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Pergunta

** Presença de Deus

De: Marcos
Enviada em: Terça-feira, 20 de Janeiro de 2004
Localidade: Curitiba, PR

AO PROFESSOR ORLANDO FEDELI

Meu prezado amigo virtual, e de orações, Professor Fedeli Quando é dia de atualização do site da Montfort (como hoje), é uma enorme satisfação: Rapidamente, quero ler tudo!

Acabei de ler uma resposta que foi dada à mensagem de um gnóstico que, coincidentemente, é de Curitiba (título da mensagem: “Doutrina Gnóstica”).

Na resposta dada pela Montfort, fala-se o seguinte: “E saiba que a noção de presença é analógica. Deus não está presente de modo substancial nas criaturas, e nem em você e em nenhum homem há chispa divina coisa nenhuma. Isso é pura fábula gnóstica”. Gostaria de lhe pedir um esclarecimento maior sobre esse assunto, qual seja: a presença de Deus. Veja quantas citações sobre esse tema nós estamos acostumados a ler e ouvir, algumas das quais, aparentemente, sendo discordantes uma da outra: Deus é “onipresente” Deus “não está presente” de modo substancial nas criaturas Pai Nosso que estais “nos céus” Ele está “no meio de nós” Cristo “em vós”, a esperança da glória O Cristo vivo está “na Eucaristia” Deus está “na igreja” Deus se faz presente “quando dois ou mais se reúnem em Seu nome” E eis que estarei “convosco” até a consumação dos séculos O trono de Deus, no homem, refulge “no seu coração” Algumas citações mais poéticas, dizem que Deus está “no riso da criança”, “no céu”, “no mar”, “em toda a natureza”, “nas flores e nos prados”, “nos astros a rolar pelo infinito”, “na voz dos namorados”, “na lágrima do aflito”, “na frase que perdoa”, “na paz e na alegria”, “na boa criatura”, “no médico que salva”, “na dor que nos irmana”, “no sábio procurando compreender a natureza humana”, “num gesto de bondade”, “nos cânticos dos que crêem”, “na luz”, “na liberdade”, “na planta e na semente”, “nas expressões da arte”, “no amor dos homens”...

Na missa de domingo, o padre disse que devemos cuidar de nossos animais domésticos, pois são Criaturas de Deus e, como tais, Deus está também nos cachorros e gatos. “É certo”, disse o padre sem maiores explicações, “que Ele está em nós de modo diferente do que está em um animalzinho”.

Tudo isso, Professor Fedeli, tem deixado a minha pobre cabecinha (já confusa com tantas “diferentes interpretações” e distintas “linhas de pensamento” que tenho encontrado no seio de nossa própria Igreja Católica) ainda mais atrapalhada! Peço, se possível, um esclarecimento sobre a presença de Deus. Solicito, ainda, a sua gentileza de falar um pouco mais sobre a presença de Jesus na Eucaristia, mas sob o ponto de vista daquele que recebe a hóstia, isso é, “Cristo em mim” (quando comunguei) é diferente do “Cristo em mim” (quando não comunguei)? Há, por exemplo, graças envolvidas na comunhão, que aqueles que não comungaram, não recebem?

- - - - - - - Para “abrandar” um pouco o tema, termino com uma pequena anedota sobre o assunto: Um casal tinha dois filhos, um de 8 e outro de 10 anos que estavam sempre aprontando e eram suspeitos de estarem envolvidos em qualquer travessura que acontecesse na cidadezinha onde moravam.

Desesperada para corrigi-los, a mãe recorreu ao severo padre da cidade, que conversou com os dois meninos por separado, primeiro com o mais novo:

- Onde está Deus? - perguntou o padre, em tom severo.

O garoto abriu a boca, arregalou os olhos, mas não conseguiu emitir nenhum som. Então o padre repetiu a pergunta, num tom mais duro ainda:

- Onde está Deus?

Mais uma vez o garoto permaneceu de boca aberta sem conseguir emitir nenhuma resposta. Então o padre levantou ainda mais a voz e, com o dedo em riste, berrou:

- ONDE ESTÁ DEUS?!!

O garoto saiu correndo e gritando da igreja, foi direto para casa e se trancou no armário do quarto. O irmão mais velho o encontrou e perguntou o que havia acontecido.

- Cara, desta vez nos estamos MESMO encrencados - respondeu o menino, quase sem fôlego.

- Deus sumiu e eles acham que a culpa é nossa! - - - - - - - Com meu abraço, reafirmo que o senhor, professor Fedeli, passou a estar sempre presente em minhas orações.

Marcos

Resposta

Muito prezado amigo Marcos, salve Maria

Obrigado por suas orações por mim, que delas preciso tanto. Deus lhe pague. Continuemos a rezar caridosamente um pelo outro.

A palavra presença é analógica.

Isto significa que há vários modos de estar presente. Deus está presente em toda a parte, mas não do mesmo modo.

Deus está presente no inferno, por sua justiça e não pessoalmente presente. Veja que seu pensamento esta presente em sua carta, mas que você não está presente pessoal e substancialmente em sua mensagem para mim. Deus está presente em todas as coisa pela ordem com que sua infinita sabedoria estabeleceu em todos os seres. A ordem atômica revela a presença da sabedoria de Deus nas coisas. Mas isto não quer dizer que Deus esteja realmente e substancialmente num átomo de ferro. Deus está presente em todas as coisas por sua bondade que faz com que tudo o que exista seja bom.

Deus está presente numa imagem de Cristo por sua figura, e não substancialmente. Do mesmo modo na foto de minha esposa está presente a figura dela, mas não ela pessoalmente. Confundir a foto de alguém com sua pessoa e substância é cometer um erro grave. Esse é o erro dos que afirmam que Deus está presente --e pensam que realmente presente - numa imagem ou num ser qualquer.

Deus pode estar presente num homem pela graça santificante que é uma participação da vida divina. Assim como o fogo está no ferro em brasa -- e nesse caso, o ferro continua ferro, apesar de ter duas qualidades do fogo: luz e calor --assim também Deus, pela graça habitual, ou santificante, vive em nossas almas, caso não tenhamos pecado mortal. Creio que já tratei disso, em outra carta para você.

A presença de Cristo Deus, na hóstia consagrada, é uma presença real e substancial. Na hóstia consagrada, está Cristo inteiro presente com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Na Eucaristia, está presente realmente o mesmo Verbo de Deus encarnado, que criou o céu e a terra, que se encarnou no seio da Virgem Maria, que nasceu em Belém, que discutiu com os fariseus, que morreu na cruz, que ressuscitou ao terceiro dia, o mesmo Jesus que nos julgará, no juízo final.

São presenças de diversos graus e modos. Se se fala de presença sem distinguir o modo de presença, se cai facilmente em panteísmo, doutrina que afirma que Deus está presente substancialmente em todas as coisas, do mesmo modo que meu sangue está presente em minhas veias.

Creio que essa explicação o ajudará a compreender como se abusa do termo presença, e como se abusa desse termo para levar as pessoas, vagarosamente irem escorregando para o panteísmo.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

 


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