Religião

HOMILIA DA FESTA DE CORPUS CHRISTI
Padre Amigo
 

Tomei conhecimento da homília de uma padre amigo que foi proferida na festa de ontem (11/06/2020) de Corpus Christi.

Trata-se de um texto que reproduz bem os princípios desta festa tão importante, e que também faz uma aplicação muita adequada deste princípios aos nossos tempos tão ímpios.

Em vista disto, julguei oportuno partilhar esta homilia com nossos amigos e leitores do site Montfort.

 

 HOMILIA DA FESTA DE CORPUS CHRISTI – 11/06/2020



     Disse Jesus: aquele que me come, viverá por mim. Caros, estamos na festa do Corpo de Deus. Dentre tantas solenidades, esta se reveste de um caráter especial: não apenas é celebrada no edifício sagrado, isto é, na Igreja, mas suas rubricas pedem que em ao menos uma das missas do dia o culto a Deus seja celebrado também pelas ruas, em procissão, num testemunho público de nossa fé no tesouro que temos e que nos é mais precioso.

 

Instituída num tempo em que reinava a heresia cátara que desprezava tudo aquilo que era material e considerava bom somente o elemento espiritual, esta solenidade quis, naquele tempo, fortalecer a fé da Igreja no fato que Cristo assumiu nossa natureza, entrou no mundo material e visível, encarnou-se e, portanto, através de sinais sensíveis, os sacramentos, transmite sua graça, numa união teológica, jurídica, mística entre o visível e o invisível.


     Ao contrário do que aconteceu naquela época, hoje reina a heresia materialista. O material é o real. Aquilo que é do âmbito espiritual fica reservado ao critério de cada pessoa e cada um é livre para crer o que quiser, crer na sua verdade. E daí: se tudo é verdade, nada é verdade. A verdade se torna relativa. As consequências disto estão diante de nós. Indiferentismo religioso, multiplicidade de propostas religiosas. Mas também: busca da saúde corporal como valor absoluto, busca do dinheiro como valor absoluto. Se o material é o real é isto que verdadeiramente conta. Mas não somente. Excessiva valorização do sentimental. Euforia por aquilo que perece. Pouco ânimo para aquilo que é eterno.


     Estes efeitos fazem-se sentir também quando falamos da Eucaristia. Envolvidos por essas falsas concepções de mundo, o culto eucarístico se torna privado do seu verdadeiro valor e de sua importância. Sempre ouvíamos falar dos países, distantes, onde o culto público da fé católica estava proibido. Hoje esta realidade tornou-se próxima, em nome do valor absoluto da saúde corporal. Mas mais do que isso. Temos também que num mundo que valoriza os sentimentos, as palavras de Jesus: “é meu corpo dado por vós”, nada dizem aqueles que não experimentam, ao mesmo tempo, emoções, arrepios e toda sorte de sentimentos nas missas com Santíssimo, de cura e libertação. O dado da fé perde importância se o sentimento não acompanha. Adorações silenciosas atraem poucos. Exposição com canto gregoriano é tida como parada. Mas uma missa em que canções que tocam os corações são executadas atraem multidões. O Santíssimo está só em muitas de nossas igrejas e poucos são os que são atraídos e sentem falta de estar no silêncio de sua presença.


     Num mundo em que o que conta é a imagem, o que vão pensar de mim, a Eucaristia se banalizou. Não mais uma intensa preparação para receber o Corpo do Senhor, mas apenas a preocupação de não ficar de fora, de não ser excluído é o que conta, levando pessoas sem preparação nenhuma às filas de comunhão. Mais do que isso, os sacrilégios que estamos vendo com essa pandemia, com a Eucaristia sendo distribuída nas formas mais sacrílegas possíveis vão nos fazendo ver o quando a Festa do Corpo de Deus precisa reabilitar a fé eucarística no coração das pessoas.


     Com o advento do protestantismo e a penetração da mentalidade protestante na Igreja Católica, aquilo que era o tesouro mais sagrado que possuíamos, tornou-se o mais banal de todos. A missa é tornada uma refeição simplesmente. A eucaristia, um alimento simbólico.


     Caros, as palavras de Jesus no Evangelho de hoje nos dão a dimensão do que significa receber em nós o Corpo do próprio Deus: quem comer a minha carne viverá por mim. Este trecho do evangelho de são João fecha o discurso de Nosso Senhor sobre o pão da Vida. Toda uma multidão que acompanhou Jesus depois de Ele ter multiplicado os pães, agora o abandona quando ele expõe sua doutrina sobre a Eucaristia.


     Não é diferente na História da Igreja e em nossos dias. Quando falamos que Jesus se dá a todos, grande é a alegria dos ouvintes. Mas quando falamos das exigências para recebê-lo, se acusa a falta de acolhida. Mas é o próprio São Paulo que na Epistola hoje explicita estas exigências. Quem comunga em pecado, recebe a própria condenação. Verdade esta que também é afirmada na sequência da missa de hoje, brilhantemente composta pelo doutor angélico: bom e mau dele recebem, mas o efeito é bem diverso. Se ao bom, porta a graça, para o mau traz a desgraça.


     A Eucaristia não é, portanto, algo neutro, algo que alguém poderia dizer: vou receber, mal não vai fazer. Ao contrário, aqueles que não estão dispostos a viverem por Cristo, não o podem receber. Sim, porque como ensina santo Agostinho “somos nós que nos transformamos nele”, ao contrário do que acontece com os outros alimentos quando os ingerimos. E esta transformação precisa atingir toda a nossa vida a ponto de quem sabe, como disse Santo Inácio, sermos um dia até triturados como doce trigo de Cristo.


     Viver por Ele. Somos capazes de algo tão radical? Tão acima das nossas forças? Não o somos. Mas Ele nos capacita e nos fortalece dando-nos, não algo, mas dando-nos a si mesmo.


     O mistério salvífico, atualizado em cada santa missa converge para a Eucaristia. E o que é a Eucaristia senão a entrega que Cristo faz de si mesmo ao Pai. E se entregando ao Pai, se entrega também a nós e por nós. Sua presença, não somente real, mas substancial nos acompanha na caminhada desta vida.


     Santo Tomás usa uma expressão: tanto possas, tanto ouses. Para dizer: aquilo que tivermos de melhor deve ser usada para expressar a realidade significada toda vez que a Igreja celebra este sacrifício. Os fiéis não devem medir esforços para adornar, para enriquecer, para demonstrar toda a preciosidade desta sagrada presença nas espécies eucarísticas. A mentalidade pauperista que acha que tudo tem que ser simples na Igreja está em total contradição com aquilo que sempre ensinaram os santos. Cristo hoje está glorioso no céu e glorioso voltará.


     Mas não somente nas coisas materiais. Nossa forma de se apresentar à missa precisa ser adequada, como quem saber que vive num lugar e momento sagrado. Nossas predisposições, como confissão em dia, chegar antes para se preparar bem, permanecer em ação de graças depois, mudar a rotina em especial nos dias santos em que a presença na missa coroa a própria vida e o ser dos católicos. A aplicação para bem conhecer a missa, como participar naquilo que lhe compete, como bem responder, como cantar as partes principais são coisas que não pertencem a uma casta de privilegiados, mas a todos e que exige o esforço e a aplicação de todos.


     Na celebração da Liturgia Tradicional temos ainda o privilégio de conviver com o canto gregoriano que elevam nossa alma, com o latim que sendo uma língua sagrada nos remete simbolicamente a condição do homem antes do pecado, quando não havia a diversidades das línguas. Convivemos ainda com a centralidade no mistério do calvário, sem que nos preocupemos em demasia com uma participação superficial de pessoas que tem que fazer algo necessariamente para serem participantes. O sacerdote oferece e toda Igreja recebe os frutos.


     Infelizmente, a maioria dos católicos já não tem mais consciência deste tesouro e aqueles que se afastaram da Igreja, talvez só na outra vida se deem conta do que perderam, mas aí já será tarde demais.


      Cabe a nós darmos testemunho de fé eucarística. Nada é mais preciso no delimitar qual é a Igreja fundada pelo próprio Deus do que este ponto da nossa fé: a Eucaristia. A Igreja de Deus é aquela que tem o Corpo de Deus, é aquela com a qual Ele resolveu permanecer até o fim dos tempos, não simplesmente com uma presença espiritual, mas real, substancial, sensível.

 

     Como é grande o amor de um Deus que se faz tão próximo a nós, como se faz próximo de nós nosso Deus na Eucaristia.


     Não há nada que possamos fazer para retribuir tamanho amor de Deus por nós. Mas tudo aquilo que pudermos fazer, façamos. Mais vezes ao longo do nosso dia, pensemos em Cristo. Visitemo-lo nos sacrários, mesmo que em pensamento. Façamos comunhão espiritual. Passemos a viver realmente por Ele.



Padre Amigo

 

 


    Para citar este texto:
"HOMILIA DA FESTA DE CORPUS CHRISTI"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/corpuschristi2020/
Online, 07/07/2020 às 22:17:24h