Religião

Desigualdade & igualdade: considerações sobre um mito
Orlando Fedeli
   Outrora, nos Missais, os fiéis aprendiam a doutrina católica. Hoje, nos folhetos de Missa, aprendem marxismo.
 
   O padre Ivo Storniolo tornou-se conhecido pelo escândalo que provocou ao defender de modo pouco velado o amor livre em sua coluna "Mandamentos Hoje" no semanário "Litúrgico-catequético" O DOMINGO. Com efeito, no artigo "O QUE É A CASTIDADE?" (no 32 de 02-07-1989 do citado folheto) ele perguntava se, em matéria sexual tal coisa podia ou não ser feita, se valia ou não a pena? E respondia: "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
 
     Estribando-se fraudulentamente em Santo Agostinho reforçava o seu antinomismo, dizendo: "Ame e faça o que você quiser".
 
     Poucas linhas adiante, Padre Storniolo procurava mostrar que no mistério do amor o que estraga tudo é a idéia de posse. Condenava, portanto, o matrimônio indissolúvel:

"E aparece a idéia da posse. Segurar o que se conquistou, possuir o que se cativou. Prisão. E quem é que gosta disso?".
 
     E insinuava a defesa do amor livre dizendo que, assim como Deus tudo dá, assim a verdadeira castidade consistiria em dar tudo sem nada reter:

"Dar-mo-nos também. Aprender que as flores não precisam ser apanhadas no jardim. Elas já estão se dando!".
 
     A bom entendedor meia palavra basta. Padre Storniolo disse muitas. Disse até demais.

 

    Esse mesmo padre antinomista tem escrito vários artigos no mesmo boletim litúrgico defendendo a igualdade entre os homens. Veja-se em que termos:

 

 

"A justiça consiste em distribuir igualitariamente os bens entre todos." (Artigo Justiça e Pecado, no 21, 22-04-1990, p.4). "Repartir o que temos com o pobre e o que somos é voltar ao projeto inicial de Deus (...) No fundo, quando ajudamos o pobre, não estamos na verdade ajudando, estamos sim, devolvendo o que lhe pertence por direito divino e que antes lhe fora roubado, seja lá o que for".

 

 

     E, como conclusão, ele ousa desmentir diretamente Cristo, ao afirmar:

 

 

"O certo é que, se nos empenharmos na luta pela justiça, um dia no mundo não haverá mais pobres" (P. Storniolo, art. DEUS PAGA BEM, in O DOMINGO, no 25, 20-05-1990, p.4).

 

 

     Ora, Nosso Senhor sentenciou: "Sempre haverá pobre entre vós" (Jo. 12, 8).
     Explicando à sua maneira o texto: "Rico e pobre se encontraram: foi Javé quem fez os dois" (Pr. 22, 2), Padre Storniolo diz:

 

"O provérbio não diz que Deus quer isso. Diz simplesmente que Deus criou todos os homens. E criou todos iguais diante dele, com os mesmos direitos para participar dos bens da criação e nos destinos da História. Quem criou as diferenças foram os homens, nós mesmos, contra o projeto de Deus, que é de partilha e fraternidade entre todos. E então nasceram os ricos e os pobres, os poderosos e os fracos, os prestigiados e os anônimos" (Pe. Storniolo, art. "É ASSIM MESMO?" in O DOMINGO, no 30 - 17-06-1990, p.4).

 

     Continua o artigo expondo idéias favoráveis à luta de classes e perguntando como fazer para voltar ao "projeto de Deus", que evidentemente, se identificaria com o projeto de Marx e Lênin.
     Como se vê, nas piedosas páginas de O DOMINGO, os católicos apreendem que, em matéria de sexo, "tudo vale a pena", que o matrimônio monogâmico e indissolúvel é uma prisão e que, quando se dá esmola, está-se apenas devolvendo ao pobre aquilo que lhe foi tirado. Padre Storniolo propõe castos adultérios e honestos roubos. E continua a escrever. Piedosamente para os seus devotos leitores. Para as ovelhas de D. Arns.

     Não cremos que seja necessário refutar para nossos leitores as aberrações do Padre Storniolo em matéria de castidade. Mas com relação ao igualitarismo pareceu-nos conveniente uma explanação, pois penetrou fundo nas mentes a idéia de que a igualdade é sinônimo de justiça, e de que o próprio Deus quer que haja igualdade entre os homens. Ora, Cristo e a Igreja ensinam que a desigualdade é um bem em si mesmo.
     Evidentemente, nossa afirmação deve chocar muitas pessoas hoje, acostumadas pela sociedade a considerar toda igualdade um bem e toda desigualdade como injustiça.
     Em nossos dias, tudo fala e trabalha em prol da igualdade. Feministas querem a igualdade entre o homem e a mulher, outros querem a igualdade entre as nações, considerando toda colonização criminosa. Busca-se a igualdade até nas modas, sem levar em conta as tradições de cada povo e olvidando-se mesmo as diversas condições climáticas. Hoje, a mesma arquitetura enfeia Paris, Tóquio, Buenos Aires, Argel ou São Paulo. No rádio, os mesmos ritmos igualam a música italiana, russa, alemã, argentina e americana. Por toda parte se ouvem os mesmos guinchos, os mesmos uivos, os mesmos batuques, idênticas cacofonias.
     Nas relações sociais se nota o mesmo desejo de igualdade: os velhos querem, mais do que nunca, parecer jovens. Professores se dizem iguais aos alunos. Governantes, demagogos, procuram igualar-se aos governados. Padres para nivelar-se aos fiéis, deixam de lado a batina e a compostura; casam-se. Até o papa [João Paulo II] se deixa filmar esquiando e escorregando na neve, ou nadando em piscina como um atleta qualquer. Aboliram-se os títulos de nobreza e as fórmulas de cortesia. Todo mundo virou "você". E todo você usa jeans e masca chicletes. Mesmo quando vai à mesa da Comunhão.
     Ainda mais nefasto que todas as demais igualdades é o igualitarismo religioso preconizado pelo Concílio Vaticano II que, no fundo, proclamou a igualdade de todas as religiões ao afirmar que em qualquer delas se agrada à Deus do mesmo modo. Por isso João Paulo II oferece o corpo de Cristo ao Deus uno e trino e farofa aos ídolos na floresta dos deuses africanos. Abençoa com o sinal da cruz e recebe o Tilak, selo do deus Shiva em sua fronte pontifícia. No século XX, tudo se nivelou. Como, então, se espantar que até nos folhetos dominicais se defenda a igualdade?

     Na realidade, toda a História Moderna e Contemporânea gira em torno do problema da desigualdade ou da igualdade de direitos dos homens. Do século XVI ao século XX, a História registra um movimento igualitário cada vez mais acelerado e radical, que vem destruindo tudo o que a Civilização Cristã havia criado. É esse movimento igualitário que dá unidade e sentido à história desde o fim da Idade Média. A partir do século XV se tem discutido se a igualdade é um bem ou não.
     A revolução ocidental tem buscado a igualdade em tudo como o máximo bem. A Igreja Católica sempre ensinou que a desigualdade é um bem a ser desejado. Vejamos com que argumentos.

 

1. UNIVERSO DESIGUAL

 

 

     Deus criou um universo desigual e hierárquico. Com efeito, se analisarmos o universo, veremos que nele há uma hierarquia de seres, que vai desde o mineral - matéria pura - até o anjo, ser puramente espiritual, passando pelos vegetais, pelos animais e pelo homem.
     Não só os vários reinos da criação são desiguais, mas em cada um desses reinos existe uma grande e proporcionada desigualdade. É no mundo inanimado dos átomos e dos astros que há menos desigualdade e, entretanto, mesmo aí, ela é bastante acentuada.
     No mundo atômico, cada elemento tem suas propriedades particulares. Na tabela de Mendeleiev há até - quiçá para horror dos igualitários - alguns gases nobres, assim chamados porque não se misturam com outros, mais plebeus. Nessa mesma tabela, assim como na natureza, os elementos precioso estão próximos, porque o semelhante atrai o semelhante. O precioso atrai o precioso e o vulgar atrai o que é vil.
     No macrocosmo estelar há também uma grande desigualdade harmônica. Cada sistema tem satélites vassalos de planetas, que por sua vez fazem corte a uma estrela e, como diz o Apóstolo São Paulo: "stella difert stella" (I Cor. XV, 41). Uma estrela é diferente de outra estrela.

     No reino vegetal, a desigualdade cresce de valor, porque a vida vegetal traz uma variedade maior. Há cedros majestosos no Líbano, sequóias gigantescas e antiquíssimas na Califórnia, orquídeas delicadas e exóticas nas selvas brasileiras e repolhos vulgares em qualquer horta. É a vida, nos vegetais, que lhes permite uma capacidade simbólica maior e daí uma desigualdade maior do que aquele existente entre os minerais. Se uma jovem vai a uma festa usando um bracelete de metal barato, imitando o ouro, ela não vai causar com isso escândalo nenhum. Mas se para enfeitar seu vestido colocar sobre o peito não uma rosa, mas um repolho, certamente causará uma explosão de risos. Isto porque a desigualdade entre o repolho e a rosa é muito maior do que aquela existente entre o metal vulgar e o ouro.
     
     Entre os animais a desigualdade é ainda maior, pois sua capacidade de movimento e de atuação os faz ainda mais diferentes. É evidente.
     Para falarmos apenas de desigualdade de símbolos, lembramos que há animais cuja aparência e modo de atuar lembram virtudes humanas, enquanto de outros diz o livro da Sabedoria que "a vista desses animais não mostra nada de bom neles, porque foram excluídos da aprovação e bênção de Deus" (Sab. XV,19). Tais animais são símbolos do pecado quer por sua forma, quer por seu modo de ser.
     Assim, a serpente lembra o demônio não apenas porque foi usada por Satã para tentar nossos primeiros pais, Adão e Eva, mas também pelos símbolos que se vislumbra em seu ser: sua língua bífida, dividida, lembra a linguagem dupla do demônio, ora dizendo a verdade, ora a mentira, ocultando esta sob aquela. A serpente sinuosa se aproxima ziguezagueando, como o demônio cujo caminho não é reto. Ela, apesar de viva, tem em seu corpo o frio da morte, como o demônio que, embora vivo, tem em si o frio da morte e do pecado.
     O leão tem porte majestoso e bem merece ser chamado de rei dos animais por sua grandeza. Se lançarmos a um leão um pedaço pequeno de carne, ele não o comerá, por não o ver. Deus fez o leão com um esplêndido defeito na vista: ele só vê coisas grandes. Com isso ensina ao homem que deve ter olhos só para o que é grande, não mirando o que é vil.
     O morcego - um rato que voa - é tétrico e monstruoso. Dotado de um aspecto horripilante, alimentando-se de sangue alheio, ele somente pousa de cabeça para baixo, tendo de tudo - a exemplo do demônio - uma visão invertida. Para ele a luz é tenebrosa. Nas trevas ele vê. Elas são o seu reino, como delas Satã é o príncipe.
     Conta-se que o arminho, animal de pele alvíssima, vendo-se cercado de lama, não procura escapar do caçador, parecendo preferir morrer a sujar-se, ensinando-nos assim que é melhor a morte do que a impureza, que é preferível perder a vida, a perder a honra. Se non é vero, é bene trovato
    O porco por sua vez é desprezível, porque olha sempre para a lama e jamais para as estrelas. Por isso, até nossos tempos, os porcos jamais haviam feito poesias.

     Entre os anjos, seres puramente espirituais e os mais perfeitos da criação, a desigualdade é maior do que em qualquer reino do universo. São Tomás ensina que eles se dividem em três ordens; cada uma das quais se divide, por sua vez, em três coros. São portanto nove coros angélicos sabiamente hierárquicos. Mas, dentro de cada coro, a desigualdade é tão grande que não há dois anjos da mesma espécie. Cada anjo é único (cfr. S. Tomás, Suma Teológica I, q. 50, a. 4).

 

 

2. IGUALDADE E DESIGUALDADE NOS HOMENS

 

     A desigualdade existente em todos os reinos do Universo nos leva a deduzir sua existência também entre os homens.
    Com efeito, examinando-se os seres humanos, constatamos que eles diferem uns dos outros desde as pontas dos dedos até a "ponta" da alma. Por exemplo, calcula-se que antes se esgotará a energia e a luz do sol do que aparecerão dois homens com a mesma impressão digital. Há homens altos e baixos, feios e belos, gordos e magros, loiros, morenos, negros, etc. Se, com os poucos traços da face Deus fez uma variedade quase infinita de fisionomias, o que se dirá das características espirituais? As desigualdades psicológicas e espirituais são ainda maiores do que as físicas. A variedade de inteligências, talentos e virtudes é imensamente maior do que a dos rostos. Cada homem é, em certo sentido, único. É o que demonstra René Le Seinne em sua obra sobre a caracteriologia humana (René Le Seinne, Traité de Caracteriologie, PUF, Paris, 1973).
     Entretanto, há nos homens uma igualdade fundamental proveniente do fato de terem uma só natureza. Ser homem é ser animal racional, isto é, ser constituído por corpo animal e alma espiritual: capaz de aprender com a inteligência, querer com a vontade e sentir com a sensibilidade.
     A natureza de um ser é composta por tudo que é necessário para que ele seja o que é. 
    Para ser um homem, é preciso ter corpo animal e alma racional. Nisto todos os homens são iguais. Daí os direitos naturais decorrentes dessa natureza, comum a todos, deverem ser iguais para todos. Assim, todos os homens têm direito igual a viver, a alimentar-se, a trabalhar, a descansar, a reproduzir-se, a ter propriedade, a saber a verdade, a amar o bem, a conhecer a beleza, etc. Os direitos naturais - repita-se - são iguais porque provém da natureza, que é a mesma para todos os homens. Mais do que tudo isso, os homens têm uma suprema igualdade: a de terem sido todos chamados "à mesma e eminente dignidade de filhos de Deus, tendo todos o mesmo fim, cada um será julgado pela mesma lei e receberá o castigo ou recompensa que merecer" (Leão XIII, Encíclica Quod Apostolici Munerias, de 28 de dezembro de 1878 - Editora Vozes - Petrópolis, p.8).

     Todavia, se entre os homens existe essa igualdade natural fundamental, disto não se segue que sejam iguais em tudo. Nos acidentes os homens são diferentes.
     Acidentes são qualidades que existem num ser, mas não lhe são necessárias para ser o que é. Para ser homem, não é preciso ter pele branca, ter 1,80 m de altura ou pesar 90 kg. Não é preciso ser doutor ou atleta. Ser alto, gordo, branco, doutor e atleta são acidentes da natureza humana. Poderíamos dividir os acidentes em dois grandes grupos: aqueles dos quais decorrem e dos quais não decorrem direitos. Vejamos alguns exemplos.

A:

 

B:

 

alto - baixo virtuoso - pecador
loiro - moreno ladrão - honesto
gordo - magro professor - aluno
calvo - cabeludo capaz - incapaz
branco - preto trabalhador - vadio
  pai - filho

 

 
     Os acidentes do grupo A não produzem direitos. Mas acidentes do grupo B geram direitos. A acidentes desiguais correspondem direitos acidentais desiguais. É justo que o virtuoso, o trabalhador, o capaz, tenham mais direitos que o pecador, o vadio e o incapaz. O professor deve ter mais direitos que o aluno, assim como o pai tem mais direitos que os filhos, embora todos eles sejam iguais por natureza e tenham direitos naturais iguais.
     O erro fundamental de todas as formas de racismo consiste em atribuir direitos e deveres em função de um acidente do grupo A, qual seja, a raça ou a cor da pele.
     Diz Leão XIII na mesma encíclica Quod Apostolici Muneris:

"... a desigualdade de direitos e de poder provém do próprio Autor da natureza ... ".

     E mais adiante:

"Aquele que criou e governa todas as coisas regulou com sua sabedoria providencial que as ínfimas coisas ajudadas pelas medianas, e estas pelas superiores, consigam todas o seu fim.".
"Por isso, assim como no Céu quis que os coros dos anjos, fossem distintos e subordinados uns aos outros, e na Igreja instituiu graus e diversidade de ministérios, de tal forma que nem todos fossem apóstolos, nem todos doutores, nem todos pastores (I Cor. 12, 27). Assim estabeleceu que haveria na sociedade civil várias ordens diferentes em dignidade, em direitos e em poder, a fim de que a sociedade fosse, como a Igreja, um só corpo, compreendendo um grande número de membros, uns mais pobres que os outros, mas todos reciprocamente necessários e preocupados com o bem comum." (Leão XIII, Quod Apostolici Muneris, no 15, 17 e 18).

     E na Humanum Genus diz Leão XIII:

"... se considerarmos que todos os homens são da mesma raça e da mesma natureza e que devem todos atingir o mesmo fim último e se olharmos aos deveres e aos direitos que decorrem dessa comunidade de origem e de destinos, não é duvidoso que eles sejam iguais. Mas, como nem todos eles têm os mesmos recursos de inteligência, e como diferem uns dos outros seja pelas faculdades do espírito seja pelas energias físicas; como, enfim, existem entre eles mil distinções de costumes, de gostos, de caracteres, nada repugna tanto à razão como pretender reduzi-los todos à mesma medida, a introduzir nas instituições da vida civil uma igualdade rigorosa e matemática." (Leão XIII, Humanum Genus, no 22).

    Quando duas coisas são iguais em sua natureza e diferentes nos seus acidentes, elas são semelhantes, e não iguais. Assim, os triângulos, iguais na forma (natureza) e diferentes no tamanho (acidente), chamam-se semelhantes e não iguais.
     Quem quisesse construir, por exemplo, um viaduto e nos cálculos tratasse dois triângulos semelhantes como se fossem iguais, erraria. O viaduto desabaria. Porque semelhante não é igual. Ora, a sociedade moderna comete o mesmo erro ao promulgar constituições nas quais se afirma que os homens são iguais, quando, na verdade, são semelhantes. Por isso a sociedade está ruindo.

Em síntese, podemos afirmar:

 

  1. A desigualdade é uma lei da natureza. Deus tudo fez com desigualdade. Em todos os reinos da criação existe desigualdade.
  2. Também entre os homens não há igualdade. Iguais na natureza, desiguais nos acidentes, os homens são semelhantes e não iguais.
  3. Da igualdade de natureza dos homens decorrem direitos naturais iguais para todos. Assim, o racismo é um crime porque nega a igualdade natural, violando direitos naturais que são iguais para todos. a cor da pele é acidente que não gera direitos.
  4. Da desigualdade de certos acidentes derivam-se direitos acidentais desiguais.
  5. Na escala hierárquica da criação não há desigualdades bruscas ou desproporcionadas. As desigualdades encontram-se sempre em pequenos graus.
  6. A desigualdade cresce com a perfeição do ser. Quanto mais perfeito é o ser, maior é a desigualdade. Quanto menos perfeito, menos é a desigualdade. As menores desigualdades existem entre as pedras. As maiores entre os anjos.
  7. Quanto mais um homem se aperfeiçoa, mais se diferencia dos outros. Duas crianças ingressam na escola. Ambas analfabetas. Ambas muito semelhantes. Anos depois, uma se formou em Medicina, a outra em Engenharia. Elas se aperfeiçoaram. Elas se diferenciaram mais.
  8. Querer impor a maior igualdade possível entre os homens é querer que eles não se aperfeiçoem, mas decaiam. A igualdade só se pode realizar pelo nível mais baixo.
  9. Só a desigualdade social permite o progresso social. Quanto mais degraus houver numa escala social, mais fácil será progredir e ascender socialmente. Quanto menos degraus houver, ou quanto mais eles forem desproporcionados, mais difícil será a ascensão, o progresso social. A solução socialista para o problema de uma sociedade excessiva e desproporcionadamente desigual é fazer a igualdade, isto é, retirar a escala social. Feito isso fica impossível progredir socialmente. O Estado então esmaga a pessoa.
  10. A civilização cristã medieval, sancionando as desigualdades postas por Deus, criou uma sociedade hierárquica com desigualdades proporcionais; facilitando a mobilidade, a ascensão e o progresso sociais.
  11. A Civilização Moderna, na medida em que tem por ideal a igualdade, rejeita o aperfeiçoamento dos indivíduos, porque isto os torna mais desiguais. Isso explica por que a sociedade igualitária atual é decadente.
 

3. A DESIGUALDADE : UM BEM

     Evidentemente, se Deus criou os homens semelhantes e não iguais, isto tem que ser bom. Desejar a igualdade contraria os planos de Deus que quer o aperfeiçoamento humano. Por isso S. Pio X condenou o movimento pseudo católico do Sillon. O Pontífice cita Leão XIII que censurou

"uma certa democracia que vai até aquele grau de perversidade de atribuir na sociedade, a soberania ao povo e de pretender a supressão e o nivelamento das classes" (S. Pio X, Notre Charge Apostolique no 9).

     Veja-se portanto que, segundo Leão XIII e S. Pio X, querer a igualdade dos homens e a soberania popular são atos de "perversidade".
     Contudo, não basta dizer que a desigualdade é um bem porque Deus quer assim. Há motivos sapienciais profundos para Deus fazer tudo com desigualdade. São Tomás de Aquino mostra o bem da desigualdade quer na Suma Contra Gentiles (Livro II, cap. XLV) quer na Suma Teológica (I, q. 50 a. 4).
     Entre outros argumentos, destacamos os seguintes:

 

I) A desigualdade é um bem porque permite que haja no Universo uma imagem da Sabedoria de Deus através da ordem.

 

    Na obra de Deus não pode faltar a suma perfeição. Ora, sendo o bem da ordem de vários seres melhor do que qualquer dos seres ordenados, a ordem não podia faltar na criação, e por isso diz o Apóstolo: "Quae a Deo sunt, ordinata sunt" "As coisas que procedem de Deus estão ordenadas" (Rom. XIII, 1).
     Mas este bem da ordem não poderia existir sem a desigualdade, pois só se podem ordenar seres diversos.
     Por outro lado, a ordem reflete a inteligência ordenadora. Portanto é a desigualdade que permite ser espelhada no Universo, através da ordem, a sabedoria de Deus.
     Não é demasiado reproduzir a argumentação em outros termos.
     Todo ser inteligente faz as coisas conscientemente em ordem. Ora, Deus é sapientíssimo. Logo, Ele fez o universo em ordem.
     A ordem exige desigualdade. Não é possível ordenar entre si coisas iguais. Por exemplo, é impossível pôr em ordem alfabética uma lista de 40 nomes iguais. Ora, como vimos Deus fez tudo com ordem. Logo, Deus tinha que fazer tudo com desigualdade.
     A ordem reflete o grau de inteligência do ordenador. Assim, por exemplo, uma pessoa analfabeta arrumaria os livros de uma estante pelo tamanho ou cor dos livros. Uma ordenação dos livros por assunto indicaria que o ordenador sabe ler. Portanto, a ordem do universo permite que haja nele um reflexo da Sabedoria de Deus.
     Amar a desigualdade é amar a ordem. Amar a ordem é amar a imagem de Deus no Universo. Ora, quem ama uma imagem não ama a imagem em si, mas sim a pessoa representada na imagem. Portanto, amar a desigualdade é amar a Deus.
     Odiar a desigualdade é odiar a ordem, é odiar a imagem da sabedoria de Deus. Odiar a desigualdade é odiar Deus. O socialismo ama a igualdade como um bem em si. Portanto o socialismo odeia Deus. O mandamento da Lei de Deus ordena amar a Deus sobre todas as coisas e não odiá-lo. Logo, ninguém pode ser socialista e católico ao mesmo tempo pois o catolicismo manda amar a desigualdade para amar a Deus, enquanto o socialismo, querendo a igualdade, odeia a Deus. Foi por tais razões que o Papa Pio XI, na Encíclica Quadragesimo Anno, escreveu: "Socialismo e Catolicismo são termos contraditórios. Ninguém pode ser socialista e católico ao mesmo tempo". (Pio XI, Quadragesimo Anno no 119)

 

II) A desigualdade é um bem porque permite que haja no universo uma imagem do amor de Deus pela caridade.

 

    Deus é bom e faz o bem. Ora, o homem deve também fazer o bem para que sua semelhança com Deus seja mais perfeita. Todo homem enquanto ser é bom. Mas isto não basta. É preciso que ele seja bom moralmente, isto é, que faça o bem. Entretanto o homem não poderia fazer o bem aos outros se não houvesse quem tivesse necessidade também. Por exemplo, se todos tivessem a mesma riqueza não se poderia dar esmolas; se todos tivessem a mesma sabedoria, não seria possível dar conselho.
     Para que fosse possível a caridade era preciso haver desigualdade. Pela desigualdade, pois, há no universo uma imagem do amor de Deus, que é a caridade.

 

 

4. A HARMONIA DO UNIVERSO

 

     Como vimos, é a desigualdade que permite a ordem e a harmonia do Universo.
     Se Deus tivesse criado seres absolutamente iguais, não poderiam eles ser ordenados, não haveria harmonia. A beleza do arco-íris só é possível pela desigualdade harmoniosa das cores, e esta harmonia dá ao arco-íris, no conjunto, mais beleza do que tem cada cor isoladamente. Do mesmo modo, é a desigualdade das notas musicais que permite a música.
     A harmonia universal traz uma bondade ao universo superior a cada componente.
     Por isso, explica S. Tomás (Suma Contra Gentiles, Livro 11, cap. XLV), Deus, ao criar cada coisa, disse que era boa, mas ao examinar o conjunto das coisas criadas disse que "era muito bom", isto é, ótimo (Gen. I, 31).
     Deus fez os homens à Sua imagem e semelhança, mas deu a cada um deles a missão de espelhar principalmente uma de suas perfeições. Pode-se dizer que S. Francisco é o santo da pobreza. Tal não quer dizer que ele não tivesse outras virtudes, mas significa que nele a pobreza predominava. O mesmo se poderia dizer da mansidão de S. Francisco de Sales, do zelo de Santo Elias etc.
     Deus criou a alma humana como espelhos, para que a Sua imagem se refletisse em cada uma. Mas Deus é infinito, e o homem finito. Se o Criador tivesse feito os homens todos iguais, essa imagem refletida neles seria excessivamente diminuta. Para que houvesse uma imagem de Deus o quanto possível completa na criação, Nosso Senhor dispôs os homens como espelhos a seu redor. Desse modo, cada homem é feito à imagem de Deus por ter natureza racional, mas reflete a Deus sob um determinado "ângulo" diferente de todos os demais. Assim cada homem é único. Cada homem reflete a Deus de modo particular. É essa imagem de Deus que dá desigualdade ao homem. O maior valor de cada um não advém de ser capaz, rico, diplomado, popular etc. e sim de ser filho de Deus pelo batismo, de ser feito à Sua imagem pela alma racional. A honra particular de cada homem advém do fato de que ele foi criado para espelhar - ele só de modo muito especial - uma certa qualidade de Deus, com um tom particular.
     Imaginemos o último dos homens, o mais despersonalizado, o menos capaz, o menos simpático etc. Esse último dos homens tem em sua alma uma beleza particular que, desde Adão até o fim do mundo nenhum outro homem terá. Sob esse aspecto, ele é o primeiro dos homens. Mais ainda: tudo o que os outros têm a mais é para servi-lo. Haendel compôs música para ele. Pasteur inventou a vacina para curá-lo. São Tomás escreveu para ele. Todos os que lhe são superiores agiram para ele. Serviram-no. Desse modo também, o último é o primeiro. Cada homem então pode repetir para si o lema dos nobres medievais Coucys: "Eu não sou nem rei, nem duque, nem príncipe também. Eu sou o senhor de Coucy".
     Nisto consiste até mesmo a felicidade terrena: alegrar-se com o que se é, amando o dom que Deus nos deu. Pouco importa que na sinfonia da humanidade sejamos uma pequena nota, que soa baixa e por pouco tempo. Devemos ter consciência de que sendo o que somos, refletindo em nossa alma a imagem de Deus, temos um valor único. Ainda que pobres, incapazes e desconhecidos.
     É preciso amar o que se é. Santa Tereza do Menino Jesus dizia que preferia ser a pequena Tereza do que ser a mãe de Deus porque sendo a pequena Tereza ela tinha Maria por mãe no Céu, enquanto que a Virgem Maria não tinha mãe no Céu. E que ela amava tanto a Virgem Maria que, se pudesse escolher entre ser a pequena Tereza, ou ser a Mãe de Deus, quereria ser a pequena Tereza, para que Maria, ela sim, tivesse a honra de ser a Mãe de Deus, Rainha do Céu e da Terra.
     Assim, cada homem contribui com algo para que a imagem de Deus seja mais perfeita, e cada homem por isto tem um valor particular e uma dignidade especial, ainda que seja o último de todos os homens. Numa peça musical, cada nota tem um valor. Querer retirar dela uma nota porque é a última na escala, é querer destruir a beleza da música. Para que a música tivesse tal beleza, era preciso que aquela nota, embora fraca e breve, fosse tocada no momento devido. Deus compôs uma grande sinfonia criando os homens desiguais. O último dos homens tem um papel especial nessa sinfonia. E seu valor é único. E ele contribui com uma beleza particular para a beleza de todo o conjunto. Se as notas quisessem todas igualar-se, se todas quisessem ficar na mesma linha da pauta, já não haveria música, mas apenas um silvo monótono. Desejar estabelecer a igualdade entre os homens é pretender destruir toda harmonia que Deus fez na sinfonia da humanidade. 
     Um mecanismo só pode funcionar em razão da desigualdade de seus componentes. Estabelecida a igualdade nas engrenagens de uma máquina ela deixa de funcionar. Tratar com igualdade os vários órgãos do corpo humano causará a sua morte. A igualdade quebra os mecanismos e mata os organismos. O igualitarismo quebra e mata a sociedade. 
     A desigualdade dos homens possibilita a variedade de funções e a divisão sábia do trabalho. Disso tudo nasce naturalmente a diferenciação das classes sociais. Cada classe tem uma função. Cada uma delas tem sua dignidade própria. Assim como os órgãos do corpo humano têm funções desigualmente importantes mas todas necessárias, assim também cada classe é útil e necessária para manter a vida do organismo social. Todos contribuem harmoniosamente para o bem comum. Entre elas há harmonia e não luta e contraposição como afirma a dialética marxista. Somente quando a sociedade está doente é que se dão antagonismos de classe.

 

 

5. A DESIGUALDADE NA SAGRADA ESCRITURA

 

     Tudo isto é doutrina perene da Igreja. Tudo isto foi explicado por São Tomás, está registrado nas Escrituras sagradas e foi confirmado pelos Papas em seus documentos magisteriais. Tudo isto é hoje renegado nos sermões, nos documentos episcopais e nas cátedras de teologia. Na Nova Igreja nascida do Concílio Vaticano II se ensina a igualdade e se prega a luta de classes. Assim fala o Espírito Santo:

 

"Por que é que um dia é preferido a outro dia, uma luz a outra luz e um ano a outro ano, provindo todos do mesmo sol? Foi a ciência do Senhor que os diferenciou, depois que criou o sol, o qual obedece às suas ordens. E variou as estações e os seus dias de festa, e nelas se celebraram as solenidades à honra determinada. Destes mesmos dias fez Deus a uns grandes e sagrados, e a outros pôs nos número de dias comuns. E assim é que também todos os homens são feitos do pó e da terra, de que Adão foi formado. O Senhor, porém, pela grandeza de sua sabedoria, distinguiu-os, e diversificou os seus caminhos, A uns abençoou e exaltou; a outros santificou e tomou para si; e a outros amaldiçoou e humilhou, e expulsou-os, depois de os ter separado, como o barro está nas mãos do oleiro, para lhe dar a forma e disposição que deseja, e para o empregar nos usos que lhe aprouver, assim o homem se encontra na mão daquele que o criou, e que lhe dará o destino segundo o seu juízo. Contra o mal está o bem, e contra a morte a vida; assim também contra o homem justo está o pecador. Considera assim todas as obras do Altíssimo. Achá-las-ás duas a duas, e uma oposta á outra". (Ecle. XXXIII, 7-15).

     Portanto, a Escritura ensina que os homens tem uma igualdade essencial ou de natureza e uma desigualdade acidental. A mesma lição foi ensinada por Leão XIII:

"O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos estejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi Ele (Deus), realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença de suas respectivas condições." (Leão XIII, Rerum Novarum no 26)

     A desigualdade com que Deus criou todos os homens tem conseqüências sociais muito concretas. Assim, alguns devem dirigir, outros, obedecer. É essa desigualdade querida por Deus que faz existirem sábios e ignorantes, ricos e pobres. Por isto se lê no livro dos Provérbios:

"Qui stultus est, serviet sapienti" (Prov. XI, 20) "Quem é néscio, sirva ao sábio".

     Ou ainda:

"O rico e o pobre se encontraram; o Senhor criou a ambos" (Prov. XXII, 2).

     No livro do Eclesiástico pode-se ler a seguinte lição anti socialista:

"O letrado adquire sabedoria no tempo do ócio, e o que tem poucas ocupações alcançará a sabedoria. De que sabedoria será cheio o que pega no arado, e o que faz o timbre de saber picar os bois com um aguilhão, e se ocupa constantemente em seus trabalhos, e cuja conversação é somente sobre novilhos e touros? Ele aplicará o seu coração em tirar [bem] os sulcos, e os seus desvelos em engordar as vacas. Assim todo o carpinteiro e arquiteto, que passa trabalhando a noite e o dia, assim o que grava as figuras dos sinetes, e que todo se cansa em as variar, aplica o seu coração em reproduzir o debuxo, e, à força de vigílias, completará a obra. Assim o ferreiro, assentado ao pé da bigorna, está atento ao ferro que está trabalhando; o vapor do fogo cresta as suas carnes, e ali está lutando com o calor da frágua. O estrondo do martelo fere sem cessar os seus ouvidos, e os seus olhos estão fixos no modelo da sua obra. Aplica o seu coração a completar as suas obras, e com o seu desvelo as aformoseia, dando-lhes a última demão. Assim o oleiro, assentado junto da sua obra, dá voltas à roda com os seus pés, sempre cuidadoso pela sua obra, e levando por conta tudo o que faz. Com seu braço dá forma ao barro, e com os seus pés torna-o flexível. Ele aplicará o seu coração a vidrar a obra perfeitamente, e madrugará para limpar o forno. Todos estes têm confiança na indústria das suas mãos, e cada um é sábio na sua arte. Sem todos estes não se edificaria uma cidade; não se habitaria nela, nem se passearia; mas eles não entrarão nas assembléias. Eles não se assentarão na cadeira do juiz; e não entenderão as leis da justiça; não ensinarão as regras da moral, nem do direito, e não se acharão ocupados na inteligência das parábolas; mas só restauram as coisas que passam com o tempo, e os seus votos são para fazerem bem as obras da sua arte; eles aplicam nisto a sua alma, e procuram viver segundo a lei do Altíssimo". (Eclo. XXXVIII)

 

6. CRISTO: ANTI - IGUALITÁRIO

 

    Com tal freqüência ouvem-se sacerdotes deturpar e violentar os Sagrados Evangelhos que, hoje, quase todos os católicos crêem que Cristo ensinou e quer a igualdade entre os homens.
     Ora, a vida de Nosso Senhor mostra o contrário. Cristo nasceu no povo eleito - o povo judeu - e o preferiu aos demais povos. Logo, Cristo não quis a igualdade dos povos e nem os trata igualmente. Daí que, já no Antigo Testamento Deus disse:
 
"Bem - aventurado é o meu povo do Egito, e o Assírio é obra de minhas mãos; porém a minha herança é Israel". (Isaias XIX, 25)

     Deus ama todos os povos infinitamente, mas sua preferência é por Israel. Por essa razão, São Paulo ensina que Deus dará "tribulação e angústia para a alma de todo o homem que faz o mal, do judeu primeiramente, e depois ao grego". (Romanos II, 9-10)

    Uma passagem dos Evangelhos mostra tal verdade de modo solar. Quando uma mulher cananéia seguia Cristo rogando que lhe curasse a filha possessa, o Mestre sequer respondia. Tendo-lhe os Apóstolos rogado que atendesse a essa mulher, o Divino Mestre ensinou: "Eu não fui enviado senão às ovelhas que pareceram da casa de Israel" (Mt. XV, 24). A mulher pagã insistiu e adorando-O clamou: "Senhor, valei-me". Nosso Senhor, respondendo, disse: "Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães" (Mt. XV, 25). Essa resposta afirma que, para Cristo, os judeus eram filhos, enquanto que os pagãos eram como cães. Como isto deve parecer duro e revoltante para a mentalidade atual! A mulher cananéia porém - que não era nem do PT nem das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) - não se revoltou e aceitou humildemente a comparação confessando: "Assim é Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos" (Mt. XV, 27). Então Jesus elogiou a fé daquela pobre mulher e deu-lhe não só a migalha, mas o pão inteiro, curando-lhe a filha. Assim, para Cristo, os povos não eram iguais.
     E em Israel, queria Deus que houvesse igualdade?
     No povo eleito, havia 12 tribos. Entre elas Deus preferiu a de Judá, prometendo-lhe que dela nasceria a Messias:

"Judá, teus irmãos te louvarão ( ... ) os filhos de teu pai se prostrarão diante de ti ( ... ) O cetro não será tirado de Judá" (Gen. XLIX, 8-12).

     Na tribo de Judá havia muitas famílias mas Deus não as tratou igualmente, pois preferiu entre todas a família de Davi. Quando veio ao mundo, Cristo nasceu num presépio onde havia - diz a tradição - um boi e um burro, cumprindo-se o que profetizara Isaías:

"Conhecerá o boi o seu dono, e o burro conhecerá o presépio de seu Senhor". (Is. I, 3)

    Hugo de São Victor explica que o boi e o burro do presépio representavam respectivamente o judeu e o pagão, pois Cristo veio redimir a ambos. O boi que arava sob a canga representa o judeu que labutava sob a canga da Lei mosaica. O asno que não tem sabedoria simboliza o pagão que não tinha a inteligência das coisas de Deus. Foi por essa razão que Cristo, demonstrando que veio salvar a todos os homens, entrou em Jerusalém montado num burrico que nunca havia sido montado. (Mt. XXI, Marc; XI, 2), levando-o até o templo de Jerusalém para significar que queria que os pagãos fossem levados à Religião verdadeira, ao Templo do Senhor.
     Cristo fez chamar para o presépio os pastores e os reis, para demonstrar que vinha salvar pequenos e grandes e que governantes e súditos, poderosos e fracos devem coexistir pacificamente na sociedade.
     Entretanto, Cristo não tratou igualmente os reis e os pastores. A estes chamou antes e por meio de um anjo. Aos reis, chamou posteriormente e por meio de uma estrela. Os "teólogos" progressistas poderiam aproveitar tais fatos - que revelam um privilégio concedido aos pastores - exclamando: "Cristo fez opção pelos pobres, pelos proletários".
     Ora, Cristo não chamou antes e através de um meio sobrenatural os pastores por serem eles pobres e sim porque, sendo judeus, tinham a verdadeira fé. Aos reis, que eram pagãos, Deus enviou apenas um sinal material. Nova desigualdade de tratamento.
     E qual é a cidade de Cristo? Ele é Jesus de Nazaré. Mas quis nascer em Belém. A cidade em que mais fez milagres - e que mais favoreceu portanto - foi Cafarnaum. Porém seu primeiro milagre foi em Caná. A cidade na qual quis morrer foi Jerusalém. Mas seu poder Ele pôs em Roma. Seis cidades, seis amores diversos. Assim, Ele mostra que ama a cada um com um amor particular. Não igualmente.
     Quando perambulava pelos caminhos da Judéia, Samaria e Galiléia Ele ensinava mais aos discípulos que ao povo.

"A vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhe é concedido". (Mt. XIII, 11).

     Aos apóstolos, Ele ensinava mais do que aos discípulos. Aos próprios apóstolos Ele não tratava igualmente, pois se transfigurou apenas diante de três privilegiados (Mt. XVII). O primeiro que quis chamar a si foi André (Jo. I, 40). Mas, primeiro na autoridade foi Pedro (Mt. XVI, 17-19). Porém o Apóstolo mais amado foi João, porque era virgem. Ele confiou a sua bolsa a Judas e não a outro. O único apóstolo que Cristo elogiou foi Natanael (Bartolomeu) dizendo dele "Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo" (Jo. XX). Mas o apóstolo por antonomásia não é nenhum dos doze. É Paulo, que foi o décimo terceiro.
     Onde então há igualdade?
     Nos seus ensinamentos Cristo pregou sempre a desigualdade:

"Porque (o reino dos céus) será como um homem... que deu cinco talentos (a um servo), e a outros dois, e a outro um, e a cada um segundo a sua capacidade" (Mt. XXV, 14-15).

    E mais tarde tal homem, que representa Deus, voltou para cobrar os juros. A parábola apresenta Deus como favorável a desigualdade, cobrando juros. Nada mais anti-socialista.

     O mesmo Cristo disse:

"a quem muito foi dado, muito era pedido" (Lc. XII, 48).

"Os poderosos serão poderosamente julgados". (Sab. VI, 6-7)

"Porque ao que tem será dado e ainda mais terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado" (Mt. XIII, 12).

     Há então desigualdade nas graças, nas virtudes, nos mistérios e nas culpas, o que produz desigualdade de glória no céu e de castigos no inferno. (Cfr. S. Tomás, Suma Teológica, I - 295 e Suma Contra os Gentios, cap. CXXXIX e CXXII).

 

7. O ENSINAMENTO DOS PAPAS A RESPEITO DA IGUALDADE

 

     Desde que a Revolução Francesa levantou o estandarte da igualdade de direitos de todos os homens, os Papas vinham lutando continuamente contra esse princípio.
      Vimos como Leão XIII ensinou que a desigualdade provém de Deus, que fez os anjos, a Igreja e a sociedade com hierarquia e que os socialistas abusam do Evangelho ao dizerem que deve haver igualdade entre os homens. (Leão XIII, Quod Apostolici Muneris n. 15, 17, 18, 19). Constatamos ainda que ao reprovar os princípios igualitários nas seitas secretas - e em especial da Maçonaria - Leão XIII mostrou como os homens são iguais na natureza e diferentes em seus acidentes, e que defender a igualdade é um erro que repugna à razão (Leão XIII Humanum Genus n. 22).
      Na Renum Novarum, o mesmo Pontífice ensinou que o socialismo, ao desejar impor a igualdade na sociedade, vai contra a natureza, bem como a desigualdade de condições reverte em proveito quer da sociedade como um todo quer em proveito de cada indivíduo. (Leão XIII, Rerum Novarum n. 26).
     Também ao tratar do problema da democracia, Leão XIII condenou os que propugnam a democracia social até o grau de perversidade de fazê-la caminhar para igualdade de direitos e de fortunas (Leão XIII, Graves de Communi n. 4). S. Pio X ao condenar os erros do Sillon - movimento católico igualitário e ecumênico - reiterou esse ensinamento de Leão XIII.
     Ninguém foi mais claro que Pio XI, que ao condenar o comunismo, declarou:

"Não é verdade que na sociedade civil todos temos direitos iguais, e que não exista hierarquia legítima" (Pio XI, Divini Redemptoris n. 33).

     A Igreja sempre refutou o igualitarismo liberal e socialista mostrando que os homens são semelhantes e não iguais, devendo portanto a justiça fazer reconhecer a igualdade de direitos naturais ao mesmo tempo que a desigualdade de direitos acidentais.

"A Igreja, pregando aos homens que eles são todos filhos do mesmo Pai celeste, reconhece como uma condição providencial da sociedade humana a distinção das classes; por essa razão Ela ensina que apenas o respeito recíproco dos direitos e deveres, e a caridade mútua darão o segredo do justo equilíbrio, do bem estar honesto, da verdadeira paz e prosperidade dos povos. (...) Mais uma vez Nós o declaramos: O remédio para esses males [da sociedade] não será jamais a igualdade subversiva das ordens sociais" (Leão XIII - Alocução de 24-I-1903 ao Patriciado e à Nobreza Romana - Benne Presse, Paris Tomo VII, pgs 169-170).

     O mesmo Leão XIII mostrou que o igualitarismo socialista tem como conseqüências:

"a perturbação em todas as classes na sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria" (Leão XIII, Rerum Novarum n. 22).

     S.Pio X, condenando os erros do Sillon, disse:

"Se [Cristo] chamou junto de si, para os consolar, os aflitos e os sofredores, não foi para lhes pregar o anseio de uma igualdade quimérica" (S.Pio X, Notre Charge Apostolique n. 38).

     Esse Papa santo escreveu ainda que ao querer a igualdade o Sillon "marchava para um ideal condenado" (S.Pio X Notre Charge Apostolique no 9).
      Pio XII ensinou que "a igualdade degenera em um nivelado mecânico, numa uniformidade monocroma: sentimento de verdadeira honra, atividade pessoal, respeito de tradição, dignidade, numa palavra, tudo que dá à vida o seu valor, pouco a pouco definha e desaparece. (...) "Num povo digno de tal nome, todas as desigualdades, não arbitrárias, mas derivadas da mesma natureza das coisas, desigualdades de cultura, posses, posição social (sem prejuízo, bem entendido, da justiça e da caridade) não são de modo algum obstáculo à existência ou ao predomínio de um autêntico espírito de comunidade e fraternidade. Pelo contrário, longe de lesar de algum modo a igualdade civil, lhe conferem o seu legítimo significado: Isto é, que defronte do Estado cada qual tem o direito de viver honradamente a própria vida pessoal, no lugar e nas condições em que os desígnios e disposições da Divina Providência o tiverem colocado." (Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944 Sobre a Democracia, n.18 e 17)

     O mesmo Pio XII, defendendo a verdade de que todos os homens são irmãos acrescentou:

"Pois bem, os irmãos não nascem nem permanecem todos iguais: uns são fortes, outros débeis; uns inteligentes, outros incapazes; talvez algum seja normal, e também pode acontecer que se torne indigno. É pois inevitável uma certa desigualdade material, intelectual, moral, numa mesma família (...) Pretender a igualdade absoluta de todos seria o mesmo que pretender idênticas funções a membros diversos do mesmo organismo" (Pio XII, Discurso de 4-VI-1953 a católicos de paróquias de S.Marsciano - Peruggia - Discorsi e Radiomessaggi vol XV - p. 195).

     Leão XIII condenou o igualitarismo dos que pretendem nivelar as fortunas negando o direito à propriedade:

"É dever principalíssimo dos governos assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Hoje especialmente, no meio de tamanho ardor de cobiças desenfreadas, é preciso que o povo se conserve no seu dever; porque, se a justiça lhe concede o direito de empregar os meios de melhorar a sua sorte, nem a justiça nem o bem público consentem que se danifique alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de não se sabe que igualdade" (Leão XIII, Rerum Novarum, n. 55). Pio XII defendeu até a legitimidade da desigualdade no nascimento:

"As desigualdades sociais, inclusive as que são ligadas ao nascimento, são inevitáveis: natureza benigna e a benção de Deus à humanidade, iluminam e protegem os berços, beijam-nos, porém não os nivelam (...) tais desigualdades não podem ser consideradas por uma mente cristãmente instruída e educada, senão como disposição desejada por Deus pelas mesmas razões que explicam as desigualdades no interior da família e portanto com o fim de unir mais os homens entre eles, na viagem da vida presente para a pátria do céu, ajudando-se uns aos outros, da mesma forma que um pai ajuda a mãe e os filhos "Se esta concepção paterna da superioridade social, por vezes, em, virtude do ímpeto das paixões humanas, arrasta os ânimos a desviar nas relações de pessoas de categoria mais elevada, com as de condição mais humilde, a história da humanidade decaída não se surpreende com isto. Tais desvios não bastam para diminuir ou ofuscar a verdade fundamental de que para os cristãos as desigualdades sociais se fundem numa grande família humana" (Pio XII, Discurso ao Patriciado e à Nobreza Romana em 5- I-1942- in Discorsi e Radiomessaggi, vol III, p. 347).

    Leão XIII mostrou que é dever sagrado de justiça defender a propriedade e a hierarquia social.

"Importa, por conseqüência, que nada lhe seja à democracia cristã mais sagrado do que a justiça que prescreve a manutenção integral do direito de propriedade e de posse; que defenda distinção de classes que sem contradição são próprias de um Estado bem constituído." (Leão XIII, Graves de Communi Re n. 4)

     Vemos assim, que a desigualdade de direitos dos homens está de acordo com a razão, com o ensinamento das Escrituras e dos Papas.
      Comprovamos também que a igualdade de direitos viola a ordem natural, é contrária à razão, é um erro condenado inúmeras vezes no Antigo e no Novo Testamento e que, por isso, como não podia deixar de ser, os Papas tem condenado sempre, como perversidade e crime contra a vontade de Deus, o querer estabelecer a igualdade na sociedade.
     Deus quer a desigualdade proporcionada entre os homens. Querer a igualdade é contrariar a vontade de Deus.
 


Referências:

 

 

 

    Para citar este texto:
"Desigualdade & igualdade: considerações sobre um mito"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/desigualdade/
Online, 25/02/2017 às 15:34:30h