Política e Sociedade

Não pense, assista. Não critique, comova-se!
Alíni Biachini


Vou lhe passar o perfil de uma “amiga” que temos em comum, eu, você e a maioria da população brasileira. Ela tem o poder de fazer você rir, e até chorar diante dela. É presença garantida em sua vida, tanto que você a tem como companhia durante muito tempo, e muitas vezes esquece de você mesmo para servi-la. Ela é tão “camarada” que lhe ensina como pensar, agir, se comportar e vestir.

Já descobriu que amiga é essa? Ainda não? É simples, basta você olhar para esse aparelhinho que está na sua sala ou até mesmo no seu quarto e descobrirá de quem estou falando.

A televisão, hoje companheira inseparável da maioria da população brasileira, é um dos maiores instrumentos de persuasão desde o século passado. Os meios de comunicação televisivos, popularizados hoje no Brasil, formam uma complexa, profunda e sutil manipulação que permeia nossa vida desde a mais tenra idade até a nossa senil e frágil existência.

Utilizando-se dos mais eficientes e incisivos instrumentos conhecidos, a TV hoje praticamente bombardeia nossas mentes, a todo o instante, com elementos que possam interferir no imaginário, dimensionados para uma vida transpassada de símbolos e ações que sedimentarão a nossa personalidade junto ao processo civilizatório, ao qual estaremos inseridos até o fim da vida.

Ontem, estive lendo um artigo de um jornalista que ficou horrorizado ao ver sua filha, de apenas seis anos, praticando gestos obcenos na frente do aparelho, para aprender a nova dança do momento. Claro, a criança ainda não via maldade alguma nisso. Mas e os pais? Mesmo tendo a noção da baixaria e gravidade da cena, tornam-se omissos à essa situação. Satisfeitos, compartilham constantemente, juntamente com seus filhos, de momentos “agradáveis e descontraídos” proporcionados por nossa inseparável companheira.

Somos influenciados por esse veículo e nos tornamos escravos da TV, até as classes mais favorecidas financeiramente rendem-se ao seu fascínio. O pai chega em casa depois de um longo dia de trabalho e eufórico deleita-se assistindo o jornal. A mãe precisa “cumprir” sua promessa: assistir a novela das oito. Enquanto a criança fica o dia todo em casa à mercê de programas infantis de baixo nível, com apresentadoras fúteis, ignorantes e siliconadas. A televisão como representante máxima da mídia, inúmeras vezes aparece como principal alternativa em substituição aos pais, irmãos, amigos e até mesmo babás na educação de uma criança. Se analisarmos as condições em que estamos vivendo, chegaremos à conclusão de que pouco é feito para que a situação se modifique.

Não seria justo crucificar apenas as apresentadoras siliconadas, sem mencionar o “espetáculo” dos telejornais. É um embuste o poder de persuasão que têm diante das pessoas e da própria mídia impressa brasileira. Um exemplo claro foi o verdadeiro mega show que a “poderosa” Vênus Platinada protagonizou quando o jornalista Roberto Marinho faleceu. Com apenas meia dúzia de palavras sensacionalistas, melancólicas, manipuladoras e supostamente idealistas, metade da população brasileira emocionou-se completamente comovida diante da telinha. Todavia, vale frisar que o jornalista Willian Bonner, que quase se debulhou em lágrimas, é um excelente ator. Sem ele o espetáculo “amamos nosso patrão” não seria o mesmo. Não vou nem comentar os programas veiculados na TV ao domingos, apenas faço um apelo: socorro!

Será que a TV é mesmo nossa amiga?

Ou essa amizade é \'monogâmica\' ?

A televisão não respeita nada do telespectador, ao contrário, ele a respeita, dá a ela todo seu afeto, lazer e obrigações. As imagens se passam muito rapidamente, muitas vezes sem ordem e objetivo. Passivamente a inteligência da pessoa recebe informações que nem sempre a interessam e, geralmente, não as conduzem a nenhum lugar. As idéias que surgem das imagens transmitidas não têm profundidade, pois o profundo só se alcança com a reflexão calma em um ponto, a TV vicia a mente, que fica com “preguiça de pensar”. Aquilo que se adquire com tanta facilidade logo é esquecido. Como na TV tudo é superficial e passageiro, o conhecimento assimilado perde-se facilmente.

A mídia televisiva é, sem dúvida, um avanço tecnológico ímpar. Ela nos fornece informação e entretenimento e esses acabam formando opiniões e ditando modismos. A solução para usar este veículo a nosso favor seria apenas filtrar o que as crianças e até mesmo nós adultos assistimos?

O homem sempre precisou de meios de divulgação, tentando atrair para si adeptos, usuários, consumidores e conquistando com isso críticos e admiradores. Gostaríamos que, futuramente, nossas crianças voltassem a apreciar canções infantis. Que a cultura brasileira não fosse deturpada, e informação não se transformasse em sensacionalismo. Enfim, se você prestar atenção, poderá entender as idéias subliminares que este veículo esconde. É como se a cada imagem transmitida a seguinte frase ressoasse: Não pense, somente assista, eu faço isso por você! Não critique, comova-se diante de meu espetáculo!


    Para citar este texto:
"Não pense, assista. Não critique, comova-se!"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/televisao/
Online, 14/12/2017 às 11:18:20h