Cartas de leitores
Defesa da Fé

O valor da tradição
PERGUNTA
| Nome: | Leandro Andrade |
| Enviada em: | 15/06/2006 |
| Local: | Salvador - BA, Brasil |
| Religião: | Protestante |
| Idade: | 25 anos |
| Escolaridade: | Superior em andamento |
| Profissão: | Pastor Presbiteriano |
Sou pastor presbiteriano, amo a fé cristã e os símbolos da nossa igreja fundada por Jesus que instruiu os santos apóstolos para sua organização. Dou aula de história da Igreja em um Insittuto presbiteriano e aprecio muito a nossa história gosto de ver a fé dos santos e tirar delas lições para nossas vidas, também é muito edificante conhecer as resoluções da igreja, os credos e os trabalhos da igreja cristã no decorrer dos séculos, particularmente acho um reducionismo obscurantista chamar a Idade Média de Era das Trevas (aliás esse nome veio dos hereges iluministas, segundo entendi). Jogar fora o avanço de Carlos Magno, homens como Aquino é perder de vista as bases do pensamento cristão e secular modernos. Aliás o calendário liturgico, que nós protestantes brasileiros apenas preservamos a páscoa e o natal, são ótimas oportunidades de fortalecer nossa fé e pregar a palavra aos descrentes.
Contudo, a minha crítica se encontra no modo como a Igreja de Roma encara esses aspectos, tratando-os como bases de sustento da Fé. Se a igreja Católica encarar esses pontos da tradição como a igreja protestante conservadora encara, que é vê-los como momentos de aprender com acertos e ERROS da NOSSA história será uma prova de fidelidade a doutrina dos santos apóstolos. Nós devemos fidelidade para com as Escrituras, dela vem toda nossa tradição e por ela todas demais tradições são confirmadas ou abandonadas.
Mas sei também que se os amados católicos considerarem que devemos ser fieis à Bíblia e aos líderes que vieram posteriormente, dirão que estou equivocado e que a igreja não necessita de provar fidelidade alguma.
Entendo que a raiz de nosso cisma está no nosso pressuposto sobre como servir a Deus corretamente. Nós cremos que serviremos a Deus apenas com a Bíblia e o que passar disto é heresia, já os amados católicos afirmam que a tradição é uma forma autorizada por Deus e por Ele utilizada para edificação da igreja.
Minha objeção quanto a esse ponto é que muitos pontos da tradição vão diretamente de encontro a pontos da Escritura. É aqui que reintero minha crítica, a tradição serve para que possamos aprender, seja com erros ou acertos, mas não podemos nos guiar pela tradição.
É por isso que nós protestantes temos tantas igreja diferentes, elementos que fazem parte da tradição das igrejas não interferem, ou pelo menos não deve interferir, na doutrina das Escrituras.
Gostaria que algum católico comentasse o meu escrito, lembrando que não sou inimigo da igrja católica como muitos evangélicos se consideram, contudo também não sou ecumênico, adotaria uma união com a igreja católica somente quando esta adotar apenas as Escrituras (com o cânon do Velho Testamento da versão utilizada pelos judeus) como sua ÚNICA regra de fé e prática.
Em Cristo,
LEandro Andrade.
RESPOSTA
Prezado Leandro,
Salve Maria, "Mãe de meu Senhor" (S. Lucas, I, 43)
Salve Maria, "Mãe de meu Senhor" (S. Lucas, I, 43)
Agradecemos seu tom cordial, que permite o esclarecimento da doutrina Católica e o debate civilizado.
Impressionou-nos que um pseudo-pastor como você tenha tal desconhecimento da doutrina Católica. Supostamente seu treinamento teológico deveria incluir a distinção trivial entre tradição humana e tradição Apostólica.
Antes de falar da tradição, pedimos que não se zangue que o chamamos de pseudo-pastor, pois essa afirmação está apoiada em São Francisco de Sales, que no século XVI trouxe de volta à fé Católica 72 mil protestantes (calvinistas e zwinglianos, portanto precursores seus) no Chablais suíço (SALES, Francis de, The Catholic Controversy, TAN Books & Publishers, USA, 1989, págs. 13-26).
Acompanhe o brilhante raciocínio do santo:
Os reformadores diziam ter uma missão divina.
Ora, ou os reformadores tinham uma missão divina mediata ou imediata. Missão mediata é aquela recebida de outrem que já a possui, sendo, portanto ordinária. Imediata é a missão recebida diretamente de Deus, sendo dessa forma extraordinária.
Se os reformadores tivessem uma missão mediata, ou a teriam recebido da Igreja, ou a teriam recebido de outrem (alguns diziam que do povo).
Pela Bíblia, vemos que o povo não tem poder para dar missão a ninguém, portanto essa hipótese está descartada. Então, se fosse mediata a missão dos reformadores, eles teriam que tê-la recebido da Igreja.
Ora, ou a Igreja estava certa ou estava errada: os reformadores diziam que a Igreja estava errada, e então não poderiam ter recebido uma missão divina de tal instituição; mas se a Igreja estava certa, então os reformadores são hereges, pois dela se separaram.
Logo, a missão dos reformadores não podia ser mediata.
Vejamos então se a missão dos reformadores podia ser imediata.
Ora, a missão é imediata se recebida diretamente de Deus. Assim, Moisés recebeu uma missão imediata na sarça ardente, a de libertar seu povo do cativeiro egípcio. Cristo também recebeu uma missão imediata, e sendo o próprio Deus, a recebeu do Pai.
O que é necessário para provar a legitimidade de tal missão?
Milagres e profecias.
Moisés fez milagres e profetizou. Cristo, mesmo sendo Deus, também os fez para provar que era verdadeira sua missão. E a Igreja, Corpo Místico de Cristo, durante toda sua história tem sido acompanhada de milagres e de profecias.
E os pseudo-reformadores do século XVI?
Nada. Nem milagres, muito menos profecias.
Logo, a missão dos reformadores tampouco pode ser imediata.
E os pseudo-reformadores sabiam que precisavam de milagres e profecias para justificar sua missão. A respeito disso, lembro apenas Lutero, que é o melhor exemplo do fracasso protestante nesses dois quesitos.
Mesmo não fazendo nenhum milagre, Lutero pateticamente desafiou os profetas de Zwickau a realizarem algum prodígio para provarem que eram enviados por Deus! Lutero dizia que ele próprio estava dispensado dessa prova, pois seu “milagre” era compreender a Bíblia como ninguém antes fizera...
Lutero também não se saiu melhor nas profecias: é notório que ele vaticinava o fim do Papado para breve, pois ele havia desferido um golpe mortal contra a besta do Apocalipse... o reinado glorioso de Bento XVI, quase 500 anos depois da profecia luterana diz tudo sobre a carisma profético do rebelde alemão!
Apenas como informação: é dessa insuficiência das seitas protestantes ditas “tradicionais” que surgirão os movimentos pentecostais prometendo exatamente milagres e profecias. E essas seitas pentecostais farão um tremendo sucesso, ao prometer aos fiéis exatamente aquilo que faltava aos primeiros protestantes para legitimar sua missão divina!
Assim, prezado Leandro, nem você nem nenhum protestante tem missão divina nenhuma e, portanto, não é lícito usurpar o título de pastor, que não lhe pertence.
Assim, não se zangue se o tratamos por pseudo-pastor.
***
Voltando à Tradição.
A Tradição que a Igreja sustenta não é outra senão o conjunto de ensinamentos transmitidos diretamente por Cristo aos Apóstolos, e destes aos seus discípulos, seus legítimos sucessores – seus verdadeiros pastores.
E a Tradição é defendida por ninguém menos que o Apóstolo São Paulo, mostrando claramente que há duas fontes da Revelação: "Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa. " (II Tessalonicenses, 2,15). E em muitas outras passagens.
Assim sendo, a Tradição não pode diferir da Escritura Sagrada, pois ambas têm o mesmo autor divino, o mesmo autor infalível. E mais: a Tradição formou a Escritura, pois antes que fosse redigida, a Revelação foi feita oralmente por Nosso Senhor. Portanto, antes que houvesse a Escritura, havia já a Tradição (o mesmo se aplica ao Antigo Testamento).
Quando os protestantes encontram divergências entre a Tradição e a Escritura, é porque sua interpretação da Escritura está errada. E note que nem podemos falar propriamente em interpretação protestante, pois cada fiel é uma igreja separada, gerando assim milhares de interpretações diversas e contrárias.
In Jesu et Maria,
Marcos Liborio
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