Religião

Santiago, o Cavaleiro da Piedade
 

 

"Herru Sanctiagu Grot Sanctiagu E ultreya e suseya Deus aia nos"[1]

  Santiago! Este era o grito de guerra que os mouros ouviam antes de suas derrotas frente aos cristãos nas batalhas sem quartel da Reconquista. Foi o grito de guerra mais difundido no tempo e no espaço em toda a história. Desde que Beato de Liébana, valoroso defensor da fé, na montanhosa Astúrias, no final do séc. VIII, evocou o nome do apóstolo como patrono da Reconquista até o século XX, Santiago foi invocado para a defesa da fé nas guerras espanholas e portuguesas. No começo do séc. IX, os restos mortais de Santiago foram achados num local chamado de Campos de Estrelas, futuro Compostela, na Galícia. Uma igreja foi construída e logo se tornou objeto de peregrinação, o famoso “caminho”, rota que conheceu vários milagres ao longo de sua história. Em Clavijo, meados do séc. IX, o apóstolo apareceu montado num corcel branco e ajudou os católicos a destroçar as hostes mouras. Passou a ser conhecido como “matamoros” e a ser representado como um cavaleiro, o cavaleiro da piedade. Após este evento, todas as Espanhas passaram a ser vassalas do filho do trovão (bonaerges, como era também conhecido o apóstolo). Na batalha de Navas de Tolosa, séc. XIII, que teve a proporção de mais de quatro mouros para cada cristão, seu nome foi invocado, como:  “Santiago y cierra, España”. Na esplêndida batalha de Salado, séc. XIV, os mouros também foram derrotados e as lamentações do rei vencido Dom Juçaf foram transformadas em versos:

Santiago el de España.

los mis moros me mató,

desbarató mi compaña,

la mi seña quebrantó...

 

Santiago glorio

solos moros fizo morir;

Mahomat el Perezoso,

tardo, non quiso venir

  Já nos tempos das grandes navegações portuguesas, nas vitórias do além-mar, os barões assinalados berraram com sucesso seu nome, até no meio do mar Vermelho e em Ormuz. Os mouros devem ter se perguntado: até aqui? No interior da África, os congoleses convertidos e aliados dos lusos evocavam Santiago contra os inimigos. Certa vez, uma cruz apareceu no alto para sinalizar a vitória. Na distante Índia e na longínqua Málaca, os lusitanos, mais bem  armados com a fé que com as espadas e liderados por Afonso de Albuquerque, gritavam: “por Santiago!”. No Japão, os japoneses católicos que resistiam à perseguição brutal, na luta também gritavam “Santiago”. No planalto Etíope, o grito também ecoava. Na conquista do Império Asteca, os espanhóis com cruz no peito, liderados por Cortés, gritavam seu nome. No Peru com Pizarro, o grito de guerra não era outro senão “Santiago!”. Nas batalhas na Argentina e no Chile também se ouvia o grito, às vezes se dizia Nuestra Señora, Santiago y a ellos! No século XIX, numa Espanha alquebrada pelo vício do liberalismo, os carlistas, que formavam um bastião da cristandade feudal, berravam “Santiago!”. Conta-se que até no triste século XX ouviu-se a voz, pela última vez, na Guerra Civil espanhola. Porém, a relação de Santiago com as Espanhas começou antes da Reconquista. O apóstolo fora enviado para converter a então província romana da Hispânia. Ele criou o bispado de Braga, então Bracara Augusta e depois foi para Zaragoza, então Caesaraugusta, onde lhe apareceu Nossa Senhora, que ainda vivia na Palestina, em cima de um Pilar. Durante a Reconquista, criou-se a ordem militar de Santiago e seu símbolo pode ser interpretado como uma cruz espatária ou como uma espada crucífera. Belíssima harmonia e união deste par invencível, a Cruz e a espada, tão marcante em toda a história da Igreja. Seus membros eram conhecidos pelos belos e sugestivos nomes de espatários ou santiaguistas. Espatário também significava aquele que cuida das espadas do rei. Ora, o maior dos reis, Cristo, não mandou que quem não tivesse uma espada vendesse sua capa e comprasse uma? Pois bem, os espatários, vassalos do apóstolo, usavam as espadas para defender Cristo crucificado. Não a desembainhavam sem motivo, não a guardavam sem honra lavada em sangue. O Brasil é herdeiro destes tempos, ainda que isto não seja reconhecido hodiernamente. Ecos de um tempo glorioso forjado no sangue derramado por causa da verdadeira fé. Como tudo isto soa estranho para os ouvidos ecumênicos de hoje. Lutar contra os hereges? Existem hereges? Cruz e Espada? Há cruz a ser carregada e há espada a ser empunhada? Guerra piedosa? Existe guerra justa? Não seria melhor o famoso “diálogo”? Se houvesse o “diálogo” na época da Reconquista, não haveria nem Portugal nem Espanha nem o Brasil nem estaríamos aqui e/ou não seríamos católicos. Graças a Deus que o diálogo é coisa recente... Por Santiago!   Na festa de Santiago, o primeiro, entre os apóstolos, a derramar sangue por Cristo. Ele é padroeiro da Espanha, da Reconquista e dos cavaleiros.   Marcelo Andrade   São Paulo, 25 de julho de 2014.  

[1] Canção dos peregrinos do caminho de Santiago de Compostela (ouvir uma versão aqui). Tradução: “Senhor Santiago, Bom Santiago, Para frente e para cima, Proteja-nos, Deus”. “Ultreya e suseya” também era grito dos cruzados.

    Para citar este texto:
"Santiago, o Cavaleiro da Piedade"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/santiago-o-cavaleiro-da-piedade/
Online, 29/03/2017 às 10:17:51h