Religião

Mais outra parábola sobre o bom uso do dinheiro: o mau rico e o pobre Lázaro (parte 1)

Mário Silva Martins

"Os hereges, que negam que nosso corpo seja criado por Deus, criticam as homenagens exteriores que Lhe são dadas. Esquecem que são homens. Convém usar meios sensíveis para elevar a alma a Deus". São Tomás de Aquino, na Suma contra os Gentios

Introdução Já vimos aqui a parábola do ecônomo infiel, na qual Nosso Senhor ensina a necessidade de usar bem o dinheiro que se tem, a fim de obtermos méritos para a salvação. Veremos, em seguida, outra parábola semelhante, contada por Nosso Senhor logo após aquela e relatada no capítulo 16 do Evangelho de São Lucas. Entre uma e outra, São Lucas coloca uma passagem intermediária, que analisaremos agora, na qual a avareza dos fariseus é mostrada com clareza. "Mas os fariseus, que eram avaros, ouviam todas estas coisas e riam dele" (v. 14). Eles tinham acabado de ouvir a parábola do ecônomo infiel e a moral que Nosso Senhor tinha tirado dela, mas não queriam abandonar o apego ao dinheiro. Por isso, não tendo argumentos, debocham de Cristo. São Lucas usa dois termos aqui que nos pintam bem o quadro do que está acontecendo. Primeiramente usa uma palavra que significa literalmente, "amigos do dinheiro". Não era um mero interesse por conveniência, esse apego que os fariseus tinham pelo dinheiro. Era comparado a uma amizade, uma grande união. O segundo termo que usa é um verbo que vem da palavra grega para nariz, e significa o ato de torcer o nariz para zombar de alguém. Os dicionários e comentadores estão todos de acordo em ver nesse verbo a indicação de um deboche grande, aberto, público, com energia, chegando ao limite da insolência. Para os fariseus, era estranho que uma pessoa pobre como Jesus falasse contra o comportamento deles em relação ao dinheiro. Que valor tinha essa crítica contra eles, tão zelosos pela lei? "Jesus lhes disse: Vós sois os que querem passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; o que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus" (v. 15). Nosso Senhor não deixa, portanto, de dar uma resposta a esse insulto insolente e dirige aos fariseus uma resposta direta contra a hipocrisia deles -- "Vós sois"... Embora os homens podem se enganar com essas aparências, a Deus nenhum coração está escondido. Por uma insinuação, Nosso Senhor faz alusão aos desvios morais que eles tinham interiormente: "Deus conhece os corações". Pelas cerimônias religiosas externas seguidas com precisão e pelos escrúpulos em interpretar a lei mosaica, eles aparentavam ter um interior também bom. O povo ficava admirado com isso, mas Deus conhecia as más disposições interiores que eles tinham. O comentário que fazemos aqui pede uma explicação. Todos nós devemos dar a Deus o culto que Lhe é devido por causa de sua infinita grandeza. Esse culto deve partir da inteligência e da vontade, de nosso interior, e deve se manifestar exteriormente. Isso é o que Cristo quis dizer à samaritana quando conversava com ela: "Mas vem a hora — e é agora — em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade" (São João 4, 23-24). Os principais atos do culto que prestamos a Deus são, evidentemente, aqueles da inteligência e da vontade. Fazer com que o culto a Deus seja fruto do sentimento - e sobretudo de um sentimento cego e instintivo - é um grave erro, que perverte o próprio conceito de religião. É mais do que claro que a religião consiste principalmente nos atos interiores da inteligência e da vontade, no conhecimento e no amor de Deus. Sem esse culto interior, o culto exterior por palavras, gestos e ritos não é mais do que hipocrisia. Essa é a repreensão que Cristo faz aos fariseus: "Hipócritas, Isaías bem profetizou sobre vós quando disse: Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim" (São Mateus 16, 7-8). Seria, porém, ilegítimo afirmar que zelar pelo culto exterior é necessariamente fruto da hipocrisia. Se, por um lado, o culto exterior está subordinado ao culto interior, já que é sua manifestação, não é menos verdade que estamos todos obrigados a dar a Deus um culto exterior, e feito com zelo. O culto exterior é devido por si mesmo pois, se dependemos de Deus em tudo, na alma e no corpo, então devemos reconhecer essa dependência também por atos do corpo, palavras e gestos. Santo Tomás diz que "o culto de Deus é duplo — o interno e o externo. Pois, sendo o homem composto de corpo e alma, ambos devem aplicar-se ao culto de Deus, de modo que a alma o cultue com culto interno, e o corpo, com o externo. Por isso, diz a Escritura (Sl 83, 3): O meu coração e a minha alma se regozijaram no Deus vivo. E assim como o corpo se ordena a Deus, pela alma, assim, o culto externo é dirigido pelo culto interno. Ora, o culto interno consiste em a alma unir-se a Deus pelo intelecto e pelo afeto. Por onde, segundo os modos diversos pelos quais o intelecto e o afeto de quem cultua a Deus se unem retamente com ele, assim os modos diversos pelos quais os atos externos do homem se aplicam ao culto de Deus" (Suma Teológica I-II, q. 101, a. 2). Santo Tomás, em outra obra, ataca diretamente os hereges que criticavam o culto exterior dado a Deus: "Não devemos nos espantar se os hereges, que negam que nosso corpo seja criado por Deus, criticam essas homenagens exteriores dadas a Deus. Eles esquecem, evidentemente, que são homens, se não vêem que a representação das coisas sensíveis é necessária para o conhecimento e o amor interiores. A experiência mostra que pelos atos do corpo a alma é levada a algum conhecimento e afeto. É claro, assim, que convém usar meios sensíveis para elevar nossa alma a Deus" (Contra gentes 3, c. 119). Portanto, as palavras de Nosso Senhor ditas à samaritana e aos fariseus não condenam o culto exterior, mas somente aquele que é unicamente exterior – ou seja, uma hipocrisia - ou ainda principalmente exterior, o que seria uma inversão na ordem de importância que há do culto interior sobre o culto exterior. Vez por outra se ouvem críticas aos que vão à missa tridentina, de que sejam pessoas apegadas ao culto exterior e negligentes com o culto interior. "Gostam de incenso e de rendas..." Permitimo-nos um comentário. Estamos acostumados a ver os que assistem às missas tridentinas fazendo grandes sacrifícios quotidianos para cumprir a lei de Deus. Todos temos nossas misérias - sem dúvida - mas é difícil não ficar admirado quando vemos muitas famílias numerosas (melhor dizendo, simplesmente católicas...) e pais com seis, oito, dez filhos. Ao mesmo tempo, é difícil não ficar consternado quando vemos centenas de paróquias nas quais não há a missa tridentina, e cujas famílias têm todas no máximo dois ou três filhos, quando não um só e único filho. É natural se questionar e concluir que há um problema. Nas missas antigas o silêncio e o recolhimento são a regra. Rezamos muitas vezes de joelhos, por um bom tempo. As crianças acompanham com o mesmo recolhimento sem maiores dificuldades. Mas quando entramos em uma missa nova, vemos casais de namorados abraçados durante a missa, pessoas que conversam constantemente e têm dificuldade para se recolher e rezar, pais que deixam as crianças brincarem sem lhes ensinar que é preciso dar atenção à missa, porque é algo grande que está acontecendo. Necessariamente nos perguntamos: "Afinal de contas, quem negligencia o culto interior? Será que a maioria dos fiéis realmente se preocupa em dar a Deus um culto exterior conveniente? Ou, aos olhos de muitos hoje, a missa é um evento comunitário e não um sacrifício para o perdão dos pecados?" Por que não poderíamos pensar que, se os que vão à missa tridentina zelam tanto pela beleza das missas, é porque isso, no fim das contas, é uma exteriorização de um culto interior? Se eles zelam tanto pela beleza dos paramentos, do altar, da igreja em geral e dos detalhes, não seria porque vêem a importância que tudo isso têm para que a alma seja elevada até Deus? E se nem a Igreja julga as intenções das pessoas, porque tanta pressa em querer ver hipocrisia nas pessoas que vão à missa tridentina? Ou será que o problema é que muitos não vêem essa missa como "um rito antigo e venerável, um tesouro de toda a Igreja", nas palavras do Papa emérito Bento XVI? E se não a vêem assim, seria porque há alguma discrepância de doutrina? Cristo disse aos fariseus: "(...) o que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus". Uma mesma conduta que tem duas avaliações diferentes, de acordo com os princípios que se usam. Se o importante é a admiração das pessoas, então os atos interiores serão deixados de lado e todo o esforço estará em aparentar virtude sem tê-la. Se o importante é o juízo de Deus, então os atos interiores serão prioritários e os atos exteriores serão o fruto visível deles. Mas as pessoas passam, as opiniões delas passam, tudo passa. Só Deus não muda. Os três versículos seguintes convêm tanto aos problemas pelos quais a Igreja passa atualmente que parecem ter sido feitos sob medida para nós, particularmente o versículo 18. "A Lei e os Profetas vão até João! Daí em diante, é anunciada a Boa Nova do Reino de Deus, e todos se esforçam para entrar nele, com violência. É mais fácil passar céu e terra do que uma só vírgula cair da lei. Todo aquele que repudiar sua mulher e desposar outra comete adultério, e quem desposar uma repudiada por seu marido comete adultério" (vv. 16-18). A relação deles com o resto do texto é pouco clara numa primeira leitura. Muitos pensaram que esses três versículos foram ditos em outra ocasião. Isso poderia ser verdade, mas qualquer pessoa de bom senso vê que seria uma violência ao próprio fato que é narrado. Não se encaixa em uma boa psicologia, em um modo normal de proceder de qualquer autor, narrar uma discussão e intercalar nela frases vindas de outra. Supor que São Lucas tenha separado essas três frases de Cristo de outra circunstância para colocá-las aqui não é a consideração mais razoável. Deve haver um modo de ver esses versículos que seja mais compatível com o contexto. A verdade é que não é impossível que São Lucas tenha encurtado essa parte da argumentação de Cristo e que isso tenha tornado as ligações com o resto do discurso menos visíveis. Além disso, as pessoas que ouviam o que Cristo falava podiam muito bem ter certas noções que não estão explicitadas nestes três versículos e que os tornava compreensíveis para as pessoas presentes na ocasião. Através de uma paráfrase do argumento de Cristo aos fariseus, vemos a melhor tentativa de dar sentido a esses versículos: "Diante dos homens, vós sois sábios, mas para Deus vós sois objeto de horror (v. 15), pois a verdade se manifestou a vós com clareza e vós a recusastes, se opondo ao estabelecimento de meu Reino. Não pensem que vim destruir a Lei antiga. Minha missão é, ao contrário, a de aperfeiçoá-la (v. 17). Mas meu Reino é combatido e prejudicado pelo vosso laxismo, em particular no que diz respeito à instituição divina do matrimônio. Porém, apesar desse laxismo pregado por vós, chefes do povo e responsáveis por ensiná-lo a seguir os mandamentos, Eu a restabeleço no seu vigor primordial e afirmo que o matrimônio é indissolúvel. Quem se casa validamente e se separa unindo-se a outra pessoa depois, comete adultério (v. 18)". Espetacular! Os cardeais Walter Kasper e Marx e seus seguidores são os mais puros discípulos desses fariseus. É impossível ler estes três versículos e não ver esses bispos laxistas diante dos nossos olhos. Diante dos homens eles têm alta estima, mas para Deus eles são objeto de abominação. Pelo laxismo moral que pregam, sob a camuflagem de pastoralidade, eles combatem o Reino de Deus. É preciso ter isto bem claro: a pastoral laxista atual, que se aplica hoje para o caso dos fiéis que vivem em concubinato, combate o crescimento do Reino de Deus. "(...) o que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus". Mas as pessoas passam, as opiniões delas passam, tudo passa. Só Deus não muda. "Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento, porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado. Aquele, portanto, que violar um só desses menores mandamentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo, será chamado o menor no Reino dos Céus. Aquele, porém, que os praticar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos Céus" (São Mateus 5, 17-19). Para esses traidores de Nosso Senhor, que querem ser estimados pelos homens, vale o que Ele disse: "Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa" (S. Mateus 6, 2).

    Para citar este texto:
"Mais outra parábola sobre o bom uso do dinheiro: o mau rico e o pobre Lázaro (parte 1) "
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/mais-outra-parabola-sobre-o-bom-uso-do-dinheiro-o-mau-rico-e-o-pobre-lazaro-parte-1/
Online, 18/08/2017 às 11:47:04h