Religião

Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional - Parte 2
Marcos Bonelli
 

Formas litúrgicas tradicionais "venceram a prova do tempo, porque tinham grande valor,  unindo o passado com o presente e fazendo dos católicos de hoje herdeiros dos Apóstolos".  Leia também a primeira parte deste estudo.     b) O introito O sacerdote recita, então, o Introito. O introito era o canto processional executado durante a procissão do clero que se dirigia ao altar e aos seus lugares. Esta procissão era, e é ainda, feita com muitas pessoas numa ordem e num silêncio perfeitos, porque se busca guardar o recolhimento necessário à oração e ao culto que convém a Deus. Esta ordem mantida entre o clero tem como finalidade expressar de algum modo a ordem perfeita que existe no Paraíso celeste, com os coros de anjos e santos que não fazem mais do que adorar e servir Deus, cantando sua glória. Que cantos deveriam acompanhar esta procissão? Não há dúvida de que ela deveria ser acompanhada pelos Salmos. O único livro de hinos dos primeiros séculos da Igreja era o livro dos Salmos. É dos Salmos que a Igreja, tanto no Oriente como no Ocidente, tomou todos os seus cantos. Também aqui a Igreja mantém o seu modo habitual de cantar os salmos, de modo que em todo intróito de uma missa temos primeiro um antífona, seguida do salmo, do "Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto..." e, finalmente, a antífona é retomada. Se é verdade que a primeira parte do "Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto, etc..." já existe desde o século II, e que sua segunda parte é usada desdo o século IV, sabemos também que estas duas partes eram acrescentadas no final dos salmos, em Roma, desde o século V, pelo menos. O costume de se acrescentar uma antífona antes do salmo, e de retomá-la após o "Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto, etc..." vem do Oriente, de Antioquia. Nesta cidade uma pessoa cantava o salmo e o povo cantava a antífona ao final de cada versículo. Fazia-se, então, uma alternância onde a antífona era cantada ao final de cada versículo do salmo. Santo Ambrósio, bispo de Milão falecido em 397, introduziu no Ocidente o modo antioqueno de cantar os salmos. Gradualmente a antífona foi sendo cantada somente no começo e no final do salmo. Além disso, aos poucos se começou a ver o canto de todo um salmo como muito longo. Sendo um canto de procissão, ele deveria ser executado somente durante o tempo necessário para que o bispo chegasse até o altar. Ao chegar no altar o bispo não deve ficar esperando o canto acabar para começar a missa. Uma vez que quase sempre o Introito não era completamente cantado começou-se a cantar somente o primeiro versículo do salmo previsto para a missa que seria rezada. Todas estas mudanças deram a forma de cantar que conhecemos hoje e que permaneceu no introito da missa romana tradicional: antífona, primeiro versículo do salmo, "Gloria Patri..." e repetição da antífona. Algumas vezes a antífona é constituída do primeiro versículo do salmo. Nestes casos continua-se o salmo a partir do segundo versículo. Quem já teve a possibilidade de ouvir um introito pode perceber que ele exprime perfeitamente o aspecto que a Igreja deseja ressaltar da missa que será rezada. A melodia gregoriana dos introitos sempre dá, por assim dizer, a personalidade e o temperamento daquela missa que está sendo rezada. A missa é iniciada então com um canto, uma melodia e uma antífona que dirigem as nossas inteligências e nossos afetos até Deus de um modo particular, conforme com o que a Igreja deseja nos ensinar naquela missa e que está expresso também nas leituras e nas orações próprias do dia. Tudo isso, é lógico, não é uma obra de alguns meses num escritório, feito por especialistas de liturgia com um conhecimento limitado dos anos 50 e que hoje já se mostrou muitas vezes equivocado... Tudo isso é o trabalho de séculos de piedade animado do amor por Deus, feito sobretudo pelos santos: São Leão Magno, São Gregório Magno, São Gregório VII, São Pio V, São Pio X. É também o trabalho dos monges que, recolhidos e penitentes, tinham as almas mais abertas à luz que vem de Deus e que progressivamente foram exprimindo na melodia gregoriana o que Deus lhes ensinava no interior de suas almas. O introito muda a cada missa. Cada domingo e cada festa tem seu Introito. Já no Antifonário Gregoriano, datado desde o Papa São Gregório Magno, cada festa tem seu Introito. É uma característica própria dos ritos ocidentais. As liturgias orientais são sempre a mesma ao longo de todo o ano, exceto as lições e alguns cantos nas grandes festas. Os Orientais preparam o pão e o vinho e o oferecem antes da missa começar. Quando a missa começa o sacerdote já está no altar e não há procissão. Não havendo procissão não há canto para ela e, consequentemente não há introito. Não sabemos ao certo quando o rito romano começou a ter partes móveis, variáveis a cada festa. Aparentemente o rito romano original, nos primeiros séculos, era imutável, isto é, não tinha partes próprias para cada festa. Além disso, quem escolheu cada parte própria para cada missa? Muitos deles foram escolhidos e selecionados por São Gregório Magno, e escritos no seu Antifonário, ou ao menos receberam deste grande Papa sua forma final. As partes próprias das grandes festas, contidas até hoje no missal romano tradicional, datam de São Gregório Magno. Por outro lado muitas destas partes devem ser mais antigas que São Gregório, datando possivelmente do Papa São Dâmaso. Mas permanece o fato de que não sabemos, e talvez nunca venhamos a saber, quando muitas delas surgiram ou adquiriram sua forma final, nem quem o fez. Este é um dos motivos mais fortes que militam contra as mudanças que foram feitas na liturgia católica durante os anos 60. Muitas coisas sobre a formação da missa nos são profundamente desconhecidas, simplesmente porque não temos fontes que nos permitam conhecê-las. São costumes recebidos daqueles que nos construíram, costumes que a Igreja canonizou, por assim dizer, e nos transmitiu como um tesouro que devemos guardar com muito zelo. Excluí-los do rito da missa com argumentos de que eles eram "simplesmente repetitivos sem razão", ou "antiquados", ou "incompreensíveis para os homens de nosso tempo" é uma grande imprudência, porque mutilava coisas que muitas vezes tinham uma razão profunda de ser e que se foram mantidos durante séculos, se venceram a prova do tempo, é porque tinham grande valor e serviam para formar as almas, unindo o passado com o presente e fazendo dos católicos de hoje herdeiros dos Apóstolos, dos Santos Padres e dos que vieram depois deles, formados por eles. Ainda que não conhecêssemos o porquê de certos gestos ou hábitos, eles sempre se mantiveram primeiramente porque a Igreja os transmitiu assim para nós e continuar a execução deles e a transmissão deles era uma manifestação profunda de amor pela Igreja e pelas suas coisas. Dom Lefebvre compreendia isso muito bem, e por isso pediu que sobre o seu túmulo fosse escrito o seguinte epitáfio: "Transmiti o que recebi". Dentre os diferentes introitos vale a pena ressaltar aquele que é usado nas missas votivas de Nossa Senhora, "Salve Sancta parens". Este introito é o começo de um hino do poeta Sedúlio, do século V, influenciado por Virgílio, poeta romano do século I. Este, na sua obra Eneida, ao descrever as cerimônias de veneração dos antepassados, usa a expressão "Salve, sancte parens" (Eneida, V, 80). Exemplo da como a Igreja soube tomar a cultura clássica e elevá-la ao culto de Deus. O começo do intróito dá o nome da missa. Assim, temos a missa de "Requiem", a missa "Laetare", a missa "Ad te levavi", etc. Os liturgistas perceberam que o texto do salmo usado nos introitos não é idêntico ao texto latino da Vulgata. O texto do introito, bem como dos outros cantos da missa romana tradicional, é tirado de uma versão latina da Sagrada Escritura anterior à Vulgata. Esta versão é chamada de "Ítala antiqua", porque era usada na Itália antes da Vulgata, e data do século II-III. Ao começar o introito o sacerdote faz um sinal da cruz, modo como os católicos começam a oração. Este sinal da cruz é feito porque antigamente era aqui, no introito, que a missa começava propriamente. Como vimos, as orações que antecedem o introito eram preparatórias à missa e só foram anexadas a ela de modo definitivo e obrigatório por São Pio V. Esta é outra característica da missa no rito romano tradicional. Os acréscimos que foram sendo feitos nela quase sempre não anularam o que já era feito. Não é porque o padre passou, desde a compilação de São Pio V, a fazer um sinal da cruz ao começar as orações ao pé do altar que ele deixará de fazer o sinal da cruz no introito. Na Igreja, como regra geral, nada se perde, tudo se conserva.  

    Para citar este texto:
"Onde o Céu toca a terra: um percurso pelo Rito Romano Tradicional - Parte 2"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/onde-o-ceu-toca-a-terra-um-percurso-pelo-rito-romano-tradicional-parte-2/
Online, 12/12/2017 às 16:22:53h