Religião

A utilidade da Paixão como exemplo para nós
Ivone Fedeli
[caption id="attachment_34684" align="aligncenter" width="470"] Crucifixo de Benedetto da Maiano, Florença[/caption]       O conceito de “ argumento de conveniência” é fundamental na teologia de São Tomás de Aquino e, de modo geral, na teologia medieval. Esta considera os artigos de fé como os princípios primeiros da ciência teológica, a partir dos quais, com a aplicação rigorosa da razão, se procura evidenciar o conteúdo inteligível da fé. Buscando estabelecer uma hierarquia (ordo) de verdades, se estabelece quais as mais fundamentais e mais suscetíveis de esclarecer, com sua luz, as outras, formando uma verdadeira rede de inteligibilidade (nexus mysteriorum).[1] Não se trata, porém, de um processo racionalista de tipo hipotético dedutivo, mas de uma interrogação humilde a partir dos próprios dados da Revelação, buscando compreender a lógica interna dos caminhos que Deus, em sua infinita liberdade e em seu infinito amor, escolheu para relacionar-se com os homens e para manifestar-lhes sua vontade. É isso que procura fazer o argumento de conveniência: compreender as “razões” de Deus, de modo absolutamente enraizado na fé, considerada como participação humana, por liberalidade divina, no conhecimento que Deus tem de si mesmo e de todas as coisas, conhecimento dividido, múltiplo, parcial em nós, mas absolutamente uno em Deus. A teologia seria, assim, “quædam impressio divinæ scientiae quæ est una et simplex omnium”, como uma impressão da ciência divina que, sobre tudo, é uma e simples. [2] Desse modo, ao estudar a Paixão, São Tomás analisa da conveniência dela para a liberar o gênero humano do pecado e de suas consequências. Haveria outro meio melhor de realizar essa liberação? Pode-se responder, simplesmente, que sabemos que não, porque Deus, em sua infinita sabedoria, escolheu esse meio e não outro. Mas podemos, por outro lado, investigar racionalmente a questão, para tentar compreender mais perfeitamente a excelência infinita da escolha de Deus, o que nos unirá de modo mais perfeito ao conhecimento de Deus e, por via de consequência, a sua santíssima vontade. Para explicar a conveniência da Paixão, São Tomás adianta, em primeiro lugar, um princípio geral, aplicável a todos os casos: “Um meio é tanto mais conveniente para atingir um fim, quanto mais nele concorram recursos aptos a atingir esse fim.”[3] Ora, a Paixão, explica o Aquinate, além de efetuar a Redenção propriamente dita, ou seja, além de compensar, pagar, por assim, dizer, com os méritos de Cristo, Deus e homem, a dívida infinita contraída pelos homens ao ofender a também infinita majestade divina, reúne nela vários outros elementos que concorrem para a salvação do homem. O primeiro desses elementos salvíficos é, segundo São Tomás, o fato de que a Paixão nos faz ver quanto Deus ama os homens, o que os leva a amá-lo em retribuição, amor em que consiste “a perfeição da salvação humana”. A Paixão nos dá, além disso, exemplo de obediência, de humildade de justiça e de muitas virtudes necessárias à salvação humana. Mais ainda, ela não apenas nos livra do mal do pecado e de suas penas, mas nos conquista um bem infinito, a bem-aventurança eterna e, dado o extremo dos sofrimentos suportando por Cristo durante ela, nos ajuda a termos um maior horror do pecado que provocou tão grandes tormentos. Por fim, ela devolve ao homem, de modo aperfeiçoado, a dignidade que o pecado lhe roubara: o homem foi vencido pelo demônio e, em Cristo, o homem vence o demônio. Um homem, pelo pecado, mereceu o castigo da morte e, em Cristo, o homem vence a morte. Tragada foi a morte na vitória![4] Referida neste artigo da Suma, a utilidade da Paixão enquanto exemplo para nós é estudada com mais detalhe por São Tomás em outro texto, de caráter mais popular e, por isso, mais desenvolvido, mais apto, portanto, para nossa meditação. Trata-se de um texto de um pequeno curso sobre o Símbolo dos Apóstolos, dado por São Tomás em forma de homilia, já no fim de sua vida, na quaresma de 1273, na igreja do Convento Dominicano de Nápoles, pregado em napolitano para pessoas de todas as classes, e não apenas para estudantes ou teólogos, e, depois, traduzido para o latim e publicado pelos dominicanos que o assistiram. Como nada é mais capaz de mover os homens que o exemplo, que arrasta, como ensina o provérbio – “verba movent, exempla trahunt” – quando as palavras apenas movem, convencem, e, ainda assim, convencem tanto melhor quanto mais forem acompanhadas do exemplo, São Tomás vai, nesse sermão sobre o Credo, estudar em detalhe a utilidade da Paixão como exemplo para nós, com o objetivo de, mais facilmente, arrastar seu auditório à penitência e à conversão. “A Paixão de Cristo basta para que regulemos totalmente nossa vida”, começa ele. E explica que, para viver com toda a perfeição, nada mais precisamos fazer senão desprezar aquilo que, na cruz, Cristo desprezou e desejar aquilo que, na cruz, Cristo desejou, concluindo que “nenhum exemplo de virtude falta à cruz”.[5] E detalha: “se buscamos um modelo de caridade, ‘ninguém pode ter um maior amor que aquele que dá a vida por seus amigos’ (Jo 15: 13). E isso, Jesus o fez na cruz. E é por isso que não devemos pensar que são pesados demais os males, quaisquer que sejam, que tenhamos que suportar por Ele. ” Na Suma contra os Gentios, São Tomás explana a importância dos exemplos dados por Nosso Senhor Jesus Cristo: “Somos impulsionados à virtude pela palavra e pelos exemplos. E os exemplos ou as palavras nos impulsionam tanto mais eficazmente à virtude quanto mais temos uma opinião melhor da pessoa que os oferece. Mas não seria possível ter uma opinião infalível da virtude de nenhum homem; pois, mesmo os mais santos, tem imperfeições e fraquezas”. “Foi por isso necessário, para fortalecer o homem na virtude, que fosse um Deus encarnado, um Deus feito homem, que lhe fornecesse a doutrina e os exemplos de virtude. ”[6] E São Tomás mostra como Nosso Senhor nos deu, sobretudo na cruz, o exemplo das virtudes que, pela palavra, ensinou: “Se procurais um exemplo de humildade, olhai o crucificado; pois Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos, e morrer: ‘Vossa causa foi julgada como a de um ímpio’, diz Jó.[7]. Sim, verdadeiramente ‘de um ímpio’, porque ‘nós o condenaremos a uma morte infame’[8]. O senhor quis morrer pelo escravo e aquele que é a vida dos anjos, quis morrer pelos homens”. Podemos, por nosso lado, investigar, para imitá-los, os desejos e o desprezo de Cristo na cruz meditando sobre as palavras que ele então, apesar da intensidade dos sofrimentos e da extrema dificuldade em respirar e, portanto, de falar, quis pronunciar. Os desejos do Sagrado Coração manifestam-se, em primeiro lugar, na intercessão por seus encarniçados inimigos: Pai, perdoai-lhes. Eles não sabem o que fazem[9]. É apenas em sentido muito específico que se pode dizer que aqueles que mataram Cristo “não sabiam” o que faziam. Tinham ouvido sua doutrina. Tinham visto seus milagres. A ignorância deles a respeito de Nosso Senhor já espantava o cego de nascença curado por Ele. Quando as autoridades judias lhe disseram: “Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas este não sabemos de onde é”, ele, com grande bom senso, se admira: “Nisso, pois, está a maravilha, que vós não saibais de onde ele é, e, contudo, me abrisse os olhos. Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a sua vontade, a esse ouve. Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer. [10] Porém, não sabiam o que faziam no sentido explicitado por São Tomás ao explicar sobre a ação do pecado nas faculdades da alma, a inteligência e a vontade: “a luz da graça dirige e a inteligência e move a vontade; e o pecado introduz um defeito: na inteligência, porque todo pecado procede do erro, na vontade sobretudo, porque todo pecado está na vontade”[11]. O pecado está na vontade, na vontade má, mas procede do erro da inteligência. O pecado é sempre contra a razão; quem tem razão, não peca, ainda que faça uma ação que, de modo geral, seja classificada como pecado. Matar, por exemplo. Que mata com razão – como faz quem mata em defesa própria – não comete pecado. Os algozes de Cristo tinham errado – culposamente – em sua inteligência e, em consequência, sua vontade perversa tinha planejado e executado a morte do Justo. Voluntariamente enganados, dominados pelo erro da inteligência, nesse sentido não sabiam o que faziam. E a infinita caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo suplica, invocando essa ignorância, o perdão do Pai para eles. Que melhor exemplo para nós, que somos tão ciosos de nossa prerrogativas e direitos? Que tão facilmente consideramos o que se faz contra nós como o maior de todos os crimes? Que tão facilmente exigimos justiça quando se trata do reconhecimento de nossos direitos e de nossas razões e tão facilmente nos esquecemos dela quando se trata de reconhecer a dificuldade que os outros possam ter em compreender nossos desejos, disposições ou atitudes. Rezar pelos inimigos, desculpá-los na medida, ainda que mínima, em que seja possível fazê-lo, o perdão caridoso de inimigos não arrependidos, manifestado na prece, é o primeiro exemplo que Nosso Senhor nos dá na cruz. Mas não é o último. Ele continua a falar, para nos ensinar a desejar o que Ele mesmo desejava e a desprezar o que ele desprezava, para que possamos, como base nisso, “regular toda a nossa vida”. Em seguida, Nosso Senhor manifesta, de modo mais evidente, o perdão amoroso ao inimigo arrependido ou, a condescendência generosa para com aquele que deseja o bem, mesmo depois de ter feito muito mal, ao acolher o pedido do bom ladrão que lhe pede que se lembre dele quando estiver no Seu reino. Mas também manifesta na mesma ocasião, embora de modo mais velado, um intransigente amor pela Verdade. Os judeus o crucificavam porque, afirmavam, ele se fizera Filho de Deus e, nesse sentido, Rei de Israel[12]. Pouco antes da crucifixão, no diálogo com Pilatos, essa acusação fica evidente: Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu o dizes: eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.[13] E agora na cruz, novamente, no diálogo com o bom ladrão, desprezando o sarcasmo dos que o cercavam e debochavam dEle – “Se és Filho de Deus, desce da cruz”[14], “Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nele”[15] – afirma desassombradamente a realidade de sua divindade e de seu reino: “Em verdade, em verdade te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso”[16] Exemplo vigoroso para que nos envergonhemos de nossos respeitos humanos, de nosso medo da opinião da maioria, de nosso receio de sermos ridicularizados ao manifestar nossa fé ou nossa adesão à moral católica. Nosso Senhor mostra, ao premiar tão pronta e generosamente o bom ladrão por sua confissão de fé corajosa e humilde, quanto ama aqueles que o confessam diante dos homens e quão prontamente os confessa diante de seu Pai.[17] Com sua atitude, Nosso Senhor como que nos interroga, segundo as palavras do Salmo: “Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? Sabei, pois, que o Senhor separou para si aquele que é piedoso; o Senhor ouvirá quando eu clamar a ele. ”[18] Diz São Tomás a esse respeito: “Se procurais um exemplo de desprezo das coisas terrestres, segui aquele que é o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores, em quem estão todos os tesouros da Sabedoria. Na cruz, porém, ei-lo despojado, debochado, cuspido, espancado, coroado de espinhos, dessedentado com fel e vinagre, morto, enfim. Que erro apegar-se às roupas e às riquezas; ‘eles partilharam minhas roupas’[19]. Que erro apegar- se aos homens, pois ‘eu sofri os seus deboches e os seus golpes’[20]. Que erro apegar-se às dignidades, pois ‘eles teceram uma coroa de espinhos que puseram sobre minha cabeça’[21]. Que erro apegar-se às delícias, pois ‘para apaziguar minha sede, eles me deram vinagre’[22] A terceira palavra de Nosso Senhor na cruz foi para, de novo, dar-nos exemplo que nos deu com sua Encarnação e com sua vida oculta: o da intimidade com Nossa Senhora. Na pessoa do “discípulo a quem Jesus amava”[23], recomenda a toda a Igreja que receba a Maria, que a tenha como Mãe e pede, por outro lado, a Ela que a todos nos receba como filhos: Ora Jesus, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe.[24] São as últimas instruções que Nosso Senhor dirige aos homens. Daí em diante, só manifestará seus sofrimentos e falará com o Pai. E também aí nos dá exemplo de qual deve ser nossa atitude para com Deus, nosso Pai, sobretudo diante do sofrimento, que tantas vezes nos parece incompreensível. Em primeiro lugar, apresentando a Deus, com confiança e simplicidade toda a angústia de sua alma: "Eli, Eli, lama sabachthani?” “Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"[25], empregando nessa oração a língua litúrgica de Israel, o hebraico e não o aramaico cotidiano, razão pela qual não é compreendido pelos circunstantes. Sem revolta, Nosso Senhor, misteriosamente abandonado, procura compreender as razões de Deus, para unir-se ainda mais profundamente à vontade do Pai. Em seguida, fala do sofrimento também físico que o consome: “Tenho sede”.[26] Sede real e ardente, sem dúvida, absolutamente natural diante da hemorragia longamente sofrida. Mas também, dizem os santos[27], sede da salvação das almas, sede de que fossem aproveitados os sofrimentos da Redenção. Sede da glória de Deus, suprema de todas as justiças. A mesma sede e fome de justiça que ele ensinara como uma bem-aventurança.[28] Recebendo dos soldados, numa última crueldade, a esponja ensopada em vinagre, aludindo ao cumprimento da profecia que já citamos, vitorioso de todas as batalhas, Nosso Senhor diz: “Está consumado”[29]. Sua obediência foi levada até a morte, “e morte de cruz”[30]. A ofensa a Deus foi reparada. O homem está salvo. A todos os que creram no Seu nome, “deu-lhes o poder de se fazerem filhos de Deus”[31]. Só lhe resta consumar a entrega de sua vida, para pôr um fecho a sua missão: "Pai, em tuas mãos entrego meu espírito".[32] Concluamos com São Tomás, que nos dá, em Cristo crucificado, o supremo exemplo da virtude que nos faz donos de nós mesmos e capazes de, como Nosso Senhor Jesus Cristo, entregarmo-nos a Deus: a paciência. “Na vossa paciência possuireis vossas almas”[33], ensina Jesus, e a pequena Jacinta de Fátima, ecoando de modo simples, mas extremamente fiel as palavras do Senhor, recomendava: “Tenha muita caridade, mesmo com quem é mau. Não fale mal de ninguém e fuja de quem diz mal. Tenha muita paciência, porque a paciência nos leva para o céu. ” E diz São Tomás: “Assim, a paciência de Cristo na cruz foi extrema, como diz São Paulo: corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, abandonando a glória que lhe estava proposta, suportou a cruz, desprezando a afronta”[34] “A Paixão de Cristo basta para que regulemos totalmente nossa vida”, afirmou o Aquinate ao iniciar sua explicação, bastando-nos, para ser perfeitos “desprezar aquilo que, na cruz, Cristo desprezou e desejar aquilo que, na cruz, Cristo desejou”. Amar a Verdade, a salvação das almas, amar a Virgem Santíssima e tê-la por Mãe; desprezar o prestígio, as riquezas e as delícias, bem como o julgamento dos inimigos de Cristo, é esse o exemplo que recebemos da Paixão, a isso, na cruz, Nosso Senhor nos convida, para que possamos, um dia, como Ele, receber o prêmio da vitória, como Ele que “se assentou à destra do trono de Deus”.[35]

[1] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, STIIa-IIæ, q. 1, a. 7.
[2] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, ST, Ia, q. 1, a. 3, ad 2m
[3] SÃO TOMÁS DE AQUINO. ST 3 q.46 a.3
[4] 1Cor 15: 54.
[5] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Comentário ao Credo, art. 4.
[6] SÃO TOMÁS DE AQUINO, Summa contra os gentios IV, 54.
[7] Jb 36:17.
[8] Sb 2: 20.
[9] Lc 23: 34.
[10] Jo 9: 29-33.
[11] SÃO TOMÁS DE AQUINO, Comentário ao Livro das Sentenças, Dist. 18, q. 1, a.2
[12] Mt 26:65.
[13] Jo 18: 37.
[14] Mt 27: 40.
[15] Mt 27: 42.
[16] Lc 23: 43.
[17] Mt 10: 32.
[18] Sl 4: 2, 3.
[19] Jo 19: 23, Sl 22:18.
[20] Cfr. Sl 22.
[21] Mt 27: 29.
[22] Sl 69: 22.
[23] Jo 21:7.
[24] Jo 19: 26-27.
[25] Mt 27: 46, Mc 15:34.
[26] Jo 19: 28.
[27] Cfr. SANTA TERESA DO MENINO JESUS, História de uma alma.
[28] Mt 5: 6.
[29] Jo 19:30.
[30] Fl 2, 8.
[31] Jo 1: 12.
[32] Lc 23: 46.
[33] Lc 21:19
[34] Hb 12: 1-2.
[35] Hb 12:2.

    Para citar este texto:
"A utilidade da Paixão como exemplo para nós"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/a-utilidade-da-paixao-como-exemplo-para-nos/
Online, 23/08/2017 às 06:57:46h