Religião

A caridade de Nossa Senhora na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo
Francis Mauro Rocha
     O grande dominicano dos anos 30 e 40, o padre Garrigou-lagrange, no seu tratado teológico sobre a Trindade, questionava-se sobre o valor do estudo teológico da Trindade já que quanto mais se aprofunda nesse estudo e mais se descobre novos argumentos, mais se conhece o quão infinitamente longe se fica de um conhecimento perfeito desse mistério. Ele termina por afirmar que o teólogo que passar um dia a viver na bem-aventurança celeste verá na essência divina, com clareza, todas as verdades teológicas que ele tão sofrivelmente tenta compreender aqui nesse mundo. O gozo acidental dessas verdades será uma alegria a mais na vida desse bem-aventurado.
     Não estou afirmando que todos devemos ser teólogos para esperar um dia desfrutar de tamanhas alegrias, pois que essa dura tarefa cabe sobretudo aos padres. Mas se isso funciona para as verdades teológicas, guardadas as devidas proporções,  deve funcionar também para as verdades eternas que nós, como simples fiéis, podemos meditar na nossa vida de oração. Se um dia pudermos ver com clareza na essência divina todas as verdades que de forma tão sofrível tentamos meditar nesse mundo, quanto gozo teremos! Pois a busca incessante de meditar as verdades eternas, em nossa vida de oração, não serve somente para esperar alguma coisa num futuro bem-aventurado, mas serve também para já nesse mundo construir o edifício da graça de Deus, que nos tornará merecedores do céu.
     É com esse intuito que proponho esse pequeno trabalho sobre a caridade em Nossa Senhora pois: “nemo cogitatione Dei repletur nise per te” (ninguém fica cheio dos pensamentos de Deus se não por Nossa Senhora – São Germano de Constantinopla), que é uma meditação sobre os vínculos de amor entre a Santíssima Virgem e o seu Filho.
 
 
 
 
 
 
 
 
“Eleva agora os teus olhares em direção à figura que, mais do que qualquer outra, assemelha-se a Cristo, pois que a sua claridade é a única que possa te dispor bem para ver ao Cristo. Para observar um objeto elevado é preciso fortificar a nossa vista. Assim, a visão de Nossa Senhora, estrela da manhã, é na verdade a melhor disposição para conhecer Jesus Cristo, o Sol da Glória: per Mariam ad Jesum” (Cardial Lépicier em seu livro: Relations de la Très Sainte Vierge avec le Très Saint Sacrement).
 
 
São Tomás responde à questão por que Nosso Senhor consumou o seu sacrifício sobre uma cruz já que as prefigurações desse sacrifício, no Antigo Testamento, mostram as vítimas sendo consumidas no fogo. Ele responde que Nosso Senhor morreu na cruz, porém consumido pelo fogo da Caridade! Ora, se o Redentor de todos os homens consumou o seu grande sacrifício no fogo da Caridade, nada mais coerente que a co-redentora também seja possuidora de uma grande Caridade que, de forma semelhante ao seu Filho, consuma a sua vida por amor dos homens!
     As dores e os sofrimentos de Nosso Senhor na Paixão têm como principal fonte a Caridade, e eles aumentam em proporção com essa mesma Caridade. O sacrifício da sua vida corporal, da sua vida humana, é uma grande perda para Nosso Senhor, a que Ele só se submete por Caridade. O homem virtuoso conhece sobremaneira o bem que é a sua própria vida rica em virtudes e ele só aceita sacrificá-la pelo bem da virtude, pelo bem da Caridade. Nossa Senhora, em perfeita sintonia com o seu Filho, sofre não por si própria mas pelas dores do seu Filho que ela ama mais do que a si mesma. Ela consente no sacrifício da vida do seu Filho, que é Deus.
     O primeiro princípio da Caridade, causa eficiente de toda vida sobrenatural, é o amor de Deus. A Caridade, que é o amor direcionado primeiro a Deus, só é possível ao homem porque Deus nos amou primeiro, o amor de Deus pelo homem é o que torna o homem capaz de retribuí-lo, capaz de amá-lo em retorno. O amor de Deus pelo homem é o que torna possível o amor do homem por Deus.
     A Caridade, que é a mais elevada manifestação de amor, muito superior à mesquinhez da paixão humana,  também é  conhecida como amizade do homem com Deus, pois, segundo São Tomás, a Caridade não é nada mais do que a amizade com Deus. Esse salto teológico  ultrapassa o limitado conhecimento dos antigos, como Aristóteles, que diziam que o homem não poderia estabelecer uma amizade com Deus, por causa da infinita distância que existe entre a dignidade da natureza de Deus com relação às misérias da natureza humana. O Aquinate traz para esse problema uma solução genial, aproximando o homem de Deus, e edificando com alicerces inabaláveis a possibilidade do homem de se tornar amigo de Deus. Deixaremos, entretanto, o cerne dessa questão para a segunda parte do nosso trabalho.
     Enfim, a causa eficiente do amor do homem por Deus, é o próprio Deus, somos capazes de amá-lo porque primeiro Ele nos ama. Por isso também Ele é a causa exemplar de todo amor, isto é, Ele é o modelo a ser seguido. Portanto, o homem ama como Deus ama, à imitação de Deus. Deus ama a todas as suas criaturas e, sobretudo, Ele ama o homem, amando a Si mesmo.  Deus é o ser mais amável e o que mais ama, por isso Ele primeiro ama a si mesmo, e desse amor por si mesmo nasce – não por necessidade, porque nenhuma necessidade pode se impor a Deus, mas porque Ele quer e porque Ele é bom – do transbordamento desse amor por si mesmo nasce o amor pelas criaturas e, sobretudo, o amor pelos homens.
     Dentro da ordenada hierarquia da Caridade, depois do amor por Deus vem o amor por si mesmo. O homem à semelhança, à imitação da causa exemplar de todo amor, depois de amar a Deus, ele deve amar a si mesmo mais do que qualquer outro. Como já dizia Santo Afonso de Ligório: “a primeira Caridade é para consigo mesmo”. Quando um grande autor de vida espiritual critica o amor próprio ou amor por si mesmo, ele na verdade está criticando o amor desordenado por si mesmo, que faz de si mesmo um fim e não um meio para se amar ainda mais a Deus, e que exclui qualquer espécie de amor pelo próximo.
     Depois de amar a si mesmo, o homem deve amar a alma do próximo, De fato, a alma dos homens deve ser amada na medida em que é capaz de receber a graça de Deus. Pela graça, que é uma participação da natureza divina, Deus habita na alma do homem e faz dele uma criatura capaz de amar segundo o verdadeiro amor de Caridade. Depois de amar a si mesmo, o homem deve, portanto, amar a alma do próximo, que é capaz de Deus, capaz de participar da natureza divina, capaz da bem-aventurança.
     Depois de amar o próximo, deve-se amar o próprio corpo. O Aquinate vai explicar que sendo o homem um composto de corpo e alma, o corpo recebe um transbordamento da graça que vem a ser infundida na alma do homem. Sendo assim, o corpo deve ser amado depois do amor pela alma do próximo, já que alma do próximo é capaz de participar diretamente da graça divina, mas o corpo participa da mesma somente indiretamente.
     O Doutor Angélico nos ensina que o amor de Caridade para com o inimigo nos obriga apenas a rezar pela salvação dele. Ninguém é obrigado, segundo o amor de Caridade, a manifestar uma estima ou alguma afeição pelo inimigo.  Ninguém pode, entretanto, excluir totalmente essa possibilidade, pois, segundo a Providência divina, pode ser necessário esse tipo de manifestação para a salvação da alma de um inimigo. E nesse caso, somos todos obrigados a manifestações de afeições e estima se for necessário para a salvação de alguém.
A manifestação explícita de afeição para com o inimigo, sem que haja necessária obrigação, deriva da perfeição da Caridade. Os perfeitos amam a todos sem por limites a esse amor, até mesmo quando se trata de manifestar uma extrema afeição para com os inimigos. “Ama e faze o que quiseres” já dizia Santo Agostinho.
     O grande exemplo dos mártires é muito enaltecido por São Tomás, pois que se trata da perfeição de amor que sacrifica a própria vida por amor a Deus. Nosso Senhor, à diferença dos mártires, entregou a sua vida por amor dos homens, que ainda eram inimigos de Deus, porque em estado de pecado. Porém, Nosso Senhor tem o poder de tirar e dar a vida: “NINGUÉM ME TIRA A VIDA, MAS EU NO-LA DOU”. Um santo mártir age apenas passivamente, deixando com que tirem a sua própria vida por amor a Deus.
O amor de Nossa Senhora é maior que amor de todos os mártires juntos. Quem ama mais, sofre mais. Ora, ela amava seu Filho mais do que todos os santos juntos. Seu  sofrimento  aos pés da cruz, foi superior, portanto, às dores de todos os martírios.
Nossa Senhora tinha uma perfeição, no que diz respeito à constituição corporal, proporcional à perfeição da santa humanidade de Nosso Senhor, pois toda a humanidade do Filho de Deus foi recebida de Nossa Senhora. Assim, subjetivamente e naturalmente falando, Nossa Senhora sofreu dores incomparáveis, pois a sua sensibilidade, que deriva da perfeição da sua constituição corpórea, é superior a qualquer outra.
     Como afirma o grande  oratoriano inglês, Padre Faber, o corpo dos mártires é, de uma certa forma, inimigo deles, já que tocado pelo pecado original. Já para a Imaculada, o corpo é um amigo fiel e muito amado. Por isso mais duras foram as dores de Nossa Senhora se comparadas ao mártir, pois que ela fez sofrer um grande amigo e fiel companheiro, por amor dos homens, que eram ainda inimigos de Deus.
     A Santíssima Virgem Maria não sofreu, ao pé da Cruz, dores superiores a todos os martírios apenas em seu próprio corpo. Nossa Senhora consentiu no sacrifício do seu Filho, que ela ama mais do que a si mesma, e que ela ama como Deus. Um mártir comum sacrifica apenas a própria vida corporal por amor de Deus, mas ele não ama seu corpo mais do que sua própria alma que gozará, no céu, da bem-aventurança eterna. Nossa Senhora consentiu no sacrifício da vida daquele que ela ama mais do que a si mesma, mais do que sua própria alma, daquele que ela ama como Deus, por amor daqueles que ainda eram inimigos de Deus. E como nos ensina Santo Afonso de Ligório: a Santíssima Virgem não só consentiu, mais ainda contribuiu com o sacrifício do seu Filho, sendo seu principal carrasco, pois a maior dor de Nosso Senhor era a de ver as dores da sua amada Mãe ao pé da Cruz.
Lembremos que manifestar uma afeição para com os inimigos, sem que haja necessária obrigação, deriva da perfeição da Caridade. O que se pode dizer, então, sobre a perfeição da Caridade daquela que consentiu no sacrifício da vida de um Deus por amor dos inimigos do seu Filho?
     Tentem reunir os amores de todas as mães por um único filho, e não se chegará nem perto dos extremos do amor da Virgem Mãe.  Isso porque toda mãe têm que impor “limites” ao seu amor, já que, segundo as leis da Caridade, nenhuma mãe pode amar o seu filho mais do que a si mesma ou mais do que a Deus. Entretanto, Nossa Senhora ama seu Filho muito mais do que a si mesma e igual a Deus, porque o seu Filho é o seu Deus!
     A Santíssima Virgem Maria é um fornalha ardente de Caridade e todo o ferro que aí se abrasa se transforma em ouro.
In báculo cruce et in virga Virgine.

 

                               
     

 


    Para citar este texto:
"A caridade de Nossa Senhora na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/a-caridade-de-nossa-senhora-na-paixao-de-nosso-senhor-jesus-cristo/
Online, 23/08/2017 às 06:54:15h