Religião

Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional – Parte 4
Marcos Bonelli

"Como para as outras reformas litúrgicas surgidas sob o amparo do Concílio, interrompeu-se, ao serem estabelecidas as novas leituras, uma tradição imemorial, que remonta em sua maior parte a 1500 anos atrás, sem tê-la substituído por algo melhor". Monsenhor Klaus Gamber em A Reforma da Liturgia Romana

Leia também a primeira parte,  a segunda parte e a terceira parte deste estudo.  

f) A Epístola e o Evangelho A leitura dos livros sagrados do Antigo e Novo Testamentos remonta à origem da Igreja. Na África e nas Gálias liam-se também as Atas dos Mártires, costume que se conservou por muito tempo. Em raras ocasiões, ainda hoje, elas são lidas no rito ambrosiano. Em Antioquia, no final do século IV, havia cinco leituras. A prática de se ter duas leituras no rito romano talvez já estivesse bem estabelecida no século V. É o que nos diz o Liber Pontificalis, quando afirma que o Papa Celestino I introduziu o canto de um salmo antes de cada leitura. Ora, neste documento se diz que eram cantados dois salmos. Eles corresponderiam, portanto, cada um a uma leitura. É possível que num primeiro momento o rito romano tivesse três leituras. O rito galicano tinha três leituras, o rito mozárabe tem normalmente três leituras, o rito ambrosiano permanece atualmente com três leituras nos domingos e grandes festas. Algumas partes internas do rito romano parecem indicar isso também. Entre a Epístola e o Evangelho cantam-se o gradual e o aleluia. Este último é substituído pelo trato nas missas de Quaresma e em outras ocasiões. Em alguns dias do ano, na Quaresma, por exemplo, o rito romano tradicional tem duas leituras antes do Evangelho, fazendo um total de três. Nestes casos após a primeira leitura reza-se o gradual e após a segunda reza-se o trato ou o aleluia, vindo depois o Evangelho. Esta organização parece indicar o modo como eram organizadas as leituras do rito romano nos primeiros séculos. A estrutura comumente presente hoje, onde gradual e aleluia (ou trato) estão unidos, parece indicar uma leitura existente antigamente entre ambos e que foi abolida. Alguns dias do ano têm mesmo sete leituras. Mas neste caso parece que as leituras suplementares são o resquício das vigílias que se faziam nos primeiros séculos antes da missa. Nestas vigílias, feitas antes das missas, se liam vários trechos da Sagrada Escritura juntamente com outras orações, para iniciar-se assim a comemoração da festa. Este costume de se fazer três leituras talvez tenha permanecido em Roma até o tempo de São Gregório Magno, reduzindo-se após essa época para duas leituras. Nos primeiros séculos da Igreja, a leitura dos livros sagrados era feita de modo contínuo. Iniciava-se um livro e a cada missa lia-se uma parte dele, dia após dia, até acabá-lo. Temos muitos testemunhos disso entre os Santos Padres. São João Crisóstomo, por exemplo, tem compilações enormes de homilias sobre um só livro. São famosos os seus 90 sermões sobre o Evangelho de São Mateus. Este sistema foi usado até o século IV, quando o lecionário começou a ser organizado diferentemente, pouco a pouco. Esta leitura contínua era interrompida nas grandes solenidades, quando eram lidas partes específicas da Sagrada Escritura, relacionadas mais estreitamente com a festa do dia. Com o passar do tempo, o número de festas foi aumentando, o que levou a todo um conjunto de leituras próprias para cada uma das festas. Formou-se então o lecionário que temos atualmente, o qual existe há pelo menos mil anos. Por um lado, é evidente que as Epístolas e Evangelhos de cada grande festa (Pentecostes, Ascensão, Advento, Quaresma, etc) foram escolhidos especialmente para estas festas. Mas, quando olhamos as Epístolas dos Domingos depois de Pentecostes, vemos traços do antigo sistema de leitura contínua. As epístolas dos quarto, sexto, sétimo e oitavo Domingos depois de Pentecostes são tiradas da Epístola de São Paulo aos Romanos; dos nono, décimo e décimo primeiro Domingos, da Primeira Epístola aos Coríntios; do décimo segundo Domingo, da Segunda Epístola aos Coríntios; dos décimo terceiro, décimo quarto e décimo quinto Domingos, da Epístola aos Gálatas; do décimo sexto ao vigésimo primeiro, da Epístola aos Efésios; do vigésimo segundo e vigésimo terceiro Domingos, da Epístola aos Filipenses e do vigésimo quarto Domingo, da Epístola aos Colossenses. Também com os Evangelhos, se vê que entre as semanas da Paixão e da Páscoa se lê o Evangelho de São João. Às vezes, a proximidade da festa de algum santo romano influenciou também na escolha de uma leitura. Enfim, o lecionário tradicional é o resultado final de diferentes sistemas que se fundiram. No rito romano tradicional há um lecionário que é percorrido durante todo um ano. Não há a divisão, existente no rito de Paulo VI, em anos A, B e C. Muitos elogiam esta divisão em três anos, dizendo que ela permite uma leitura mais ampla da Sagrada Escritura. Mas Mons. Klaus Gamber, falecido amigo do então Cardeal Ratzinger, trata longamente a respeito da elaboração de um novo lecionário. Destacamos algumas partes verdadeiramente eloquentes, dirigidas à suposta sabedoria pastoral que se diz ter hoje no governo dos fiéis e às críticas ao rito romano tradicional, segundo as quais ele seria sem fecundidade e insuficiente diante dos desafios apresentados pelo mundo moderno. Ora, diante dos fatos que vemos todos os dias, depois da propagação do Rito Tradicional com o Motu proprio de Bento XVI, nos parece que, ao contrário, ele seja um poderoso instrumento na Nova Evangelização: "A vida não exclui nem a ordem nem a autoridade, mas todo o contrário. A vida, sobretudo a espiritual, não pode prosperar senão na ordem. Podem prosperar inclusive em uma ordem que pareça, à primeira vista, antiquada, como o rito tradicional. Para reavivar isto, em nossos dias, teria sido desnecessário um novo “ordo” da missa. Pense-se na vida espiritual e litúrgica que floresciam em épocas, sob regimes totalitários, em que a Igreja tinha que viver em catacumbas, estendendo-se um pouco por todas as partes. E hoje em dia, apesar de uma nova liturgia, as igrejas se esvaziam cada vez mais, agora que sem cessar se intente “torná-la bem vista” aos olhos dos homens.   É necessário não esquecer que só a Igreja forte na fé e espiritualmente fecunda é capaz de criar algo verdadeiramente novo e durável. O contrario não é mais que pura fabricação, e comumente sem que se tenha levado em conta as verdadeiras necessidades de uma pastoral moderna e universal e, sobretudo sem que se intente compreender psicologicamente a mentalidade do povo.   Há alguns anos, certos reformadores litúrgicos elaboraram uma nova seleção de leituras para a missa e as ajeitaram para que as autoridades romanas competentes as tornassem obrigatórias. Esta tarefa, feita depressa e correndo, por certos inovadores, substituiu na Igreja Romana leituras que remontavam a mais de mil anos (de antigüidade) e as eliminou.   Em si mesmo é bom que as perícopes do “Missale Romanum” tridentino se enriqueçam com novas leituras, tanto mais porque o rito romano conheceu no lecionário de São Jerônimo, e ainda antes, leituras suplementares propostas à escolha. Algumas destas perícopes adicionais - por exemplo, as propostas para quartas e sextas “per annum” - se conservaram especialmente nos países de língua alemã e no Patriarcado de Aquiléia até os missais impressos pré-tridentinos.   Do ponto de vista do rito romano tradicional, nenhum problema haveria se tivessem previsto leituras próprias para os dias de semana e ciclos de leituras suplementares para os domingos. Mais ainda porque para os domingos as perícopes só se fixaram em data relativamente tardia, como o mostra o lecionário de Wuzbourg, datado do ano 700.   Fora do fato de a nova organização das leituras ter eliminado totalmente as que estavam em curso até agora e que uma tradição imemorial foi interrompida bruscamente, os liturgistas se deram conta de que esta seleção de perícopes foi claramente guiada por pontos de vista eminentemente exegéticos e muito pouco pelas leis da liturgia, segundo as quais se escolhiam as leituras na Igreja até agora.   (...)   Antes a escolha de uma passagem evangélica se fazia em função da solenidade que se celebrava (...). Diferentemente, e conforme a concepção do culto protestante, a nova organização das leituras serve em primeiro lugar para a instrução e “edificação” da assembleia. Esta nova organização tem sido visivelmente elaborada por exegetas e não por liturgistas. Mas os exegetas não refletiram que a maioria dos fiéis não compreende esta correlação da Bíblia, pois, por assim dizer, não têm muita ideia da história da Salvação anterior à vinda de Cristo e, consequentemente, nem o Pentateuco, nem o Livro dos Reis lhes dizem muita coisa. Por isto a maior parte das novas leituras semanais tiradas do Antigo Testamento passa meio despercebida pelas mentes dos fiéis, se é que não se opta por omiti-las por completo.   Os especialistas em liturgia conhecem, podemos ao menos supor, as numerosas opções de perícopes usadas, tanto antes como agora, nas Igrejas do Oriente e do Ocidente e que estão conforme as leis que têm presidido a escolha das leituras. É chocante que não tenham recorrido a estas antigas coleções de perícopes que remontam em parte aos séc. IV e V. Que riqueza de ideias teriam encontrado! Mas parece que quiseram deliberadamente fazer desaparecer a tradição.   A parte mais antiga do “Grande lecionário da Igreja de Jerusalém”, que nos foi transmitido por manuscritos georgianos, remonta ao séc. V. Assim como um capitulário copta (para os evangelhos), que tem todas as aparências de uma grande antiguidade, uma série de outros antigos lecionários do Egito desgraçadamente ainda não foi examinada. A. Baumstark estudou a coleção siríaca mais antiga de perícopes.   No Ocidente se podem citar entre outros o capitulário de Aquileia (para os evangelhos), o capitulário de Vielle-Campanie que chegou a nós por meio do célebre “Codex Fudensis” (para as epístolas) e também diversos evangeliários anglo-saxões (para os evangelhos). É necessário acrescentar um capitulário (para as epístolas) que em sua forma original remonta à época de São Pedro Crisólogo (+450) e isto para não citar testemunhos mais antigos. O conjunto das perícopes das antigas Igrejas milanesa, galicana e hispânica, que chegou a nós, é um pouco mais recente.   Já São Jerônimo (+419/420), a pedido da Igreja de Roma, tinha confeccionado um capitulário (para as epístolas) chamado “Liber comitis”. Este é mencionado em algumas fontes do ano 471 e pensa-se que tenha chegado a nós quase sem modificações, no já citado capitulário de Wurzbourg. Constitui a base das perícopes do “Missale Romanum” mas não se refere aos evangelhos, para os quais é necessário acrescentar a antiga lista romana de evangelhos (“capitulare evangeliorum”), que é mais completa que a seleção de perícopes do missal futuro.   Como para as outras reformas litúrgicas surgidas sob o amparo do Concílio, interrompeu-se, ao serem estabelecidas as novas perícopes, uma tradição imemorial, que remonta em sua maior parte a 1500 anos atrás, sem tê-la substituído por algo melhor. Deveriam ter sido mais prudentes, mesmo do ponto de vista pastoral, e conservado a antiga distribuição do “Missale romanum” e, no desejo de reforma, autorizar as leituras complementares “ad libitum”. Isto sim teria sido uma verdadeira reforma, ou seja, um retomo à forma original: não se teria destruído o que existia e se teriam deixado suas marcas.   Mas da forma que se fez, abandonou-se tanto a tradição da Igreja do Ocidente como a do Oriente e se aventurou no perigoso atalho da experimentação, sem ver a possibilidade de regressar facilmente aos usos antigos. Alguém poderá estranhar se os padres progressistas forem ainda mais além na “renovação da liturgia” e em lugar de leituras bíblicas lerem algumas passagens de Karl Marx ou de Mao Tse Tung; ou, se lhes agradar, um trecho de algum periódico? Destruir uma antiga ordem é algo relativamente fácil; criar uma nova é difícil" (Klaus Gamber, A reforma da liturgia romana, tradução de Luís Augusto Rodrigues Domingues da edição espanhola disponível no site Una Voce pp. 30-31, negritos nossos).   Além de tudo isso, a compilação, no lecionário tradicional, de todas as leituras em um só ano, faz com que elas sejam aprendidas mais facilmente, porque voltam mais frequentemente aos ouvidos dos fiéis e dos padres.   São passagens importantes, que contém muitas lições e princípios em poucas linhas e das quais o padre deve saber tirar aplicações para os problemas e questões recentes. São passagens muito fecundas em explicações e aplicações, de modo que ao ruminá-las frequentemente criava-se nos fiéis o hábito de contemplar a Sagrada Escritura, cavando fundo e criando raízes profundas em terra fecunda, ainda que aparentemente pouca.   Multiplicando-se as leituras, lê-se muito, mas se retém pouco.

    Para citar este texto:
"Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional – Parte 4"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/onde-o-ceu-toca-a-terra-um-percurso-pelo-rito-romano-tradicional-parte-4/
Online, 28/06/2017 às 11:05:59h