Religião

Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional
Marcos Bonelli

  Hoje, na festa de São Gregório Magno, iniciamos uma pequena série de artigos sobre a origem do Rito Romano Tradicional, também conhecido como Rito Gregoriano, em honra daquele que foi um dos maiores papas da História e que tanto colaborou para a formação deste rito a ponto de merecer ter seu nome aplicado a ele.   I) Introdução Desde que Sua Santidade o Papa emérito Bento XVI promulgou o Motu Proprio Summorum Pontificum, no qual se reconhece a todos os fiéis o direito de assistir à Santa Missa no Rito Romano Tradicional e o direito a todo padre de rezá-la sem precisar da autorização do bispo, um número imenso de fiéis, de padres e de bispos têm descoberto, ou redescoberto, o tesouro que este rito contém. Com efeito, como diz o próprio documento citado, este rito nunca foi proibido. Seria, de fato, uma contradição proibir uma missa que a mesma Igreja Católica usou por pelo menos 1500 anos e que santificou almas “de todas as tribos, línguas, povos e nações” (Apocalipse 5, 9). Há pouco tempo um padre amigo nos contava que, visitando a igreja salesiana de Nossa Senhora Auxiliadora em Turim, onde está o corpo de São João Bosco, pedindo um altar para rezar a missa tridentina, um padre de lá lhe disse: "Esta missa nos desagrada". A missa que São João Bosco rezou durante toda sua vida, que santificou os meninos dele! Que contradição, esta frase na boca de um filho de Dom Bosco! Logicamente, este padre amigo nosso terminou rezando sua missa tridentina lá mesmo no Oratório de Dom Bosco, mesmo que o outro padre estivesse desagradado. A glória de Deus vale bem mais do que o desagrado de um padre. A Missa de Dom Bosco, de São Luís de Montfort, do Cura d'Ars, a missa que converteu os índios aqui no Brasil e em qualquer outra missão onde houvesse pelo menos um padre, no Japão, nos Estados Unidos, na Índia, na África. Proibi-la seria algo absurdo! Mas Sua Santidade o Papa emérito Bento XVI confirmou: ela nunca foi proibida. Qualquer padre pode rezá-la sem temor, sem qualquer receio ou escrúpulo. Todos os fiéis podem assisti-la sem receio de serem chamados de cismáticos, sectários, rebeldes por preferirem uma missa que é um tesouro da Cristandade. Numa entrevista concedida, no mês de julho de 2008, ao jornalista italiano Bruno Volpe, o Cardeal Poggi disse que "se alguns bispos ou pastores zelosos pensaram que o Novus Ordo abrogou o Vetus Ordo, cometeram um grave erro. É assim, o Rito Tridentino contempla um Deus jovem e evidencia a beleza de uma fé espontânea. Como dizê-lo, esta Missa contém elementos lamentavelmente descuidados na visão racionalista do Novus Ordo: a capacidade de impressionar-se, o mistério e a transcendência".   É uma pena ver bispos que pedem a seus padres que não a rezem. São bispos que querem uma Igreja tão pobre que a deixam sem seu maior tesouro. E quem sofre são os pobres, que ficam privados deste tesouro.   O conhecimento e o interesse pelo Rito Romano Tradicional atinge os jovens católicos de um modo tão impressionante que se pode dizer, sem dúvida alguma, que este rito é um instrumento poderoso e capital na Nova Evangelização. Quando, na primeira metade do século XX, começaram-se a divulgar os textos litúrgicos e a publicar missais para o uso dos fiéis, percebeu-se a necessidade de se conhecer mais profundamente a liturgia romana. A difusão atual e cada vez maior deste rito venerável entre os católicos, jovens sobretudo, nos leva a escrever esta série de artigos sobre o Rito Romano Tradicional, para que ele seja conhecido na sua história, no significado das suas orações e gestos. Este tesouro comum a todos os católicos precisa ser conhecido e estimado. Conhecê-lo nos ajudará a ver que a estima de muitos por ele não vem de um sentimento saudosista. Se fosse assim, o interesse dos jovens que nunca o haviam conhecido seria inexplicável. A estima que se tem por este rito tem sua origem no próprio rito. Não poderíamos deixar de agradecer, tanto quanto possível, àqueles padres e àquelas pessoas que nos ajudaram a escrever estes artigos, nos dando o conhecimento e as referências que jamais teríamos de outra forma. Que Deus os recompense. Usaremos o livro do padre João Batista Reus (Curso de Liturgia Romana, Editora Vozes, 1944, segunda edição), que pode ser encontrado facilmente na internet em formato PDF, para seguir a ordem das orações na missa. Não veremos todos os detalhes dela, todos os gestos do padre. Seria algo muito pesado, e não poderíamos fazer algo deste porte. Nossa intenção é a de dar um conhecimento geral da Santa Missa no Rito Gregoriano, antigo e venerável, naquelas coisas que certamente darão ao leitor uma tal estima por ela que, esperamos, possa vir a assistir à missa ou a celebrá-la com mais  frutos. Nossos esforços estarão voltados, também, para conhecer a origem histórica e doutrinária do Rito Gregoriano. Trataremos das interpretações espirituais que podem ser tiradas do rito somente uma vez ou outra. Não porque elas sejam desprezíveis ou vazias, longe disso. Elas são muito interessantes e nos dão muito amor pela missa. Mas concentraremos nossos esforços nas origens históricas das partes da missa porque buscamos primeiramente os motivos do rito ser como ele é.   II) As origens do Rito Romano O Rito Romano Tradicional é uma coisa magnífica, um monumento da Igreja Católica. Um dos termos usados para se referir a ele é Rito romano antigo e venerável. Segundo o comentário de um liturgista, ao tratar do livro litúrgico próprio dos bispos, o Pontifical Romano, "(...) o Pontifical não é nem a obra de um só homem nem a obra de um só dia. É uma obra anônima na qual trabalharam numerosos operários quase todos desconhecidos atualmente, e cuja conclusão demorou séculos. É uma catedral construída em diferentes momentos e que tem as marcas de épocas sucessivas. Ela mostra bases merovíngias, uma cripta carolíngia, uma nave romana, um coro gótico, várias capelas que datam da Renascença, e se expuséssemos seus fundamentos descobriríamos uma robusta estrutura de antigos construtores romanos. Na realidade o Pontifical romano é o a obra de quinze séculos de fé e de vida litúrgica. O Ocidente inteiro: a Roma antiga, as Gálias, o Império Franco, mais tarde a Espanha, o Império Germânico, a França, a Grã-Bretanha e a Itália trabalharam nesta obra grandiosa" (Victor Leroquais, Les Pontificaux manuscrits des bibliothèques publiques de France, Paris, 1937, tomo I, p. XCIC). O Missal Romano tradicional é semelhante: obra de séculos de fé e de vida litúrgica, construída por diversas fontes e pessoas, muitas anônimas, mas que mostravam ter uma alma iluminada por uma luz que só pode vir de Deus. Tudo isso fica mais claro quando se conhece o motivo de várias orações serem como são, na festa em que estão, num momento histórico particular. Não foram leituras e orações dispostas num escritório, como se fez na elaboração do Missal de Paulo VI. Queremos comentar muito brevemente o seu desenvolvimento. Não nos estenderemos muito neste ponto porque queremos ver mais profundamente o rito em si mesmo. De antigo ele tem muito. Os liturgistas explicam que o Rito Romano foi formado, em parte, pela influência de três textos: os Sacramentários Leonino, Gelasiano e Gregoriano.   O sacramentário era um livro litúrgico que continha principalmente os cantos e as orações mutáveis do ofício. Conforme o Padre João Batista Reus (Curso de Liturgia Romana,  pp. 37-38), o Sacramentário Leonino foi obra, em grande parte, do Papa São Leão I (440-461). No Missal Romano tradicional ainda se encontram 175 textos vindos deste sacramentário. O Sacramentário Gelasiano data provavelmente do século V e teria sido redigido provavelmente pelo Papa Gelásio (492-496). O Padre Reus diz, junto com todos os liturgistas, que o Sacramentário Gregoriano é a base do missal romano tradicional, o seu núcleo. Sabemos que o Papa São Gregório Magno (590-604) compôs um sacramentário. Infelizmente os primeiros exemplares se perderam. O exemplar completo mais antigo é do ano 812. Nesta época o imperador Carlos Magno pediu ao Papa Adriano I uma cópia deste sacramental, para servir de guia e padrão a todas as cerimônias litúrgicas realizadas nas igrejas de seus territórios. Temos a carta que o Para Adriano I escreveu a Carlos Magno, datada entre os anos 784 e 791, onde ele diz: "Tu pediste para que enviássemos uma cópia sem acréscimos do Sacramentário feito por nosso santo predecessor o Papa Gregório. Nós o fazemos agora pelas mãos de João, Abade de Ravena". Diz o Padre Reus que deste sacramentário se segue que a Liturgia da missa, ao menos desde o século VII, tem sido sempre, ao menos com poucas exceções, a mesma. Pelo fato do Sacramentário Gregoriano ser a base do Missal Romano tradicional os liturgistas aplicam também ao Rito Romano Tradicional o nome de Rito Gregoriano. Esta expressão, “rito gregoriano”, foi usada incontáveis vezes pelo Cardeal Ratzinger em seus livros, para se referir ao rito romano tradicional. O Padre João Batista Reus diz ainda que no Concílio de Trento "foram dirigidos pedidos no sentido de reformar também a liturgia e reduzí-la à unidade. Em consequência disso o Papa Pio V publicou o novo Breviário (1568) e o novo missal (1570) para toda a Igreja. Sisto V (1588) instituiu a Congregação dos Ritos, encarregada de fiscalizar e desenvolver o rito romano, de maneira que novos abusos não se pudessem arraigar tão facilmente" (idem, p 38). Como vemos, o movimento seguido pela liturgia romana foi sempre em direção à unidade. Certos costumes foram sempre permitidos na Igreja nas diferentes regiões, mas eram coisas consideravelmente pequenas e, sobretudo, de bom senso. Depois da Reforma litúrgica de 1969 vemos o movimento inverso: uma variedade imensa e, sobretudo, muita falta de bom senso: missa dos jovens, das crianças, dos casais em segunda união, missa-circo, missa-afro, missa-sertaneja... Ao invés de se ter um só Cânon na missa, passamos a ter oito, ou mais, só no Brasil. As rubricas do Missal oficial permitem tantas variações que fazem com que cada padre possa ter uma missa própria. Se incluirmos nos cálculos a variedade proveniente da espontaneidade dos padres e das pastorais litúrgicas, o resultado é que, em cada paróquia que o fiel vai, ele encontra uma missa diferente: a missa do Padre Marcelo Rossi, a missa do Padre Fábio de Melo, a missa do Padre João, a missa das crianças com teatrinho no lugar do sermão, uma missa mais calma às 8 horas da manhã, outra mais agitada às 10 horas e uma às 8 horas da noite com bateria e guitarra, uma missa carismática na terça-feira às 15 horas de cura e libertação que dura 2 horas e meia, uma missa das CEBs rezada sobre uma mesa de plástico, chapéu de palha e enxada, onde nem sequer há consagração da hóstia e do vinho... Os resultados são, ao invés da unidade, a divisão. Cada um escolhe a missa na qual se sente bem, e a escolha de ir à missa passa a ser movida pelo sentimento.   III) Um percurso pelo rito em si mesmo A missa referencial: a Missa Pontifical Poucos o sabem, mas a missa que serve de referência para todas as outras missas é a missa própria do bispo, a Missa Pontifical. É a Missa Pontifical que exprime o rito romano tradicional na sua plenitude (deixamos de lado, aqui, a Missa Papal). As missas rezadas ou cantadas, a que geralmente assistimos nas nossas paróquias, são simplificações feitas sobre a Missa Pontifical. Por quê? Como um padre nos explicava uma vez, de modo divertido, seria muito bom que pudéssemos ter todos os dias um bispo que rezasse a missa para nós, com todo o cortejo que o acompanha, de padre-assistente, diáconos, subdiácono e porta-insígnias, coral polifônico e gregoriano. Como isto não é possível todos os dias, busca-se fazer uma missa onde o padre é auxiliado por um diácono, um subdiácono, cerimoniário e acólitos. Ainda aqui, nem sempre isto é possível em todas as paróquias. Nem todas as paróquias têm a sua disposição diáconos e subdiáconos... Busca-se fazer, então, uma missa onde o padre a reza sozinho, cantando as partes do missal que normalmente são cantadas e com um coro gregoriano ao menos. Mas nem sempre as paróquias dispõem de um coro gregoriano. Nestes casos o padre reza a missa sem canto algum. É a chamada missa rezada à qual estamos acostumados na maior parte dos casos. Isto é fundamental para compreender certas coisas que acontecem na missa rezada, a forma mais simples de se rezar o rito romano tradicional. Todos os detalhes que o padre faz ao rezar a missa tridentina nestas simplificações graduais da Missa Pontifical, da missa do bispo, são "tentativas desesperadas" da Igreja de manter nestas formas mais simples tudo o que é feito na Missa Pontifical. Se não conhecermos a missa pontifical, ou ao menos a solene, não entenderemos o porquê de certos gestos do padre na missa rezada ou cantada. Por exemplo, por que na missa rezada troca-se o missal de lado, sobre o altar, para se ler o Evangelho? Porque na Missa Pontifical o diácono canta o Evangelho voltado para este lado do presbitério. Por que o padre esconde metade da patena sob a parte direita do corporal depois de fazer o ofertório do pão, e cobre a outra metade dela com o sanguíneo? Porque na missa pontifical o bispo, após oferecer o pão, passa a patena ao subdiácono, que a segura na mão direita e a cobre com o véu umeral, escondendo-a. Por que, na missa rezada, o padre sempre se volta ao povo pelo lado direito? Porque na missa solene ele nunca deve dar as costas ao diácono e para evitar isto o padre se vira sempre pelo lado direito. E assim por diante. Ao longo destes nossos artigos apontaremos as origens destes detalhes e de muitos outros, para que possamos entender de onde eles vêm. Por enquanto basta ter em mente que a missa do bispo, a Missa Pontifical é a forma-modelo do rito romano tradicional e que serve de referência para todas as outras formas mais simples de rezá-lo. Muitos pensaríamos que a missa rezada quotidiana do padre, de meia hora, é a forma-modelo do rito romano tradicional e que as missas cantadas, solenes e pontificais são embelezamentos dela. Na verdade é o contrário que se passa. As outras formas são simplificações graduais da missa do bispo. Prova disso é que os bispos nunca rezam a Missa Tridentina de modo solene ou cantada. Não há missa pontifical solene ou cantada, o que mostra que estas formas de rezar a missa nunca foram vistas como originais, como referências. Sabendo disso, comecemos nosso passeio pelo rito antigo e venerável, mas que, nunca tendo sido abolido, conserva toda a sua juventude. Entraremos até o altar de Deus, que alegra nossa juventude.   a) As orações ao pé do altar. No Rito Romano Tradicional, o padre, ao chegar diante no altar e faz o sinal da cruz. Tertuliano, no seu livro De corona militis, nos diz que é o sinal que os cristãos faziam religiosamente antes de todas as suas ações. Esta prática, diz ele, nos foi transmitida somente pela Tradição. De fato, se nos baseássemos somente nas Sagradas Escrituras, não encontraríamos nada a respeito desta prática. O padre começa então um diálogo com o acólito que o serve: Sacerdote: In nomine Patris et Filii + et Spiritus Sancti. Amen. Introibo ad altare Dei. Acólito: Ad Deus qui laetificat iuventutem meam.   S: Iudica me Deus et discerne causam meam de gente non sancta: ab homine iniquo et doloso erue me. A: Quia Tu es, Deus, fortitudo mea: quare me repulisti, et quare tristis incedo, dum affligit me inimicus? S: Emite lucem tuam, et veritatem tuam: ipsa me deduxerunt, et adduxerunt in montem sanctum tuum et in tabernacula tua. A: Et introibo ad altare Dei, ad Deus qui laetificat iuventutem meam. S: Confitebo tibi in cithara, Deus, Deus meus: quare tristis es, anima mea, et quare conturbas me? A: Spera in Deo, quoniam adhuc confitebor illi: salutare vultus mei, et Deus meus.   S: Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. A: Sicut erat in princípio, et nunc et semper: et in secula seculorum. Amen.   S: Introibo ad altare Dei. A: Ad Deum qui laetificat iuventutem meam.   Já aqui precisamos de alguns dados, para entender o que está acontecendo. Esta oração recitada pelo padre, juntamente com o acólito que o serve, é o Salmo 42. Ele exprime um amor imenso pelo altar, sobre o qual se realiza o sacrifício que dá mais glória a Deus do que qualquer outra coisa neste mundo. Ao recitar este salmo o sacerdote exprime o desejo imenso que ele tem de dar glória a Deus com o Santo Sacrifício da Missa, pedindo ao mesmo tempo ajuda contra o homem iníquo e cheio de dolo, isto é, o demônio, o mundo e as más inclinações da carne. Se formos tentados por eles para que nos afastemos da Santa Missa, para que não possamos comungar, ou para que o padre não possa rezá-la por estar em pecado grave, ao mesmo tempo sabemos que Deus é todo-poderoso para nos ajudar contra as tentações. Esperamos em Deus - que nos dá a fortaleza necessária para vencermos as tentações e luz para conhecermos a verdade - para subirmos até o monte Calvário (porque a Missa é a renovação do sacrifício do Calvário) e entrarmos no seu tabernáculo. No Santo dos Santos, o Sumo Sacerdote do Antigo Testamento só podia entrar uma vez ao ano e agora o sacerdote da Nova Aliança pode entrar todos os dias, na Santa Missa, para ter Deus nas mãos. A Igreja tem o costume de rezar cada Salmo fazendo-o terminar com o "Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto, etc...". A primeira parte dessa oração já existe desde o século II e sua segunda parte é usada desde o século IV. Como explica o padre João Batista Reus, a Igreja só não diz o "Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto, etc..." no final dos salmos nos três últimos dias da Semana Santa, porque na Paixão se escondeu a glória de Cristo (p. 59). Ela cerca este conjunto de salmo e "Gloria...", no começo e no fim, com uma antífona, isto é, um texto curto que exprime a ideia principal do salmo que está sendo recitado. Aqui a antífona é o curto texto: "Introibo ad altare Dei. Ad Deum qui laetificat iuventutem meam". É devido a este modo de recitar os Salmos que temos então, no começo da Missa, esta ordem de orações: Antífona: "Introibo ad altare Dei..." Salmo 42: "Iudica me Deus..." "Gloria Patri..." Repetição da antífona. A Igreja sempre pediu que seus padres se preparassem para rezar a Santa Missa, porque ela não é algo comum. Ao contrário, ela é a renovação do sacrifício de Cristo na Cruz. Encontram-se muitos livros litúrgicos antigos que, sem dar fórmulas determinadas de oração, recomendam ao bispo uma preparação antes da missa, num lugar reservado, uma sacristia ou algo semelhante. Mais tarde os livros litúrgicos recomendaram a recitação dos salmos penitenciais, ou de algum outro salmo. Sempre encontramos o Salmo 42 entre eles. Antes da codificação do Missal Romano feito por São Pio V o Salmo 42 era recitado regularmente por todos os padres antes de rezar a missa, na sacristia ou de memória durante a procissão para chegar ao altar. Um missal italiano do século XI diz que o padre o recita "enquanto se aproxima do altar". Ainda pouco antes da edição do Missal feita por São Pio V uma edição do Missal Romano de 1550, feita pelo Papa Paulo III, diz que o padre deve recitá-lo sozinho, em voz baixa ou em silêncio, antes de chegar ao altar. É o que fazem até hoje os religiosos do Carmelo no rito carmelita. Mas, como nos disse uma vez um padre, é na sacristia, imediatamente antes da missa, que os padres têm menos tempo para se preparar. Pessoas andando, pedindo favores, querendo um conselho rápido ou fazendo um convite, acólitos atrasados, ou mesmo o padre atrasado, tudo isso não ajuda em nada o recolhimento e a oração do sacerdote antes da missa. Sabendo disso São Pio V determinou, na sua edição do missal em 1570, que o Salmo 42 fosse anexado à missa, para que o sacerdote e os ministros sagrados que o servem (diácono, subdiácono, acólitos) por mais que tenham tido muito tumulto antes de começar a missa, possam ter um mínimo de preparação ali, diante do altar. É por isso que hoje ele faz parte do começo mesmo da Missa Tridentina. Antes elas eram orações recitadas privadamente pelo padre. Agora são recitadas publicamente, começando com um sinal da cruz, forma natural de se começar as orações. Cheio de confiança em Deus, o sacerdote acrescenta, fazendo o sinal da cruz: S: Adiutorium nostrum + in nomine Domini. A: Qui fecit coelum et terram.   E começa o Confiteor, onde pedirá o perdão de seus pecados: Confíteor Deo omnipoténti, beátæ Maríæ semper Vírgini, beáto Michaéli Archángelo, beáto Joánni Baptístæ, sanctis Apóstolis Petro et Paulo, ómnibus Sanctis, et vobis, fratres: quia peccávi nimis cogitatióne, verbo et opere: (Aqui bate no peito, dizendo) mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa. Ideo precor beátam Maríam semper Vírginem, beátum Michaélem Archángelum, beátum Joánnem Baptístam, sanctos Apóstolos Petrum et Paulum, omnes Sanctos, et vos, fratres, orare pro me ad Dóminum, Deum nostrum.   O Confiteor é, fundamentalmente, uma oração medieval muito antiga e tinha muitas formas que variavam. A fórmula que usamos hoje data do século XIII. Sendo usado no rito romano, ele se dirige aos santos Apóstolos Pedro e Paulo, fundadores da Igreja de Roma. O padre o recita profundamente inclinado, sinal de arrependimento e de humildade. Nas missas rezadas o padre o recita primeiro, seguido dos acólitos. É reflexo da Missa Pontifical, onde o bispo recita o Confiteor primeiro, seguido depois pelo padre-assistente, pelo diácono e pelo subdiácono, que o recitam todos juntos. Dá-se então a absolvição e recitam-se mais algumas orações, depois das quais o padre sobe até o altar. S: Deus, tu convérsus vivificábis nos. A: Et plebs tua lætábitur in te. S: Osténde nobis, Dómine, misericórdiam tuam. A: Et salutáre tuum da nobis. S: Dómine, exáudi oratiónem meam. A: Et clamor meus ad te véniat. S: Dóminus vobíscum. A: Et cum spíritu tuo. Enquanto sobe ao altar, o padre recita a oração seguinte, em voz baixa: Aufer a nobis, quǽsumus Dómine, iniquitátes nostras: ut ad Sancta sanctórum puris mereámur méntibus introíre. Per Christum, Dóminum nostrum. Amen.   Ela aparece no Sacramentário Gelasiano, com uma pequena variação, servindo de coleta no período entre a Quinquagésima e a Quarta-feira de cinzas. Chegando ao altar o sacerdote o beija, uma reverência óbvia ao lugar sagrado para o qual se dirige. Ele o beija recitando a oração "Orámus te, Dómine, per mérita Sanctórum tuórum, quorum relíquiæ hic sunt, et ómnium Sanctórum: ut indulgére dignéris ómnia peccáta mea. Amen".   Se for um bispo que reza a missa, ele beija também o livro que contém os Evangelhos.   Como dissemos, todas estas orações eram antes uma preparação exterior à Missa. O bispo, na Missa Pontifical, coloca o manípulo somente depois do Confiteor. Esta prática, codificada no rito da missa do bispo, mostra que antigamente ele se vestia completamente para rezar a missa somente depois das orações ao pé do altar, quando a missa começava realmente.

    Para citar este texto:
"Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/onde-o-ceu-toca-a-terra-um-percurso-pelo-rito-romano-tradicional/
Online, 24/06/2017 às 12:39:01h