Religião

São Pedro pescava com anzol ou com rede?
Orlando Fedeli

     No quinto dia Deus fez os pássaros e os peixes (Cfr. Gen. I, 22, 23).
     E os peixes são mudos e vivem no abismo amargo do mar. E os pássaros cantam e voam para o céu. Mas Deus fez a ambos: os pássaros e os peixes.
     E assim é que os pecadores não cantam a glória de Deus e vivem no abismo amargo do pecado. Enquanto os santos cantam a glória de Deus e voam para o céu. Mas Deus criou a ambos: os santos e os pecadores. E Deus quer a salvação de todos.
     E por isso Jesus escolheu seus apóstolos entre os pescadores, porque eles deviam salvar os pecadores. E por isso está escrito nos Salmos: “Minha alma se alegra como um pássaro, porque escapou do laço do caçador”. E o caçador é o diabo que visa caçar os santos que cantam a glória de Deus e e impedir que eles voem para o céu.
     E assim é que está escrito que Cristo disse a Pedro para lançar suas redes para fazer a pesca milagrosa que salva 153 grandes peixes. Porque São Pedro não usava anzol, mas redes. Porque a rede não mata o peixe já que Deus quer a salvaçãp dos pecadores para que vivam.
     Mas São Pedro não usava anzol, pois que o anzol engana: oferece comida na isca e dá a morte com o ferro do anzol. E o anzol é torto. São Pedro usava rede. Ele não queria enganar. Deus visa apenas o bem. E por isso não é permitido oferecer um bem para causar uma mal. Nem enganar, apresentando o bem escondido atrás de um mal desejado pelos maus.
 
 
 

 

O Anzol do Pescador
 
 
 
 
     Tudo isso nos veio à mente, ao ler o complexo prefácio-apresentação escrito pelo Papa Bento XVI ao livro do Senador Marcello Pera, intitulado "Porque devemos dizer-nos cristãos".
 
     É um texto curto. São trinta linhas apenas. O Papa as escreveu agora em Novembro.
     O texto é curto, como um pavio de uma bomba. Vai desencadear uma explosão de comentários, e tudo indica que terá conseqüências bem importantes.
     Vai desencadear?
 
     Não.
     Já desencadeou um rio de comentários contraditórios.
     É um texto bem complicado. Para não dizer contraditório. Trinta linhas que darão o que falar. Marcarão a História.
     Publicamos esse texto do Papa em português e em italiano, no final deste artigo.
 
     Texto complexo.
     Texto contraditório.
 
     Por que contraditório?
     Porque ele parece anzol de pescador: é torto como anzol, e oferece isca e morte. Comida e ferro. Tortamente.
     Difícil é distinguir nele o que é propriamente o anzol e o que é a comida.
     Daí, os comentários contrastantes.
     Alguns, de chofre e muito de imediato, chamaram a atenção para a incrivel afirmação de Bento XVI de que o Liberalismo, condenado solenemente por tantos      Papas, é doutrina conciliável com o Catolicismo.
 
     Outros notaram que o Papa Bento XVI, nesse texto tão curto, condenou o diálogo ecumênico ao afirmar que “o diálogo inter-religioso no sentido estrito da palavra não é possível”.
 
     O Catolicismo é a religião que tem fundamento no Verbo, no Logos. É impossível o diálogo do Catolicismo com religiões que negam o Verbo, ou que negam a verdade objetiva, pois como bem notou Gianni Baget Bozzo, “onde não há logos, não pode haver diálogo”.
     Segundo o prefácio do Papa, o Liberalismo teria fundamento em Deus (Sic!?). E teria sido a base da formação da Europa. Essas afirmações não tem base nem histórica, nem doutrinária.
     Historicamente, o liberalismo, doutrina da Revolução Francesa de 1789 surgiu muitos séculos depois que a Europa, como fenômeno cultural e político, já existia há muito mais de mil anos.
     Doutrinariamente, o liberalismo é doutrina atéia ou indeferente a Deus e à religião, exigindo a completa separação entre o Estado e qualquer religião. O liberalismo tem como princípio a independência absoluta da razão individual e do Estado. E essa independência absoluta é particularmente com relação a Deus, a quem o Estado liberal não reconhece, e a quem o Estado liberal recusa prestar adoração, honra e reconhecimento.
O Liberalismo é Cesar recusando dar a Deus o que é de Deus. Por isso, Gregório XVI condenou a liberdade de  religião do Liberalismo como sendo um delírio (Mirari Vos). Por isso, Pio IX condenou solenemente o Liberalismo na encíclica Quanta Cura e no Syllabus, reprovando a liberdade de religião e a separação entre a Igreja e o Estado. Por isso, Leão XIII condenou a Liberdade de Religião, na encíclica Libertas. Por isso, São Pio X condenou o indiferentismo reigioso liberal do Sillon, na Notre Charge Apostolique. Por isso, Leão XIII condenou a Liberdade de Religião defendida pelo Americanismo, na encíclica Testem Benevolentiae. Por isso, Pio XI condenou o ecumenismo na encíclica Mortalium Animos. Porque o indiferentismo religioso do liberalismo leva e exige o ecumenismo.
     E, contra todas essa condenações, o Vaticano II defendeu a Liberdade de Religião e o ecumenismo. E fez isso por se basear nos erros do Modernismo. Fez isso adotando o método da Fenomenologia, que preconizava conhecer as coisas usando o método da epoché. Tal método consistia em colocar “entre parênteses” — não levar em conta -- o que ensina a Fé. Fazendo como se não existissem nem a  Fé em Cristo, e nem a Fé em sua única Igreja.
     Em trinta linhas, Bento XVI prefacia o livro do senador Marcello Pera, e nelas afirma que o Liberalismo e o cristianismo são inteiramente incompatíveis, e ao mesmo tempo condena o diálogo inter religioso — a alma do Vaticano II — o ecumenismo.
     Daí a perplexidade.
     Daí a contradição.
     O Liberalismo conduz à liberdade de religião, à tolerância religiosa. Ele é o inspirador do ecumenismo.
     Evidentemente, esse prefácio escrito por Bento XVI – é claro sem usar a infalibilidade papal – tem caráter político. Visou dar um indício de orientação da política do Papa, hoje.
     Qual é a isca nesse texto de Bento XVI?
     Que é o anzol?
     Bento XVI visou agradar aos católicos fiéis, condenado o diálogo ecumênico? Por que, então, defendeu a impossível união entre liberalismo e catolicismo?
     Bento XVI visou agradar os modernistas, defendendo o liberalismo? Por que, então, condenou sua tese preferida que é o diálogo ecumênico?
     Correndo, alguns articulistas se apressaram a salientar a defesa do liberalismo-cristão que Bento XVI defende contra o que ensinaram inúmeros Papas.
No dia seguinte, outros salientaram a condenação do diálogo inter religioso, a condenação do ecumenismo, que Bento XVI tinha defendido ainda há poucos dias.
     Para quem é o anzol, nesse texto de trinta linhas?
     Qual é verdadeira isca, nele?
     Noutras palavras: o que é afago político, nessas trinta linhas?
     O que é golpe mortal?
     É claro que - repetimos -- Bento XVI, ao fazer esse prefácio laudatório de um livro, não usou da infalibilidade papal. Escreveu um texto indicativo de suas intenções de governo. Indicou qual a direção que deseja imprimir a seu pontificado.
     Qual é então essa intenção: propagar o liberalismo-“cristão”, ou dar um golpe no diálogo ecumênico do Vaticano II?
     Propagar a democracia liberal, ou golpear o coração do Vaticano II: o ecumenismo?
     Que é a pílula nesse texto?
     O que é o dourado e o açúcar nessa pílula?
     Quem tem, hoje, força para resistir à pílula?
     A quem Bento XVI precisa afagar para que aceitem engolir a pilula, morder a isca?
     Será que Bento XVI quis fazer os católicos anti-liberais aceitarem uma democracia liberal-cristã –-- essas palavras urram de se ver unidas juntas por um hífen absurdo--- e para isso lhes ofereceu a isca de condenar o diálogo ecumênico?
     Ou Bento XVI quis oferecer aos modernistas ecumênicos do Vaticano II a isca da defesa do liberalismo-cristão – essa conjunção absurda e sempre condenada pela Igreja—para que o liberalismo cristão fosse para eles tão apetitoso que não reparassem na condenação do diálogo ecumênico?
     Quem está sendo liquidado: o anti-liberalismo ou o ecumenismo?
     Quem hoje é ameaça real: o liberalismo, ou o diálogo ecumênico proconizado pela Fenomenologia do Vaticano II?
      
     Quem mais urrará de dor, os anti liberais e anti modernistas, ou os modernitas?
 
     Voltaremos, logo mais, a comentar esse texto capital para compreender a política de Bento XVI
 
São Paulo, 27 de Novembro de 2008.
Orlando Fedeli
 

 
 
 
BENTO XVI:
 
 
 
O DIÁLOGO ENTRE AS RELIGIÕES NÃO É POSSÍVEL.
 
 
 
NÃO SE PODE COLOCAR A FÉ ENTRE PARÊNTESES

Caro Senador Pera, nestes dias pude ler o Seu novo livro Porque devemos dizer-nos cristãos. Foi para mim uma leitura fascinante. Com um conhecimento estupendo das fontes e com uma lógica cogente, V. Senhoria analisa a essência do liberalismo a partir de seus fundamentos, mostrando que à essência do liberalismo pertence seu radicamento na imagem cristã de Deus: a sua relação com Deus de quem o homem é imagem e de quem recebemos o dom da liberdade. Com uma lógica irrefutável V. Senhoria faz ver que o liberalismo perde a sua base e destrói a si mesmo, se abandona esse seu fundamento. Não menos impressionado fiquei por sua análise da liberdade e pela análise da pluriculturalidade na qual V.Senhoria mostra a contraditoriedade interna deste conceito e portanto a sua impossibilidade politica e cultural. De importância fundamental é sua análise do que podem ser a Europa e uma Constituição européia na qual a Europa não se trasforme numa realidade cosmopolita, mas encontre, a partir de seu fundamento cristão-liberal, a sua própria identidade. Particularmente significativa é também para mim a sua análise dos conceitos de diálogo interreligioso e intercultural.

V.Senhoria explica com grande clareza que um diálogo interreligioso no sentido estrito da palavra não é possível, enquanto muito mais urge o diálogo intercultural que aprofunda as conseqüências culturais da decisão religiosa de fundo. Enquanto sobre esta última um verdadeiro diálogo não é possível sem por entre parênteses a própria fé, é preciso enfrentar no confronto público as conseqüências culturais das decisões religiosas de fundo. Aqui o diálogo e uma mútua correção e um enriquecimento mútuo são possíveis e necessários. Da contribuição sobre o significado de tudo isso para a crise contemporânea da ética considero importante o que V.Senhoria diz sobre a parábola da ética liberal. V.Senhoria  mostra que o liberalismo, sem deixar de ser liberalismo, mas, ao contrário, para ser fiel a si mesmo, pode coligar-se com uma doutrina do bem, em particular com a cristã que lhe é congênere, oferecendo verdadeimente assim uma contribuição para a superação da crise. Com sua sóbria racionalidade, sua ampla informação filosófica e a força da sua argumentação, o presente livro é, na minha opinião, de fundamental importância nesta hora da Europa e do mundo. Espero que ele tenha larga acolhida e ajude a dar ao debate político, mais além dos problemas urgentes, aquela profundidade sem a qual não podemos superar o desafio de nosso momento histórico. Grato pela Sua obra lhe desejo de coração a bênção de Deus.
 
 
 
Bento XVI

23 de Novembre de 2008(última modificação: 24 de Novembre 2008)

 
 
 
Il dialogo tra le religioni non è possibile. La fede non si può mettere tra parentesi

Caro Senatore Pera, in questi giorni ho potuto leggere il Suo nuovo libro Perché dobbiamo dirci cristiani. Era per me una lettura affascinante. Con una conoscenza stupenda delle fonti e con una logica cogente Ella analizza l’essenza del liberalismo a partire dai suoi fondamenti, mostrando che all’essenza del liberalismo appartiene il suo radicamento nell’immagine cristiana di Dio: la sua relazione con Dio di cui l’uomo è immagine e da cui abbiamo ricevuto il dono della libertà. Con una logica inconfutabile Ella fa vedere che il liberalismo perde la sua base e distrugge se stesso se abbandona questo suo fondamento. Non meno impressionato sono stato dalla Sua analisi della libertà e dall’analisi della multiculturalità in cui Ella mostra la contraddittorietà interna di questo concetto e quindi la sua impossibilità politica e culturale. Di importanza fondamentale è la Sua analisi di ciò che possono essere l’Europa e una Costituzione europea in cui l’Europa non si trasformi in una realtà cosmopolita, ma trovi, a partire dal suo fondamento cristiano-liberale, la sua propria identità. Particolarmente significativa è per me anche la Sua analisi dei concetti di dialogo interreligioso e interculturale.

Ella spiega con grande chiarezza che un dialogo interreligioso nel senso stretto della parola non è possibile, mentre urge tanto più il dialogo interculturale che approfondisce le conseguenze culturali della decisione religiosa di fondo. Mentre su quest’ultima un vero dialogo non è possibile senza mettere fra parentesi la propria fede, occorre affrontare nel confronto pubblico le conseguenze culturali delle decisioni religiose di fondo. Qui il dialogo e una mutua correzione e un arricchimento vicendevole sono possibili e necessari. Del contributo circa il significato di tutto questo per la crisi contemporanea dell’etica trovo importante ciò che Ella dice sulla parabola dell’etica liberale. Ella mostra che il liberalismo, senza cessare di essere liberalismoma, al contrario, per essere fedele a se stesso, può collegarsi con una dottrina del bene, in particolare quella cristiana che gli è congenere, offrendo così veramente un contributo al superamento della crisi. Con la sua sobria razionalità, la sua ampia informazione filosofica e la forza della sua argomentazione, il presente libro è, a mio parere, di fondamentale importanza in quest’ora dell’Europa e del mondo. Spero che trovi larga accoglienza e aiuti a dare al dibattito politico, al di là dei problemi urgenti, quella profondità senza la quale non possiamo superare la sfida del nostro momento storico. Grato per la Sua opera Le auguro di cuore la benedizione di Dio.
Benedetto XVI

    Para citar este texto:
"São Pedro pescava com anzol ou com rede?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/sao-pedro-anzol-rede/
Online, 12/12/2017 às 16:21:39h