Religião

A direita cismática e seu profeta Olavo de Carvalho
Alberto Zucchi e Fernando Schlitler
A crise nas grandes economias ocidentais, assim como a onda migratória que levou milhões de refugiados à Europa, produziram um verdadeiro terremoto na política mundial e acabaram por suscitar novamente discussões acaloradas sobre ser de direita ou ser de esquerda,  provocando uma inesperada ascensão dos partidos de direita.
 
Vejam-se, por exemplo os comentários do sociólogo Michel Wieviorka, diretor da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, em Paris, em entrevista concedida ao Jornal Valor Econômico (Eu & Fim de Semana 29/07/2016 “O Terrorismo enfraquece a Democracia”):
 
“Os franceses estão perdidos. Tem a parcela da sociedade que pretende eleger um governo autoritário para acabar com isso, [os atentados terroristas], há os que pensam em preparar ações anti-muçulmanas...
 
“Não acho que são as mesmas consequências [políticas] para os dois paises [França e Alemanha]. Para a França vai crescer ainda mais a extrema-direita e isso levará para a direita toda a vida política”.
 
Assim, o debate direita x esquerda, que parecia haver morrido com a queda do Muro de Berlim, voltou, como retornam a uma pseudo vida os legendários Zumbis. Para entender um pouco melhor este novo confronto recomendamos a leitura de dois artigos, publicados no site Montfort: “IPCO os Zumbis voltam a cena” e  “Teologia da Libertação: os Zumbis da esquerda também estão de volta”.
 
A América do Sul, sem onda imigratória, mas com uma grave e generalizada crise econômica, não ficou alheia a esse processo e se iniciou no continente a derrocada dos partidos de esquerda, cujo ponto culminante foi a cassação do mandato da Presidente Dilma Rousseff.
 
Mais ainda, a luta entre a direita e a esquerda  estendeu-se, chegando a atingir amplos setores da Igreja Católica. Como os bispos não são deputados, o confronto na sacristia foi muito mais silencioso que o confronto no parlamento. Assim, na luta intramuros e mais silenciosa na Igreja, procurou-se identificar a direita política com a direita católica.
 
Ingenuamente, muitos católicos comemoram essa aliança e aqui vale lembrar o comentário do Prof. Orlando Fedeli, em artigo que analisa os termos “direita” e “esquerda”.
 
“Que dizer então da chamada direita política católica? Desde a Revolução Francesa, os que se mantiveram na defesa das tradições políticas e religiosas, defendendo a desigualdade de direitos - ensinada, aliás, por todos os Papas - foram chamados direitistas. A etiqueta "direita" acabou englobando, entretanto, desde os "ultra" monarquistas da Restauração até os católicos que apoiaram o nazi-fascismo socialista totalitário e pagão. Isto é, "oves, boves et serpentes". Muitas serpentes. E muitas "oves" tradicionalistas, piedosas, que são, na verdade, lobos rapaces.
 
Com efeito, há na direita, tanto política quanto eclesiástica, todo um largo veio que, no fundo, quer a igualdade. Na política, tal veio se apresenta como anti-comunista, mas defende um Estado totalitário, socialista e igualitário. Foi o que fez o nazismo. Foi o que fez o fascismo”.
 
Assim, a chamada direita também procura se infiltrar na Igreja para atingir seus objetivos. A necessidade dessa infiltração foi notada já por Hitler, que considerava o apoio da Igreja fundamental para tomar o poder:
 
“Havia um outro erro dos pangermânicos que Hitler não iria cometer. Esse erro consistia no fracasso quanto a consecução do apoio de pelo menos algumas das poderosas instituições estabelecidas da nação: se não a Igreja, então o Exército, ou o Gabinete, ou o Chefe de Estado. A menos que um movimento político conquistasse tal apoio, percebia-o o jovem [Hitler] seria difícil, se não impossível que assumisse o poder” (William L. Shirer - Ascensão e Queda do II Reich – Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1º volume, p. 50)
 
No meio da confusão em que nos encontramos, em diversos setores da Igreja começou-se a defender a absurda tese de que o verdadeiro Papa seria Bento XVI e não Francisco. Como exemplos dessa posição poderíamos citar o livro de Antonio Socci, “Não é Francisco”, e os escritos do Padre Paul Kramer que, assim como Socci, também é conhecido por escrever sobre as aparições de Fátima e o Terceiro Segredo.
 
E, na batalha para tentar destruir a Igreja, a direita brasileira procura conquistar os católicos que, assustados com a infiltração esquerdista da Teologia da Libertação, por exemplo, muitas vezes se encantam com sua pregação e não vêem os graves erros doutrinários em que podem incorrer.
 
Nesse quadro, alguns procuram apresentar-se como lideres - e até mesmo profetas - do direitismo político e católico.
 
Temos, por exemplo, Olavo de Carvalho que apesar de já ter sido conhecido como Sidi Muhammad Ibrahim – para os iniciados – vai se transformando em um lider católico anti-comunista. E para demonstrar todo o seu vigor anti-comunista, no ano passado, acusou D. Odilo Pedro, Cardeal Scherer, de estar excomungado latae sententiae.
 
Num vídeo no qual profere diversos insultos pesados, cheios de palavrões, contra o Cardeal, Olavo de Carvalho afirma que D. Odilo estaria excomungando pelo seu apoio ao comunismo e que, por isso, não seria mais cardeal, bispo, padre e nem católico. Mais ainda, afirma que a vida do Cardeal seria uma farsa e sua batina uma fantasia para baile de carnaval de pessoas que cometem pecados contra a natureza.
 
O referido vídeo foi um hangout do portal youtube datado do dia 21 de abril de 2015, e que infelizmente somos obrigados a referenciar aqui, por receio de perdermos a credibilidade ao não citarmos a fonte, apesar dos palavrões e insultos escandalosos ao cardeal, alertando, porém, que não recomendamos a sua visualização (o trecho isolado em questão: https://www.youtube.com/watch?v=KsQ4jS924Dw).
 
Não é a primeira vez, aliás, que Olavo de Carvalho – passando-se por teólogo e canonista - ataca o clero de modo desequilibrado e com muitos erros doutrinários. Em outras ocasiões, chegou a afirmar que os sacramentos de padres excomungados seriam inválidos e que eles até deixariam de ser padres, o que não é verdade. Essas afirmações fazem com que Olavo incorra num erro semelhante ao da heresia donatista.
 
Para mostrar todo o seu direitismo, Olavo de Carvalho passou a afirmar ainda que Bento XVI é ainda o Papa, e não Francisco, incorrendo, assim, inevitavelmente em cisma. Suas afirmações são explícitas e não deixam dúvida alguma de suas convicções cismáticas:
https://www.facebook.com/carvalho.olavo/posts/599146823570729
 
Pesquisando mais um pouco, descobrimos que essa convicção não surgiu recentemente. As citações abaixo são de setembro de 2015:
 https://twitter.com/odecarvalho/status/646099984115466240
 
Além de ser defensor de doutrinas gnósticas - como já mostramos em artigo anterior -  e herege, agora Olavo é cismático.
 
Vale aqui lembrar a definição de cisma dada pela Igreja:[...] cisma é a recusa da sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos”.
 
Como disse um padre amigo, não são necessários os comunistas para combater a Igreja quando existem pessoas como Olavo de Carvalho e seus seguidores. Eles já fazem o serviço bem melhor.
 
É de pasmar também a contradição, ela, sim, “explícita, indisfarçável e escandalosa” dessas afirmações. Pois o próprio Olavo de Carvalho defende – explícita, indisfarçável e escandalosamente –  assim como ele acusa o Papa Francisco e o Cardeal Dom Odilo Scherer de o fazerem, diversas teses condenadas com excomunhão latae saetentiae por São Pio X no decreto Lamentabili, na Encíclica Pascendi Dominici Gregis e no Motu Proprio Praestantia Scriptura (http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/modernismo_olavoc/).
 
Vejamos.
 
A condenação que São Pio X faz no Motu Proprio Praestantia Scripturae é tão clara no uso de seu Supremo Poder, que se torna difícil questionar a prerrogativa de infalibilidade nos referidos documentos:
 
"Denzinger 2214 - Além disso, com o fim de reprimir os espíritos cada vez mais audazes dos modernistas que, com sofismas e artifícios de todo gênero, se empenham em tirar força e eficácia não só do decreto Lamentabili sane exitu publicado, por Nossa ordem, no dia 08 de Julho do corrente ano, pela Santa  Romana e Universal Inquisição, como também a Nossa Carta Encíclica Pascendi Dominici gregis, datada de 8 de Setembro desse mesmo ano, – por Nossa Autoridade Apostólica, Nós reiteramos e confirmamos,  tanto o Decreto da Congregação da Sagrada Suprema Inquisição, como da dita Nossa Encíclica, acrescentando a pena de excomunhão contra os contraditores, e Nós declaramos e decretamos que, se alguém – o que Deus não permita – chegar a tanta audácia,  que defendesse qualquer das proposições, opiniões e doutrinas reprovadas em um ou outro dos documentos acima mencionados, fica, ipso facto, ferido pela censura decretada pelo capítulo Docentes, da Constituição Apostolicæ Sedis, que é a primeira das excomunhões latæ sententiæ reservadas simplesmente ao Pontífice Romano. Esta excomunhão deve ser entendida como, sem suprimir as penas em que possam incorrer aqueles que faltem contra os citados documentos, como propagadores e defensores de heresias, se alguma vez suas proposições, opiniões ou doutrinas são heréticas, coisa que acontece mais de uma vez com os inimigos desses dois documentos e, sobretudo, quando propugnam os erros dos modernistas, isto é, a reunião de todas as heresias. (Denziger, Nº 2113-14)""Motu Proprio Praestantia Scripturae" de S.Pio X  [destaques nossos]
 
Vejamos a seguir dois erros condenados no decreto Lamentabili:
 
“Os dogmas que a Igreja apresenta como revelados não são verdades caídas do Céu; são uma certa interpretação de fatos religiosos que a inteligência humana logrou alcançar à custa de laboriosos esforços.” [grifo nosso] (Papa São Pio X – Decreto Lamentabili).
 
Cristo não ensinou um determinado corpo de doutrina, aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares.” [grifo nosso] (Papa São Pio X – Decreto Lamentabili). 
 
Esse  erro é afirmado por Olavo na sua vídeo-aula “Advento do Cristianismo”:
 
“As religiões de fato não começam com doutrina, nenhuma começa com doutrina. Começam com um fato. O que este fato diz? As pessoas que participaram, que estavam lá perto, não seriam capazes de expor o que aquele fato diz. O conteúdo intelectual, doutrinal, leva séculos para se expressar. É um tremendo esforço de interpretação que se faz depois, porque a doutrina se forma depois Tanto que a fase de formalização pode ser considerada até o momento de decadência da religião, e é um negócio até perigoso.[grifo nosso] (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 33 – É Realizações – 2003)
 
Olavo claramente diz que a doutrina é fruto de um “tremendo esforço de interpretação” posterior de um “fato”. A frase dele é essencialmente idêntica à condenada por São Pio X. Não há como escapar da condenação. Neste caso, da tentativa de arranjar uma desculpa para não querer constatar esse fato, é que podemos afirmar que se trata de um “tremendo esforço de interpretação que se faz depois”. Seria um tremendo esforço para, retroativamente, dar às palavras de São Pio X ou de Olavo um sentido diferente das quais elas evidentemente possuem. Dizer que as afirmações de Olavo não são heréticas e que foram tiradas do contexto é pura desonestidade.
 
E essa é apenas uma das várias afirmações heréticas de Olavo de Carvalho. Ele não defende apenas um dos erros condenados com excomunhão latae sententiae, mas diversos deles. A afirmação acima, bem como outras, estão amplamente expostas e analisadas em nosso artigo anterior: “O modernismo de Olavo de Carvalho
 
Se Olavo de Carvalho tem tanto zelo pelo Catolicismo e pelas excomunhões latae sententiae, por que elas valeriam, segundo Olavo, para Dom Odilo, mas não para ele mesmo, Olavo?
 
No entanto, infelizmente, há diversos cegos ao meio-dia que tudo farão para justificar todas as afirmações descabidas do guru, tratando-as como um mal entendido, ou uma leitura tirada do contexto! Pobrezinho! Filósofo tão difamado!
 
Lamentavelmente, porém, apesar de suas opiniões heterodoxas, Olavo tem conquistado muitos apoios na Igreja, como por exemplo, o do Padre Paulo Ricardo, que se apressa a afirmar que a “filosofia” de Olavo não entra em choque com a doutrina católica! Ora, como é possível que a afirmação cismática do Olavo esteja de acordo com a doutrina católica? Bom seria que, constatada a impossibilidade de harmonizar a ambas, o Padre Paulo Ricardo se manifestasse publicamente para alertar os fieis contras os erros de Olavo.
 
Para conquistar o público católico, Olavo de Carvalho tem procurado enredar em sua teia e comprometer também outros padres de linha conservadora, como o Padre José Eduardo de Oliveira e Silva, sacerdote da Diocese de Osasco e doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz, que é conhecido por combater a ideologia de gênero:
 
O que mais espanta é o fato de o Padre José Eduardo, recentemente, ter estado junto a D. Odilo numa conferência a respeito do documento Amoris Laetitia.
http://www.arquisp.org.br/noticias/a-familia-nao-e-um-problema-e-uma-solucao
 
É, de fato, intrigante Olavo citar o Padre José Eduardo como amigo, e, ao mesmo tempo, proferir insultos escandalosos contra o Cardeal Dom Odilo Scherer.
 
Interessante notar que os insultos de Olavo a D. Odilo foram proferidos em consequência de um encontro entre alguns de seus alunos e o Cardeal - dentre eles, Hermes Rodrigues Nery e a sra. Meri Harakava - após o qual estes se queixaram da recepção que lhes foi feita por Dom Odilo, quando da entrega de uma petição contrária à reforma política apoiada pela CNBB. (http://www.igrejapaulistana.com/2015/04/olavo-de-carvalho-chama-dom-odilo-de.html - atenção: o texto tem palavrões):
 
O professor Hernes Nery, candidato a deputado federal pelo PHS no ano passado, então, relatou ontem na rede social que abordou bispos na Assembleia Geral da CNBB, entre eles Dom Odilo. "Saiu estressado da sala dos bispos e se mostrou defensor ardoroso da 'reforma política' encabeçada pela CNBB", disse sobre o cardeal de São Paulo.
 
A musicista Meri Angélica Harakava, em mensagem a Nery, também descreveu o suposto encontro. "Nos recebeu muito mal, censurou-nos por nossa petição e além de declarar que o PT não é comunista, justificou a proposta de reforma política dizendo que a CNBB fez ampla consulta a entidades da sociedade". (http://www.igrejapaulistana.com/2015/04/olavo-de-carvalho-chama-dom-odilo-de.html)
 
Infelizmente os comentários da musicista Meri não se limitaram as queixas sobre os maus tratos. Em um post do facebook, Meri agradece a Olavo de Carvalho por “ter confrontado” D. Odilo, isto é, por tê-lo insultado gravemente, respaldando assim os graves insultos proferidos contra o Cardeal:
 
A amizade da Sra. Meri Harakava por Olavo, aliás, parece que vai mais longe, pois, na página do twitter dele, ela aparece em uma foto, junto ao Pe. José Eduardo, visitando a mãe de Olavo de Carvalho, o qual agradece a visita desses “dois queridos amigos”:
 
 

https://twitter.com/odecarvalho/status/661850236520955904

 
Cabe aqui ressaltar, portanto, que - embora estejamos muito longe de apoiar essa ‘reforma política’, e garantindo aos nossos leitores que sobre ela não fomos consultados -  não podemos concordar de modo algum com a maneira pela qual as pessoas citadas se manifestaram em relação a essa questão, sobretudo com o apoio recebido e dado por Olavo de Carvalho, o qual afirmou teses cismáticas e de caráter donatista. Este tipo de afirmações e comportamentos leva a cair num outro extremo do erro, negando a autoridade legítima e o respeito devido aos bispos e cardeais.
 
Ainda que seja até comum, infelizmente, por partes de diversas autoridades da Igreja não demonstrarem um posicionamento católico coerente, sobretudo em pronunciamentos da CNBB, e muitas vezes (acrescentem-se aqui vários muitas) até defenderem erros que vão contra a doutrina católica, não é dessa maneira grosseira e injusta, incorrendo também em outros erros que são contrários à doutrina, que os católicos devem se opor aos eventuais erros defendidos por autoridades legítimas da Igreja.
 
A direita, longe de estar isenta de graves erros doutrinários, os quais conduzem ao afastamento de Deus, leva muitos católicos a uma situação de oposição à hierarquia que facilmente acaba no cisma.
 
Que Deus nos livre dessas faltas e nos proteja desses falsos profetas.
 
Salve Maria!
 
Alberto Zucchi e Fernando Schlithler
Doce Coração de Maria, sede a nossa salvação.
8 de setembro de 2016, Natividade de Maria Santíssima

    Para citar este texto:
"A direita cismática e seu profeta Olavo de Carvalho"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/direita_cismatica_profeta_olavo/
Online, 23/02/2017 às 11:49:59h