Movimento pela Vida

Tartarugas e fetos
Orlando Fedeli
Recentemente, foi publicado um artigo, comparando a lei brasileira de proteção aos ovos de tartaruga com o projeto de lei em trâmite no Congresso para aprovar o aborto. O artigo, de autoria do Dr. Cícero Harada, intitula-se "O Projeto Matar e o Projeto Tamar: o Aborto", e vem tendo larga repercussão no Brasil, pois, demonstra a iniqüidade das leis brasileiras em face dos cuidados com tartarugas e a permissão do assassinato de seres humanos.

No Brasil, se tem mais respeito aos animais do que aos seres humanos, haja vista o que acontece hoje com a proliferação de capivaras, protegidas por leis ambientais, e que estão causando surtos de febre maculosa, matando crianças. Matar uma capivara pode ser crime. Permitir a morte de crianças não tem nada de mais para os defensores do projeto de lei abortista, que quiçá são ecologistas. E se um pai, que tiver seu filho morto pela febre maculosa, matar uma capivara poderá ser preso.

Conclusão: no Brasil, uma capivara pode valer mais do que uma criança. E o projeto de descriminalização do aborto proposto pela deputada comunista Jandira Feghali (PC do B) fará, caso seja aprovado, com que um feto tenha menos valor que um ovo de tartaruga.

O artigo de Cícero Harada deixou isso patente. E irritou defensores da liberação do aborto.

Uma das irritadas foi uma senhora cheia de títulos que escreveu uma carta, pretendendo refutar os argumentos do Dr. Harada. Trata-se da senhora Heleieth I.B. Saffioti, que assina a sua carta enumerando todos os seus títulos, como se títulos fossem argumentos, enfileirando-os como rajada de autoridade:

"Heleieth I.B. Saffioti, "Socióloga, professora universitária em programas de estudos pós-graduados, professora titular de sociologia, aposentada pela UNESP, 12 livros publicados em Português, artigos publicados em inglês e espanhol, nos Estados Unidos, Europa e América Latina".

Caramba! Quantos títulos! É de deixar basbaques de queixo caído!

E como ela se intrometeu na questão, permito-me também meter minha pobre colher de pau, embora sem tantos títulos, nessa polêmica.

Escrevo então um artigo, quase uma carta, comentando o tema. Não escrevo carta à Doutora Socióloga, pois não a conheço. Só me permito então escrever um artigo-"carta" sobre a questão.

Com licença, Doutora.

E começo dizendo que a ilustríssima Doutora, e com tantos títulos, começa mal a sua carta contra Dr. Cícero, pois diz:

"Em primeiro lugar, nós, mulheres, não somos tartarugas".

Será que alguém no mundo não havia percebido isso?

É óbvio que mulheres não são tartarugas.

Mas, Doutora, Dr. Cícero não comparara nenhuma mulher a tartarugas.

Ele demonstrou que a lei brasileira protege mais ovos de tartarugas do que fetos humanos. Só isso.

De onde tirou a senhora a idéia de que ele comparou mulheres a tartarugas?

Dra. Heleieth, atrapalhada, talvez, por ver as letras através de seus títulos, se equivocou: não são as mulheres que são menos consideradas que as tartarugas no Brasil petista e mensalonado. São os seres humanos concebidos, que poderão ser colocados, pela lei, em situação inferior à das tartarugas. Dona Heleieth meteu as mulheres onde elas não haviam sido chamadas.

Dra. Heleieth em vez de responder aos argumentos do Dr. Harada, afirma que ele deslocou a discussão para o campo religioso.

Onde Dra. Heleieth!

Na verdade, a senhora é que manifestou muito preconceito contra a religião católica, atacando-a, e foi ofensiva ao Papa João Paulo II, ao chamá-lo de "o Papa da morte".

E ofender assim o Papa é contra a justiça, e mesmo, contra a lei positiva.

Pois saiba, ilustre Dra. Socióloga, que o aborto é contra a lei natural.

E saiba ainda, ó ilustre Dra. de tantos títulos e de tantos livros, que a lei natural não foi aprovada por nenhum Congresso, por nenhuma Assembléias de Deputados. Com ou sem Mensalão.

Quem fez a lei natural foi Deus, minha senhora, e nenhum Congresso pode revogar a lei natural. Assim como nenhum Congresso pode revogar a lei da gravidade, ou a lei da oferta e da procura.

E não adianta estrebucharem sofismas contra esta verdade.

Deus é o autor da lei natural.

Nenhuma lei humana pode ir contra a lei de Deus.

Uma lei feita por homens, que contrarie a lei natural, é ilegítima e ilícita.

Exemplo: as leis racistas no nazismo eram ilegítimas, ilícitas, e criminosas, pois, iam contra a lei de Deus e contra a lei natural ao decretar a morte dos judeus.

Por isso, uma lei, permitindo o aborto, será sempre ilícita e ilegítima.

E pela lei da natureza, instituída por Deus, -- pois a senhora afirma que tem um deus, embora ele não seja o Deus do Dr. Harada -- dos ovos de tartaruga nascem tartaruguinhas, e de mulheres nascem seres humanos vivos.

Creio que nem tão numerosos títulos impedem que uma socióloga moderna compreenda essas verdades comezinhas.

Dou, então, mais um passo, senhora Doutora.

Ovos de tartaruga fecundados têm, desde o momento da fecundação, vivinho, um ser que vai se tornar uma tartaruga perfeita. Isso é de lei natural, e a lei de nossos Deputados reconheceu essa verdade profunda: desde o momento da fecundação dos ovos de tartaruga, há lá, dentro de cada ovinho, uma tartaruguinha, que irá nascer logo mais, no tempo certo estabelecido por Deus e não pelos Deputados. Portanto, destruir ovos de tartaruga fecundados é matar tartarugas, e contribuir para a extinção de sua espécie.

Como são sábios os nossos Deputados! Pelo menos em matéria tartarugal!

Eles que são tão tartaruguentos no trabalho legislativo...

A senhora vai me seguindo em meu raciocínio, não é Doutora?

Então, prossigamos. Devagarinho.

A passo de tartaruga, já que senhora tem que ir devagar, dado o peso dos títulos que carrega.

Vamos então adiante. Devagarinho.

Assim como de ovos de tartaruga, nascem tartaruguinhas, de óvulos humanos fecundados nascem criancinhas.

É claro, não é, Doutora?

E assim como ovos de tartaruga fecundados têm, desde a fecundação, dentro deles uma nova tartaruguinha, um óvulo humano, desde o primeiro instante da fecundação tem, em si, um novo ser humano, com direitos naturais iguais aos de sua mamãe.

Portanto, a lei que permite o aborto viola os Direitos Humanos.

E por violar a lei da natureza feita por Deus, a lei do aborto viola a Lei de Deus, sim senhora. Toda lei de aborto é ilícita por ir contra a lei natural, e contra a lei de Deus.

E a Igreja Católica sempre condenou o aborto. Se há padres que defendem a lei do aborto, eles se colocam em oposição ao ensinamento da Igreja. E a separação entre Estado e Igreja não permite separar a lei positiva da lei natural.

Como já disse, mas convém repetir, no Estado nazista, separado da Igreja, se permitiu a lei criminosa contra os judeus. O racismo foi aprovado por lei positiva contra a lei de Deus. Nem por ser aprovado por um Estado laico, com o voto da maioria dos Deputados nazistas, e com o apoio da maioria do povo alemão de então, o racismo passou a ser justo. O genocídio contra os judeus foi criminoso, embora aprovado pelos Deputados e pela maioria do povo alemão.

Minha senhora, a maioria não tem poder de mudar a lei natural. A maioria não tem poder acima da lei de Deus. Do mesmo modo, teses falsas não se tornam verdadeiras por causa dos muitos títulos universitários de seus defensores.

E para sua informação, já que o seu Deus não é o Deus de Dr. Cícero Harada, que se mostra católico, as chamadas "católicas pelo direito de decidir" não são católicas de fato, pois um católico que defende o aborto fica -- ipso facto -- excomungado. Essas pessoas não são católicas.

"E più non dicco"...

...que o mais de sua carta não merece consideração maior.

São Paulo, 6 de Janeiro de 2.006 na festa dos Reis, que foram visitar o Deus Menino recém nascido.



Orlando Fedeli

Doutor em História pela USP

    Para citar este texto:
"Tartarugas e fetos"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/vida/tartarugas_fetos/
Online, 27/05/2017 às 20:10:00h