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Filosofia-História-Religião
A "Vida da Liturgia"... em agonia

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A "VIDA DA LITURGIA"... EM AGONIA

Num dia desses, enquanto percorria as estantes de uma velha biblioteca à procura de um livro qualquer, caiu-me nas mãos um volume amarelado pelo tempo, de capa meio rasgada, que logo se me esfrangalhou entre as mãos, pelo manuseio.

Era uma obra do "século passado" -- tão longe vão os anos de Pio XII! -- anos que parecem, eles também, amarelecidos na memória, e esfrangalhados pelos erros que dominaram depois o mundo.

E o esfrangalhamento posterior foi tal, que muitos, bem erroneamente e bem ingenuamente, julgam que os tempos de Pio XII foram a antítese de nossos tempos.

Ora, nenhum terremoto se produz repentinamente. Ele exige séculos de preparação telúrica. O terremoto e as transformações provenientes do Vaticano II não puderam se realizar sem uma longa preparação anterior, que inclui necessariamente os tempos de Pio XII, quando havia ainda Monsenhores de Bom Senso, Monsenhores que rezavam.

Pois o livro esfrangalhado que me caiu repentinamente em mãos era dos tempos de Pio XII. Não era de um daqueles velhos e severos monsenhores piedosamente tradicionais. Parecia até ser de um autor atual. Atual, insinuante e "aggiornatto". De um Monsenhor Up to Date. Monsenhor Out Look.

O título do livro do Monsenhor "Out Look" é o que está entre aspas, encabeçando este artigo-resenha, e seu autor é um célebre especialista em liturgia, o Padre Louis Bouyer, da Congregação do Oratório. (Louis Bouyer, La Vie de la Liturgie, Cerf, Paris, 1956. (Faremos referências a esse livro, e a outros que citarmmos, dando as páginas da citação entre parênteses).

Completaremos nosso trabalho principalmente com citações de um outro autor de tendência oposta à do Padre Bouyer, um autor "tradicionalista", lefevrista, para demonstrar como certos sacerdotes, que não são "up to date", conservam uma mentalidade ingenuamente romântica, incapaz de compreender a História, e que, por isso mesmo, armam contra o modernismo uma muralha fofa, argamassada com açúcar e "inocência". Um tradicionalista, como tantos outros, que, de tanto se opor aos Papas conciliares, exaltam Pio XII a alturas querubínicas.

Referimo-nos ao incrivelmente ingênuo livro do padre lefevrista Didier Bonneterre intitulado El Movimiento Liturgico (Editorial Iction, Buenos Aires, 1982).

A obra de Bouyer era garantida por dois Imprimaturs e um Nihil Obstat. O que não obstava absolutamente que ela estivesse repleta de erros e de heresias escandalosas e mal disfarçadas.

O Padre Bouyer era de origem protestante. Convertido -- [???] -- ele se tornou um discípulo fervoroso do famoso modernista Dom Lambert Beauduin, a quem dedicou o seu livro.

Dessa obra, faremos resenha apenas de alguns capítulos, por serem os mais importantes, e para não alongar por demais o presente trabalho.

Bouyer, no Prefácio, diz que seu livro é o resumo de uma série de palestras, proferidas por ele, na Universidade de Notre Dame, em Indiana (USA).

Não seguiremos, os capítulos do livro tais como eles se apresentam, preferindo dar uma seqüência mais didática à nossa exposição. Com efeito, o Padre Bouyer começa tratando da liturgia no tempo do Barroco e do Romantismo, para só depois, no capítulo III tratar do seu conceito de liturgia e da concepção que ele tem de Igreja e do desenvolvimento histórico do culto. Para sermos mais facilmente compreendidos, inverteremos a ordem desses capítulos.

Lembramos -- antes de tudo -- que o Padre Louis Bouyer publicou esse seu livro em 1956, portanto, antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), e muito antes de ser promulgada a Nova Missa de Paulo VI, em 1969.

No capitulo III, capítulo curiosamente intitulado "Do Qahal Judeu à Igreja Cristã", Padre Bouyer afirma inicialmente que, nos últimos 20 anos ( 1936 a 1956, reinados de Pio XI e de Pio XII), teria havido um progresso na Eclesiologia, permitindo uma progressiva inteligência do que é a Igreja, tal qual seria apresentada na revelação, a Igreja como "Povo de Deus" (p. 39).

Ora, essa será uma das novidades do Concílio Vaticano II, que preferiu considerar a Igreja mais como "Povo de Deus" do que como Corpo Místico de Cristo, como a definira Pio XII, na encíclica Mystici Corporis Christi, em 1943, baseando-se no texto do próprio São Paulo.

Portanto, Padre Bouyer fala da Igreja como Povo de Deus mesmo depois que Pio XII a definira, mais propriamente e de acordo com São Paulo, como Corpo Místico de Cristo.

Talvez pessoas suscetíveis a qualquer reparo ao Concílio Vaticano II -- Concílio Pastoral -- estranhem que ousemos escrever palavras que coloquem uma ressalva crítica à expressão "Igreja como Povo de Deus", usada por esse Concílio. Ousamos fazer essa alusão crítica com base no que disse dela o próprio Cardeal Ratzinger, autoridade insuspeita, nesse caso.

Sobre o uso e abuso da concepção de Igreja como Povo de Deus, que se tornou coisa comum depois do Vaticano II, disse o Cardeal Ratzinger:

"Existe aqui o perigo de se abandonar o Novo Testamento para se voltar ao Antigo. Com efeito, para a Escritura, "Povo de Deus" é Israel em seu relacionamento de oração e de fidelidade com o Senhor. Mas limitar-se unicamente a essa expressão para definir a Igreja significa não indicar plenamente a concepção que dela tem o Novo Testamento. Para este, na verdade, "povo de Deus" refere-se sempre ao elemento vetero testamentário da Igreja, à sua continuidade de Israel. Mas a Igreja recebe sua conotação neo testamentária mais evidente no conceito de "Corpo de Cristo". A Igreja existe e se faz parte dela não através de pertenças sociológicas, e sim através da inserção no corpo mesmo do Senhor, por meio do batismo e da Eucaristia"(Cardeal Joseph Ratzinger, A Fé em crise ? E.P.U. São Paulo, 1985, p.30).

É o próprio Cardeal Ratzinger -- que foi perito conciliar e hoje é o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé -- que faz crítica e restrição à expressão "Povo de Deus", usada pelo Concílio Vaticano II, para definir o que é a Igreja.

Padre Bouyer diz então que a Palavra de Deus se faz cada vez mais compreensiva -- progressivamente mais compreendida -- no decorrer da História, "Deus se fazendo escutar e compreender cada vez mais perfeitamente pelos homens"(p.39), visando fazer ver que toda a ação divina, na História, tem um objetivo claro: "a formação, fora da humanidade comum e decaída, de um povo que seja o próprio povo de Deus" (p. 39).

Evidentemente, essa concepção da História, com forte odor progressista e utopicamente otimista, faz perceber a mentalidade do autor.

Hoje, infelizmente, já se "progrediu" mais ainda: afirmam alguns que a Igreja é a Humanidade, não sendo necessário sequer ser batizado ou aderir a Cristo, nem mesmo por desejo implícito, para pertencer à Igreja. Até os que são ateus e os que recusam explicitamente Cristo e o Cristianismo fariam parte da Igreja, pelo simples fato de serem homens.

Padre Bouyer afirma então que os estudos teológicos unanimemente mostravam que a Igreja era a "perfeição última daquilo que, desde o início, a Bíblia hebraica havia chamado Qahal Yahwé, a "Assembléia de Yahwé" (p. 39).

Ora, o que no Antigo Testamento era o Povo de Deus tinha uma conotação nacional, que não existe na Igreja de Cristo, a qual não se restringe a um Povo. Cristo mandou pregar e a batizar a todos os povos, abolindo a idéia de uma "igreja nacional". Por isso a Igreja de Cristo é Católica, isto é, universal.

Padre Bouyer prossegue lembrando que o verbo grego "Kaleo" significa convocar, chamar o povo para que se reuna, para ouvir a Palavra de Deus. Conclui ele disso que entre o Qahal -- Assembléia do Povo de Deus -- e o ouvir a Palavra de Deus há uma relação essencial. A reunião do Povo de Deus era para ouvir a Palavra de Deus, para ouvir o Kérigma dos Apóstolos (p. 40). Portanto, para a Igreja Católica também, o essencial estaria na reunião da assembléia dos fiéis para ouvir a Palavra.

Evidentemente, essa concepção é protestante e não católica. Na Igreja Católica, os fieis se reúnem para renovar, por meio do sacerdote, o sacrifício do Calvário. A Missa é a renovação incruenta do sacrifício da Cruz, e não apenas uma assembléia do povo para ouvir a Palavra.

Padre Bouyer pretende dar, em seguida, três provas bíblicas do que ele afirma sobre a reunião do Qahal judaico para "ouvir a palavra de Deus":

1. A aliança no Monte Sinai (Ex. XIX) ;
2. A renovação da Aliança do povo judeu com Deus promovida pelo rei Josias ( II Reis XIII);
3. A renovação do pacto do Povo judeu com Deus feita por Esdras, ao retornar do Cativeiro de Babilônia (II Esdras VIII, 17).

Bouyer diz, então, que, em cada uma dessa três ocasiões, seguiu-se um esquema similar do qual eram traços característicos:

1. Uma convocação do Povo para que se reunisse;
2. A Palavra de Deus que era solenemente proclamada;
3. A aceitação da Palavra de Deus pelo povo (Aliança ou Pacto);
4. Um sacrifício então era feito, concluindo a aliança que tornava aquele povo o Povo de Deus. (p. 40-41).

No caso do Sinai, o Padre Bouyer não fala de sacrifício sangrento, que de fato, Moisés realizou, espargindo o povo com o sangue de um animal imolado a Deus. Ele fala apenas de "sacrifício", sem precisar se esse sacrifício foi um sacrifício de imolação ou só de ação de graças, de agradecimento (sacrifício eucarístico).

Na renovação da Aliança do povo judeu com Deus, promovida pelo rei Josias. Padre Bouyer diz que:

1. Houve uma convocação do Povo para ouvir, de novo, a Palavra de Deus;
2. O Povo ouviu essa Palavra;
3. O povo aceitou a Palavra de Deus;
4. Renovou-se a aliança com Deus por meio de um sacrifício pascal.(p. 41)

Já no episódio de Esdras se teria dado uma mudança fundamental --porque, então, não existindo mais o Templo que fora destruído por Nabucodonosor -- não se fez um sacrifício de imolação.

A cerimônia teria constado de:

1. Uma convocação solene do Povo;
2. Uma proclamação solene da Palavra de Deus que foi lida para o Povo;
3. Uma aceitação da Palavra de Deus por parte do povo.
4. Não houve, então, nenhum sacrifício de sangue, mas apenas um sacrifício de louvor e de ação de graças (um sacrifício eucarístico, apenas) (p. 42).

Este teria sido o modelo de cerimônia do Qahal judeu, no tempo da Sinagoga (a cerimônia realizada pelas pequenas comunidades judaicas em suas sinagogas):

1. Uma proclamação da Palavra de Deus
2. O povo ouvia a Palavra
3. A aceitação da Palavra pelo Povo
4. Uma ceia na qual se dividia o pão, e se davam graças a Deus.

Essa cerimônia é que teria sido herdada pela Igreja primitiva (p. 43).

Desse modo, fica insinuado que a própria destruição do Templo, e o exílio de Babilônia, impedindo o sacrifício cruento, teria favorecido um progresso litúrgico para uma forma mais elevada de liturgia, sem derramamento de sangue.

O ouvir a palavra de Deus e aceitá-la, e dar-lhe graças num banquete ou ceia, unindo o Povo ou comunidade, seria então o essencial da liturgia da Igreja primitiva.

Em vez disso, Padre Bouyer dá a sua definição de Liturgia:

"A Liturgia, na unidade de sua plenitude, deve portanto ser vista como a reunião do Povo de Deus reunido em assembléia, pela convocação da palavra de Deus, pelo ministério apostólico, para que este povo, tomando consciência de sua reunião, possa ouvir a própria Palavra de Deus em Cristo, possa aderir a esta Palavra por meio da oração e do louvor, no seio da qual a Palavra é proclamada, e assim selar pelo sacrifício eucarístico a Aliança realizada por esta mesma Palavra" (p. 44. O itálico e o negrito são nossos ).

Repare-se que nessa definição de Liturgia, Padre Bouyer não faz menção alguma de que, na Missa, o essencial é a renovação do sacrifício de Cristo no Calvário, de renovação do sacrifício de Cristo na Cruz, e que este sacrifício é propiciatório. Omitir isso configura violação do que definiu o Concílio de Trento.

Padre Bouyer vai acentuar que a Liturgia "é, antes de tudo, a descida da Palavra de Deus até nós, ela é fundamentalmente uma Liturgia da Palavra"(p.46).

Ora, este conceito de Liturgia é protestante e não católico. Para a Igreja Católica a ação litúrgica é fundamentalmente um sacrifício propiciatório. A Missa é a renovação do sacrifício do Calvário, e não a Liturgia da Palavra. Padre Bouyer, como os protestantes, exalta a leitura da Bíblia, e não a Consagração.

Ele repetirá esse conceito em várias passagens de seu livro: "A liturgia nos faz ouvir a Palavra de Deus em Cristo, e ela nos faz experimentar em nossas próprias vidas o poder dessa Palavra de Deus manifestada em Cristo"(p. 140).

Indo adiante, Padre Bouyer afirma que a Liturgia da palavra não se dá apenas na primeira parte da celebração, mas que "a missa é igualmente uma liturgia da Palavra na sua segunda parte" (p.46), que, segundo ele, seria uma parte de sacrifício sacramental, o qual é essencialmente constituído por palavras sacramentais "verba sacramentalia" (p. 46).

Será essa mesma exaltação da Liturgia da Palavra em detrimento da noção de sacrifício propiciatório -- ou seja, a aproximação da Missa católica da "liturgia" protestante -- que será levada a cabo por Monsenhor Bugnini, ao fazer a chamada Nova Missa de Paulo VI, em 1969...

A recusa em dar importância à noção católica de Missa como sacrifício propiciatório -- que é essencial -- será ainda mais acentuada por Padre Bouyer, em capítulos posteriores de seu livro.

Ainda nesse capítulo III, Padre Bouyer trata de alguns pontos que convém salientar para que fique bem clara sua doutrina modernista.

Em primeiro lugar, ele afirma que "a própria Revelação não deve ser considerada como uma abstração, como se ela se limitasse a comunicar do espírito de Deus ao do homem uma coleção de artigos do dogma" (p.47). Que "a Revelação não é apenas questão de idéias e noções, mas mais precisamente um apelo, uma vocação"(p. 47)

Evidentemente, há nessa afirmações de Padre Bouyer uma repetição do anti-dogmatismo modernista, hostil à idéia de verdade, assim como era contrário à noção católica de fé, virtude intelectual que exige a submissão do espírito humano às verdades reveladas por Deus.

Um outro ponto, é a noção de "Tradição Viva", noção proveniente, ela também, do pensamento modernista. Blondel explicitouessa noção,inspirando-se no modenista Efduardo Le Roy.

Para os hereges modernistas, condenados por São Pio X na encíclica Pascendi, uma tradição que se limitasse a transmitir uma série de verdades que deveriam ser cridas, seria uma tradição esclerosada e morta. Dizia Blondel que tudo o que é morto se torna imóvel. Uma tradição verdadeira deveria ser viva, e, portanto, de algum modo móvel. De algum modo evolutiva.

Padre Bouyer vai repetir essa noção modernista de uma "tradição viva", móvel, isto é, evolutiva, que se adapta às formas de pensamento de cada época.(Cfr. p. 48).

Outra idéia que o autor que analisamos vai salientar é a do sacerdócio dos fiéis, em detrimento do sacerdócio propriamente dito do padre.

Paradoxal e contraditoriamente, ao mesmo tempo que ele deixa à sombra, e omite a noção de sacrifício propiciatório na missa, -- portanto, omitindo a função essencial do celebrante, na missa -- Padre Bouyer vai exaltar a participação sacrifical dos simples fiéis ao dizer: "na assembléia da Igreja, o Qahal, cuja atividade própria é a mesma liturgia, fica claro que, se se compreende bem o que ela é, que cada um tem alguma coisa a fazer, tem seu papel próprio a desempenhar numa ação que é essencialmente comunitária, uma ação que não admite espectadores, mas apenas participantes ativos, engajados numa obra de conjunto." (p.48).

Está aí outra noção triunfante, hoje, e que era preconizada por Padre Bouyer, desde os tempos de Pio XII: o povo é, de fato, co-celebrante da Missa.

Falando, noutro capítulo, do bem da liturgia anglicana, Padre Bouyer diz que "Os ofícios não deveriam ser realizados por especialistas substituindo o povo, mas efetivamente pelo povo". (Padre Bouyer op. cit. p. 66. O negrito é nosso). Embora estivesse ele falando dos ofícios anglicanos, o elogio que ele faz do princípio de que o povo é o celebrante tem repercussão também na sua visão da Liturgia Católica, tanto mais que ele estava apresentando a liturgia anglicana como modelo para a católica.

Na mesma ocasião, o autor em foco afirma a necessidade e conveniência da adoção da língua vulgar na liturgia (cfr. op. cit. p. 66) pois que, se é o povo quem celebra, é necessário que ele entenda as palavras que pronuncia. Portanto, a língua da Missa deveria ser a vulgar e não o latim.

Essa igualdade sacrifical entre povo e sacerdote é contrária à doutrina Católica e diminui --se não nega -- o valor do Sacramento da Ordem. Essa noção igualitária do sacerdócio contraria a doutrina de que a Igreja é uma sociedade hierárquica.

(Estávamos concluindo este trabalho, quando foi divulgado um discurso do Papa João Paulo II aos membros da Sagrada Congregaçao dos Ritos, defendendo exatamente o oposto do que diz Padre Bouyer; o Papa confirma que só o sacredote é o verdadeiro celebrante na Missa, e não o povo. Resumo desse discurso, tal qual foi noticiado, poderá ser encontrado em apêndice a este trabalho).

Padre Bouyer encerra esse devastador capítulo III de seu livro modernista, afirmando que a encíclica Mediator Dei de Pio XII (1947) "colocou o selo de sua aprovação" no Movimento Litúrgico (p. 54):

"Nós podemos dizer bem que esse documento (a Mediator Dei) é em si mesmo um catálogo das verdades permanentes que têm sido propostas pelo movimento litúrgico contemporâneo, e que ela é por isso um produto característico desse próprio movimento" (p. 54-55).

Se esse comentário de Bouyer fosse verdadeiro, então teria havido uma completa continuidade histórica e doutrinária entre a ação do pontificado de Pio XII em matéria litúrgica, e a ação do pontificado de Paulo VI. Essa continuidade histórica inegavelmente pode ser comprovada pelos fatos, se levarmos em conta que quem nomeou, em 1948, Monsenhor Bugnini para presidir a Comissão para Reforma da Liturgia, que triunfará em 1969 com Paulo VI, foi o próprio Pio XII.

Entretanto, doutrinariamente, essa continuidade não pode ser aceita completamente, visto que Pio XII, se elogiou o Movimento Litúrgico, condenou também muitas de suas teses mais ousadas.

Como exemplos do apoio dado pela Mediator Dei às idéias do chamado Movimento Litúrgico, Padre Bouyer cita o elogio de Pio XII, nessa encíclica, ao próprio Movimento Litúrgico. O Papa, além disso, teria dado a sua aprovação às procissões do ofertório, à consagração de pães em lugar de hóstias, à defesa de uma simplificação da Missa, ao uso do vernáculo na Missa e à discriminação de devoções pessoais na missa, como por exemplo a recitação do rosário (p. 75-76).

Ora, examinando a encíclica Mediator Dei, não se encontra exatamente o que diz Padre Bouyer. Se é verdade que Pio XII elogiou o Movimento Litúrgico, não é verdade que Pio XII tenha apoiado as idéias citadas e defendidas por Bouyer. Antes, o contrário.

Comecemos por registrar no que Padre Bouyer disse a verdade: o elogio de Pio XII ao Movimento Litúrgico.

Escreveu Pio XII o seguinte elogio ao Movimento Litúrgico, que era embebido de idéias modernistas:

"Ora, de todos vós é conhecido, Veneráveis Irmãos, o singular afervoramento dos estudos litúrgicos que, nos fins do século passado [XIX] e princípio do atual [XX], foi promovido, já pelo louvável esforço de alguns particulares, já sobretudo, pela aturada e persistente diligência de alguns mosteiros da ínclita Ordem Beneditina; donde, não só em muitas nações da Europa, mas ainda nas terras de Além Atlântico, surgiu, neste capítulo, uma louvável porfia, cujos efeitos salutares são patentes, tanto no campo das disciplinas eclesiásticas, em que os ritos litúrgicos da Igreja Ocidental e Oriental foram mais e mais profundamente estudados e conhecidos, como até na vida espiritual e particular de muitos cristãos" (Pio XII, Mediator Dei, N0 4, ed cit. p. 4-5).

Não há dúvida então que Pio XII elogiou e incentivou o Movimento Litúrgico, que viria a causar tantos desastres na Igreja, a ponto de o Cardeal Ratzinger criticar muito do que se faz hoje em matéria de liturgia, chegando a dizer que há um "anarquismo litúrgico", em nossos dias.

Vejamos, porém, agora, os pontos em que Padre Bouyer não disse a verdade.

Bouyer defende a idéia de que há uma igualdade sacerdotal entre o povo e o celebrante. Pio XII, longe de aprovar essa idéia, a condena, em várias passagens da encíclica citada.

"Contudo, o fato de participarem no Sacrifício não confere aos fiéis o poder sacerdotal. É muito necessário explicar isto bem ao vosso rebanho.

"79. Efetivamente, Veneráveis Irmãos, não falta quem em nossos dias, aproximando-se de erros já condenados (Cfr. Concílio de Trento, sess. XXIII, cap. 4), ensine que no Novo Testamento não há mais que um só sacerdócio respeitante a todos os batizados; e que o projeto dado por Jesus aos Apóstolos na última Ceia, de fazer o que Ele fizera, se refere diretamente à Igreja ou assembléia dos fiéis, e só posteriormente daí nasceu o sacerdócio hierárquico. Sustentam, portanto, que o povo goza de verdadeiro poder sacerdotal e que o sacerdote age como mandatário da comunidade; consequentemente, o Sacrifício Eucarístico é uma autêntica "concelebração" e é preferível que os sacerdotes "concelebrem" juntamente com o povo presente, a celebrarem privadamente, na ausência do povo" (Pio XII, Mediator Dei, n* 78-79, Vozes, Petrópolis, 1959, p. 33-34. O negrito é nosso).

Pio XII disse palavras claríssimas condenando essa idéia de que o padre sacrifica só em nome do povo, como seu representante, ou, como se aceitou dizer, como "Presidente da Assembléia dos fiéis", e não como ministro de Cristo, atuando in "persona Christi".

"Para não dar lugar a erros perigosos neste importantíssimo assunto, é necessário precisar com exatidão em que sentido se entende esta oblação. A imolação incruenta, por meio da qual, depois de pronunciadas as palavras da consagração, Cristo se torna presente sobre o altar no estado de vítima, é levada a cabo somente pelo sacerdote, enquanto representante da pessoa de Cristo e não enquanto representante da pessoa dos fiéis." (Pio XII, Mediator Dei, N0 87 p. 36).

Essas idéias errôneas estão, hoje, muito disseminadas. Afirma-se que o sacerdote é apenas o "Presidente da Assembléia". Se assim fosse, o sacerdote não atuaria in persona Christi, na consagração. Desse modo, quem consagraria não seria Cristo pela voz do sacerdote, e sim o povo, em cujo nome falaria o Presidente da Assembléia. O sacerdote não agiria in persona Christi mas "in persona populi".

O que levantaria imensos problemas sobre a própria Consagração...

De qualquer modo, sem entrar nesses problemas teológicos mais profundos, nos quais não somos especialistas, constatamos que o Padre Bouyer não disse a verdade sobre o que afirmou Pio XII na Mediator Dei, a respeito do sacerdócio dos fiéis.

Também com relação a outros pontos citados por Padre Bouyer como aprovados por Pio XII, na mencionada encíclica, não se chega à conclusão de que ele disse a verdade. Assim, não se acham, nessa encíclica, elogios de Pio XII às chamadas procissões do ofertório, nem preconiza o Papa que se consagrem pães em lugar de hóstias, e, muito menos, que se use o vernáculo na Missa, coisa que Pio XII reprova explicitamente, a exemplo do que já haviam feito muitos outros Papas.

É claro que Padre Bouyer desejava que a Missa fosse rezada na língua do povo porque, segundo ele, se o povo era o celebrante, era evidente que seria melhor; mais, seria necessário adotar a língua do povo na Missa. Acontece que não é o povo que celebra o sacrifício da Missa, e sim o sacerdote. Portanto, não é necessário que o povo entenda a língua sacrifical. Por isso, e por outras razões, Pio XII condena o uso da língua popular na Missa, defendendo o uso do latim, na Liturgia, como necessário e conveniente.

Eis o que ensinou Pio XII sobre esse problema:

"Claro que a Igreja é um organismo vivo, mesmo no que respeita à Sagrada Liturgia e sem prejuízo da integridade do seu ensino, cresce e progride, adaptando-se e conformando-se às circunstâncias e exigências que se verificam com o andar dos tempos; é, no entanto, temerária e absolutamente reprovável a ousadia daqueles que, de propósito, introduzem novos costumes litúrgicos ou fazem reviver ritos já caídos em desuso e que não concordam com as leis e rubricas vigentes. E que isso sucede, Veneráveis Irmãos, com não pequena dor o constatamos, e não só em coisas de pouca monta, mas até em pontos de gravíssima importância. Com efeito, não falta quem use da língua vulgar na confecção do Sacrifício Eucarístico, quem mude para outras datas festas já fixadas por ponderosos motivos, quem, finalmente, suprima dos livros oficiais da oração pública os escritos do velho Testamento, sob pretexto de pouco adaptados e oportunos para os nosso tempos"(Pio XII, Mediator Dei, N0 56, pp. 25-26. O negrito é nosso).

E, prosseguindo, Pio XII dá as razões pelas quais o latim deve ser mantido na Missa:

"O uso da língua latina, conforme está em vigor em grande parte da Igreja, é um claro e nobre indício de unidade, e um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina." (Pio XII, Mediator Dei, N0 56, p. 26).

Essa recomendação de usar o latim na Missa e não a língua vulgar foi mantida pelo próprio Concílio Vaticano II. Aliás, nem poderia ser diferente, já que o Concílio de Trento -- concílio dogmático e infalível -- anatematizou quem pretendesse substituir o latim pela língua vernácula, na Missa:

"Cânon 9 : Se alguém disser que o rito da Igreja Romana pelo qual parte do cânon e as palavras da consagração se pronunciam em voz baixa, deve ser condenado; ou que deve celebrar-se a Missa em língua vulgar, ou que não deve misturar-se água com o vinho que há de se oferecer no cálice, por razão de ser contra a instituição de Cristo, seja anátema" (Concílio de Trento, Cânones sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, Cânon 9, Denzinger 956).

Como se vê o Concilio de Trento condenou com excomunhão quem pretende que a missa deve ser rezada na língua do povo, e que as palavras da consagração devam ser ditas em voz alta.

E por que excomungou essas propostas ?

O Concílio de Trento, concílio infalível que continua -- é claro ! -- em pleno vigor, condenou essas duas idéias, porque, por trás delas, está o princípio herético que é o povo quem celebra a Missa, e não o Padre sozinho, o qual seria um mero representante do povo e não de Cristo, o ‘Presidente da Assembléia", como se diz hoje.

Outro ponto louvável da "Mediator Dei" foi a condenação daqueles que, por arqueologismo, -- arqueologismo, porém, que Pio XII elogia -- queriam fazer o altar voltar à forma de mesa:

"É certamente de boa sabedoria e muito para louvar o voltar, de alma e coração, às fontes da Sagrada Liturgia; o seu estudo, remontando às origens, ajuda muito a compreender o significado das festas e a indagar com maior profundeza e segurança o sentido das cerimônias; mas, não é igualmente bom e louvável reduzir tudo e de todos os modos ao antigo. Assim, para exemplificar, está fora do reto caminho aquele que quer restituir ao altar a antiga forma de mesa; aquele que quer eliminar dos paramentos litúrgicos a cor preta; aquele que quer excluir dos templos as imagens e estátuas sagradas; aquele que quer suprimir, na representação de Cristo Crucificado, as dores acerbas que sofreu; aquele que repudia e reprova o canto polifônico, ainda quando conforme às normas emanadas da Santa Sé" (Pio XII, Mediator Dei, N0 58. O negrito é meu).

Esse texto é típico de Pio XII: faz o elogio, em tese, do princípio do arqueologismo litúrgico - que poderia ser válido, enquanto estudo das fontes originais --, e depois condena algumas de suas aplicações práticas, de modo que todos ficavam, ao mesmo tempo, contentes e insatisfeitos. E, principalmente, não se trancava a porta para o Cavalo de Tróia, pois, condenada uma prática a porta permanecia aberta pelo princípio admitido, válido, em tese, enquanto princípio de estudo. O Cavalo entrou. E entrou por essa porta do princípio aceito vagamente, sem precisões maiores e sem nenhuma ressalva.

Hoje, o altar foi trocado por uma mesa, fazem-se desaparecer as imagens sagradas, não se respeitam as normas sobre as cores dos paramentos, e nem mesmo os paramentos; praticamente se suprimiu quer o canto polifônico, quer o canto gregoriano, substituindo-os pelo rock, ou por canções populares de baixo nível, por danças escandalosas, etc.

O Cavalo de Tróia entrou na Cidade de Deus.

 

Doutrina do Padre Bouyer sobre a Missa

É no capítulo VI de seu livro, que Padre Bouyer expõe sua doutrina sobre a Missa. Relembramos que o livro é de 1956, em pleno reinado de Pio XII, publicado nove anos depois da promulgaçãoda Encíclica Mediator Dei, e treze anos antes do Novus Ordo MIssae de Paulo VI. Ver-se -á bem por essas datas que Bouyer foi um precursor da Nova Missa de Monsenhor Bugnini, aprovada por Paulo VI.

Curioso é que Padre Bouyer -- para justificar a rebelião contra o que determinava Pio XII -- defendia então que, em matéria litúrgica, haveria uma grande independência com relação à autoridade eclesiástica, e até mesmo com relação à autoridade papal, coisa que hoje os reformistas recusam com indignação e terminantemente.

"Assim, como o compreenderam claramente todos os canonistas que escreveram sobre a liturgia durante os séculos XVII e XVIII, desde um autor privado como Le Brun até o grande Pontífice que era ao mesmo tempo um canonista de gênio como Bento XIV, a autoridade ligada à liturgia não depende completa e unicamente da autoridade dos Papas ou dos Bispos que canonizaram tal ou tal livro com suas rubricas, ou que garantiram tal ou tal resposta de uma comissão, desde a Sagrada Congregação dos Ritos até a Comissão nomeada por Balduino de Péréfixe para a reforma da liturgia parisiense. Não, a autoridade ligada à liturgia, era, para esses homens, fundamentalmente a da própria tradição, e é somente para garantir a tradição sob esses dois aspectos de permanência e de adaptação que a autoridade dos Papas e dos Bispos dava sua sanção a tal ou tal forma de liturgia" (Padre L. Bouyer, op. cit. p. 90. O negrito é nosso).

Hoje, esse princípio é recusado do modo o mais peremptório e autoritário, exatamente por aqueles mesmos que combatem o autoritarismo e defendem a liberdade...

Padre Bouyer diz mais:

"A tradição católica não é uma coisa do passado fixada uma vez por todas, segundo uma fórmula redigida em detalhe, que não deve jamais mudar nem progredir, e ela não é também uma coisa que possa se mudar, sendo remodelada arbitrariamente, seja por indivíduos, seja por uma autoridade que, agindo assim, estaria tão isolada e irresponsável quanto um indivíduo"(p. 98. O negrito é nosso).

Quem diria isso hoje?

E afirma, mais ainda, o Padre Bouyer:

"Nessa comunidade viva, os Papas e os Bispos não vão fazer não importa o quê, enquanto os outros não teriam senão que aceitar seus decretos de um modo puramente passivo, tanto quanto os indivíduos não têm o direito de agir como bem lhes parece." (Bouyer, p. 98).

Sem aceitar esse princípio tal como está aí formulado, nós o citamos apenas para demonstrar como os modernistas são volúveis, defendendo o que mais lhes é oportuno, conforme as circunstâncias. Se alguém defender isso hoje, com relação às reformas de Paulo VI, será acusado imediatamente de cismático, enquanto Pio XII, tido como autoritário e conservador, jamais condenou o Padre Bouyer.por dizer isso...

Para o Padre Bouyer, que nessa questão confessa seguir o pensamento de um Bispo protestante luterano, Brilioth, a liturgia deve constar dos seguintes elementos constitutivos fundamentais e irredutíveis:

1. a comunhão;
2. o sacrifício;
3. a eucaristia propriamente dita;
4. o memorial (p. 101).

Não se engane o leitor, porém, com as palavras. Para o Padre Bouyer essas palavras não tem o mesmo sentido que para o comum das pessoas. Normalmente, por comunhão se entende a recepção da hóstia consagrada, isto é, a recepção pelo fiel do Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo, presente na hóstia consagrada. Para Padre Bouyer, comunhão é outra coisa.

"A comunhão, tal qual a palavra é empregada aqui, não deve ser compreendida em seu uso moderno, isto é, como a recepção do sacramento por um crente individual. É necessário antes compreendê-la, assim como a palavra koinonia foi sempre empregada pelos Padres da Igreja, como significando a "comunhão com outros numa participação comum nos mesmos dons" ( p. 102. O negrito é meu).

Ao falar em comunhão, Padre Bouyer entende a formação de uma união coletiva com toda a "comunidade", como se diz hoje, formando uma união de todos através da "solidariedade", simbolizada no comer junto.

Veja-se como ele explicita uma idéia, absolutamente diferente da católica, sobre o que é a comunhão e o que é a Missa:

"Assim, o elemento de "Comunhão" significa que a eucaristia é uma refeição, uma refeição de comunidade na qual todos os participantes estão reunidos para participar, em comum, em bens comuns. Esses bens comuns começam por ser o pão e o vinho de um verdadeiro banquete humano, qualquer que seja a sua significação mais profunda" (Padre Bouyer op cit p. 102).

Ora, o Concílio de Trento, ao condenar a noção protestante de Missa como ceia, anatematizou a tese pregada pelo Padre Bouyer, declarando:

"Se alguém disser que no sacrifício da Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício, ou que o oferecê-lo não é outra coisa que Cristo se nos dar a comer, seja anátema" (Denzinger, 948 ).

Nesse anátema se excomungam os que defendem que a Missa é uma mera ceia ou banquete, frase muito comumente ouvida, hoje em dia, para definir Missa. Por exemplo, os líderes do Neo Catecumenato, Kiko Arguelo e Carmem, seguidores confessos das teorias do padre Bouyer, defendem e ensinam essa mesma tese excomungada pelo Concílio de Trento. Até em cânticos populares, infelizmente, se canta isso, que foi condenado dogmaticamente pelo Concílio de Trento.

Quanto ao elemento "sacrifício", para o Padre Bouyer, ele é tudo, só não é o sacrifício da Cruz. Bouyer divaga longamente sobre o que é o "sacrifício", mas jamais afirma que o sacrifício da missa é a renovação do sacrifício do Calvário, nem que haja um sacrifício propiciatório de Cristo, na Missa (Cfr. p. 102-103-104).

Sobre a ação de graças ou eucaristia, ele afirma que ela acha sua expressão central na grande oração dita pelo "presidente da synaxe"(assembléia), isto é, pelo sacerdote, e que ela é "um agradecimento a Deus por todos os seus dons"(p. 104) "a partir do pão e do vinho", e não do Corpo e do Sangue de Cristo. ( cfr. p. 104).

A respeito do que é o Memorial, Padre Bouyer se estende dizendo que ele é o memorial da cruz -- mas não fala de renovação do sacrifício da cruz --e o memorial da Ressurreição.

Finalmente, Padre Bouyer trata do Mistério da Missa, e trata desse tema tão misteriosamente que, depois de ler várias páginas e páginas de seu livro, não se atina o que é o tal "Mistério". Ele afirma que o Mistério consta de tudo o que foi dito sobre os quatro elementos constitutivos da Missa. Diz então com todas as letras que "a Missa toda não é senão uma só liturgia da Palavra, que começou por falar ao homem, que lhe falou de modo cada vez mais íntimo, que finalmente lhe falou ao coração enquanto Palavra feita carne, e que agora, do próprio coração do homem se dirige a Deus Pai pelo Espírito" (p. 106).

Perambulando pelo que é Mistério --sem nunca dizer claramente em que ele consiste -- Padre Bouyer acaba por escrever o seguinte:

"Se cada um dos elementos constitutivos da Missa que examinamos é melhor descrito do que definido, como não será mais difícil ainda dar uma definição do Mistério ! Sempre fiel às linhas de pensamento propostas por Brilioth -- [Um "Bispo" protestante ! Eis a quem é fiel o Padre Bouyer !] -- mas empregando agora nosso próprio vocabulário, podemos dizer que o Mistério concretiza a tríplice convicção da Igreja quando ela celebra a eucaristia... (1) Ela crê que o Cristo está presente de modo inexprimível na celebração (Sic !) -- [Não nas espécies consagradas ? ] -- (2) Ela crê que o que ela faz hoje, é ele mesmo que está fazendo por ela. (3) Ela crê que esta ação hoje, que é dele, como ela é dela, é finalmente a única ação salvadora de Deus pelo Cristo, através da história, isto é que a Missa é a Cruz, mas a Cruz sempre vista na perspectiva total da qual falamos quando examinamos a noção de memorial"( P. 106). Isto é do memorial da cruz unido à idéia "da Ressurreição, da glorificação de Cristo e que inclui a efusão do Espírito Santo, a edificação da Igreja e finalmente a consumação de todas as coisas no divino agapê" ( p. 107).

Por todas essas razões Padre Bouyer acaba tendo uma doutrina sobre a Missa que se afasta da doutrina da Igreja, e que se aproxima muito da noção de Ceia protestante. Não foi à tôa que Padre Bouyer quis se manter fiel ao protestante Brilioth.

Por isso, como adepto do conceito de Ceia do protestantismo, Padre Bouyer vai atacar a doutrina da presença real de Cristo nas sagradas espécies, assim como todas as cerimônias em louvor de Cristo no Santíssimo Sacramento.

"Em certas formas do catolicismo moderno, sem nenhuma dúvida, se colocou um acento exagerado sobre a presença real (que de uma certa maneira corresponde ao primeiro aspecto do Mistério como o dissemos mais acima) fez perder o justo sentido da eucaristia, como comunhão, sacrifício, ação de graças e memorial, e mesmo desviou mais do que exaltou o sentido cristão do próprio Mistério"(Padre Louis Bouyer, op cit. p. 107. o negrito é nosso).

Está exposta aí de modo escandaloso a tese péssima desse Padre que inspirou muitos liturgicistas atuais: a idéia da presença real de Cristo na hóstia "fez perder o justo sentido da eucaristia", e "desviou mais do que exaltou o sentido cristão do próprio Mistério".

Como um Padre que escreveu tais heresias não foi condenado por Pio XII ?

Hoje, essa doutrina é um dos pontos centrais das heresias de Kiko Arguelo e praticada pelo Neo Catecumenato. Kiko e Carmem repetem quase palavra por palavra esse texto do padre Bouyer em suas Apostilas aos Catequistas.

Continuando a seguir o protestante Brillioth, Padre Bouyer diz:

"‘Nós não devemos concentrar nossa contemplação exclusivamente sobre o pão e o vinho sacramentais, mas também sobre duas outras realidades. Se é necessário antes de tudo considerar a presença de Cristo como vítima nos elementos eucarísticos, nós não devemos, por essa razão, negligenciar em primeiro lugar sua presença enquanto grande sacerdote de toda hierarquia. Cristo não estará presente nos elementos senão porque ele está presente no homem encarregado de presidir a synaxe e de pronunciar a ação de graças em nome de Cristo, esta presença sendo realizada pelo fato da sucessão apostólica. Por outro lado, Cristo deve finalmente estar presente em todo o corpo da Igreja, porque a Igreja não goza da presença eucarística senão por ser una em Cristo e com Cristo, pela celebração eucarística, e especialmente pela consumação desta na refeição sagrada" (p. 108).

"O próprio Brillioth explica isso insistindo sobre a idéia que o Mistério, se bem que ele seja a qualidade que dá o caráter o mais fortemente cristão à eucaristia, pois que ele torna Cristo presente tudo em todos pode entretanto ser olhado de um outro ponto de vista como um traço da eucaristia aparentado à religião natural, e mais particularmente, no mundo greco-romano contemporâneo do cristianismo primitivo, às religiões que se chamavam exatamente "religiões de mistérios""(p. 108. O negrito é meu).

Desse modo, ainda que Padre Bouyer diga que Cristo está presente nas espécies eucarísticas, ele salienta que Cristo está presente nelas por estar presente no sacerdote, "presidente da assembléia", na Igreja e na própria assembléia, na qual Cristo é tudo em todos.

Daí se dizer que "Ele está no meio de nós", em vez de lembrar que Cristo está realemente presente na hóstia consagrada...

Entretanto, no capítulo VII de seu livro, Padre Bouyer mostra como a associação da Missa aos mistérios pagãos é falsa, e como certos autores, como Dom Casel, erraram, até certo ponto, ao aceitar pura e simplesmente, essa relação.

Contudo, Padre Bouyer tem a sua própria explicação do "Mistério" cristão.

No capítulo II do livro que focalizamos, diz Padre Bouyer:

"Digamos com uma palavra o conteúdo do "mistério". É a re atualização na, para e pela Igreja, do ato de Nosso Senhor que realizou nossa salvação, isto é, sua Paixão e sua morte na plenitude de seu efeito último: a Ressurreição, a comunicação da graça salvadora à humanidade e a consumação final de todas as coisas. Nessa perspectiva, a propriedade central da Liturgia, e portanto o que é preciso captar, antes de tudo, para compreendê-la, é o modo único pelo qual o ato redentor de Cristo é renovado e distribuído de modo permanente pela Igreja. Compreender bem este modo, que é inteiramente diferente daquele de uma representação teatral ou imaginativa, ou de toda repetição fisicamente realista, é a chave desta inteligência da liturgia cuja perda começa durante a Idade Média. E é esta chave que o período barroco perdeu tão profundamente que guardou sob seu olhar somente a casca vazia da liturgia, uma casca tanto mais descorada e sobrecarregada exteriormente quanto mais a realidade interior tendia a ser esquecida" (P. 33).

Vê-se bem por esse texto que Padre Bouyer não centraliza a Liturgia na renovação do sacrifício do Calvário, mas que este foi apenas o caminho para um objetivo maior: a Ressurreição como salvadora do homem.

Ora, isto contraria o que Pio XII havia já escrito na Mediator Dei, e o que o Concílio de Trento fixara dogmaticamente, como lembra Pio XII na Mediator Dei: "Facilmente se compreende, pois, o motivo porque o Concílio de Trento afirma que, com o Sacrifício Eucarístico nos é aplicada a salutar virtude da Cruz, para apagar os nossos pecados cotidianos( cfr. Sessão XXII, c. 1).( Pio XII, Mediator Dei, n0 71).

Pio XII ensinou também que :

"O augusto Sacrifício do altar não é pois uma pura e simples comemoração da Paixão e Morte de Cristo, mas um verdadeiro e propriamente dito sacrifício, no qual, imolando-se incruentamente, o Sumo Sacerdote faz o que fez uma vez sobre a Cruz, oferecendo-se totalmente ao Pai eterno como hóstia gratíssima. "Uma e mesma é a vítima: e Aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que , outrora, se ofereceu na Cruz, divergindo, apenas, o modo de oferecer"(Conc. de Trento, sessão XXII, cap. 2, apud Pio XII, Mediator Dei, n0 64. O negrito é meu, evidentemente.).

Padre Bouyer não hesita em afirmar que foi um erro ter centrado a Missa na Paixão de Cristo:

"E, finalmente, essa idéia de que a Missa seria uma contemplação de Nosso Senhor unicamente na Paixão, sem nenhum pensamento voltado para a sua Ressurreição e a glória final de todo o seu Corpo Místico, com a redução de todo o mistério litúrgico a um simples memorial da Paixão, não é senão a conclusão última de desvios tipicamente medievais: absorção, de um lado, somente no sofrimento de Cristo; de outro lado, desaparecimento progressivo da verdadeira idéia da liturgia como mistério sacramental, sepultada debaixo de uma lembrança puramente sentimental e alegórica do passado nas Expositiones Missae "(p. 62).

Como se constata por essas palavras, Bouyer diverge frontalmente do que ensinou infalivelmente o Concílio de Trento e do que ensinou Pio XII.

Pior ainda. Ele discorda e vai contra o próprio texto de São Paulo, que ensinou o seguinte:

"Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha"( I Cor. XI, 26).

Anunciareis a morte e não a ressurreição do Senhor, como pretendem Bouyer e os seguidores de Kiko, contra o que ensinou São Paulo.

Para Padre Bouyer, "o Mistério deve ser contemplado, antes de tudo, como a Palavra de Deus por excelência, assim como ele é exatamente designado por São Paulo. Porque o mysterion é definido por ele como um apocalypsis da sophia divina, isto é, como um mistério que é revelação da divina sabedoria" (p. 134. Os itálicos são do autor).

Não é possível deixar de observar que essas palavras têm um forte sabor de gnose, enquanto colocam o mistério da salvação no conhecimento da Palavra, e não no sacrifício redentor de Cristo na Cruz..

Pouco depois, Bouyer afirma que "o Mistério, portanto, tal como São Paulo o vê, é um desígnio divino, mais exatamente, ele é a chave de todo o desígnio de Deus com relação à humanidade, uma chave que o homem não poderia obter de outro modo senão pela revelação do próprio Deus, porque ele é o ponto exato onde a inacessível e inescrutável Sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos homens". "Podemos dizer que o Mistério jaz nos abismos da essência de Deus" (p. 134).

Padre Bouyer dá um sentido mais do que antropológico ao Mistério divino: um sentido cósmico.

"Pode-se dizer que, para ele [São Paulo], o Mistério inclui todo o plano de Deus a respeito do homem, e não apenas do homem, mas através do homem, sobre todas as criaturas, isto é, todos os seres espirituais, e também sobre o próprio mundo material" (p. 135).

Daí, Bouyer afirma que, segundo São Paulo, Cristo é o pleroma, a plenitude. E pergunta Padre Bouyer:

"Que significa isso ? Inicialmente, que a obra de Deus com relação ao homem e a toda criatura não é alguma coisa que seja puramente exterior a Deus, mas alguma coisa à qual, se podemos falar assim, Ele está pessoalmente interessado, como qualquer operário está interessado naquilo que faz. Não só Deus está interessado, como o operário em seu trabalho, mas este trabalho, especialmente em seu acabamento final, não pode ser separado Dele. O que ele faz é não só uma misteriosa revelação de suas idéias, mas dEle mesmo. De uma maneira misteriosa (e, precisamente, lá está o mistério para falar propriamente), ele se põe a Si mesmo em sua obra. Cristo, ao mesmo tempo que revela, ele é o Mistério na sua plenitude, porque nele encontramos, ao mesmo tempo, Deus e o homem, não como dois seres, duas realidades separadas, mas como uma só realidade. Assim, o próprio homem não pode ser conhecido em sua plenitude, senão na revelação da plenitude de Deus. As duas revelações, as duas plenitudes são uma só" (p. 135-136. Os itálicos são do original. O negrito e o sublinhado são meus.).

Que quer dizer isso: que o próprio homem só pode ser conhecido na revelação da plenitude de Deus ? E que quer dizer a revelação e a plenitude de Deus são uma só coisa com a revelação e a plenitude do homem.

Que significa que, no Mistério, encontramos Deus e o homem como uma só realidade ?

É bem difícil não ver nessas palavras a afirmação de uma tese gnóstica.

Não há dúvida de que estes pensamentos expressos pelo Padre Bouyer parecem concordar com a idéia de que a revelação de Cristo, no fundo, foi o revelar o mistério do homem, ao homem. O que era, de certo modo, uma novidade... em 1956.

E que esse mistério do homem que teria sido revelado por Cristo ?

Esse mistério do homem permanece ... misterioso, pois não se diz claramente o que ele é, mas nele se insinua muito fortemente uma doutrina gnóstica

Ademais, a palavra "Mistério" conforme ensina o Catecismo é uma verdade revelada por Deus, e que está acima do conhecimento natural do homem, e que o homem, por sua simples inteligência natural, é incapaz de vir a conhecer e de compreender.

Exemplos de Mistérios citados pelo Catecismo são a Unidade e Trindade de Deus, e a Encarnação, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo

Se houvesse um "Mistério do Homem" revelado por Cristo, mistério esse de que jamais se falou no catecismo e na Teologia, esse suposto e misterioso Mistério do Homem estaria acima da compreensão natural do homem. Haveria, então, na própria natureza do homem, algo acima de sua natureza. O que é contraditório e absurdo.

Ora, isto confundiria a ordem natural e a ordem sobre-natural, heresia condenada várias vezes pela Igreja, e heresia defendida pelos Modernistas condenados por São Pio X.

Mas, se no homem -- portanto em todo homem -- há algo de sobrenatural, por essa mesma razão todo homem, sendo homem, só pelo fato de ser homem, já estaria salvo.

Também esse algo em que consisitiria o Mistério do Homem, esse algo acima da natureza humana, mas imanente no homem, seria a fonte da revelação divina , já que o "Mistério do Homem" coincide com o "Mistério de Deus", e faria com que houvesse uma só realidade em Deus e no homem. Daí, seguir-se-ia que todas as religiões seriam válidas, pois cada uma delas seria resultante da manifestação do Mistério de Deus, no Mistério do Homem.

Mais ainda: a afirmação de que a "plenitude de Deus" e a "plenitude do Homem" são coincidentes levaria à apocatastasis, isto é, à necessidade ontológica de que todos os homens necessariamente se salvam, porque, perdendo-se um só deles, não haveria a "Plenitude de Deus". Para usar a palavra empregada por Padre Bouyer, o "Pléroma" divino só se constituiria com a salvação universal, tese, hoje, defendida mais ou menos explicitamente por vários autores importantes.

Conseqüência desse pensamento que faz coincidir o mistério de Deus com o mistério do homem é que Deus nos amaria por nós mesmos, pouco importando se pecamos ou não. A razão desse amor é que Deus, desejando naturalmente sua própria plenitude, tem que desejar e efetivar a salvação universal, sem levar em conta os pecados ou as boas ações dos homens. Por isso, todos estaríamos salvos. Verifica-se, desse modo, um ressurgimento do origenismo e da apocatastasis.

"E é a Cruz que é a grande revelação da divina agapê, porque é na Cruz que podemos ver claramente que o amor de Deus não espera que nós o mereçamos, mas que ele é um amor puramente generoso e criador, que ele não precisa achar o bem em nós para nos amar, mas antes ele nos torna bons amando-nos, como só Deus pode amar"(p. 137). Essa é uma formulação que insinua que Deus não exige que pratiquemos o bem, e que Ele nos ama de qualquer modo, ainda que o rejeitemos, ainda que não cumpramos a sua lei.

 

Breve História da Liturgia segundo o Padre Bouyer

Padre Bouyer lembra que, se houve necessidade de um movimento litúrgico foi porque, na Igreja, muitos se deram conta de que algo fora perdido em matéria de Liturgia.

"A verdadeira natureza da própria Liturgia, o que ela devia significar na vida quotidiana da Igreja e dos cristãos, tinha sido negligenciado durante longo tempo a ponto de cair em um esquecimento aparentemente desesperado"(p. 58).

É por isso que Bouyer pretende recolocar a Igreja na compreensão verdadeira da liturgia, pois diz ele:

"É dessa maneira apenas -- [estudando os dados bíblicos e os dogmas de Revelação e da Redenção] -- que poderemos esperar recolocar a liturgia em seu verdadeiro lugar na história da economia cristã e numa visão teologicamente bem fundamentada do que é a natureza permanente do cristianismo, e do que ela será sempre"( p. 37 . O negrito é nosso).

Pretender "Recolocar a Liturgia em seu verdadeiro lugar" é afirmar indiretamente que a Liturgia perdeu seu verdadeiro lugar na Igreja.

E como isso poderia ter acontecido ? Teria o Espírito Santo deixado de guiar a Igreja numa questão tão import