Igreja

Ave spes única! Ave gaudium verum!
Orlando Fedeli

     Um antigo hino católico cantava: Ave Crux, Spes única. E sempre se soube que a verdadeira alegria — a alegria santa — só podia provir da cruz bem aceita. É a Cruz que nos redimiu. Dela nasceu a esperança de salvação conquistada por Cristo no Calvário. Da Cruz nos veio a salvação com a esperança de alcançar o eterno gáudio, que é o único verdadeiro, e que permanecerá para sempre. Crux, Spes, Gaudium. Cruz, esperança, gáudio. Esta é a ordem na qual a vida espiritual se desenvolve e alcança seu fim: Deus.
O Mundo, todo ele posto no maligno, promete o oposto: só haveria felicidade, se for afastado todo sofrimento, se for rejeitada a cruz. Gáudio, e esperanças materiais terrenas. Sem cruz. Essa é a tríade da vida mundana.
     O Mundo e Cristo têm princípios opostos.
     O Mundo nos oferece o gáudio na terra, a vida cômoda e prazerosa, como fonte de felicidade. Sem cruz alguma.
Cristo nos disse que só nos salvaremos se renegarmos a nós mesmos e tomarmos a cruz para segui-lo, imitando o seu exemplo.
Para o Mundo, o gáudio, traria a esperança de “qualidade de vida” perfeita neste mundo. Cristo nos prometeu a felicidade eterna no outro mundo.
     O mundo moderno — a chamada Modernidade – é a fé no homem, recusando a fé em Deus. A modernidade deposita fé no Homem e em sua capacidade de vencer os males trazidos pelo pecado original, e construir, por meio da ciência e da técnica, a utopia, a Cidade do Homem na terra. Daí, a Modernidade cultuar o progresso, essa palavra mágica, o Baal diante do qual, hoje, quase todos, dobram o joelho.
     Contra tudo isso, deve-se lembrar que Pio IX, no Syllabus, condenou como erro a seguinte frase:

O Pontífice Romano pode e deve conciliar-se e transigir com o progresso, com o Liberalismo e com a Civilização moderna” (Pio IX, Syllabus, erro 800. Alocução "Jamdudum cernimus", de 18 de Março de 1861).

     Pio IX condenou o progresso moderno.
     Infelizmente, o Concílio Vaticano II incluiu entre seus documentos — e dos mais importantes — a Constituição Gaudium et Spes, que trata das relações da Igreja Católica com o Mundo moderno, e a Gaudium et Spes procurou exatamente conciliar a Igreja Católica com o progresso e com o mundo Moderno.
     O Concílio Vaticano II ensinou o oposto do Syllabus.
     Que a Gaudium et Spes foi um documento oposto ao que a Igreja ensinou no Syllabus foi reconhecido por uma alta autoridade do Vaticano, nada menos do que o Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o senhor Cardeal Joseph Ratzinger, em um de seus livros, no qual ele escreveu:
 
"Se se deseja emitir um diagnóstico global sobre este texto -- [da Gaudium et Spes] --- poder-se-ia dizer que significa (junto com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões mundiais) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de Antisyllabus" (Cardeal Joseph Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, Editorial Herder, Barcelona, 1985, pág. 457. Grifos nossos).
 
     E em seguida:
 
"Contentemo-nos aqui com a comprovação de que o documento desempenha o papel de um Anti Syllabus, e, em conseqüência, expressa a intenção de uma reconciliação oficial da Igreja coma nova época estabelecida a partir do ano de 1789" (Cardeal Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, Editorial Herder, Barcelona, 1985, p. 458. Grifos nossos).
Note-se: Ratzinger disse que a Gaudium et spes desempenhou “o papel de um Anti Syllabus”. Não só de “uma espécie de anti Syllabus”, mas realmente “de um Anti Syllabus”. E, só não vê isso, quem não quer ver.
 
     Para confirmar que, no Concílio Vaticano II, houve esse desejo de conciliar a Igreja com a Modernidade, o Papa João Paulo II, em seu último livro, Memória e Identidade, reconheceu que: 

Nos documentos do Vaticano II pode se encontrar uma sugestiva síntese entre o Cristianismo e o Iluminismo” (Cfr. João Paulo II, Memória e Identidade, Loyola, São Paulo, 2005, p. 126).

     C
omo se fosse possível conciliar a Igreja e o Iluminismo gerado pela Maçonaria. Como se fosse possível conciliar a verdade com o erro, o bem com o mal, a luz com as trevas, a Igreja com o mundo moderno, Cristo com Belial. 
     Tudo isso nos veio à mente ao lermos a nova e esplêndida encíclica de Bento XVI, Spe salvi, na qual o Papa Bento XVI, o ex Cardeal Ratzinger, condena explicitamente a conciliação do Catolicismo com o Progresso e a Civilização Moderna, tal qual decretara Pio IX no Syllabus. O que Pio IX condenou no Syllabus, agora, Bento XVI explicita e explica magistralmente: não há possibilidade de conciliação, ou de síntese, entre Catolicismo e o Mundo Moderno, entre Cristianismo e Modernidade.
     Tivemos a felicidade de estar em Roma, no dia em que a encíclica Spe salvi foi publicada, e a lemos com imenso júbilo.
     
Na Spe salvi, nem uma frase do Concílio Vaticano II é citada, e como bem notou Antonio Socci, ela é uma espécie de anti Gaudium et Spes. O que a Gaudium et Spes saudava com júbilo e esperança, -- a conciliação do Catolicismo com a Modernidade e com o Mundo --, a Spe salvi condena.
     Neste artigo, nos limitaremos, hoje, a comentar apenas o núcleo da encíclica Spe Salvi, com sua contundente condenação da Modernidade tão respeitada pelo Vaticano II. Noutros artigos, em futuro breve, analisaremos e focalizaremos outros pontos notáveis dessa encíclica notável.
 
O núcleo da Encíclica Spe Salvi é a condenação da modernidade e do progresso
      
     O que Pio IX condenou no 80erro do Syllabus, Bento XVI explica o porquê dessa condenação. Exatamente, o que o Concílio Vaticano II aceitou com gáudio e esperança — o mundo moderno e seu pensamento — Bento XVI agora condena.
     E que o Concílio Vaticano II aceitou a Modernidade e procurou adaptar a doutrina católica ao pensamento moderno foi ponto fundamental do Concílio inculcado por João XXIII já no seu discurso de abertura do Concílio Vaticano II:
 
O nosso dever não consiste só em guardar este tesouro precioso, como se unicamente nos preocupássemos com o que é antigo, mas dedicar-nos com alegre disposição e destemor a esta incumbência, que nossa idade exige, seguindo assim no caminho que a Igreja percorre há vinte séculos.
"O punctum saliens deste Concílio não é pois discutir um ou outro artigo da doutrina fundamental da Igreja, do ensinamento dos Padres e teólogos antigos e modernos, que se supõe sempre bem presentes e familiares ao espírito.
"Para tanto não se fazia mister um Concílio. Mas da renovada e tranqüila adesão a todos os ensinamentos da Igreja em sua integridade e precisão, como ainda resplandece nas atas conciliares, desde Trento até o Vaticano I, o espírito cristão católico e apostólico do mundo inteiro aguarda um salto para a frente, rumo a uma penetração doutrinária e uma formação das consciências em consonância mais perfeita com a fidelidade à doutrina autêntica, porém estudada e exposta segundo os moldes da pesquisa e da formulação literária do pensamento moderno. Uma coisa é a substância da antiga doutrina do depositum fidei, e outra é a formulação de que se reveste” (João XXIII, Discurso de Abertura do Vaticano II, 11 de Outubro de 1962. Os destaques são nossos).
 
     O Vaticano II aceitou a pensamento moderno expressado pela Filosofia de Descartes e de Bacon, de Kant e da Fenomenologia de Husserl, do existencialismo de Heidegger, com textos escritos de acordo com o linguajar da Hermenêutica moderna de Gadamer, com sua multiplicidade de leituras possíveis, que, mesmo opostas não seriam excludentes umas das outras. Daí toda a confusão do Vaticano II com suas múltiplas leituras possíveis.
     Bento XVI condena os princípios filosóficos fundamentadores da Modernidade.
     O Papa Bento XVI, em sua encíclica Spe salvi, expõe os componentes da chamada Modernidade. E começa afirmando que essa modernidade nasceu de uma mentira: a de que o cristianismo busca uma salvação egoísta, que não se preocupa com os outros. A Igreja teria criado uma humanidade egoísta, preocupada unicamente com a salvação eterna e pessoal, pouco ou nada se importando com a salvação alheia, ou com a salvação das misérias do mundo em que vivemos.
 
16. Como pôde desenvolver-se a idéia de que a mensagem de Jesus é estritamente individualista e visa apenas o indivíduo? Como é que se chegou a interpretar a «salvação da alma» como fuga da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros?” (Bento XVI, Spe salvi, n0 16).
 
     Essa é uma calúnia contra a Igreja que é facilmente refutável.
     Não rezamos no Pai Nosso que Deus é exatamente Pai nosso? Não pedimos: “Venha a nós o vosso Reino”? Não rogamos na Ave Maria: rogai por nós pecadores?
     A Igreja, seguindo a Cristo, sempre ensinou e mandou amar e cuidar do próximo. Por isso, Ela fez os hospitais e as universidades.
     E mais não é preciso dizer.
     Bento XVI aponta então os componentes do que é a Modernidade, nascida da revolta do século XVI, da conjunção da Reforma com o Renascimento, cujas idéias humanistas, antropocêntricos e naturalistas, foram bem expressas nas filosofias de Descartes e de Francis Bacon.
 
10  Componente da Modernidade: Razão e Método experimental
 
     Bento XVI vê como primeiro componente da Modernidade — tão festejada pelo Vaticano II na Gaudium et Spes  -- a doutrina cartesiana racionalista e cientificista que pretendia tudo compreender e tudo dominar, pela experiência e pelo método racionalista.
Pela ciência e pela técnica, o homem reinaria, enfim, sobre toda a natureza, permitindo vencer as conseqüências do pecado original: dor, doença, ignorância, morte até. A Modernidade é a Fé na razão e no progresso científico, como meios aptos para redimir naturalisticamente o homem. Sem renegar explicitamente à fé católica, a Modernidade fez uma apostasia implícita do cristianismo, ao trocar a Fé em Cristo Redentor por uma Fé naturalista na Razão e na Ciência, pretensamente redentoras.
     Eis o que o Papa Bento XVI ensinou, na Spe salvi, sobre a filosofia de Descartes e de Francis Bacon:
 
Para encontrar uma resposta à questão, devemos lançar um olhar sobre as componentes fundamentais do tempo moderno. Estas aparecem, com particular clareza, em Francisco Bacon. Que uma nova época tenha surgido – graças à descoberta da América e às novas conquistas técnicas que permitiram este desenvolvimento – é um dado fora de discussão. Mas, sobre o que é que se baseia esta mudança epocal? É a nova correlação de experiência e método [Descartes] que coloca o homem em condições de chegar a uma interpretação da natureza conforme às suas leis e, deste modo, conseguir finalmente «a vitória da arte sobre a natureza» (victoria cursus artis super naturam).[14] A novidade – conforme a visão de Bacon – está numa nova correlação entre ciência e prática. Isto foi depois aplicado também teologicamente: esta nova correlação entre ciência e prática significaria que o domínio sobre a criação, dado ao homem por Deus e perdido no pecado original, ficaria restabelecido.[15]. (Bento XVI, Spe Salvi, n0 16. Os destaques são nossos).
 
     A Modernidade é a fé na ciência, na razão e no progresso como meios de uma redenção naturalista.
     Modernidade, portanto é uma apostasia. É a recusa de Cristo como Redentor dos homens.  
     Bento XVI mostra então como a Modernidade é uma apostasia silenciosa, mas implícita e radical, da Fé católica, e que essa redenção humanista preconizada pela Modernidade visaria não mais a vida eterna prometida pela Fé católica, mas a restauração do paraíso na terra: a utopia.
     Se é assim – e é assim --, como então, o Papa Paulo VI pode declarar que o Concílio Vaticano II “modificou de modo considerável o julgamento e a atitude [da Igreja] com relação ao mundo” (Paulo VI, Discurso na Unesco, 1960, apud Romano Amerio, Iota Unum, Ricardo Ricciardi, Milano -Napoli, 1985, p. 404).
 
20  Componente da Modernidade: a Fé na Ciência substitui a Fé em Cristo e em sua Redenção
 
     O Papa mostra que, a Modernidade, embora apenas de modo implícito, de fato, renega a redenção de Cristo e confia na redenção do homem pelo homem, através da Ciência. E nisso há uma verdadeira apostasia.
     Não espanta então que — segundo disseram vários Cardeais (Pacelli, Oddi e Ciappi) -- Nossa Senhora de Fátima, no Terceiro Segredo, tenha falado de uma grande apostasia na Igreja e que começaria em seu cume. De fato, o Vaticano II, aceitando a Modernidade, abriu as portas da Igreja para a apostasia.
     Veja-se, sobre isso, o que diz a Spe salvi:

17. Quem lê estas afirmações e nelas reflete com atenção, reconhece uma transição desconcertante: até então a recuperação daquilo que o homem, expulso do paraíso terrestre, tinha perdido esperava-se da fé em Jesus Cristo, e nisto se via a « redenção ». Agora, esta « redenção », a restauração do « paraíso » perdido, já não se espera da fé, mas da ligação recém-descoberta entre ciência e prática. Com isto, não é que se negue simplesmente a fé; mas, esta acaba deslocada para outro nível – o das coisas somente privadas e ultra terrestres – e, simultaneamente, torna-se de algum modo irrelevante para o mundo. Esta visão programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a atual crise da fé que, concretamente, é sobretudo uma crise da esperança cristã” Bento XVI, Spe salvi, n0 17. Os destaques são nossos)..
 
     Ora, Paulo VI, por excelência o Papa do Concílio Vaticano II, declarou o oposto disso, exaltando o homem e a ciência moderna:
 
"Honra ao homem! Honra ao pensamento! Honra à Ciência! Honra à síntese da atividade científica e organizativa do homem, do homem que diferentemente de todos os outros animais, sabe dar-se instrumentos de conquista à sua mente e à sua mão!
"Honra ao homem Rei da Terra, e também, agora, Príncipe do céu! Honra ao ser vivo que nós somos, o qual espelha em si a Deus, e, dominando as coisas, obedece à ordem bíblica: crescei e dominai"! (Paulo VI, Discurso, na hora do Angelus, em 7 de Fevereiro de 1971).
 
 
 
30  Componente da Modernidade: a Fé no progresso como restauradora do Paraíso perdido
 
     A doutrina de Francis Bacon substituiu a Fé católica em Cristo pela fé no progresso. E o progresso realizaria o Reino do Homem em vez do Reino de Deus.
     A Fé da Modernidade é fé humanista, antropocêntrica. Ela cultua o Homem e não Deus.
     Quanta razão tinha então Pio IX de condenar o Progresso moderno! E como estava fora do caminho a Gaudium et Spes, como um real anti Syllabus. Como errou o Vaticano II, colocando-se a serviço do Homem, e em pretender que a Igreja se tornasse cultora do Homem”, como afirmou Paulo VI em seu discurso de encerramento do Vaticano II.
 
Assim também a esperança, segundo Bacon, ganha uma nova forma. Agora chama-se fé no progresso. Com efeito, para Bacon, resulta claro que os descobrimentos e as recentes invenções são apenas um começo e que, graças à sinergia entre ciência e prática, seguir-se-ão descobertas completamente novas, surgirá um mundo totalmente novo, o reino do homem. [16] Nesta linha, apresentou um panorama das invenções previsíveis, chegando ao avião e ao submarino. Ao longo do sucessivo desenvolvimento da ideologia do progresso, a alegria pelos avanços palpáveis das potencialidades humanas permanece uma confirmação constante da fé no progresso enquanto tal”. (Bento XVI, Spe salvi, n0 17. Os destaques são nossos).
 
     Lembra, então, sabiamente o Papa Bento XVI que a Modernidade é uma fuga da dor, uma recusa de aceitar a cruz, e que só na cruz está a esperança de salvação. A fuga da dor é mentirosa, e a ninguém salva:
 
Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor (Bento XVI, Spe salvi, n0 37).
 
     A Gaudium et Spes, falando do progresso do mundo Moderno, não teve o mesmo tom que a Spe salvi. Esses dois documentos do Magistério eclesiástico cantam músicas diferentes e não se harmonizam. Antes, se opõem:
 
“Entretanto, cresce a persuasão de que o gênero humano não só pode mas deve fortalecer cada dia mais o seu domínio sobre as coisas criadas; além disso que lhe compete estabelecer uma organização política, social e econômica que com o tempo sirva melhor ao homem e ajude cada um e cada grupo a afirmar e cultivar a própria dignidade (...) Debaixo, porém, de todas essas reivindicações está latente uma aspiração mais profunda e mais universal: as pessoas e os grupos desejam viver plena e livremente de maneira digna do homem, colocando a seu próprio serviço todas as coisas que o mundo moderno pode oferecer tão abundantemente” (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n0 9).
 
     A Modernidade, nascida de uma mentira crê numa mentira: o progresso como redentor.
 
40 Componente da Modernidade: o Progresso como libertador de toda dependência
 
     Quando se lê a condenação do progresso moderno, no 800 erro do Syllabus, muitos há que tomam um choque.
     Como? Os Papas não deveriam aceitar o Progresso? O católico não poderia aceitar os modernos tratamentos dentários? Não poderia usar o computador ou o ventilador? Não pode usar automóvel ou avião?
     Claro que essas invenções são perfeitamente lícitas e se constituem num avanço legítimo. O que é ilegítimo no progresso moderno é a idéia, subjacente nele, de que o progresso libertaria o homem de toda dor, de toda dependência. Que uma libertação total da dor, da miséria das limitações causadas pelo pecado original seria desejável. E, em conseqüência, que a cruz deveria ser banida do mundo.
     Esse banimento da cruz, posto como um princípio da Modernidade, é que é condenável na idéia moderna de progresso.
     Bento XVI mostra ainda uma outra maldade sutilmente escondida no culto que a Modernidade presta ao progresso: ele permitiria  ao homem não depender de ninguém e de nada. O progresso permitiria que o homem bradasse como Lúcifer: “Non serviam”.
     Bento XVI mostra que embutidas nesse Baal moderno -- o Progresso — estão a razão e a liberdade.
     O Progresso permitiria realizar o grande ideal maçônico da Revolução Francesa: a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.
     A liberdade, porque o Progresso tornaria o homem absolutamente auto suficiente. O homem poderia até dispensar a ajuda de Deus na obtenção do Pão, como se rezava antes: “Pai nosso que estais no céu.. o pão nosso de cada dia, dai-nos hoje”.
     Agora, graças à razão e á técnica, graças ao Progresso, o homem poderia afirmar diante de Deus – como se faz na Missa Nova de Paulo VI -- que o pão ele o deve apenas a seu trabalho e à terra, dispensando a ajuda divina: “Abençoai, Senhor este pão, fruto da terra e do trabalho do homem”.
     Essa nova fórmula, rezada na Nova Missa, se constitui, de fato, numa proclamação de auto suficiência do homem moderno. O Homem julga não depender mais de Deus
     Eis o homem livre das limitações e conseqüências do pecado original.
     Vive la Liberté.
     E não havendo mais dependências, nenhum homem estaria acima de outro. Realizar-se-ia a utopia da Igualdade.
     Vive l´Égalité,
     E como nem Deus estaria mais acima do Homem, não haveria mais a Paternidade, mas uma fraternidade universal.
     Sem Pai.
 
« La Fraternité ou la Mort », se lê em letras de pedra, na fachada da Prefeitura de Troyes en Champagne. E esse lema poderia bem ter sido assinado por Caim. Foi assinado pela Revolução Francesa que estabeleceu a Fraternidade da guilhotina. A Fraternidade da cidadania.
     Sem Pai.

     Curioso é que, depois do Concílio Vaticano II, as campanhas da CNBB se tenham chamado de Campanhas da Fraternidade, e que elas só visem coisas do Reino do Homem. Apenas coisas deste mundo: clima, águas, ecologia, Amazônia, comida, reforma agrária, etc.
     Eis o texto luminoso em que Bento XVI  trata dessa questão do Progresso:

18. Simultaneamente, há duas categorias que penetram sempre mais no centro da idéia de progresso: razão e liberdade. Aquele é sobretudo um progresso no crescente domínio da razão, sendo esta considerada obviamente um poder do bem e para o bem. O progresso é a superação de todas as dependências; é avanço para a liberdade perfeita. Também a liberdade é vista só como promessa, na qual o homem se realiza rumo à plenitude. Em ambos os conceitos – liberdade e razão – está presente um aspecto político. O reino da razão, de fato, é aguardado como a nova condição da humanidade feita totalmente livre. Todavia, as condições políticas deste reino da razão e da liberdade aparecem, à primeira vista, pouco definidas. Razão e liberdade parecem garantir por si mesmas, em virtude da sua intrínseca bondade, uma nova comunidade humana perfeita. Nos dois conceitos-chave de « razão » e « liberdade », tacitamente o pensamento coloca-se sempre em contraste com os vínculos da fé e da Igreja, como também com os vínculos dos ordenamentos estatais de então. Por isso, ambos os conceitos trazem em si um potencial revolucionário de enorme força explosiva” (Bento XVI, Spe salvi n0 18. Os destaques são nossos).
 
     A Gaudium et Spes focaliza a ânsia de liberdade do mundo moderno num ótica completamente oposta à da Spe salvi:
 
O Homem porém não pode voltar-se para o bem senão livremente. Os nossos contemporâneos exaltam e defendem com ardor esta liberdade. E de fato com razão. Contudo, eles a fomentam muitas vezes de maneira viciada, como uma licença de fazer tudo que agrada, mesmo o mal” (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n0 17. Os destaques são nossos).
O que se exalta nesse texto do Vaticano II é a defesa ardorosa da liberdade pelo mundo moderno, e se afirma rotundamente que se faz isso “com razão”. Exalta-se o principio errado, embora se faça critica acidental ao modo como se exerce essa liberdade.
A Spe salvi tem tom oposto a esse tom terrenal e moderno da Gaudium et Spes. 
 
     E como não ver que, nessa ânsia de auto suficiência, há uma revolta metafísica contra a contingência do ser criado contra o Ser necessário, contra Deus?
     Na Modernidade, há, pois, uma revolta metafísica.
     Ora, a revolta metafísica contra a contingência do ser criado, assim como o considerar o homem como auto redentor, são duas características típicas da Gnose. A Modernidade é gnóstica.
     Pergunta-se então: como o Vaticano II tentou conciliar a Igreja com o Progresso e com o Mundo Moderno através do anti Syllabus, que foi a Gaudium et Spes?
 

50 Componente da Modernidade: a substituição do Reino de Deus pelo Reino do Homem
 
     A Modernidade repeliu a doutrina do Reino de Deus para adotar a Utopia, o sonho de realizar, na terra, uma era sem miséria e sem males. O sonho de reconstruir o Éden perdido.
     A Modernidade adotou a preocupação de vencer, com as meras forças do homem, os problemas do comer e do vestir, das doenças e da morte, da dor e da guerra, que, segundo ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo, eram as preocupações dos pagãos. Nosso Senhor nos mandou buscar antes de tudo o Reino de Deus e sua justiça, e que tudo o mais nos seria dado por acréscimo.
     A modernidade recusou a recomendação de Cristo e repeliu a cruz. Ela julgou que seria capaz de acabar com os efeitos do pecado original, coisa que nem Deus fez com o Batismo e com sua morte na cruz. A Morte de Jesus na Cruz apagou a culpa original, mas permitiu que permanecessem conseqüências do pecado de Adão.
     Eis como Bento XVI condena esse sonho da Modernidade fundado na utopia de Bacon e nas mentiras de Descartes:

Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido através da ciência. Com uma tal expectativa, está-se a pedir demasiado à ciência; esta espécie de esperança é falaz” (...)26. Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. Isto vale já no âmbito deste mundo” ». (Bento XVI, Spe salvi, n0s 25 e 26).
 
     E Bento XVi insiste na mentira da Modernidade e de sua utopia:
     
Visto que o homem permanece sempre livre e dado que a sua liberdade é também sempre frágil, não existirá jamais neste mundo o reino do bem definitivamente consolidado. Quem prometesse o mundo melhor que duraria irrevocavelmente para sempre, faria uma promessa falsa; ignora a liberdade humana. A liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem. A livre adesão ao bem nunca acontece simplesmente por si mesma. Se houvesse estruturas que fixassem de modo irrevogável uma determinada – boa – condição do mundo, ficaria negada a liberdade do homem e, por este motivo, não seriam de modo algum, em definitivo, boas estruturas”. (Bento XVI, Spe salvi, n0 24).
 
     Conclui então Bento XVI que o Reino do Homem é uma perversão:
 
Portanto, não há dúvida de que um « reino de Deus » realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no « fim perverso » de todas as coisas, descrito por Kant: já o vimos e vemo-lo sempre de novo”. (Bento XVI, Spe salvi, n0 23).
 
     Ora, Paulo VI sintetizou o ensinamento do Concílio Vaticano II como sendo o triunfo do antropocentrismo, o culto do homem, colocando a Igreja a serviço do homem.
     Veja-se como Paulo VI e o Vaticano II ensinaram doutrina oposta à de Bento XVI, na Spe salvi:
 
"A Igreja do Concílio [Vaticano II] se ocupou bastante do homem, do homem tal qual ele se apresenta em nossa época, o homem vivo, o homem todo ocupado consigo mesmo, o homem que se faz centro de tudo aquilo que o interessa, mas que ousa ser o princípio e a razão última de toda a realidade... O humanismo laico e profano, enfim, apareceu na sua terrível estatura, e, em certo sentido, desafiou o Concílio. A religião de Deus que se fez homem encontrou-se com a religião do homem que se fez Deus.
    
"Que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Isso poderia ter acontecido, mas isso não aconteceu. A antiga história do samaritano foi o modelo da espiritualidade do Concílio. Uma imensa simpatia o [o Concílio] investiu inteiramente. A descoberta das necessidades humanas absorveu a atenção deste Concílio. Reconhecei-lhe ao menos este mérito, o vós humanistas modernos, que haveis renunciado à transcendência das coisas supremas, que saibais reconhecer o nosso novo humanismo: também nós, Nós, mais que qualquer outro, nós somos cultores do homem
" (Paulo VI, Discurso de Encerramento do Vaticano II, 7 de Dezembro de 1965. Os negritos são nossos).
 
     Essa foi uma proclamação de concórdia inaudita entre a Igreja -- a Civitas Dei por excelência -- e o Mundo Moderno, com o Humanismo, fundamento da Cidade do Homem.
     E desta conciliação impossível só poderia nascer a submissão, a servidão da Igreja ao homem.
     Vejam-se ainda estas palavras de Paulo VI:
   
"Ainda há um outro ponto que Nós devemos destacar: toda esta riqueza doutrinária
[do Concílio Vaticano II] visa somente uma coisa:  servir o Homem" (Paulo VI, Discurso de Encerramento do Vaticano II, 7 de Dezembro de 1965.).
"Tudo isto, e tudo aquilo que Nós podemos ainda dizer do valor humano do Concílio [Vaticano II],  talvez tenha desviado o pensamento da Igreja do Concílio em direção de posicionamentos antropocentricos, tomados da cultura Moderna? Não, a Igreja não se desviou, mas Ela se voltou em direção ao homem...
"A mentalidade moderna, habituada a julgar todas as coisas pelo seu valor, pela sua utilidade, quereria bem admitir que o valor do Concílio é grande pelo menos por esta razão: tudo foi orientado para a utilidade do homem! Portanto, não se declare mais inútil uma religião, como a religião Católica que, na sua forma, a mais consistente e eficaz, como esta do Concílio, proclama que Ela está toda inteira a serviço do homem..." (idem).
"Neste Concílio [Vaticano II] a Igreja quase se fez escrava da humanidade" (Paulo VI, Discurso de Encerramento do Concílio Vaticano II. Os destaques são nossos).
  
     Mas, na Sagrada Escritura, se proclamou o oposto: 

Isto diz o Senhor: maldito o homem que confia no homem"
(Jer. XVII, 5).

     Desgraçadamente, porém, Paulo VI  escreveu:

"Nós temos fé no homem".
(Paulo VI, Entrevista em Sidney, 2 de Dezembro de 1970).
  
     Finalmente, depois de um texto que recorda Rousseau, o hino de glória ao homem, feito por Paulo VI, por motivo da primeira viagem espacial, em 1971:
 
"Honra ao homem! Honra ao pensamento! Honra à Ciência! Honra à síntese da atividade científica e organizativa do homem, do homem que diferentemente de todos os outros animais, sabe dar-se instrumentos de conquista à sua mente e à sua mão!
"Honra ao homem Rei da Terra, e também, agora, Príncipe do céu! Honra ao ser vivo que nós somos, o qual espelha em si a Deus, e, dominando as coisas, obedece à ordem bíblica: crescei e dominai"! (Paulo VI, Discurso, na hora do Angelus, a 7 de Fevereiro de 1971).
  
     
Parece uma paráfrase do Gloria in excelsis Deo!
     Parece uma exaltação do homem, como um ídolo!
     O que os anjos cantaram para o Menino Jesus no presépio, Paulo VI fez cantar para o Homem.
     Como era diversa a posição de São Pio X a respeito do homem.
   
"É necessário que com todos os meios e trabalhos nós façamos desaparecer radicalmente a enorme e detestável maldade própria do nosso tempo, que substitui Deus pelo homem"
(S. Pio X, Supremi Apostolatus, 14).
 
     A Modernidade é a apostasia. Por isso, Pio IX condenou a tese de que os Papas deveriam se conciliar com o mundo moderno. E, segundo o Cardeal Ratzinger, foi o que fez o Concílio Vaticano II, ao se tornar um Anti Syllabus.
     Eis, agora, Bento XVI retornando à doutrina de sempre, e escrevendo uma encíclica Anti Gaudium et Spes, condenado o Reino do Homem:
 
Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro « reino de Deus ».(Bento XVI, Spe salvi, n0 30).
 
     A Modernidade é então mentira e apostasia. E, como definiu o Syllabus, jamais os Papas poderiam conciliar a doutrina de sempre com a da Modernidade, que passa a todo momento.
     A doutrina da Igreja é imutável e não pode se adaptar aos tempos. São os tempos que devem se adaptar à doutrina da Igreja. Não é a Igreja e sua doutrina que devem ser “aggiornate”, adaptados aos tempos, como quis João XXIII. É o mundo, instável e passageiro, que deve ser preparado para a eternidade. O Mundo mutável é que deve se amoldar à Verdade imutável. O que condena o aggiornamento do Vaticano II que só trouxe apostasia, instabilidade, incerteza, e auto demolição. Isto é, suicídio, como Nossa Senhora preveniu, no Terceiro Segredo de Fátima, conforme contaram os Cardeais Pacelli, Oddi, e Ciappi que leram esse segredo ainda não publicado em sua totalidade.
 
60 Componente da Modernidade: a superação da Fé eclesiástica por uma pseudo fé religiosa ou racional
 
     Bento XVI vai buscar esse novo elemento da Modernidade em Kant.
     Para o filósofo de Koenisberg a fé da Igreja – a Fé eclesiástica -- deveria ser substituída pela fé religiosa, isto é, por uma fé que, não sendo de nenhuma Igreja em concreto, seria a fé de todas elas. Uma fé ecumênica. Que Kant chama de racional. 
 
 « A passagem gradual da fé eclesiástica ao domínio exclusivo da pura fé religiosa constitui a aproximação do reino de Deus ».[17] Diz também que as revoluções podem apressar os tempos desta passagem da fé eclesiástica à fé racional. O « reino de Deus », de que falara Jesus, recebeu aqui uma nova definição e assumiu também uma nova presença; existe, por assim dizer, uma nova « expectativa imediata »: o « reino de Deus » chega onde a « fé eclesiástica » é superada e substituída pela « fé religiosa », ou seja, pela mera fé racional”.(Bento XVI, Spe salvi, n0 19).
 
     É nesse ponto que Bento XVI, citando de novo a Kant, coloca uma misteriosa alusão ao Anticristo:

“Em 1794, no livro « Das Ende aller Dinge » (O fim de todas as coisas), aparece uma imagem diferente. Agora, Kant toma em consideração a possibilidade de que, a par do fim natural de todas as coisas, se verifique também um fim contrário à natureza, perverso. Escreve a tal respeito: «Se acontecesse um dia chegar o cristianismo a não ser mais digno de amor, então o pensamento dominante dos homens deveria tomar a forma de rejeição e de oposição contra ele; e o anticristo [...] inauguraria o seu regime, mesmo que breve, (baseado presumivelmente sobre o medo e o egoísmo). Em seguida, porém, visto que o cristianismo, embora destinado a ser a religião universal, de fato não teria sido ajudado pelo destino a sê-lo, poderia verificar-se, sob o aspecto moral, o fim (perverso) de todas as coisas ».[18]
(Bento XVI, Spe salvi, n0 19).
 
     A menção ao Anticristo é rara nas encíclicas papais. Nos últimos tempos, porém, alusões ao Homem do Pecado, ao dragão vermelho do Apocalipse, e à grande Apostasia que, segundo São Paulo, (II Epistola aos Colossenses) precederá a vinda do Anticristo, se tem multiplicado, especialmente nos textos de Bento XVI e dos Cardeais que lhe são mais fiéis.
     Bento XVI, em seu sermão na festa da Assunção de Nossa Senhora, falou do sinal no céu: “Uma mulher vestida de sol”, relacionando isso com a aparição de Fátima. E citou também o dragão vermelho do Apocalipse...
     O Cardeal Biffi ousadamente, citando Solovief e sua visão do Anticristo, falou do Concílio que o Anticristo reuniria na segunda metade do século XX, e que seria um Concílio ecumenista, pacifista, e ecologista. Só faltou o Cardeal Biffi dizer que o Vaticano II, reunido na segunda metade do século XX, foi o Concílio do Anticristo...
     Agora foi a vez do Cardeal Ivan Dias, em Lourdes, falar do Anticristo.
     Este Cardeal apresentou as várias aparições de Nossa Senhora, desde 1830 até 1917, com a “luta permanente, e sem exclusões de golpes, entre as forças do bem e as forças do mal (Cfr. Antonio Socci,Um MISTÉRIO QUE ASSUSTA O PAPA…Uma visão sobre nosso futuro próximo? 15.12.2007. - http://www.antoniosocci.it/Socci/index.cfm”. Ele falou da longa série de aparições da Virgem Maria na modernidade, relacionando-as com a luta entre a Mulher e o demônio tal “como é descrito nos livros do Gênesis e do Apocalipse”:
 
     Nessa mesma ocasião, o Cardeal Ivan Dias revelou palavras do Cardeal Wojtyla em 8 de Novembro de 1976, palavras que foram muito pouco citadas, ou até ocultadas, pela mídia. O então Cardeal Karol Wojtyla, em 9 de Novembro de 1976, poucos meses antes de se tornar Papa, disse:

Encontramo-nos, hoje, frente 15.12.2007. – ao maior combate que a humanidade tenha jamais visto. o penso que a comunidade cristã o tenha compreendido totalmente. Estamos hoje diante da luta final entre a Igreja e a Anti Igreja, entre o Evangelho e o Anti Evangelho. (Apud Antonio Socci,Um MISTÉRIO QUE ASSUSTA O PAPA…Uma visão sobre nosso futuro próximo ? http://www.antoniosocci.it/Socci/index.cfm)
 
70 Componente da Modernidade: o deslocamento da Fé para o âmbito privado. A laicidade do Estado como nota essencial da Modernidade racionalista. A possibilidade do advento do Anticristo
 
     Vimos que, para a Modernidade, a Fé eclesiástica deve ser substituída por uma fé “racional”, e que esta deveria ser apenas pessoal, jamais sendo aceitável no âmbito social.
     Noutras palavras, para o Mundo Moderno, o Estado deve ser neutro em matéria religiosa. O Estado não deveria reconhecer nenhuma religião como verdadeira, e nem jamais prestar tributo a nenhuma fé e a nenhum Deus. O Estado deveria ser separado da Igreja, e dever-se-ia manter o princípio da liberdade de religião e de consciência.
     O Vaticano II defendeu precisamente esses dois princípios, para adaptar a Igreja à Modernidade.
     No Concilio Vaticano II se proclamou:

Este Sínodo Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Consiste tal liberdade no seguinte: os homens todos devem ser imunes da coação tanto por parte de pessoas particulares quanto de grupos sociais e de qualquer poder humano, de tal modo que em assuntos religiosos ninguém seja obrigado a agir contra a própria consciência, nem se impeça de agir de acordo com ela, em particular ou em público, só ou associado a outrem, dentro dos devidos limites. Além disso, declara que o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da pessoa humana, como a conhecemos pela palavra revelada de Deus e pela própria razão natural. Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa na organização jurídica da sociedade deve ser de tal modo reconhecido, que chegue a converter-se em direito civil” (Concílio Vaticano II, Declaração Dignitatis Humanae, n0 2).

     Curioso que João Paulo II, ao condenar Dom Lefebvre, não obedeceu a esse texto... Condenando Dom Lefebvre e a sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X, João Paulo II condenou o próprio Vaticano II.
     Para Dom Lefebvre e para os chamados tradicionalistas não valeu -- e ainda não vale -- o princípio do Vaticano II que afirma: “em assuntos religiosos ninguém seja obrigado a agir contra a própria consciência, nem se impeça de agir de acordo com ela, em particular ou em público, só ou associado a outrem, dentro dos devidos limites”.
     E é em nome do Vaticano II e desse princípio de liberdade religiosa e de consciência que os Bispos modernistas recusam obedecer ao Motu Proprio Summorum Pontificum, que liberou a celebração da Missa de sempre. Esses Bispos permitem todos os abusos litúrgicos, e mesmo todas as profanações as mais sacrílegas e mais escandalosas, e até satânicas, da Eucaristia. Mas não permitem a Missa tridentina, recusando obedecer ao Papa Bento XVI. Em nome do Vaticano II...
     Que ninguém possa ser forçado a agir contra a sua consciência, é certo. Que cada um tenha o direito de agir de acordo com sua consciência, isso foi condenado muitas vezes pelos Papas.
     Gregório XVI, na Mirari Vos, chamou a liberdade de consciência de delírio. Pio IX, Leão XIII, São  Pio X, Pio XI e Pio XII condenaram a liberdade de religião.
     No Syllabus foi condenada a tese de que o Estado deve ser separado da Igreja e a Igreja do Estado (Cfr. Syllabus, erro n55).
     Ora, na encíclica Spe salvi, vimos que Bento XVI condenou o deslocamento da Fé para o âmbito puramente pessoal e privado. (Cfr Item anterior-- 60 componente da modernidade). Logo, a Fé tem direito a ser publicamente professada, e deve ser publicamente proclamada. Pois a Igreja é necessária para a salvação e, por isso mesmo, Ela deve gozar de completa liberdade e da proteção do Estado, enquanto as falsas religiões não têm direito à liberdade, pois não pode haver liberdade para o erro e para as trevas que escravizam o homem
     Ainda agora, na recente Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização se lê que “Quem acreditar e for batizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado» (Mc 16, 15­16).
     E ainda: “a Igreja peregrinante é necessária à salvação».
     E se condenou como erro atualmente difundido entre os católicos a idéia de que “não se deveria anunciar Cristo a quem O não conhece, nem favorecer a adesão à Igreja, pois seria possível ser salvos mesmo sem um conhecimento explícito de Cristo e sem uma incorporação formal à Igreja (Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização).
     Portanto, foi condenada a idéia falsa de que fora da Igreja, normalmente haja salvação tanto quanto na Igreja
     E se condenou o relativismo ecumênico ao afirmar:
 
Nas diversas formas de agnosticismo e relativismo presentes no pensamento contemporâneo, «a legítima pluralidade de posições cedeu o lugar a um pluralismo indefinido, fundado no pressuposto de que todas as posições são equivalentes: trata-se de um dos sintomas mais difusos, no contexto atual, de desconfiança na verdade” (Nota Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização).

     E mais:
 
O Reino de Deus não é — como alguns hoje sustentam — uma realidade genérica que domina todas as experiências ou as tradições religiosas, e às quais deveriam tender como que a uma universal e indistinta comunhão todos aqueles que procuram Deus, mas é acima de tudo uma pessoa, que tem o rosto e o nome de Jesus de Nazaré, imagem do Deus invisível[28]. Por isso, qualquer apelo do coração humano para Deus e o seu Reino só pode conduzir, pela sua natureza, a Cristo e ser orientado à entrada na sua Igreja, que daquele Reino é sinal eficaz”.não se pode «desligar o Reino da Igreja»[29] (Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização )..
 
     Como isso contradiz o estilo do Vaticano II.     
     Com Bento XVI mudou o Vaticano.
     O Vaticano voltou a ser o de sempre.
     E não só o do Segundo.
     A substituição da Fé eclesiástica pela fé religiosa, a substituição do Reino de Deus pelo Reino do Homem, a consideração que o Reino de Cristo não coincide com a Igreja Católica, o repúdio da Redenção de Cristo, trocando-a pela auto redenção do homem através da ciência razão e progresso são vistas, enfim, pelo Papa Bento XVI, um homem não propenso a dramatizações, como uma ameaça apocalíptica. E por isso Bento XVI cita de novo o frio e insuspeito Kant, como já vimos, anunciando o Anticristo.
     Bento XVI reafirma que o Reino de Deus coincide com a Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja necessária para a salvação. Ele condena a idéia de que, normalmente, seja possível alguém salvar-se fora dos limites visíveis da Igreja. Portanto, Bento XVI, na Spe salvi, condena a idéia de que haverá uma salvação universal, erro muito difundido após o Vaticano II, com base na doutrina conciliar de que o Espírito Santo age normalmente fora dos limites da Igreja. Bento XVI ensina que a idéia do Juízo universal é confirmadora da verdadeira esperança cristã de Justiça, e diz que nem todos os homens serão salvos:
 
A graça não exclui a justiça. Não muda a injustiça em direito. Não é uma esponja que apaga tudo, de modo que tudo quanto se fez na terra termine por ter o mesmo valor. Contra um céu e uma graça deste tipo protestou com razão, por exemplo, Dostoëvskij no seu romance « Os irmãos Karamazov ». No fim, no banquete, eterno, não se sentarão à mesa indistintamente os malvados junto com as vítimas, como se nada tivesse acontecido” Bento XVI, Spe salvi, n0 44).
 
     Ora, essa reafirmação da doutrina católica, ensinada por Cristo, de que nem todos se salvarão, deixa muito mal a definição de Igreja do Vaticano II que pastoralmente disse a “Igreja é em Cristo como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano(Cfr Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n0 1 ).
     Desse modo, a Igreja de Cristo incluiria não só todas as religiões, como também os ateus e os misteriosos “homens de boa vontade”. E assim a Igrejafaria a unidade do gênero humano, e todos se salvariam. Daí, o famoso subsistit que permitiu derrubar as muralhas da Igreja como preconizou o modernista Urs von Balthasar, e diluir os limites da Igreja, como preconizavam os modernistas e a as sociedades secretas, de tal modo que se realizasse a unidade do gênero humano numa igreja espiritual ecumênica, igualitária, e sem dogmas.
     Com essa rotunda e contundente condenação da Modernidade, Bento XVI fez da Spe salvi a anti Gaudium et Spes.
     Dirão alguns desesperados e renitentes “salvadores” do Concílio que não é verdade que, desse modo, Bento XVI condenou o Vaticano II. Que as “leituras” de Paulo VI e de Bento XVI sobre o Concílio Vaticano II são absolutamente contrárias entre si.
     Quem quiser afirmar que ambas são magistério infalível, estará negando o princípio de não contradição.
     O que é loucura.
     Quem não quer ver que o ensinamento do Vaticano II é oposto ao ensinamento da Spe salvi, nega a evidência.
     De fato, Bento XVI não condenou explicitamente o Vaticano II.
     Bento XVI fez do Vaticano II uma “nova leitura”.
     Uma nova leitura, que inverte o que o Vaticano II quis ensinar -- e ensinou -- com tão terríveis conseqüências: a introdução da fumaça de Satanás no Templo de Deus e a auto-demolição da Igreja, confessadas pelo próprio Paulo VI.
     Bento XVI está anulando o Concílio Vaticano II.
 
     Viva o Papa.
     Viva o Papa Bento XVI.

São Paulo, 27 de Dezembro de 2007
Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Ave spes única! Ave gaudium verum!"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/ave_crux_spes_unica/
Online, 25/09/2017 às 12:08:47h