
PASCENDI DOMINICI GREGIS
Sobre as doutrinas modernistas
Carta encíclica de Sua Santidade
Papa São Pio X
8 de setembro de 1907
Introdução
1.a
PARTE: Exposição do sistema e sua divisão
2.a
PARTE: As causas do Modernismo
3.a
PARTE: Remédios
Conclusão
CARTA ENCÍCLICA
Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros
Ordinários em paz e comunhão com a Santa Sé Apostólica
Veneráveis Irmãos, saúde e benção apostólica
Introdução
A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar
o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar
com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas
novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta
providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica;
porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer
(At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro
arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo há mister confessar que nestes
últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais,
com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja
e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já
não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para
que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na
esperança de melhores disposições, até agora usamos.
E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que
os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é
muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte
tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato
católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo
amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos
antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o
comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram
sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa
do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples
homem.
Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no
número dos inimigos da Igreja; não poderá porém, pasmar com razão quem quer que,
postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas
e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da
verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como
dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por
isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto
mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens
e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que
meneiam eles o machado. Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o
vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma
verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o
sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias:
porquanto, fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto
com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo
ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não
aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima
para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa
aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera.
Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas
doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e,
confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não
passa de soberba e obstinação. Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los a
melhores sentimentos e, para este fim, a princípio os tratamos com brandura, em seguida
com severidade e, finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas.
Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi
debalde; pareceram por momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com maior altivez.
Poderíamos talvez ainda deixar isto desapercebido se tratasse somente deles; trata-se
porém das garantias do nome católico.
Há, pois, mister quebrar o silêncio, que ora seria
culpável, para tornar bem conhecidas à Igreja esses homens tão mal disfarçados.
E visto que os modernistas (tal é o nome com que
vulgarmente e com razão são chamados) com astuciosíssimo engano costumam apresentar
suas doutrinas não coordenadas e juntas como um todo, mas dispersas e como separadas umas
das outras, afim de serem tidos por duvidosos e incertos, ao passo que de fato estão
firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas
doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo,
para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes
os efeitos perniciosos.
1ª PARTE:
Exposição do sistema e sua divisão
E para procedermos com ordem em tão abstrusa matéria,
convém notar que cada modernista representa e quase compendia em si muitos personagens,
isto é, o de filósofo, o de crente, o de teólogo, o de historiador, o de crítico, o de
apologista, o de reformador; os quais personagens todos, um por um, cumpre bem os distinga
todo aquele que quiser devidamente conhecer o seu sistema e penetrar nos princípios e nas
conseqüências das suas doutrinas.
1. O modernista filósofo
Começando pelo filósofo, cumpre saber que todo o
fundamento da filosofia religiosa dos modernistas assenta sobre a doutrina, que chamamos agnosticismo.
Por força desta doutrina, a razão humana fica inteiramente reduzida à consideração
dos fenômenos, isto é, só das coisas perceptíveis e pelo modo como são
perceptíveis; nem tem ela direito nem aptidão para transpor estes limites. E daí segue
que não é dado à razão elevar-se a Deus, nem conceder-lhe a existência, nem mesmo por
intermédio dos seres visíveis. Segue-se, portanto, que Deus não pode ser de maneira
alguma objeto direto da ciência; e também com relação à história, não pode servir
de assunto histórico. Postas estas premissas, todos percebem com clareza qual não
deve ser a sorte da teologia natural, dos motivos de credibilidade, da revelação
externa. Tudo isto os modernistas rejeitam e atribuem ao intelectualismo, que
chamam ridículo sistema, morto já há muito tempo. Nem os abala ter a Igreja condenado
formalmente erros tão monstruosos. Pois que, de fato, o Concílio Vaticano I assim
definiu:
Se alguém disser que o Deus, único e verdadeiro,
criador e Senhor nosso, por meio das coisas criadas não pode ser conhecido com certeza
pela luz natural da razão humana, seja anátema (De Revel. Cân. 1); e também:
Se alguém disser que não é possível ou não convém
que, por divina revelação, seja o homem instruído acerca de Deus e do culto que lhe é
devido, seja anátema (Ibid. Cân. 2); e, finalmente:
Se alguém disser que a divina revelação não pode
tornar-se crível por manifestações externas, e que por isto os homens não devem ser
movidos à fé senão exclusivamente pela interna experiência ou inspiração privada,
seja anátema (De Fide, Cân. 3).
De que modo porém os modernistas passam do agnosticismo,
que é puro estado de ignorância, para o ateísmo científico e histórico que, ao
contrário, é estado de positiva negação, e por isso, com que lógica, do não saber se
Deus interveio ou não na história do gênero humano, passam a tudo explicar na mesma
história, pondo Deus de parte, como se na realidade não tivesse intervindo, quem o
souber que o explique.
Há entretanto para eles uma coisa fixa e determinada, que
é o dever ser atéia a ciência a par da história, em cujas raias não haja lugar senão
para os fenômenos, repelido de uma vez, Deus e tudo o que é divino. E
dessa absurdíssima doutrina ver-se-á, dentro em pouco, que coisas seremos obrigados a
deduzir a respeito da augusta Pessoa de Cristo, dos mistérios e da sua vida e morte, da
sua ressurreição e ascensão ao céu.
Este agnosticismo, porém, na doutrina dos
modernistas, não constitui senão a parte negativa; a positiva acha-se toda na imanência
vital.
Eis aqui o modo como eles passam de uma parte a outra.
A religião, quer a natural quer a sobrenatural, é mister seja explicada como
qualquer outro fato. Ora, destruída a teologia natural, impedido o acesso à revelação
ao rejeitar os motivos de credibilidade, é claro que se não pode procurar fora do homem
essa explicação. Deve-se, pois, procurar no mesmo homem; e visto que a religião não é
de fato senão uma forma da vida, a sua explicação se deve achar mesmo na vida do homem.
Daqui procede o princípio da imanência religiosa. Demais, a primeira moção, por
assim dizer, de todo fenômeno vital, deve sempre ser atribuída a uma necessidade;
os primórdios, porém, falando mais especialmente da vida, devem ser atribuídos a um
movimento do coração, que se chama sentimento. Por conseguinte, como o objeto da
religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se
deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade da divindade.
Esta necessidade das causas divinas não se fazendo sentir
no homem senão em certas e especiais circunstâncias, não pode de per si pertencer ao
âmbito da consciência; oculta-se (porém), primeiro abaixo da consciência, ou, como
dizem com vocábulo tirado da filosofia moderna, na subconsciência, onde a sua
raiz fica também oculta e incompreensível. Se alguém, contudo lhes perguntar de
que modo essa necessidade da divindade, que o homem sente em si mesmo, torna-se religião,
será esta a resposta dos modernistas: a ciência e a história, dizem eles, acham-se
fechadas entre dois termos: um externo, que é o mundo visível; outro interno, que é a
consciência.
Chegados a um ou outro destes dois termos, não se pode ir
mais adiante; além destes dois limites acha-se o incognoscível. Diante deste incognoscível,
seja que ele se ache fora do homem e fora de todas as coisas visíveis, seja que ele se
ache oculto na subconsciência do homem, a necessidade de um quê divino,
sem nenhum ato prévio da inteligência, como o quer o fideísmo, gera no ânimo
já inclinado um certo sentimento particular, e este, seja como objeto seja como
causa interna, tem envolvida em si a mesma realidade divina e assim, de certa
maneira, une o homem com Deus. É precisamente a este sentimento que os modernistas dão o
nome de fé e tem-no como princípio de religião.
Nem acaba aí o filosofar, ou melhor, o desatinar desses
homens. Pois, nesse mesmo sentimento eles não encontram unicamente a fé; mas, com a fé
e na mesma fé, do modo como a entendem, sustentam que também se acha a revelação.
E que é o que mais se pode exigir para a revelação? Já não será talvez revelação,
ou pelo menos princípio de revelação, aquele sentimento religioso, que se
manifesta na consciência? Ou também o mesmo Deus a manifestar-se às almas, embora um
tanto confusamente, no mesmo sentimento religioso? Eles ainda acrescentam mais, dizendo
que, sendo Deus ao mesmo tempo objeto e causa da fé, essa revelação é de Deus como
objeto e também provém de Deus como causa; isto é, tem a Deus ao mesmo tempo como
revelante e revelado. Segue-se daqui, Veneráveis Irmãos, a absurda afirmação dos
modernistas, segundo a qual toda a religião, sob diverso aspecto, é igualmente natural e
sobrenatural. Segue-se daqui a promíscua significação que dão aos termos consciência
e revelação. Daqui a lei que dá a consciência religiosa, a par com a
revelação, como regra universal, à qual todos se devem sujeitar, inclusive a própria
autoridade da Igreja, seja quando ensina seja quando legisla em matéria de culto ou
disciplina.
Entretanto, em todo este processo donde, segundo os
modernistas, resultam a fé e a revelação, deve atender-se principalmente a uma coisa de
não pequena importância, pelas conseqüências histórico-críticas, que daí fazem
derivar. Aquele Incognoscível, de que falam, não se apresenta à fé como que nu
e isolado; mas, ao contrário, intimamente unido a algum fenômeno que, embora pertença
ao campo da ciência ou da história, assim mesmo, de certo modo, transpõe os seus
limites. Este fenômeno poderá ser um fato qualquer da natureza, contendo em si algum
quê de misterioso, ou poderá também ser um homem, cujo talento, cujos atos, cujas
palavras parecem nada ter de comum com as leis ordinárias da história. A fé, pois,
atraída pelo Incognoscível unido ao fenômeno, apodera-se de todo o mesmo
fenômeno e de certo modo o penetra da sua vida. Donde se seguem duas coisas.
A primeira é uma certa transfiguração do
fenômeno, por uma espécie de elevação das suas próprias condições, que o torna mais
apto, qual matéria, para receber o divino.
A segunda é uma certa desfiguração, resultante de
que, tendo a fé subtraído ao fenômeno os seus adjuntos de tempo e de lugar, facilmente
lhe atribui aquilo que em realidade não tem; o que particularmente se dá em se tratando
de fenômenos de antigas datas, e isto tanto mais quanto mais remotas são elas.
Destes dois pressupostos, os modernistas deduzem outros
tantos cânones que unidos a um terceiro já deduzido de agnosticismos, constituem a base
da crítica histórica. Esclareçamos o fato com um exemplo tirado da pessoa de Jesus
Cristo. Na pessoa de Cristo, dizem, a ciência e a história não acham mais do que um
homem. Portanto, em virtude do primeiro cânon deduzido do agnosticismo, da história
dessa pessoa se deve riscar tudo o que sabe de divino. Ainda mais, por força do segundo
cânon, a pessoa histórica de Jesus Cristo foi transfigurado pela fé; logo,
convém despojá-la de tudo o que a eleva acima das condições históricas.
Finalmente, a mesma foi desfigurada pela fé, em
virtude do terceiro cânon; logo, se devem remover dela as falas, as ações, tudo enfim
que não corresponde ao seu caráter, condição e educação, lugar e tempo em que viveu.
É em verdade estranho tal modo de raciocinar; contudo é esta a crítica dos
modernistas.
O sentimento religioso, que por imanência vital
surge dos esconderijos da subconsciência, é pois o gérmen de toda a religião e
a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião.
Este mesmo sentimento rudimentar e quase informe a
princípio, pouco a pouco, sob o influxo do misterioso princípio que lhe deu origem,
tem-se ido aperfeiçoando, a par com o progresso da vida humana, da qual, como já ficou
dito, é uma forma.
Temos, pois, assim a origem de toda a religião, até mesmo
da sobrenatural; e estas não passam de meras explicações do sentimento religioso.
Nem se pense que a católica é excetuada; está no mesmo nível das outras, pois não
nasceu senão pelo processo de imanência vital na consciência de Cristo, homem de
natureza extremamente privilegiada, como outro não houve nem haverá. Fica-se pasmo em se
ouvindo afirmações tão audaciosas e sacrílegas! Entretanto, Veneráveis Irmãos, não
é esta linguagem usada temerariamente só pelos incrédulos. Homens católicos, até
muitos sacerdotes, afirmaram estas coisas publicamente, e com delírios tais se vangloriam
de reformar a Igreja.
Já não se trata aqui do velho erro, que à natureza
humana atribuía um quase direito à ordem sobrenatural.
Vai-se muito mais longe ainda; chega-se até a afirmar que
a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto
inteiramente espontâneo da natureza. Nada pode vir mais a propósito para dar cabo de
toda a ordem sobrenatural. Por isto com suma razão o Concílio Vaticano I definiu: Se
alguém disser que o homem não pode ser por Deus elevado a conhecimento e perfeição,
que supere as forças da natureza, mas por si mesmo pode e deve, com incessante progresso,
chegar finalmente a possuir toda a verdade e todo o bem, seja anátema (De Revel Cân.
3).
Até agora porém, Veneráveis Irmãos, não lhes vimos dar
nenhum lugar à ação da inteligência. Contudo, segundo as doutrinas dos modernistas,
tem ela também a sua parte no ato de fé. Vejamos como.
Naquele sentimento, dizem, de que tantas vezes já
se tem falado, precisamente porque é sentimento e não é conhecimento, Deus de
fato se apresenta ao homem, mas de modo tão confuso que em nada ou mal se distingue desse
mesmo crente. Faz-se, pois, mister lançar algum raio de luz sobre aquele sentimento, de
maneira que Deus se apresente fora e distinto do crente. Ora, isto é obra da
inteligência, à qual somente cabe o pensar e o analisar, e por meio da qual o homem a
princípio traduz em representações mentais os fenômenos de vida, que nele aparecem, e
depois os manifesta com expressões verbais.
Segue-se daí esta vulgar expressão dos modernistas: o
homem religioso deve pensar à sua fé. Sobrevindo, pois, a inteligência ao
sentimento, inclina-se sobre este, elabora-o todo, a modo de um pintor que ilumina e
reanima os traços de um quadro estragado pelo tempo. O paralelo é de um dos mestres do
modernismo. Neste trabalho a inteligência procede de dois modos: primeiro, por um ato
natural e espontâneo, exprimindo a sua noção por uma proposição simples e vulgar;
depois, com reflexão e penetração mais íntima, ou, como dizem, elaborando o seu
pensamento, exprime o que pensou com proposições secundárias, derivadas
certamente da primeira, porém, mais polidas e distintas. Estras proposições secundárias,
se forem finalmente sancionadas pelo supremo magistério da Igreja, constituirão o dogma.
Assim pois, na doutrina dos modernistas, chegamos a um dos
pontos mais importantes, que é a origem e mesmo a natureza do dogma. A origem do dogma
põem-na eles, pois, naquelas primitivas fórmulas simples que, debaixo de certo
aspecto, devem considerar-se como essenciais à fé, pois que a revelação, para ser
verdadeiramente tal, requer uma clara aparição de Deus na consciência. O mesmo dogma
porém, ao que parece, é propriamente constituído pelas fórmulas secundárias.
Mas, para bem se conhecer a natureza do dogma, é preciso primeiro indagar que
relações há entre as fórmulas religiosas e o sentimento religioso.
Não haverá dificuldade em o compreender para quem já
tiver como certo que estas fórmulas não têm outro fim, senão o de facilitarem
ao crente um modo de dar razão da própria fé. De sorte que essas fórmulas são como
que umas intermediárias entre o crente e a sua fé; com relação à fé, são
expressões inadequadas do seu objeto e pelos modernistas se denominam símbolos;
com relação ao crente, reduzem-se a meros instrumentos.
Não é portanto de nenhum modo lícito afirmar que elas
exprimem uma verdade absoluta; portanto, como símbolos, são meras imagens de
verdade, e portanto devem adaptar-se ao sentimento religioso, enquanto este se refere ao
homem; como instrumentos, são veículos de verdade e assim, por sua vez, devem
adaptar-se ao homem, enquanto se refere ao sentimento religioso. E, pois que este
sentimento, tem por objeto o absoluto, apresenta infinitos aspectos, dos quais pode
aparecer, hoje um, amanhã outro e da mesma sorte como aquele que crê pode passar por
essas e aquelas condições, segue-se que também as fórmulas, que chamamos dogmas,
devem estar sujeitas a iguais vicissitudes, e por isso também a variarem.
Assim pois, temos o caminho aberto à íntima evolução do
dogma. Eis aí um acervo de sofismas, que subvertem e destroem toda a religião!
Ousadamente afirmam os modernistas, e isto mesmo se conclui
das suas doutrinas, que os dogmas não somente podem, mas positivamente devem evoluir e
mudar-se. De fato, entre os pontos principais da sua doutrina, contam também este,
que deduzem da imanência vital: as fórmulas religiosas, para que realmente
sejam tais e não só meras especulações da inteligência, precisam ser vitais e viver
da mesma vida do sentimento religioso. Daí porém não se deve concluir que essas
fórmulas, particularmente se forem só imaginárias, sejam formadas a bem desse mesmo
sentimento religioso; porquanto nada importa a sua origem, nem o seu número, nem a sua
qualidade; segue-se, porém, que o sentimento religioso, embora modificando-as, se
houver mister, as torna vitais e fá-las viver de sua própria vida. Em outros
termos, é preciso a fórmula primitiva seja aceita e confirmada pelo coração, e
que a subseqüente elaboração das fórmulas secundárias seja feita sob a
direção do coração. Procede daí que tais fórmulas para serem vitais, hão de ser e
ficar adaptadas tanto à fé quanto ao crente. Pelo que, se por qualquer motivo cessar
essa adaptação, perdem sua primitiva significação e devem ser mudadas. Ora,
sendo assim mutável o valor e a sorte das fórmulas dogmáticas, não é de admirar que
os modernistas tanto as escarneçam e desprezem, e que por conseguinte só reconheçam e
exaltem o sentimento e a vida religiosa. Por isto, com o maior atrevimento criticam a
Igreja acusando-a de caminhar fora da estrada, e de não saber distinguir entre o sentido
material das fórmulas e sua significação religiosa e moral, e ainda mais, agarrando-se
obstinadamente, mas em vão, a fórmulas falhas de sentido, de deixar a própria religião
rolar no abismo. Cegos, na verdade, a conduzirem outros cegos, são
esses homens que inchados de orgulhosa ciência, deliram a ponto de perverter o
conceito de verdade e o genuíno conceito religioso, divulgando um novo sistema, com o
qual, arrastados por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde
certamente se acha; e, desprezando as santas e apostólicas tradições, apegam-se a
doutrinas ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens
estultíssimos julgam fortalecer e sustentar a verdade (Gregório XVI, Encíclica
"Singulari Nos" 7 Jul. 1834).
Assim, Veneráveis Irmãos, pensa o modernista como
filósofo.
2. O modernista crente
Agora, passando a considerá-lo como crente, se quisermos
conhecer de que modo, no modernismo, o crente difere do filósofo, convém observar que,
embora o filósofo reconheça por objeto da fé a realidade divina, contudo esta
realidade não se acha noutra parte senão na alma do crente, como objeto de sentimento e
afirmação; porém, se ela em si mesma existe ou não fora daquele sentimento e daquela
afirmação, isto não importa ao filósofo. Se, porém, procurarmos saber que fundamento
tem esta asserção do crente, respondem os modernistas: é a experiência individual.
Com esta afirmação, enquanto na verdade discordam dos racionalistas, caem na
opinião dos protestantes e dos pseudo-místicos.
Eis como eles o declaram: no sentimento religioso
deve reconhecer-se uma espécie de intuição do coração, que pôs o homem em contato
imediato com a própria realidade de Deus e lhe infunde tal persuasão da
existência dele e da sua ação, tanto dentro como fora do homem, que excede a força de
qualquer persuasão, que a ciência possa adquirir. Afirmam, portanto, uma verdadeira
experiência, capaz de vencer qualquer experiência racional; e se esta for negada por
alguém, como pelos racionalistas, dizem que isto sucede porque estes não querem pôr-se
nas condições morais, que são necessárias para consegui-la. Ora, tal experiência é a
que faz própria e verdadeiramente crente a todo aquele que a conseguir. Quanto vai
dessa à doutrina católica! Já vimos essas idéias condenadas pelo Concílio Vaticano I.
Veremos ainda como, com semelhantes teorias, unidos a outros erros já mencionados,
se abre caminho para o ateísmo. Cumpre, entretanto, desde já, notar que, posta esta
doutrina da experiência unida à outra do simbolismo, toda religião, não
executada sequer a dos idólatras, deve ser tida por verdadeira. E na verdade, porque não
fora possível o se acharem tais experiências em qualquer religião? E não poucos
presumem que de fato já se as tenha encontrado. Com que direito, pois, os modernistas
negarão a verdade a uma experiência afirmada, por exemplo, por um maometano? Com que
direito reivindicarão experiências verdadeiras só para os católicos? E os modernistas
de fato não negam, ao contrário, concedem, uns confusa e outros manifestamente, que
todas as religiões são verdadeiras. É claro, porém, que eles não poderiam pensar de
outro modo.
Em verdade, postos os seus princípios, em que se poderiam
porventura fundar para atribuir falsidade a uma religião qualquer? Sem dúvida seria por
algum destes dois princípios: ou por falsidade do sentimento religioso, ou por
falsidade da fórmula proferida pela inteligência. Ora, o sentimento religioso, ainda que
às vezes menos perfeito, é sempre o mesmo; e a fórmula intelectual para ser verdadeira
basta que corresponda ao sentimento religioso e ao crente, seja qual for a força do
engenho deste. Quando muito, no conflito entre as diversas religiões, os modernistas
poderão sustentar que a católica tem mais verdade, porque é mais viva, e merece mais o
título de cristã, porque mais completamente corresponde às origens do cristianismo.
A ninguém pode parecer absurdo que estas conseqüências todas dimanem daquelas
premissas. Absurdíssimo é, porém, que católicos e sacerdotes que, como preferimos
crer, têm horror a tão monstruosas afirmações, se ponham quase em condição de
admiti-las. Pois, tais são os louvores que tributam aos mestres desses erros, tais as
homenagens que publicamente lhes prestam, que facilmente dão a entender que as suas
honras não atingem as pessoas, que talvez de todo não desmereçam, antes, porém, aos
erros, que elas professam às claras, e entre o povo procuram com todos os esforços
propagar.
Há ainda outra face, além da que já vimos, nesta
doutrina da experiência, de todo contrária à verdade católica. Pois, ela
se estende e se aplica à tradição que a Igreja tem sustentado até hoje, e a
destrói. E com efeito, os modernistas concebem a tradição como uma comunicação da experiência
original, feita a outrem pela pregação, mediante a fórmula intelectual.
Por isto a esta fórmula, além do valor representativo,
atribuem certa eficácia de sugestão, tanto naquele que crê, para despertar o sentimento
religioso quiçá entorpecido, e restaurar a experiência de há muito
adquirida, como naqueles que ainda não crêem, para despertar neles, pela primeira vez, o
sentimento religioso e produzir a experiência. Por esta maneira a
experiência religiosa abundantemente se propaga entre os povos: não só entre os
existentes, pela pregação, mas também entre os vindouros, quer pelo livro, quer pela
transmissão oral de uns a outros. Esta comunicação da experiência às vezes
lança raízes e vinga; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os
modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma
e a mesma coisa. E daqui, mais uma vez, se infere que todas as religiões existentes são
verdadeiras, do contrário já não existiriam.
Levadas as coisas até este ponto, Veneráveis Irmãos, já
temos muito para bem conhecermos a ordem que os modernistas estabelecem entre a fé e a
ciência; notando-se que neste nome de ciência incluem também a história. Antes
de tudo se deve ter por certo que o objeto de uma é de todo estranho e separado do objeto
de outra. Porquanto a fé unicamente se ocupa de uma coisa, que a ciência declara ser
para si incognoscível. Segue-se, pois, que é diversa a tarefa de cada uma; a
ciência acha-se toda na realidade dos fenômenos, onde a fé por maneira alguma penetra;
a fé, pelo contrário, ocupa-se da realidade divina, que de todo é desconhecido à
ciência. Conclui-se, portanto, que nunca poderá haver conflito entre a fé e a ciência;
porque, se cada uma se restringir a seu campo, nunca poderão encontrar-se, nem portanto
contradizer-se. Se, entretanto, alguém objetar que no mundo visível há coisas
que também pertencem à fé, como a vida humana de Cristo, responderão os modernistas
negando. E a razão é que, conquanto tais coisas estejam no número dos fenômenos,
todavia, enquanto viveram pela fé e, no modo já indicado, foram pela mesma
transfiguradas e desfiguradas, foram subtraídas ao mundo sensível e passaram a ser
matéria do divino. Por este motivo, se ainda se quisesse saber se Cristo fez verdadeiros
milagres e profecias, se verdadeiramente ressuscitou e subiu ao céu, a ciência
agnóstica o negará e a fé o afirmará; e nem assim haverá luta entre as duas. Nega-o o
filósofo como filósofo, falando a filósofos e considerando Cristo na sua realidade
histórica; afirma-o o crente, como crente, falando a crentes e considerando a vida de
Cristo a reviver pela fé e na fé.
De muito se enganaria quem, postas estas teorias, se
julgasse autorizado a crer que a ciência e a fé são independentes uma da outra. Por
parte da ciência, essa independência está fora de dúvida; mas, já não é assim por
parte da fé, que não por um só, mas por três motivos, se deve submeter à ciência.
Efetivamente é de notar, em primeiro lugar, que em todo fato religioso, tirada a realidade
divina e a experiência que o crente tem da mesma, tudo o mais, e
principalmente as fórmulas religiosas, não sai do campo dos fenômenos; cai
portanto sob o domínio da ciência. Afaste-se embora do mundo o crente, se lhe aprouver;
mas, enquanto se achar no mundo, nunca poderá se furtar, queira-o ou não, às leis, às
vistas, ao juízo da ciência e da história. Ainda mais, embora se tenha dito que
Deus só é objeto da fé, isto entretanto não se deve entender senão da realidade
divina e não da idéia de Deus. Esta é dependente da ciência; a qual, enquanto
se deleita na ordem lógica, também se eleva até o absoluto e o ideal. É, pois, direito
da filosofia ou da ciência indagar da idéia de Deus, dirigi-la na sua evolução,
corrigi-la quando se lhe misturar qualquer elemento estranho. Fundados nisto é que os
modernistas sustentam que a evolução religiosa deve ser coordenada com a evolução
moral e intelectual; isto é, como ensina um dos seus mestres, deve ser-lhes subordinada.
Deve-se enfim observar que o homem, em si, não suporta um dualismo, por
conseguinte o crente experimenta em si mesmo uma íntima necessidade de harmonizar de tal
sorte a fé com a ciência, que aquela não se oponha à idéia geral que a ciência forma
do universo. Conclui-se, pois, que a ciência é de todo independente da fé; esta, ao
contrário, embora se declame que é estranha à ciência, deve-lhe submissão.
Todas estas coisas, Veneráveis Irmãos, são diametralmente contrárias ao que o Nosso
antecessor Pio IX ensinava, dizendo (Brev. ad Ep. Wratislaw. 15 jun. 1857): Em matéria
de religião, é dever da filosofia não dominar, mas servir, não prescrever o que se
deve crer, mas aceitá-lo com razoável respeito, não perscrutar os profundos dos
mistérios de Deus, mas piedosa e humildemente venerá-los. Os modernistas entendem isto
às avessas: há, pois, sobeja razão de aplicar-se-lhes o que outro nosso predecessor,
Gregório IX, escrevia de alguns teólogos do seu tempo: Alguns dentre vós,
excessivamente cheios de espírito de vaidade, com profanas novidades se esforçam por
transpor os limites traçados pelos Santos Padres, curvando à doutrina filosófica dos
racionalistas a interpretação das páginas celestes, não proveito dos ouvintes, mas
para dar mostras do saber. E estes, arrastados por doutrinas diversas, transformam em
cauda a cabeça e obrigam a rainha a servir à escrava (Ep. ad Magistros theol.,
Paris, julho de 1223).
Estas coisas tornar-se-ão ainda mais claras, tendo-se em
vista o procedimento dos modernistas, de todo conforme com o que ensinam. Nos seus
escritos e discursos parecem, não raro, sustentar ora uma ora outra doutrina, de modo a
facilmente parecerem vagos e incertos. Fazem-no, porém, de caso pensado; isto é,
baseados na opinião que sustentam, da mútua separação entre a fé e a ciência. É por
isto que nos seus livros muitas coisas se encontram das aceitas pelo católicos; mas, ao
virar a página, outras se vêem que pareceriam ditadas por um racionalista. Escrevendo,
pois, história, nenhuma menção fazem da divindade de Cristo; ao passo que, pregando nas
igrejas, com firmeza a professam. Da mesma sorte, na história não fazem o menor caso dos
Padres nem dos Concílios; nas instruções catequéticas, porém, citam-nos com respeito.
Distinguem, portanto, outrossim a exegese teológica e pastoral da exegese científica
histórica. Mais ainda: fundados no princípio que a ciência em nada depende da fé,
quando tratam de filosofia, de história, de crítica, não sentindo horror de pisar nas
pegadas de Lutero (cf. Prop. 29 conden. por Leão X, Bulla "Exurge Domine" de 16
de maio de 1520: Temos aberta a estrada para enfrentar a autoridade dos Concílios e para
contradizer à vontade as suas deliberações, e julgar os seus decretos e manifestar às
claras tudo o que nos parece verdade, seja embora aprovado ou condenado por qualquer
Concílio), ostentam certo desprezo das doutrinas católicas, dos Santos Padres, dos
concílios ecumênicos, dos magistérios eclesiásticos; e se forem por isto repreendidos,
queixam-se de que se lhes tolhe a liberdade. Finalmente, professando que a fé há de
sujeitar-se à ciência, continuamente e às claras criticam a Igreja, porque
irredutivelmente se recusa a acomodar os seus dogmas às opiniões da filosofia, e eles,
por sua vez, posta de parte a velha teologia, empenham-se por divulgar uma nova, toda
amoldada aos desvarios dos filósofos.
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