Movimento pela Vida

Católicas pelo Direito de Decidir: o bode da Campanha da Fraternidade 2008
Alberto Zucchi

Provocou justa indignação a presença de depoimento de uma representante do movimento que defende o aborto, e que impropriamente se denomina, Católicas pelo Direito de Decidir, no vídeo da Campanha da Fraternidade 2.008, com o tema Escolhe, pois, a vida. Ingenuamente, alguém poderia esperar que a CNBB utilizasse essa campanha como uma defesa da vida e da doutrina católica, contra aqueles que propugnam o aborto, a destruição de embriões humanos, a eutanásia. A revolta nos meios católicos pela inclusão nesse DVD da CNBB do depoimento de uma "Católica pelo Direito de Decidir”, fez com que fosse produzida uma 2ª. edição do vídeo, excluindo a representante dessa associação.
Alguns lamentam o fato de tradicionais defensores da vida, como por exemplo, o Padre Luiz Carlos Lodi, a Dra. Alice Teixeira, a Dra. Lílian Piñero, o Dr. Paulo Leão, a Dra. Maria Dolly Guimarães, que juntamente conosco estiveram presentes na luta em defesa da vida, desde a discussão sobre a utilização de células troncas embrionárias, não terem sido convidados a participar do vídeo. Na realidade, é uma grande honra para todos eles não terem sido chamados a participar dessa farsa.
A exclusão final das falsas católicas da CDD, entretanto, nada alterou a essência do vídeo que continuou a ser escandaloso, pois, de fato, ao invés de fazer a defesa da vida, o DVD produzido pela Conferência Episcopal brasileira é apenas um disfarçado instrumento de difusão, da já diversas vezes condenada, teologia da libertação, e certamente prejudicial à luta contra o aborto.
Os responsáveis pelo vídeo tiveram a preocupação de que os "homens de boa vontade" pudessem participar dessa produção, pois palavras como oração, vida sobrenatural, e outras próprias à religião católica foram completamente excluídas. Nem mesmo as mais elementares recomendações morais católicas para a produção de um vídeo foram observadas. É um DVD completamente laico e naturalista o produzido pela CNBB. Poderia ser um DVD ateu.
No vídeo produzido para a CNBB, uma entidade que também se afirma católica, em nenhum momento cita-se o Papa Bento XVI, não há uma única referência à visita do Papa ao Brasil, aos seus discursos contra as leis que atentam contra vida humana. Em nenhum depoimento foi lembrado que o Vaticano produziu uma grande quantidade de documentos e material  muito úteis na defesa da doutrina católica sobre a vida, como por exemplo, o Léxico do Conselho Pontifício para a Família, recentemente publicado em português, mas sempre ausente das livrarias católicas. Quem vê o vídeo da CNBB, fica com a clara impressão de um verdadeiro cisma entre a CNBB e as autoridades do Vaticano. Não é uma honra ter sido excluído de um local onde também o Papa foi impedido de entrar?
Estaríamos exagerando em nossas afirmações? Vejamos, por exemplo, o que pensa, um dos principais protagonistas do vídeo, o ex-padre e atual professor da PUC, Fernando Altemeyer Júnior:
 
"O papa não é a Igreja, o papa espelha um catolicismo oficial, que representa apenas uns 10% dos católicos do mundo. É como se fosse a ponta de um icebergue, os outros 90% ficam debaixo de água". (http://www.reflexodigital.com/index.php?cat=42&item=2026&PHPSESSID=6dd3f47623fb09671a22d9ee600f9d8a)
 
E esse Padre, que abandonou a batina, dirige o ensino de religião na PUC de São Paulo e participou do DVD da CNBB, minimizando o Papel do Papa.
Veja-se ainda o que pensa ele sobre a obediência que os padres devem ao Vaticano:
 
"Há uma certa esquizofrenia, sim. Os brasileiros aplaudem o discurso do Vaticano, mas dentro de casa o que se segue é outra coisa. A mesma postura é adotada por muitos dos padres brasileiros. Eles seguem a orientação do Vaticano de uma maneira geral, mas, quando se está na frente de um fiel, é preciso adequar a estrutura moral à realidade humana". (http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u25097.shtml
 
Teria aceitado ele a condenação à Teologia da Libertação? Vejamos:
 
"Um exemplo da intolerância do papa, na opinião de Altemeyer, pôde ser vista no Brasil. O frei Leonardo Boff, por exemplo, foi punido duas vezes por sua atuação social, e acabou deixando a igreja. Altemeyer, que já foi padre e é partidário da Teologia da Libertação, não acha, no entanto, que o conservadorismo do papa João Paulo 2º é levado ao pé da letra pelos padres ou fiéis brasileiros". (http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u25097.shtml)

      É, portanto, natural que em um vídeo em que participe esse ex-padre, o Papa seja esquecido.
Apesar de ter "esquecido" do Papa, a CNBB não esqueceu de pedir dinheiro, apresentando no vídeo diversas formas com as quais os católicos podem enviar recursos aos defensores da Teologia da Libertação.
Apesar de insistir sobre os problemas materiais de nossa sociedade a CNBB, desta vez, esqueceu da corrupção. O PT, partido da Teologia da Libertação foi poupado.
Distante do Vaticano e do Papa, a CNBB convidou para participar do vídeo, teólogos da libertação, políticos de esquerda e ilustres desconhecidos, talvez com alguma desonrosa exceção, na luta em defesa da vida. O resultado é a uma indisfarçável simpatia pela luta de classes, como, por exemplo, na absurda e herética afirmação, do já referido ex-padre Fernando Altmeyr Jr. de que "fora dos pobres não há salvação" (DVD Escolhe, pois, a Vida, bloco II – Ver-Julgar-Agir). Por dever com a verdade, entretanto, devemos dizer que a aparência de todos os protagonistas, especialmente do autor da herética frase, está bem longe de demonstrar pobreza.
Assim, no vídeo que deveria defender a vida não há uma única condenação do aborto, apenas uma única vez se critica a utilização de células-tronco embrionárias como se fosse uma mera opinião da Igreja, a condenação da eutanásia é feita de forma confusa e com muitas ressalvas. Não se faz a defesa e a valorização da família, não se alerta para o perigo da lei de homofobia que poderá desencadear uma verdadeira perseguição religiosa no Brasil.
Pelo contrário, o vídeo está recheado de afirmações demagógicas, vagas e absolutamente inúteis aos defensores da vida, como por exemplo, a de uma professora que afirma que "a primeira coisa que devemos conseguir é que a criança o aluno se ame". Ou ainda, a afirmação do Padre Carlos Josaphat de que "a vida não é o lado produtivo". Também este padre não esquece de promover a luta de classes, distorcendo completamente os ensinamentos da Bíblia com a absurda interpretação de que os Profetas do Antigo Testamento tinham predileção pelos pobres.
O Padre Josaphat é mais um dos protagonistas do vídeo a não dar importância ao que a Igreja ensina. Veja-se na entrevista a seguir, concedida à Folha de São Paulo, como ele destaca a importância da orientação médica e não da Igreja.
 
"Sinapse - O que o sr. pensa sobre a utilização de métodos contraceptivos artificiais, um dos dogmas da igreja?
Josaphat - Essa questão envolve vários aspectos. Um deles é o dos casais que querem planejar a vida da família. A igreja diz que eles só devem usar métodos naturais de contracepção. Acredito que o homem e a mulher, com uma correta orientação médica, devem escolher o método, natural ou artificial, que mais lhes convém. A posição deles deve ser respeitada pelos padres. Método é meio, e o meio é empregado da maneira mais ajustada aos bons fins que se deseja alcançar. Em relação à Aids, a questão é evitar o contágio. Se a pessoa optou pela promiscuidade, pelo menos deve empregar o preservativo, para não cometer duas faltas: ter vida promíscua e espalhar um mal grave. Quem diz que não se deve usar preservativos pode estar cometendo um crime, pois pode fazer com que ocorra a contaminação de muitas pessoas." Folha de São Paulo, Entre o céu e a terra - 30/3/2005.
 
Alguns dos protagonistas do vídeo preocupam-se ainda em dar conselhos práticos para a Defesa da Vida. Nesses conselhos, ninguém comenta sobre as leis abortistas e contra a família que foram aprovadas ou estão em discussão no Congresso Nacional, muito menos os católicos são orientados a pedir a Deus e a Nossa Senhora, sua proteção. O agir para os protagonistas do vídeo, como por exemplo, o Dr. Klaudio Koffani Nunes consiste em "dialogo, promover reuniões, cuidar de gente que sofre, espaço para as crianças serem atendidas, espaço para morar, ambiente escolar". Sem dúvida estes são os conselhos apropriados para quem deseja deter a luta contra o aborto.
Nesta mesma linha o Pe. Leo Pessini trata da Bioética. Sem tocar na questão do aborto, e pisando em brasas sobre o assunto células-tronco embrionárias, o Padre Leo faz uma confusa crítica à eutanásia e pede para que as comunidades verifiquem como estão as crianças, os idosos e onde estão as pessoas deficientes e doentes. Teria esquecido o padre Leo Pessini de tratar do que interessa, ou quis ele esconder a sua verdadeira opinião?
Quando esteve participando do Congresso de Bioética na China, Padre Leo, publicou suas impressões sobre aquele pais. Veja com que indiferença, ou melhor, com que simpatia e compreensão pela cultura da China comunista ele trata do problema da prática do aborto, como se este prática fosse equivalente a um problema com a plantação de chuchus:
 
"... o controle da natalidade, na China, é levado avante com mão de ferro pelo governo, com a aplicação da política one child policy (1979), ou seja, só é permitida uma criança por casal. Enquanto visitávamos locais interessantes de Pequim, a guia que nos explicava a realidade cultural e social chinesa, ao entrar nessa questão, "a geração dos que se sentem sozinhos, pois não têm irmãos ou irmãs" como fruto dessa política. Se surgir uma segunda gravidez, o casal praticamente é obrigado a abortar, além de pagar uma pesada multa; perde o emprego e, além disso, passa a ser estigmatizado. Nesse contexto, o aborto acaba sendo um método normal de controle de natalidade. A preferência por nascituro masculino é apontada como sendo uma das causas para que se criasse um desequilíbrio gigantesco na relação numérica entre homens e mulheres. Faltam aproximadamente quarenta milhões de mulheres na China. Faltam meninas porque são abortadas por médicos a pedido dos futuros pais, que têm preferência por meninos, ou morreram por negligência como recém-nascidos ou bebês. Num contexto cultural sexista, a mulher grávida é obrigada a ir ao hospital para a identificação de sexo e, caso o feto seja identificado como feminino, a mulher é fortemente pressionada para abortar. Um livro lançado recentemente em inglês, comentado no congresso, retrata toda essa problemática: Behind the silence: chinese voices on abortion -Atrás do silêncio: vozes chinesas sobre o aborto (Nie Jing Bao, 2005).
Para tentar evitar que esse desequilíbrio aumente o número de abortos de fetos femininos, a política atual do governo proíbe a realização de ultra-som por motivos não médicos, com o objetivo de revelar o sexo do nascituro. Com a infração dessa regra, o profissional médico corre o risco de ter sua licença de exercício profissional cassada. Esta situação populacional chinesa, de desequilíbrio entre o número de nascimentos de homens e mulheres, foi discutida no Congresso, num simpósio especial, patrocinado pela Função Ford (EUA). A questão vem preocupando o Presidente chinês Hu Jintao, e um plano de ação para corrigir essa distorção populacional vem sendo estudado". (Revista PUC VIVA no. 27)
 
Para um padre com esta mentalidade, não é de surpreender que no vídeo apresente como cuidados para o fim da vida "as questões físicas, psíquico-afetivas e esperança", que ele diz ser "espiritualidade". Nada fala este Padre sobre a alma e a vida após a morte. Certamente um padre tão moderno, admirador da sociedade chinesa, já terá superado esses velhos dogmas do cristianismo.
O vídeo traz ainda a presença do Dr. Hélio Bicudo. Realmente é difícil encontrar políticos comprometidos com a doutrina da Igreja, mas certamente o Dr. Bicudo não seria esse representante. Apesar de seus discursos contra o aborto é conhecida a sua ausência do plenário da Comissão de Constituição Justiça e Redação, em 1996, que permitiu a aprovação do projeto que regulamentava o aborto nos casos de estupro.
Dr. Bicudo foi coerente, também no vídeo se omitiu, não quis atacar o aborto, para ele em relação a questão da vida é importante tratar da indiferença diante das pessoas vitimadas em vias públicas, e do judiciário que esta voltado para interesses econômicos. As clinicas de aborto clandestinas não merecem a menor atenção e nenhum comentário.
Existe ainda um depoimento da Irmã Nelly Booner que apresenta um sistema para recuperação de presos chamado "Escola de Perdão e Reconciliação". Como sempre uma visão totalmente naturalista, com algumas frases que chamam a atenção como por exemplo, que "a raiva é importante para mobilizar as pessoas". Traduzindo para uma linguagem mais clara, a Irmã Booner ressalva que um militante de esquerda, provavelmente do PT, sem raiva, não pode ser mobilizado. Tal apresentação, de fato, tira o foco das questões fundamentais.
No final da encenação em defesa da vida uma apresentação do Amparo Maternal, uma maternidade gratuita. Sem dúvida, do ponto de vista natural, um bom trabalho, mas o vídeo apresenta casos de mulheres que aparentemente engravidaram sem desejar, uma é muito jovem e muito pobre, outra já tem onze filhos e não pode cuidar de nenhum deles, outra foi abandonada pelo marido. Não são esses os exemplos utilizados pelos defensores do aborto? Em nenhum momento o caso do Amparo é apresentado como uma prova de que não há necessidade do aborto. E de repente entre em cena Dom Arns, como Pilatos no Credo, se bem que não se pode comparar o vídeo com o Credo. Mas como poderia faltar a propaganda do grande impulsionador da Teologia da Libertação?
No Amparo Maternal  as crianças são alimentadas, mas nada se fala sobre o batismo, as mães recebem instrução profissional, mas não religiosa, sobre um padre para as necessidades de confissão, nem pensar. Certamente, a ausência das orientações religiosas contribuiu para que o Governador José Serra não tenha se sentido constrangido em defender efusivamente a distribuição gratuita de anticoncepcionais nas estações do Metrô e da CPTM, em discurso proferido nas dependências do próprio Amparo. (http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.php?id=87681)
Acreditamos que apesar de ser um vídeo oficial da CNBB,  poucos bispos tenham tido efetiva participação na sua elaboração. Mas não se preocuparam eles em conhecer esse material e entrar em contato com a CNBB para protestar? Não se tem notícia de um único Bispo que se tenha posicionado contra tamanho absurdo representado por esse DVD naturalista e não católico da CNBB. Não é dever dos Bispos alertar ao Vaticano que essa pseudo defesa da vida, é na realidade uma mal disfarçada campanha em favor da Teologia da Libertação, que se esconde, agora, talvez com receio de uma nova condenação? Porque não se pronunciam certos Bispos que pretendem representar o "magistério vivo" e que se colocam como seguidores do Papa e dos ensinamentos tradicionais da Igreja? Permanecem eles em viagens com finalidades de arrecadar fundos para suas obras, ao invés de protestarem contra essa má orientação aos católicos e esta revolta silenciosa contra Roma?
A exclusão posterior do depoimento da representante das Católicas pelo Direito de Decidir, somente retirou o bode da sala, mas a sujeira,  a desordem, e a revolta da Campanha da Fraternidade continuam a mesma de sempre.
O vídeo nos leva a duas considerações. A primeira é que não podemos nem devemos contar com a CNBB, o que resta a fazer, já que os Bispos se omitem, é recorrer ao Vaticano para que, o quanto antes, intervenha nessa instituição episcopal para que ela retorne a seguir as orientações do Papa. 
A segunda é que apesar desta traição os verdadeiros defensores da vida não devem desistir de sua luta, temos obrigação de continuar combatendo. A justiça está do nosso lado e a vitória é certa, não por causa de nossas qualidades, mas pela promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo, "as portas do inferno não prevalecerão contra ela". Ademais, temos a proteção de Nossa Mãe Maria Santíssima que em Fátima nos prometeu, "por fim o meu Imaculado Coração triunfará".

    Para citar este texto:
"Católicas pelo Direito de Decidir: o bode da Campanha da Fraternidade 2008"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/vida/CF_2008/
Online, 17/01/2017 às 08:55:00h