
CATECISMO SOBRE O MODERNISMO
Pe. J. B. Lemius, O. M. I.
Baseado na Carta Encíclica
PASCENDI DOMINICI GREGIS
(Sobre o Modernismo)
Promulgada por Sua
Santidade o
Papa S. Pio X
(em 8 de setembro de 1907)
"Nós precisamos agora
quebrar o silêncio, para tornar bem conhecidos à Igreja esses homens tão mal
disfarçados".
S. Pio X
Tradução da edição inglesa da
TAN BOOKS AND PUBLISHERS, INC.
Rockford, Illinois - USA - 1981
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Nihil Obstat
Pe. Remy Lafort - Censor Librorum
IMPRIMATUR
JOHN M. FARLEY - Arcebispo de Nova York
(19 de Março de 1908)
Publicado originalmente pela
Sociedade para a Propagação da Fé, Arquidiocese de Nova York.
Reimpresso pela
TAN Books and Publishers, Inc., Rockford, Illinois, USA - 1981.
Tradução do francês para o inglês pelo
Seminário S. José, Dunwoodie, Nova York.
Catálogo da Livraria do Congresso No.
81-52536
Tradução para o português baseada na
publicação
"DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS" - No. 43
da
EDITORAS VOZES LTDA., PETRÓPOLIS. RJ - 1959
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CARTA DE SUA EMINÊNCIA
CARDEAL MERRY DEL VAL AO AUTOR
Reverendíssimo Padre:
Uma alta recomendação e, ao mesmo tempo, uma expressão
da maior satisfação, é que, com prazer, transmito a V. Revma., em nome do Soberano
Pontífice, após encaminhar a ele o esplêndido compêndio intitulado "Catecismo
Sobre o Modernismo, baseado na Encíclica Pascendi Dominici Gregis".
O caráter do documento pontifício, e a natureza dos erros
nele condenados podem, talvez, dificultar o entendimento completo e imediato de cada
detalhe da importante Encíclica. Falo pelas classes de menor conhecimento, e por aqueles
que desconhecem os movimentos das doutrinas do bem e do mal. Infelizmente eles se tornam
presa fácil de todos os erros, principalmente quando esses erros são apresentados sob um
falso véu de ciência. Por outro lado, eles não estão suficientemente atentos para
perceber, prontamente, a causa do mal.
O Sr. conseguiu apresentar um trabalho notavelmente útil,
transformando o documento em perguntas e respostas, conforme o método simples e claro do
seu Catecismo. Dessa forma o Sr. o aproxima dos menos cultos, facilitando seu
entendimento.
Sua Santidade vê com agrado o trabalho inspirado e
frutífero de V. Revma. e recomenda o Sr. por mais um motivo: para testemunhar que o Sr.
sabiamente não se apartou do espírito da Encíclica. Ele espera ver o produto de seu
oportuno estudo obter ampla divulgação, e concede-lhe, de coração, sua Bênção
Apostólica.
Transmitindo-lhe estes sentimentos, agradeço pela cópia
do livro que o Sr. tão gentilmente me enviou. Com a certeza da mais sincera estima, sou
de V.Revma.
Seu devoto servo,
R. Card. Merry Del Val.
Roma, 14 de dezembro de 1907.
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NOTA DO TRADUTOR
(do francês para o inglês)
A presente tradução do Catecismo Sobre o Modernismo do
Padre Lemius foi preparada com a intenção de contribuir, conforme o desejo do Santo
Padre, para que a Encíclica Pascendi Dominici Gregis fosse conhecida o quanto possível
por todo o rebanho, e atender, nesse sentido, o que parece ser a real necessidade do
laicato católico. As questões tratadas na Encíclica se referem a profundos e árduos
problemas de teologia e de filosofia, circunstância que torna o sentido completo do
documento difícil de ser compreendido, exceto pela mente treinada dos teólogos; por isso
não causa surpresa que a pergunta seja repetidamente apresentada: "O que é este
Modernismo do qual ouvimos falar tanto?" A ignorância deste assunto por parte dos
nossos católicos leigos americanos é, pelo menos, uma prova gratificante, se fosse
necessária, de que o Modernismo ainda não penetrou de fato nas fileiras do nosso povo;
mas é uma sábia precaução, e estritamente de acordo com as intenções do nosso Santo
Padre, manter a fé em guarda contra esta "síntese de todas as heresias",
informando sua real natureza a todos, para que tenham condições de detectar sua sutil
presença nas diversas formas de literatura que têm sido influenciadas pelo seu
espírito.
O método catequético há muito vem sendo reconhecido como
o mais apropriado e eficiente na instrução popular, e espera-se que este pequeno tratado
possa ser um suplemento útil aos sistemáticos ensinamentos verbais que são dados, nas
igrejas e institutos, sobre o Modernismo. As respostas de praticamente todas as perguntas
foram tiradas literalmente do texto da Encíclica, permitindo assim que o estudante tenha
a filial satisfação de saber que está sendo instruído com as próprias palavras do
Santo Padre. Dessa forma a Encíclica será, sem dúvida, lida e estudada por muitos que
poderiam não se sentir à altura do tema, na sua forma original.
O texto utilizado nesta versão foi tomado da publicação
de setembro-dezembro, da The New York Review, reproduzindo prévia publicação do London
Tablet.
SEMINÁRIO DE S. JOSÉ, DUNWOODIE, N.Y.
Festa de S. Gabriel, 1908.
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ÍNDICE
CARTA DE SUA EMINÊNCIA CARDEAL MERRY DEL
VAL AO AUTOR
NOTA DO TRADUTOR
ÍNDICE
PREÂMBULO: Gravidade dos erros modernistas
FINALIDADE E DIVISÃO DA ENCÍCLICA
PARTE I - OS ERROS MODERNISTAS
Prólogo
CAPÍTULO I - A FILOSOFIA RELIGIOSA
DOS MODERNISTAS
PREÂMBULO
Gravidade dos erros modernistas
P. Qual é o primeiro dever imposto por Nosso
Senhor Jesus Cristo ao Soberano Pontífice?
R. Sua Santidade, Pio X, nos responde: "A missão, que nos foi divinamente
confiada, de apascentar o rebanho do Senhor tem principalmente o dever, imposto por
Cristo, de guardar com a maior vigilância o depósito da fé transmitida aos Santos,
repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência
enganosa."
P. Não foi sempre necessária tal vigilância?
R. "Nunca houve um tempo em que esta providência do Supremo Pastor não fosse
necessária à Igreja Católica; pois, graças aos esforços do inimigo do gênero humano,
nunca faltaram "homens falando coisas perversas" (At 20,
30), "vaníloquos e sedutores" (Tito 1, 10), que "caídos
eles em erro arrastaram os mais ao erro" (2 Tim 3, 3)."
P. Esses homens desencaminhados são hoje
mais numerosos? Qual é o seu objetivo?
R. "É preciso confessar que nestes últimos tempos cresceu muito o número
dos inimigos da cruz de Cristo, os quais, com artifícios novos e bastante sutis, se
esforçam por destruir a virtude vivificante da Igreja e, se pudessem, solapar pelos
alicerces o próprio reino de Cristo."
P. Por que o Soberano Pontífice não pode mais
permanecer em silêncio?
R. Diz o Papa: "Não Nos é lícito mais calar, para não parecer
faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que a benignidade com que até agora os
tratamos, na esperança de melhores disposições, não Nos seja atribuída a descuido de
Nossa obrigação."
P. Onde estão os "sequazes do erro" que
precisam ser encontrados? São eles inimigos declarados?
R. "O que exige que falemos sem demora é antes de tudo que os
sequazes do erro já não devem ser procurados entre os inimigos declarados da Igreja;
mas, o que é para deplorar e temer muito, se ocultam no seu próprio seio, tornando-se
assim tanto mais nocivos quanto menos percebidos."
P. Santo Padre, estes inimigos ocultos, que causam
ansiedade ao vosso paternal coração, se encontram entre os católicos? Estão nas
fileiras do clero?
R. Sim! "Muitos no laicato católico e também, o que é mais
lastimável, muitos no próprio clero, fingindo amor à Igreja e sem nenhum conhecimento
sólido de filosofia ou teologia, mas antes embebidos das teorias venenosas dos inimigos
da Igreja, gabam-se presunçosamente de ser reformadores da Igreja."
P. Esses católicos, leigos e sacerdotes, que se
apresentam como reformadores da Igreja, ousam eles atacar a obra de Cristo? Chegam eles ao
ponto de atacar a própria Pessoa de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo?
R. "Cerrando fileiras ousadamente na linha de ataque, eles se atiram
sobre tudo que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a Pessoa do Divino
Redentor, que com audácia sacrílega rebaixam à condição de um mero homem."
P. Surpreendem-se tais pessoas quando Sua Santidade
os inclui entre os inimigos da Santa Igreja?
R. "Apesar de se demonstrarem pasmados, ninguém poderá com
razão se surpreender que Nós incluímos tais homens entre os inimigos da Igreja, se,
deixando de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplicar a examinar as
doutrinas e o modo de falar e de agir deles. Não se afastará, portanto, da verdade quem
os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja."
P. Por que Sua Santidade os chama de os mais
perigosos inimigos da Igreja?
R. Por este motivo: "Como dissemos, eles tramam seus perniciosos
conselhos não fora, mas dentro da Igreja; e, por isso, o perigo está presente nas
próprias veias e no coração da Igreja, e o dano causado é tanto maior quanto mais
intimamente eles a conhecem."
P. Haveria ainda outros motivos para chamá-los de
os mais perigosos inimigos da Igreja?
R. Sim! "Eles dirigem seu machado não sobre as ramagens e os
brotos, mas sobre as próprias raízes, que são a Fé e suas fibras mais vitais."
P. Atingida a raiz, eles cessam suas atividades?
R. "Atingida a raiz da imortalidade, eles continuam a
disseminar o veneno por toda a árvore, de modo que não há verdade católica poupada,
não há verdade que eles deixem de corromper."
P. De que meios astuciosos eles se servem para
arrastar os incautos ao erro?
R. "Ninguém é mais hábil, ninguém é mais astuto que eles
no emprego de seus inumeráveis e maléficos ardis; porque fazem promiscuamente o papel
ora de racionalistas, ora de católicos, com tal dissimulação que arrastam sem
dificuldade ao erro qualquer incauto."
P. As conseqüências dessas doutrinas não deviam
assustar os sacerdotes e leigos católicos e fazê-los recuar?
R. "As conseqüências deviam fazê-los recuar; mas, como a audácia
é uma das características desses inimigos da Igreja, não há conseqüências de que se
amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos."
P. Por que são eles especialmente perigosos e
calculistas para enganar as almas?
R. "Eles são de fato extremamente aptos para enganar as almas, pois
levam vidas de intensa atividade, de aplicação assídua e vigorosa a todos os campos de
estudo e, o mais das vezes, têm fama de vida austera."
P. Santo Padre, Sua Santidade tem esperança de
curar esses desencaminhados?
R. "O que faz desvanecer toda esperança de cura é o seguinte: suas
próprias doutrinas torceram de tal forma suas mentes que eles desprezam toda autoridade e
todo freio; e, baseados numa falsa consciência, tentam atribuir a um amor pela verdade o
que na realidade não passa de soberba e obstinação."
P. Santo Padre, Sua Santidade não tem esperança
de reconduzir essas pessoas desencaminhadas ao bom senso?
R. "Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los ao bom senso;
e, para este fim, a princípio os tratamos com a brandura com que tratamos Nossos filhos,
em seguida com severidade, e finalmente, bem a contragosto, Nos servimos de penas
públicas. Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi em vão; pareceram por
um momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com ainda maior arrogância."
P. Como não há esperança de reconduzir esses
inimigos, por que Sua Santidade levanta sua voz de advertência?
R. "Porque, se se tratasse de assunto somente deles, poderíamos
talvez ainda deixar desapercebido, mas é o nome católico que está em jogo. Por
conseguinte, manter o silêncio por mais tempo seria um crime."
P. É agora o momento de falar?
R. "Nós precisamos agora quebrar o silêncio, para tornar bem
conhecidos à Igreja esses homens tão mal disfarçados."
P. Que nome nós podemos dar a esses novos inimigos
de Jesus Cristo e de Sua Santa Igreja?
R. "Eles são chamados vulgarmente e com razão de Modernistas."
FINALIDADE E DIVISÃO
DA ENCÍCLICA
P. Quais são as finalidades e as divisões da
Encíclica?
R. "Visto que os Modernistas empregam o astuciosíssimo artifício de
apresentar suas doutrinas não coordenadas e juntas em um todo sistêmico, mas dispersas e
como que separadas umas das outras, a fim de parecerem duvidosos e incertos,
ao passo que de fato são firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro
exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam
entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os
remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos."
PARTE I
OS ERROS MODERNISTAS
Prólogo
P. Seguindo uma forma ordenada na apresentação dos
erros do Modernismo, quantos tipos de personagens Modernistas nós precisamos considerar?
R. "Para procedermos com ordem em assunto tão complicado,
convém primeiro notar que cada Modernista representa e resume em si muitos personagens,
isto é, o de filósofo, o de crente, o de teólogo, o de historiador, o de crítico, o de
apologista, o de reformador. Todos esses personagens precisam ser distinguidos, um por um,
por aqueles que querem conhecer devidamente o seu sistema e penetrar nos princípios e nas
conseqüências das suas doutrinas."
CAPÍTULO I
A FILOSOFIA RELIGIOSA DOS MODERNISTAS
1. O Agnosticismo
P. Começamos, pois, com o filósofo. Que doutrina
é utilizada pelos Modernistas como fundamento para sua filosofia religiosa?
R. "Os Modernistas fundamentam sua filosofia religiosa
na doutrina denominada Agnosticismo."
P. Qual é o fundamento do Agnosticismo?
R. "De acordo com essa doutrina, a razão humana fica inteiramente
reduzida à consideração dos fenômenos, isto é, só das coisas perceptíveis
aos sentidos e pelo modo como são perceptíveis; ela não tem direito nem aptidão para
transpor estes limites. E daí se segue que não é dado à razão elevar-se a Deus, nem
lhe reconhecer a existência, nem mesmo por intermédio dos seres visíveis."
P. Que concluem os Modernistas dessa doutrina?
R. "Que Deus não pode ser de maneira nenhuma objeto direto da
ciência; e também, com relação à história, não pode ser considerado assunto
histórico."
P. De acordo com tais premissas, que resulta da
teologia natural, dos motivos de credibilidade e da revelação externa?
R. "Postas estas premissas, todos percebem com clareza qual não deve
ser a sorte da teologia natural, dos motivos de credibilidade,
da revelação externa. Tudo isto os Modernistas rejeitam e relegam ao Intelectualismo,
que chamam de sistema ridículo, morto já há muito tempo."
P. As condenações da Igreja restringem
a ação dos Modernistas?
R. "Nem o fato de a Igreja ter formalmente condenado erros
tão monstruosos os abala."
P. Que definição do Concílio do Vaticano (I)
pode ser citada contra os Modernistas?
R. "O Concílio Vaticano (I) assim definiu:
"Se alguém disser que Deus, um e verdadeiro,
Criador e Senhor nosso, por meio das coisas criadas não pode ser conhecido com certeza
pela luz natural da razão humana, seja anátema" (De Revel., can. I);
e também:
"Se alguém disser que não é possível ou não
convém que, por divina revelação, seja o homem instruído acerca de Deus e do culto que
lhe é devido, seja anátema" (Ibid., can.II);
e finalmente:
"Se alguém disser que a divina revelação não
pode tornar-se crível por manifestações externas, e que por isto os homens não devem
ser movidos à fé senão exclusivamente pela experiência interna ou inspiração
privada, seja anátema" (De Fide., can. III).
P. De que modo os Modernistas passam do
Agnosticismo, que é puro estado de ignorância, para o Ateísmo científico e histórico,
que, ao contrário, é estado de positiva negação? E, por isso, com que lógica eles
passam do não saber se Deus interveio ou não na história do gênero humano a tudo
explicar na mesma história pondo Deus à parte, como se na realidade não tivesse
intervindo?
R. A questão pode ser entendida do seguinte: "Há para eles um
princípio fixo e determinado: a ciência e a história devem ambas ser atéias, e em suas
raias não deve haver lugar senão para os fenômenos, repelindo de uma vez
Deus e tudo o que é divino."
P. Dessa absurda doutrina, o que precisamos deduzir
a respeito da augusta Pessoa de Cristo, dos mistérios de Sua vida e morte, de Sua
ressurreição e ascensão ao céu?
R. "Logo veremos tudo isso."
2. Imanência Vital
P. De tudo o que foi dito, está claro que "o
agnosticismo é apenas a parte negativa da doutrina dos Modernistas". Há uma parte
positiva?
R. "A parte positiva consiste naquilo que eles denominam imanência
vital."
P. Como os Modernistas passam do agnosticismo para
a imanência vital?
R. "Eis como eles passam de uma parte a outra: A Religião, quer a natural
quer a sobrenatural, precisa de uma explicação, como qualquer outro fato. Ora, quando a
teologia natural é destruída, quando o caminho para a revelação é interceptado pela
rejeição dos motivos de credibilidade e quando toda revelação exterior é
absolutamente negada, é claro que não se pode procurar fora do homem essa explicação.
Deve-se, pois, procurá-la no próprio homem; e, visto que a religião não é de fato
senão uma forma da vida, a sua explicação certamente deve se encontrar na vida do
homem. Daqui procede o princípio da imanência religiosa."
P. Parece que os Modernistas, partidários do
agnosticismo, encontram somente no homem e em sua vida a explicação da religião. Para
explicar essa imanência vital, o que eles apresentam como primeiro estímulo e primeira
manifestação de todo fenômeno vital, especialmente o da religião?
R. "O primeiro movimento, por assim dizer, de todo fenômeno vital
e a religião, como tem sido dito, pertence a esta categoria deve ser sempre
atribuído a uma necessidade ou impulso; suas origens, porém, falando mais
especificamente da vida, devem ser atribuídas a um movimento do coração, chamado de sentimento."
P. Segundo estes princípios, qual é o fundamento
da fé e, conseqüentemente, da religião?
R. "Como Deus é o objeto da religião, devemos concluir que a fé,
princípio e base de toda a religião, funda-se num sentimento que nasce de uma
necessidade da divindade."
P. Essa "necessidade da divindade",
de acordo com os Modernistas, pertence ao âmbito do consciente?
R. "Tal necessidade da divindade, não se fazendo sentir no homem
senão em certas e especiais circunstâncias, não pode de per si pertencer ao âmbito do
consciente."
P. Onde se oculta essa "necessidade da
divindade"?
R. "Oculta-se primeiro abaixo da consciência, ou, usando uma
expressão tirada da filosofia moderna, na subconsciência, onde sua raiz
fica também oculta e incompreensível."
3. Origem da Religião em
Geral
P. Se alguém perguntar como essa necessidade da
divindade, que o homem sente em si mesmo, rebenta em religião, o que os Modernistas
dirão?
R. A resposta dos Modernistas será: "A ciência e a história
acham-se presas entre dois limites: um externo, que é o mundo visível; outro interno,
que é a consciência. Chegando a um ou outro destes limites, não se pode ir mais
adiante, porque além deles acha-se o incognoscível. Diante deste incognoscível,
quer se ache ele fora do homem e fora de todas as coisas visíveis, quer se ache ele
oculto na subconsciência do homem, a necessidade da divindade, sem nenhum
ato prévio da inteligência, como o quer o fideísmo, gera no ânimo já
propenso à religião um certo sentimento especial que, quer como objeto
quer como causa interna, tem envolvida em si a realidade divina, e assim de
certo modo une o homem com Deus. É precisamente a este sentimento que os
Modernistas dão o nome de fé, e consideram-no como o princípio da religião."
4. Noção da Revelação
P. A filosofia Modernista se restringe somente ao
sistema acima mencionado?
R. "Não termina aí o filosofar, ou melhor, o desatinar desses
homens."
P. O que os Modernistas ainda encontram nesse seu
"sentimento da divindade"?
R. "Os Modernistas não encontram nesse sentimento somente
a fé; mas, com a fé e na mesma fé, do modo como a entendem, sustentam que também se
acha a revelação."
P. A revelação? Mas como?
R. "E o que mais, dizem eles, se pode exigir para a revelação?
Aquele sentimento religioso, que se manifesta na consciência, já não
será talvez revelação ou, pelo menos, princípio de revelação? Ou ainda, não será
revelação o próprio Deus, ao manifestar-se à alma, embora um tanto indistintamente,
neste mesmo sentimento religioso? E eles ainda acrescentam: sendo Deus ao mesmo tempo
objeto e causa da fé, essa revelação é de Deus como objeto e também provém de Deus
como causa: isto é, tem a Deus ao mesmo tempo como revelante e revelado."
P. Que doutrina absurda deriva dessa filosofia, ou
melhor, desse delírio Modernista?
R. "Segue a absurda afirmação dos Modernistas, segundo a qual todas
as religiões, sob aspecto diverso, são igualmente naturais e sobrenaturais."
P. O que se segue disso?
R. "Segue-se que eles transformam consciência e
revelação em sinônimos."
P. Que lei suprema e universal os Modernistas
derivam dessa doutrina?
R. "A lei segundo a qual a consciência religiosa é
apresentada como regra universal, em pé de igualdade com a revelação, à qual todos
devem se sujeitar."
P. Todos, incluindo até a suprema autoridade da
Igreja, devem se sujeitar a esta lei?
R. Sim. "Todos devem se sujeitar, até mesmo a suprema autoridade da
Igreja, seja quando ensina, seja quando legisla em matéria de culto ou disciplina."
5. Transfiguração e
Desfiguração dos Fenômenos pela Fé
P. O que mais é necessário para dar
uma idéia completa da origem da fé e da revelação, da forma como os Modernistas
entendem este assunto?
R. "Em todo este processo, do qual, segundo os Modernistas, resultam
a fé e a revelação, deve-se atentar principalmente a um ponto, de capital
importância, pelas conseqüências histórico-críticas que daí fazem derivar."
P. Trata-se do modo pelo qual aquele "incognoscível"
da filosofia dos Modernistas, conforme acima exposto, se apresenta à fé?
R. Sim. "Aquele "incognoscível", de que
falam, não se apresenta à fé como algo solitário e isolado; mas sim intimamente unido
a algum fenômeno que, embora pertença ao campo da ciência ou da história, assim mesmo
transpõe, de certo modo, os seus limites."
P. Qual é este fenômeno?
R. "Este fenômeno pode ser um fato qualquer da natureza que contenha
em si algo de misterioso; ou também pode ser um homem, cuja personalidade, atos e
palavras pareçam nada ter em comum com as leis ordinárias da história."
P. Da união do "incognoscível"
com o fenômeno, o que resulta à fé?
R. "A fé, atraída pelo "incognoscível" unido
ao fenômeno, apodera-se de todo o fenômeno e de certo modo o penetra com sua própria
vida."
P. Que resulta disso?
R. "Resultam duas coisas."
P. Qual é a primeira?
R. "A primeira é uma certa transfiguração do
fenômeno, por uma espécie de elevação sobre suas próprias condições, que o torna
mais apto, qual matéria, a receber o ser divino."
P. Qual é a segunda?
R. "A segunda é uma certa desfiguração, que resulta
do fato de que a fé, que tornou o fenômeno independente das circunstâncias de tempo e
espaço, atribui ao mesmo fenômeno qualidades que este não tem."
P. De acordo com os Modernistas, sobre que
fenômenos este duplo trabalho de transfiguração e de desfiguração age principalmente?
R. "Isto se dá principalmente com fenômenos de antigas datas, tanto
mais quanto mais remotas são elas."
P. Que regras os Modernistas deduzem desta dupla
operação?
R. "Destes dois princípios, os Modernistas deduzem duas regras que,
unidas a uma terceira já deduzida do Agnosticismo, constituem a base da crítica
histórica."
P. Dê-nos um exemplo dessas três regras.
R. "Tomaremos como exemplo a própria Pessoa de Cristo. Na Pessoa de
Cristo, dizem, a ciência e a história não acham mais que um homem. Portanto, em virtude
da primeira regra deduzida do Agnosticismo, da história dessa Pessoa se deve riscar o que
se sabe de divino. Mais: por força da segunda regra, a Pessoa histórica de Jesus Cristo
foi transfigurada pela fé; é preciso, pois, despojá-la de tudo o que a
eleva acima das condições históricas. Finalmente, em virtude da terceira regra, a
Pessoa de Cristo foi desfigurada pela fé; logo, se deve remover dela as
falas, as ações, tudo enfim que não corresponde ao seu caráter, condição e
educação, lugar e tempo em que viveu."
P. Não é estranho tal modo de raciocinar?
R. "É, de fato, um estranho modo de raciocinar; porém esta é
a Crítica dos Modernistas."
6. Origem das Religiões em
Particular
P. Então o "sentimento
religioso", usando uma expressão Modernista, é o verdadeiro germe e a
explicação completa de tudo o que há na religião?
R. "O sentimento religioso, que por imanência
vital surge dos esconderijos da subconsciência, é, pois, o germe
de toda religião, e a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer
religião."
P. Como este "sentimento religioso"
amadurece?
R. "Este sentimento, a princípio rudimentar e quase
informe, gradualmente se aperfeiçoa sob o influxo do misterioso princípio que lhe deu
origem, a par com os progressos da vida humana, da qual, como já ficou dito, é uma
forma."
P. De acordo com os Modernistas, todas as
religiões se originam desta forma?
R. Sim. "Esta é a origem de todas as religiões."
P. Podemos dizer o mesmo até da religião
sobrenatural?
R. Sim. "Até mesmo da religião sobrenatural: não passa de um
desenvolvimento deste sentimento religioso."
P. Mas os Modernistas não fazem uma exceção à
religião católica?
R. Não. "A religião católica não é uma exceção; ela está para
eles no mesmo nível das outras."
P. Por qual processo e na "consciência"
de quem, dizem eles, a religião católica foi concebida?
R. "Ela foi concebida pelo processo de "imanência
vital", na "consciência" de Cristo, homem de
natureza extremamente privilegiada, como outro não houve nem haverá."
P. Isto não é uma blasfêmia?
R. Sim. "Fica-se pasmo ao ouvir afirmações tão audaciosas e
sacrílegas."
P. Certamente, Santo Padre, somente os incrédulos
podem defender tais ensinamentos. É possível que sacerdotes sigam este falatório
estúpido?
R. "Ah, responde o Soberano Pontífice, não se trata apenas do
falatório estúpido dos incrédulos. Há muitos católicos, e muitos sacerdotes
também, que afirmam estas coisas publicamente, e ainda se vangloriam de que
reformarão a Igreja com estes delírios!"
P. O Modernismo não parece ser o "velho
erro" de Pelágio?
R. "Não se trata aqui do velho erro, que atribuía à natureza
humana uma espécie de direito à ordem sobrenatural. Vai-se ainda mais longe."
P. Poderia explicar?
R. "Chega-se até ao ponto de afirmar que a nossa santíssima
religião, no homem Cristo assim como em nós, é emanação inteiramente
espontânea da natureza. Certamente não há nada mais destruidor de toda a ordem
sobrenatural."
P. O que o Concílio Vaticano (I) definiu quanto a
esta doutrina?
R. "Com suma razão o Concílio Vaticano (I) definiu: Se
alguém disser que o homem não pode ser por Deus elevado a um conhecimento e perfeição
que supere as forças da natureza, mas por si mesmo pode e deve, com incessante progresso,
chegar finalmente a possuir toda a verdade e todo o bem, seja anátema (De Revel.,
can. III)."
7. Ação da
Inteligência na Fé
P. Os Modernistas encontram fé somente no
sentimento? A inteligência não tem sua parte no ato de fé?
R. "Até o momento não houve menção à ação da inteligência. Contudo,
segundo as doutrinas dos Modernistas, ela também tem sua parte no ato de fé. E
é importante ver como."
P. O "sentimento", segundo os
Modernistas, é suficiente para o conhecimento de Deus, objeto e causa da fé?
R. "Naquele sentimento do qual Nós falamos muitas
vezes, uma vez que sentimento não é conhecimento, Deus de fato Se apresenta ao homem,
mas de modo tão confuso e indistinto que Ele mal pode ser percebido pelo crente."
P. O que mais é necessário ao "sentimento"?
R. "É necessário que um raio de luz seja lançado sobre
aquele sentimento, de maneira que Deus possa ser claramente distinto e separado do
sentimento."
P. Então, esta "iluminação"
é o papel da inteligência no ato de fé Modernista?
R. "Este é o papel da inteligência, à qual somente cabe o
refletir e o analisar, e por meio da qual o homem a princípio traduz em representações
mentais os fenômenos da vida que nele aparecem, e depois os manifesta com expressões
verbais. Segue-se disso esta vulgar expressão dos Modernistas: o homem religioso deve pensar
sua fé."
P. Que paralelo os Modernistas utilizam para
explicar a ação da "inteligência" sobre o "sentimento",
no ato de fé?
R. "A inteligência, ao encontrar o sentimento, inclina-se sobre ele,
e nele produz um trabalho parecido com o de um pintor que restaura e dá nova vida aos
traços de um quadro estragado pelo tempo. O paralelo é de um dos mestres do
Modernismo."
P. Qual é o "trabalho" da
inteligência na produção do ato de fé?
R. "O trabalho da inteligência é duplo."
P. Qual é o primeiro?
R. "Primeiro, a inteligência, por um ato natural e espontâneo,
expressa seus conceitos com uma proposição simples e comum."
P. E o segundo?
R. "Depois, com reflexão e consideração mais profunda, ou, como
dizem eles, elaborando o seu pensamento, exprime o que pensou com
proposições secundárias, certamente derivadas da primeira, porém, mais
polidas e distintas."
P. Como podem essas proposições secundárias,
fruto do trabalho da inteligência realizado no seu próprio pensamento, tornar-se "dogmas"?
R. "Estas proposições secundárias, se forem finalmente
sancionadas pelo supremo magistério da Igreja, constituirão o dogma."
8. O Dogma
P. Não é o dogma o ponto principal da doutrina
dos Modernistas?
R. "Na doutrina dos Modernistas, chegamos a um dos pontos principais,
que é a origem e a natureza do dogma."
P. Qual é a "origem do dogma"
para os Modernistas?
R. "Eles situam a origem do dogma naquelas fórmulas
primitivas e simples que, sob certo aspecto, são necessárias à fé; pois a revelação,
para ser verdadeiramente tal, requer uma clara manifestação de Deus na consciência. Mas
o dogma mesmo, ao que parece, está contido nas fórmulas secundárias."
P. De acordo com os Modernistas, como poderemos
conhecer a natureza do dogma?
R. "Para conhecer bem a natureza do dogma, é preciso primeiro
descobrir que relação existe entre as fórmulas religiosas e o sentimento
religioso."
P. Como descobriremos essa relação?
R. "Isto será facilmente compreendido por quem souber que estas
fórmulas não têm outro fim senão o de propiciar ao crente um modo de explicar sua
própria fé a si mesmo."
P. Essas fórmulas "estão situadas entre
o crente e sua fé"?
R. "Essas fórmulas, portanto, são intermediárias entre o crente e
a sua fé;
- com relação à fé, são expressões inadequadas do seu
objeto, e são normalmente denominadas símbolos pelos Modernistas;
- com relação ao crente, reduzem-se a meros instrumentos."
P. O que podemos dizer da verdade expressa nessas
fórmulas?
R. "Que não é possível afirmar que elas exprimem uma verdade
absoluta."
P. Como símbolos, o que essas fórmulas são para
os Modernistas?
R. "Como símbolos, essas fórmulas são meras imagens
da verdade, e portanto devem adaptar-se ao sentimento religioso, em sua relação com o
homem."
P. Como "instrumentos", que são essas
fórmulas?
R. "Como instrumentos, são veículos da verdade, e
assim por sua vez devem adaptar-se ao homem, em sua relação com o sentimento
religioso."
9. Variabilidade do Dogma
P. Essas fórmulas (símbolos da fé e instrumentos
do crente) são invariáveis?
R. "Como este sentimento religiosotem por objeto o absoluto,
ele apresenta infinitos aspectos, dos quais pode aparecer hoje um, amanhã
outro. De modo semelhante, aquele que crê pode passar por diversas etapas. Segue-se que
também as fórmulas, que chamamos dogmas, devem estar sujeitas às mesmas vicissitudes, e
por isso também podem variar."
P. Há uma evolução intrínseca do dogma?
R. "Temos, assim, o caminho aberto à evolução intrínseca do
dogma. Eis uma imensa coleção de sofismas, que subvertem e destróem toda a
religião."
P. Essa evolução intrínseca do dogma, além de
possível, é também necessária?
R. "O dogma não só pode como deve realmente evoluir e mudar.
Isto é ousadamente afirmado pelos Modernistas, e claramente se deduz dos seus
princípios."
P. De que princípio fundamental os Modernistas
deduzem a necessidade da evolução intrínseca dos dogmas?
R. "Dentre os principais pontos da doutrina deles há também este,
que deduzem do princípio da imanência vital: as fórmulas religiosas,
para que realmente sejam tais e não só meras especulações teológicas da
inteligência, precisam ser vitais e viver da mesma vida do sentimento religioso."
P. Já que essas fórmulas precisam ser animadas
pela própria vida do sentimento religioso, não devem elas ser feitas para o sentimento
religioso?
R. "Isto não deve ser entendido no sentido de que essas fórmulas,
especialmente se forem só imaginárias, sejam feitas para o sentimento religioso; pois
nada importa a sua origem nem o seu número, nem a sua qualidade; o que é necessário é
que o sentimento religioso, que as modifica quando é preciso, as assimile
vitalmente."
P. O que é "assimilação vital"
pelo sentimento?
R. "Em outras palavras, é preciso que a fórmula primitiva
seja aceita e confirmada pelo coração; e que a subseqüente elaboração
das fórmulas secundárias seja feita sob a direção do coração."
P. Como a necessidade da assimilação vital induz
à variação substancial do dogma?
R. "Tais fórmulas, para serem vitais, hão de ser e ficar adaptadas
tanto à fé quanto ao crente. Por isso, se por qualquer motivo cessar essa adaptação,
perdem sua primitiva significação e devem ser mudadas."
P. Que consideração tem os Modernistas pelas
fórmulas dogmáticas?
R. "Sendo assim mutável o valor e a sorte das fórmulas dogmáticas,
não é de admirar que os Modernistas tanto as desprezem e escarneçam, e que por
conseguinte só reconheçam e exaltem o sentimento e a vida religiosa."
P. Que atitude os Modernistas tomam em relação à
Igreja quanto às fórmulas dogmáticas?
R. "Audaciosamente eles criticam a Igreja, acusando-a de ter tomado o
caminho errado devido a não saber distinguir entre o sentido material das fórmulas e sua
significação religiosa e moral, e acusando-a também de agarrar-se obstinadamente, mas
em vão, a fórmulas falhas de sentido, enquanto deixa a própria religião rolar para o
abismo."
P. Qual deve ser nosso julgamento final sobre as
doutrinas dos Modernistas em relação à verdade dogmática?
R. "Cegos, na verdade, a conduzirem outros cegos, são esses homens
que, inflados pelas ostentações da ciência, deliram a ponto de perverter o eterno
conceito de verdade e a verdadeira natureza do sentimento religioso, de modo que com esse
seu novo sistema são arrastados por desenfreada mania de novidades, não procuram a
verdade onde certamente se acha; mas, desprezando as santas e apostólicas tradições, se
apegam a doutrinas ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens
estultíssimos julgam fortalecer e sustentar a verdade. (Greg. XVI Ep. Encicl.
"Singulari Nos" 7 Kal. Jul. 1834)."
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