Religião

Uma parábola sobre a misericórdia de Deus: a ovelha desgarrada (parte 4 e final)

E quando a encontrou colocou-a sobre seus ombros, cheio de alegria” (São Lucas 15, 5).

 

Mario Silva Martins

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre a misericórdia de Deus, parte 1,  parte 2 e parte 3  

O Pastor carrega a ovelha sobre seus ombros

Somente o Pastor divino tinha condições de encontrar a ovelha. Somente Ele conhecia os caminhos penosos pelos quais sua ovelha poderia ter se perdido.

Em que estado ele encontrará sua ovelha?

Talvez entre espinhos que machucam seu corpo, ou em um buraco do qual não pode sair sozinha, ou ainda ferida no pé, incapaz de caminhar. Ela, no começo, acreditava estar libertada do rebanho. No começo, conforme as ilusões que sua imaginação criara, ela tinha liberdade...

O mal das pessoas do mundo é que elas confundem a liberdade de espírito com o espírito de liberdade, e esta confusão só pode levar à catástrofe.

Agora nossa ovelha se vê presa fácil para qualquer lobo, até o dia em que o Pastor divino aparece para resgatá-la.

E quando a encontrou colocou-a sobre seus ombros, cheio de alegria” (São Lucas 15, 5).

Este é um costume característico entre os pastores no Oriente. Ainda hoje podem-se ver na Terra Santa pastores que levam em seus braços ou sobre seus ombros os cordeirinho mais fracos que não podem seguir o ritmo do rebanho. Tal qual o pastor de nossa parábola.

“Colocou-a sobre seus ombros”.

Assim age Cristo quando encontra um pecador que havia se afastado dele.

A graça de Deus toca sua alma, mas o pecador é deixado em liberdade para se render diante da graça, ainda que a graça o mova a se render.

Nunca uma alma convertida se sentiu humilhada ou maltratada pelo amor infinito do Pastor divino, mas, ao contrário, ela é inundada de luz e de serenidade.

Todo peso das tristezas, a escuridão das dúvidas, a solidão nebulosa da culpa, as angústias e os temores desaparecem como por encanto.

São Gregório de Nissa pondera a generosidade que implica o gesto de Cristo, que levou a ovelha do gênero humano sobre seus próprios ombros:

Quando o pastor encontra a ovelha, não a castiga, nem a conduz ao redil violentamente, mas, colocando-a sobre seus ombros e levando-a com clemência, a reintegra ao seu rebanho” (Citado por Santo Tomás de Aquino na sua Catena aurea, comentando este versículo da parábola).

Para salvar a ovelha cansada depois de vagar longamente, o Pastor divino não hesitará em se fatigar Ele mesmo por meio de sua Encarnação, por sua Paixão e por sua Morte na Cruz, para reintegrá-la ao redil.

De volta à casa ele convoca os amigos e os vizinhos e lhes diz: Alegrai-vos comigo, pois eu encontrei a minha ovelha que estava perdida” (v. 6).

Queremos destacar agora, de modo especial, esta alegria de que fala a parábola, como marco festivo da vitória de Cristo.

A conversão do pecador é motivo de alegria para o conjunto da humanidade pecadora, porque esse passa do pecado à justiça, da maldade à santidade.

É causa de alegria para o pecador individual, porque depois de renunciar à ilusão da autonomia, ele volta a encontrar a alegria da filiação divina.

É ocasião de alegria para os anjos, porque vêem como cresce o número dos santos no Céu.

É fonte de alegria para Deus que quer – e com que trabalhos! – a salvação da ovelha que se havia perdido.

A alegria do Pastor, como todas as grandes alegrias, transborda da alma e pede para ser comunicada. Imediatamente ao entrar em sua casa ele reúne seus amigos e seus vizinhos para comunicar-lhes seu sucesso, para receber as felicitações, como se esta ovelha perdida fosse toda a riqueza que ele possuía, como se ele tivesse olhos só para ela: “encontrei a minha ovelha, aquela que estava perdida”.

A alegria do triunfo ultrapassa a ovelha beneficiada e os anjos para invadir a alma do Pastor.

Alí encontra a seus amigos e vizinhos, isto é, os coros dos anjos, que são seus amigos, pois cumprem indefectivelmente sua vontade, e são também vizinhos seus porque nesta assiduidade gozam da visão clara Dele”. E não lhes diz simplesmente “alegrai-vos com a ovelha perdida”, mas diz “alegrai-vos comigo”, porque na verdade “nossa vida é sua alegria; quando vamos ao Céu completamos a festa de sua alegria” (São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos, livro II, homilia 14, 3).

O exemplo de mansidão que Nosso Senhor nos deixa

Existe uma preocupação imensa dos anjos com os homens. O afastamento do homem pelo pecado, a ruptura do louvor sinfônico, a impossibilidade de comunicação produzem neles uma espécie de tristeza, e a reintegração do pecador por meio do arrependimento repercute neles causando uma alegria indescritível.

Assim, eu vos digo, haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de arrependimento” (v. 7).

Pela fórmula “assim, eu vos digo” Nosso Senhor introduz a aplicação que Ele fará da parábola.

Nossa conversão causa alegria aos anjos. Eles não podem ter inveja do nosso bem, eles não podem entristecer-se da ajuda que recebemos de Deus:

Os anjos, como seres racionais, se alegram também da redenção que os homens não mereciam” (S. Ambrósio, citado por Santo Tomás na sua Catena Aurea ao comentar este versículo).

Alguns comentadores, desejando facilitar a compreensão da parábola, tomaram estas últimas palavras num sentido irônico, como se Nosso Senhor quisesse dizer que uma única verdadeira conversão suscita no Céu mais alegria do que a santidade aparente de um grande número de autodenominados “justos”, como eram os fariseus.

Nós preferimos ficar com o que disseram os Santos Padres, que vêem aqui, conforme o contexto, um modo oriental de falar e que não deve ser apertado na tentativa de buscar um sentido que não tem:

O general no combate estima mais o soldado que, depois de ter fugido, volta e combate mais vigorosamente o inimigo, do que aquele que nunca fugiu mas que nunca agiu com valentia. Assim também o agricultor ama mais aquela terra que, depois de ter dado espinhos, dá frutos excelentes do que aquela que nunca deu espinhos, mas que também nunca deu colheitas abundantes” (Santo Gregório Magno, Homilia XXXIV sobre os Evangelhos).

A mansidão é uma virtude belíssima, da qual Cristo mesmo quis se dar por como modelo: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (S. Mateus, 11, 29).

Dissemos acima que para salvar a ovelha, cansada depois de vagar longamente, o Pastor divino não hesitará em se fatigar Ele mesmo, por meio de sua Encarnação, por sua Paixão e por sua Morte na Cruz, para reintegrá-la ao redil.

Como Nosso Senhor sofreu mil impertinências dos Apóstolos, suas ignorâncias, seus egoísmos, suas incompreensões. Ele os instruiu gradativamente, sem exigir imediatamente uma perfeição superior às suas forças. Ele os defende das acusações dos fariseus, mas os repreende quando buscam afastá-lo das crianças ou quando pedem fogo do céu para castigar um povo. Repreende São Pedro por sua ira no horto, mas perdoa facilmente sua tríplice negação, reparada com três simples manifestações de amor.

Aconselha os Apóstolos para que tenham mansidão com todos, perdoem até setenta vezes sete (ou seja, sempre), para que sejam simples como as pombas, cordeiros entre lobos, deem o bem pelo mal recebido, rezem por aquelas pessoas mesmas que os perseguem e amaldiçoam.

Fala com doçura e serenidade à multidão. Nada de vozes intempestivas, de gritos descompassados, de ameaças furiosas. Não apaga a mecha que ainda fumega, não quebra a cana já rachada. Oferece a todos o perdão e a paz, multiplica as palavras da misericórdia, abençoa as crianças, abre seu coração para que encontremos nele alívio e repouso.

Leva ao extremo mais incrível sua doçura e mansidão com os pecadores. Perdoa a Madalena no instante mesmo em que ela pede perdão, a adúltera que tinha em si sete demônios! Converteu a Samaritana com sua bondade e delicadeza. Oferece o perdão a Judas, tratando-o pelo doce nome de amigo no instante mesmo em que este o traía e o entregava aos que o matariam.

Como Bom Pastor, vai em busca da ovelha perdida e a coloca com alegria sobre os ombros. Recebe o filho pródigo com uma acolhida tão generosa que chega a levantar a inveja do outro irmão.

O Padre Tanquerey, no número 1164 do seu Compêndio de Teologia ascética e mística, nos diz como aplicarmos em nós o exemplo que Nosso Senhor nos deu:

Para imitar Nosso Senhor, evitemos as disputas, as frases intempestivas, as palavras ou ações bruscas que possam fazer dano, para não afastarmos os tímidos. Tenhamos muito cuidado para nunca devolver o mal pelo mal, de não destruir ou quebrar alguma coisa por termos sido bruscos, de não falar quando estamos irados. (...) suavizar com algumas boas obras as repreensões que tivemos que dar (...)”.

Há situações em que a ira se impõe e nas quais renunciar a ela seria pecar contra a justiça ou contra a caridade, que são virtudes mais importantes do que a mansidão.

Mas acontece que, sendo muito fácil enganar-se na apreciação e no julgamento dos motivos justos que exijam a ira, e sendo muito fácil perder o controle no exercício dela, temos que estar sempre vigilantes e alertas para não sermos surpreendidos pelo ímpeto da paixão e controlar suas manifestações dentro dos limites que a inteligência iluminada pela fé nos mostra.

No caso de dúvida é melhor inclinar-se para o lado da doçura e da mansidão do que para o lado do rigor excessivo.

Os santos souberam aplicar com sabedoria a lição de mansidão e de misericórdia que Nosso Senhor nos deixou. Quem ler a vida de qualquer um deles poderá ver e compreender bem esta lição, porque a vida dos santos torna materializado e concreto o que nos Evangelhos está escrito.

São Felipe Neri aconselhava sem cessar aos seus fiéis de que lessem sempre as biografias dos santos. Ele sabia que esta era uma prática eficacíssima para acender nas almas o desejo de imitar a Nosso Senhor, porque as lições teóricas dadas nos Evangelhos se encarnavam neles e se mostravam realizáveis.

Aprendamos de Cristo a misericórdia para com os pecadores, lição que nos foi dada pela mesma Sabedoria de Deus feito homem:

Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”.


    Para citar este texto:
"Uma parábola sobre a misericórdia de Deus: a ovelha desgarrada (parte 4 e final)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/uma-parabola-sobre-a-misericordia-de-deus-a-ovelha-desgarrada-parte-4-e-final/
Online, 21/10/2017 às 04:54:43h