As grandes revoluções são preparadas
longamente por uma lenta aceitação das inclinações desregradas da alma
humana arruinada pelo pecado original. Estas inclinações revelam um desejo
inconfesso de romper com a ordem natural, e estabelecer um novo modo de
vida, o triunfo de uma nova mentalidade libertada de qualquer coação e
qualquer lei.
Inicialmente, esses desejos
inconfessos não se proclamam diretamente contrárias à antiga maneira de
viver, mas criticam e atacam abusos reais ou imaginários. Pouco a pouco, a
força das paixões desregradas, não coibidas, vai afrouxando os laços da
disciplina e da moral. Logo, então, aparecem pensadores que, por meio de
falsas filosofias, procuram justificar as novas maneiras de ser e de viver.
As filosofias falsas que buscam
justificar as inclinações más da alma humana, podem aparecer
concomitantemente e essas mesma tendências, embora logicamente pretendam ser
a sua justificativa.
O movimento pela destruição da ordem
natural cresce, e acaba, afinal, eclodindo numa revolução, cruenta ou não.
Destes processos, posto em pouca
evidência pelos historiadores, como causa da Revolução de 1789, daremos
alguns exemplos.
Veremos, primeiro, como se
manifestaram o sdesejos pecaminosos para viver de modo igualitário e
sensual, e, depois, os novos sistemas ideológicos dos “filósofos”, que
buscavam justificar esses desjos maus.
Sintomas da Nascedoura Mentalidade
Igualitária
O igualitarismo se manifestou de modo
lento e crescente, no século XVIII.
Ele transparecia numa nova moda, numa
canção, nas propostas políticas, em atitudes nos salões, nas modas, nos
penteados, no mobiliário, nos sermões, nas leis, nas festas, nos sapatos e
nas carruagens, nos teatros e no desaparecimentos das librés dos lacaios das
casa nobres.
Seus sintomas eram tão variados que
dificultavam perceber a unidade de fenômeno. Uns pediam a igualdade nas
leis, outros só a queriam no trato, outros, nas religiões, outros, nas
riquezas. O resultado final era a implantação de uma igualdade completa.
Para impedir a Revolução, teria sido
necessário combater a idéia de igualdade em si mesma, e fazer oposição a
todos os sintomas que manifestassem a mentalidade igualitária.
Isto não se fez, e o igualitarismo se
alastrou como uma epidemia.
Eram , em geral, os membros das
classes privilegiadas - nobreza e clero - que se revelavam os mais
contaminados pela febre igualitária. Era então de bom tom o nobre e o
clérigo renunciarem a seus privilégios de honra e, com prazer, muitos se
nivelavam ao povo. Luiz XVI e Maria Antonieta não foram isentos dessa culpa,
e, com seu apoio ao igualitarismo, ajudaram a destruir os degraus da
hierarquia social e, ao mesmo tempo, construíram a escada que os levou ao
patíbulo.
Os livros de História, no Brasil, e o
preconceito geral, ensinam que, antes de 1789, o povo vivia aspirando o
estabelecimento da igualdade, que o povo detestava os títulos e os
privilégios da nobreza. Por sua vez, os nobres são apresentados como cheios
de preconceito, e exigindo vaidosamente que se lhes prestasse um verdadeiro
culto de honrarias, e que eram extremamente ciosos de seus títulos e
privilégios.
Ora, quando se consultam os documentos
se tem a surpresa de verificar o contrário: o democratismo e o igualitarismo
quase não existiam no povo mais simples. Luiz Madelin diz que Napoleão foi
obrigado a criar uma nova nobreza, porque, apesar do triunfo da Revolução,
os títulos tinham guardado todo seu prestígio popular, e era preciso
aviltá-los fazendo de lavadeiras, duquesas.
Eram os grandes, nobres e
eclesiásticos, que sonhavam em estabelecer a igualdade. Eram eles que tinham
prazer em se rebaixar e de se nivelar aos inferiores, e que se alegravam com
a destruição dos privilégios de etiqueta, assim como hoje são os ricos
burgueses de hoje-- verdadeiros matarazos -- que defendem o socialismo, e
certos bispos renunciam a seus títulos, aos paramentos ricos, e trocam
cruzes peitorais de ouro por outros de madeira, como o fez Dom Helder
Câmara, e o faz Dom Casaldáliga ...
“Esta cruzada de reformas não tinha
apóstolos mais fervorosos do que os grandes senhores; o horror dos abusos, o
desprezo das distinções hereditárias formavam o tema favorito dos mais
privilegiados” (Buffenoir, Madame la Comtesse d’Houdelot, p.76). “
Ele foram os primeiros a denegrir a Corte: ridicularizavam a etiqueta,
escarneciam do Rei e difamavam desavergonhadamente a Rainha” (G. Lenôtre,
La Vie á Paris pendant la Révolution, pg. 20-21).
A falta de respeito dos nobres
levava-os a chamar Luiz XVI de o “ grande porco”, e nem a honra da Rainha
Maria Antonieta os cortesãos poupavam.
Aliás, Luiz XVI e Maria Antonieta eram
culpados por essa falta de respeito. Maria Antonieta detestava a etiqueta,
primeira muralha do respeito. Ela a violou constantemente. Ela corria pelos
jardins, cantava e ria alto. Ela mesma, numa caçada, filantrópica ou
demagogicamente, cuidou de um criado ferido, e cedeu a sua carruagem a
lavradores para levar o pai deles, ferido, quando lhe era bem fácil arranjar
outro veículo. Essa atitude que fazia a propaganda de sua bondade, não
alcançou, para a Rainha, nem a recompensa dos céus, nem o prestígio na
terra: hoje ninguém se lembra ou conhece os gestos de filantropia da Rainha,
mas se acredita que ela pouco se importava com a fome do povo.
Maria Antonieta se ria de Mme. De
Noailles, que lhe ensinava a etiqueta francesa, e a apelidara de “Mme. L’Etiquette’.
( Weiss, vol. XV, pg. 254), e violava afrontosamente as regras da etiqueta,
e até as da prudência que toda mulher casada deve guardar, o que comprometeu
a sua honra e motivou calúnias.
O pobre Luiz XVI, “não tinha nem o
brilho que impõe, nem a graça que seduz, nem a firmeza que mantém o
respeito... Mas, por uma estranha fatalidade, o aparato da corte, a
etiqueta, que parece tão pueril aos espíritos superficiais e que é,
entretanto, o único meio de impedir a confusão das classes, nunca foram mais
necessários do que sob o reinado do príncipe que os aboliu” . (Le Duc de
Levis , apúd Valmigêre, Enquête sur la Révolution, Nouvelles Éditions
Latines, Paris 1956, pp. 71-72).
Era a juventude nobre que mais
entusiasmo tinha pelas maneiras igualitárias e mais desprezo manifestava
pelo “espírito aristocrático”:
“A jovem nobreza, a primeira a ser
invadida pelo contágio do espírito filosófico, mostrava-se disposta a
renunciar facilmente ao preconceito de nascimento e a seus outros
privilégios. Da Inglaterra , ela trazia um gosto entusiasmado pelas formas
do governo representativo e pelas liberdades da tribuna.
“O horror dos abusos, o desprezo das
distinções hereditárias, todos estes sentimentos de que as classes
inferiores se apropriaram por seu interesse, deveram o seu primeiro brilho
ao entusiasmo dos grandes, e os mais ativos discípulos de Rousseau e de
Voltaire eram, mais ainda, os cortesãos do que os letrados” (Daniel Marnet,
Les Origines Intellectuelles de la Révolution Française, Vrin, Paris,
pg. 274).
Esse igualitarismo foi o fruto das
inclinações más, favorecidas e mesmo cultivadas por uma educação errada.
Para combater o orgulho dos grandes, tanto se lhes falou de humildade, de
condescendência, de brandura, que eles caíram no defeito oposto.
Madame de Chastenay conta que as novas
idéias igualitárias tinham penetrado até mesmo nos conventos onde eram
educados as filhas da nobreza.
“Nós todos fomos educados na idéia da
igualdade dos homens, no desprezo das distinções vãs, e da obrigação de se
tornar dignos dela... Essas idéias, inculcadas entre nós mais vezes talvez
do que em qualquer outro meio, não eram entretanto estranhos a nenhuma
educação dessa época; quase todos os preceptores das crianças estavam
imbuídas delas; as freiras nos conventos nutriam com elas as jovens; e a
cidade de Coblentx [cidade para onde fugiram os nobres que emigravam por
causa da Revolução Francesa] ficou atulhada de pessoas que não queriam mais
que seus tabeliães lhes dessem o tratamento de muito altos e muito poderosos
senhores” (Daniel Marnet, op cit. pg. 274)
Embora não houvesse dez republicanos
de verdade, em Paris em 1789, como disse Camilo Desmoulins, que era
certamente um desses dez, era “chic”, em Versalhes, dizer-se republicano, à
moda americana. Foi por isso que muitos jovens nobres seguiram Laffayete à
América, para ajudar a causa dos rebeldes democráticos yankees (L. Madelin -
Les Hommes de la Révolution, pg. 8).
“O entusiasmo pela jovem América se
manifestou inicialmente em panfletos, canções, libelos contra a monarquia
caduca; mas não parou lá; toda a jovem nobreza, de repente enamorada pela
democracia, embarcou e atravessou o Oceano para contemplar de perto a aurora
dos novos tempos” (G.Lenotre, En France, jadis-pg.190).
A mania democrática chegou a tal ponto
que se deixou de jogar o whist, jogo inglês, e se passou a jogar o
“Boston”, jogo cujo nome dava ao jogador um “que” de insurreto. (Hugues de
Montbas, La Police Parisienne seus Louis XVI, pg.169).
Outro testemunho do espírito
igualitário que dominava a nobreza é dado pelo conde de Montlosier:
“Deste modo eu me tornei o que se
chamava então filósofo. Eu considerava a independência como o primeiro
direito da natureza, a igualdade como o direito natural das sociedades. Toda
obediência me pareceu uma servidão, toda ação contra a liberdade, uma
tirania. O feudalismo se tornou, a meus olhos, um banditismo, a cavalaria
uma extravagância, o nascimento um preconceito(...) a natureza pareceu-me a
única divindade de mundo” (Daniel Marnet, op.cit. 405).
Esse igualitarismo dos nobres não
impedia que, paradoxalmente, eles manifestassem um desejo enorme de aparecer
e de brilhar, quer pelo luxo, quer pela simplicidade. O importante era
destacar-se, de onde se vê bem, que o igualitarismo era fruto do orgulho. “
Gostava-se de fazer arder sua luz em público até a última chispa” (Juan
Bautista Weiss , História Universal, Tip. La Educación, Barcelona,
1931, vol. XV, pg.22).
Era preciso brilhar, chamar a atenção,
ser aplaudido, ainda que para se destacar, fosse preciso defender a
igualdade e combater toda distinção, prejudicando os seus próprios
interesses.
“Á altivez que outrora inspirava quase
geralmente o nascimento, tinha sido sucedida, nos grandes nobres, pela
ambição de agradar através do mérito pessoal, e, sobretudo pela pretensão de
ter "espírito" [graça]: eles buscavam mais o aplauso do que o respeito”
(Duque de Levis Mirepoix, Enquêtes - pg. 66).
Era natural que o mau exemplo desses
nobres fosse imitado, em primeiro lugar, pelos grandes burgueses e pelos
ambiciosos das classes inferiores. Só que estes pretendiam a igualdade com
os nobres, , passavam a querer destruir a nobreza. Tanto quanto subir,
queriam abater os superiores..
Essa tendência igualitária da
burguesia no séc. XVIII se comprova pelo crescente número de pessoas
enobrecidas pela compra de cargos e títulos, às vezes a muito baixo preço.
Com 2.000 escudos ficava-se nobre (Lavisse et Rambaud, Histoire Génerale
dela Civilization, vol. VIII, pg. 10).
Os próprios Reis de França foram
também culpados por isso, pois que, para aumentar o seu poder, combateram os
privilégios da nobreza, afastaram-na de todos os cargos efetivos no Estado,
entregando-os aos burgueses. Luiz XIV começou esta política de aliança da
Coroa com a Burguesia contra a Nobreza.
Luiz XV e Luiz XVI fizeram o mesmo,
mas, arruinando a Nobreza, eles destruíram a própria Monarquia. Luiz XIV não
quis ser como S. Luiz, um rei de príncipes e se tornou um rei de lacaios.
Luiz XV, por sua vida corrupta, acabou sendo desprezado por esses mesmos
lacaios. E Luiz XVI, por fim, foi guilhotinado.
E depois vieram os ambiciosos
frustrados, os que sonhavam com os títulos e não os alcançaram, e, por isso
passaram a odiá-lo.
Assim, Marat -- o infame , o fanático
e criminoso revolucionário Marat, ao pretender entrar para o serviço do
Conde de Artois, irmão do Rei, redigiu o seguinte requerimento:
“Espero que não recusareis meus
brasões, vendo como está assegurada a nobreza de minha família nas Espanha,
como na França. A posição que ocupo agora, e que só pode crescer pela
confiança que me concede Monsenhor, coloca esse assunto no interesse da
sociedade. É honroso para o Estado que a origem de um servidor dos Príncipes
seja estabelecida por documentos certos como não deixei de fornecer” .(J.
Castelneau, Marat-l’Ami du Peuple, Hachette, Paris, 1935 -
pg.35 -).
A republicaníssima Madame Roland,
antes da Revolução, andou pelas repartições da Monarquia, rogando a
concessão de cartas de nobreza a seu marido, “Roland de la Platière. (Miss
Wilcocks- Mme. Roland-pp.99-100).
E quantos não assinavam o nome com o
famoso "de" nobiliárquico, mais tarde proibido pela Revolução
!
O democrático girondino Brissot
assinava-se Brissot de Warville por ter nascido na fazenda de
Warville, onde seu pai tinha o humilde mister de cozinheiro (Daniel Marnet
-op. cit. pg. 406) ( J.B. Weiss, História Universal, vol. XVI, pg. 2
)
Danton chegou a assinar seu nome como
D’ Anton, para fazer acreditar que ele era nobre, e
Robespierre, antes de 1789 era Maximilien de Robespierre. Os
tempos mudam...Marnet
Não exprime bem profundo orgulho
ferido, o ódio que Brissot contava ter pelo rei e pela desigualdade ao
escrever:
“Eu detestei os reis muito cedo; desde
minha mais tenra juventude eu me deleitava com a história de Cromwell; eu
pensava que tinha a mesma idade que o rei (isto é, o Delfim), e nos meus
sonhos de criança eu não via porque ele estava no trono, enquanto eu tinha
nascido filho de um cozinheiro. Eu previa com alguma complacência que eu
poderia vê-lo cair do trono, e que eu poderia contribuir para isso” (Daniel
Marnet, op. cit. - pg. 408).
O orgulho e a inveja, eis os pais da
igualdade revolucionária.
Brissot exprimia o seu orgulho com
ódio, outros o manifestavam com espírito de bufão.
O padre Beuisset em conversa com a
duquesa d’Harcourt disse que entre o Duque o e ele só havia umas letras de
diferença: o Duque era filho de um Marechal de França, e ele era filho de um
ferreiro (maréchal-ferrant) na França. (Daniel Marnet, op. cit. - pg. 279).
Esta mentalidade igualitária tinha que
transparecer nos costumes, nas modas, nas atitudes. Pouco antes da
Revolução, Mercier notava que as mulheres tinha passado a usar o traje
masculino. (Charles Kunstler: La Vie Quotidienne sous Louis XVI, pg.
243).
Não só os trajes refletiam o desejo de
igualdade entre o homem e a mulher, como também mudavam o desejo da
igualdade entre as classes sociais . No antigo Regime, as classes sociais
eram bem diferenciadas: cada uma tinha modas bem caracterizadas. Os nobres
usavam “culottes” de cavalgar, enquanto os homens do povo usavam calças
compridas (pantalons) como os que se usam hoje.. Às vésperas da Revolução,
alguns nobres, a pretexto de simplicidade, e democratismo, deixaram de usar
culottes. Esta tendência cresceu tanto, que o uso de culottes passou a ser o
símbolo de idéias aristocráticas e contra-revolucionárias, enquanto que os "pantalons"
se transformaram em símbolo de mentalidade revolucionária e igualitária. Daí
a denominação de “sans culottes “ dada aos revolucionários.
Jean Robiquet, no seu livro “La Vie
Quetidienne au Temps de la Révolution” afirma que:
“Foram os pantalons e os coletes
curtos que fizeram a Revolução- escreveu Norvins no século XIX... Passaria,
alguma vez pela cabeça à geração de Luis XV que, um dia, alguém ousasse
apresentar-se nos salões de outra forma que não de casaca bordada, calções
curtos e meias brancas? Tal é porém o exemplo horroroso que hoje dá a
juventude. Vêem-se os elegantes ostentar não só o chapéu redondo e a
sobrecasaca à inglesa, mas ainda a calça de casimira, muitas vezes agravada
por botas. “Que impudência - pensam os velhos. “Sans culottes! Ils vont sans
culottes!” [ Sem culottes ! Eles andam sem culottes !](Jean Robiquet, ob.
cit, pg. 53).
Várias causas favoreceram o
igualitarismo nos trajes. Entre elas convém salientar, em primeiro lugar, o
exagero ridículo a que tinham chegado as modas antes da Revolução, e que,
por seu próprio excesso, levaram a moda a cair no erro oposto. Em moda,
sempre que um elemento é exagerado, ele está prestes a ser destruído. Em
moda, o que se exagera, agoniza.
Uma segunda causa pode ser encontrada
na idéia de simplicidade e volta à natureza difundida por Rousseau. Em
terceiro lugar, o exemplo dos Quakers americanos, representados em Paris por
Franklin.
No século XVIII, o traje social
obrigatório para os homens, incluía o culotte até os joelhos, meias de seda,
sapatos com fivelas, cabelos empoados, espadas e tricórnio sob o braço. As
mulheres usavam grandes decotes, penteados altíssimos e complicados, saias
rodadas imensas, e caudas majestosas. Tudo isto dava um tom aristocrático á
moda, forçava a ter maneiras finas.
“Era-se forçado a cuidar da toilette,
não se podia manter, com tais roupas, os ares e modos que se tinha pela
manhã, quando se levanta”.
Georges Lenôtre diz que, pouco antes
da Revolução, a sociedade lançou “a batina [dos Padres] às urtigas”
“Nos meses que procederam a reunião
dos Estados Gerais, houve entre os elegantes dos sexos uma competição para
ver quem afetaria ser mais negligente de tal modo que escandalizasse as
pessoas antigas”(G. Lenôtre, La Vie à Paris- pg.25).
As mulheres deixaram de usar saltos
altos e adotaram o "pierrot", um novo tipo de saia, mais simples, uma forma
de protesto contra as antigas saias rodadas e as grandes caudas. E isto
fazia as pessoas graves dizerem: “En paniers, la coquette la plus légère a
l’air d’une matrone; en pierret, la matrone la plus sévère; en "pierrot", la
matrone la plus sevère a l’air d’une linotte”[Com saias rodadas a mocinha
mais exibidaa tem o ar de uma matrona a mais severa, vestida com a moda "pierrot",
a matrona mais severa tem o aspeto de uma estouvada"] (G. Lenetre- La Vie
à Paris - pg. 25).
Alguém poderia dizer que isto se fazia
sem pensar, sem perceber os princípios revolucionários implícitos nos novos
símbolos de moda. Certamente, nem todos percebiam, de modo claro, o que
havia de revolucionário na nova moda. Mas muitos o sabiam, e é o que
escreverá o revolucionário Theodore Lameth em suas memórias, citadas por
Georges Lenôtre: “Os saltos altos das damas, testemunhos de sua posição
social, iam desaparecer” ( apud G. Lenôtre ob. cit. , pg. 24).
Além disto, é nos pequenos gestos semi
conscientes, que mais autenticamente se manifestava o fundo da mentalidade
de uma pessoa. As damas da alta sociedade eliminaram os saltos altos para se
rebaixar.
Os homens, de sua parte, aderiram
também às modas anti-aristocráticas e igualitárias. Começaram a usar
culottes apertados, chapéus redondos, coletes, e deixaram de usar perucas
empoadas.
As primeiras manifestações da nova
moda produziram escândalo e revolta. Depois, o escândalo diminuí pela sua
multiplicação. As pessoas iam se habituando, e a nova moda triunfava, o que
não seria possível se as tendências profundas da sociedade correspondessem
aos princípios aristocráticos vigentes.
“O primeiro temerário que apareceu com
os cabelos cortados “à la Tito “, e sem serem empoados - era, dizem,
Monsieur. de Valence, genro de Madame de Genlis e despertou cóleras.
“Está tudo perdido, prognosticavam os
peruqueiros: os homens se apresentam nus, nada disfarça mais as suas
formas”. Mas foi com o primeiro "pantalon'-- a calça masculina atual -- que
a revolta explodiu; foi um “tolle” de reprovações. “Sans culottes”!
Ousar se apresentar sans culottes, resmungavam as velhas damas espantadas, e
tal foi a origem do sentido pejorativo deste termo destinado a ter um êxito
tão próximo e tão durável, do qual os demagogos iam logo se honrar como de
um título” (G. Lenotre- La Vie à Paris - pg. .25 )
Franklin, embaixador da nova república
americana, fez furor, ao se apresentar sem cabeleira postiça nos salões de
Paris e Versalhes. Um publicista, citado por Pierre Gaxotte, dizia dele:
“Tudo nele anunciava a simplicidade e
a inocência dos antigos costumes. Tinha se despojado da cabeleira emprestada
(postiça)” (Pierre Gaxotte- A Revolução Francesa, pg.50).
O igualitarismo triunfante não poderia
se coadunar com a espada, símbolo por excelência da nobreza. Os novos tarjes
eram por demais vulgares e desprovidos de símbolos superiores para suportar
estarem juntos com a espada. O espírito revolucionário igualitário,
grosseiro e pacifista, substituiu a espada pelo guarda-chuva.
“Na casa da marquesa de Pastoret, uma
tarde, se viu chegar o Marquês de Condorcet, sem espada, de braço com a
mulher, e, levando, sob o outro braço, um desses enormes guarda-chuvas que
havia naquele tempo, e isto com uma “gaucherie” e uma vulgaridade burguesas
que contrastavam estranhamente com a distinção de seu espírito e de sua
posição social”. (Norvins I , 68 apud G. Lenôtre- La Vie à Paris- pg.
26).
A moda pegou. Nas vésperas da
Revolução, os nobres deixaram de levar espada à cinta, quando saíam à rua e,
usando casacos simples, eles mesmos queriam dirigir os cabriolés para
repudiar a antiga maneira de ser, que anunciava gravidade, dignidade e
espírito de mando. (J. B. Weiss, História Universal, - vol. XV - pg.
246).
E como os nobres deixaram de usar a
espada, ao chegar a Revolução, a maioria não soube usar a espada:
deixaram-se prender e guilhotinar sem reação, como conta Rivarol
Dos adultos, a moda igualitária passou
imediatamente para as crianças, e com novas ousadias. Até então, o traje
infantil revelava a condição social de uma família. As primeiras crianças
que usaram a nova moda revolucionária foram os filhos do Marquês de Girardin,
um fanático das novas idéias, e hospedeiro de Rousseau em sua propriedade de
Ermenonville, onde o "filósofo", advogado da barbarização, e da renúncia à
inteligência, morreu e foi enterrado. (E escrevo isso de Rousseau, porque
ele escreveu; "Renunciando à razão e deixando falar apenas o coração").
Os filhos do Marquês revolucionário
apresentaram-se, um dia, no jardim dos Tulherias, onde costumavam reunir-se
as crianças nobres, de cabeça raspada, como marinheiros ingleses, chapéus
redondos, casacos curtos e “pantalons’ de tecido grosseiro.
Como sempre, a primeira reação foi
violenta e ineficiente. Eles foram vaiados, ridicularizados e, a seguir...
imitados. Depois de três semanas, no jardim das Tulherias, só se viam
meninos de cabelos curtos, jaquetas grosseiras e sapatos ferrados. (G.
Lenôtre - La Vie à Paris - pg. 27).
O sapatão ferrado, o chapéu redondo,
substituíram pois, o sapato fino, e o tricórnio elegante. Essas preferência
pelo mais grosseiro devia se refletir também nas maneiras e no vocabulário.
Com efeito, as maneiras polidas, o vocabulário nobre são sinais de distinção
e de hierarquia, que o espírito igualitário da Revolução não pode tolerar. O
espírito evolucionário gosta dos modos populacheiros, e das palavras
vulgares, antes de se entregar ao calão. Um modo de ser e de comportar-se...
“à vontade” se introduziu com as novas modas. Fazia-se questão de afetar
modos grosseiras, como sinal de que se desprezavam as antigas fórmulas de
etiqueta e, com elas, as antigas tradições e idéias.
“Não mais etiqueta, nem incômodos, e
sim gosto de vida cômoda e egoísta”.
Entre os homens, a camaradagem
imperou, e se deixaram de ter fórmulas respeitosas no trato com as mulheres.
Ia-se com botas ferradas aos bailes, e fazia-se questão de permanecer
sentado, quando uma senhora entrava na sala. Afinal, homens e mulheres não
eram iguais?...(G. Lenotre- La Vie à Paris- pg. 26)
Antes, respeitava-se em tudo a
hierarquia social. Nos jantares, as pessoas se sentavam à mesa, segundo sua
importância social, como em qualquer lugar civilizado se faz. O
igualitarismo triunfante antes de 1789, levou a abandonar este hábito sábio:
as pessoas passaram a sentar-se à vontade, e sem ordem na sala de jantar.
(Charles Kunstler- La Vie Quotidienne sous Louis XVI,- pg. 263).
Para demonstrar espírito democrático,
os grandes nobres e as senhoras da alta sociedade, nos dias de festa e aos
domingos, iam aos bailes populares de Paris (Charles Kunstler- La Vie
Quotidienne sous Louis XVI- pg.. 323).
Nos salões filosóficos, os nobres de
espírito revolucionário estadeavam seu igualitarismo com alegria. Eles
faziam questão de freqüentar os salões dos chamados "filósofos" iluministas.
“D’ Alembert mantinha “três vezes por
semana assembléias sob o nome de conversações; e tudo o que há de mais
ilustre ia lá. Não é raro ver de vinte e cinco a trinta carruagens paradas,
à sua porta”. O almoço do Abbé Raynal reunia, todas as semanas, “tudo o que
há de mais ilustre em Paris entre embaixadores e os senhores viajantes”. Lá,
e em outros lugares, não só se defendia a igualdade, ela era posta em
prática, pelo menos com relação aos plebeus, que “sabiam pensar”. (Daniel
Marnet, op. cit., - pg. 276).
Aproveitava-se tudo para estabelecer a
igualdade social. Assim, os grandes senhores se envaideciam de freqüentar as
Academias junto com os burgueses. Na Academia de Montauban, procura-se
estabelecer a igualdade, suprimindo os lugares honoríficos, e se lia uma ode
sobre a igualdade acadêmica. (Daniel Marnet. op. cit.,- pg. 151)
Na sociedade literária de Agen, os
estatutos previam que não haveria distinções de honra e de classe. (Daniel
Marnet, op. cit.,- pg. 308).
Nas lojas maçônicas, se dava a mesma
coisa: na loja União de Toul-Artilharia, o Venerável, um sargento, era
superior ao Marechal de Campo, Marquês d’Havincourt, que provavelmente se
orgulhava dessa situação aviltante a que a Maçonaria o reduzia. (Louis
Madelin,- La Révolution, Hachette, Paris, 1911 - pg. 24).
Toda revolução tem suas expressões
próprias, seu vocabulário particular, sua gíria, que exprime sua filosofia.
No feudalismo a expressão "servir" era altamente honrosa, pois
expressava bem a missão própria de homem, e a hierarquia social. O criado
servia o amo, este servia ao Rei e todos serviam a Deus. Um homem que não
servisse, não servia para nada. Para a igualitarismo, todo
serviço supõe uma injustiça, pois que implica em desigualdade.
Por isso muito facilmente se trocou a
expressão "servir ao Rei” por “servir ao Estado” que era
impessoal, e que não implicava em desigualdade social. (Daniel Marnet, op.
cit., - pg. 402).
Por isso, o termo súdito começou a ser
substituído pelo de cidadão.
O "filósofo" Mably escreveu a obra “Os
deveres e os direitos dos cidadãos”. publicada em 1789, após sua morte
(Daniel Marnet, op. cit., 239).
Já antes fora publicado um
Catecismo do Cidadão, e o Abbé Saury escrevera uma obra intitulada
“Moral do Cidadão do Mundo, ou a Moral da Razão’ (Daniel Marnet, op. cit.,
260).
Em Bordeaux, havia padres que se
intitulavam “patriotas e cidadãos”, já antes de 1789. Daniel Marnet, op. cit.,-
158) e nos Cahiers de 1789, a nobreza já se declarara "citoyenne". (M-463).
Outra palavra que igualitarismo não
suporta é "caridade", porque ela também supõe desigualdade. Era natural,
pois, que os igualitários dos séc. XVIII substituíssem a palavra caridade
por outra.
“A beneficiência, escreve e “Amigo
Sincero” (jornal de então), se tornou uma palavra de moda. Não faz muito
tempo num “Club”, lugar de reunião em Paris, destinado a aliviar a
humanidade, alguém que propunha uma boa obra a estabelecer, deixou escapar,
por um velho hábito, a palavra caridade. Um clubista se ergueu contra
este termo e , sob pretexto de que ele humilhava aqueles a quem se fazia o
bem, sustentou que doravante, só se devia falar em beneficência”. “A
honradez, a retidão, a integridade, escreve de Boismont, todos essas
palavras tão velhas que inquietam e desolam a natureza, felizmente foram
substituídas pelas palavras beneficiência e humanidade” (Daniel Marnet- op.
cit., pg. 262).
O resultado foi péssimo para os
pobres. Hugues de Montbas, em seu livro sobre a polícia parisiense, nota
que, no fim do reinado de Luís XV, diminui sensivelmente a caridade para com
os pobres. É verdade que Saint-Foix aponta as teorias dos economistas como
causa desse resfriamento da caridade, pois, para eles, só o trabalho seria
fonte de riqueza e por conseguinte, diziam, que as esmolas prejudicavam o
bem público. (Hugues de Montbas, op. cit., pg. 190).
Mas a troca da palavra caridade
pelo termo beneficiência não era isenta de responsabilidade pela
decadência das obras de caridade, porque ela supõe o abandono de amor de
Deus.
E sintomático que o grande divulgador
do termo beneficiência,-- tão maçônico--, tenha sido Voltaire. Mas mais
sintomático ainda, para nós do século XX., tempos da justiça social
progressista e do "ämor", é que Voltaire não inventou o termo. O criador da
palavra beneficiência como substituta da palavra caridade foi Abbé de Saint
Pierre, em quem Voltaire se inspirou...
Já dissemos que, comumente, o exagero
de algo leva ao extremo oposto. A oposição ao luxo e à simplicidade, no
século XVIII, comprova esse principio. Passou-se do extremo do luxo à
simplicidade mais espartana, até mesmo à austeridade quaker. A educação de
então unia Plutarco e Fénélon, na defesa da frugalidade e da simplicidade, e
no combate do luxo. De outro lado, os excessos de luxo de alguns vinham
confirmar o acerto dos "filósofos" e moralistas defensores da austeridade da
vida. Madame Roland, aos 8 anos, lia Plutarco, na Igreja (L. Madelin,
“Les hommes de la Révolution”, pg.129) . Ela mesmo escreveu: “ Assim
concebi, em meus estudos de História, um amor apaixonado para com os homens
que se esforçavam por remediar a desigualdade; fazia-me Ágis e Cleómenes em
Esparta, Gracos em Roma,..."
E quantos não atacavam a riqueza,
senão porque “amavam-na tanto que não podiam suportar que outros a
possuíssem’, como dizia Rivarol? (Enquêtes, pg. 25).
Foi esse mesmo amor à simplicidade
que, entre outras causas, levou a admirar o exemplo dos Estados Unidos e os
Quakers, que melhor representavam o espírito igualitário da nova república
yankee. Essa admiração pelos Quakers, e pelos jansenistas, levou bom número
de franceses, e dos mais distintos, a defender as doutrinas dessas seitas,
embora sem filiar-se a elas. As doutrinas Quakers seriam a panacéia para os
males da humanidade: “ proscrever o luxo, vestir-se de burel, viver de
frutas e de laticínios, renunciar ás fórmulas banais de polidez, socorrer os
infelizes, ajudar seus semelhantes, nunca matar, mesmo em defesa própria,
adorar Deus sem intermédio de nenhum sacerdote, nem de cerimônias de
qualquer culto; eis o que parecia admirável aos espíritos teóricos daquele
tempo. Não era nivelar todas desigualdades sociais, destruir para sempre a
guerra?” (G. Lenotre, “En France, jadis” pg. 191).
De tal modo essa tendência á
simplicidade se tornou forte, ajudada pelos excessos do luxo, que a policia
considerava que o luxo, a ostentação eram perigosos, pois facilmente podiam
causar desordens. Por isso, ela procurava reprimir as ostentações de
riqueza. E assim favorecia o igualitarismo. (Hugues de Montbas, op. cit.,
pg. 155).
O igualitarismo devia,
necessariamente, produzir uma crise de autoridade, e o ódio aos seus
símbolos. Aliás, a própria autoridade estava contaminada pela tendências
igualitárias, e procurava se despojar de seus distintivos, renunciar às suas
prerrogativas, e só atuava em último caso. Luís XVI só fez isto em toda a
sua vida. Pensou-se seriamente em não realizar a coroação em Rheims... Luís
XVI não assinou nunca uma sentença de morte, e dizia: “Se for preciso
derramar uma só gota de sangue para me salvar, eu proíbo que a derramem” (Abbé
Barruel, “Enquêtes “ pg. 71).
E várias vezes agiu assim durante a
Revolução, e porque recusou derramar uma gota de sangue correram torrentes
dele. E porque recusou usar o poder, ele se perdeu.
A decadência de autoridade era tanta
que o Marechal de Richelieu dizia; “Sob Luís XVI, não se ousava falar, sob
Luís XV falava-se baixinho, e agora, sob Luís XVI, fala-se bem alto”.
(Daniel Marnet , op. cit., pg. 402)
Nada mais natural. Luís XIV vivera em
Versalhes guardado pela etiqueta. Luís XV reformou o grande castelo pois não
suportava sua grandeza. Construiu lá os pequenos apartamentos, íntimos,
aconchegantes, mas sem a grandeza soberana do Palácio. Mesmo assim, Luís XV
quase não morava lá. “Ele vivia em suas diversas residências, não mais como
Rei da França, e sim mais como um simples e rico particular. Não só ele não
suportava que aí houvesse qualquer cerimonial, e aí bebia sem as pomposas
formalidades do “essai du gobelet”, mas nessas residências só admitia os
familiares e os convivas de sua escolha; ele aí se mostra igual a eles,
suporta até que nas orgias dos “ petits soupers” se zombe dele, “ nas suas
barbas”. Não é somente a etiqueta que morre: é o respeito que se vai” (Lavisse
e Rambaud, op. cit., vol. VIII, pg.339). Maria Antonieta e Luís XVI
completaram o ciclo. Ela, por fantasia, mandou construir o “Hameau “ onde
uma rainha brincava de pastora. Era só um capricho... Versailles, Petits
apartementes, Hameau... e por fim a prisão do Templo, a Conciergerie, e,
finalmente, a guilhotina !
Se a mais alta autoridade recusava
exercer o seu poder, que se diria das menores? ! O igualitarismo afetara a
todas. O Rei se despojava da Coroa, o Bispo dos paramentos, o nobre da
espada, e os comissários de policia de suas becas.
No século XVIII, os comissários de
policia solicitaram dispensa do uso da beca nas ruas, ao que sabiamente lhes
respondeu o Magistrado; “Conservai vossa beca, porque quando algumas varas
de sarja preta não forem mais suficientes para a manutenção da ordem, e das
leis, será preciso recorrer às baionetas” (Hugues de Montbas, “La Police
Parisienne sous Louis XVI,” pg. 82) . Mais tarde, as becas foram
abandonadas, e, com Napoleão, as baionetas ficaram de moda...No aguardo de
Auschwitz e seus fornos criminosos. “Quando a autoridade, escreve Daniel
Marnet, no fim de sua pesquisa sobre as Origens intelectuais da Revolução,
por acaso tem o desejo ou a ocasião de agir, ela se sente espionada
,ridicularizada, mal apoiada ou desarmada... Muitas vezes, e mesmo nos altos
escalões, ela não tem nenhum desejo de agir... Já por 1770, as Leis,
decretos, editos, inspeções e visitas não são mais que espantalhos
irrisórios e formalidades superficiais’.
Não se poderia resumir melhor o
conjunto da situação, do porquê a Policia estava paralisada, e o resultado
dessa paralisia. De todas as causas que concorreram para apressar o fim do
Antigo Regime, poucas houve tão decisivas quanto esta demissão
semi-voluntária, semi-resignada da autoridade e de seus agentes, inferiores
talvez ante uma tarefa provavelmente impossível, mas sobretudo vítimas de
uma transformação dos costumes e dos espíritos da qual os próprios
promotores mais entusiastas deveriam ser, quinze anos mais tarde, as
primeiras vitimas. “. ( Hugues de Montbas, op. cit., - pg. 153).
Vendo quanto esse fenômeno se repete,
hoje, por exemplo na deterioração do policiamento e das punições judiciais,
tem-se a vontade de perguntar se não há nisto um sistema e uma cumplicidade,
além de simples fraqueza. Por que as autoridades só discutem de modo semi
resignado e semi voluntário e se recusam a agir só do lado
contra-revolucionário?
O que paralisava então a autoridade, e
o que as paralisa, hoje, no ocidente, é que as pessoas que deviam e devem
exercer a autoridade, estão elas menos contaminadas pela mentalidade
igualitária, quando não pelas idéias revolucionárias. Daí, as simpatias
pelos revolucionários, e a falta de energia em sua repressão...
A crise igualitária, que foi uma das causas mais
poderosas da Revolução Francesa, tinha raiz no orgulho humano. É esta
verdade que os fatos citados põem em evidencia. Napoleão, codificador e
propagador da Revolução, e que dizia de si mesmo “Eu sou a Revolução
Francesa” , Napoleão perguntou certa vez--:
- “Que é que fez a Revolução?” E ele mesmo respondia
-: “ A vaidade, a liberdade não foi senão o pretexto”.
Orlando Fedeli