Religião

Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional – Parte 3
Marcos Bonelli

A liturgia é para Deus elevando os homens até Ele."A liturgia tem sua própria medida,(...) a medida da revelação, de Deus mesmo" Cardeal Ratzinger. Leia também a primeira parte e a segunda parte deste estudo.  

c) Kyrie eleison Sabemos que até o século II, em Roma, a liturgia era rezada em grego. Atualmente o "Kyrie eleison" é a unica oração feita em grego na missa romana tradicional. Seriamos tentados a imaginar que ele seria um resquício de quando toda a missa era rezada em grego em Roma. Porém, esta não parece ser a causa. Ela parece ser uma "importação" vinda do Oriente, no século VI. Mesmo no Oriente ela não parece ter sido usada antes do século IV. Ela era usada em Antioquia para responder ladainhas, uma especialidade do rito antioqueno que se espalhou pela Igreja com o tempo. A Igreja romana, provavelmente no final do século V, por obra do Papa Gelásio, adotou a ladainha como forma de oração, seguindo o costume oriental. Nesta oração o diácono anunciava uma série de intenções e a cada uma delas o povo dizia "Kyrie eleison". Esta expressão, "Kyrie eleison", isto é, "Senhor, piedade" existia já entre os pagãos. Os primeiros cristãos, que viam em Cristo o Senhor por excelência, a empregavam com freqüência, mas desta vez aplicando-a a Deus. Em um texto de São Gregório Magno se deduz que em sua época esta ladainha ainda era rezada, mas havia-se introduzido o costume de não anunciar as intenções em certos dias, e o clero juntamente com o povo se limitava a repetir as aclamações "Kyrie eleison" e "Christe eleison". Um documento litúrgico importante, chamado Ordo romanus I, do século VIII, refere somente a repetição destas duas curtas expressões e não pelo povo, mas pelo coro constituido pelo clero. Mais tarde o "Kyrie eleison" foi enriquecido com melodias mais elaboradas e as nove repetições dele foram fixadas para simbolizar a Santíssima Trindade. No rito da missa aprovado por Paulo VI elas são reduzidas de nove para seis, sendo cada súplica pronunciada apenas uma vez pelo sacerdote e pelo povo. Também entre os luteranos o Kyrie é dito em seis invocações (L. Reed, The Lutheran Liturgy, pp. 272 e 767).   d) Gloria O "Gloria in excelsis Deo" fazia parte do ofício da manhã, tanto no Oriente como no Ocidente. Em Roma ele começou a ser usado na missa por volta do século V, mas somente na missa do galo, na meia-noite do Natal. De fato, foi nesta noite que os anjos cantaram "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade". Seu uso então, no começo, foi um uso excepcional. A existência atual de dias em que ele não é recitado é um resquício disso. O Papa Símaco, falecido em 514, permitiu que os bispos, e somente eles, o rezassem também nos domingos e festas dos mártires. Os simples padres tinham a autorização de rezá-lo somente no dia da Páscoa. Mais tarde, nos séculos X-XI eles receberam a concessão de poder rezá-lo em todas as festas. Também na liturgia romana tradicional sobraram vestígios desta diversidade no uso do "Gloria" pelos bispos e pelos padres. Quando se introduziu o "Gloria" na missa a frase inicial ("et in terra pax hominibus") logo sugeriu a idéia de uma diferenciação na saudação. Os bispos, que eram os únicos que podiam cantá-lo, diziam depois de terminá-lo: "Pax vobis", pois soava melhor com o texto do "Gloria". Era também a saudação que Nosso Senhor havia dirigido aos Apóstolos. Ainda no século IX esta prática não estava bem estabelecida. Ela se introduziu pouco a pouco até que Leão VII a promulgou para os bispos da Gália e da Alemanha. O "Gloria" seria cantado nos domingos e festas, seguido do "Pax vobis". Nos outros dias os bispos não rezavam o "Gloria" na missa e diziam "Dominus vobiscum". Quando os padres receberam a autorização de rezá-lo também nas suas missas, a norma quanto ao "Pax vobis" não mudou, permanecendo privilégio dos bispos. O Papa Inocêncio III diz que a expressão "Pax vobis" ficou reservada aos bispos porque são vigários de Cristo. A saudação do sacerdote "Dominus vobiscum" e a resposta do povo "Et cum spiritu tuo" é encontrada no Concílio de Braga, no ano 561, dizendo que assim deve ser feito "como todo o Oriente e todo o Ocidente recebeu dos Apóstolos". Vale a pena notar que, conforme os Apóstolos ensinaram e nos foi transmitido, o povo deve responder "E com o teu espírito", e não "Ele está no meio de nós". Essa tradução difere tão claramente dos originais latino, grego e hebraico que é de se perguntar de onde foi tirada e com que fundamento.  De fato, a resposta "E com o teu espírito" é uma expressão semita encontrada na Sagrada Escritura e significa simplesmente "E também contigo".   e) Coleta Antes de se voltar para os fiéis e dizer "Dominus vobiscum", o sacerdote beija o altar, como sinal de reverência a ele, que contém em seu interior relíquias de santos mártires e sobre o qual Deus estará substancialmente presente, depois da Consagração. A coleta é rezada pelo padre com as mãos separadas e em pé, porque era a primeira oração feita na missa com caráter público, como superior religioso colocado diante de Deus para rezar pelo povo. É interessante notar que as orações ao pé do altar são feitas pelo padre com as mãos juntas, mais um sinal de que eram inicialmente orações a serem ditas de modo privado. Antes de rezar a coleta, o padre dizia "Oremus, oremos". O diácono então acrescentava: "Flectamus genua, dobremos os joelhos". Todos, clero e fiéis, ajoelhavam por alguns instantes e rezavam em silêncio. Em seguida levantavam e o sacerdote rezava a oração na qual apresentava as necessidades de todos, numa oração muito direta e concisa. Reunindo todas estas necessidades, ela recebeu o nome de "coleta". A riqueza das coletas da liturgia romana tradicional é enorme e variadíssima. Não há graça ou virtude que não possam ser pedidas por meio das coletas do Missal romano: fé, esperança e caridade, paz, humildade, castidade, ajuda de Deus aos bispos e padres, ajuda de Deus sobre os governantes, dom das lágrimas, graças do Espírito Santo, orações pelo Papa, pelas Congregações romanas e aqueles que as dirigem, para ter chuva, para parar as chuvas, para acabar com uma peste, obter a cura de alguém, etc. Quem compôs as coletas, quando foram usadas pela primeira vez, porque estão na ordem atual e são usadas em tal ou tal missa, todas estas questões são mistérios que envolvem a origem do rito romano. As coletas mais antigas que conhecemos são as do Sacramentário Leonino. Quanto ao estilo de redação não há nada mais romano: brevíssimas, diretas, sóbrias. As orações orientais, ao contrário, são longas, repetitivas, cheias de voltas, rebuscadas. Além disso, as coletas do rito romano são escritas com métrica, no estilo clássico romano. Verdadeiras obras de arte com palavras, essas poesias, porém, não estão em versos, mas em prosa. Pode-se falar com todo rigor de uma forma literária peculiar das orações romanas, em um estilo próprio. Elas estão compostas em prosa ritmada, ao qual a Idade Média deu o nome de cursus. O Padre Bonano escreve, no seu "Curso de Liturgia Romana": "Dom Mocquereau comprovou que das 1.030 orações do Sacramentário Leoniano somente duas não são compostas em cursus. Distinguem-se três formas de cursus: Cursus planus (acentos na segunda e quinta sílabas começando pela final): única múndi, ta platus; Cursus tardus (acentos na terceira e na sexta sílabas começando pela final): Incarnatiónem cogvimus, sémprer obneat; Cursus velox (acentos na segunda e na sétima, começando pela final): caestia capiámus, glóriam perdumur. Pode servir como exemplo a coleta do XXI Domingo depois de Pentecostes: 'Familiam tuam, quaesumus, Domine, continua piete cusdi (cursus planus): ut a cunctis adversitatibus, te protegénte sit bera (cursus tardus): et in bonis actibus tuo mini sit deta (cursus velox)' "(Pe. Manuel Garrido Bonano, Curso de Liturgia Romana, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 1961, pp. 306-307). Uma enorme quantidade delas foi escrita por santos papas, como São Leão Magno, São Gelásio, São Gregório Magno, formados na cultura romana clássica e conhecedores eruditíssimos de seus autores -- São Gregório Magno, por exemplo, conhecia de cor todas as obras de Virgílio, Horácio e Cícero -- eles estavam muito  habituados com o estilo romano de escrever. Estes santos papas não defendiam que a liturgia deveria ser plana e simplista. Para eles, e com razão, devemos dar para Deus o que temos de melhor. O melhor estilo de escrita que eles tinham na época eles deram para Deus. Os bens de Deus não deveriam ser achatados. A liturgia devia ser elevada, com aquilo que os homens podiam dar de melhor para Deus para que os homens se elevassem até Deus. A liturgia não deve ser para os homens para que continuem no nível dos homens. Ela deve ser para Deus elevando os homens até Deus. "A maneira com a qual o culto deve ser dado não está entre as coisas que se podem resolver por meios políticos; a liturgia tem sua própria medida, ou seja, só pode ordenar-se conforme a medida da revelação, de Deus mesmo" (Cardeal Ratzinger, O espírito da liturgia, in Obras completas, vol. XI, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2012, p. 9, negritos nossos). Como dissemos, antes do sacerdote rezar a coleta ele beija o altar, saúda os fiéis e os convida a rezar, dizendo: "Oremus". Isto mostra, por si só, a importância da coleta na liturgia. Esta saudação tem o valor de chamar a atenção dos fiéis para algo importante que se seguirá. O sacerdote convida todos os que estão presentes para prestar atenção à oração que ele rezará em nome de todos. Ao rezá-la o sacerdote adota a posição normal do orante: de pé, com os braços abertos e olhando para o Oriente, juntamente com os fiéis, onde o sol nasce. "A direção comum para o oriente não era celebração 'de frente para a parede', não significava que o sacerdote 'desse as costas ao povo', não se dava tanta importância ao sacerdote [nota nossa: no sentido daquilo que o mesmo Cardeal Ratzinger dissera algumas linhas antes, na mesma página: "Agora o sacerdote -- o presidente, como é chamado agora -- se converte no verdadeiro ponto de referência do conjunto"]. Assim como na sinagoga todos olhavam para Jerusalém, assim aqui todos olham 'para o Senhor' " (Cardeal Ratzinger, O espírito da liturgia, in Obras completas, vol. XI, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2012, p. 46). O sacerdote junta as mãos quando diz, para concluir a oração, "Per Dominum nostrum Iesus Christum...", no momento mesmo em que diz o nome de Jesus. Não sabemos o motivo desta mudança de postura. Se os padres o fazem, como já dissemos, é porque simplesmente recebem o que lhes foi transmitido. Porém, é possível que este gesto de unir as duas mãos aos se falar o nome de Jesus simbolize que em Jesus estão unidas as duas naturezas, divina e humana, na única pessoa do Verbo. Até o século X não se dizia mais que uma coleta em Roma. Algum tempo antes os francos começaram o costume de rezar várias. Um erudito da época, Amalário, escreveu contra esta multiplicação de orações, dizendo que ia contra o costume de Roma. Porém o movimento introduzido não pode ser parado. O número de orações cresceu, mas sempre foi limitado a um número ímpar. O argumento era que, parafraseando Virgílio (Eglog. VIII, 75), "numero Deus impari gaudet" -- Deus se alegra com o número ímpar. Evidentemente esta afirmação não deve ser tomada de modo primário e infantil, como se as pessoas da Antiguidade e da Idade Média fossem superficiais. Esta afirmação de Virgílio, graciosa no modo como é expressa, possui implícita vários princípios filosóficos importantes  cuja explicação fugiria do propósito deste artigo.  

    Para citar este texto:
"Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional – Parte 3"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/onde-o-ceu-toca-a-terra-um-percurso-pelo-rito-romano-tradicional-parte-3/
Online, 21/10/2017 às 04:55:08h