Religião

Será que as garras da Esfinge fizeram mais uma vítima?
Alberto Zucchi
Sumário 

 
 
1 - Introdução
 
     No dia 09/02 último, publicamos na página da Montfort no Facebook a resposta a de um de nossos leitores que nos questionava se conhecíamos e se eram recomendáveis as aulas do Professor Antônio Donato. O consulente informava, ainda, que as aulas tinham pouca divulgação pública.
     Respondemos que não conhecíamos os textos, mas que alguns fatos e informações nos levavam a ter reservas em relação aos ensinamentos deste Professor:
 
  • Várias pessoas diziam que a divulgação das aulas era limitada aos conhecidos do Professor Donato.
  • Olavo de Carvalho fez grandes elogios ao Professor Donato e este utiliza o mesmo termo “filosofia perene” que é essencial na doutrina gnóstica e modernista de Olavo.
  • O Professor Donato teria uma visão equivocada sobre os erros do Concílio Vaticano II, atribuindo a este problemas apenas na interpretação e não no próprio texto.
  • Haveria nos ensinamentos do Professor Donato um exagero do papel da mística.
 
       A pergunta do consulente e minha resposta estão completas no final deste artigo. 
Ressalto que não fiz qualquer crítica relativa à pessoa do Professor Donato, limitando-me a dar ao nosso consulente as informações que possuía.
     Para minha surpresa houve um grande número de “postagens” em nosso facebook com muitas ofensas, o que não é grande novidade, mas nenhuma explicação sobre os pontos que eu levantei. Aqueles que se manifestaram pareciam não estar preocupados em confirmar ou negar minhas informações, apenas em me criticar. Alguns consulentes também se manifestaram favoravelmente a nós e aproveito para agradecer-lhes mais uma vez. E, depois, houve uma troca de acusações entre alguns daqueles que participavam da discussão.
    É claro que neste ponto a questão estava completamente desvirtuada e por isso mesmo resolvemos retirá-la do facebook, propondo a continuação do debate em um ambiente mais adequado, ou seja, nosso site.
    A única resposta objetiva ao nosso post foi a informação de que havia um telefone para contato no site “Introdução ao Cristianismo”, de responsabilidade do Professor Donato e, portanto, não havia nada de oculto. Entretanto, um conhecido meu tentou ligar para o referido telefone e recebeu a informação de que não havia cursos e de que tudo se limitava ao que estava no site.
      Em todo o caso, a informação de nosso consulente, agora confirmada por outras pessoas, não é que tudo é secreto, mas sim que os cursos não podem ser publicados na internet. Ou seja, aparentemente, as reuniões não se destinam ao público em geral, mas somente àqueles que já tem um certo nível de adesão aos ensinamentos do mestre.
    Infelizmente sempre houve ensinamentos secretos, mas em nosso tempo eles se multiplicam. Daí recomendarmos atenção ao nosso consulente. Vejamos, por exemplo, o que nos ensina Leão XIII sobre a atuação da Maçonaria:
 
“8. Existe no mundo um certo número de seitas que, embora difiram umas das outras pelo nome, pelos ritos, pela forma, pela origem, se assemelham e estão de acordo entre si pela analogia da finalidade e dos princípios essenciais. De fato, elas são idênticas à Maçonaria, que é para todas as outras como que o ponto central de onde elas procedem e para o qual convergem. E, se bem que no presente elas tenham a aparência de não gostarem de ficar ocultas, se bem que façam reuniões em pleno dia e sob as vistas de todos, se bem que publiquem seus jornais, todavia, se se for ao fundo das coisas, pode-se ver que elas pertencem à família das Sociedades clandestinas e que lhes conservam os usos. Com efeito, há nelas espécies de mistérios que a sua constituição proíbe com o maior cuidado serem divulgados não somente às pessoas de fora, porém mesmo a bom número de seus adeptos. A esta categoria pertencem os Conselhos íntimos e supremos, os nomes dos chefes principais, certas reuniões mais ocultas e interiores, bem como as decisões tomadas, com os meios e os agentes de execução. (...) (destaques nossos) (Carta encíclica Humanun Genus, sobre a Maçonaria, do Papa Leão XIII, promulgada em 20 de Abril de 1884. Nº 8 – Conspiração de Diversas Seitas).
 
     Desde já ressaltamos que não estamos afirmando que o Professor Donato ou qualquer um daqueles que nos escreveu pertença à Maçonaria. Simplesmente o que afirmamos é que é prudente se ausentar de associações ou grupos que tenham “reuniões mais ocultas e interiores”. É claro que Leão XIII não se referia às reuniões que têm como objetivo cuidar da administração dessas organizações, traçar planos de ação, cuidar de contratação ou demissão de funcionários, etc., mas sim de reuniões em que é expressa a doutrina na qual os associados devam crer, ou mais grave, a forma como os associados serão conduzidos a crer em algo, ou seja, uma sistemática de iniciação.
 
 
2 – Considerações gerais sobre alguns elementos doutrinários
 
     A sistemática de iniciação é defendida por Olavo de Carvalho que, como comentamos, faz muitos elogios ao Professor Donato e que teria sido até mesmo seu aluno. Ou teria sido seu professor? Afinal não se sabe se é pai ou se é filho. 
    Em seu artigo “Nas Garras da Esfinge”, Olavo de Carvalho defende que as religiões devem ter ritos de iniciação destinados a uma elite:
 
“Há, em suma, uma religião popular, feita de ritos e normas de conduta, igual para todos os membros da comunidade, e uma religião de elite, apenas para as pessoas `qualificadas´, que por trás dos símbolos e das leis podem apreender o ´sentido` último da revelação. Pela prática dos ritos de agregação que os integram na tradição religiosa e pela obediência as normas, os homens do povo obtêm a ´salvação` post mortem das suas almas. Por meio de ritos de iniciação, os membros da elite obtêm já em vida, e muito acima da mera ´salvação`, a realização espiritual que os arrebata do simples `estado individual´ de existência para transfigurá-los na própria Realidade Última, ou Deus”. (sublinhados no original e negritos nossos) (Olavo de Carvalho – As Garras da Esfinge – parte I, Revista Verbum, julho de 2016, edição nº 1 e penúltima, p. 37.).
 
    E, logo na sequência, Olavo apresenta o caso de um sufi que teria chegado a se transformar na “Realidade Última, ou Deus”.
 
“É bem conhecida a história do sufi Mansur Al-Hallaj (855-922), que após ter chegado à última “realização espiritual”, saiu gritando “Ana al-Haqq” (“Eu sou a Verdade”) e foi decapitado pelas autoridades exotéricas. Al-Haqq não quer dizer somente “a verdade” no sentido genérico e abstrato. É um dos noventa e nova “Nomes de Deus” impressos no Corão, de modo que a declaração de Al-Hallaj equivalia literalmente a “Eu sou Deus” (Olavo de Carvalho – As Garras da Esfinge – parte I, Revista Verbum, julho de 2016, edição nº 1 e penúltima, p. 37).
 
  Na segunda parte de seu artigo, Olavo procura demonstrar, utilizando- se da autoridade de Rene Guénon, que “todas as organizações iniciáticas cristãs foram desaparecendo depois da Idade Média, deixando os pobres fiéis limitados a um esoterismo espiritualmente capenga. Sobraram só uns resíduos de organizações extintas e... a Maçonaria”. (Olavo de Carvalho – As Garras da Esfinge – parte II, Revista Verbum novembro de 2016, edição nº 2 e, graças a Deus, a última, p. 33) 
  No decorrer do artigo, Olavo irá discorrer que a Igreja perdeu esta possibilidade de união ao esoterismo com as repetidas condenações da Maçonaria que ocorreram desde Clemente XII em 1738 até a renovação da excomunhão pela Congregação da Doutrina da Fé, mesmo depois do Código de Direito Canônico tratar apenas de “sociedade secretas”.  
    De forma resumida Olavo, citando Charles Upton, apresentou o perenialismo da seguinte forma:
 
“A geração da Escola Tradicionalista reunida em torno de Frthjof Schuon – escreve Charles Upton – apresentou e revelou as religiões em suas essências celestiais, sub specie aeternitatis.
Se as essências celestiais das religiões são substancialmente a mesma, a diferença entre elas é puramente terrestre e contingente, as formas particulares de cada uma nada tendo de sagrado em si mesmas sem a seiva que recebem da Tradição Primordial: só esta, a Religi Perenis, é verdadeira em sentido estrito. As demais são símbolos ou aparências imperfeitas de que ela se reveste nas suas várias encarnações terrestres.
Mas prossegue o mesmo Upton – essas revelações são consideradas ramos da Tradição Primordial, mas esta Tradição não é presentemente vigente enquanto sistema religioso; não é uma religião que possa ser praticada. Os únicos caminhos espirituais viáveis existem sob a forma – ou dentro – das presentes revelações viventes: Hinduismo, Zoroatrismo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islam”.(Olavo de Carvalho – As Garras da Esfinge – parte I, Revista Verbum, julho de 2016, edição nº 1 e penúltima, p. 32)
 
    O texto deixa claro que, segundo o perenialismo, existe uma religião primitiva, a única verdadeira, da qual todas as outras são formas particulares, estando neste conjunto de religiões particulares a Igreja Católica. Assim, a única religião verdadeira não seria a católica, mas sim essa religião perene, que está presente em muitas outras religiões. 
    Dentro do esquema perenialista, não há qualquer dificuldade em se procurar a salvação em outras religiões e transportar doutrinas, ensinamentos, práticas para a própria religião. Assim, não há mal em um católico frequentar a tarica maometana, ou um católico procurar a sabedoria nas religiões do antigo Egito. 
     Temos então no perenialismo uma forma particular de ecumenismo. No artigo referido, Olavo faz questão de notar que não se trata de uma “mixórdia sincretista da Nova Era”, mas sim de uma “visão abrangente e ordenante entre as várias cosmovisões espirituais”. 
     Na sequência, de forma bastante confusa, sem deixar muito claro o que ele, Olavo, pensa, apresenta as dificuldades que a Igreja Católica teria para recuperar a sua ligação com a doutrina perenialista, o que somente poderia se dar através de uma iniciação ou união mística. Guénon, prossegue Olavo, procurou então a infiltração no mundo católico para impor seu pensamento e, não o obtendo, parte para o Egito para se integrar aos meios esotéricos. 
     Para concluir, Olavo propõe que Guénon “não precisa ser combatido nem vencido”. A solução seria entender, ou melhor, decifrar Guénon, o que nos deixaria livre dele. Ou seja, devemos aceitar a doutrina de Guénon, o misticismo esotérico originado do perenialismo, para dentro da Igreja Católica. Vejamos como Olavo conclui seu artigo:
 
Mas Guénon não precisa ser combatido nem vencido. Ao adotar o pseudônimo de “Esfinge” nos seus primeiros escritos, ele sabia que aqueles que não decifrassem a sua mensagem seriam engolidos e reduzidos à obediência. Aqueles que esperneiam entre gritos de revolta não deixam de prestar-lhe obediência a contragosto ou mesmo inconscientemente. Uma vez decifrada, porém, a Esfinge não tem remédio senão soltar gentilmente a presa, que sairá das suas garras não somente livre, mas fortalecida”. (Olavo de Carvalho – As Garras da Esfinge – parte I, Revista Verbum, julho de 2016, edição nº 1 e penúltima, p. 41)
 
     Parece incrível que este artigo possa ser considerado doutrinariamente correto por católicos, alguns dos quais que se dizem tradicionalistas.
      Esta doutrina sobre uma elite religiosa esotérica foi o que presenciei na TFP, atual IPCO, e também é o que acontece entre os Arautos do Evangelho. Com a graça de Deus, juntamente com o Professor Orlando e sob a orientação dele, quando tive os primeiros indícios desta doutrina oculta, nos afastamos da TFP. Infelizmente, as denúncias, apesar de conterem inúmeras provas e não serem exclusivamente nossas, não levaram até o presente momento a qualquer providência por parte das autoridades da Igreja. 
     Vale lembrar que a TFP publicava um jornal, Plinio Correa dava muitas palestras públicas e escrevia muitos artigos. Entretanto, algumas reuniões, onde o “Profeta” podia se manifestar, eram reservadas a um grupo seleto de iniciados. Exemplo dessas eram as chamadas reuniões do MNF, cuja sigla oficialmente significava Manifesto, mas na realidade eram a manifestação das doutrinas gestionadas por Plinio. 
     A diferenciação entre a religião da elite e a religião popular de Olavo bem se aplica à forma como a TFP tratava seus iniciados, os quais pertenciam a uma seita denominada “Sempre-viva” (a descrição de como funcionava a “sempre-viva” encontra-se na sexta parte do livro No País das Maravilhas A Gnose Burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho, do prof. Orlando Fedeli. Nessa seita, Monsenhor João Clá era chamado de Plinio Fernando). Monsenhor João Clá, agora sob investigação do Vaticano, deu prosseguimento à “Sempre Viva”, a qual, devido a nossa denúncia, passou a ser apresentada de forma mais palatável ao público, sendo atualmente conhecida como “Sagrada Escravidão”. 
     Fazia e faz parte importante da “Sempre Viva” o culto a Plínio. Monsenhor João, para atrair novos iniciados, publicou uma biografia de Plínio composta de cinco livros - luxuosos como foi toda a vida do Profeta de Higienópolis - e chamada “O Dom de Sabedoria na Mente, Vida e Obra de Plinio Corrêa de Oliveira”. Ressalto que não se trata de um erro de digitação, não é o dom da sabedoria, mas sim o dom desabedoria. Será que isto teria alguma importância? De que sabedoria Monsenhor, que conhecia as estranhas e gnósticas doutrinas de Plínio, estaria tratando? Deixemos apenas anotado para o futuro. 
     Na introdução do livro assinado por Monsenhor João - aquele que a turma dos Arautos acredita estar citado nos Evangelhos quando Nosso Senhor diz que “houve um homem chamado João” - procura-se explicar as razões para a publicação. É pois necessário inventar uma boa desculpa para tudo aquilo que será dito, já que a quantidade de loucuras que se seguirão é enorme. Vejamos apenas uma que nos interessa agora:
 
“Entre as variadas e atraentes questões, um ponto chamou-lhe especialmente a atenção: a ação do Espírito Santo nas almas e seu papel na santificação. O Autor [Monsenhor João terror dos demônios] já havia se dedicado ao tema graça, essa misteriosa, mas quão real, participação na vida divina. Todavia, não conhecia a fundo a possibilidade do homem ser assumido, iluminado e guiado por Deus a ponto de agir como Ele mesmo, sob sua direta inspiração, por meio dos sete dons do Espirito Santo. Entre estes, os mestres dominicanos, fiéis aos ensinamentos de São Tomás, apontavam o de sabedoria como o mais elevado, por possuir uma função arquitetônica em relação aos demais, sendo, em consequência, considerado o pináculo do organismo espiritual infundido na alma com o Batismo formado por virtudes e dons. O Autor [sim é ele mesmo novamente, Monsenhor é modesto demais para escrever seu próprio nome] estava diante de um panorama novo, que lhe mostrava o quanto a mística pervade a vida não só dos Santos favorecidos com fenômenos extraordinários como o êxtase, mas de todos os batizados que correspondem às dádivas e aos favores concedidos com largueza por Deus” ( Monsenhor João Scognamiglio Clá, O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Volume 1 – inocência, o início da sabedoria., pp. 21 e 22).
 
     Assim, em apenas um parágrafo, Monsenhor João explica ao leitor que todas as suas teorias, por mais malucas que pareçam, tem como fundamento os dominicanos seguidores de São Tomás. Como alguém poderá então contestá-lo? Logo em seguida fala de um estranho misticismo que colocaria todos aqueles que são batizados no mesmo nível da santidade, ao menos como possibilidade, de santos que tiveram êxtases, como Santa Teresa, por exemplo. 
     Na sequência, tendo provado que ele segue o ensinamento de São Tomás e que os fenômenos que ele descreve são para todos, Monsenhor João vai ao que interessa, ou seja, revela de quem realmente ele está tratando.
 
“Além disso, no decurso desses estudos, uma intuição, teve também capital importância para sua vida. Em certo momento, compreendeu ele [Monsenhor João] com toda a nitidez como o que a mística ensinava sobre o papel dos dons do Espírito Santo na santificação da alma se aplicava inteiramente ao que tinha ocasião de comprovar, no dia a dia, em Dr. Plinio. A partir desse instante, houve como que uma súbita mutação. A Teologia deixou de estar restrita ao campo teórico para se tornar viva e concreta, quase palpável, personificada num varão virtuoso. E seu verdadeiro livro de Teologia passou a ser Dr. Plinio”. (Monsenhor João Scognamiglio Clá, O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Volume 1 – inocência, o início da sabedoria., pp. 23).
 
     Não foi necessário mais do que um parágrafo para que Monsenhor João abandonasse as teses tomistas, de maneira bem discreta é claro, para afirmar que tudo estava suportado em sua intuição. E a partir desta intuição descobriu que Plinio era um livro de Teologia. Sabe-se lá que tipo de sebo ordinário João Clá frequentava então. 
     Em seguida, afirma Monsenhor João:
 
“No decorrer destas páginas se verá a descrição minuciosa das moções do Espírito Santo na alma de Dr. Plínio, notadamente o “dom de sabedoria”, através dos olhos do Autor [o sempre modesto Monsenhor João], observador atento e sistemático de todas as suas ações durantes os longos anos transcorridos a seu lado”. (Monsenhor João Scognamiglio Clá, O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Volume 1 – inocência, o início da sabedoria., pp. 23)
 
     Pronto. Tudo provado! Podemos dispensar São Tomás. O observador atento e sistemático é testemunho mais do que suficiente. 
     Na sequência da biografia, fica evidente que Plinio não estudou coisa alguma, nem filosofia, nem teologia, nem história. Plínio gostava de romances. E Monsenhor, então, de cujos títulos também duvidamos bastante, não irá estudar as obras dele mas sim suas recordações. A sabedoria não estava no conhecimento que Plinio não tinha, mas sim espalhada em sua vida, em suas recordações, naquilo que ele imaginava ser o movimento da graça em sua alma, mas que, na realidade, não passava de sentimentos subjetivos e imaginativos. A leitura dos cinco volumes deixa claro que tudo não passa de “invencionice” de Monsenhor João, mas não é isto que nos interessa aqui, apenas ressaltamos a ideia do Dom de Sabedoria e sua aplicação por Monsenhor João.       Por que esta longa introdução para tratar das mensagens que recebemos a respeito do Professor Donato? Porque nós decididamente não temos o dom da sabedoria, nem somos filósofos ilustres como Olavo de Carvalho, para nós então só resta demonstrar através de citações e de argumentos o que pretendemos provar. Assim, feitas estas considerações iniciais, podemos adentrar o nosso tema e o leitor que tiver a paciência de nos acompanhar compreenderá em breve os motivos destas citações. 
     A principal crítica que recebemos, em razão de nossa postagem no Facebook, foi a de não conhecermos a obra do Professor Donato. De acordo com algumas informações, há centenas de aulas gravadas, sempre com o pedido de não divulgação. Algumas dessas aulas acabaram por chegar em nossas mãos. Por outro lado, tendo em vista que diversos dos alunos do Professor Donato afirmaram que não há nada de secreto, estamos disponibilizando aqui em nosso site a aula que iremos analisar. Assim nossos leitores poderão avaliar melhor o que escrevemos sobre a aula. Se estivermos enganados e o autor desejar, nós poderemos retirá-la assim que for solicitado. 
     É claro que apenas na análise de uma única aula, apesar de ser longa para os padrões habituais no Brasil, não se pode deduzir todo o pensamento de uma pessoa, especialmente quando a obra desta pessoa é tão vasta. Entretanto, pode-se perfeitamente analisar a doutrina que contém uma palestra sem que seja necessário analisar toda a obra de um autor.
     Quando fizermos alguma citação da aula colocaremos entre parênteses o tempo decorrente desde o início da aula.
 
 
3 – A aula do Professor Donato: a questão do Concílio Vaticano II

     O título da aula é interessante: “O Vaticano II e a Grécia Antiga”. É uma aula de quase duas horas. Não sei onde ela se passou. Ao que parece, foi ministrada em 19/11/2011.
 
     O Professor Donato diz, logo no início, que tratará de fatos pouco conhecidos do Concílio Vaticano II.
 
     A aula começa com uma análise bem geral. O Professor Donato afirma que o Papa, na convocação do Concílio,
 
 “não está falando na unidade dos cristãos, não está falando da reforma litúrgica, não está falando inclusive na própria Igreja, João XXIII convocou o concílio porque ele estava preocupado com o homem moderno” (4min30).

“Era a primeira vez que era convocado um Concílio não para discutir um problema da Igreja, mas um problema do mundo” (6min30). 

    
 Para provar suas afirmações, o Professor Donato cita o primeiro discurso pronunciado por João XXIII, no dia 25 de janeiro de 1959, o qual não se pode dizer que seja propriamente um fato pouco conhecido. 
 
  É apresentada então uma visão muito otimista do início do Concílio. Vejamos a que ponto chega este otimismo:
 
“Aliás a primeira metade do século XX foi uma das épocas mais felizes da história da Igreja. Se teve uma época em que, de modo geral, a Igreja estava feliz foi justamente a primeira metade do século XX” (6min40).
 
     Bem, não há dúvida de que esta visão da história é pouco conhecida! Mesmo assim ela é compartilhada exatamente por Plinio Correa de Oliveira. Vejamos:
 
“Tudo parecia prosperar na Igreja de Deus entre 1928 e 1935. Transcorriam normalmente os anos do pontificado de Pio XI. Naqueles anos crescia no Brasil uma grande e luminosa realidade, que se chamava correntemente o movimento católico”. (Meio século de epopeia anticomunista. Coleção Tudo sobre a TFP. p.410)
 
     Entretanto, em que pese a falecida autoridade do Profeta de Higienópolis, o único imortal que morreu, e agora do Professor Donato, acreditamos ser mais adequado ter como correto o que ensina Pio XI:
 
“... É por isto que, pelos séculos afora, as perturbações se têm sucedido umas às outras até à revolução de nossos dias, a qual ou já surge furiosa ou pavorosamente ameaçando atear-se em todo o universo e parece ultrapassar em violência e amplitude todas as perseguições que a Igreja tem padecido; a tal ponto que povos inteiros correm perigo de recair em barbárie...” (os negritos são nossos) (Encíclica Divini Redemptoris – Pio XI, 19-03-1937 nº 2).
     Que época feliz para a Igreja seria essa onde foram ultrapassadas em violência e amplitude todas as perseguições? 
     Não se diga que o Papa estaria querendo se referir somente aos ambientes de não católicos, pois ao apontar os remédios para a crise do mundo afirma ele:
 
Não podemos, contudo, negar que muito resta ainda por fazer neste caminho da renovação espiritual. Até mesmo em países católicos, demasiados são os que são católicos quase só de nome; demasiados, aqueles que, seguindo embora mais ou menos fielmente as práticas mais essenciais da religião que se ufanam de professar, não se preocupam de melhor a conhecer, nem de adquirir convicções, mais íntimas e profundas, e menos ainda de fazer que ao verniz exterior corresponda o interno esplendor de uma consciência reta e pura, que sente e cumpre todos os seus deveres sob o olhar de Deus. Sabemos quanto o Divino Salvador aborrece esta vã e falaz exterioridade, Ele que queria que todos adorassem o Pai “em espírito e verdade” (Jo 4, 23). Quem não vive verdadeira e sinceramente segundo a fé que professa, não poderá hoje, que tão violento sopra o vento da luta e da perseguição, resistir por muito tempo, mas será miseravelmente submergido por este novo dilúvio que ameaça o mundo; e assim, enquanto se prepara por si mesmo a própria ruína, exporá também ao ludibrio o nome cristão” (os negritos são nossos) (Encíclica Divini Redemptoris – Pio XI, 19-03-1937 nº 2).
 
     E mesmo antes de Pio XI, São Pio X, na introdução da Encíclica Pascendi, já alertava para o perigo da infiltração modernista dentro da Igreja:
 
“Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem”. (os negritos são nossos) (Encíclica Pascendi Dominici Gregis, sobre as doutrinas modernistas – São Pio X, 8/9/1907)
 
     Realmente, uma época como nunca houve pois, além das perseguições externas e das fraquezas dos católicos, havia a infiltração modernista na Igreja. 
     O projeto de um acordo entre a Igreja e o mundo, entre a doutrina católica e o liberalismo já germinava anteriormente ao Concílio Vaticano II, e vinha mesmo de setores considerados conservadores. Em 1939, Pio XII, em sua Radio Mensagem de Natal, publicava uma carta enviada pelo presidente Roosevelt que propunha esse acordo, como se a paz fosse trazida por um acerto entre os homens e não por uma submissão dos homens a Deus e a sua Igreja. A carta colocava, ainda, a Igreja católica no mesmo nível de outras religiões e igualava o poder temporal ao espiritual:
 
“Nas circunstâncias do momento presente, não há nenhum "leader" espiritual ou temporal que possa executar um plano determinado, capaz de pôr fim a esta destruição e reconstruir uma nova ordem. No entanto, esse tempo virá certamente. Estou, portanto, persuadido de que, embora não se veja ainda o modo nem o tempo de agir, é conveniente, desde já, trabalhar para uma união mútua de esforços de todos aqueles que, nas diversas partes do mundo - sejam líderes religiosos ou civis, têm a peito a mesma causa”. (Mensagem de Natal de 1939: Pontos fundamentais para a pacífica conviência dos povos).
     
A ideia de que os problemas do mundo moderno no tempo do Concílio Vaticano II se limitavam a uma desordem na utilização das tecnologias modernas, atribuindo a estas tecnologias qualidades que elas não têm e colocando-as no lugar de Deus, como o Professor Donato apresenta no início de sua palestra, demonstra uma visão muito simplista, para ser generoso, da situação anterior ao Concílio Vaticano II. É não levar em consideração que existiam doutrinas que estavam sendo preparadas há muito tempo, como por exemplo o Modernismo, e que houve um verdadeiro complô para que essas doutrinas triunfassem no Concílio Vaticano II. É não querer ver que a filosofia dominante dentro e fora da Igreja era completamente contrária à doutrina católica. É fechar os olhos para a reforma litúrgica que caminhava a passos largos para destruir a Missa. 
     Junto com esta visão que não corresponde à realidade, o Professor Donato pretende dizer que João XXIII convocou o concílio como algo espontâneo, que surgiu de repente como uma ideia nova. Será que de fato foi assim? Será de fato que não houve uma verdadeira conspiração para a convocação do Concílio? 
     Neste sentido recomendamos, dentre outras leituras do site Montfort, o trabalho do Professor Orlando: A religião do Concílio Vaticano II – Parte 3. No capítulo V com o título: Os Homens de Boa Vontade e o Concílio Vaticano II o Professor analisa se teria sido o Concílio Vaticano II o resultado de um acordo secreto entre membros da alta cúpula do Vaticano e a Maçonaria. 
     Como sempre no trabalho do Professor Orlando há muitas citações, e não apenas um pequeno trecho de um discurso com uma interpretação livre. Apresentamos a seguir apenas uma dessas citações que, ressalto, constam de um livro publicado pela Editora Paulus e não pela Montfort ou qualquer outra editora considerada tradicionalista, que deixam claro como a Maçonaria ficou satisfeita com os Papas que fizeram o Concílio.
 
“Outras comprovações de que houve um acordo secreto entre as seitas maçônicas e muito altos prelados da Igreja, acordo colocado em prática no Vaticano II, que aceitou as teses defendidas pela Maçonaria, se têm nos grandes elogios de importantes maçons a João XXIII e a Paulo VI por terem adotado posições pró maçônicas, no Concílio.
Elas estão no livro sobre Maçonaria e Igreja Católica de autoria dos insuspeitos Padres J.A.E. Benimeli, G. Caprile e V.Alberton,que nada têm de tradicionalistas (Editora Paulus, São Paulo, 1981. Cito a Quarta Edição brasileira desse livro, que é de 1998).
Essa obra, escrita por vários sacerdotes bem favoráveis ao Concílio, defende a aproximação da Igreja e da Maçonaria.
Nas páginas 100 e 101, desse livro, se pode ler o seguinte, tratando das novas relações, mais serenas, entre a Igreja e a Maçonaria: 
 "...cremos que sinais claros desta nova, mais serena atitude encontra (sic)-se também na posição assumida por alguns grupos maçônicos diante da figura dos dois papas artífices do Concílio, por ocasião de sua morte”.
"Na [morte] de João XXIII, o Dr. G. Gamberini, Grão Mestre do Grande Oriente da Itália -- [e, acrescento eu, Bispo da Igreja Gnóstica] -- distribuiu a nota seguinte:
"Sucede quase sempre, que um papa deixe profundas lamentações no âmbito de sua Igreja, mas, certamente, é a primeira vez que um papa morre circundado pela simpatia e pelo afeto de toda a humanidade. Desaparece, como todos sentem, um homem bom. Juntamente com esse homem bom desaparece o mais límpido, e ao mesmo tempo, o mais genial e eficaz defensor da Igreja. Consagrara-se à sobrevivência da Igreja, e a esta sobrevivência estava pronto a sacrificar todo outro valor tradicionalmente a ela associado [e foi o que ele e Paulo VI fizeram no Vaticano II]. A sua morte é um grande mal para a Igreja. Mas desaparece, também, um homem que se prometia tapar, em virtude de um autêntico sentimento cristão, o abismo escavado pela Igreja, antes dele, entre si mesma e a civilização moderna. E a sua morte é um grande mal para todos". (Dr G. Gamberini citado por J.A.E. Benimeli, G. Caprile e V.Alberton, Maçonaria e Igreja Católica , editora Paulus , São Paulo, 1981. Cito a Quarta edição brasileira, que é de 1998, pp. 100-101. Os destaques são meus).
Nessa mensagem deve-se notar não só a admiração de um alto maçom por João XXIII, como principalmente informação de que João XXIII aceitou sacrificar os valores tradicionais da Igreja, para que ela não perecesse, para que a Igreja sobrevivesse.
Teria alguém ameaçado a Igreja de que, se ela não mudasse, ela pereceria?
Teria João XXIII negociado a sobrevivência da Igreja em troca do sacrifício de seus valores mais tradicionais?
Se foi assim, o sacrifício dos valores mais tradicionais da Igreja foi feito no Vaticano II, para atender à Maçonaria. E foi o Vaticano II que aceitou a civilização moderna, isto é, o antropocentrismo, colocando o Homem no lugar de Deus.
O mesmo maçom Gamberini, "Bispo" da Igreja Gnóstica, elogiou também o Papa Paulo VI, por ocasião de sua morte, dizendo:
"(...) Nenhum dos seus predecessores foi tão difamado como ele. Talvez, porque, no seu tempo, a arte de difamar não conseguira as presentes garantias de impunidade. Mas, sem dúvida, a ele e não aos seus predecessores coube a sorte de tomar conhecimento da incumbência da ameaça final para a sua Igreja como para todas as religiões, como para toda espiritualidade. E teve de bater-se e procurou fazê-lo em mais de uma frente, com mais de uma tática. Para os outros, a morte de um Papa é um acontecimento proverbialmente raro, mas que acontece, não obstante com a frequência de anos e de decênios. Para nós é a morte de quem fez cair a condenação de Clemente XIV e de seus sucessores. Ou seja, é a primeira vez -- na História da Maçonaria moderna -- que morre o chefe da maior religião ocidental, não em estado de hostilidade com os maçonsE pela primeira vez na História os maçons podem prestar homenagem ao túmulo de um Papa, sem ambigüidades nem contradições. (Dr G. Gamberini citado por J.A.E. Benimeli, G. Caprile e V.Alberton, Maçonaria e Igreja Católica , editora Paulus, São Paulo, 1981. Cito a Quarta edição brasileira, que é de 1998, pp. 101-102. Os destaques são meus). (Orlando Fedeli, Os Homens de Boa Vontade e o Concílio Vaticano II).
     Prossegue o Professor Donato na sua análise sobre o Concílio, afirmando que: 
 
“todo mundo sabe que o Concílio Vaticano II foi aproveitado por muitas pessoas oportunistas para criar um clima de desordem dentro da Igreja. Começaram a aparecer pessoas dizendo coisas que o Concilio Vaticano II jamais tinha pensado. Infelizmente ele ainda não deu os frutos que se esperavam dele” (17min00).
 
     Mas que afirmação, esta sim, tão surpreendente! Se tudo era uma maravilha na Igreja, se os Papas estavam interessados em tirar do homem seu apego um pouco exagerado pela tecnologia e se não havia movimentos doutrinários contrários à Igreja, pergunta-se: quem é todo mundo e quem são as pessoas oportunistas? O Professor Donato não diz. Estariam elas dentro ou fora da Igreja? Como, se a situação na Igreja era tão boa, apareceram as pessoas oportunistas? Este ponto que é tão essencial o Professor Donato não trata, ou seja, como uma árvore tão boa pode produzir frutos tão podres? 
   Creio que aqui temos provado um dos pontos de minha pequena observação no facebook, ou seja, que o Professor Donato considera que os problemas do Concílio Vaticano II são frutos de uma má interpretação. Mas ele vai ainda mais longe! Ele considera o Vaticano II e a situação na Igreja até aquele momento como algo excelente, como se não houvesse uma ação do Modernismo e como se tudo não tivesse passado do aproveitamento de algumas pessoas que não são qualificadas. 
     Mas os meus críticos preferiram apenas dizer impropérios. Não se preocuparam em analisar se neste ponto eu estava certo ou errado. As informações que eu havia recebido sobre o pensamento do Professor Donato nesse ponto estavam corretas! Creio que a turma do facebook que declara ser de seus alunos ou seus simpatizantes ao menos poderia ter dito que neste ponto eu tinha razão, além de me ofender. 
     Mas vamos em frente na análise da aula...
  
 
 
4 – A palestra do Professor Donato: a questão dos homens sábios
 
     Qual teria sido então a real intenção do Concílio, segundo o Professor Donato? Para ele, a chave de tudo estaria na Constituição Dogmática Gaudium et Spes. Ele trata disto ao se reportar ao número 15 da Constituição, onde consta que a natureza intelectual da pessoa humana se aperfeiçoa pela sabedoria e que a solução para o nosso século - ainda citando a Gaudium et Spes - seria o aparecimento de homens de grande sabedoria (18min00 até 23min00). Vejamos uma de suas afirmações.

“Mais do que os séculos passados, o nosso tempo precisa de uma tal sabedoria, para que se humanizem as novas descobertas dos homens. Está ameaçado, com efeito, o destino do mundo, se não surgirem homens cheios de sabedoria.”

     Para o Professor Donato a Gaudium et Spes traria a solução para os males de nossos dias. É pena Bento XVI, então Cardeal Ratzinger, não concordar com ele! Vejamos a análise do Professor Orlando, também sobre este ponto, citando o Cardeal Ratzinger:
 
Infelizmente, o Concílio Vaticano II incluiu entre seus documentos — e dos mais importantes — a Constituição Gaudium et Spes, que trata das relações da Igreja Católica com o mundo moderno, e a Gaudium et Spes procurou exatamente conciliar a Igreja Católica com o progresso e com o mundo moderno.
O Concílio Vaticano II ensinou o oposto do Syllabus.
Que a Gaudium et Spes foi um documento oposto ao que a Igreja ensinou no Syllabus foi reconhecido por uma alta autoridade do Vaticano, nada menos do que o Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o senhor Cardeal Joseph Ratzinger, em um de seus livros, no qual ele escreveu: 
"Se se deseja emitir um diagnóstico global sobre este texto -- [da Gaudium et Spes] --- poder-se-ia dizer que significa (junto com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões mundiais) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de Antisyllabus" (Cardeal Joseph Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, Editorial Herder, Barcelona, 1985, p. 457. Grifos nossos). 
E em seguida:
"Contentemo-nos aqui com a comprovação de que o documento desempenha o papel de um Anti Syllabus, e, em consequência, expressa a intenção de uma reconciliação oficial da Igreja com a nova época estabelecida a partir do ano de 1789" (Cardeal Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, Editorial Herder, Barcelona, 1985, p. 458. Grifos nossos).
Note-se: Ratzinger disse que a Gaudium et spes desempenhou “o papel de um Anti Syllabus”. Não só de “uma espécie de anti Syllabus”, mas realmente “de um Anti Syllabus”. E só não vê isso, quem não quer ver.
Para confirmar que, no Concílio Vaticano II, houve esse desejo de conciliar a Igreja com a Modernidade, o Papa João Paulo II, em seu último livro, Memória e Identidade, reconheceu que:
“Nos documentos do Vaticano II pode se encontrar uma sugestiva síntese entre o Cristianismo e o Iluminismo” (Cfr. João Paulo II, Memória e Identidade, Loyola, São Paulo, 2005, p. 126)”. (Orlando Fedeli, Ave spes única! Ave gaudium verum!)
 
     Como então não ver problemas doutrinários no Concílio Vaticano II se o Cardeal Ratzinger opõe um documento do Concílio a um documento anterior? Para o Professor Donato, porém, não existiam problemas doutrinários e, portanto, as soluções são os homens de sabedoria. O Concílio teria pedido homens sábios. 
     Que tese semelhante com o que apresentamos sobre os princípios esotéricos de Olavo de Carvalho, de Plínio Correa e de seu fiel discípulo, Monsenhor João Clá! Não se destinam eles a formar homens sábios que já são deuses ou algo próximo a isto? 
    O Professor Donato procura em seguida demonstrar o quanto os sábios eram necessários após o Concílio, citando Paulo VI na Encíclica Populorum Progressio e no Decreto Optantam Totius, que trata sobre a formação sacerdotal. 
     Segundo o palestrante, este decreto trataria São Tomás como o mestre, como se fosse o único mestre da Igreja. Em sua análise o Professor Donato se referia ao texto em Latim do decreto chegando a afirmar que “jamais a Igreja foi tão arrojada”. [É verdade que, ao consultarmos o site do Vaticano sobre este documento, na tradução em português consta que São Tomás é um guia, Depois, para aclarar, quanto for possível, os mistérios da salvação de forma perfeita, aprendam a penetra-los mais profundamente pela especulação, tendo por guia Santo Tomás...”, o que é bastante diferente da explicação apresentada.  Quem sabe se os tradutores são os oportunistas que o Professor Donato cita anteriormente]. 
     Tendo como gancho o Decreto Optantam Totius, o palestrante passa discorrer como São Tomás na Suma contra os Gentios trata da sabedoria. Sem dúvida, essa é uma referência importante e fundamental mas, ao contrário da citada recomendação de Paulo VI, de tomar São Tomás como o único mestre, o Professor Donato prefere enveredar por outro caminho ao tratar da sabedoria. 
    A explicação começa pela sabedoria como se mostra no Antigo Testamento (49min00). O Professor Donato apresenta três referências à sabedoria encontradas no Antigo Testamento. 
     A primeira quando Salomão rezou pedindo a sabedoria. Aqui o Professor Donato chega a se perguntar se a sabedoria não seria a mesma coisa que o reino dos Céus para posteriormente afirmar que a sabedoria não foi dada nesse caso pelo estudo, mas divinamente concedida. Logo, aparentemente, aqui a sabedoria seria mesmo um dom dado por Deus. 
     A segunda citação é a do Livro da Sabedoria. Por esse ser um livro poético, segundo ele, muitos consideram, de forma errônea, que não trataria da sabedoria (52min00). 
     Por último é citado Isaias, o qual descreve os dons do Espirito Santo e entre eles a sabedoria, relacionando estes dons ao Messias. 
     De fato, estas referências não ajudam muito a entender o que é a sabedoria. Parecem três referências distintas, não se vê a ligação entre elas e o conferencista não explicita a relação. Algo semelhante ao que acontece com a explicação sobre a sabedoria dada por Monsenhor João. 
     Para Donato, há uma ideia de sabedoria desenvolvida no Antigo Testamento, “mas não é aquela que a gente estava esperando” (54min00). Que estranho, pensamos nós ao ouvir isto! Se não é aquela sabedoria que estávamos esperando é porque estávamos esperando algo errado! Seria, então, necessário corrigir nossas expectativas e ver o que o Livro da Sabedoria, no Antigo Testamento, diz sobre a sabedoria. 
     Mas o Professor Donato defende que: 
 
“quando São Tomás de Aquino fala da sabedoria e inclui toda a riqueza que está nas Sagradas Escrituras, o texto não vem da Sagrada Escritura, ela vem dos filósofos gregos... Na verdade para a gente discutir este tema precisaria primeiro ver o que significa sabedoria para os gregos e alargar este termo dentro da tradição cristã. O cristianismo aprofundou isto de maneira desmedida”.
 
     Nesse ponto, o palestrante definitivamente não segue o conselho que ele mesmo atribui ao Concílio Vaticano II e, ao invés de ir diretamente a São Tomás, que é o mestre, o único mestre, ele julga melhor, pelo menos momentaneamente, esmiuçar como a ideia de sabedoria teria se desenvolvido entre os gregos. 
     Passando à ação ele declara que o começo do conhecimento da sabedoria se deu com Tales de Mileto (1h10min00). E como este se iniciou na sabedoria? Com os sacerdotes egípcios! (Suspeito que teria sido melhor nós continuarmos com São Tomás...) Com um pouco de brincadeira, com a habilidade de um professor antigo para fazer os assistentes relaxarem após uma hora de reunião, mas também diminuindo um pouco a gravidade da afirmação, o Professor Donato informa que Tales de Mileto teve sua iniciação no Egito, ganhando uma “bolsa de estudos”. Assim, a sabedoria dos gregos, que foi desenvolvida por São Tomás, teria como fundamento os egípcios os quais, no dizer de Donato, ensinavam esta doutrina sobre a sabedoria de maneira secreta e, não sabemos porque, proporcionaram este conhecimento a Tales de Mileto, permitindo ainda que ele retornasse para o seu local de origem. 
     Ora, os ensinamentos dos egípcios eram secretos e satânicos. Por exemplo, a cruz com um laço, a cruz Ankh, significa a vida universal, isto é, o espírito divino que estaria no mundo. Isso é anticatólico. É um símbolo de magia gnóstica do antigo Egito. É, portanto, um símbolo diabólico. Será que é do satanismo que vem a sabedoria? 
     Será possível que os princípios sobre a sabedoria que foram desenvolvidos por São Tomás tiveram sua origem nas doutrinas egípcias? Sem dúvida esta tese poderia ser incorporada por Olavo de Carvalho, o qual recentemente defendeu que é necessário conhecer o satanismo para se chegar ao conhecimento de Deus. Certamente ele também defenderia a ideia de que ritos iniciáticos permitiam aos gregos chegar até a divindade mais oculta. Ademais, Tales de Mileto começa por onde Rene Guénon terminou: no ocultismo do Egito. 
     Aqui, portanto, temos um ponto de contato entre o Perenialismo de Olavo e a descrição do desenvolvimento da sabedoria que, como se verá a seguir, é apresentada pelo Professor Donato. Em ambos os casos se supõe uma doutrina secreta, doutrina esta julgada excelente, que permearia o conhecimento dos povos, especialmente daqueles que são sábios, e de que a Igreja Católica também se utilizaria. 
     Assim, na aula do Professor Donato há elogios às doutrinas dos sacerdotes egípcios, e aos gregos. Mas não há uma única crítica à religião que eles praticavam. 
     Ora, supõe-se que a aula pretenda ensinar a sabedoria - e não ser simplesmente uma aula de história. Mas a sabedoria, conforme é ensinada por São Tomás, a mesma que estaria no Antigo Testamento deve servir para colocar o mundo em ordem e assim reconduzir os homens ao caminho da salvação - que de fato é o que interessa. Portanto, é certamente necessário distinguir nos princípios de egípcios e gregos os graves erros que eles continham, ou menos dizer que estes erros existem. Caso contrário, acaba-se por cair no mesmo erro que a Declaração “Nostra Aetate”, a qual menciona das religiões não cristãs apenas os pontos positivos. 
   Segundo prossegue a narrativa do Professor Donato, não foi um equívoco a viagem de Tales de Mileto, porque depois, reconhecendo que se tratava de um aluno excepcional, ele enviou Pitágoras ao Egito, para ser também iniciado na doutrina dos sacerdotes (1h14min00). A viagem de Pitágoras teve algumas diferenças com a de Tales, pois ele teria resolvido fazer uma parada na Palestina, dirigindo-se ao Monte Carmelo, onde teria se encontrado com os discípulos de Santo Elias, ficando lá por volta de 30 dias. Depois disto prosseguiu viagem para o Egito, onde passou muito tempo aprendendo com os sacerdotes o que era a sabedoria. 
     Independente de ser verdadeiro tal encontro de Pitágoras com os discípulos de Santo Elias, o que é no mínimo muito discutível, interessa aqui analisar a narrativa donatiana. Então Pitágoras, que iria difundir a sabedoria pela Grécia de maneira tão formidável que terminaria por influenciar Platão, Aristóteles e São Tomás de Aquino, tem contato com os discípulos de Elias e prefere continuar sua viagem para os satânicos sacerdotes egípcios? Ele não se interessou em saber sobre o Messias? Os discípulos de Elias não trataram sobre isto? Não lhe ensinaram sobre a sabedoria que estava relacionada ao Antigo Testamento? Nada disto interessou a Pitágoras... a sabedoria dele veio dos egípcios, onde ele teria ficado 20 anos estudando. Ainda segundo Donato, Pitágoras talvez tenha tido contato com o Profeta Daniel, uma vez que esteve preso na Pérsia. Mas também aí não há qualquer sinal de influência do Profeta sobre Pitágoras. Os egípcios se saíram melhor! 
   Afinal, que tipo de sabedoria Pitágoras aprendeu? Ele não teria sido influenciado em nada pela falsa religião dos sacerdotes egípcios? 
   Voltando para a Grécia, prossegue o palestrante, Pitágoras montou uma espécie de mosteiro, onde a sabedoria era ensinada e onde havia uma ascese. O objetivo era criar um mundo melhor e, para isto, a escola funcionava nos mesmos moldes de um mosteiro. Assim, os alunos eram obrigados a manter silêncio, eram obrigados a não divulgar seus conhecimentos e não podiam mais deixar esta escola até o fim da vida (1h16min00). 
   Qual será a instituição que pretende criar escolas secretas, para fazer homens sábios e governar o mundo, mas das quais os homens, uma vez introduzidos, não tem direito de sair? Aqui realmente a história começa a ficar parecida com a do Concílio. 
  E que tipo de religião havia neste pseudo mosteiro? A sabedoria que nos ensina São Tomás de Aquino é apenas um desenvolvimento desta sabedoria? Nada disto o Professor Donato esclarece, nem faz qualquer ressalva. É difícil não sair da aula com a impressão de que há uma doutrina comum, que serviu de base para São Tomás. E não se trata simplesmente de um ponto de filosofia porque, como insistiu no começo da palestra o Professor Donato, tratou de algo de religião, algo que foi colocado por um concílio ecumênico para a salvação dos homens. 
    Depois de Pitágoras, surgem Sócrates e finalmente Platão, que dará então a receita para criar os homens sábios para governarem o mundo.
 
     Platão afirma que se deve montar uma escola onde as crianças permaneceriam distantes de todo o mal do mundo. Nesta seriam apresentados livros e brincadeiras para as crianças, as que escolhessem as brincadeiras seriam dispensadas... Na sequência, haveria o serviço militar, quem não quisesse não poderia se tornar sábio. A partir dos 30 anos, estudariam filosofia e aos cinquenta anos seriam levados à contemplação tornando-se assim sábios (1h40min00). 
     Donato não explica o que seria a contemplação. É claro que não pode ser a contemplação das coisas de Deus porque os gregos não tinham isto. Seria a contemplação das revelações dos sacerdotes egípcios? Aqui, portanto, o caráter religioso da ação dos gregos fica muito claro. São duas coisas diferentes: uma é o estudo da filosofia e a outra a contemplação. 
     Nesse ponto, continua Donato, os sábios assumiram o poder naturalmente. Por que? Porque Donato quer. 
    Na sequência da palestra, Donato dá um exemplo de um sábio que assumiu o poder naturalmente. Não! Não é Dr. Plinio ou mesmo João Clá. É São Bernardo. Que alívio! Donato afirma que, na Idade Média, São Bernardo era muito consultado mesmo sem querer. Através da sua sabedoria, São Bernardo teria governado o seu tempo. 
     Faltou desvendar como São Bernardo ficou sábio, uma vez que não frequentou a escola de Platão, muito provavelmente, brincava quando era pequeno e, apesar de pregar a cruzada, nunca fez serviço militar. Ora, São Bernardo foi um estudioso, como muitas outras pessoas de seu tempo, mas adquiriu a sabedoria através da santidade, ou seja, do amor a Deus, o que não tem qualquer relação com o sistema grego, ainda que ele tenha passado boa parte de sua vida em um convento. 
    Argumentar assim é fácil: descreve-se o sistema grego depois conta-se a história de São Bernardo. Não se estabelece qualquer relação de causa e efeito, mas fica provada a tese porque os dois fatos foram citados na mesma palestra. 
    Já no fim da palestra, o Professor Donato informa que, segundo Platão, é impossível fazer essa escola em uma democracia, porque na democracia não há valores fixos. 
     Pensei que, nesta altura, ele talvez fosse lançar a candidatura de Bolsonaro! Mas a palestra é bem mais antiga... De toda forma, a afirmação é surpreendente. 
   Como então fazer a tal escola tão elogiada? A solução é a ditadura, ou partimos para o modelo egípcio/grego de sociedade secreta? Então a escola será criada como foi o Concílio Vaticano II? 
    Aristóteles, de passagem - talvez devido ao escasso tempo pois já tínhamos praticamente duas horas seguidas de aula, sem uma única pergunta ou uma única interrupção - é citado ainda como o desenvolvedor do segundo e do terceiro elemento da definição da sabedoria, sendo lembrado que Aristóteles provou que felicidade e sabedoria são a mesma coisa (1.54:00). Assim, ficou a afirmação desta igualdade entre felicidade e sabedoria, mas não há uma explicação sobre isto e a relação disto com tudo que é anterior, especialmente com os egípcios. 
     Em tudo, não ficou claro o que é a sabedoria. Ressalta-se a importância de que ela fosse exercida por um certo homem, que seria o sábio – o que é bem parecido com a visão de Monsenhor João Clá em relação a Plinio - e que o conhecimento que leva à sabedoria foi, no Egito e ao menos na Grécia, algo esotérico, como pretendia Olavo de Carvalho em relação ao Perenialismo. 
    É claro que as relações apresentadas neste artigo não são provas de que o perenialismo que defende Olavo é exatamente o mesmo do Professor Donato. O termo Filosofia Perene é aplicado em sentidos diversos, como também o é a própria expressão Tradicionalismo. É claro também que a aceitação do perenialismo comporta graus diferentes. Entretanto, o que está claro na palestra analisada é, no mínimo, uma grande defesa de princípios egípcios e gregos, que de alguma forma servem como base para uma religião. Assim, é claro que tínhamos razão em nos preocupar ao relatarmos, em nosso post no facebook, que o Perenialismo de Olavo tinha algo de semelhante às teorias do Professor Donato. 
    Ficou a questão da mística. Donato passa apenas rapidamente sobre ela quando trata da contemplação de Platão. Vejamos se conseguiremos acesso a alguma outra aula. 
     De toda forma, nossa preocupação se mostrou bastante razoável. Estaríamos nós enganados sobre a proximidade das doutrinas do Professor Donato com as de Plinio, de Monsenhor João e de Olavo de Carvalho? Tenham certeza nossos leitores e os alunos do Professor Donato que ficaremos muito alegres em admitir nosso erro. Porém, com tantas semelhanças, é necessário que sejam bem esclarecidos os pontos indicados e que as doutrinas errôneas de Olavo e Plinio que se confundem com o ensinamento de Donato sejam condenadas. De fato, a gnose de direita presente nos escritos desses autores muito se tem espalhado e sua origem não é recente. Trata-se de um erro que tem atingido muitos de nossos amigos de perto. 
     Vejamos o que ensinava o Professor Orlando sobre o assunto em um artigo publicado em janeiro de 1986, em papel, em nosso antigo Jornal Veritas e que foi reproduzido no site Montfort:
 
“Que dizer então da chamada direita política católica? Desde a Revolução Francesa, os que se mantiveram na defesa das tradições políticas e religiosas, defendendo a desigualdade de direitos - ensinada, aliás, por todos os Papas - foram chamados direitistas. A etiqueta "direita" acabou englobando, entretanto, desde os "ultra" monarquistas da Restauração até os católicos que apoiaram o nazi-fascismo socialista totalitário e pagão. Isto é, "oves, boves et serpentes". Muitas serpentes. Muitas "oves" tradicionalistas, piedosas, que são, na verdade, lobos rapaces.
Com efeito, há na direita, tanto política quanto eclesiástica, todo um largo veio que, no fundo, quer a igualdade. Na política, tal veio se apresenta como anticomunista, mas defende um Estado totalitário, socialista e igualitário. Foi o que fez o nazismo. Foi o que fez o fascismo.
A corrente esotérica que controla grande parte dos movimentos de direita se apresenta como continuadora e defensora de uma "tradição" proveniente de revelação feita a Adão e transmitida secretamente através dos tempos. Ela afirma que todas as religiões possuem com maior ou menor densidade essa revelação primitiva. Por isso, todas teriam algo de verdade que englobasse em si toda a tradição, respeitando o que de verdadeiro existisse em cada religião. Nisso coincidem o tradicionalista Joseph de Maistre e o esquerdismo ecumênico do Concílio Vaticano II.
Por fim, uma última observação. A esquerda sonha com a realização da Utopia, isto é, com uma República Universal democrática, na qual não haveria nem nações, nem fronteiras, nem cercas, nem propriedades, nem guerra, nem exércitos, nem prisões, nem ladrões. Utopia em que a ciência e a técnica eliminariam a miséria e a ignorância, a doença e a dor e, quem sabe, até a morte.
Não é menos delirante o sonho da direita "tradicionalista". Esta sonha em restabelecer o paraíso terrestre. Ela quer voltar ao Éden e afirma que haverá o Reino de Deus na Terra. Por uma intervenção milagrosa da graça divina, todo o mal seria banido do mundo. Todos voltariam ao estado de inocência. Não haveria mais guerras, nem dor, nem morte, nem pecado. Seria o Reino do Amor. E duraria mil anos. Joaquim de Flora foi um dos pais desse sonho milenarista. O III Reich de Hitler foi uma das tentativas de realizar o milênio.
Frei Boff, hoje, com o apoio dos primos Lorscheider, anuncia que o Reino de Deus está próximo. Nesse Reino os homens serão cristificados e divinizados. O Reino de Deus boffista advirá com o fim do capitalismo e o estabelecimento de uma sociedade socialista e de uma igreja espiritual, democrática e igualitária. Uma Igreja popular e não divina. Como se vê, "tradicionalistas" e boffistas têm o mesmo sonho. (Direita e esquerda são irmãs gêmeas dialéticas, Jornal Veritas, no 5 - janeiro de 1986 - ano 2).
     
Como palavras finais - graças a Deus para nossos leitores a palestra termina - Donato adverte que:
 
“volto a dizer uma coisa para vocês [isto não tinha sido gravado antes] que quem não estiver presente nesta aula nem na próxima, por isto assine a chamada, a partir da terceira aula não entra mais”.
 
     Talvez tenha sido uma advertência deste tipo que levou nosso consulente a considerar as aulas do Professor Donato de difícil acesso. A Montfort de fato tem outro estilo. Chega-se quando se quer, sai quando se quer, não há lista de chamada ou de presença. Não há compromissos que precisam ser assinados. Foi assim com o Professor Orlando, é assim atualmente e, se Deus quiser, continuará sendo por muito tempo. Não há o que esconder em matéria de doutrina: “O que eu vos digo nas trevas, dizei-o vós em plena luz, e o que vos for dito ao ouvido, apregoai-o sobre os telhados”. (Mt. 10:26)
 

 
 
Mensagem enviada por um consulente por meio da página do Facebook da Montfort sobr euma pessoa que foi professor de Olavo de Carvalho e Padre Paulo Ricardo. 
Leitor: Thiago Silva
Enviada: 17/01/2018
Meio utilizado: Facebook
 
PERGUNTA: 
Um amigo me passou um material de áudio de um professor católico chamado Antonio Donato Paulo Rosa, que é considerado por muitos como um dos homens mais santos do Brasil. Esse amigo mencionou que ele foi professor do Olavo de Carvalho (há um texto de sua autoria no Mídia Sem Máscara) e do Padre Paulo Ricardo. Tudo o que pude descobrir, além disso é que é autor do livro A Educação Segundo a Filosofia Perene e que frequenta a paróquia Nossa Senhora do Brasil, em SP capital, zona oeste. Também é autor do site: www.cristianismo.org.br Muito recomendado esse site pelo padre Paulo Ricardo. Não é permitido a publicação de seus cursos na internet (Não tem conhecimento do motivo), mas ocorreu que uma pessoa fez a divulgação de aulas de Filosofia Moderna, sem sua permissão, nesse fórum: http://homensrealistas.org/forum/viewtopic.php?t=195  Gostaira de lhes perguntar se vocês os conhecem e se o se o material (cursos) são recomendáveis, se não há problemas. É muito difícil encontrar qualquer informação sobre esse professor. Muito obrigado pela atenção! Vocês estão sempre em minhas orações.
 
RESPOSTA:
     Prezado Thiago Silva, salve Maria!
     
Nunca tive acesso as aulas e os ensinamentos do Professor Donato. Alguns amigos me disseram que entre os seus alunos corre que ele teria um “voto de escondimento” e outros se referem a ele como "o moita”. É claro que a modéstia e a humildade são virtudes que devemos admirar, mas quando se trata de doutrina não é bom que algo fique oculto. Esconder, ou apenas revelar o que se pensa para um grupo de iniciados é um péssimo sinal.
     Muito tempo atrás, creio que aproximadamente vinte anos, o Professor Orlando esteve em uma aula com ele e o encontro acabou em discussão. O fato de Olavo fazer muitos elogios ao Donato também é um sinal ruim, e neste sentido os ensinamentos dele sobre o tema “filosofia perene” não soam bem, uma vez que a doutrina da filosofia perene do Olavo é bem gnóstica. Vejamos se consigo algum tempo, ou algum amigo meu consegue ler a tese do Donato.
     Parece ainda que ele teria muito acesso aos ambientes da Opus Dei, e acaba por defender que os erros do Concílio Vaticano II seriam somente de interpretação, mas que o texto em sim é bom.
     Quanto as aulas da filosofia moderna, se a divulgação no site foi realizada sem a autorização do autor como podemos ter certeza que realmente são do Professor Donato?
     Um conhecido meu disse que as aulas dele tem um viés muito místico e que ele acreditava que todos são chamados a ter um contato místico com Deus no estilo de Santa Teresa, o que no mínimo é muito estranho. Mas não é possível confirmar sem ter acesso as aulas. Informaram ainda que para participar das aulas só com indicação de outro aluno, e eu não conheço ninguém que assista as aulas dele.
Alberto Zucchi

 

 

    Para citar este texto:
"Será que as garras da Esfinge fizeram mais uma vítima?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/professor_donato/
Online, 19/11/2018 às 01:08:35h