusões para que elas falassem de Deus e do anti deus? Do anti Ele?
Que loucura maniqueísta é essa?
Plínio defendia a Gnose romântica.
Amando o imaginário, ele desprezava todo o real concreto. Sobretudo esquecia e desprezava o verdadeiro real, o real absoluto, necessário, o único infinito. Plínio fez do sonho do irreal e do mito o seu Deus.
Um “deus” imaginado como pura potência, sem existência. Plínio fazia adorar o vazio.
O Nada. O Não ser.
O “anti Ele”.
Para ilustrar a noção de contemplação sacral do mundo dos possíveis, Plínio apela aos quadros de Claude Lorrain, pintor do período barroco, mas cujas paisagens imaginárias e irreais se poderiam dizer pré-românticas.
Plínio mostra como nos quadros de Claude Lorrain há uma “atmosfera irreal” (A Inocência…,p. 152) “Nesses quadros de Lorrain não cabe nada de tormentoso, não há ventania, nem sequer brisa.(...) “As pinturas de Claude Lorrain (...)  são tão magníficas que nos fazem pensar num outro universo, num mundo que pode se afigurar a nós como irreal, como inexistente, mas para o qual a nossa alma irresistivelmente se inclina” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação sacral do Universo, ed. cit., p. 153).
Ora, a alma humana não é inclinada para o inexistente, e sim para o Bem realmente existente, isto é, para o que existe em Ato. Para o Ato puro, isto é, para Deus.É uma deformação do espírito humano – uma deformação romântica – deixar-se inclinar para o imaginário, para o inexistente. Para o sonho. E Plínio se confessa irresistivelmente inclinado para o irreal e para o inexistente.
“Uma das mais altas expressões da escola filosófica católica do Vitorinismo é, através do real, nos fazer tomar contato com os irreais, com os quais nossa alma sonha, como escalas interiores para atingir o Céu. Quem assim o faz não é sonhador: esse é pensador” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação sacral do Universo, ed. cit., p. 155).
Isso é falso.
A escola dos Vitorinos não fazia passar do real ao irreal, e sim do material ao espiritual, que é bem real, e daí até Deus que é o Bem absoluto. Ser Real. É falso que o pensamento católico busque passar do real ao irreal. Isso é negar a existência de Deus e da ordem espiritual.
Caminhando de possível em possível, Plínio chega a “excogitar” – isto é, a imaginar-- os possíveis de si mesmo:
“A pessoa percebe os possíveis de si mesmo. Pode inebriar-se, e quanta fantasia se realiza dos possíveis internos! Por outro lado, quanto desejo de santidade, quanta maravilha de heroísmo, de talento, pode ser gerada pelo senso dos possíveis de cada qual!
“Ái das almas que não têm uma noção do seu possível interno! Pode até ser uma forma de entretenimento olhar nas caras que se encontram pela rua e perguntar se a pessoa tem, ou não, alguma noção de seus possíveis internos” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 160).
Isso, normalmente, se resolve em paranóia.
O indivíduo começa  a imaginar-se Napoleão.
Ou profeta.
Ainda que Profeta só de Higienópolis.
Uma visão de um possível excelentíssimo de si mesmo conduz a pessoa a se ver de um modo mitificado. E era isso mesmo o que Plínio desejava: mitificar-se e mitificar tudo.
Veja-se então o que ele diz do mito e dos homens-mitos que existiriam na Trans-Esfera, que ele sonhou, e de onde eles nos comunicariam a sua “transcendência”.
 
 
Plínio considera que pode haver algo de bom e verdadeiro na noção de mito.
Veja-se a distinção que ele faz:
“Mito: sentido mau e sentido bom.
“Na literatura indigenista [Sic?] em voga na segunda metade do século XX, a palavra mito cobre duas faixas que se sobrepõem: um histórico maravilhoso, evidentemente mitológico, e que, portanto, inclui as respectivas legendas, mas, ao mesmo tempo, uma visão transcendente das coisas, a qual mostra o aspecto-símbolo do ser mitificado. Esta segunda componente corresponde a algo de verdadeiro na noção de mito, em consonância com a boa doutrina. É neste segundo sentido, legítimo, que será tomada aqui a palavra mito” (PCO, A Inocência…, p. 168).
O mito falaria de um mundo transcendente...
Quanta anfibologia!
Quanta redundância!
Quanta confusão!
PCO confessa então que considerava aceitável algo da concepção de mito da escola romântica simbolista, que foi uma escola claramente gnóstica.
E lá vai PCO fatiando a terminologia para se permitir escapadelas  anfibológicas. Haveria uma noção de mito consoante com a doutrina católica no simbolismo. Sri Paladan que o diga. Só porque PCO o quer. Isto é, só porque PCO o imagina.
Qual é o sentido de mito de acordo com a boa doutrina?
Plínio não o diz claramente.
Afirma que há homens-mito. E nesses homens-mito haveria um aspecto simbólico verdadeiro remetendo a uma noção transcendente. E vimos com em cada um desses termos usados por PCO (mito, transcendência, símbolos), há imprecisões e confusões grosseiras.
“Há um modo de ver o homem-mito que transcende o próprio homem. Corresponde a uma concepção que freqüentemente se tem a respeito de pessoas que personificam o que elas simbolizam. Quer dizer, elas simbolizam uma realidade superior que resulta de uma vue de l ‘esprit  -- um produto de nosso espírito. Tal fato decorre da necessidade que sentimos da individuação’ ou personificação de certos princípios ou valores.
“O homem-mito se situa, pois, numa esfera transcendente, uma super-esfera, da qual ele comunica aos homens a sua transcendência. Essa transcendência é o mito. Então, a idéia de mito traz consigo a idéia de uma Trans-Esfera”(PCO, A Inocência…, p. 168. Os sublinhados são do autor).
Os homens-mito simbolizariam “uma realidade superior que resulta de uma vue de l ‘esprit  -- um produto de nosso espírito”.
Está aí uma confissão interessante: a realidade superior seria um simples produto de nosso espírito. Seria uma ‘Vue de l‘espirit”, a imaginação produzindo uma realidade ontológica superior.
O que é puro idealismo romântico.
Do ser possível, passou-se ao mito como coisa existente na História. Mas ambos habitando a Trans-Esfera. E isto só porque “sentimos”  o homem-mito, personalização individualizada de certos valores, pura vue de l’esprit, que causaria uma realidade superior.
Isso é um xarabiá subjetivista e idealista que procura provar o que afirma, afirmando o que teria que provar: o homem-mito é uma concepção que se tem de uma pessoa que personifica o que ela simboliza, isto é, simboliza uma realidade superior que resulta de uma “vue de l’esprit”.
O que é uma besteira posta em francês.
Daí, diz Plínio, o homem-mito situar-se numa esfera transcendente, e essa transcendência é o mito que traz consigo a idéia de Trans-Esfera. Que ele devia provar que existe. E dessa Trans-Esfera o homem-mito nos  comunica a sua transcendência. E essa transcendência é o mito.
Um delírio circularmente redundante.
O “autor” do “romance” Dona Lucília, -- Scognamiglio -- no tempo em que ele era o propagador do culto de PCO e da mãe de PCO, a liberal Dona Lucília, em seus anos de TFP, o agora Monsenhor Scognamiglio, chamava a mitificação de “traço dominante da personalidade de Dona Lucília...”.
No romance Dona Lucília, que tem como autor de capa João Scognamiglio Clá Dias, fica evidente que Plínio herdou essa mentalidade romanticamente mitificadora de sua mãe, Dona Lucília, que segundo Scognamiglio tudo mitificava.
O atual Monsenhor-chefe da banda dos Arautos e grão mestre arautiano da Sempre Viva, reconhece explicitamente que Dona Lucília gostava de mitificar tudo, recusando ver as coisas como elas são:
“Tudo nos lábios de Dona Lucília se tornava como que feérico, legendário”. (J. Scognamiglio, Dona Lucília, Vol.I, p. 57).
E, numa nota, o “autor” tenta explicar em que sentido usa o termo “legendário” :
“Legendário” se emprega aqui no seguinte sentido ”envolto numa atmosfera de tanta elevação, que parece tocar na legenda” (J. Scognamiglio, Dona Lucília I, p.54, nota 2).
O que não explica nada, porque o “autor” usa o termo legenda para tentar explicar o que é legendário: legendário é o que toca na legenda...E legenda é o que é tocado pelo legendário... E daí para diante, numa redundância sem fim. Legendária. Pliniana em sua redundância circular.
“Acusado Doutor Plínio escondido atrás do Scognamiglio!”
Pois essa redundância é típica do verdadeiro autor do romance Dona Lucília: o próprio Plínio, escondido atrás de Scognamiglio.
Veja-se esta confissão do espírito mitificador de Dona Lucília:“Quando ainda jovem, [Dona Lucília] ao contemplar as qualidades de alma dos que compunham o seu ambiente, com instintiva naturalidade as mitificava tanto que chegava a afastar as suas sempre bem-intencionadas vistas de tudo o que nelas pudesse não ser virtude. Os senões que encontrava na conduta das pessoas, reputava-os exceção. Era como se num belo lenço de seda houvesse pequenos furos. Porém, o resto era seda muito boa...” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p.52).
O Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa  de Aurélio  Buarque de Holanda Ferreira, no verbete mitificar, diz que fazer isto é converter em mito. E no verbete Mito dá os seguintes sentidos, entre outros, a essa palavra:
- “Idéia falsa sem correspondência com a realidade”.
- “Imaginação simplificada de pessoa ou de acontecimentos, não raro ilusória, elaborada ou aceita pelos grupos humanos e que representa significativo papel em seu comportamento”
- Coisa irreal, utopia”.
      Leia-se então agora o que Plínio confessou sobre a mitificação que ele fazia normalmente com algumas pessoas que estimava:
«Tais cogitações levavam-me também a entusiasmar-me por determinadas pessoas, mitificando-as. Eu amava intensamente certos estados de alma que notava nelas, vendo-as muito conexas com o ambiente em torno de mim. E percebia que elas mantinham – em alguns aspectos—uma relação de nível inferior com a inocência e, por isso, eu desejava respeitá-las, mas com a ilusão de um menino que ainda não tinha idéia de pessoas em estado de pecado mortal. E, nessa mitificação – subconsciente e involuntária, mas coerente – eu fazia uma seleção de todos os aspectos tradicionais que ainda existiam nestes ou naqueles conhecidos meus » (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008, p.222).
Portanto, não era só Dona Lucília que mitificava os parentes. Plínio também fazia isso, e aprendeu a fazer isso de sua mãe : para os amigos, mitificação. Para os inimigos, denigramento até a calúnia.
E Plínio confessou, escreveu e Scognamiglio fez imprimir e publicar que Dr. Plínio mitificou a figura de sua mãe, Dona Lucília :
“Sentia emanar dela--[De Dona Lucília]– tanta retidão, harmonia, suavidade e firmeza que ela me parecia uma imaginação, quase uma utopia! Dava –me a impressão de uma “trans realidade” maravilhosa, como uma miragem no deserto” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008,p. 339. Os destaques são nossos).
Ora, essa mitificação da realidade, que fazia recusar ver os defeitos dos seus parentes e amigos, para ver só seus lados positivos é tipicamente liberal e romântica. É puro sonho negador do real.
É tipicamente pliniana.
Como considerar santo --- e com virtudes heróicas--, quem se recusava a ver a realidade tal qual ela era, e que preferia mentir a si e aos outros, ocultando a verdade sobre aqueles que estimava?  Como considerar santo ou santa, quem falseava a realidade movido por seus sentimentos, simpatias e antipatias, e por sua imaginação?
Como considerar santa uma pessoa que se chamou de liberal?
No romance Dona Lucília, o seu pseudo “autor” Scognamiglio escreveu:
“Esse modo de considerar a realidade, pelo qual a todos situava numa clave de seriedade, distinção e grandeza estava muito presente em todas as narrações dela procurando transmitir uma idéia arquetipizada da vida e do convívio entre os homens” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, Vol. I, p. 52).
Então ela não mitificava só os parentes. Ela mitificava tudo e todas as coisas. O que é um traço essencial de uma mentalidade absolutamente romântica. E essa “idéia arquetipizada da vida” mostra que havia nela – ou em quem falou por ela, nesse livro – uma característica platonizante, que, como demonstrou Simone de Pétrement, é fundamentalmente gnóstica. (Cfr. Simone de Pétrement, Le dualisme chez Platon, les Gnostiques et Manichéens, PUF, Paris, 1947).
Portanto, essa mitificação ou arquetipização do real são então modos de  que ela inventava o que era contrário à realidade, transmitindo uma “Idéia falsa sem correspondência com a realidade”. O que significa, pelo menos materialmente, mentir.
Portanto, a mentalidade mitificadora de Dona Lucília foi que encharcou a mentalidade de Plínio de sonhos e mitos. Por isso, ele a chamou de “Mãe da Trans-esfera”.
Contraditoriamente, o “autor” do romance Dona Lucília faz questão de dizer que Dona Lucília ficou “incontaminada“ pelo romantismo:
“Lucília, que em relação ao romantismo mantivera sua alma incontaminada...“(J. Scognamiglio, Dona Lucília, Vol. I, p. 52).
Isso nem é “vero”, e nem é “bene trovato”.
É lorota.
E prova de que isso é falso, é que o próprio Monsenhor Scognamiglio fez publicar o livro Notas Autobiográficas de Plínio Corrêa de Oliveira, no qual se lêem as seguintes palavras dele:
“Compreendi bem que as influências de mamãe e da Fraulein deviam completar-se; e daí resultou uma composição:  eu percebia que minha mãe havia recebido a educação do tempo do romantismo, na qual a mulher devia ser o encanto da família, afável e agradável. Eu, como homem, tinha de ser combativo; mas entendia que não podia ser uma espécie de leão rugindo no mato...Era preciso ser amável e educado, como um verdadeiro católico deve ser” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008,vol. I, p. 278. O destaque é do original).
O resultado parece não ter sido perfeito, pois que o mesmo Plínio afirma, nesse mesmo livro, que a Fraulein procurava combater “as delicadezas” excessivas de Plínio:“Está vendo ? Que vergonha! Ela é mulher e devia ser protegida por você. Na hora de cruzar a rua, o normal é que o menino diga à menina: “Vamos, eu te protejo”. E aqui acontece o contrário: a menina protege o menino!” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008, vol. I, p.266).
      Foi Fraulein Mathilde quem disse isso. Eu não disse nada, que nem estava lá. Só citei o que Plínio contou.
E ainda mesma Fraulein criticava Plínio por não agir de modo varonil. E é o mesmo Plínio quem conta:
“O que é isso? Você, sendo homem, é tratado com todas as delicadezas. É para você que as mulheres apanham as coisas no chão? Jamais! De agora em diante, além de elas não apanharem nada para você, quando alguma coisa delas cair, eu vou lhe indicar: “Apanhe!” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008, vol. I, p. 268).
Na composição delicadeza romântica de Dona Lucília, mais força varonil imposta pela Fraulein Mathilde, parece que prevaleceu a delicadeza romântica, pois o próprio Plínio conta que ao acompanhar uma senhora amiga de sua mãe até a cidade, esta senhora lhe disse o seguinte:
“Olhe, eu não tenho nada a ver com a sua vida, mas, como sinto simpatia por você e quero o seu bem, vou lhe dizer uma coisa: Você não devia deixar-se influenciar tanto por sua mãe, pois sendo ela uma pessoa dos velhos tempos e tendo uma mentalidade antiquada, não é capaz de lhe educar para viver no mundo moderno. Você tem de ser um homem do futuro, mas querendo tanto bem a ela, ficará em algo um homem do passado. Então afaste-se de sua mãe” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008, vol. I, p. 665).
Isso contou Plínio. Mas, a seqüência do texto mostra que a tal senhora se referia a algo mais delicado de dizer...
“De mais a mais, afirmava ela não ser próprio ao homem ter tanta meiguice com mulher nenhuma, pois ele deve ser rígido e de cabeça em pé”. Portanto, eu deveria mudar a minha atitude em relação a mamãe”.
“Achei aquilo muito estranho e pensei:”Essa mulher é louca! Eu, querer menor bem a mamãe?! Discutindo, respondi-lhe que não mudaria, pois queria mamãe além de todo limite! Ela então continuou:
- “Você é um mariola! Maricas! Só uma menina pensaria assim! Você precisa resistir à influência de sua mãe!”
- “Mas eu não quero resistir! Estou de acordo com mamãe”.
-“Homem, então quer saber de uma coisa? Faça o que quiser”.
(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008, vol. I, p. 278).
De novo, não sou culpado de dizer isso. Foi Plínio quem contou e  Monsenhor Scognamiglio que mandou imprimir.
Do fracasso da tentativa dessa mulher de tentar salvar Plínio da influência romântica que Dona Lucília exercia sobre ele, iam nascer a TFP e os Arautos de Monsenhor Scognamiglio...
E Monsenhor Scognamiglio citou, num Jour le Jour de Dr. Plínio, que ele disse o seguinte quando começou a freqüentar o Colégio São Luís, saindo pela primeira vez do aconchego do lar, para enfrentar o mundo. Comentou ele, que foi então que se deu conta do que era a Revolução. E disse de si para consigo:
“Bem essa gente é tão ruim que se eu manifestar a eles tudo aquilo que eu aprendi junto de mamãe, e me comportar junto a eles tal qual eu fui educado por mamãe, eles vão me tratar como efeminado. Porque essa gente não entende mais isso, então eu preciso adquirir certas maneiras um pouco brutas. Porque caso contrário vão pensar que eu sou um efeminado, e isso...”(Plínio Corrêa de Oliveira, apud João Scognamiglio Clá Dias, Jour le Jour,  em 19 de Abril de 1992 – Domingo).
Não fomos nós que escrevemos isso. Tão somente citamos Monsenhor Scognamiglio, que citou as palavras do próprio Plínio.
Como finalizava Santa Catarina de Siena suas cartas, nós também dizemos, finalizando este capítulo:
“E più non dicco...”
***
[No futuro, e se for necessário, estudaremos as fontes da mentalidade e do pensamento de Dr. Plínio, e então analisaremos mais a fundo o livro Dona Lucília, cujo verdadeiro autor deve ter sido o próprio Dr. Plínio, Scognamiglio tendo apenas emprestado o seu nome como “autor—laranja”.
Monsenhor foi  “laranja”.
E, como disse PCO, “cada laranja” simboliza algo...
 
 
 
O que em Dona Lucília era uma tendência de seu temperamento romântico, o mitificar pessoas e coisas por sentimentalismo, Plínio erigiu em sistema de “pensamento”. Isto é, em sistema de imaginação  deformadora de tudo. E mitificar, voluntariamente, é mentir.
Ele também gostava de mitificar, e acabou por mitificar a si mesmo, e a promover sua própria mitificação.
Sistematicamente.
Disso nasceu o culto delirante que ele montou para si mesmo, usando como instrumento, como agente mitificador do culto a ele e à mãe dele, o agora Monsenhor Scognamiglio.
É o que se pode comprovar pelas palavras, quer de Plínio, quer de João Scognamiglio, que tratou disso num artigo intitulado: “O Papel dos “Fatinhos” na Formação do Mito”.
Plínio contava continuamente “fatinhos“ de sua vida pessoal, que Scognamiglio repetia, para criar uma áurea lendária em torno da pessoa do pseudo profeta, a fim de montar o culto para ele e, mais tarde, para si mesmo.
“Quando o personagem vai se tornado mais velho e o essencial de sua fisionomia já se destacou com maior nitidez, tem inicio um esforço, também meritório, para relacionar com essa linha geral os fatos menores de sua vida. Então há um ajuste destes últimos para a cognição inteira do personagem. Depois há um trabalho que é a composição do quadro: considerar juntos a linha geral e os fatos menores, uns se enriquecendo pelos outros, obtendo-se o total da personalidade”.(João Scognamiglio Clá Dias, O Papel dos “Fatinhos” na Formação do Mito”, in Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 23).
A seguir, nesse artigo, se diz como vai surgindo o mito, isto é, como Plínio foi montando a sua auto mitificação através da narração muito imaginária dos fatos miúdos de sua vida, que ele contava a Scognamiglio, e este os repetia, depois, aos tefepistas, para fanatizá-los.
Falando da mitificação de um rei santo, São Luís, comentou PCO:
“Em geral, quando isso se dá, a pessoa se encontra próxima ao termo da vida ativa, pública, e assim permanece durante os últimos anos de sua existência”.
“(...) Porém, começa aí o fato mais interessante: a pessoa morre e o trabalho anterior se repete ao longo das gerações. Aquele passado vai se destacando da vida presente, e uma série de fatos que compunham mais o presente do que o passado, e mais a vida de todos os dias do que a grandeza mítica (???) do passado, vão sendo descobertos pelos historiadores. E dá-se um trabalho de enriquecimento de dados, de enriquecimento de quadros, que se soma ao trabalho dos comentadores. Começam os poetas e os literatos a declamarem a pessoa”.
“Ao mesmo tempo que o quadro é enriquecido com novos dados, e também analisado por biógrafos, por outros estudiosos, para formar um grande todo. E aí se constitui inteiramente o mito.
“Assim uma série de fatos do tempo de São Luís, que em vida dele não tinham interesse, adquirem-no quando o monarca parte para a eterna bem-aventurança.
“Por exemplo, que tipo de comida ele mais apreciava? Podia ser que durante a vida dele isto não tivesse sido notado, mas depois, quando se tratava de fazer a legenda do rei, começou a ganhar importância Então saber se ele apreciava tal vinho, tal pão e tal manteiga, ou que gostava de carne vinda de tal lugar--  [Exatamente como Plínio gostava de fazer e de dizer --Plínio está falando dele mesmo, e não de São Luis] --; saber que São Luís, uma vez, visitando certa aldeia, encontrou um pobre e lhe disse tais palavras, agasalhou-o de tal maneira – enfim, pormenores que em vida dele não faziam parte nem dos “fatinhos, nem dos “fatões”, porque estavam incorporados à rotina trivial de todos os dias, nesse primeiro trabalho post mortem tomam vulto e enriquecem a sua biografia. E os historiadores se afanam em busca dessa documentação”.
“Ao mesmo tempo, aparecem as canções populares que exprimem saudades do rei, ocorrem os primeiros milagres junto à sepultura dele,  - [Plínio está falando de si mesmo e de sua futura sepultura, assim como de seus futuros imaginários milagres no cemitério da Consolação. Puro sonho!] ---cantados por bardos populares, aparece aquilo, surge aquilo outro, coisas que continuam a engrandecer – já então com a literatura e, às vezes com a ficção e com lendas—a figura do rei.” (João Scognamiglio Clá Dias, O Papel dos “Fatinhos” na Formação do Mito”, Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 23, Os destaques são meus).
Plínio, falando do Rei São Luís, falava de si mesmo.
Note-se que ele acaba por supor que muito do que se conta do santo Rei de França, foi, segundo ele, inventado, mitificado, e que, de fato, não teria ocorrido. Foi ficção.
Loisy, o heresiarca do Modernismo, excomungado por São Pio X, disse o mesmo da vida de Jesus Cristo: os Evangelhos teriam registrado o mito criado em torno da figura de Cristo.
Prossigamos na citação -- que é longa--, mas reveladora...
“Começam também a aparecer os quadros, as esculturas, os esmaltes e as iluminuras, os bordados, as tapeçarias representando o santo soberano, e assim ele vai enchendo os espaços da história”.“Esse processo se verifica na geração posterior a ele”.
“Surgem novos dados e novos interesses.
“Dá-se então como que uma pausa nesse trabalho e aquela imagem se fixa. Finda essa pausa, reinicia-se a mesma elaboração. Quer dizer, aparecem muitos fatos da vida dele que tiveram de ser mantidos em segredo, às vezes até anos depois dele morrer, enquanto não falecerem todos os concernidos em ditos episódios.(...) “E esses fatos, mais uma vez, contém dados enriquecedores da grande linha, bem como dados menores. Novamente cresce a figura do mito; depois, há uma outra pausa.(...)
“Nisso, as gerações se sucedem como uma pulsação, em que a anterior tem apetência de algo, a seguinte tem apetência do contrário. Quando uma geração tem apetência das linhas gerais, a seguinte é sedenta de “fatinhos”. E quando uma geração correu para os fatinhos, a seguinte presta mais atenção nas linhas gerais. Forma um balancé harmônico até chegar o supremo silêncio histórico”. (João Scognamiglio Clá Dias, O Papel dos “Fatinhos” na Formação do Mito”, Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 23).
“Quando o personagem não é um santo, o que acontece? Faz-se o grande sono da história: cada vez mais aquela figura vai se apagando da memória popular, ficando apenas para os eruditos. Mas, há também pessoas para estes conhecerem, que a imagem daquele só será recordada por eruditos mais ou menos fanáticos dela; E depois, definitivamente, é relegada à poeira de glória dos museus. E acabou.” (João Scognamiglio Clá Dias, O Papel dos “Fatinhos” na Formação do Mito”, Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 24, Os destaques são meus).
Essa exposição da formação de um mito ilustra bem o conceito romântico de História adotado por Plínio C. de Oliveira; uma história, como ele dizia, feita de “plumas e brumas”. Feita mais de lendas e mitos do que de fatos reais. Feita de mentiras.
E o pior é que ele considerava que a própria vida dos santos canonizados sofreu esse processo de mitificação.
E Plínio preparou conscientemente, durante toda a sua vida, o seu próprio mito.
Talvez esperasse ele que alguém, um dia, escreveria sua epopéia: a Pliníada.
 
 
Dr. Plínio  diz que, quanto maior for a inocência de uma pessoa, mais ela, olhando uma coisa, conseguirá imaginar como essa coisa seria no limite do imaginável de sua excelência.
E ele dá um exemplo disso: “Assim diante de uma porta encimada por um arco, ele pode ter ‘uma finíssima visualização  do arco, formar a idéia de um arco dos arcos, como aquele arco que está vendo deveria ser” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 161).
Mais uma vez, uma formulação imprecisa.
Que significa imaginar um arco dos arcos -- um super arco—sobre uma porta?
É preciso realmente ser imaginativo demais imaginar um super arco. Porque, à primeira leitura, um arco é uma parte de uma circunferência com determinado raio. Como imaginar então um super arco? Isso seria o equivalente de imaginar um super quadrado.
Qualquer quadrado só pode ter quatro lados iguais e quatro ângulos retos iguais. Não se pode imaginar um super quadrado.
Possivelmente Plínio devia querer falar não de um arco—figura geométrica—mas de um arco triunfal, como o de Tito, por exemplo, ou o Arco do Triunfo de Napoleão em Paris. Não apenas de uma arco sobre uma porta qualquer. Mas a imprecisão de expressão o traiu.
Quem sabe se além da Pliníada ele esperaria que se lhe construísse um Arco de Triunfo pliniano. Em Higienópolis.
Veja-se, porém, como Plínio, embora redundante e impreciso, era imaginativo:
“Essa noção do arco dos arcos vem através dos sentidos e de algum modo está viva na pessoa. E isto faz com que ela tenha a respeito de quase tudo uma fecundidade em formar noções ideais, muito subconscientes, mas efetivas. E à medida que a pessoa vai conhecendo esse universo, vai tendo em gérmen a idéia de um universo ideal. Este universo ideal, ela sabe que, tal qual imagina, ele não existe, mas que, de algum modo, algo deve existir. ’Esse algo corresponde a uma visão sublimada e transcendente da realidade que passamos a analisar” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,  ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 161. O destaque é nosso).
Essas frases são de tal modo sem nexo lógico que fica difícil compreendê-las. A desconexão entre elas dificulta fazer uma crítica conectada desse parágrafo. Para começar, que seriam “noções ideais muito  subconscientes”?
É possível ter alguma noção consciente do que é muito subconsciente? Plínio, ou é freudiano, ou surrealista. E pior é que seriam “noções ideais” não só sub conscientes, mas “muito subconscientes”.
É tal a ilogicidade—o desarrazoado das afirmações emaranhadas—que fica difícil pegar uma ponta e desenrolar esse aranzel.
Talvez um aluno que não estudou para uma prova pudesse dar essa desculpa ao professor : “Tenho noção da matéria, mas é uma noção ideal muito subconsciente. Por isso não lhe respondo”.
Se der essa desculpa esfarrapada, certamente esse aluno levará um solene zero. Um zero bem consciente e bem real. Nada trans-esférico.
Um zero bem esférico.
E depois está escrito: “E à medida que a pessoa vai conhecendo esse universo, vai tendo em gérmen a idéia de um universo ideal”.
Como? Como?
Provavelmente ele queria dizer que à medida que se vai conhecendo esse universo real, vai surgindo em germen a idéia de um universo ideal.
Portanto, é do universo real que PCO vai desenvolvendo a idéia de um universo ideal.
Vejamos, então,  o que seria  esse universo ideal de Plínio, a Trans-esfera, que ele imaginou existir, sabendo que ele não existe, mas que de algum modo afirma que deve existir.
Garante-nos isso  Plínio Correa de Oliveira.
“Trans-esfera é uma visão transcendente da realidade que resulta da contemplação dos possíveis de Deus, a partir do universo criado ou das obras dos homens, e que produz na alma que a ela se consagra um élan de união com o absoluto de Deus” (PCO, A Inocência…, p. 175. Os destaques são do original) .
A Trans-esfera seria uma “visão transcendente da realidade” existente.
Mas o que é uma visão transcendente do real?
O delírio é uma visão transcendente da realidade?
Numa visão delirante,  a pessoa vê o que não existe, julgando que o inexistente existe.  É assim que Plínio vê Trans-esfera inexistente que existe.
E a Trans-esfera pliniana- da qual Dona Lucília foi a Mãe – resultaria “da contemplação dos possíveis de Deus “, mas “a partir do universo criado ou das obras dos homens”.
Como se pode contemplar os possíveis de Deus, se o homem não tem acesso a seres em potência, e, ainda mais, se o homem não pode conhecer a mente de Deus?
E como essa visão dos possíveis na mente divina se faria a partir das criaturas de Deus e das obras humanas reais?
Pior ainda, um disparate herético estrondoso: a  contemplação da inexistente Trans-esfera causaria “um élan de união com o absoluto de Deus”. E já vimos que, para PCO, essa união com o absoluto seria divinizadora do homem. Mais: causando a unicidade com o Absoluto.
A Trans-esfera causaria algo muito superior  ao que faz em nós o Batismo. Ela seria um oitavo sacramento.  E sacramento  ontologicamente divinizador em sentido absoluto. E como a Inocência primeva seria inata no homem, ela seria uma graça natural sobrenatural. E se for a Trans-esfera que causa esse élan de união com Deus, o que ela daria ao homem que a Inocência primeva não deu?
Que confusão! Que caos! Que desordem mental realmente trans-esférica.
Isso é uma loucura completa.
A Trans-Esfera de Plínio é algo totalmente subjetivo e  imaginário. É sonho. É quimera. Delírio.
Que produz um “élan”.
Lembranças de Bergson...
A visão transcendente da realidade leva a buscar a Deus através da abstração, e dos transcendentais existentes em todos os seres: (ens, res, aliquid, unum, verum, bonum, aos quais alguns acrescentam ainda o pulchrum) como também através dos símbolos, que nos levam a ver Deus como Ser absoluto, Ens a se, distinto absolutamente do mundo, o Unum por antonomásia, o Verum, o Bonum, e o Pulchrum em absoluto. Mas a compreensão natural dos seres e dos transcendentais não causa união com Deus que só a graça santificante pode dar.
Uma visão transcendente da realidade não resulta da contemplação dos possíveis em Deus, desconhecidos para o homem, mas a visão dos transcendentais é  fruto da  abstração das coisas que vemos e conhecemos, coisas verdadeiramente criadas. Nunca das possíveis que podemos entender que existem como seres ideais na mente divina, mas que não são reais ou atuais, que, por isso mesmo, não podemos conceber e nem imaginar como seriam.
Os possíveis em Deus—como já vimos—não são possíveis de serem contemplados e nem imaginados pelos homens. Só podemos saber como eles não são, isto é, que não podem ser contrários ao que Deus é. Que não podem ter notas constitutivas contraditórias.
Os possíveis em Deus, não tendo o ato de existir fora da mente divina, não tendo sido realmente criados, --pois que se fossem criados já não eram possíveis, mas seres realizados-- e, portanto, não têm poder de atuar. Eles não têm potência ativa. E por isso,  eles não podem ser causas agentes. Eles não podem causar em nós nem mesmo o élan de que fala Bergson em seus devaneios filosófico-gnósticos, que parecem ter influído na imaginação de Dr. Plínio, que foi imaginário até em seu título de Doutor.
Pois Plínio só foi Doutor na Trans-Esfera. Nunca fez tese de Doutorado. Nem no Angelicum. Sua doutoral tese ficou no mundo dos possíveis.
Plínio analisa seu próprio conceito de Trans-Esfera dizendo:
“O que é essa esfera? Não é uma esfera nova da realidade, mas algo que o espírito humano concebe como um produto do espírito” (PCO, A Inocência…, p. 173.Os destaques são nossos.).
PCO afirma que a trans-esfera não é uma esfera nova da realidade. Logo, ela não existe realmente. Mas que é concebida pelo espírito humano.Ela existiria na mente humana.
Se a Trans-esfera é “concebida na mente humana, ela só poderá ser tida como uma coisa imaginária à qual subjetivamente se atribuiu existência, -- como a um saci-pererê --  e não como um ser real. Ela é puramente imaginária. Mas então ela nada tem a ver com os entes possíveis em Deus. Que Deus não tem imaginação.
Plínio avança mais em seu cerúleo devaneio “metafísico”  trans-esférico:
“[A Trans-Esfera= o Saci-Pererê de Plínio] É uma imagem que o espírito humano cria para si, de uma ordem irreal, hipotética, não existente, formando-se às vezes de modo muito efêmero, por certos aspectos da natureza, por atitudes dos indivíduos etc., que não constituem, portanto,  uma ordem real. São aspectos fugazes, são lampejos, que as coisas tomam e com os quais o homem constitui um modo habitual de ver todos os seres como se estivessem numa trans esfera” (PCO, A Inocência…, p. 173. Os negritos sublinhados são nossos. O apenas sublinhado está no original do texto citado).
A Trans-Esfera seria “uma imagem que o espírito humano cria para si, de uma ordem irreal, hipotética, não existente”.
Mas apesar de não existente, PCO afirmou que a mãe dele era a “Mãe da Trans-Esfera”. E fez colocar esse “pensamento” como uma jaculatória na ladainha de Doma Lucília. E diz que essa ordem inexistente nos causaria uma união com Deus.
Como o que não existe pode causar algo?
Essa é uma gagueira trans-esférica!
A Trans–Esfera—da qual Dona Lucília seria a mãe—apareceria  e desapareceria, como luzes fugazes, tal como o Saci-Pererê. Ou como o Boi-Tatá. A Trans-Esfera era o Boi Tatá de Plínio.
Essas imagens fugazes da Trans–Esfera,  -- os flashes de Plínio-- não seriam conceitos. São puras imaginações. Não são reais, e não constroem um mundo real. A Trans-esfera de Plínio é tão irreal quanto o Papai Noel ou a fada Morgana. Até o tesouro nacional é mais real do que a Trans-esfera pliniana.
Plínio percebia a Trans-esfera por lampejos fugazes, os flashes de que ele tanto falava. Como Bergson.
Como visões fugazes, fantasmagorias de alguém que esta com febre alta, ou de quem perdeu a consciência do real...
E prossegue Plínio, sonhando, vendo o que não existe:
“Ele sabe que essa Trans-esfera, como ele a vê, de fato, não existe. Mas sabe que, quando os homens todos caminhando muito rumo a Deus, todas as coisas da realidade tomam estavelmente aspectos susceptíveis de serem sublimados, de modo a constituir uma visão transcendente da realidade, uma trans–esfera. Assim, a Trans-esfera  é um possível existente apenas na mente divina, que nos compete desenvolver e explicitar, e no qual vemos muito mais marcadamente os reflexos de Deus”  (PCO, A Inocência…, p. 173).
Então, Plínio sabia que  a Trans-esfera “como ele a vê, de fato, não existe”...E apesar disso, ele acreditava nela.
Ela era o Boi-tatá de Plínio.
Antes ele dissera que a trans-esfera era algo concebido no espírito do homem. Agora, Plínio diz que a Trans-esfera é um possível existente apenas na mente divina. Contradição. A menos que o espírito do homem e a mente divina sejam a mesma coisa.
Cabe bem aqui colocar um parênteses, dando uma citação de Plínio, provinda de outra fonte que o livro em foco:
Que Plínio Corrêa de Oliveira tinha tendência a sonhar e a negar a realidade, acreditando no que imaginava, se tem a prova no que ele mesmo contou de si mesmo.
“E essa idéia do viver em algo que não é o real, mas que poderia ser o real algum dia e no qual a minha alma quereria viver, passou a constituir uma espécie de tendência freqüente no meu espírito” (Plínio Corrêa de Oliveira, in revista “Dr. Plínio”, Ano  IV, Novembro de 2.001, No 44, p. 16).
Isso é um estado normal no ser humano?
Atenção, caro leitor, para a seguinte citação:
«É uma coisa muito singular que minha imaginação nunca se mostre muito agradavelmente senão quando minha situação é a menos agradável possível, e que, ao contrário, é menos sorridente quando tudo ri ao redor de mim. Minha má cabeça não pode sujeitar-se às coisas. Ela não saberia embelezar, ela quer criar. Os objetos reais ali se reproduzem, mais ou menos como são, ela só sabe ornar os objetos imaginários. Se quero descrever a primavera, é preciso que eu esteja no inverno; se quero descrever uma bela paisagem, é preciso que eu esteja cercado por muros, e disse cem vezes que se algum dia fosse metido na Bastilha, lá faria um belo quadro da liberdade ». (Os destaques desta frase citada são nossos).
Esse texto acima citado, de quem é ?
Poder-se-ia muito bem pensar que é de Dr. Plínio.
Não é.
É de Jean-Jacques Rousseau.
Mas revela a mesma mentalidade...-- digamos caridosamente : mentalidade imaginativa...--  típica do Romantismo, quer no «tradicionalista» PCO, quer no revolucionário Rousseau.
O romântico Rousseau tinha um pensamento muito parecido com o de Plínio a respeito dos seres reais e dos seres imaginários, que Plínio chama de seres possíveis em Deus, e que seriam a participação no nada:
«C'est une chose bien singulière que mon imagination ne se monte jamais plus agréablement que quand mon état est le moins agréable, et qu'au contraire elle est moins riante lorsque tout rit autour de moi. «Ma mauvaise tête ne peut s'assujettir aux choses. Elle ne saurait embellir, elle veut créer. Les objets réels s'y peignent tout au plus tels qu'ils sont; elle ne sait parer que les objets imaginaires. Si je veux peindre le printemps, il faut que je sois en hiver; si je veux décrire un beau paysage, il faut que je sois dans des murs; et j'ai dit cent fois que si jamais j'étais mis à la Bastille, j'y ferais le tableau de la liberté». (Jean-Jacques Rousseau, Les Confessions, Livre IV)].
(A tradução desse texto acima citado, para o português foi tirado do livro As Confissões, de Rousseau, do prefácio e tradução de Wilson Lousada Ediouro.  Universidade de Bolso, p. 117).
O «tradicionalista» PCO era tão parecido com o romântico Rousseau que também sua  «cabeça não podia sujeitar-se às coisas» tais quais são. Como Rousseau, PCO tinha necessidade de embelezá-las imaginativamente.
Mas quando a mente não pode sujeitar-se às coisas reais, ao mundo real...arautos começam a pulular pelas ruas, vestidos com roupas medievais. Como o pobre Dom Quixote, perturbado, usava couraça, mesmo em dias que não eram de carnaval.
E há ainda outra passagem das Confissões de Rousseau que lembra muito o que PCO contava de si mesmo:
“Como em geral os objetos me causam menos impressão do que as lembranças, e como todas as minhas idéias são em imagens, os primeiros traços que se gravaram em minha mente, ali ficaram e aqueles que se imprimiram depois combinaram-se com os que se apagaram. Há uma certa sucessão de afetos e idéias que modifica as lembranças que se seguem e que é preciso conhecer para julgá-las  acertadamente. Aplico-me em desenvolver em toda parte as primeiras causas para fazer sentir o encaminhamento dos efeitos” (Jean-Jacques Rousseau, As Confissões, prefácio e tradução de Wilson Lousada Ediouro.  Universidade de Bolso, p.119. Destaques são nossos).
O pré romântico Rousseau—um dos pais do Romantismo francês—afirma que as lembranças lhe causavam mais impressão do que os fatos de que se lembrava, e que era preciso estar em situação oposta a algo para poder descrever melhor esse algo, pois as recordações lhe eram mais importantes que as coisas.
Plínio também disse algo parecido, ao descrever as lembranças que sentia de um passeio que fez com sua mãe, Dona Lucilia, num pasto em uma colina de Águas da Prata. Nesse passeio, Plínio se arranhou num graveto e sofreu outros mínimos inconvenientes. Depois, fazendo a sesta, ele ficou imaginando...Note-se que nessa época ele tinha menos de dez anos, e é evidente que os « pensamentos » que serão atribuídos ao menino Plínio, na realidade são de Plínio adulto, que assim se apresentava como gênio, querendo imitar o péssimo Proust, do qual Plínio adulto admirava o estilo e certos gostos.
«Muitas vezes eu não tinha sono e permanecia deitado na cama, vendo os raios do sol que entravam às torrentes pelas frestas da veneziana fechada. Vinha-me, então, a lembrança de toda a caminhada e pensava: «Que lindo passeio ! Que bonito aquele alto de montanha ! Que bela tal  coisa e tal outra! ». Depois fazia uma reflexão : «Por que esse passeio me parece agora mais bonito do que quando eu estava lá em cima? O que está acontecendo ? Estou gozando o passeio mais aqui, no silêncio do quarto, do que lá. Isso será racional ? Não estarei exagerando, aos olhos de minha recordação, a beleza de um passado  que não foi tão belo ? A minha lembrança é verdadeira, ou está deformada por algo que surge logo depois do fato acontecido e que são as saudades ? » (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Editora Retornarei, São Paulo, 2008, vol.I, p. 451).
Pela cabeça romântica de Plínio, vemos que, nesse momento, perpassou uma certa lucidez racional... Que ele rapidamente envolveu nas brumas das saudades...
E segue o devaneio...
«Estou aqui na cama e tenho saudades do movimento. Estou na penumbra e tenho saudades da luz. Estou entre quatro paredes de um quarto e tenho saudades da amplitude enorme do horizonte que se abria diante de mim. Que está se passando em mim? »
«A coisa foi menos boa do que estou sentindo, ou foi tão boa quanto estou sentindo ? Por acaso fiz uma filtração ? Esqueci alguns aspectos de segunda ordem, e neste momento estou vendo o essencial? »
« Não será que agora estou compreendendo bem o passeio ? O melhor do passeio não são as saudades dele? Ou seja, o mais real e vivo do fato não se apanha depois que este se passou ? O que é a recordação. É uma deformação embelezadora, ou o suco da vida, pelo qual se vêem os fatos como através de ume lente de aumento? »
«Hoje percebo que, depois de descer a colina, no momento de reflexão, tudo aquilo que era secundário no passeio – os insetos, o carrascal, e o arranhão—era esquecido por mim como algo sem importância. E minha memória por uma seleção justa e natural, guardava as melhores partes da realidade e deixava de lado as bagatelas. Eu compreendia melhor o alto da montanha » (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008, vol.I, pp. 451- 452).
Exatamente o que faz o romantismo lírico: apagar da memória, desejando eliminar da realidade, tudo o que é ruim ou defeituoso, para sonhar uma realidade idealizada, tendo apenas os elementos positivos, e ainda assim sublimados, de tal modo que, em seu sonho, a colina virou montanha, e o pasto carrasquento, pradaria aveludada, e a vista mais larga, panorama imenso.
Vejamos mais...
«Era preciso lembrar-me da excursão que fizera, pois o melhor fruto dela, para a formação de minha mentalidade, não era o subir, mas o descer, parar, pensar e depois recordar. Tratava-se de idéias infantis que apenas começavam a se desenvolver, mas era sobretudo o mundo do pensamento que ia me  mostrando, no alto da montanha, os seus encantos... »
« O resultado é que, apesar de não ter subido mais do que duas ou três vezes, aquelas excursões  foram para mim altamente entretidas. Era-me muito agradável imaginar como seria a visão ideal dos panoramas do alto de todas as montanhas as quais eu não havia subido nem seria capaz de subir. E um certo valor se acendeu em minha alma : um padrão ideal das elevações e das altitudes, analisadas por um determinado ângulo próprio a mim, através do qual eu via tudo. Isto me dava a convicção de que, cultivando pensamentos como esse, a respeito de todas as coisas, eu teria uma riqueza interior muito grande, pois aquilo não era uma pura divagação ».
« Entretanto, eu recusava a ilusão enganosa de imaginar que pudessem existir, realmente, homens e mulheres de carne e osso com a perfeição que eu desejava, ou objetos materiais sensíveis com a beleza ideal que eu queria. E sabia que não chegaria a conhecer nesta terra um ambiente humano que atingisse esse píncaro» (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008, vol.I, p. 452).
Está aí patentemente expresso, embora em oração invertida, que Plínio julgava ser uma «tentação» supor que a perfeição da sua Trans-esfera comportasse a materialidade dos corpos e objetos materialmente sensíveis. O mundo dos sonhos de Plínio recusava a materialidade.  A Trans-esfera de Plínio não admitia matéria. Não admitia seres humanos de carne e osso. Plínio era um gnóstico. Daí, ele ser tão contrário ao casamento e à reprodução sexual.
Prossigamos lendo as Notas Autobiográficas de Plínio editadas imprudentemente pelo Monsenhor agora Doutorado...
«A partir disso nasceu uma análise em relação ao mundo que me cercava. Eu via nele coisas belas e também outras reprováveis, erradas e tortas, mas sentia que, em alguma medida, as realidades podiam ser elevadas até esse ideal, de onde surgia a idéia de que o mundo deveria ser corrigido» (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008, vol.I, p. 452-453).
Mais uma prova da Gnose de Plínio: ele queria corrigir o mundo criado por Deus. Todo gnóstico quer corrigir ontologicamente o mundo.
Dessa pretensão nascia o desejo de ir para um mundo superior, uma trans- realidade totalmente espiritual, que Plínio chamou de Trans –esfera, e que seria formada por seres divinizados : os «possíveis de Deus».
Vejamos como Plínio prosseguia sua meditação romanticamente gnóstica aos sete ou oito anos de idade.
 « E pensava o seguinte: « Eu sou igual a todos ; logo, todos são iguais a mim e, na mente deles, há o mesmo que há na minha. Se os outros tiverem honestidade de alma para fazer essa operação que eu faço, todos levarão os acontecimentos, junto comigo, para uma situação ideal, onde eles agora não estão, e os homens serão de um modo como atualmente não são » (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008, vol.I, p. 453. O destaque é nosso).
Plínio julgava que, « pensando » como ele «pensava», isto é, imaginando, seria possível sair deste mundo material e alcançar uma esfera ideal—uma trans-esfera, na qual os homens não teriam mais corpo material, nem as misérias que o pecado original trouxe para o corpo  e para a alma do homem. Os homens seriam, espiritualizados, angelizados, divinizados...
Leiamos até o fim o que Plínio disse secretamente, e que Monsenhor Scognamiglio agora publicou:
«Eu sentia que o impulso de minha vida consistia em fazer isso! De maneira que meu primeiro desejo de realizar uma obra na terra foi a partir dessas reflexões, querendo caminhar para essa perfeição ideal. Não era ainda a luta contra o mal, mas a idéia em função da qual, no encontro com o mal, eu diria mais tarde : « Não ! ».(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008, vol.I, p. 453).
Está aí esboçada nessas citações de Plínio a Gnose oculta da TFP e dos Arautos.
A TFP e os Arautos são meros tapumes de uma seita gnóstica, que é a sua alma secreta:a Sempre Viva, cuja doutrina oculta, e agora publicada, é uma Gnose romântica.
Dr. Plínio era um gnóstico romântico e sonhador. Imortal que morreu.
Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, seu discípulo perfeito, –doutorado e doutrinariamente muito ignorante-- usou a seita secreta da TFP e dos Arautos, para muito espertamente subir na vida. Ele já alcançou sua recompensa. Triunfou, ora montado em galopante restrição mental, ora entrincheirado atrás de muralha periclitante de suas moedas de ouro.
Julga ele que tolo sempre acredita, e que esperto sempre tem preço... Quanto aos cúmplices, esses sempre poderão ser « pressionados »...
Eis o que mais diz Plínio da sua Trans-Esfera:
“De maneira que a trans-esfera é um possível em Deus, não criado; porém um possível virtualmente já criado, do qual nós temos uma certa noção a partir dos seres criados ou de obras feitas pelos homens. De alguma forma, esse possível já vive em nós... desde que não sejamos tão miseráveis que nada em nós tenha restado daquele possível que nos tornaria mais parecidos com a nossa própria transcendência. Isto é, com aquele modelo ideal de nós mesmos para o qual devemos tender” (...) Então a essa visão sublimada da realidade nós chamamos de Trans-esfera”.(PCO, A Inocência…, pp. 173-174. Os destaques são nossos).
Propriamente um deslizar do delírio para o desvario:
A Trans esfera não existe, pois é um possível “não-criado”;
Mas é um possível em Deus “virtualmente criado”;
Possível do qual “temos uma certa noção”;
E que “vive em nós”;
Que atua em nós, fazendo-nos mais parecidos com “aquele modelo ideal de nós mesmos”, “com nossa própria transcendência”.
Como aquilo que realmente não existe pode atuar?  Só pode atuar o que está em ato. Um possível, por definição, está em potência, e não pode ter potência ativa para atuar. Só o que está em ato pode atuar.
E o mais misterioso está no seguinte trecho: “desde que não sejamos tão miseráveis que nada em nós tenha restado daquele possível que nos tornaria mais parecidos com a nossa própria transcendência. Isto é, com aquele modelo ideal de nós mesmos para o qual devemos tender” (...) Então a essa visão sublimada da realidade nós chamamos de Trans-esfera”
Que modelo é esse de nós mesmos que seria a nossa própria transcendência? Com o modelo ideal de nós mesmos para o qual devemos tender? Como?
O “modelo de nós mesmos”—modelo real e não ideal --ao qual devemos nos conformar é Deus. É Nosso Senhor Jesus Cristo. E Plínio disse que, no Juízo, encontraremos Jesus Cristo nosso sósia perfeito, nosso modelo transcendente. Nosso Arqui alter-ego. Um Christus alter Plinius.
Mas para Plínio, esse modelo transcendente de nós mesmos está no mundo dos possíveis, na Trans Esfera. Desse modo, Cristo estaria Ele também na Trans Esfera. Deus estaria, Ele mesmo, no mundo dos possíveis. Deus e o Paraíso seriam a Trans-esfera reunião de todos os possíveis.
A Trans-esfera seria o pléroma gnóstico.
Loucura.
Só podemos passar da vida natural à sobrenatural por meio da graça recebida em dois sacramentos: o Batismo e a Penitência ou confissão. O Batismo perdoa o pecado original, (e os pecados atuais se os houver), e nos dá a vida da graça, tornando-nos filhos adotivos de Deus, membros da Igreja e herdeiros do céu. Quando por cometer pecado mortal perdemos a vida da graça, a vida sobrenatural, podemos recuperá-la por meio da confissão. Daí, o Catecismo ensinar que esses dois sacramentos são absolutamente necessários para a salvação: o Batismo para todos, e a Confissão para os que perderam a graça santificante pelo pecado mortal, depois do Batismo. Não há outros meios de obter a vida sobrenatural.
Entretanto, Plínio diz que há outro meio de ser levado à vida sobre natural: a Trans-Esfera.
“Portanto, na trans-esfera, há muito mais que uma vue de l’esprit com algo vivo em nós, que nos projeta numa ordem de vida que é a ordem sobrenatural, onde nos tornamos de algum modo cidadãos da cidade que ainda não construímos. E onde a cidade que ainda não construímos de algum modo já vive em nós” (PCO, A Inocência…, p. 74).
Portanto, a Trans-esfera “nos projeta numa ordem de vida que é a ordem sobrenatural”.
Plínio inventou um “sacramento” natural novo: a Trans-Esfera. Por meio da Inocência Primeva e das idéias universais inatas no homem, alcançaríamos e nos uniríamos a um Eu superior e divino (o Eu de Cristo), modelo-sósia de nós mesmos, e nos faríamos idênticos a Cristo, e isto é que nos salvaria, e não cumprimento da ‘tabela dos dez mandamentos”.
A inocência primeva seria um conhecimento salvador anomista. Exatamente como ensina a Gnose.
Euclides da Cunha, referindo-se ao Antonio Conselheiro, intitula um  dos capítulos de Os Sertões de “Um Gnóstico Bronco”.
De Plínio Corrêa de Oliveira se pode dizer que foi um burlesco gnóstico romântico do século XX.
Nunca um “Crociato”...
E continua Plínio, delirando:
“De modo que essa “vue de l’esprit” se move em direção a um futuro existente no além, que atrai o homem.
“Mas esse futuro existe mesmo, ou não existe? Como possível, como causa agente existe, na medida em que raízes desse movimento da alma se encontram na natureza criada. Portanto, essa vue de l’esprit é o ato inicial que nos conduz ao píncaro da realidade” (PCO, A Inocência…, p. 175. O sublinhado é do original).
Agora PCO foi ainda mais além.
As “raízes”  desse movimento salvador “se encontram na natureza criada”. Portanto, não só no homem, mas em tudo.
Um possível – ser não existente em ato—seria causa agente que conduziria ao “píncaro da realidade”: Deus.  A Trans-esfera de Plínio seria o sacramento supremo que Cristo não instituiu. O inexistente é que conduz ao píncaro da realidade existente.
Os possíveis, que Plínio dizia que realmente não existiam, unidos na Trans-esfera pliniana, constituiriam o píncaro da realidade.
É delírio demais.
Pior.
É heresia
E quem escreveu isso se dizia “vir catholicus totus apostholicus” !???!
A Trans-Esfera atuaria pois em nós, e nós mesmos poderíamos atuar na Trans-Esfera.
Plínio dá exemplos de pessoas e fatos históricos trans-esféricos.
“Dom Sebastião (1554- 1578) foi com certeza uma figura trans-esférica” (PCO, A Inocência…, p. 171).
Pena que, até Plínio, ninguém percebera isso. Nem Dom Sebastião.
E lá vai Plínio a defender Dom Sebastião e o sebastianismo!!!
Mas o auge do ridículo está noutra página:
“Um exemplo brasileiro: a famosa cena imortalizada por Pedro Américo, em que se vê Dom Pedro I proclamando a independência do Brasil. Sem dúvida não ocorreu exatamente como está no quadro. Mas o artista captou algo da realidade, e essa realidade até hoje nos influencia. Pode-se dizer, portanto, que a cena, e também Dom Pedro I, tal como foi visto por Pedro Américo, pertencem a essa visão transcendente da realidade que denominamos trans-esfera” (PCO, op.cit., p. 177).
Trans-esfera, visão transcendente da realidade...
Dom Pedro I passou a ser um ente possível da Trans-esfera, sendo ao mesmo tempo, imperador do Brasil.
Coitado do Dom Pedro. Só essa infelicidade lhe faltava, a ele a quem tanto faltava, desde educação até dignidade imperial.
Plínio dá alguns exemplos de casos estéticos ou naturais, que analisados conduzem a uma conclusão puramente lógica, a qual ele toma, como sendo prova de que existe a Trans-Esfera.
O primeiro exemplo probante da realidade da Trans –esfera é que Goethe teria dito, certa vez que, na torre da Catedral de Estrasburgo, faltariam quatro torreões pequenos. Então, o conservador do Museu disse a ele que esses quatro torreões constavam do projeto original.
Ora, isso tem tanta possibilidade de ser concluído, como “prever” que na seqüência 2 – 4 -- 6 -   ?  -  10- 12 -14 , falta o número 8.
No gótico, eram comuns esses torreões complementares nos quatro cantos de uma grande torre. Eram como échauguettes nas torres de um castelo.
O segundo exemplo, PCO o tira do perfil do monte Fuji que parece absolutamente simétrico, sem que as duas vertentes se encontrem numa ponta aguda visível, pois que está sempre coberta de neve.
E sobre isso diz PCO:
“Se alguém toma um desenho representando o monte Fujiyama e procura completar à mão o cone, não consegue por ali o cone perfeito que daria toda a beleza do Fujiyama. Quer dizer, percebe-se que seria possível haver  um cone, mas que não é como nenhum dos cones que se poriam. Dele se tem apenas uma insinuação. Tem-se algo à maneira de um conhecimento metafísico, que se conhece mais à maneira de negação” (PCO, A Inocência…, p. 162).
Não é delirantemente estapafúrdio.
E esse mesmo Plínio, foi quem, num suposto e hiperbólico Auto Retrato Filosófico, começou proclamando enfaticamente: “Sou tomista convicto” (PCO, A Inocência…, p. 235).
Tomista que nem sabe como ligou a Metafísica à ponta “inexistente”, mas coberta de neve do Fujiyama.
E dizer que é impossível fazer um desenho fazendo as duas encostas do Fujiyama se encontrarem é ridiculamente infantil, pois é lógico que isso é bem possível de ser feito.
O terceiro exemplo que PCO dá para fazer compreender como se pode captar a Trans-Esfera é o da fachada de Notre Dame que não tem torres. Diz ele que nosso espírito exige que imaginemos torres lá. E isso seria um sinal da existência dos seres possíveis da Trans-Esfera.
Ora, as catedrais góticas foram feitas para ter torres. Em Notre Dame de Paris, elas não foram construídas. Mas é claro que, aplicando as regras do gótico, e conhecendo as proporções em que foi feita a Catedral,  não seria difícil completar a fachada com as torres que deveriam ter sido feitas.
Portanto, essas torres “possíveis” de Notre Dame de Paris não se equiparam com seres possíveis em Deus. Elas são tão dedutíveis como o encontro das encostas do Fujiyama. E não é porque podemos calculá-las, ou mesmo vir a construí-las que a Trans-Esfera pliniana passaria a ser real.
A seguir, Dr. Plínio vai falar de homens que na história podem sugerir seres possíveis em Deus, e cita como exemplo Carlos Magno, Joana d’Arc e o Rei de Portugal, Dom Sebastião.
Para preparar seus leitores, Plínio introduz o problema do Mito e do homem tal qual foi, de fato,  na história.
Essa distinção entre o que foi, de fato, alguém na História, e o um suposto mito que foi criado sobre um personagem histórico é a distinção básica do método histórico-crítico introduzido pelo modernista Loisy, distinguindo o Cristo histórico e o Cristo da Fé, que teria sido criado pela mitificação de Cristo.
Essa distinção condenada por São Pio X no Modernismo, Plínio a aplicou à sua concepção de História e aos vultos históricos. Como também a ele mesmo, Plínio.
Plínio se preocupou em rebater a possíveis objetantes. E se preocupou principalmente em refutar antecipadamente a acusação de que sua visão da Trans-Esfera seria romântica. Uma maneira de “evasão da realidade” (PCO, A Inocência... , p. 179).
A refutação que ele faz dessa acusação absolutamente procedente e completamente evidente, é que o romantismo desloca a “saudade de Deus”, que Plínio defende, para o sentimentalismo.
“O romantismo é tristonho, melodramático, com suas melopéias xaroposas, açucaradas e lacrimejantes”.
”Em vez de ter saudades de Deus, o romântico é eminentemente isolacionista. Românticos seriam dois solitários, em um local afastado, contemplando-se um ao outro, e ignorando tudo em torno” (PCO, A Inocência..., p. 180).
Esses dois românticos poderiam dizer um para o outro:
“Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”
Romântico, não?
Pois essa frase, açucaradamente sentimental e de um romantismo meloso era Dona Lucília que a dizia. (Cfr. João Scognamiglio, Dona Lucília, II, 267).
Noutras palavras, Plínio considerava que romantismo era apenas o namoro sentimental. Ora, ele condenava o namoro e o casamento.
Logo,  o mito e a Trans-esfera que Plínio sonhou não seriam românticos. Pois se ele condenava o namoro, como ele poderia ser romântico?
Plínio parece que teoricamente ignorava tudo sobre o Romantismo, no sentido em que não estudara profundamente os filósofos dessa escola.  O que não impede que ele tenha recebido informações sobre os princípios teóricos do Romantismo, em ambientes que tenha freqüentado, especialmente na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ou em algum restaurante, ou em alguma loja de brinquedo, ali perto. Recebeu, quem sabe,-- discretamente-- uns poucos princípios... Seu talento imaginativo e a formação que Dona Lucília lhe deu, fizeram-no “elucubrar” o resto.
O Romantismo de PCO certamente foi  mais fruto da formação sentimental que Dona Lucilia nele inculcou, e das “explicitações” que ele fez de seus sentimentos, do que resultante de um estudo sistemático. Daí, as contradições, as inexatidões, a ausência de pensamento sistematizado, seu sistema gnóstico vago e difuso em seus conceitos tortuosos e contraditórios, e nada preciso em suas formulações.
Além disso, o romântico se é normalmente um solitário, nem por isso, por sua Gnose, deixa de buscar a unidade com o todo universal divino, imanente e metido no calabouço do mundo real.
Segunda característica que Plínio atribui ao Romantismo seria a inação. E como ele se afirmava um homem de ação, ele não seria romântico.
Como fazer os seguidores de PCO, que,-- estes, sim, ignoravam absolutamente a doutrina e as características do Romantismo – como fazê-los compreender que as doutrinas quiméricas de PCO foram sorvidas totalmente dos erros doutrinários do Romantismo e da mentalidade que a mãe de Plínio inculcou toda a vida nele?
Os argumentos ou citações doutrinárias e filosóficas dos teóricos do Romantismo, para eles, seriam inúteis, porque, aos argumentos, os tefepistas respondem com sentimentos. E as citações filosóficas eles repelem sem sequer analisá-las, chamando-as de “cartesianismo”.
Plínio garante que sua visão não era uma fuga da realidade pois que, “a contemplação e a execução são duas esferas conexas”(PCO, A Inocência…, p. 182).
E com o maior “cara durismo”, depois de passar o tempo inteiro sonhando e delirando, ele afirma:
“A contemplação sacral de que tratamos, sem nunca sair do real, leva em conta o explícito como o  implícito, tanto o patente como o latente. De onde sua excelência”(PCO, A Inocência… , p. 182).
Ele, que vivia defendendo o sonho, o imaginário, o legendário, o mito, as impressões subjetivas, a Trans-Esfera, tem a ousadia de escrever o seguinte:
“Devemos ser muito infensos a puras fantasias. Sejamos homens de ação calmos, meticulosos, sumamente aderentes à realidade; neste sentido, inimigos declarados do wishfull thinking (pensamento influído por desejos).
(…) “A mais inteira objetividade é um elemento necessário da seriedade. O que implica em ver a realidade inteiramente como ela é, sem véus , nem preconceitos, nem “torcidas’, nem falta de adaptação” (PCO, A Inocência…, p. 182).
E, logo em seguida, ele se pergunta:
“Como harmonizar esta exigência de objetividade, com a tendência para o imaginário, que parece ser o substrato do quanto exposto neste livro? (…) Como conciliar isso -[a objetividade mais rigorosa] – com a recomendação de viver continuamente numa trans –esfera, fazendo transcendências, buscando os absolutos?“Não há contradição, pois esse mundo da contemplação sacral é real sob vários aspectos, e, enquanto real, é que deve ser vivido. Não se trata de um sonho, de um pensamento sem consistência. São duas realidades aparentadas entre si: a da contemplação e a da execução“(PCO, A Inocência…, p. 183).
Ele deveria ter dito que ele considera serem duas “realidades” o mundo real e concreto, e o mundo imaginário, irreal.
E, três parágrafos depois de defender a objetividade, Plínio diz: “De certa forma, a legenda é mais importante que a História: a história das legendas é mais importante que a história dos homens.“Dom Sebastião de Portugal, rei de legenda, virgem e guerreiro: o mais magnífico dele é o seu mito. O mito de que não morreu, e que há de voltar e recompor todas as coisas” (PCO, A Inocência…, p. 183).
Lá vem Dom Sebastião,
Descendo da Trans –esfera.
Se chega como um leão,
Não passa de uma quimera.
Essa era a seriedade objetivista de Plínio: defender que alenda vale mais que a realidade. Que o Sebastianismo,-- milenarismo que cabalistas infiltraram em Portugal--, fazendo de Dom Sebastião, morto, um messias que estaria para voltar e fundar um reino milenarista, isso é o que Plínio considera seriedade e objetividade.
Sem wishful thinking.
Delírio. Contradição. Paranóia.
“O mais importante é que nasceu na História uma legenda como essa. Dar origem a uma legenda é, propriamente, o mais alto, dentro da micro-imortalidade que nessa terra possa haver”
(…) “O homem nunca se contenta com a reprodução pura e simples da realidade –[Uái e a objetividade sem fantasias? ] –É uma lei sem exceção. Neste sentido, a lógica e o mito se escoram” (PCO, A Inocência…, p. 183).
“Sem o imaginário, o mítico, o imponderável, as coisas não seriam senão aquilo que elas são…ou parecem ser” (PCO, A Inocência…, p. 184).
De onde se conclui que, para Plínio, o mito, o imaginário são superiores ao real.
É tão delirante a contradição que se tem – não vamos usar um termo pliniano: a  “impressão”—se tem a certeza de que se está diante de um caso de um problema médico-sectário como poucos houve na história.
Pois há delírios ainda maiores. O que foi publicado do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, no livro agora em foco, não é tudo. O que esse livro apresenta é ainda uma formulação “penteada”, “cosmeticada”, recheada de botox, disfarçada dos delírios ainda maiores que veremos mais adiante.
Finalmente, por falar de delírios maiores, há que contar alguma coisa sobre os possíveis habitantes da Trans-esfera, pois que a Trans-esfera inexistente de PCO era habitada por seres ab aeterno.
 
 
Uma mentalidade romântica, tendente à Gnose, deve necessariamente considerar com repulsa e horror o ato conjugal – e veremos, a seu tempo, o que se pensa na TFP sobre essa questão – como também deve desejar uma espiritualização da natureza, sonhando com um mundo ideal despojado de toda a materialidade, ou como constituído por uma matéria sublimada, “glorificada”, uma matéria espiritual (cfr. E. Susini, “Franz Von Baader et le , Romantisme Mystique”, Vrin, Paris, 1942,vol 1, pp. 352-355, e 366).
Plínio dizia que sempre deu muita importância à “Quarta via” de S. Tomás, isto é, à prova da existência de Deus por meio dos diferentes graus de perfeição das criaturas.
Pode-se dizer que toda a cosmovisão católica apresentada publicamente pela TFP pretendia se fundamentar nessa prova de S. Tomás, que demonstra que um universo hierárquico é necessário, quer para refletir a sabedoria de Deus criador, quer para o homem conhecer e amar a Deus através das perfeições das criaturas hierarquicamente ordenadas.
Tudo isso seria perfeitamente católico, sábio, bom e belo, se fosse realmente esse o pensamento da TFP.
Só que, como já vimos, para Plínio e para a TFP e para os Arautos, a quarta via de São Tomás, era mudada para uma via imaginativa trans-esférica, conduzindo ao vazio.
Acreditamos que a tendência para se desviar da concepção sapiencial do universo tal como é ensinada pelo Aquinate, para uma visão onírica do universo se manifestou muito cedo em Plínio, por causa da educação romântica e mitificadora que lhe deu Dona Lucília.
Coisa que ele confessa.
Veremos mais adiante, que Plínio sonhava ser urubu, imergir no Arno, no mar, no azul absoluto, imaginar um mundo constituído de quase “não-seres”.
Naturalmente, esta fuga do real levou Plínio a imaginar, como realmente existente, um supremo grau de criaturas, que estaria acima dos próprios anjos, e pouco inferior a Deus, e que existiria desde toda a eternidade, embora não sendo propriamente eterno.
Seria o grau das criaturas “ab aeterno”, que existiria no mundo da “Trans-Esfera”.
Plínio explicava essa doutrina para um círculo mais íntimo, nas reuniões do MNF, nas quais Plínio revelava seu real pensamento só para alguns. Mais ainda: manifestava o que ele realmente imaginava que era.
Só conhecemos – e possuímos – partes de textos dessas reuniões scognalisticamente resumidos por João Clá no Jour le Jour – no diário de PCO—que ele contava nos êremos que dirigia.
Neles se fala dos seres “ab aeterno”, que seriam seres ontologicamente superiores à ordem angélica.
Tais seres super-angélicos imaginados por Plínio, mover-se-iam -- no dizer dele -- numa “trans-esfera” mítica, superior ao inexistente mundo das idéias de Platão. Eles representariam as qualidades divinas do modo mais elevado possível, para uma criatura “possível”. Por sua vez, as criaturas materiais, criadas no tempo, representariam, em grau inferior, as qualidades de Deus refletidas superiormente e de modo mais sublime nos seres “ab aeterno”.
Plínio contou que imaginou essa classe de seres “ab aeterno”, quando soube que S. Tomás não considerava filosoficamente incompatíveis, as noções de criatura e de eternidade. Ele repetia isso com freqüência, mas não dizia nunca que o Doutor Angélico negava que, de fato, existissem seres criados “ab aeterno”.
Mais: Plínio omitia dizer que São Tomás afirma ser herético defender a tese de que outros seres, além de Deus, fossem eternos (cfr. São Tomás, Suma Teológica – I, q. 46, a1; I, q. 46, ª 2; I, q. 61, ª 2 – S. Tomas – Opúsculo IV Sobre la eternidade del mundo contra los murmuradores).
Como dissemos, não se nos permitiu jamais ler ou assistir as reuniões do MNF. Alunos nossos, porém, ouviram conferências do MNF, no “Praesto Sum” (Nome da Sede de um êremo, ou convento da TFP, em Sant’Ana), palestras feitas por João Scognamiglio, o “fiel intérprete dos desígnios de Dr. Plínio”, atual Cônego de Santa Maria Maior, em Roma, e recém condecorado pelo Vaticano, enquanto certamente sonha com novas honrarias...
Quod non ascendam?
Sentar-me-ei acima dos astros, no Trono do Altíssimo”...
É de se supor, então, que a leitura do MNF por Scognamiglio fosse bem fiel, embora, como é natural nos resumos, falte a totalidade do texto. Em todo caso, o que Scognamiglio contava no “Praesto Sum”, se encaixava coerentemente no sistema de pensamento “imaginativo” de Dr. Plínio, e conservava o linguajar típico do “Profeta” de Higienópolis.
Outros textos do MNF foram publicados pela revista “Dr. Plínio” patrocinada por amigos e aliados do condecoradissimo Mons. Scognamiglio. Ve-los-emos mais adiante...
Se os textos que citaremos de Scognamiglio, retirados da documentação do Jour–le-Jour de Dr. Plínio, não corresponderem exatamente ao que está no MNF, então a culpa pela infidelidade ao texto não será nossa, mas sim do “fiel intérprete” dele, e haverá um meio fácil de se corrigir essa infidelidade: publicar ou deixar examinar o MNF por eventuais visitadores do Vaticano (Sem Censura ! -- sem cortes !—Sem maquiagens! Sem botox!).
Mas o que Scognamiglio contou, na década de 80, citando o Jour-le –Jour de Dr. Plínio se harmoniza perfeitamente com os devaneios contados por PCO em suas Notas Autobiográficas e no livro Inocência Primeva, que estamos analisando.
Teríamos tanta vontade de ler o MNF todinho!...
E Plínio sempre disse que tinha tanta vontade de publicá-lo... Por que não aproveitar a oportunidade e realizar os anseios dele e os nossos?...
Publiquem-no. Será um sucesso.
Que lhes trará a bagarre!
Vai ser uma diversão!
Vejamos, pois, como o “fiel intérprete” do Profeta de Higienópolis – o agora Mons. Scognamiglio, Grão Mestre da Sempre Viva, e dirigente da banda dos Arautos do Evangelho – explicava, há anos atrás, a teoria dos seres “ab aeterno”, exposta por Dr. Plínio no MNF, num telefonema para tefepistas nos Estados Unidos.
[Os textos citados são, de modo geral os que foram retirados das palestras de Scognamiglio nas reuniões em que contava o dia a dia de Dr. Plínio – o Jour-le-Jour do Profeta de Higienópolis, inclusive com o resumo das palestras dele no MNF. Era tudo gravado, e, depois, datilografado, e mandado para as sedes da TFP do exterior.
Não conservaremos nesta edição os erros datilográficos do texto original do documento do Jour-le- Jour. Eles são divertidos. Os comentários postos entre colchetes serão de nossa responsabilidade].
Vejamos, então, o que Scognamiglio explicava para fanatizar  os jovens da TFP.
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Neste primeiro texto, é Monsenhor Scognamiglio quem fala na primeira pessoa.
Vou tentar dar um resumo do MNF de quarta-feira. Não é bem exatamente o que ele [Dr. Plínio] diz, mas dá uma idéia para os senhores.Os senhores já viram uns pedregulhos assim um pouquinho mais bem [sic!] acabados e mais bem [sic!] constituídos do que os pedregulhos comuns. Chegam até a transmitir um pouquinho de luz. São uns pedregulhos branquinhos, que dá para perceber um pouco de luz do sol etc. Isto, é que é o comum das criaturas comparado com aquilo que ele [Esse ele é o Profeta] tem tratado muito no MNF de criaturas “ab aeternas”. [sic!] O que é “ab aeternae” [sic!] para ele? Não é um pedregulho, mas é uma pedra tão preciosa, tão preciosa, que a gente tem a impressão que a luz nasceu de dentro dela (Exclamações) – [Significativas exclamações... Adivinhem quem se imaginava ser uma pessoa, na TFP, que dava a impressão de que a luz nascia de dentro dela?] E que assim seria uma criatura “ab aeternae”. Seria tão luminosa, tão luminosa, tão luminosa, que a gente teria a impressão de que ela como que teria a luz de dentro dela. Seria como que se ela fosse as qualidades que tem. Portanto seria muito próxima de Deus”. (Telefonema de João Scognamiglio aos Estados Unidos, 20/02/1983, narrando o “Jour–le-Jour” – o sublinhado e os erros gramaticais são do original. As frases postas em negrito o foram por nós).
Que explicação confusa!
E como Scognamiglio fala gramatical e literariamente mal!
Primeiro nos foi possível compreender que uma criatura “ab aeterno” não é um pedregulho.
Já é um progresso.
Depois, quando foi dito que a criatura “ab aeterno” é luminosa, tão luminosa que parece ter luz dentro de si, ficamos inclinados a pensar que ela fosse uma lâmpada. Graças aos céus, o final deixou a coisa mais clara.
Uma criatura “ab aeterno” seria:
uma criatura que existe desde toda a eternidade;
que como que parece ser as qualidades que tem; [Então, de certo modo, como Deus, teria as qualidades em grau absoluto?] que seria luminosa; e – ontologicamente --muito próxima de Deus.
E as exclamações significativas encaminham para um exemplo concreto: não se disse, na “Ladainha do Profeta” que Dr. Plínio é possuidor de todos os absolutos? E não se dizia que a barba dele era luminosa?
Como um homem que ensinava tais disparates foi ordenado sacerdote, feito Cônego de Santa Maria Maior, e condecorado pelo Vaticano?
Será que ele aprendeu português?
E Filosofia? E Teologia? E Direito Canônico? E que ficou doutor?
Como ele foi ordenado sem ter estudado nada disso?
Que seminário ele cursou?
Vejamos outra fiel interpretação scognamigliana:
“Na reunião de quinta-feira, ele tomou o vaso rosa, que existe naquele salão azul do primeiro andar, junto àquele espelho, e fez uma reunião inteira sobre ele, contando como é que o vaso foi escolhido etc. E falou muito sobre o mundo dos possíveis e das criaturas ab aeternae a partir do vaso rosa” (Telefonema de João Clá aos Estados Unidos, contando o Jour -le -Jour, 12/02/1983).
Melhorou.
Criaturas “ab aeterno” seriam apenas entes possíveis e não reais. Ficou menos errado.
[De passagem, convém explicar que o primeiro andar citado é do apartamento do Dr. Plínio, na rua Alagoas, onde havia um “salão azul”, assim chamado por que lá havia um conjunto de poltronas estofadas em tecido de cor azul, e não por causa de suas dimensões. O “salão” é, digamos, um ente de imaginação. Ou aquilo que em sua confusão metafísica Dr. Plínio qualificava como um ser possível em Deus. O ente real era uma sala comum. E o mesmo se pode dizer do “salão rosa”. São seres de imaginação, embora não existentes, “ab aeterno”. E esse vaso seria um- de alabastro—vaso que teria sido do Imperador, e no qual Plínio desejava mergulhar. Mas não dentro do vaso. E sim no próprio alabastro. Como teremos ocasião de ler. Em um texto dele, para se “alabastrizar”].
Vamos ver, agora, o que disse o próprio Plínio, mantendo os erros de datilografia do documento original:
“Então a distinção entre duas coisas diferentes. Uma coisa é, a vista de algo paupável [Sic] e sensível, e, em imaginar algo do mesmo gênero, que seja ainda mais belo do que isso”.
“Por exemplo eu estou vendo aqui as cerejas (...) eu posso imaginar super cerejas (...) Eu não estou fazendo se não imaginar isso que estar [sic!] aqui levado a maior perfeição que lhe é própria”.
“(...) o rumo do maravilhoso tende a isso (...) a pessoa que tem esse senso, vendo alguma coisa, tende a imaginar na sua maior beleza. Por que ela entende qual é a beleza máxima possível da coisa, se bem que ele não tenha visto”.
“(...) Bom, agora há uma outra perfeição, um outro senso de perfeição que vai mais longe. Vendo uma cereja, imagina como seria uma cereja paradisíaca.
“As frutas do Paraíso, são como não existisse [sic] no nosso universo. O Paraíso terrestre existe em nosso universo, está guardado lá, e o que parece Elias e Enoc estão lá”.
“(...) Agora uma coisa mais alta ainda, é quando a pessoa cria completamente – não são as cerejas do Paraíso – faz uma jóia com rubi, com vários rubis, para compor o que seria uma cereja maravilhosa e ideal, nenhum lugar existiu. Seria uma verdadeira beleza”.
“(...) Isto que eu estou falando a respeito de cereja podia ser panorama. Então, minha eterna Veneza, e acabar de degrau em degrau, numa cidade, que não existe nem nas nuvens, concebida por mim, mas (...) pelo contrário, tão diferente, quanto possível dessa cidade, continuando a merecer o nome de cidade. Apenas pertencendo ao mesmo gênero de cidade”.
“Então, uma cidade em que as pedras fossem constituídas com raios de sol de “Clodorand”. [Ah! A que monstruosidade ortográfica trans-esférica foi reduzido, o nome do pintor maneirista  Claude Lorrain...]. E daí pra frente”.
“Bom, mas construídas essas cidades, o espírito humano não se contenta. Ele diante dessas coisas, muito maravilhosas, ele tem certo momento um reflexo, que lhe faz pensar em algo que não sabe dizer como é. Que são criaturas ainda, mas que não sabe dizer como é”.
“Algo que tenha um esplendor tal, que ele é obrigado até imaginar, para existir em função disso, seres angélicos. E seres angélicos de uma perfeição natural ainda maior do que os seres angélicos que temos conhecimento.
E a medida que vou falando disso... (Ahhhhhh!!!)
 [A exclamação é dos ouvintes embevecidos com a existência de seres acima dos anjos, dos quais não falam, nem a Sagrada Escritura, nem o Catecismo. Mas à cuja ordem de ser se imaginava pertencer o próprio Plínio].
Prossigamos a ler o texto gravado de Dr.Plínio , tal como foi lido por Scognamiglio na década de 80:
“(...) O espírito humano vai desejando algo, que ainda não é diretamente Deus. Ou, por assim dizer, pode não ser diretamente Deus, mas que é outra criatura, outras criaturas. Com o conviviu [sic] tão, tão alto, tão extraordinário, tão excelso, tão fabuloso, trocando tais idéias entre si e tendo uma presença tal, que nos ficamos assim...” (Plínio Corrêa de Oliveira, gravação do MNF. – Chá no S. Bento, 27/12/1982, 2a feira. O negrito e sublinhado são nossos, e os erros ortográficos monstruosos são do original).
Que dizer deste texto babilônico?
Em primeiro lugar que estão evidentemente na linha do que agora foi publicado no livro que focalizamos: A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo.
Este livro confirma o que era ensinado há 27 anos atrás, no Jour-le Jour, pelo agora super trans-esférico Mons. Scognamiglio.
Esse texto não passa de uma elucubração platônico-romântica, na qual se sonha a existência de um outro mundo criado, mas não material, feito de raios de luz, e superior ao mundo angélico conhecido. Tal seria o mundo dos seres possíveis, mas criados “ab aeterno”. E que” poderia não ser diretamente Deus!!!???Por acaso algo poderia ser indiretamente Deus?
Tal mundo, se parece, evidentemente, com o mundo das idéias de Platão... Com tudo o que havia de tendência gnosticizante no pensamento platônico.
Como não notar, na exposição gravada e datilografada do que Plínio disse no MNF, uma tendência a fugir do mundo concreto através do sonho de um mundo imaterial, ou de uma matéria superior, como dizia Von Baader, ainda que Plínio não deixasse de comer suas cerejas e “tortijas” muito reais e nada imaginárias?
Não temos dúvida de afirmar que, na doutrina de Plínio Corrêa de Oliveira e na TFP, havia uma clara manifestação de Romantismo e uma doutrina que leva diretamente à Gnose.
Compare-se isto que disse PCO com o poema de S. Francisco louvando a Deus por causa das suas criaturas: “Lodato sia mio Signore, per sora nostra acqua, che é molto utile, e umile e casta”. Sem sonhos platônicos.
As cerejas “ab aeterno” de Dr. Plínio não são “molto utile”.
São absolutamente inúteis.
E falsas, por serem irreais.
No mesmo chá, entre cerejas e tortijas muito reais, -- porque quando se tratava de comer, Plínio exigia entes reais e jamais simples possíveis, ele queria comer só coisas bem concretas e bem temperadas, e não seres só idealmente possíveis, PCO disse coisas incríveis.
Aliás Dr. Plínio explicou que o modo mais comum e fácil para ele ter idéia da Trans-esfera e de seus seres ab aeterno, era comendo coisas excelentes:
“Em que momentos, eu sentia que apanhava melhor essa espécie de mistério de sublimidade e de luz, que queria alcançar nas coisas?
“A resposta revela uma peculiaridade singular: era sobretudo comendo. Como eu disse, algumas melodias causavam-me encantos, mas nunca com a intensidade dos que me eram proporcionados pela culinária. Isso, entretanto, não acontecia pelo mero gosto de comer – o qual, aliás, eu também tinha muito – mas porque certos alimentos se me apresentavam conjugados com impressões muito elevadas, e eu tinha a sensação de que só as aprendia comendo aquelas coisas.“Por isso, não hesito em dizer: fui sensível aos gáudios gastronômicos  a prima pueritia mea [desde a minha infância].”(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Vol. I, p. 375. Os destaques e os colchetes, desta vez, são do original e não nossos).
Plínio não foi apenas um filósofo que conversava sentado, enquanto Aristóteles era peri patético. Plínio era um filósofo que filosofava sentado, e especialmente comendo.
Plínio era guloso. É o que se depreende do que ele mesmo conta, nesse livro editado pelos Arautos. A Inocência primeva era compatível com a gula. E também com a preguiça, pois Plínio relacionava a virtude com a sua cama. E a Inocência Primeva exigia uma modéstia e uma humildade muito singulares.
E Padre Royo Marin aprovou tudo isso...
Como Plínio teve a impressão da existência das criaturas “ab aeterno”?
Ele contava que duas impressões o levaram a concebê-las. A primeira foi no dentista. A segunda... é uma surpresa, que deixamos para depois.
Vamos à impressão que ele teve no dentista, entre boticões e angústias infantis, contemplando um quadrinho “muito ordinário” de Veneza.
É o próprio Profeta de Higienópolis quem fala:
 “E tinha um quadrinho muito ordinário, pintado a fresco na parede.
[Sic! Um quadro “à fresco”?? Mas isso é uma coisa absolutamente extraordinária! Um quadro “à fresco”! Seria uma criatura pintada “ab aeterno”?].
“E eu me lembro que eu ficava olhando para aquilo e ficava extasiado”.
“Mas a sensação que eu tinha, era tão mais alta do que qualquer Veneza real, ou qualquer outra coisa assim, que eu reconheço hoje em dia, que eu sonhava com uma ordem de coisas mais adequadas – nem eram anjos – mas as criaturas criadas ab aeterno”.
[Note-se: ele sonhava com seres inexistentes. Contra o que afirmou Leo Daniele no livro A Cavalaria não Morre].
“Mas como é que eu reconheço isso? Por uma certa forma de frêmito que isso causava em minha alma. E em que fremia, nos mais altos, nos mais altos, nos mais altos da minha alma. E é uma arqui-Veneza, uma ultra Veneza, extra Veneza, super Veneza, da qual aquela Veneza, que eu admiro tanto, não era capaz de ser nem sequer o arrabalde. Não era capaz de ser o arrabalde operário, a favela.” (PCO – chá no S. Bento, 27/12/1982 , 2a feira – o sublinhado e o negrito são nossos).
No texto acima, é claríssima a tendência romântica revelada pelos termos “imaginar”, “sensação”, “sonhar”, “fremir”. Dr. Plínio não compreendeu a existência dos seres “ab aeterno”: teve a sensação deles.
Ele sonhava uma ordem de coisas irreal que estaria para o mundo atual, como Veneza estaria para uma favela. Ou, em outras palavras, um mundo tão fabuloso que, aquilo que há de mais espetacular no mundo concreto (Veneza, por exemplo) comparado com ele, seria uma favela.
Note-se, pois, a desvalorização do mundo concreto e material, se comparado com o imaginário mundo “ab aeterno” de Plínio, mundo feito de luz.
Se isso não é sonho, o que seria sonhar?
Finalmente, esse mundo causava um frêmito em Plínio.
Está aí a “prova” da existência desse mundo etéreo: vendo um quadrinho ordinário de Veneza, Plínio Corrêa de Oliveira fremia, “nos mais altos, nos mais altos, nos mais altos” píncaros de sua alma.
Logo, os seres “ab aeterno” tinham que existir, já que só eles poderiam explicar os tais frêmitos, nos mais altos píncaros da profética alma de Plínio. Mesmo que a Revelação nada diga sobre os seres ab aeterno.
Azar da revelação!
Vamos, agora, à segunda impressão que permitiu a PCO descobrir os seres ab aeterno.
É a surpresa que prometemos.
E ela é inacreditável.
Adivinhem o que foi que causou em Dr. Plínio a sensação da existência de seres “ab aeterno”?
Adivinhem...
Não. Não adivinham.
....................????????....................
Os semáforos de S. Paulo!!!
Como? Como??
Os semáforos de São Paulo???
Que têm eles a haver com os seres ab aeterno???
Sim, os semáforos de S. Paulo!
Não acreditam, os caros leitores, no poder ab aetérnico dos semáforos de S. Paulo?
Pois vejam lá.
Scognamiglio vai fazer o gravador tocar as palavras de Dr. Plínio.
“Bom, uma outra sensação tão mais ao alcanse [Sic] dos Srs. – Veneza está ao alcanse [Sic] de todos os Srs. – mas tão ao alcanse [Sic]  que eu não sei o que dizer, é o que eu contei na reunião de MNF, que me produziu ver as luzes dos sinais luminosos de SP [São Paulo] que ainda concidero [Sic! Ái! Ái! Ài!] bonitos.
 “É uma coisa fantástica sinal luminoso. Como é que essa beleza resiste a tanta feiura. Quem foi o homem que escolheu aquele grau de luz, para os sinais luminosos de SP? É uma coisa para se verificar numa historieta do município de SP. Porque, se não foi por coincidência, houve algum fabricante ou algum técnico que para um fabricante bosal [Sic!] fez essas cores quintessenciadas, e que vinheram [Sic!!] rolando para SP, por coincidência, é perfeitamente possível. Não sei se em outras cidades do Brasil o colorido não é o mesmo daqui. Mas se os Srs. prestarem a atenção um lindo colorido.
“Penetrar, ficar olhando para aquela cor mudar, mudar, mudar, e de cada vez pensar que se estar [sic] entrando num universo azul, num universo vermelho, num universo dourado, sucessivamente, e depois aquilo passa...
“Sinal não é nada. A questão é a cor, explorando todas as variações daquela cor, e habitado portanto [???] por seres, que já também seria [sic] de uma outra natureza. Conforme o frêmito que isso provoque na alma, pode ser um frêmito que chegue a isso, ao que os homens queririam [sic], se conhecessem criaturas criadas ab eternas.
“Alguém dirá: ‘meditações vãs, meditações tolas, com que o homem não tem nada com que fazer”.“Na reunião do MNF, eu procurei explicar isso, repito apenas numa palavra. A coisa é essa: A meditação não é vã porque Deus criou na nossa alma, dando-nos a noção de universo, embora Ele não tenha criado esse universo, com todos os matisis [sic] possíveis, nem todas as perfeições possíveis, Ele criou em nós a faculdade de imaginarmos essa perfeição possível”.
“E evidentemente como tudo o que há em nós, é para o serviço dEle, é para a glorificação dEle, isto em nós, precisa ser explorado e tem sua razão de ser.” (Palavras de Plínio Corrêa de Oliveira– Chá no êremo de S. Bento, 27/12/1982, 2a feira – O sublinhado e negrito são nossos. – Os erros ortográficos são ab eternamente dos eremitas plinianos que datilografaram a gravação da fita original).
Por essa o leitor não esperava, temos certeza!
Que Plínio considerasse os semáforos de S. Paulo uma coisa fantástica de beleza, é absolutamente inesperado. Mais inesperado ainda é ele gostar de ficar olhando o semáforo mudar, mudar, mudar de cor.
Inesperadíssimo é que os semáforos tão “lindos” de S. Paulo causassem nele o tal “frêmito de alma” que podia provocar a sensação de um universo azul [Dr. Plínio era um tanto daltônico], dourado, vermelho. Conforme o frêmito, bem entendido.     Não seria qualquer frêmito que provocaria essa sensação.
Frêmito tal que, portanto, – [oh inesperadíssimo “portanto”, de que mundo “ab aeterno” tu caíste?] – que, portanto, daria a sensação de um universo habitado por seres de uma outra natureza.
E não vamos perder mais tempo. Não se refuta, nem se responde ao que está óbvio, pelo texto. Seria desprezar a inteligência de nossos leitores procurar lhes explicar o que é evidente.
Não se argumenta contra sonhos. Nem, muito menos contra delírios. Ainda que eles sejam “ab aeterno”. Somente se os conta, para que se os despreze.
 
 
 
Analisado o livro A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, chega-se à conclusão que Plínio Corrêa de Oliveira foi um sonhador burlescamente romântico gnóstico, que montou uma seita para ser cultuado em vida, e para viver, bem concreta e opiparamente, neste mundo, que ele desprezava. Pois e era preciso viver bem nesta vida...
Seria apenas o viver sibariticamente a finalidade visada por esse falso profeta?
Evidentemente, os graves erros contra a fé que PCO ensinava nas reuniões “discretas” do MNF e da Sempre Viva  indicavam que havia uma finalidade mais profunda que a do prato que ele gulosamente sorvia.
Para compreender quem foi PCO e o que foi a TFP, seria preciso analisar as origens desse romantismo delirante que ele praticava por formação pessoal, e que defendia doutrinariamente.
O romantismo de Plínio tem duas origens principais:
Uma na educação muito estranha que ele recebeu de sua mãe, Dona Lucília, educação deformadora da realidade, assim como deformante de sua mentalidade.
Isto levaria a outro problema bem importante: Plínio tirou tudo o que fez de sua própria cabeça romanticamente deformada, visando apenas ser cultuado e viver como um paxá? Ou havia algo mais sério por trás dele que se aproveitou de sua mentalidade romântica para fins políticos, ou doutrinários mais profundos?
Cremos bem que a mentalidade romanticamente delirante que ele tinha, foi aproveitada por grupos doutrinários “Discretos” que o utilizaram para fazer o que ele fez: formar um grupo que atraísse católicos de alguma liderança, desviando-os para uma seita gnosticizante, para assim esterelizar a ação desses líderes, pela heresia e pelo ridículo.
Além da mentalidade que sua mãe inculcou nele, haveria outras fontes doutrinárias, nas quais ele poderia ter abeberado  uma doutrina esotérica de tipo gnóstico, que explica certos pensamentos que o ligam a toda uma misteriosa corrente “tradicionalista”, no pior sentido que essa palavra pode ter.Ele certamente recebeu os princípios de um tradicionalismo esotérico que o ligam à direita européia. Muito provavelmente as sociedades secretas, que ele fundou, estavam ligadas a correntes ocultas como as do Martinismo e as do Martinesismo, através do bem maçônico Joseph de Maistre. E provavelmente essas ligações secretas chegariam até a sociedades esotéricas atuais na Europa e na América.
Os jovens que entravam inocentemente na TFP, ou eram católicos sinceros e de reta intenção, pretendendo defender a Fé católica, ou eram oportunistas buscando destaque.
Os moços sinceros que entravam no grupo de Plínio paulatinamente eram conduzidos a tantas contradições, impossíveis de solucionar, que entravam numa crise doutrinária e moral muito séria. Então, ou eles saíam desse grupo seleto e fechado, ou ficavam totalmente desequilibrados. E na TFP, havia tantos jovens que passavam a ter problemas psicológicos, que Plínio teve que montar asilos e refúgios psicológicos para eles. E os gastos com remédios para dormir e com estimulantes para acordar, na TFP, era bem elevados, ficando alguns viciados nesses medicamentos...
O mito causava nesses ingênuos um tal choque com a realidade que, os psicologicamente mais fracos, facilmente caíam em depressão, ou em desequilíbrios psíquicos mais graves ainda.
Se os moços tefepistas não eram sinceros, se eram oportunistas, logo ficavam cínicos, abolindo todo escrúpulo moral. Desapareciam neles os limites entre verdade e mentira, entre bem e mal, entre lícito e ilícito. O mito tudo aplainava. Importante era imitar o inocente Plínio...
A Inocência primeva admitia ficar “submersa num mar de pecados”... E mesmo assim, se poderia alcançar a salvação, porque não seremos julgados “ por uma tabela de dez mandamentos” .
Adeus escrúpulos.
Viva a esperteza.
Foi o que Scognamiglio compreendeu muito bem.
A TFP era um sistema montado apenas por um sonhador romântico, ou foi um sistema conscientemente usado para destruir promissores líderes católicos?
Foi ela um “sistema montado para espremer laranjas, e depois jogar fora os bagaços”, como bem disse um moço destruído lá dentro, pois que viveu bem dentro do núcleo dirigente da seita?
A esterilização através de uma vida que adormecia a contradição no cinismo, e a destruição psíquica de ingênuos, mais fracos, o ridículo a que a seita levava os seus membros, eram um fim político conscientemente buscado?
Basta conhecer razoavelmente a História e a seriedade da luta entre a Cidade de Deus e a Cidade do Homem, para se concluir que a hipótese de haver um sistema propositalmente montado com esses fins tem tudo para ser verdadeira.
Para compreender, então, realmente quem foi PCO, e porque ele montou a TFP e a Sempre Viva, deve-se estudar, em primeiro lugar, a sua doutrina do conhecimento.
Depois, a formação de sua mentalidade, muito “inusual”, por sua mãe, que o dominou a vida inteira de modo bem estranho. Para isso é necessário analisar o livro Dona Lucília, fonte mais rica e indispensável, para se conhecer a mentalidade de PCO.
O “autor” oficial do livro Dona Lucilia teria sido João Scognamiglio Clá Dias, cujo nome aparece na capa dessa obra. Ele foi o discípulo perfeito e querido de PCO,- a sua “menina dos olhos”--, e o principal difusor do culto de PCO e de Dona Lucília, antes na TFP, e hoje, entre os chamados Arautos do Evangelho. Do “evangelho” de Plínio, entenda-se.
Foi Scognamiglio quem, depois da morte do imortal Plínio, dividiu, diminuiu, e destruiu a TFP, mas adicionou, somou e multiplicou seus recursos pecuniários e sua fontes financeiras, tornado-se, atualmente, no muito endinheirado e muito bem sucedido Monsenhor Cônego da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Ele é aquele que “já recebeu a sua recompensa” (Mt VI, 2).
É praticamente certo que Scognamiglio, o discípulo preferido de PCO, só emprestou seu nome- etimologicamente tão significativo-- para camuflar o verdadeiro autor da obra Dona Lucília.
O verdadeiro autor deve ter sido o próprio PCO, que fez palestras contando em detalhes muito íntimos o que sabia da vida de sua mãe, -- e o que não sabia, ele inventava -- a fim de fazer uma obra que preparasse o culto dela, na TFP, como degrau, para ele mesmo, depois, subir mais facilmente aos altares tefepistas.
No futuro, Deus permitindo, analisaremos trechos dessa obra editada em três luxuosíssimos e imensos volumes. Que compramos, baratinha..., num sebo, porque “sicut transit gloria”... idolorum mundi..
Para conhecer as fontes das estranhas e bem esotéricas doutrinas de PCO, seria preciso ter em mãos todos os textos secretos do chamado MNF, textos que tem dezenas de milhares de páginas.
Esses textos são de conferências praticamente secretas pronunciadas por PCO, em reuniões reservadas apenas a um pequeno círculo de fanáticos. Essas palestras do MNF é que deram base para formar a sociedade secreta A Sempre Viva, que cultuava Plínio com um culto maluco baseado em teorias delirantes, das quais vimos algo na obra que acabamos de analisar, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo.
Porém, antes dela ser editada pelos chamados Provectos da TFP, o sucesso, aliado à imprudência, causaram em Scognamiglio, a ilusão de que ele podia publicar tudo o que PCO ensinara secretamente. Por isso, ele deu a público muitos textos do MNF na Revista “Dr. Plínio”, revista de amigos dos Arautos dos quais Scogmamiglio é o grão mestre.  Scognamiglio—que nada tem de intelectual, pois é um simples oportunista, um arrivista na vida e no clero--nem percebeu que erro foi o de publicar, sem correção e quase sem censura maior, longos textos do MNF, principalmente nos cem primeiros números dessa revista de nome absurdo: “Dr. Plínio”. Depois, ele ficou um tanto mais cauto… e os textos do MNF ficaram mais raros em sua revista…
Os artigos da revista “Dr. Plínio” são “um prato cheio” de delírios descabelados, confirmadores da doutrina exposta no livro A inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo.
Essas doutrinas têm tanta relação com as doutrinas das seitas esotéricas martinistas e da Gnose romântica que apontam em direção de uma bem possível iniciação de PCO em alguma seita secreta.
Estudaremos textos publicados na revista “Dr. Plínio”, numa terceira parte deste nosso trabalho.
Depois, veremos o culto delirante que PCP montou para si mesmo e para sua mãe, culto do qual o grande difusor foi João Scognamiglio Clá Dias.
Este estudo se completaria com a análise do Livro Dona Lucilia e com uma biografia veraz de PCO, biografia que infelizmente o Professor de Mattei não fez.Veremos o que poderemos executar desse plano.
 

    Para citar este texto:
"No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho (Parte 3/8)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/pco-iii/
Online, 23/11/2017 às 18:05:29h