Religião

Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional – Parte 6
Marcos Bonelli
[caption id="attachment_32529" align="aligncenter" width="880"] Alleluia, Manuscripts de l'Université de Liège, Ms. 24, fol. 2v[/caption]

Gradualtratoaleluia, os cantos entre a Epístola e o Evangelho, estão entre as partes mais antigas da missa. h) O gradual, o trato e o aleluia Os cantos entre a Epístola e o Evangelho estão entre as partes mais antigas da missa. Tertuliano já os menciona expressamente. O gradual tem este nome porque era executado no primeiro degrau da escada que servia para subir até o ambão. Inicialmente era melodicamente mais simples, composto por um salmo cantado inteiramente. Com o crescimento do esplendor do culto o solista começou a enriquecer o seu canto. A schola cantorum, instituída pelo Papa Celestino I (+ 432), começou a segui-lo na complexa execução. Com o crescimento de sua complexidade musical deixou-se de cantar o salmo inteiramente, executando-se somente um versículo, fenômeno semelhante ao ocorrido com o introito. Em Roma isto deve ter acontecido entre o Papa São Leão Magno (+461), em cuja época o gradual era constituído ainda por todo um salmo, e o Papa São Gregório Magno (+604), que nos deixou o gradual no estado em que se encontra atualmente. Nos tempos de São Gregório Magno ele já havia alcançado uma grande complexidade musical, exigindo cantores de grande competência. Este Papa ordenou que o gradual não fosse mais cantado por um diácono, mas sim por um leitor. Ele tinha como intenção evitar que os candidatos ao diaconato fossem escolhidos por sua habilidade em cantar, sem que se considerasse a virtude que tinham. Se tomarmos como base os missais dos séculos VII-IX veremos que de 125 graduais apenas nove não são tirados dos salmos. Destes nove, a maioria é de composição tardia. O ofício de solista sempre foi tido como algo de grande importância nas cerimônias papais. O nome do solista era notificado ao Papa antes da missa e, uma vez que o Papa o aceitasse, não podia mais ser mudado. Se fosse mudado o chefe da schola era privado da comunhão. O aleluia permaneceu com sua forma responsorial. O cantor entoava o primeiro "aleluia", o coro o repetia, o cantor cantava o versículo do salmo e o coro repetia o "aleluia". Até hoje é executado assim. Apesar disso, sua origem e sua forma de execução na Antiguidade não nos são exatamente conhecidos. Não era usado do mesmo modo em cada região do império. Foi introduzido no rito romano no tempo da Papa São Dâmaso (384), somente na missa de Páscoa. Logo se estendeu a todo o tempo Pascal. São Gregório Magno o estendeu aos domingos. Com o passar do tempo, também adquiriu um grande desenvolvimento musical, onde o "a" final do "aleluia" foi sendo alongado como sinal de alegria. Não sabemos como surgiu o versículo cantado entre os dois "aleluias". Pode ser o que sobrou de um antigo salmo completo, ou talvez tenha sido introduzido depois, no tempo de São Gregório Magno. O trato é cantado sem antífona que o anteceda, sem alternância com o coro, num só movimento. Recebeu na Idade Média o nome de "trato" porque é cantado "uno tractu", ou seja, num só movimento. O trato da missa do primeiro domingo da Quaresma possui todos os versículos do salmo 90. É o único canto da missa que conservou a execução de um salmo inteiro. O trato do Domingo de Ramos, de modo semelhante, contém quase todo o salmo 21. Era um canto executado em todos os domingos do ano. São Gregório quis, mais tarde, equiparar todos os domingos à festa de Páscoa, única festa em que se cantava, inicialmente, o "Aleluia". Introduziu assim o "aleluia" em todos os domingos. Com o tempo, as festas dos mártires começaram a ser equiparadas ao domingo, bem como as festas dos confessores e virgens. O "Aleluia", que era antes o poema pascal por excelência, começou a ser executado em quase todas as missas, domingos e festas de santos, sendo um canto ordinário do coro. O trato ficou, consequentemente, confinado somente aos tempos penitenciais, Quaresma e Quatro Têmporas. Não foi introduzido para substituir o "Aleluia" nos tempos de penitência, mas foi sendo substituído pelo "Aleluia" com o passar do tempo. A missa da Vigília Pascal conserva a antiga disciplina. Cantam-se o trato e o Aleluia juntamente. Canta-se o trato "Laudate Dominum" e em seguida o "Aleluia". Podemos concluir que o trato não é um canto de luto e penitência, primeiramente. Também podemos ver, como o leitor já pode ter percebido, que as cerimônias da Semana Santa conservaram muitas características litúrgicas dos primeiros séculos. Analisando suas cerimônias no rito romano tradicional podemos fazer um verdadeiro passeio "arqueológico-histórico" pela liturgia romana e seu desenvolvimento ao longo dos séculos.  

    Para citar este texto:
"Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional – Parte 6"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/onde-o-ceu-toca-a-terra-um-percurso-pelo-rito-romano-tradicional-parte-6/
Online, 29/03/2017 às 10:17:30h