Religião

Um milagre de Nosso Senhor - a cura de um hidrópico - e as disputas com os fariseus

Nosso Senhor cura no sábado para combater uma tradição sem inteligência.  

Mario Silva Martins

Introdução No contexto das disputas entre Nosso Senhor e a seita dos fariseus está o milagre da cura de um hidrópico, que São Lucas nos deixou. Nós encontramos, novamente, Nosso Senhor presente a uma refeição na casa de um fariseu. Desta vez nos chegou o diálogo que houve durante esta ceia. Ele revela bem o espírito de Nosso Senhor, que deixa transparecer sua alma em cada lição e, como sempre, cada palavra dos Evangelhos contém uma fonte profunda de água limpa, que sacia nossa inteligência e nos aumenta o amor por Deus. O milagre que comentaremos foi feito por Nosso Senhor entre os meses de janeiro e fevereiro do ano 30, de dois a três meses antes da sua Paixão.   Jesus na casa de um fariseu num dia de sábado e a cura de um hidrópico "E aconteceu que Jesus entrou na casa de um dos chefes dos fariseus, num dia de sábado, para comer pão; e eles o observavam" (São Lucas 14, 1). "E aconteceu", nos diz São Lucas. Não sabemos nem o lugar, nem a data exata. Em todo caso, é mais razoável supor que a casa de um dos principais fariseus, na qual Cristo entra agora, fique na Judéia e não na Galileia. "Jesus entrou na casa de um dos chefes dos fariseus". Este chefe era um membro influente do grupo dos fariseus. Os fariseus, enquanto grupo, não possuíam chefes oficiais, pois não eram um grupo oficial. A expressão "chefe dos fariseus" não deve ser tomada ao pé da letra e significa simplesmente que o anfitrião era um homem influente dentro do grupo dos fariseus. Não temos nenhum motivo para ver nele um chefe de sinagoga, menos ainda um membro do Sinédrio. "Comer pão" é uma expressão própria do hebreu, bem conhecida, e designa uma refeição qualquer. É assim que Nosso Senhor, uma vez, repreendeu os fariseus dizendo: "Veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e vós dizeis: tem um demônio; veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: é um comilão e um bêbado, amigo de publicanos e pecadores" (São Lucas 7, 33-34). Ainda que, no Oriente, o costume seja o de entrar quem queira, parece difícil que Nosso Senhor tenha entrado na casa deste fariseu sem um convite formal. São Lucas, alguns capítulos antes, nos diz que Jesus, em outra ocasião, havia sido convidado por outro fariseu para comer. Nosso Senhor se pusera à mesa sem se lavar antes de comer, causando espanto ao fariseu. Foi o começo de uma série de repreensões de Nosso Senhor contra os fariseus e contra os doutores da lei, a ponto de ouvirem de Cristo: "Ai de vós, porque vós construís as tumbas dos profetas, quando vossos pais os mataram. Vós sois, portanto, testemunhas!" (São Lucas 11, 37-54). É estranho, pois, que um fariseu tenha convidado Nosso Senhor, depois de saber dessas repreensões feitas numa outra refeição na casa de um dos seus partidários. Considerando isso, e que Nosso Senhor se mostra aqui menos severo do que antes, podemos supor que o fariseu que o convida agora tem boas disposições para com Cristo e não partilha das mesmas más disposições dos outros. A refeição se dava num sábado. Esta circunstância é importante para a continuação do relato. O fato narrado por São Lucas é perfeitamente conforme com os costumes dos judeus, de festejar o sábado com uma refeição mais cuidada, mais copiosa, à qual eram convidados os parentes, os amigos, e mesmo os estrangeiros e os pobres. Os rabinos recomendavam que o sábado fosse acolhido com um vivo apetite, com uma mesa farta e vinho abundante. As cadeiras deviam ter almofadas macias e a mesa devia ser elegante. Às vezes estas festas terminavam em exageros, a ponto dos pagãos debocharem dos judeus, como nos relata Plutarco. Sem dúvida alguma a refeição era comida fria, pois a comida era cozida na véspera devido ao repouso sabático. "E eles o observavam". Podemos até imaginar, aqui, os diversos grupos de pessoas que prestam atenção em Nosso Senhor, vendo como se comporta e o que falará. "E eis que um homem hidrópico se encontrava diante dele". Um fato novo acontece: "eis que". Este homem certamente não era um conviva. Como dissemos, no Oriente entra em casa quem quiser. Querendo ser curado de sua doença, um hidrópico entra na casa do fariseu e coloca-se diante de Cristo. De acordo com os exegetas, o termo "hidrópico" significa aquela pessoa que sofre de "hidropsia". Os médicos explicam que o nome desta doença vem do grego (hydor, hydros: água) e ela se caracteriza pelo acúmulo anormal de líquido nos tecidos e nas cavidades naturais do corpo. As partes mais atingidas são geralmente o abdômen, o tórax, o cérebro, os rins, as pernas e a região em torno dos olhos. Atualmente o termo usado para exprimir este acúmulo anormal de líquido no corpo é "edema" e historicamente o termo "hidropsia" designava a causa principal dos edemas generalizados, a saber, a insuficiência cardíaca congestiva. A partir de certo ponto, a pessoa que sofre de insuficiência cardíaca tem muita dificuldade para respirar, sobretudo quando se deita de noite, e dorme com dificuldade. Sente-se como se estivesse se afogando. Os rins funcionam mal, porque não recebem sangue como deviam e os órgãos do abdômen ficam inchados, pelo excesso de água que se acumula nos tecidos. O termo que São Lucas aplica ao doente, hidrópico, não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento. É mais um termo que deixa transparecer a formação médica de São Lucas. Alguns chegaram a suspeitar de que este hidrópico tivesse sido levado até a refeição para servir de armadilha contra Nosso Senhor. Porém, o Padre Maldonado, jesuíta e grande exegeta, faz um comentário muito acertado a este versículo: "São Lucas, que faz questão de notar que todos observavam a Cristo, não teria calado aqui esta intenção, de deixar Cristo numa situação difícil, se ela existisse". Cremos, então, ser mais provável que o doente, aproveitando-se da liberdade dos costumes orientais, entrou por iniciativa própria na casa do fariseu com a esperança de ser curado. "E Jesus, tomando a palavra, disse aos doutores da Lei e aos fariseus: É permitido ou não curar no dia do sábado?" A nova situação despertou nos convidados a dúvida da moralidade de curar alguém no sábado. Fazê-lo seria ir contra a lei de Moisés? Porém, estes pensamentos permaneciam escondidos no fundo de suas almas. Nosso Senhor, que lê sempre no mais profundo das almas, se adianta e põe abertamente a todos a questão que por enquanto permanecia somente nos pensamentos mais secretos de seus adversários. Já em outra situação Nosso Senhor havia tomado a iniciativa em situação semelhante, deixando os fariseus no embaraço: "E aconteceu, em um outro dia de sábado, que Jesus entrou em uma sinagoga, e ele ensinava. E ali se encontrava um homem cuja mão direita era seca. Ora, os escribas e fariseus o olhavam para ver se ele curava no sábado, a fim de encontrar algo para acusá-lo. Mas ele conhecia seus pensamentos e disse ao homem que tinha a mão seca: Levanta-te e põe-te em pé, aqui no meio. Ele se levantou e ficou em pé. Disse-lhe Jesus: Pergunto-vos se no sábado é permitido fazer o bem, ou o mal; salvar a vida, ou deixá-la perecer. E relanceando os olhos sobre todos, disse ao homem: Estende tua mão. Ele a estendeu, e foi-lhe restabelecida a mão. Mas eles encheram-se de furor e indagaram uns aos outros o que fariam a Jesus" (S. Lucas 6, 6-11). Agora, aqui, a reação é de ficar em silêncio: "E eles se calaram". Tanto na cura do homem da mão seca quanto aqui o resultado foi o mesmo: os fariseus calaram-se. O grego é ainda mais forte: eles ficaram calmos e silenciosos. Não ousavam falar nem dar sinais de desagrado. Nosso Senhor, agora, ficava plenamente justificado diante de um silêncio assim. Se a cura que Cristo indicava querer fazer era algo ilegal, estes mestres de Israel, consultados publicamente, não eram obrigados a adverti-lo? "Então Jesus, tomando o homem pela mão, curou-o e despediu-o". Jesus não se deixa intimidar por um silêncio desagradável. Responde a sua própria questão de um modo prático. Depois de curado, Nosso Senhor o despede. Quer ele tenha sido trazido, quer tenha vindo por conta própria, ele já não tem mais nada a fazer naquela refeição. Notemos também que esta misericórdia de Nosso Senhor para com ele é mais uma prova da honestidade do doente. Por acaso Cristo o teria curado se ele fosse um comparsa dos fariseus, com más intenções? "E respondendo a eles, disse: Quem de vós, se o seu asno ou seu boi cai em um poço, não o retira imediatamente no dia do sábado?" Uma vez feito o milagre, Nosso Senhor legitima sua conduta por um raciocínio irrefutável. Cristo faz apelo ao modo de agir das pessoas mesmas que estavam presentes e mostra a contradição na qual eles caem quando, por um lado, o repreendem com tanta firmeza pelas curas que faz no sábado e, por outro lado, não têm receio, no mesmo dia, de se entregar a grandes trabalhos para retirar o próprio asno ou boi de um buraco. Não é possível deixar de ver aqui que a avareza e a falta de caridade estavam juntas naqueles que repreendiam Nosso Senhor. Se resgatavam um animal próprio no sábado, era por amor do bem que tinham, mas não eram capazes de ver a caridade que deviam ter para com o próximo que sofria. São Beda vê aqui um sentido espiritual também: "Cita como exemplo o boi e o asno significando os judeus, que estavam submissos ao jugo da lei, e os gentios, que não tinham inteligência alguma, porque o Senhor tira do poço da concupiscência todos aqueles que estão submergidos nele" (São Tomás de Aquino, Catena Áurea, comentário a este versículo). "E não podiam responder a essas coisas". Antes os judeus não responderam porque não quiseram. Agora não respondem porque estão completamente embaraçados. Que resposta podiam dar a um milagre e a um ensinamento assim? É deste modo que Nosso Senhor livrava, pouco a pouco, a instituição do sábado das observações mesquinhas sob as quais se asfixiava por causa de uma tradição sem inteligência. Hoje temos um problema diferente: temos a tradição da Igreja e a salvação das almas que se asfixiam sob uma pastoral sem inteligência.

    Para citar este texto:
"Um milagre de Nosso Senhor - a cura de um hidrópico - e as disputas com os fariseus"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/um-milagre-de-nosso-senhor-a-cura-de-um-hidropico-e-as-disputas-com-os-fariseus/
Online, 18/08/2017 às 07:50:42h