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Carta ao leitor

Resumo da polêmica, e Eric Voegelin contra Olavo de Carvalho

Prezados senhores,

Ontem à noite, 24.07.2001, enviei ao jornal O Globo minha terceira carta sobre a polêmica Fedeli X Carvalho, desta vez em resposta ao artigo do Sr. Olavo de Carvalho publicado no último sábado neste jornal, intitulado "Gnósticos e revolucionários" (http://oglobo.globo.com/colunas/olavo.htm).

Meu artigo, que agora envio em anexo a todos você, chama-se "Resumo da polêmica, e Eric Voegelin contra Olavo de Carvalho". Nele, respondo também ao recente "Adendo ao Aviso Número 3", publicado no site do Sr. Olavo em 22.07.2001, que também envio junto com esta mensagem.

Por fim, para nada esconder dos interessados neste debate, transcrevo abaixo a resposta que recebi do jornal O Globo, seguida da mensagem que eu lhes enviara introduzindo meu artigo e pedindo sua publicação.

Salve Maria,
Felipe Coelho.

* * *

Prezado Sr. Felipe Coelho:

Em atenção ao senhor e contrariando nossas normas (conforme está explicado em nosso aviso de recebimento), abri o seu arquivo atachado. Mas acontece que o seu texto é impublicável na seção Cartas dos Leitores por ser muito extenso.
Sugiro que o senhor reenvie o texto não como uma resposta a Olavo Carvalho, mas sim como a explanação de suas idéias. Desta maneira, poderei encaminhá-lo ao editor da página sete, na qual o senhor poderá ter a oportunidade de ter um espaço.
Por gentileza, não se esqueça de informar suas credenciais e o endereço e telefone, que é outra de nossas normas.
Atenciosamente,

Ana Dalva Faria
Editora Cartas dos Leitores

-----Mensagem original-----
De: Felipe Coelho
Enviada em: quinta-feira, 26 de julho de 2001 00:37
Para: Cartas - O GLOBO
Assunto: Carta ao Sr. Editor sobre o último artigo de Olavo de Carvalho

Prezado Sr. Editor,

Venho à presença de V. Sa. pedir a publicação da carta que envio em anexo a esta mensagem. Trata-se de uma resposta minha ao artigo publicado em O Globo no último sábado, dia 21/07/2001, de autoria do Sr. Olavo de Carvalho, intitulado "Gnósticos e revolucionários".

A razão de meu pedido está no fato de que este último artigo do Sr. Olavo de Carvalho se insere no contexto de uma polêmica entre ele e o Prof. Dr. Orlando Fedeli, que vem sendo travada nos últimos seis meses e que se encontra transcrita nos sites de ambos (<http://www.olavodecarvalho.org/> e <http://www.montfort.org.br>).

O uso do jornal O Globo pelo Sr. Olavo de Carvalho para responder ao Prof. Orlando Fedeli e a mim, sem nos mencionar, foi um expediente bem pouco louvável, e os leitores de O Globo têm o direito de saber o que está ocorrendo e a quem de fato o Sr. Olavo de Carvalho se refere no artigo em questão.

Para comprová-lo, transcrevo a seguir um e-mail enviado a mim pelo Sr. Olavo de Carvalho, no dia 17/07/2001, em resposta à carta que eu lhe mandara no mesmo dia, carta esta que se encontra publicada na internet ("Segunda carta aberta de Felipe Coelho ao Sr. Olavo de Carvalho, sobre sua gnose e seus sofismas", (http://www.montfort.org.br/perguntas/olavo4.html):

 

"X-Sender:
X-Mailer: QUALCOMM Windows Eudora Light Version 3.0.6 (32)
Date: Tue, 17 Jul 2001 19:03:25 -0300
To: Felipe Coelho
From: Olavo de Carvalho
Subject: Re: Segunda carta aberta de Felipe Coelho

Felipe,

Você é apenas um menino idiota. Deixa-se enganar por aparências verbais e opina em assuntos que estão muito acima da sua compreensão. Leia meu próximo artigo em O Globo e saberá para quem está trabalhando.

Olavo de Carvalho"

 

É por esta razão que peço a publicação de minha resposta, resumindo a polêmica aos leitores e refutando o artigo do Sr. Olavo de Carvalho.
Gostaria que ela não fosse editada, muito menos pela tesoura do Sr. Olavo de Carvalho, por motivos óbvios. Caso isso não seja possível, peço-lhes que ao menos registrem o endereço no qual esta minha carta-resposta logo será integralmente publicada, como já o foram as anteriores: http://www.montfort.org.br/.

Desde já coloco-me à disposição de qualquer esclarecimento (meu e-mail é <xxx [vide nota 1]>), agradecendo a atenção a mim concedida.

Cordial saudação,
Felipe Coelho.

[Nota 1 do webmaster: devido à política de privacidade do site Montfort não divulgamos emails pessoais]

 

Resumo da polêmica, e Eric Voegelin contra Olavo de Carvalho

Felipe Coelho

1. Resumo da polêmica

Infelizmente, o Sr. Olavo de Carvalho não me deixa escolha senão intervir pela terceira vez neste debate, devido a seus últimos absurdos. Faço-o sob protesto, pois ainda estou esperando uma resposta pública do Sr. Olavo a minha carta anterior ("Segunda carta aberta de Felipe Coelho ao Sr. Olavo de Carvalho, sobre sua gnose e seus sofismas", 17.07.2001,<http://www.montfort.org.br/perguntas/olavo4.html>).

Comecemos resumindo brevemente a polêmica.

O Sr. Olavo de Carvalho defende que todas as religiões têm um núcleo comum. Baseia-se principalmente nos estudos de Frithjof Schuon e Seyyed Hossein Nasr, todos discípulos de René Guénon. A este núcleo, tanto ele quanto seus gurus dão o nome de gnose. A definição dada a esta "gnose" (o núcleo das "tradições") por estes autores das "religiões comparadas" coincide em gênero, número e grau com a definição dada ao "gnosticismo" (a heresia cristã) pelos maiores especialistas no assunto. Logo, este "núcleo das religiões" -- defendido pelo Sr. Olavo e pela turma de Schuon -- é a gnose condenada pela Igreja Católica, e seus defensores são gnósticos também na "acepção tradicional do termo".

O Prof. Orlando Fedeli não só demonstrou esta coincidência de definições em seu trabalho, como também analisou o CONTEÚDO das doutrinas defendidas tanto pelo Sr. Olavo de Carvalho quanto pelos "grandes homens espirituais" que o Sr. Olavo recomenda, mostrando seu caráter herético e gnóstico e sua oposição à Doutrina Católica. Tudo isso com farta documentação (Cf. Orlando Fedeli, A Gnose "Tradicionalista" de René Guénon e Olavo de Carvalho, <http://www.montfort.org.br/cadernos/guenon.html>).

Assim, acabou a polêmica, restando aos interessados a análise das provas apresentadas. Para desviá-los deste empreendimento, o Sr. Olavo de Carvalho tem feito de tudo desde então para mudar de assunto, principalmente tentando confundir a definição de "gnose", visando persuadir os leitores a não analisarem o CONTEÚDO das doutrinas denunciadas pelo Prof. Orlando Fedeli, que mostra inequivocamente sua oposição à Doutrina Católica.

 

2. A equação da fuga enrOlávica: 3 avisos + 1 nota + 3 insultos + 3 artigos + 1 adendo = zero

O Sr. Olavo de Carvalho, desde a última resposta do Prof. Orlando Fedeli e sem que eu tenha escrito mais nada neste ínterim, redigiu nada menos que 4 (quatro) artigos sobre o assunto, totalizando 7 (sete) desde o trabalho do Prof. Fedeli. Para bom entendedor, só isso já basta para evidenciar a incapacidade do Sr. Olavo de digerir seu desmascaramento e dar uma resposta adequada. O próprio Sr. Olavo de Carvalho já perdeu a noção de quando escreveu o quê, pois em seu último enrolavo ("Adendo[!] ao Aviso 3[!]", <http://www.olavodecarvalho.org/textos/fedeli7.htm>) o Sr. Olavo já começa errando:

"No meu Aviso Número 3, apontei as quatro características essenciais da heresia gnóstica, pedindo ao sr. Fedeli que demonstrasse a presença de qualquer uma delas nos meus escritos". Ora, as "quatro características essenciais da heresia gnóstica" foram enumeradas e explicitadas pelo Sr. Olavo de Carvalho em seu "Aviso 2", e não no "Aviso 3", que somente faz breve alusão a elas. O Sr. Olavo escreve com tanta raiva que nem a si mesmo cita corretamente, tal é a sua confusão. Depois ainda reclama que alguém "conheça seu pensamento melhor do que ele próprio"...

Aproveito que o Sr. Olavo de Carvalho tenha tocado nos seus famigerados "4 itens" para lhe refazer as perguntas irrespondidas de minha última carta (loc. cit.): por que a "salvação pelo conhecimento" não está incluída entre estes 4 itens "fundamentais" (nem nos 3 desenvolvimentos secundários), se o próprio Sr. Olavo admitiu posteriormente ser esta a característica essencial do gnosticismo (cf. Olavo de Carvalho, "Mensagem do Sr. Fedeli, através de um seu menino-de-recados", <http://www.olavodecarvalho.org/textos/fedeli5.htm>)? Vai ver não estava na enciclopédia da qual o Sr. Olavo agora admite ter copiado. Esta flagrante contradição deixa claro que o Sr. Olavo de Carvalho simplesmente não sabia, ou fingiu não saber, qual é a característica essencial do gnosticismo. Além disso, por que não houve resposta também aos dois itens de minha última carta (2-a e 2-b) que provam a presença desta característica essencial do gnosticismo (o conhecimento salvífico) no próprio Sr. Olavo de Carvalho?

Como se vê, assim não dá para debater: por um lado, o Sr. Olavo publica uma nova resposta a cada dia (ou duas no mesmo dia!), tentando mudar de assunto; por outro, suas múltiplas respostas pulam despudoradamente os argumentos que não lhe convêm e as perguntas que ele não tem como responder, como foi visto no parágrafo anterior.

 

3. Olavo de Carvalho: elevada moral ou cara-de-pau?

Por caridade para com os confusos, resta apenas dissipar a cortina de fumaça que o Sr. Olavo ergue para se encobrir daquilo que já está mais do que provado: que tanto ele quanto seus gurus são gnósticos. Assim, tratemos dos erros e jogos de espelhos do Sr. Olavo de Carvalho em seus últimos 4 (quatro) artigos.

Antes de passarmos ao principal, que é o pedido frustrado de socorro do Sr. Olavo de Carvalho a Eric Voegelin, vejamos de passagem dois "argumentos" espantosos do Sr. Olavo em sua mais recente bravata, o "Adendo ao Aviso 3" (mal consigo conter o riso cada vez que escrevo este título).

(a) O Sr. Olavo chama o Prof. Fedeli de "criminoso" por ter praticado o expediente "ilícito" de citar uma aula dada pelo Sr. Olavo que: 1. foi gravada por alunos dele, Olavo; 2. foi transcrita fielmente por alunos dele, Olavo; 3. foi enviada ao Sr. Olavo há mais de dois anos; 4. foi publicada no site dele, Olavo, onde aliás se encontra até hoje (cf. Olavo de Carvalho, "Críticas e Conselhos à Igreja Católica", aula do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, São Paulo, 06.06.1998, Bloco 8, sem revisão do autor, in <http://www.olavodecarvalho.org/forum/Forum17/HTML/000053-2.html>).

Qual seria então o suposto "crime"? O fato de que a aula ainda não foi revisada pelo Sr. Olavo, algo que o próprio Prof. Fedeli faz questão de sublinhar, ao citá-la. Como se vê, não há "crime" algum, e foi aliás um recurso pertinente à discussão, para demonstrar a diferença entre os ensinamento "exotéricos" e "esotéricos" do Sr. Olavo. O que causa perplexidade é que o Sr. Olavo de Carvalho venha fazer esta acusação menos de uma semana após ter escrito um artigo comentando extensamente uma fofoca de um aluno seu sobre o Prof. Fedeli, com distorções gritantes, da qual não há sequer gravação! (Cf. Olavo de Carvalho, "O método de aliciamento do Sr. Orlando Fedeli", in <http://www.olavodecarvalho.org/textos/fedeli4.html>). A contradição é tamanha, que mostra mais uma vez o estado lastimável em que o trabalho do Prof. Orlando Fedeli deixou o pretenso "filósofo", ao se ver encurralado por acusações irrespondíveis.

(b) O Sr. Olavo de Carvalho cita um breve artigo sobre gnose do Prof. Orlando Fedeli, tirando a seguir conclusões apressadas: "Se, fugindo de novo aos conceitos claros, ele repetir sua alegação de que 'a Gnose é um fenômeno religioso bem mais complexo', e de que 'quando se estuda a gnose entra-se num labirinto cheio de brumas, tentando descobrir segredos que permitirão chegar a um mistério. Não é de estranhar que o tema se preste a confusões' (2), terei o direito de lhe perguntar como, em boa lógica, uma noção tão nebulosa pode ser aplicada a um caso particular de maneira tão categórica e indiscutível." E na nota (2): "Orlando Fedeli, 'Gnose: religião oculta da história', em <http://www.montfort.org.br/>."

Já de cara, note-se que o primeiro trecho citado simplesmente não se encontra no artigo mencionado! Além disso, a conclusão tirada pelo Sr. Olavo é descabida, pois o segundo trecho citado está no começo do artigo do Prof. Fedeli, e logo a frase seguinte a ele diz: "É pois necessário estabelecer distinções", ao que se segue uma descrição -- tão rigorosa quanto permite o espaço de um artigo de jornal -- do fenômeno gnóstico. Depois dessa, não surpreende que o Sr. Olavo não cite direito o link do artigo que comenta (Citemos por ele: Orlando Fedeli, "Gnose: Religião Oculta da História", in <http://www.montfort.org.br/veritas/gnose.html>). Mas não sejamos tão rigorosos: talvez se trate apenas de um "equívoco" devido à falta de costume do Sr. Olavo de citar suas fontes...

Assim chegamos ao nome recorrente dos últimos apelos do Sr. Olavo de Carvalho: Eric Voegelin.

 

4. Eric Voegelin contra Olavo de Carvalho

(a) Quem era e no que acreditava Eric Voegelin

Limitemo-nos por ora apenas aos dados biográficos relevantes à questão aqui tratada, que é a oposição entre Catolicismo e gnose.

Quanto à fé de Eric Voegelin, dois estudiosos a descrevem, o primeiro dos quais amigo do Sr. Olavo de Carvalho, e o segundo recomendado por um link no site do Sr. Olavo:

"Avaliado por critérios de obediência a qualquer confissão cristã, [Voegelin] seria heterodoxo, dada a sua visão da Igreja visível e a sua afirmação de que os dogmas são uma forma secundária de fé. Aliás, criticou publicamente as Igrejas cuja moralidade arrogante as leva a perseguir povos de culturas não-cristãs; teria dúvidas em impor uma adesão obrigatória ao dogma; não participava da vida sacramental de qualquer Igreja; e talvez considerasse que o discurso filosófico se deve calar acerca da fé íntima." (Mendo Castro Henriques, "Ser ou Não Ser Cristão", in A Filosofia Civil de Eric Voegelin, Lisboa, Universidade Católica Editora, 1994, p. 170). "Neste ponto, todos se perguntarão sobre o caráter da fé religiosa de Voegelin. Ele se intitulava [entitled] um 'Cristão pré-Reforma' e um 'humanista Cristão', mas ele não era membro de nenhuma congregação. Ele dizia que assim como a história da filosofia era a história de seu descarrilamento, o mesmo acontecia com a religião Cristã." (Bill McClain, "Advice for those who want to read Eric Voegelin", <http://www.salamander.com/~wmcclain/ev-advice.html>). Há quem testemunhe, porém, que Voegelin era luterano, embora não muito fervoroso (cf. <http://www.salamander.com/~wmcclain/ev-remembered.html#church membership - peter bertocci.html>).

Eric Voegelin aponta como suas principais influências, tanto em seu interesse sobre o gnosticismo quanto no desenvolvimento de seus estudos sobre o tema, os jesuítas agostinianos Hans Urs von Balthasar e Henry de Lubac, que o "fascinaram" (cf. Eric Voegelin, Autobiographical Reflections, Louisiana State University Press, 1989, p. 25). Ambos são notórios modernistas, e a relação entre gnose, romantismo e modernismo não é nenhuma novidade. O primeiro, aliás, crê na apocatastasia, doutrina segundo a qual todos acabam sendo salvos no fim das contas, inclusive o diabo. Que ninguém se surpreenda, pois a crítica à gnose feita por gnósticos também não é nenhuma novidade: já Plotino, pai das heresias gnósticas neoplatônicas, tem um célebre livro contra os gnósticos.

É evidente que a maioria dos historiadores respeitáveis de gnose não são Católicos, e este fato inclusive os torna insuspeitos. O problema é quando pretendem se opor ao gnosticismo e se fingem de defensores da Igreja Católica: neste caso, sim, todo cuidado é pouco.

De qualquer forma, o que quer que se pense de Voegelin e suas teses, o propósito dos itens abaixo é mostrar o quanto o Sr. Olavo de Carvalho interpreta erroneamente este estudioso, ao lhe pedir socorro, de modo que Eric Voegelin, na verdade, acaba contribuindo para comprovar ainda mais a gnose olaviana, como se verá a seguir.

(b) Eric Voegelin X Olavo de Carvalho sobre gnose e gnosticismo

Segundo Eugene Webb (in Eric Voegelin: Philosopher of History, University of Washington Press, Seattle, Washington, 1981, p. 282; apud Bill McClain, "Dictionary of Voegelian Terminology", <http://www.salamander.com/~wmcclain/ev-dictionary.html>), Eric Voegelin define gnose e gnosticismo da seguinte forma (o negrito é meu):

"Gnose - Conhecimento. Originalmente um termo geral em grego para conhecimento de vários tipos. Depois, especialmente com o movimento gnóstico do começo da era Cristã, uma pretensa visão ou apreensão direta e imediata da verdade, sem necessidade de reflexão crítica; o dom especial de uma elite espiritual e cognitiva. Segundo Voegelin, a alegação de gnose pode tomar forma intelectual, emocional e volitiva."

"Gnosticismo - Um tipo de pensamento que alega ter absoluto domínio cognitivo sobre a realidade. Dependente de uma alegação de gnose, o gnosticismo considera seu conhecimento não sujeito a crítica. Como um movimento religioso ou semi-religioso, o gnosticismo pode tomar a forma transcendentalizante (como no caso do movimento gnóstico da antiguidade tardia) ou a forma imanentizante (como no caso do marxismo)."

Partindo destas duas definições, vê-se que Voegelin admite, contra Olavo de Carvalho, que o gnosticismo é espécie do gênero gnose. Para Voegelin -- assim como para o Prof. Orlando Fedeli e para todos os estudiosos sérios e não baseados em verbete de enciclopédia -- o gnosticismo é um movimento que alega possuir a gnose, esta sim definida como "pretensa visão ou apreensão direta e imediata da verdade, sem necessidade de reflexão crítica; o dom de uma elite espiritual ou cognitiva". É por alegarem ter a gnose, assim definida, que várias heresias, inclusive o gnosticismo, são condenadas pela Igreja Católica.

Sem significar que se concorde com a divisão que Voegelin faz da gnose, o fato é que para ele tanto a versão "transcendentalizante" quanto a "imanentizante" são ambas formas de gnose. E, como se viu pela definição que Voegelin dá à gnose, trata-se precisamente da doutrina condenada pela Igreja Católica. O "gnosticismo moderno" (as ideologias nazista e comunista) condenado tanto por Eric Voegelin como por Olavo de Carvalho é apenas um ramo da gnose, a saber: o que Voegelin chama de "imanentizante". E isso nos traz ao item seguinte.

(c) Eric Voegelin X Olavo de Carvalho sobre a gnose das outras "religiões"

O Sr. Olavo de Carvalho diz que a invasão do gnosticismo sobre as outras "tradições", devastando-as, ocorreu apenas nos últimos séculos (por meio do comunismo, por exemplo, no caso da China): "O gnosticismo, assim compreendido, não é só uma revolta contra o catolicismo em particular, mas contra toda visão tradicional da ordem social como expressão da ordem divina da alma e do cosmos. A transformação de uma corrente esotérica em poderoso movimento de massas que dominou a história dos dois últimos séculos observou-se principalmente no Ocidente, em razão das guerras religiosas que, a partir do século XVI, romperam a unidade da sociedade cristã e eliminaram a religião como poder público, instituindo o moderno Estado leigo que, erigido sobre um vácuo espiritual, acabou por se revelar impotente para resistir à invasão dos movimentos gnósticos de massa. Refluindo para o Oriente, esses movimentos devastaram ali as religiões tradicionais (ortodoxa, judaica, budista, confuciana e islâmica, principalmente), manifestando da maneira mais patente a sua natureza universalmente antiespiritual e não apenas anticatólica em especial." (Olavo de Carvalho, "Gnósticos e revolucionários", O Globo, 21.07.2001).

Como se viu, este gnosticismo de que fala o Sr. Olavo é segundo Voegelin apenas o do tipo chamado por ele de "imanentizante". O "transcendentalizante", que segundo Voegelin também tem a gnose condenada pela Igreja Católica, já infestava as "religiões" há tempos. Eric Voegelin afirma aliás a origem comum da gnose cristã (a heresia dos primeiros séculos) e da gnose das outras "religiões" (o "esoterismo", a "boa gnose" olaviana). Eis o que diz Voegelin, condenando o que afirma o Sr. Olavo:

"Ademais, além da gnose cristã, havia ainda uma gnose judaica, uma gnose pagã e uma gnose muçulmana. Muito provavelmente, a origem comum de todos esses ramos de gnose deve ser buscada no tipo experiencial básico que prevalesceu na área pré-cristã da civilização siríaca." (Eric Voegelin, "Gnosticismo - A Natureza da Modernidade", in A Nova Ciência da Política. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982, 2ª edição, p. 96, negrito meu).

Fingindo que esta última citação, por si só, já não é suficiente para liquidar toda a defesa olaviana baseada em Eric Voegelin, acrescento ainda o seguinte:

Que o Sr. Olavo de Carvalho sempre tenha falado bem do cabalista luterano Jacob Boehme, não é novidade, e muito recentemente ele o coloca lado a lado com Sta. Teresa, que já havia sido comparada pelo mesmo autor ao sufi gnóstico Ibn Arabi: "Nas últimas décadas de vida, Aldous Huxley adotou decididamente uma escala de valores 'selvagem'. Mergulhou nos estudo das literaturas sapienciais e místicas, adquirindo uma antevisão daquilo que Frithjof Schuon viria a chamar 'unidade transcendente das religiões', tão diferente do ecumenismo burocrático de hoje quanto as visões de Sta. Teresa ou Jacob Boehme diferiam da leitura de uma circular da CNBB." (Olavo de Carvalho, "Prefácio", 26.03.2001, in Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, São Paulo, Editora Globo, 2001).

Ora, Eric Voegelin afirma que Boehme é continuador do gnosticismo: "Eu descobri que a continuidade do gnosticismo desde a antiguidade até o período moderno era uma questão de consenso entre os melhores estudiosos do século XVIII e começo do XIX. Gostaria de mencionar a grande obra de Ferdinand Christian Baur sobre Die christliche Gnosis; oder, die christliche Religionsphilosophie in ihrer geschichtlichen Entwicklung de 1835. Baur desvelou a história do gnosticismo desde a gnose original da antiguidade, passando pela Idade Média, e indo direto até a filosofia da religião de Jakob Böhme, Schelling, Schleiermacher e Hegel." (cf. Eric Voegelin, Autobiographical Reflections, Louisiana State University Press, 1989, p. 66).

Eric Voegelin aponta ainda João Escoto Erígena como origem do gnosticismo moderno: "Uma data apropriada para o início formal [da modernidade gnóstica] seria a ativação do antigo gnosticismo através de Escoto Erígena no século IX, porque sua obra, bem como a de Pseudo-Dionísio Areopagita, por ele traduzida, exerceram influência contínua sobre as seitas gnósticas clandestinas, antes que elas viessem à superfície nos séculos XII e XIII." (Eric Voegelin, "Gnosticismo - A Natureza da Modernidade", in A Nova Ciência da Política. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982, 2ª edição, p. 97).

Ora, Seyyed Hossein Nasr, no livro de religiões comparadas recomendado recentemente pelo Sr. Olavo de Carvalho (cf. Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições, 2ª ed., É Realizações, São Paulo, 2000, p. 308), coloca Erígena na lista dos representantes da "boa gnose" (o núcleo comum das "religiões" defendido pelo Sr. Olavo). Nasr declara que "a afirmação de Erígena permanece de singular importância na dimensão sapiencial da tradição cristã", e também que este herege fez uma "majestosa declaração de gnose cristã" (Cf. Seyyed Hossein Nasr, Knowledge and the Sacred, State University of New York Press, 1989, p. 20).

Por tudo isso, fica claro que o gnosticismo de que trata Eric Voegelin e a gnose que é núcleo das religiões para Olavo de Carvalho e Seyyed Hossein Nasr, alunos de Frithjof Schuon, são uma só e a mesma coisa. Assim, fica provado pela milésima vez que "gnosticismo = gnose".

Sobre este particular, acrescente-se ainda, de novo apenas por documentação, o comentário do estudioso da gnose Dr. Stephen A. Hoeller, que ocupa atualmente o posto de Bispo da Igreja Gnóstica, que já foi de René Guénon: "A divisão que os Tradicionalistas [os guénonianos] fazem entre 'falsos gnósticos' e 'verdadeiros gnósticos' reflete parâmetros que são totalmente arbitrários." (Stephen A. Hoeller, "What is a Gnostic?", in <http://www.webcom.com/~gnosis/whatisgnostic.htm>).

(d) Eric Voegelin refuta o "argumento" central do artigo de Olavo de Carvalho para O Globo

Por fim, não passa de uma tola apelação sentimental o "argumento" que o Sr. Olavo dá para provar que todas as "tradições" são "boazinhas": "Ora, essas religiões não-católicas são precisamente aquelas que, segundo a caricatura extremista da teoria de Voegelin, constituiriam, mediante uma aliança com o materialismo militante, o outro braço da revolução gnóstica voltada contra a Igreja Católica. Se elas fossem realmente isso, então restaria explicar por que, em vez de coordenar-se num assalto conjunto a Roma, elas escolheram primeiro destruir-se a si mesmas." (Olavo de Carvalho, "Gnósticos e revolucionários", O Globo, 21.07.2001).

Mais uma vez, para infelicidade do Sr. Olavo de Carvalho, Eric Voegelin o refuta, dando aliás um exemplo que será bastante interessante tanto ao Sr. Olavo quanto a alguns de seus alunos que posam de Católicos tradicionalistas ao mesmo tempo em que escrevem artigos defendendo o liberalismo mais descarado: "Os símbolos intelectuais elaborados pelos vários tipos de imanentistas freqüentemente são conflitantes, assim como os vários tipos de gnósticos se opõem uns aos outros. É fácil imaginar a indignação de um liberal humanista se lhe dissermos que seu particular de imanentismo é um passo na estrada que leva ao marxismo." (Eric Voegelin, "Gnosticismo - A Natureza da Modernidade", in A Nova Ciência da Política. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982, 2ª edição, p. 95, negrito meu).

(e) Eric Voegelin X Olavo de Carvalho sobre a fé

Como contribuição ao desmascaramento das estapafúrdias enrolavices sobre fé, seguem-se duas citações de Voegelin sobre a maneira gnóstica de encarar a fé, que é exatamente a do Sr. Olavo de Carvalho, segundo seus recentes artigos sobre o tema (cf. Orlando Fedeli, "O esperneamento hidrófobo de Olavo de Carvalho", <http://www.montfort.org.br/perguntas/guenon5.html>; e também sua próxima resposta, que será publicada ainda esta semana em <http://www.montfort.org.br/>):

"A tentativa de imanentizar o significado da existência é basicamente um esforço para obter um domínio sobre nosso conhecimento da transcendência maior do que o propiciado pela cognitio fidei, a cognição da fé; e as experiências gnósticas oferecem esse maior domínio na medida em que constituem uma expansão da alma até o ponto em que Deus é trazido para dentro da experiência do homem." (Eric Voegelin, op. cit., p. 95). E ainda: "...os homens que recorrem a essas experiências divinizam-se ao substituir a fé, no sentido cristão, por formas mais concretas de participação na essência divina." (Ibid., p. 95).

 

5. Nossa Senhora das Mercês

Por ora, paro por aqui, pagando para ver até onde chegará o Sr. Olavo de Carvalho em sua defesa desesperada. Como se vê, ele está bem confundido.

Rogando a Nossa Senhora das Mercês -- patrona da ordem Mercedária, que libertava os escravos do jugo islamita -- que livre a todos da escravidão de todas as formas de gnose, seja sufi, hinduísta, budista ou qualquer outra, me despeço,

In Jesu et Mariae,

Felipe Coelho.

23.07.2001


Adendo ao Aviso Número 3
<http://www.olavodecarvalho.org/textos/fedeli7.htm>

Olavo de Carvalho

No meu Aviso Número 3, apontei as quatro características essenciais da heresia gnóstica, pedindo ao sr. Fedeli que demonstrasse a presença de qualquer uma delas nos meus escritos. O sr. Fedeli, com aquele estilo bufão de adolescente despeitado, a que infalivelmente o homem que não sabe escrever recorre quando quer parecer irônico, fugiu da cobrança respondendo que eu, em vez de recorrer a fontes fidedignas como aquelas em que ele se respalda, havia tirado essas informações de alguma "enciclopédia popular tipo Barsa ou do Tesouro da Juventude". Bem, o fato é que as tirei da Routledge Encyclopaedia of Philosophy, da qual nenhum estudioso sério diria essas coisas, e que dá como fontes, entre outras dez ou doze, aquelas mesmas duas que o sr. Fedeli mais enfatuadamente ostenta: R. M. Grant, Gnosticism, An Anthology, London, Collins, 1961, e Hans Jonas, The Gnostic Religion, Boston, MA, Beacon Press, 1958.

Eu poderia ter apelado diretamente a Grant, a Jonas ou a qualquer outro, mas preferi a Routledge para me esquivar de controvérsias de detalhe entre especialistas e me ater a uma média aceitável no consenso acadêmico, que essa enciclopédia, hoje a obra-padrão no gênero, precisamente representa.

Foi de propósito que omiti a referência bibliográfica, para testar se o meu interlocutor seria prudente o bastante para admitir a boa fé das minhas alegações ou se, animado pela falta de uma referência visível, arriscaria a sorte num blefe de cobrança erudita, esperando me pegar de calças na mão.

O sr. Fedeli, mais que depressa, escolheu o blefe, mostrando o espírito perverso e malicioso que o anima.

Também foi premeditadamente que me limitei a mencionar as características da gnose antiga, por saber que da moderna, tal como descrita por Eric Voegelin, minha distância é tão grande que a simples tentativa de me associar a ela cairia por terra, instantaneamente, como pura invencionice difamatória.

Bem, como o mais trêfego porta-voz do sr. Fedeli é o primeiro a proclamar que a acusação de gnosticismo levantada contra mim não se referia à gnose antiga, e sim à moderna, não custa nada esclarecer em quê, afinal, esta consiste.

Eric Voegelin, em Science, Politics and Gnosticism, assim resume "as seis características que, tomadas em conjunto, revelam a natureza da atitude gnóstica".

Primeira. "O gnóstico está insatisfeito com a sua situação."

Segunda. "Os males da situação podem ser atribuídos ao fato de que o mundo é intrinsecamente mal organizado... Os gnósticos não são inclinados a descobrir que os seres humanos em geral ou eles próprios em particular são inadequados. Numa dada situação em que algo não é como deveria ser, a culpa será encontrada na maldade do mundo."

Terceira. A crença em que "é possível salvar-se da maldade do mundo".

Quarta. Para isso, "a ordem do ser terá de ser mudada por meio de um processo histórico. Do mundo miserável, um mundo bom deve evoluir historicamente".

Quinta. "O traço gnóstico em sentido mais estrito: a crença em que uma mudança na ordem do ser reside no reino da ação humana, de que o ato salvacional é possível por meio do próprio esforço do homem."

Sexta. "O conhecimento - Gnosis - do método de alterar o ser é a preocupação central do gnóstico... a construção de uma fórmula para a salvação do eu e do mundo". (1)

Peço pois novamente ao sr. Fedeli que aponte, na minha obra, os indícios de revolta contra a ordem do ser, de confiança na possibilidade de mudar essa ordem pela ação humana, de apologia do processo histórico como meio de criar um mundo bom e, sobretudo, do conhecimento entendido como "método de alterar o ser". Tenho a nítida impressão de que há tempos venho escrevendo contra essas coisas, mas talvez o sr. Fedeli conheça o meu pensamento melhor que eu.

Se, fugindo de novo aos conceitos claros, ele repetir sua alegação de que "a Gnose é um fenômeno religioso bem mais complexo", e de que "quando se estuda a gnose entra-se num labirinto cheio de brumas, tentando descobrir segredos que permitirão chegar a um mistério. Não é de estranhar que o tema se preste a confusões" (2), terei o direito de lhe perguntar como, em boa lógica, uma noção tão nebulosa pode ser aplicada a um caso particular de maneira tão categórica e indiscutível. Se não temos um conceito claro do que seja o gnosticismo, como afirmar com certeza que tal ou qual autor é gnóstico, que tal ou qual filosofia é gnóstica? Mais particularmente: se quatro características da gnose antiga, mais seis da moderna, ainda não bastam para definir o fenômeno em linhas gerais, então de fato a "gnose" a que refere o sr. Fedeli é um saco de gatos no qual, com fins de polêmica ou de difamação, cada um pode enfiar quem bem entenda - e é isto, precisamente, o que ele faz comigo.

Que, na ânsia de alcançar seus fins, ele recorra até a um meio ilícito -- que outra coisa não é o uso que ele faz de transcrições de aulas, truncadas, semilegíveis e não referendadas pelo autor, obtidas sem minha autorização por seus agentes infiltrados nos meus cursos --, mostra apenas que esse homem, tão jactancioso de suas altas incumbências morais, não aprendeu ainda a abster-se da prática de crime.

Decerto ele não é o primeiro chefe de seita que, nas alturas da sua superbia auto-santificante, despreza suas obrigações elementares de cidadão e, por descumpri-las, demole a golpes de imprudência os seus próprios pés de barro.

Olavo de Carvalho
22/07/2001

 

Notas

(1) Eric Voegelin, Collected Works, vol. V, Columbia, University of Missouri Press, 2000, pp. 297-8.

(2) Orlando Fedeli, "Gnose: religião oculta da história", em http://www.montfort.org.br.

 

P. S.

O tal Fabrício, cuja cartinha o sr. Fedeli tão vaidosamente exibe, continua fazendo dele – como aliás também de mim – o objeto de sua gozação compulsiva. Agora ele deu de enviar mensagens estapafúrdias, em meu nome e no do sr. Fedeli, a um fórum de discussões na internet.


Gnósticos e revolucionários
<http://oglobo.globo.com/colunas/olavo.htm>

Olavo de Carvalho
O Globo, 21 de julho de 2001

No começo do século XIX, muitos historiadores das religiões estavam conscientes dos elos de continuidade entre a heresia gnóstica dos primeiros séculos da Era Cristã e as filosofias iluministas e românticas. Por uma triste ironia, justamente no momento em que essas filosofias, logo a seguir, se transmutaram em movimentos ideológicos de massas, a consciência daqueles elos desapareceu do horizonte intelectual e o fenômeno totalitário resultante desses movimentos não pôde ser adequadamente compreendido.

Coube ao filósofo alemão Eric Voegelin (1901-1985) o mérito de haver não somente redescoberto a inspiração gnóstica das ideologias totalitárias, mas criado os instrumentos intelectuais para enquadrá-la numa compreensão mais geral da história.

Malgrado a alucinante variedade dos movimentos gnósticos e as diferenças entre suas formulações teóricas, há no fundo de todos eles a unidade de uma cosmovisão, ou no mínimo de um sentimento cósmico comum: a vivência do universo como lugar hostil e do homem como criatura jogada no meio de uma máquina absurda e incompreensível. Em última instância, é a rejeição do julgamento que Deus fez da Sua própria criação no último dia do Gênesis, quando Ele olhou o cosmos e “viu que era bom”. Para os gnósticos, a ordem cósmica é essencialmente má e ao homem não resta senão o caminho da fuga ou da revolta.  Ao longo dos oito volumes de sua “History of political ideas” e dos cinco da obra inacabada “Order and History” (ambas publicadas pela University of Missouri Press), Voegelin demonstrou que dessa visão inicial emergiram os desenvolvimentos mais variados, desde a total rejeição da vida mediante o ascetismo à outrance dos cátaros, passando pelo sonho dos alquimistas elisabetanos de “corrigir a natureza”, até as utopias políticas modernas da Revolução Francesa e dos movimentos comunista, nazista e fascista, com suas ambições prometéicas de sociedade planejada, Estado onipotente e felicidade coletiva a ser alcançada por meio de um morticínio redentor.

O gnosticismo, assim compreendido, não é só uma revolta contra o catolicismo em particular, mas contra toda visão tradicional da ordem social como expressão da ordem divina da alma e do cosmos. A transformação de uma corrente esotérica em poderoso movimento de massas que dominou a história dos dois últimos séculos observou-se principalmente no Ocidente, em razão das guerras religiosas que, a partir do século XVI, romperam a unidade da sociedade cristã e eliminaram a religião como poder público, instituindo o moderno Estado leigo que, erigido sobre um vácuo espiritual, acabou por se revelar impotente para resistir à invasão dos movimentos gnósticos de massa. Refluindo para o Oriente, esses movimentos devastaram ali as religiões tradicionais (ortodoxa, judaica, budista, confuciana e islâmica, principalmente), manifestando da maneira mais patente a sua natureza universalmente antiespiritual e não apenas anticatólica em especial.

Mas é inevitável que toda grande descoberta no reino das idéias venha seguida de perto por alguma versão paródica que ao mesmo tempo a imita e inverte o seu sentido.

Assim, não demoraram a aparecer, no ambiente católico de extrema-direita, doutrinários que, explorando indícios fortuitos de semelhanças entre algumas idéias gnósticas e elementos de doutrina judaica, islâmica, budista, etc., apresentaram uma nova versão da revolução gnóstica. Esta já não seria uma aberração voltada contra toda a visão normal e tradicional, mas a aliança dos gnosticismos do Oriente e do Ocidente numa conspiração universal contra a Igreja Católica.

Nunca ocorreu a esses gênios da parasitagem intelectual perguntar-se por que, na guerra de todos contra a Igreja Católica, esta foi, das religiões tradicionais, a que menos vítimas deu à sanha dos revolucionários gnósticos. Mesmo diante dos horrores da perseguição sofrida na França, no México, na Espanha, na Polônia, em Cuba; mesmo diante da evidência de tantos “Catholic martyrs of the twentieth century” meticulosamente coletada pelo historiador Robert Royal (New York, Crossroad, 2000), não há como nivelar, em números, o morticínio dos católicos ao dos ortodoxos, judeus, muçulmanos e budistas sacrificados na Rússia, na Alemanha, na China, no Tibete e não sei mais onde pela máquina genocida da revolução gnóstica. A religião chinesa, em particular, pode-se considerar hoje virtualmente expulsa da história pela brutal doutrinação materialista que bloqueou o acesso de mais de um bilhão de seres humanos às noções religiosas e metafísicas mais elementares.

Ora, essas religiões não-católicas são precisamente aquelas que, segundo a caricatura extremista da teoria de Voegelin, constituiriam, mediante uma aliança com o materialismo militante, o outro braço da revolução gnóstica voltada contra a Igreja Católica. Se elas fossem realmente isso, então restaria explicar por que, em vez de coordenar-se num assalto conjunto a Roma, elas escolheram primeiro destruir-se a si mesmas.

Não, a Igreja Católica não é o único, nem, hoje em dia, o principal alvo do ataque gnóstico. Ela sofreu muito, está muito dividida e corroída pelos vermes gnósticos da “teologia da libertação”. Mas ela é — ainda — uma sólida fortaleza contra a destruição do espírito tradicional e da visão normal do homem no cosmos. Tão importante é o seu papel estratégico, que mesmo ocasionais hesitações da sua parte bastaram para dar ao inimigo a oportunidade de avanços e conquistas formidáveis, como se viu na ascensão do nazismo, que ela poderia ter impedido se agisse em tempo, ou nos espetaculares sucessos que o comunismo obteve nas próprias fileiras católicas durante as décadas de 60 e 70, na esteira das confusões paralisantes que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Jogar a Igreja contra as demais religiões massacradas pela fúria das ideologias totalitárias é fazer causa comum com o inimigo de toda religião e de toda espiritualidade. É ressuscitar em escala universal os conflitos inter-religiosos que, no começo dos tempos modernos, só puderam ser apaziguados mediante o advento do Estado leigo que abriu as portas à invasão das ideologias gnósticas. Muitos podem colaborar com isso por inocência e boa-fé, pois o amor sincero à Igreja nem sempre vem acompanhado de uma visão abrangente e adequada da história. Mas outros sabem
perfeitamente bem para quem trabalham e aonde querem chegar. Quando ouvir um desses, caro leitor, não se deixe iludir por pretextos piedosos e por uma linguagem de sacristia: ele é a voz da velha revolta gnóstica que, disfarçada de devoção cristã, tenta dividir para reinar.


 

 


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