Religião

A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (Parte 8)
  A unidade agrada a inteligência pois na variedade das partes de um todo íntegro ela busca porque tal coisa é do modo como ela é, una.    

Pierre de Craon Lejeune

Este artigo é uma continuação de A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual,  Parte 1,  Parte 2 , Parte 3 , Parte 4Parte 5,  Parte 6 e Parte 7.

A UNIDADE COMO ELEMENTO DO BELO

  a) Introdução Quando, no artigo precedente, nós apresentamos a fachada do Parthenon como exemplo concreto de obra bem proporcional, não quisemos fazer uma análise exaustiva dessa grande obra da Grécia antiga. Em vista de considerar hoje outra característica da beleza, a unidade, queremos partir de mais uma consideração sobre este monumento. Os gregos nos transmitiram grandes conjuntos de esculturas decorativas. Elas são fruto de obras coletivas, feitas por um exército de executantes. O autor François Chamoux, ao comentar a construção não somente do Parthenon, mas também de tantas outras grandes obras gregas, escreve: “As esculturas do Parthenon foram concluída em um período de quinze anos, de 447 a 432, durante os quais esculpiram-se as 92 métopas, os 160 metros do friso (com 360 personagens) e as 40 estátuas colossais dos frontões. Podemos imaginar que problemas de organização um tal trabalho deve ter dado ao mestre de obras, identificado atualmente por todos como sendo Fídias. São centenas de operários que trabalhavam no canteiro da Acrópole, pedreiros e trabalhadores de mármore, pintores e ourives, cada um com seus aprendizes ou escravos. E entretanto, todos esses executantes, de idades e talentos sem dúvida muito diferentes, souberam se dobrar a uma disciplina comum e assimilar bem eficazmente o estilo de Fídias para que, ao menos no friso, não haja nada de disparatado mas, a contrário, uma extraordinária impressão de unidade. Uma tal conquista, que nos espanta, só era possível se cada artista abandonava, ao benefício da obra comum, toda busca de originalidade. Podemos conjecturar, sem grande risco de erro, que este esforço não lhes custou nada: cada um considerava que ele devia fazer seu trabalho, isto é, realizar sua parte da obra conforme as diretrizes do mestre de obras, ao invés de manifestar  seu próprio gênio com o prejuízo de seus vizinhos” (La civilisation grecque à l’époque archaïque et classique, Les Editions Arthaud, Paris, 1983, p. 296, tradução nossa). E mais à frente o autor nos dá outro exemplo de preocupação pela unidade de uma obra: “Mais curioso ainda é, talvez, no meio do século IV, o caso do mausoléu de Helicarnasso, para o qual reuniram-se, conforme nossas fontes, quatro escultores ilustres, Escopas, Leocaros, Timóteo e Briaxis. Cada um veio com seu ateliê para participar da decoração do grande túmulo monumental. Ora, há mais de um século que a sagacidade dos arqueólogos tenta, inutilmente, repartir em partes homogêneas os fragmentos encontrados nas ruinas do monumento, para lhes atribuir a um ou outro dos quatro chefes da construção: tanto esses artistas, célebres sem dúvida e certamente dotados cada um de um estilo muito pessoal, souberam dobrar seu próprio gênio às exigências da colaboração necessária! Senso de trabalho em equipe e respeito da profissão, tais são as qualidades primeiras do escultor grego. (...) Na arquitetura encontramos esta preocupação de rigorosa perfeição: as colunas de um edifício dórico só recebiam os sulcos depois que os tambores eram colocados no lugar. Assim obtinha-se uma exata correspondência entre as finas arestas de pedra de cima à baixo da coluna” (idem, pp. 297-298).

  Estas informações nos mostram o quanto a unidade de uma obra era importante no mundo grego. O artista grego não buscava ser “original”. Ele compreendia ser parte de uma sociedade, composta de membros unidos num todo. Ele não via a sociedade como um amontoado de individualidades. É uma visão da sociedade que causa escândalo à mentalidade moderna. Tudo o que é universal e favorecedor de unidade é visto pela modernidade como totalitário. Uma atenção privilegiada será dada à diferença, ao original, ao outro, ao “periférico”. Individualismo maquiado de “atenção ao outro”. O bem comum não é mais um bem comum a todos, indivisível, mas é como um bolo do qual cada indivíduo (ou grupo social) tira um pedaço. Feliz aquele que tirar o maior.   b) Metafísica da unidade Há dois tipos de unidade, a unidade matemática e a unidade metafísica: “O uno é dito de dois modos. Há um uno que se converte com o ente, e há um uno que é o princípio do número. Se falamos do uno que é conversível com o ente, ele não é limitado ao gênero da quantidade, mas encontra-se em todos os entes (Santo Tomás de Aquino, In I Sent., d. 24, q. 1, a. 1, ad 1). Vamos com calma... Como todos nós sabemos, a unidade é, na matemática, o princípio do número. Todo número é composto de unidades. O número 10 contém 10 unidades. Uma corda de 5 metros é composta de 5 unidades de comprimento, de 5 vezes 1 metro. A unidade e o número, vistos assim, só se aplicam aos serem materiais, dotados de quantidade. Com efeito, os números são abstraídos pelo matemático a partir da realidade sensível quantificável. Não tem sentido algum querer medir em metros um anjo, puro espírito: “O uno, enquanto é princípio do número, não é atribuível a Deus, mas somente àquilo que tem seu ser na matéria” (Suma Teológica I, q. 11, a. 3, ad 2). A unidade matemática não tem seu lugar no mundo espiritual. Como podemos dizer, então, que três anjos apareceram para Abraão? Podemos dizer que três anjos apareceram a Abraão porque consideramos neles não a unidade matemática, existente somente nos seres materiais, mas a unidade metafísica. Santo Tomás explica em vários lugares o modo como a inteligência elabora a noção de unidade. Quando um objeto é apresentado à inteligência, a primeira coisa que ela conhece é que há alguma coisa, que diante dela há um ente. Daí a máxima tomista: “A primeira coisa que entra na inteligência é o ente”. É uma noção imediata que a inteligência adquire ao conhecer algo, dizendo-se para si mesma: “Isto é, isto existe”. Ela não o faz depois de uma reflexão, de um raciocínio, mas de modo imediato. Ela concebe assim um conceito vago do que é o ente. Em seguida a inteligência se dá conta de que este ser (um livro, por exemplo) não é aquele outro (um lápis), de que há uma diferença entre o ser que ela considera diante dela e os outros seres em volta. Finalmente, a inteligência vê que este ser (livro) pode ser distinto dos outros (lápis, etc.), mas que é idêntico a si mesmo. Ela vê que este ser é uno, vê que nele não há uma divisão interna, que ele é indiviso. Mas o que pensar dos seres compostos de várias partes? O que é composto não tem ser enquanto suas partes estão separadas, mas somente quando estas partes estão reunidas e formam o próprio composto. É o caso de uma casa composta de paredes, janelas, portas. Se um ser é um composto de matéria e forma, então ele terá uma unidade substancial quando matéria e forma se unirem para constituí-lo. É o caso de um ser humano (composto de matéria e alma). “Vemos que se a noção de unidade é negativa, enquanto afirma uma indivisão (não divisão), o ser uno é uma realidade positiva. O ser e o uno são, portanto, conversíveis, isto é, universalmente todo ser é uno (ou indiviso) e o é na medida em que é ser” (Régis Jolivet, Tratado de filosofia, tomo III, Livraria Agir, Rio de Janeiro, 1965, p. 247). Esta unidade metafísica não acrescenta nada ao ser, senão uma negação de divisão, isto é, a afirmação de identidade do ser com ele mesmo. Quando as partes de um ser são estreitamente relacionadas, então podemos dizer que elas formam um todo único, e que este ser é um. Ela é a propriedade pela qual um ser foge da divisão e, distinto de todos os outros, não se distingue de si mesmo. Descrição evidente, que parece dizer bem pouca coisa. Porém, a unidade agrada nossa inteligência e a impressiona muito. Na variedade de partes proporcionalmente dispostas num todo íntegro a inteligência busca um princípio, uma causa que lhe explique porque tal coisa é do modo como ela é, una. Quanto mais uma inteligência se eleva na consideração do mundo mais ela agrupa, num pequeno número de princípios gerais, a pluralidade de coisas que existem e que as inteligências mais simples explicam por meio de uma grande quantidade de princípios. As inteligências vigorosas podem possuir, é verdade, muita erudição. Porém, o que mais impressiona nelas é a capacidade de abraçar o mundo inteiro com somente poucos princípios. Aliás, é bem isso que caracteriza o sábio. Sábio, em geral, é aquele que conhece as coisas pelas últimas causas, pelas causas mais altas. Quem contempla uma coisa sem conhecer suas causas possui dela um conhecimento superficial (por exemplo, um camponês que vê um eclipse sem saber por que ele acontece); quem o contempla conhecendo e indicando suas causas próximas possui um conhecimento científico (o astrônomo diante do eclipse); aquela pessoa porém que é capaz de reduzir seus conhecimentos aos últimos princípios do ser possui a sabedoria filosófica. Por isso a Metafísica, que explica o mundo por meio dos princípios mais elevados e gerais, merece o nome de Sabedoria (Santo Tomás de Aquino, Comentário à Metafísica de Aristóteles, prólogo). Sábio é quem conhece as coisas pelas suas explicações mais fundamentais, pelas causas mais universais que regem todas as coisas. O sábio tende a agrupar muitos princípios em um só, mais geral, de aplicação mais universal.   c) Unidade, ser e beleza A unidade é uma propriedade que se identifica com o ser. Tudo o que é, pelo fato se ser, é um: “Cada coisa que existe só possui o ser na medida em que ela é una. E é por isso que vemos as coisas resistirem, na medida do possível, a ser divididas; e a dissolução delas provém sempre de um defeito que está presente nelas. Daí vem que a finalidade buscada por aquele que governa uma multidão seja a unidade e a paz” (Suma Teológica I, q.103, a. 3). Um ser se conserva tanto quanto dura sua unidade. “O uno e o ser se identificam”, diz o princípio tomista que vimos mais acima. “O uno não acrescenta ao ser coisa alguma, mas somente a negação da divisão, pois uno não significa nada mais que ser indiviso. De onde vem que uno é o mesmo que ser, já que todo ser ou é simples ou é composto. Se ele é simples, é indiviso em ato e em potência [isto é, é indiviso agora e não tem a possibilidade de ser dividido depois; possui a indivisibilidade perfeitamente, não podendo nunca ser dividido]. Se é composto, tem ser somente quando suas partes passam da condição de separados à condição de unidos, formando o composto. De onde resulta claro que o ser de qualquer coisa consiste na individuação. Por isso, qualquer coisa conserva seu ser na medida em que conserva sua unidade” (Suma Teológica I, q. 11, a. 1) [negritos nossos]. Princípio abstrato, mas fundamental em muitos campos da vida humana, inclusive na vida espiritual. As almas que nunca tomam um princípio que una suas ações e que as dirijam para Deus terminarão se fatigando com toda espécie de futilidades e terminarão talvez numa catástrofe. Uma queda grave, da qual ela talvez se levantará, mas que poderá levar ao abandono de toda prática católica. Lembremo-nos de que “uma só coisa é necessária” (São Lucas 10, 42). Pois bem, numa obra de arte nós podemos ver numerosas e variadas partes ordenadas, mas esta ordem supõe um princípio que coordena o agrupamento das partes. Uma vez existente, ela precisa durar e agir sobre todas elas. É necessário um princípio estável e forte de unidade. E como “o uno e o ser se identificam”, mais uma vez se apresenta diante de nós aquilo que vimos nos artigos anteriores e que vemos ainda mais claramente agora: a beleza designa a plenitude do ser. Quanto mais ser algo tem e, consequentemente, quanto mais unidade ele tem, mais beleza ele tem. É esteticamente belo aquilo que torna evidente a unidade fundamental de sua natureza. Ao contrário, será feia a complicação que faz desaparecer a aparência de unidade, bem como a representação de uma pluralidade indefinida, simplesmente porque a falta de unidade, ou sua diminuição, implica uma corrupção, uma diminuição no ser. No artigo precedente tratamos da proporção e o que é, no fundo, uma proporção, senão a redução de elementos diversos a um só quociente, isto é, a uma só unidade? A proporção é a redução da variedade à unidade. A unidade triunfa quando submete à sua lei os elementos variados que compõem um ser, e este ser será tão mais belo quando maior for a unidade final, resultado da ordem. Em alguns artigos anteriores já tratamos mais profundamente da ordem, de como a inteligência conhece a ordem das coisas, de como a beleza está intimamente ligada à ordem e ao conhecimento. Não repetiremos tudo o que falamos antes. Repetir aquilo que se aprendeu ajuda muito na compreensão, mas não queremos tornar este trabalho mais pesado do que ele já é. O leitor poderá revisar o que falamos sobre a ordem e as relações da beleza com a inteligência lendo os artigos anteriores, nos quais tratamos destas questões. Muitas delas são supostas aqui. Começamos este longo trabalho porque queríamos conhecer melhor o que é a beleza, conhecê-la nas suas causas, porque “todo homem deseja naturalmente conhecer” (Aristóteles, Metafísica, 980a21). Conhecer o porquê das coisas nos dá alegria e é, por si só, um motivo legítimo de estudo. Após termos visto tantos princípios luminosos nos artigos precedentes, compreendemos com mais clareza que “as perfeições invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua divindade, desde a criação do mundo, são visíveis à inteligência através de suas obras”, como nos ensina São Paulo (Epístola aos Romanos 1, 20). Estamos convencidos de que o mundo criado por Deus, as criaturas, manifestam aquele que os fez. Elas fazem com que Deus seja conhecido por nós claramente, facilmente, pelo uso de nossa inteligência: “O que se pode conhecer de Deus é manifesto entre os homens” (Rom. 1, 19). Assim, continuamos este trabalho para não sermos culpados de uma ignorância inexcusável e merecedores da punição reservada àqueles que tiveram o livro da criação diante de seus olhos, livro perfeito e luminoso, mas que não o leram porque não o quiseram ler: “São vaidade todos os homens em que não se encontra a ciência de Deus, e que pelos bens visíveis não chegaram a conhecer aquele que é, nem, considerando as suas obras, reconheceram quem era o Artífice; mas o fogo, o vento, o ar sutil, ou o giro das estrelas, ou a imensidade das águas, ou o sol e a lua, (...) [que os homens] reconheçam quanto é mais formoso do que elas aquele que é seu Senhor; porque foi o autor da formosura que criou todas estas coisas. Ou, se eles se maravilharam do seu poder e das suas influências, entendam por elas, que o que as fez é mais forte de que elas; porque pela grandeza e formosura da criatura se pode visivelmente chegar ao conhecimento do seu criador. Todavia estes homens são menos repreensíveis, porque, se caem no erro, é talvez buscando a Deus e desejando encontrá-lo. Porquanto eles buscam-no pelo exame das suas obras, e são seduzidos pela beleza das coisas que vêem. Mas, por outra parte, nem estes merecem perdão, porque, se chegaram a ter luz bastante para poderem fazer uma ideia do universo, como não descobriram mais facilmente o Senhor dele?” (Sabedoria 13, 1-9). Por isso escreve São João Crisóstomo: “De onde o conhecimento de Deus era manifesto aos povos? Porventura Deus falou com eles, fazendo-os escutar sua voz? De modo algum. Verdadeiramente, Deus fez algo que poderia atrair os povos mais do que qualquer voz: estabeleceu o mundo criado, de modo que o sábio e o estúpido, o habitante da Cita e o bárbaro, conduzidos tão somente pela visão da beleza das coisas visíveis, podem subir até Deus” (Comentário à Epistola de São Paulo aos Romanos, homilia 3, 2). É isso que buscamos fazer com este nosso progressivo trabalho, e nossa maior felicidade seria a de levar aqueles que o lerem a um amor por Deus que, com sua graça, chegasse à perfeição no Céu, onde contemplaremos a Beleza eterna face à face, sem risco de perdê-la, para sempre.

    Para citar este texto:
"A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (Parte 8)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/a-beleza-no-mundo-no-homem-e-em-deus-a-filosofia-da-arte-a-sabedoria-de-deus-na-criacao-e-a-vida-espiritual-parte-8/
Online, 28/05/2017 às 15:22:56h