Religião

Padre Joãozinho, "por que buscais a mentira?"
Ronaldo Mota

 
“Eucaristia, acontecimento ritual que nós, católicos, chamamos de ‘presença real de Cristo’. O que é a presença real? A matéria consagrada? O pão e o vinho somente? Não. Juntamente com as duas substâncias está o bonito e sugestivo significado da ausência.”. (Pe. Fábio de Melo)[1]
 
Pera aí, eu falei, você está bebendo... esta bebendo vinho materialmente. Substancialmente você está se alimentando do sangue de Cristo. Sangue na Bíblia significa vida. (...) A pessoa confundiu transubstanciação com transmaterialização. Tanto que, lá naquele milagre eucarístico de Lanciano, na Itália, no norte da Itália, o corpo e o sangue de Cristo viraram carne e sangue. É um milagre eucarístico, está até hoje preservado lá. Só que a Igreja não preserva mais no sacrário, e ninguém poderia comungar aquilo. A Igreja tem consciência de que aquilo não é mais Eucaristia. Opa! Não é Eucaristia por quê? Porque não é mais pão e vinho. Agora é carne e sangue. Nós não somos antropófagos. A Eucaristia não é antropofagia. Não é comer carne e beber sangue.”. (Pe. Joãozinho)[2]
 
 
Fuga sinuosa de Pe. Joãozinho
 
     Infelizmente, diante dos ataques a seus erros, Pe. Joãozinho fala ambiguamente e sinuosamente resiste à verdade. Lamentável, pois resistir à verdade é buscar a mentira.
 
     Segundo Pe. Joãozinho: “Não podemos dizer com exatidão que existem duas substâncias, a do pão e a do vinho; ou a do corpo e a do sangue. Alguém poderia afirmar isso utilizando o conceito do senso comum de substância como “algo”, “alguma coisa”, porém não seria exato. Cabe na poesia mas não na teologia.”.[3]
 
     Evidentemente, Pe. Joãozinho tenta salvar Pe. Fábio de Melo afirmando que não é exato falar de duas substâncias na Eucaristia, embora poeticamente seja possível.
 
     Disso podemos concluir o seguinte:
 
1. Não podemos dizer, com exatidão, que na Eucaristia existem duas substâncias, a do pão e do vinho; ou a do corpo e do sangue.
 
2. Pe. Fábio de Melo, por licença poética, foi inexato ao falar da Eucaristia.
 
     Porém, a sinuosidade terminológica ou poética não os salvou, mas apenas explicitou – tristemente – o erro e a malícia desses padres. Pois, no primeiro caso, eles continuam supondo que se possa falar de substâncias de pão e de vinho na Eucaristia. Porém, falar de substâncias de pão e de vinho na Eucaristia não é apenas inexato, mas errado e herético![4] No segundo caso, Pe. Joãozinho tentou – absurdamente – fugir das definições teológicas para a liberdade da forma poética, onde talvez pudesse falar inexatamente e subtrair-se sinuosamente às acusações. Mas a poesia não é refúgio da mentira, e ainda que estivéssemos falando de poesia – que não é o caso – tratar-se-ia de uma poesia herética e nada mais.
 
     Por fim, é preciso lembrar que segundo Pe. Fábio de Melo e Pe. Joãozinho a presença real está também no pão e no vinho[5], enquanto a fé católica afirma que a presença real existe quando não há mais pão e vinho.
 
     Mas Pe. Joãozinho disfarça... Desvia e foge de uma maneira tortuosa:
 
     “Outra palavra que o senso comum confunde é “matéria”. Nossos opositores apegaram-se a afirmações em que utilizamos o termo com significado de acidente e não de essência,      portanto na acepção do senso comum, para que o povo entenda.”.[6]
 
     Portanto:
 
1. Quando ele fala ‘matéria’ devemos entender ‘acidente’.
 
2. Fala desse modo para facilitar a compreensão do povo.
 
     Que nos perdoe o Pe. Joãozinho, mas isso não é honesto. Ele afirmou claramente que a Eucaristia “não é comer carne e beber sangue”. Levando-nos a crer que se comecemos carne e bebêssemos sangue seriamos antropófagos. E ao falar da Eucaristia fez questão de notar que “sangue na Bíblia significa vida”, ao contrário de Nosso Senhor que enfatizou: “meu sangue é verdadeiramente bebida” (Jo VI, 56). Ademais, todas suas afirmações estariam coerentes entre si e com todo seu discurso se ao utilizar o termo ‘matéria’ ele entendesse com isso ‘matéria’. Contudo, Pe. Joãozinho não teve a retidão de reconhecer que errou, escapando sinuosamente. Mas quem não reconhece que errou defende o erro.  
 
     Primeiramente, não somos obrigados a entender ‘acidente’ quando ouvimos ‘matéria’. Pe. Joãozinho falou mal, ensinou uma heresia e devia retratar-se. Entretanto, ainda que trocássemos ‘matéria’ por ‘acidente’, a afirmação continuaria errada. Vejamos como ficaria uma de suas afirmações depois dessa troca: “você está bebendo vinho acidentalmente.”.
 
     Errado. Na Eucaristia não se bebe vinho acidentalmente, mas sangue realmente. Sangue e não vida.
 
     Logo depois, Pe. Joãozinho afirmou:
     
     “A pessoa confundiu transubstanciação com transmaterialização.”. Trocando: “A pessoa confundiu transubstanciação com transacidetalização.”.                            
 
     Nesse caso sua afirmação ficaria absolutamente sem sentido, visto que a pessoa não afirmou estar vendo o corpo de Nosso Senhor com seus acidentes particulares e não mais os acidentes de vinho! Ela afirmava, simplesmente, que na Eucaristia tomamos o sangue de Cristo e não uma bebida alcoólica. O que é correto, ainda que seja uma palavra dura para Pe. Joãozinho.
 
     Vemos, portanto, que a troca feita por Pe. Joãozinho não o salvou do erro. Quando muito tornou suas afirmações absurdas e seu discurso mais confuso. Por outro lado, se entendermos o termo ‘matéria’ como ele deve ser entendido, ou seja, como ‘matéria’, a explicação de Pe. Joãozinho fica perfeitamente compreensível e claramente herética.
 
     Por fim, se Pe. Joãozinho queria falar desse modo para o povo entender ele conseguiu exatamente o contrário! O que todo mundo entendeu, como não podia deixar de ser, é que Nosso Senhor não está materialmente na Eucaristia! O que é heresia! Onde já se viu falar heresia para defender a ortodoxia?! Onde já se viu falar mentira para que o povo entenda a Verdade?! Se Pe. Joãozinho quisesse falar claro, bastaria repetir o que o catecismo ensina:
 
     “Que é o Sacramento da Eucaristia?
 
     A Eucaristia é um Sacramento que, pela admirável conversão de toda a substância do pão no Corpo de Jesus Cristo, e de toda a substância do vinho no seu precioso Sangue, contém      verdadeira, real e substancialmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, debaixo das espécies de pão e vinho, para ser nosso alimento      espiritual.”.[7]
 
     Não é simples? O povo entende, pode acreditar! Notemos que o catecismo fala de ‘espécies’ sem confundir ninguém. Só alguém que não acredita que comungar é comer carne e beber sangue encontra dificuldade nessa definição.                                
 
     Pe. Joãozinho tenta fugir das acusações sem recusar seu erro. Por isso, corre em zig-zag torcendo as palavras e seus sentidos...
 
     Segundo Padre Joãozinho, ‘substância’ é um termo “que todo católico deve conhecer para entender a doutrina da Igreja sobre a Eucaristia.”.[8] Mas o que Pe, Joãozinho entende por substância?
 
     “Literalmente significa “sub-stare”, ou seja, o que está sob o sujeito e lhe dá a identidade.”.[9]
 
     Mais isso não é substância!
 
     Como nos explica o Pe. Hugon: “há em toda criatura composição real de sujeito subsistente com as formas que lhe são acrescidas secundariamente, isto é, os acidentes;”.[10]
 
     Exatamente por isso: “Ela é justamente chamada o sujeito subsistente, que não tem outro fundamento que ele mesmo, e serve de base a todas as realidades que lhe vêm ornar, como formas secundárias.”.[11] Logo, a substância não está sob o sujeito, mas é o sujeito subsistente. Portanto, se todo católico deve entender o termo ‘substância’ para compreender a doutrina da Igreja sobre a Eucaristia, está provado que Pe. Joãozinho não sabe o que é Eucaristia, pois não sabe o que significa substância!
 
     Infelizmente, as imprecisões e erros – não poéticos, mas teológicos e filosóficos – desses padres são muitos. Nesse artigo fizemos questão apenas de identificar os caminhos tortuosos que o Pe. Joãozinho buscou para permanecer na mentira.
 
     Que Deus tenha misericórdia deles. De nossa parte lhe perguntamos:
 
     Por que buscais a mentira?   
 
São Paulo, 14 de agosto de 2009
                    Ronaldo Mota


[1] MELO, Fábio de, CHALITA, Gabriel. Cartas entre amigos. São Paulo: Ediouro. 2009. p. 31 (o negrito é nosso).
[3] Cf. O conceito de “subistância”. Pe. Joãozinho. Encontrado em: http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/2009/08/09/o-conceito-de-substancia/ (11/08/09 – negrito nosso). 
[4]Como conseqüência devemos admitir que não remanesce coisa alguma da substância do pão. Foi esta razão que levou os Padres e Teólogos da antiguidade a confirmarem abertamente a verdade desde dogma, pelos decretos do Concílio Ecumênico de Latrão e do Concílio de Florença. Mais explícita, porém, é a definição do Concílio Tridentino: “Seja anátema quem disser que no sacrossanto Sacramento da Eucaristia remanesce a substância do pão e do vinho, juntamente com o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Catecismo Romano. Parte II. Cap. IV, 35-36 (negrito nosso).
[5] Cf. textos e o vídeo das notas 1 e 2. Veja também artigo no link: http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=fabio-de-melo-montfort&lang=bra   
[7] Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã (Catecismo Maior de São Pio X). Parte IV. Cap. IV. § 1
[10] HUGON, Édouard. Os princípios da filosofia de Sto. Tomás de Aquino. Porto Alegre: EDIPUCRS. 1998, p. 61
[11] Idem. op. cit. p. 61-62

    Para citar este texto:
"Padre Joãozinho, "por que buscais a mentira?""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/por-que-buscais/
Online, 17/01/2017 às 08:58:08h