Religião

A Anunciação e a cooperação do homem na obra da salvação
Marcos Bonelli

Marcos Roberto Bonelli

   

“Maria respondeu: Eis a escrava do Senhor; que me seja feito segundo vossa palavra” (S. Lucas 1, 38).

INTRODUÇÃO

Nossa Senhora, apesar das poucas vezes em que aparece na Sagrada Escritura, nos deixou matéria abundante de meditação.

Hoje gostaria de considerar, na curta passagem da Anunciação, transmitida até nós por São Lucas, a conduta de Deus e um exemplo da Santíssima Virgem. Assim poderemos conhecer melhor nossa Mãe, amá-la mais e imitá-la por um zelo prudente e intenso pela salvação das almas.

Maria, depois de ter verificado a missão divina do arcanjo Gabriel, chama o Verbo de Deus até seu ventre, por meio de seu consentimento.

O CONSENTIMENTO PEDIDO

A Providência, apesar de onipotente e podendo agir sozinha, pede a cooperação do homem em toda obra de salvação. É uma honra imensa oferecida à atividade livre do homem. Mas é também um mistério profundo e terrível!

Se já é coisa temível carregar em nossas mãos a responsabilidade de nossa salvação, o que será tomar nelas a responsabilidade da salvação dos outros?

Não somente a salvação pessoal dos homens já adultos pede, sem qualquer dispensa, a cooperação deles à graça que Deus nos dá, mas mesmo a salvação de outras pessoas depende daqueles homens escolhidos por Deus como instrumentos de sua graça: instrumentos voluntários e livres, que Deus não obriga!

Com que energia São Paulo exprime esta lei: “Como crerão naquele em quem não ouviram falar? E como ouvirão falar nele se não há quem lhes pregue?” (Rom. 10, 14).

A fé supõe a pregação. Esta supõe o pregador, e o pregador é livre.

Vejamos também o imenso e temível poder dos pais, dos professores, das pessoas que convivem num mesmo estado de vida, para perder ou para salvar outras almas!

Daí se segue uma dupla conclusão:

1. Ajuda-te a ti mesmo, e o céu te ajudará. Este provérbio se aplica à nossa própria vida espiritual. A correção de nossos vícios, a santidade, nunca serão obtidas sem nossa vontade. Essa boa vontade é, seguramente, uma graça, mas ela é também a cooperação livre a uma graça anterior.

2. Devemos trabalhar na salvação de nossos próximos. Nossos atos e ações sempre foram santificadores, levando o outro para o bem, para algo melhor? Foram tão fervorosos quanto poderiam ter sido?

Esta festa da Anunciação é uma ocasião propícia para tomarmos a resolução de nos darmos sem reservas à salvação das almas. Consideremos estas palavras de São Paulo: “Muito livremente eu daria o que possuo e me consumiria totalmente por vossas almas; e, entretanto, vós não me amais tanto quanto eu vos amo” (2 Cor. 12, 15).

O CONSENTIMENTO DADO

Como Nossa Senhora dá o seu consentimento?

Simplesmente, sem falsa modéstia nem timidez. Cheia de confiança em Deus, ela aceita a missão mais alta, os maiores deveres que podem ser imaginados.

Mas ela os aceita como a escrava do Senhor.

Eis a escrava do Senhor; que me seja feito segundo vossa palavra”. A dignidade de Mãe de Deus toca o infinito. Aos olhos de Maria, esta dignidade é uma forma de servir Deus.

Eis aí uma humildade prodigiosa, o caráter principal da cidade celeste, fundada “pelo amor de Deus, até o desprezo de si mesmo” (S. Agostinho, Cidade de Deus, l. XV, c. 28).

Se nós soubéssemos, nós também, tomar esta forma de servir a Deus! Nossas alegrias e nossas penas, nossos sucessos e perdas, nossa elevação e nossas humilhações, todas as nossas atividades: em tudo nós teríamos um imenso mérito e uma imensa felicidade!

OS EFEITOS DO CONSENTIMENTO DE MARIA

Nossa Senhora disse sim.

Ela é suficiente. Logo que esta simples palavrinha foi pronunciada, Deus, que se agrada em fazer grandes coisas sem um grande aparato exterior, realizou a obra de sua onipotência.

O anjo, antes, inclinava-se a uma virgem. Agora, ele devia adorar a Deus encarnado em seu ventre: “E o Verbo se fez carne”.

Como temos aqui um motivo imenso para louvar a Deus! E como temos motivo, também, para agradecermos a Nossa Senhora que, por seu consentimento, tornou-se Rainha dos Apóstolos e a maior bem-feitora dos homens!

Assim lhe foi concedido pela graça de Deus, e todo louvor que damos a Maria vai para Deus.

Cultivemos também um ardente desejo de fazer o bem em todas as ocasiões que aparecerem. Salvar uma alma, eis aí um dos objetos de maior dignidade que mereça nossos esforços.

Não existe resultado mais sublime a alcançar, nem frutos mais doces para colher. Porém, estejamos bem convencidos de que somente a graça de Deus pode nos permitir fazer o bem e sermos verdadeiramente de proveito para nosso próximo.

Esta festa da Anunciação é uma ocasião excelente para pedirmos a Nossa Senhora para não estarmos entre aqueles homens que só mereceram esquecimento, porque passaram sobre a terra sendo inúteis, mas para pertencermos àquela classe de homens que foram e são cheios de caridade e de misericórdia, cujas obras de piedade permanecem para sempre. Peçamos a Nossa Senhora para pertencermos à sua linhagem:

Dentre eles nasceram aqueles que deixaram um nome, para que nós possamos narrar suas glórias. E existem aqueles dos quais não há lembrança, desapareceram como se não houvessem existido; se tornaram como se nunca tivessem nascido, bem como seus filhos depois deles. Os primeiros eram homens piedosos, cujas virtudes não foram esquecidas. (...) Seus corpos foram sepultados em paz, e o nome deles vive de geração em geração. Os povos comentarão sua sabedoria, a assembleia publicará seus louvores” (Eclesiástico 44, 8-10; 14-15).


    Para citar este texto:
"A Anunciação e a cooperação do homem na obra da salvação"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/a-anunciacao-e-a-cooperacao-do-homem-na-obra-da-salvacao/
Online, 29/03/2017 às 10:18:41h