Religião

Uma parábola sobre a misericórdia de Deus: a ovelha desgarrada (parte 3)
O pastor de toda a criação espiritual, tendo deixado nas alturas o rebanho sobrenatural que não se perdeu, vai por amor buscar a ovelha perdida”.
Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre a misericórdia de Deus, parte 1 e parte 2.

Mario Silva Martins

O Pastor deixa as noventa e nove ovelhas Após o pecado e o abandono do redil segue-se a peripécia central, espetacular aos olhos humanos: “O pastor de toda a criação espiritual, tendo deixado nas alturas o rebanho sobrenatural que não se perdeu, vai por amor buscar a ovelha perdida” (São Gregório de Nissa, Contra Eunômio, l. XII). Mas como pode ser que o Pastor abandone todas as demais ovelhas, mostrando caridade somente com uma delas? São Cirilo de Alexandria (Comentário ao Evangelho de São Lucas, capítulo 15, 4) responde que não houve tal falta de caridade, uma vez que as demais ovelhas encontravam-se tranquilas no redil, em total segurança, guardadas por Deus. Mas quanto à ovelha perdida parecia que a compaixão era a conduta própria a se tomar, “para que não permanecesse incompleto o resto das criaturas; uma vez recolhida esta, o número cem recobra sua perfeição”. E prossegue com uma comparação que ajuda a esclarecer melhor o assunto: “Suponhamos uma casa onde vivem muitas pessoas, e um dia uma delas fica doente. Em benefício de quem se chamará um médico? Não será em favor do único que está doente? E desta maneira, sem nenhuma falta de cuidado pelos demais, oferece ao único enfermo a ajuda do médico chamado, pois assim pede a ocasião e a necessidade. Precisamente, de modo semelhante convinha a Deus, o Senhor universal, que oferecesse uma mão salvadora à ovelha que errava; e realmente o sumo Pastor a salvou, porque quando andava errante a buscou, e estabeleceu para nós um redil seguro, inacessível às feras e aos ladrões, ou seja, a Igreja. Admirando-a dizemos com razão juntamente com o profeta: Temos uma cidade forte; para proteção lhe colocaram muros e antemuro” (Isaías 26, 1). “Deixar o que é grande e buscar o que menor é próprio do poder de Deus, não da ambição humana. Deus, as coisas que não são Ele faz com que sejam, e busca de tal modo o perdido que não perde o que conserva” (São Pedro Crisólogo, Sermão 168).   O Pastor busca a ovelha A nossa ovelha rebelde buscou a aventura da autonomia, da libertação de Deus. Deu as costas para o cúmulo de benefícios recebidos e foi em direção aos pastos proibidos, às seduções do mundo. Agora, longe do rebanho, vaga errante, totalmente desorientada, em meio aos espinhos e exposta aos animais ferozes, tendo como única perspectiva cair na boca de um lobo, se ninguém vier resgatá-la. Satanás a envolverá de trevas cada vez mais espessas até que, perdendo totalmente a esperança em Deus, ela termine se perdendo definitivamente. O Verbo decide fazer-se carne, a eternidade decide entrar no tempo, na história, cujo curso dirigia-se inevitavelmente à ruína. O gênero humano andava, como ovelha errante, durante todos os séculos que existiram entre a caída do primeiro Adão e a vinda do segundo Adão. Cristo, nova cabeça do gênero humano, substituirá a cabeça machucada que era Adão e, deste modo, assumindo uma nova condução, mudará o curso da história e lhe dará um final feliz. Em latim a palavra “cabeça” é dita “caput”. Desta palavra virá o termo “recapitulatio”, isto é, recapitulação. Por isso, Santo Irineu de Lyon, um dos mais veneráveis Padres da Igreja, dirá que a totalidade da obra redentora de Deus é uma recapitulação. Ora, nesta obra de “recapitulação”, Santo Irineu atribui à Santíssima Virgem um papel de destaque pois, se é certo que Cristo é aquele que corrigiu Adão, também é certo que Maria tem o mesmo papel em relação a Eva. Assim, de maneira tão inesperada quanto interessante, Santo Irineu relaciona o papel de Nossa Senhora com a busca da ovelha perdida: “Assim como o homem foi ferido, caiu e morreu por obra de uma virgem [Eva] que tinha desobedecido, assim também, reanimado o homem por obra da virgem que obedeceu à palavra de Deus, recebeu a Vida. Pois o Senhor veio buscar a ovelha que se perdera. O homem havia se perdido. De onde Ele não se fez outra carne, mas daquela mesma que trazia origem de Adão e dela conservou a semelhança, porque era preciso que Adão fosse recapitulado em Cristo, para que o mortal fosse absorvido e devorado pela imortalidade e que Eva [fosse recapitulada] em Maria, a fim de que uma virgem, fazendo-se advogada de uma virgem, destruísse e abolisse a desobediência de uma virgem pela obediência de uma virgem” (Demonstração 33). Quando Maria deu a Cristo sua carne, deu-Lhe a mesma carne de Adão, mas isenta de pecado, o que permitiu a Cristo entrar no fluxo da humanidade e resgatar, dentro da história, a ovelha que tinha se perdido.

    Para citar este texto:
"Uma parábola sobre a misericórdia de Deus: a ovelha desgarrada (parte 3)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/uma-parabola-sobre-a-misericordia-de-deus-a-ovelha-desgarrada-parte-3/
Online, 21/11/2017 às 06:20:53h