Religião

Do gol de bicicleta à onipotência suplicante
Orlando Fedeli

 
“La gloria di Colui Che tutto move,
Per l ‘universo penetra e risplende
in una parte più e meno altrove”
 
(Dante, Divina Commedia, Paradiso I, 1-3).
              
“A glória dAquele que tudo move,
pelo universo penetra e resplandece,
numa parte mais e menos noutra”.
 
Esse magnífico terceto com que Dante inicia o primeiro canto de seu Paradiso é um dos mais belos da Divina Comédia e é prenhe de sabedoria. Com efeito, Deus, ato puro, move todas as coisas criadas, concedendo-lhes participação em graus e formas diversas em suas qualidades, fazendo-as passar de potência a ato.
 
Tudo o que se move, isto é, todas as criaturas compostas de ato e potência só podem se mover por uma ação de Deus, ato puro e, por isso mesmo, onipotente, que lhes permite passar de potência de uma qualidade para a posse daquela mesma qualidade em ato, normalmente por meio de uma causa eficiente segunda ou, por vezes, pela ação direta de Deus, causa eficiente primeira.
 
Parece haver uma contradição ao dizer que Deus, ato puro sem potência alguma, é também onipotente. Isto, porém, é correto porque, em Deus, não há potência passiva. Deus não pode receber qualidade alguma, porque possui todas as qualidades em ato e, portanto, tem todas as qualidades em grau máximo, não podendo perdê-las, nem aumentá-las e nem tê-las diminuídas.
 
E como Ele tem todas as qualidades em ato, Ele é capaz de transmitir essas qualidades a outros seres, que tenham potência para recebê-las, em forma e medida variada. Todo ser que tem uma qualidade em ato é capaz de atuar, passando a qualidade que possui em ato a outro ser que tenha potência de recebê-la. Assim, o fogo é quente em ato, e a panela tem potência de ser aquecida. Desse modo, o fogo aquece a panela passando-lhe calor, na medida e na forma em que a panela é capaz de receber essa qualidade.
 
Deus, tendo todas as qualidades em ato em grau absoluto, tem toda potência ativa de transmitir essas qualidades. Por isso Ele é onipotente ativo.
 
Portanto, temos que distinguir potência passiva de potência ativa.
 
Deus não tem nenhuma potência passiva. Deus tem toda potência ativa. Por isso, o Ato puro é Onipotente.
 
Toda potência, por assim dizer, deseja ser atualizada. E o ato, por assim dizer, deseja transmitir sua qualidade ao que está em potência para ela.
 
Ato e potência desejam-se mutuamente. Pode-se dizer, analogicamente, é claro, que o ato ama a potência, querendo passar-lhe um bem, e a potência deseja ser atualizada pelo ato.
 
Assim, é o amor que tudo move.
 
Por isso, o mesmo Dante finaliza a Divina Comédia, dizendo em seu último verso: “Amor che move Il Sol e le altre stelle”.
 
”Amor que move o Sol e as outras estrelas” (Dante, Divina Commedia, Paradiso, XXXIII, 143).
 
É o amor de Deus que tudo move.
 
Por isso, se diz, na Sagrada Escritura, que a Sabedoria de Deus se divertia, brincando com o globo da terra:
 
     “Eu estava com Ele regulando todas as coisas; e cada dia me deleitava, brincando continuamente diante dEle, brincando sobre o globo da terra, e achando minhas delícias em estar      com os filhos dos homens” (Provérbios, VIII, 31-32).
 
A Sabedoria de Deus “brincava” com o globo da terra. [De passagem, já na Escritura se dizia que a terra era um globo. Como podem os doutores de dúvidas do século XX afirmar que a Idade Média desconhecia que a terra era redonda, se isso é expresamente dito em várias partes da Escritura? ( Sl.LXXVI, 19;Sl. XLIX, 12; SL XXIII, 1 )].
 
Como é ignorante o século da “imbecilidade e do ódio”, em que hoje vivemos!
 
O “Progresso” é uma ruína!
 
Claro que Deus não brincava como o globo terrestre. O termo “brincar” na citada frase da Escritura é analógico: assim como uma criança brinca com uma bola, porque gosta de movê-la, de fazê-la passar de potência a ato em movimento local, assim Deus ama mover as suas criaturas, pois lhes quer dar participação em suas qualidades.
 
Voltemos um instante aos magníficos versos de Dante citados inicialmente neste artigo.
 
A glória de Deus que tudo move, em algumas criaturas, penetra. Mas noutras apenas resplandece, sem nelas penetrar. Nos anjos e nos homens, a luz de Deus penetra, quer pela sua Verdade nas inteligências, quer pela graça santificante, Deus vive nos anjos bons e nas almas batizadas que cumprem a sua lei.
 
Mas, nas criaturas irracionais, naquela que estão privadas “d’intellectto e d’amore”, Deus apenas resplandece. Animais, vegetais e minerais não são capazes de receber a luz de Deus, a verdade, nem podem participar de sua santidade. Nesses seres, há apenas reflexos, vestígios de Deus, no bem que eles possuem, na ordem que os rege, nos símbolos de Deus que possuem. Nos anjos e nos homens há mais: há imagem de Deus porque esses seres têm inteligência e vontade, como Deus, que é Inteligência infinita e Vontade ou Bem infinito.
 
Enquanto que nos santos há mais ainda: há semelhança com Deus. 
 
Deus é luz. “Deus lux est”, diz a Sagrada Escritura (I Jo, I, 5). E a luz divina em tudo penetra e resplandece. Por isso tudo é feito de luz. E a luz intelectual brilha nos anjos e nos homens, enquanto nas criaturas irracionais a luz se manifesta no colorido e no brilho. Por isso, o diamante e o ouro são belos e desejáveis, pois que neles a luz resplandece de modo extra-ordinário. Deus ama todos os seus filhos. Mas nos santos ele se rejubila.
 
E assim como a luz e o calor do sol derretem a cera e endurecem a lama, assim alguns homens, livremente, recebem  a luz divina em coração brando, enquanto outros endurecem o seu coração à luz de Deus, como os judeus em Meribá: “Não endureçais o vosso coração como em Meribá, nas águas da contradição” (Sl XCIV, 8).
 
 
***** 
 
O movimento:
 
Movimento ou mudança é toda passagem de potência a ato.
 
Comumente, pensa-se que movimento é apenas a mudança de local. Na verdade, em toda mudança de qualidade, de situação, de estado, como na mudança de local, há sempre uma passagem de potência para ato.
 
Os seres são tanto mais perfeitos quanto mais têm qualidades em ato. Quanto mais um ser está em ato, mais ele se assemelha a Deus, que é puro ato, sem potência passiva.
 
O ser menos perfeito é aquele que tem menos ato e mais potência passiva. Este ser é a matéria. Ela, pelo menos tem um ato: o da existência. A matéria está pronta a receber muitas qualidades de outros seres que a movam.
 
Nós, seres humanos, também nós, como Deus, temos felicidade em mover outros seres, desde mover uma bola até mover homens. Na vida, passamos o tempo movendo a nós mesmos, movendo outros, e movendo as coisas. Claro que mover as coisas é muito menos que mover homens, mover outros ou a nós mesmos.
 
E assim como está escrito que Deus “brinca” com o globo da terra, a criança gosta de mover uma bola.
 
A esfera é o corpo geométrico mais móvel, e, por isso mesmo, é o mais adaptado a ser movido por nós. Daí, os esportes mais comuns serem com bolas (futebol, vôlei, golf, pólo, handball, tênis, ping-pong, boccia, etc). Ou então com rodas (corridas com todos os tipos de veículos, ou corridas entre homens competindo para constatar quem se move mais rápido).
 
O esporte é a atividade de movimento mais baixa que podemos ter. É evidente que praticar um esporte faz bem ao corpo e à alma, e que isso é até necessário, especialmente aos jovens, para gastar energias, e para se prepararem para as sérias lutas da vida. O esporte é bom para a juventude. Mas a fanatização das massas pela mera assistência de competições, a entrega exagerada às emoções esportivas excessivas, o viver em função de emoções nas competições esportivas atuais é danosa.
 
As gigantescas competições esportivas atuais fazem viver só para a emoção e para ter domínio de movimentos físicos, que são os mais baixos. Hoje, os homens se preocupam com os campeonatos, esquecendo os movimentos mais importantes: as ações espirituais, religiosas, políticas, artísticas, etc.
 
Toda sociedade que supervaloriza o esporte, como a nossa sociedade, é decadente. Os romanos só começaram a se divertir com os jogos de arena, quando decaíram. Depois de se divertirem com a morte alheia, perderam o heroísmo, e passaram a contratar bárbaros que os substituíram no porte das armas. Até que os bárbaros voltaram as armas contra eles.  E se  acabou o império. O que foi pena. E se acabou a crueldade da arena. O que foi ótimo.
 
Os homens são como as árvores. Quando uma árvore começa a morrer, o broto apical, aquele que cresce mais para o alto, já não recebe a seiva de que precisa, e então se estiola e morre. A seiva, que já não alcança o cume da árvore, se acumula nos galhos inferiores que crescem e engrossam muito. Quem não conhece a vida das árvores se impressiona com aquelas que têm troncos e os galhos baixos muito grossos, e não sabe que isso é o prenúncio da morte da árvore. Assim também ocorre com as sociedades: toda sociedade decadente, não conseguindo mover o que é mais elevado, se dedica a mover coisas inferiores. Por isso, todo povo decadente se torna grande praticante de esporte.
 
É claro que todo movimento, até mesmo o físico, fazendo passar algo de potência para ato, de certa forma, sempre torna o homem semelhante a Deus que tudo move. Todo movimento tem uma certa beleza e uma certa bondade, na medida que atualiza um ser.
 
Tomemos como exemplo o mover de uma bola.
 
Por que um gol de bicicleta entusiasma e tem beleza?
 
No gol de bicicleta, o jogador, vendo a bola passar um tanto longe de si, e estando ele de costas para o gol, se lança repentinamente no ar, movimentando as pernas como se estivesse nadando no espaço. Ele, durante certo tempo, domina e vence a força da gravidade e, subitamente, alcança bola com um dos pés e lhe dá um impulso deslocando-a no ar em direção ao gol, que o jogador nem está vendo, pois que está de costas para ele. O movimento surpreende a todos e o goleiro, normalmente, nem tenta defender o gol, tal a surpresa e a rapidez do lance. A beleza do gol de bicicleta vem da destreza em dominar a força da gravidade, fazendo a bola ter um movimento local preciso, rápido e surpreendente contra toda a expectativa.
 
Toda criança gosta de brincar com uma bola, porque ela percebe que é capaz de mover algo. Como Deus, que tudo move.
 
É claro que dominar a matéria e fazê-la se mover é a ação mais baixa e mais fácil que existe.  A de menos valor.
 
Mais inteligente e mais elevado é o domínio que tem um grande jardineiro ao planejar e construir um jardim, formando desenhos com as plantas, como se fosse um bordado.
 
No jardim francês, a arte consiste em modelar os arbustos dando-lhes formas geométricas e, com eles, desenhar arabescos e bordados vegetais e floridos. Conta-se que, - e se non è vero, è bene trovato – originalmente Lenôtre fez o jardim de Versailles, colocando nele flores de toda a França, mas de tal modo que os perfumes diversos se unissem num único perfume próprio apenas do jardim real de Versailles. E assim como todas as flores da França se uniam num só perfume, todos os franceses estavam unidos num só rei.  
 
Repetimos, se isso não foi verdade, a idéia é muito bem achada.
 
A pretensão do jardim francês era olímpica: dominar completamente a natureza pela razão. Com tesoura e régua. Como se estivesse no homem o dominar completamente a natureza só por meio da razão. Como se não existisse pecado original. Foi no jardim de Versailles que os constitucionalistas revolucionários se inspiraram para pretender fazer uma constituição escrita perfeita, que dominasse a sociedade conforme planos, tesouras e apitos.  A guilhotina foi a tesoura político-social com a qual Robespierre pretendia exercer a função de jardineiro social. Daí, nasceram as Constituições escritas, com pretensão utópica de organizarem definitiva e perfeitamente a sociedade, como se a sociedade fosse uma máquina. Daí, nasceu também a nossa constituição-cidadã, a do Ulisses Guimarães, a mais remendada das constituições, e a menos respeitada. Portanto, foi também do espírito utópico do jardim francês, de Versailles, que nasceram O Terror de Robespierre, o Gulag de Stalin e genocida Auschwitz de Hitler.
 
O jardim francês, racionalista e geométrico afirma que razão humana por si mesma, sem Deus, é capaz de controlar plenamente a natureza. Ele nega o sobrenatural e é pelagiano. O homem com suas próprias forças seria capaz de dominar a natureza decaída de Adão e refazer com a técnica o paraíso terrestre. O jardim francês, como todo o constitucionalismo, é racionalista e utópico. Ele julga que o homem, de per si, é onipotente ativo. O jardim francês tudo quer regrar geometricamente
 
Isso não significa que o jardim inglês seja melhor.
 
O jardim inglês é irracional. Ele recusa o geometrismo aplicado às plantas pelo jardim racionalista francês. O jardim inglês quer a liberdade, o capricho, o laguinho de contorno sinuoso, a pontezinha em arco caprichoso. O jardim inglês quer imitar a liberdade da floresta. Ele nega que a natureza precisa ser dominada, controlada. Ele recusa crer no pecado original: a natureza seria sempre boa.  O jardim inglês dispensa a razão e a tesoura. Recusa regras.
 
O jardim inglês é irracionalista e acredita na bondade natural. Ele é romântico e milenarista, sonhando uma natureza edênica e a possibilidade de voltar para ela.
 
Porém, deixando de lado este parêntese sobre jardineiros que pretendem dominar absolutamente o movimento das plantas,ou dar-lhes liberdade absoluta, deve-se admitir que a capacidade humana de dominar a natureza vegetal, fazendo belos jardins é evidentemente superior à atividade esportiva. Mover plantas é mais elevado do que mover bolas.
 
Ora bolas!
 
Por sua vez, um treinador de animais exerce uma capacidade de produzir e controlar movimentos superiores aos do jardineiro, pois a planta não tem instintos, não têm sistema nervoso, e nem movimentos físicos, enquanto o animal tem instintos que o fazem mover-se a si mesmo em busca de comida e reprodução, sendo então capaz de ataque e de defesa ativa.
 
Nesse sentido, o treinamento de golfinhos, que são capazes até de indicar onde há minas submarinas ou de apontar aos pescadores onde há cardumes de peixes a pescar, como se pode ver em Laguna/ SC, é algo admirável.
 
Os famosos “Cavalos de Viena”, que aprendem a “dançar” e a fazer reverências, causam admiração a qualquer um. E quem não se entusiasma vendo nas touradas a cavalo a habilidade do cavaleiro e do cavalo driblando espetacularmente as investidas furiosas do touro? Não se sabe quase o que mais aplaudir, se o cavaleiro ou se a destreza do cavalo, que dominando o medo, engana o touro, dançando ante suas arremetidas cegas de fúria.
 
E então como deixar de falar do toureiro que, com sua capa, faz o touro obedecê-lo, até a fera indômita baixar a cabeça e ficar com as patas juntas a fim de receber o golpe mortal, enquanto o próprio toureiro domina e move o seu próprio corpo com elegância, evitando os golpes do touro, controlando o seu próprio medo da morte, assim como o medo - não menor - da vaia do público.
 
O que faz a unanimidade da reação do público aplaudir entusiasticamente o toureiro é o contemplar a alma humana, dominando os movimentos do touro bravio e os movimentos do próprio homem, tremendo, mas firme, e mais que firme, elegante, diante da morte.
 
Al sol.
 
*****
 
 
Dominar os movimentos humanos
 
Se o domínio dos seres irracionais honra o homem, muito mais o honra dominar-se a si mesmo e dominar os instintos de outros homens. Controlar os seus próprios movimentos instintivos e de qualquer tipo que sejam.
 
Não, leitor que me detesta e que me lê com raiva, domine-se. Não se precipite em me interpretar mal.
 
Quando falo em domínio dos instintos próprios e alheios, não me refiro a nada de tirânico. Refiro-me, antes de tudo, aos carinhosos cuidados maternos de uma mãe ensinando seu filhinho a dominar-se, a falar e a comer corretamente.
 
A mãe que ensina seu bebê a balbuciar e dizer as primeiras palavras, ela o ensina a controlar seus movimentos labiais e o faz passar da potência passiva de falar ao ato da fala. E que alegria dos pais ao ouvirem, pela vez primeira um filhinho dizer, balbuciante ainda e mal: ma-ma-ma... Mamãe! Ou ainda pa-pa-pa. Papai!
 
Também Jesus Cristo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, uno na substância ao Pai e ao Espírito Santo, Ele, o ATO puro, sem qualquer potência passiva, Ele, Deus, encarnando-se num homem, enquanto homem, tinha potência de aprender a falar. E Maria Santíssima foi sua mestra humana que lhe deu palavra. Foi Ela que fez passar Jesus, o Verbo encarnado – verdadeiro Deus e verdadeiro homem - da potência humana de falar ao ato de falar.
 
Ela deu palavra ao Verbo.
 
Vi recentemente, na Bretanha, tão devota de santa Ana, uma estátua da Mãe de Nossa Senhora ensinando-a a ler. Era uma estátua mal esculpida que mostrava Santa Ana sentada, segurando um rolo da Escritura, enquanto a pequena Virgem Maria - parecendo ter uns três anos — acompanhava com o dedinho a linha escrita, apontando atenta e preocupada as letras no pergaminho, silabando a escrita: bon-da-de. Bondade.
 
Que alegria a de Santa Ana ouvir a Virgem Maria, concebida sem pecado, aquele menina trono da sabedoria, aprendendo a soletrar.
 
Toda mãe, ao educar uma criança, faz com ela passe da potência de controlar seus movimentos desordenados decorrentes do pecado original para o domínio - em ato - do instinto de conservação. Pois toda criança nasce selvagem, com instintos animais descontrolados. Inicialmente, os movimentos apenas se manifestam - e decontroladamente -, visando a conservação da vida física. A criança coloca tudo na boca. Doce. Um palito de fósforo. O sorvete. O dedo. O cabo do guarda chuva. A torrada. A cocada. A faca. E mete a mãozinha no molho da panela. E se queima. E se suja. E se lambuza. E lambuza tudo em volta de si.
 
A mãe a educa, ensinado-a a controlar seus movimentos, transformando em ato a potência de aprender da criança: “Não fale, enquanto come. Não fale, enquanto mastiga”.
 
Educar é passar de potência a ato certas qualidades que fazem da criança, nascida selvagem, passar a civilizado. A educação faz a pessoa descontrolada a ter todos os seus movimentos virtuosamente controlados. E com a graça adquirir caridade e santidade. A educação é o primeiro passo para a santidade.
 
Certa vez, li um texto de educação dos aztecas. Esse povo era terrivelmente cruel e antropófago. Comenta-se que, na inauguração do grande teocali de Huitzlopotchili, no México, num só dia, os aztecas mataram e comeram 72.000 prisioneiros. Calcula-se que, se não tivesse lá chegado Cortez com 400 espanhóis, eles teriam despovoado toda a América Central com o genocídio que diariamente praticavam.
 
Pois esses antropófagos ensinavam os filhos a bem se comportarem ao comer. Coisa que raramente se vê em nossas cidades modernas, ditas civilizadas. Pois o manual de educação azteca que li, me fazia ouvir um pai azteca, dizendo a seu filho:
 
     “Quando você for convidado a um banquete, tome cuidado em não falar de boca cheia, porque pode ser que um pedaço do está comendo caia sobre o manto de um companheiro, a seu      lado”.
 
     “Não estenda apressada a mão para pegar a comida. Espere que outros se sirvam antes”.
 
     “Caso haja pouca quantidade de comida, deixe os outros convivas comerem antes que você. Não dispute pela comida”.
 
     Etc. (Estou citando de memória, e não “ipsis litteris”.
 
Como faria bem uma reedição do manual educativo azteca para os jovens “civilizados de hoje...
 
Claro, sem o cardápio azteca.
 
Educar é inculcar na criança a idéia de que ela tem uma natureza desordenada que precisa ser controlada. Que os instintos humanos são descontrolados. Que é preciso ter consciência que nossa natureza, deixada a si mesma, tende ao vício. A educação inculca na criança o princípio da auto censura, primeiro degrau para o exame de consciência diário, para pessoa se auto controlar. Desse modo, educar uma criança é dar-lhe apoio para subir o primeiro degrau da santificação. A educação é para o céu. Também a educação é arte que faz atualizar potências humanas.
 
Vê-se a criança educada no comportamento que ela tem nos locais públicos. Quando uma criança, na padaria, no banco, na Igreja, se comporta como se estivesse em seu quarto, ou no quintal de sua casa, é sinal que sua mãe não a soube educar. A criança grita. Pula. Agita-se. Bate o pé. E exige aos berros o que deseja. Descontroladamente. Chora. Empurra. Quebra as coisas. Tudo isso é sinal de que a mãe dela precisava ela ser corrigida. Ou ler o manual de educação azteca.
 
Se na infância não se ensina a criança a dominar seu instinto de conservação, comendo ordenadamente, como se controlará essa criança na puberdade, quando surgir o instinto de reprodução? O guloso e o egoísta, na infância, muito dificilmente será puro na adolescência.
 
Se é admirável controlar os movimentos de uma bola, de uma planta, e de um animal, como não será belo controlar o movimento de homens?!
 
Se se admira um jogador de futebol por sua habilidade em fazer a bola passar de potência a ato num movimento local apenas, se se admira um malabarista e acrobata, se se admira um técnico que domina a matéria, e um domador de animais, como não admirar um bom professor dominando uma classe de pequenos selvagens em estágio de passarem a ser civilizados?
 
Como não admirar um maestro que dirige um coral, controlando todo o movimento das vozes variadas no tempo e no tom, fazendo-as serem uma só voz e uma só harmonia?
 
E que faz um capitão de cavalaria, arrastando seu esquadrão para o heroísmo, para a dor, e para a morte, senão dominar o medo da morte?
 
Lembro-me de Lassalle, coronel de cavalaria de Napoleão, na batalha de Rivoli, em 1797. No final da batalha, Lassalle, caindo de cansaço, apresentou-se ao então jovem general Bonaparte – [que detesto] - carregando um grande número de bandeiras austríacas, tomadas à custa de dor, ferimentos, mortes e heroísmo. E Napoleão disse então a Lassalle, que, tendo se apeado de seu cavalo, se segurava arfante na sela, quase caindo de fadiga: “Couche-toi dessus, Lassalle, tu l’as bien merité” (Deita-te sobre as bandeiras, Lassalle, você bem o mereceu”).
 
Assim se recompensa quem sabe passar da potência do heroísmo ao heroísmo em ato.
 
E mais admirável então é o mestre de noviços que “educa” para a santidade, fazendo de um homem, cheio de defeitos, um grande santo.
 
Admiráveis foram os santos, como São Bento que civilizou os bárbaros, e que com suas Abadias refez a Europa
 
 
*****
 
 
Mover Deus
 
Mostramos que o mover as coisas faz do homem, de certo modo, um ser semelhante a Deus que tudo move.
 
Mostramos ainda — embora com nossa dificuldade de expressão – que o ato de mover é tanto mais admirável quanto mais perfeito é o ser movido, e quanto mais alta é a perfeição buscada, que é, de fato, alcançada em ato.
 
Sendo assim, como é admirável a luta de Jacó com o anjo.
 
Jacó lutou uma noite toda com um anjo para que este o abençoasse, dizendo-lhe : “Não te deixarei partir sem que me abençoes”. É evidente que o anjo podia vencer Jacó desde o inicio.
 
Mas, como queria Deus que Jacó adquirisse confiança para enfrentar Esaú, o anjo simulou não poder vencer. E no final, depois de derrubar Jacó, paralisando um nervo de sua perna, o anjo o abençoou e trocou o nome de Jacó para Israel, que significa “forte contra Deus”.
 
Israel, forte contra Deus.
 
Nome terrível, misterioso e ambíguo.
 
Misteriosamente ambíguo.
 
Forte contra Deus.
 
Como forte contra Deus?
 
Como inimigo de Deus?
 
Como suplicante?
 
Tremenda ambigüidade do nome.
 
A oração de Jacó se mostrou forte contra Deus, arrancando do anjo o que este não queria lhe dar.
 
Porque Deus, o Ato puro, pode ser “forçado” por nossa oração. Dando-nos o que não planejava nos dar.
 
Por isso Deus clamava contra Moisés que cessasse de O implorar com as mãos erguidas, porque sua oração O impedia de castigar o povo infiel de Israel.
 
A oração é o grande meio de salvação, disse-nos Santo Afonso. E os exemplos da Escritura e da história dos santos mostram-nos que Deus quer ser “forçado” a nos dar o que pedimos.
 
Por isso, a Sabedoria de Deus, quando andou pela aterra, nos disse: “Pedi e recebereis. Batei e vos será aberto”.
 
Porque a potência implora o ato. Porque o ato quer ser rogado pela potência passiva. O ato puro contempla as potências de suas criaturas querendo atendê-las. Potência contemplando o ato com admiração e súplica. E ato e potência se amam. Um desejou a outra. A potência desejando o ato. O ato desejando dar-se à potência.
 
Assim como a justiça e misericórdia, o Ato e Potência “se encontraram e se beijaram na face.”
 
Assim...
 
Assim a vela do veleiro, na calmaria, aguardando ansiosa a ventania.
 
Assim, o vento, na imensidão do mar, procurando a vela que deseja inflar.
 
Ah, alegria do vento enfunando a vela!
 
Ah, alegria da vela impelida pela ventania!
 
Vento que busca na imensidão da terra uma bandeira altiva.
 
Bandeira pendente no mastro, em desafio querendo ser sacudida.
 
Ah, a altivez da bandeira vibrando ao vento!
Ah, o entusiasmo do vento fazendo vibrar o heroísmo de bandeira erguida.
 
Assim também, a página vazia que, paciente, aguarda ser escrita.
 
Assim desejo da caneta de colocar palavras e verdades na página vazia.
 
Olhar de aluno atento, sorvendo verdades.
 
Palavra do professor derramando a doutrina em alma atenta.
 
Terra seca que tem sede.
 
Chuva generosa que à terra, humedecendo, torna fecunda.
 
Ouvido esperando a verdade.
 
“Boca que profere a verdade. Lábios que detestam o ímpio”.
 
Ah! “a alegria de um barco voltando”...
 
Ah, o cálido acolhimento “das distâncias nos velhos portos”.
 
Flauta que, quieta e muda, espera o sopro e a melodia.
 
Doçura do artista beijando a flauta, soprando sua alegria..
 
Arco desejando ser retesado para impelir a flecha.
 
Seta frágil desejando ter força para alçar seu vôo ligeiro e certo. “À temps et lieu”. Em tempo e lugar certo.
 
Carta de longe querendo ser lida.
 
Oh, a alegria lendo carta amiga!
 
Rebeca descendo do camelo venerando Isaac no fim de um dia.
 
Isaac recebendo Rebeca junto ao poço “Vive quem me vê”  no doce crepúsculo, um dia.
 
Clamor do filho pródigo voltando arrependido.
 
Júbilo no abraço do pai enternecido.
 
Potência clamando em sua impotência.
 
Ato absoluto, atendendo a miséria com sua onipotência.
 
Ato e potência, na doce união da alegria
 
A criatura deseja Deus e sem Ele tudo é vazio. E – oh coisa incrível e admirável — o Ato deseja dar-se à potência. A riqueza deseja satisfazer a miséria. Deus nos ama em nossa impotência, em nossa pobreza ontológica e na medida em que reconhecemos ser miserável potência incapaz, por si mesma, de fazer qualquer coisa.
 
“Sem mim nada podeis fazer”, disse-nos Jesus, Deus encarnado.
 
Foi por isso que a Virgem Maria, reconhecendo-se como simples escrava de Deus, arrancou de Deus a encarnação do Verbo.
 
Eis aqui a escrava do Senhor” disse Ela. E por aceitar ser quase como pura potência passiva, sem valor diante e comparada ao Ato puro, é que Ela obteve o Espírito de Deus, e que se encarnasse nEla o Altíssimo. 
 
Faça-se me mim segundo a tua palavra”.
 
E à súplica da potência ao Ato fez com que O Verbo de Deus se fizesse homem. E o Verbo de Deus se fez carne. E habitou entre nós.
 
E ele era cheio de graça e de verdade.
 
Foi a súplica humilde de Maria sempre Virgem que obteve de Deus a encarnação do Verbo.
 
Oh, alegra-Te filha de Sion, porque Deus te ouviu. Exulta filha de Jerusalém, porque o Altíssimo se fez menino em teu seio. A plenitude preencheu o nada de nossa humanidade.
 
Tu, filha de Jerusalém, exulta, porque grandes coisas fez em Ti o Onipotente, Aquele que é Santo.
 
Tu, glória de Jerusalém. Tu, alegria de Israel. Tu, honra de nosso povo. O Ato puro, em ti, se fez homem com potência capaz de sofrer. De ter paixão. De ser agoniado. De ser chicoteado. De ser amarrado. De ser coroado de espinhos. De ser crucificado, e de ser morto por nós. De ter o que é próprio da potência passiva: patere. Ser passivo. Ele, o Onipotente foi manso e humilde de coração.
 
E, durante trinta anos, o Onipotente serviu Maria e a José, trabalhando a madeira, fazendo da madeira uma cadeira e uma mesa, fazendo a potência da matéria passar a ato. E quando ainda não chegara o tempo, em Caná, Ele ainda não queria fazer um milagre. Que não era a sua hora. Mas, aquela que era sua Mãe lho pediu e sua súplica mudou os planos de Deus. E a água foi feita vinho. Porque ela era a Mulher, aquela que fora prometida na aurora da humanidade, quando Deus prometeu que  a Mulher esmagaria a cabeça da serpente.
 
E como seus milagres começaram pela suplica de Maria Virgem Mãe, assim também, na hora de sua morte, Ele a deixou em testamento para nossa Mãe e protetora dizendo-lhe:  “Mulher, eis aí teu filho”. E Ele nos fez então filhos de Maria, para que Ela, suplicando o Onipotente, fizesse de nossas míseras potências ato, que nos permitem realizar atos agradáveis a Deus.
 
Tudo o que Maria, que se disse a escrava do Senhor, pede, Ela o alcança do Onipotente, para nos ensinar que também nós podemos “mudar” os planos de Deus através da súplica, desde que peçamos como miseráveis impotentes. Porque Deus ama atender seus filhos. Pois o Onipotente ama a súplica da pura potência. Pois, Ele nos disse: “Pedi e recebereis”. “Batei, e se vos abrirá”. Porque o Onipotente se agrada em atender a súplica da impotência.
 
A oração tem o poder de mover o Imóvel. De mover a Deus.
 
Maria, a onipotência suplicante.
 
Mas se Maria, a criatura mais perfeita se disse escrava, só podemos mover a Deus imóvel se Lhe pedirmos por meio de Maria, nas mãos de quem Ele colocou todos os seus tesouros de graça e de santidade.
 
Por isso, dela escreveu um poeta:
 
     “Vergine Madre, figlia Del tuo Figlio,
     umile e alta più che creatura,
     termine fisso d’ etterno consiglio,
     Tu sei Colei che l’umana natura
     nobilitasti sì, che Il suo Fattore
     non disdegnò di farsi sua fattura.
     Nel ventre tuo si raccese l´amore
     per lo cui caldo nell´etterna pace
     cosi è germinato questo fiore.
     Qui sei a noi meridiana face
     di caritate, e giuso intra i mortalli
     sei di speranza fontana vivace.
     Donna sei tanto grande e tanto valli
     che qual vuol grazia ed a te non ricorre,
     sua disianza vuol volar senza ali.
     La tua benignità non pur socorre
     A chi domanda, ma molte fiate
     Liberamente al dimandar precorre.
     In te misericórdia, in te pietate.
     In te magnificenza, in te s´aduna
     quantunque in creatura è di bontate”.
 
     Virgem Mâe, filha de teu Filho,
      humilde e mais elevada que toda criatura,
     objetivo fixo da eterna sabedoria,
     Tu és aquela que a natureza humana
     Enobreceu tanto, que seu Autor
     Quis fazer-se tua feitura.
     Em teu seio se reacendeu o Amor
     a cujo ardor, na eterna paz
     assim germinou esta flor.
     Aqui és para nós meridiana face
     de caridade, e lá embaixo entre os mortais
     és de esperança fonte viva.
     Mulher, és tão grande e tanto vales,
     Que quem quer graça e a ti não recorre
     Seu desejo é de voar sem ter asas.
     A tua benignidade não só socorre
     a quem pede, mas muitas vezes,
     generosamente ao pedir precede.
     Em ti misericórdia, em ti piedade,
     Em ti magnificência, em ti se reúne
     tudo quanto na criatura há de bondade”
 
(Dante Alighieri, Divina Commedia, Paradiso, XXXIII, 1-21)
 
O Ato e a potência se encontraram e se beijaram na face.
 
São Paulo, 13 de novembro de 2009.
                Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Do gol de bicicleta à onipotência suplicante"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/gol-de-bicicleta/
Online, 27/05/2017 às 20:07:17h