Política e Sociedade

O Saci
Victor Peregrino


O saci-pererê só tem perna direita, mas só anda com a esquerda.

No Brasil, terra do saci-pererê, todos os políticos são de esquerda. Até mesmo empedernidos coronéis nordestinos, ex-agentes do SNI e insuspeitos sobreviventes de uma dúzia de legislaturas, de fisiologismo a toda prova, quando ternamente compelidos por qualquer entrevistador televisivo, terminam por confessar, entre comovidas lágrimas, seu recôndito credo socialista.

Em compensação, todos os partidos, com a única exceção do PT, são de direita. Não deixa de ser um paradoxo bem curioso, mas se há um fato consistente em toda a nossa história – de tantas inconsistências - é precisamente esse.

Antes que houvesse partidos políticos no Brasil, na Constituinte de 1824, maçons "esquerdistas" já faziam seus "lobbies" revolucionários. Com o triunfo da facção do Imperador, absolutista, surgiu o Partido Restaurador, logo acoimado de retrógrado e pró-lusitano pelo "esquerdista" Partido Conservador. Este, guindado ao poder durante a Regência (1835), imediatamente virou "direita", tanto que conservador passou a ser sinônimo de reacionário. Despontou então, à esquerda, o Partido Liberal, no qual logo distinguiram-se as alas "moderada" e "extremista", esta reivindicando o galardão de autêntica, e acusando aquela de direitista.

O clima de tolerância política vigente durante todo o segundo reinado (1840 – 1889) – raras vezes igualado na República – propiciou o surgimento do Partido Republicano, que passou a ser a verdadeira "esquerda", sendo os dois outros, Conservador e Liberal, lançados à vala comum da "direita".

Com o golpe republicano, desaparece o Partido Conservador, assumindo o Liberal, com exclusividade, o papel de "direita". À esquerda do Partido Republicano surgem o Partido Socialista e o Comunista, que lançam àquele a pecha de reacionário, passando eles a ser os únicos progressistas.

E assim vai, ao longo das sucessivas crises republicanas, "da capo" e "ad libitum", cada uma delas gerando uma nova ninhada de partidos de esquerda, que empurram para a direita os já existentes.

Após o golpe de 1964 o padrão se repete: a situação ajunta-se na ARENA, amontoando-se no MDB o saco-de-gatos esquerdista. Com a redemocratização, o PMDB, sucessor da frente de esquerda, torna-se situação, logo, direita. Assim, os "autênticos" progressistas fundam o PSDB, que conta entre seus próceres um sociólogo marxista, guru teórico da intelectualidade revolucionária.

Mas então já existe o PT, esquerda autêntica, enquanto que o PSDB não passa de um partido burguês, pronto a dobrar-se ao imperialismo internacional, ao FMI e aos interesses das "élites", como demonstra ao chegar ao poder. O antigo guru marxista, simpático Dr. Jekill da esquerda, torna-se repentinamente um sinistro Mr. Hyde da direita, ávido de empenhar o sangue do povo brasileiro à burguesia financeira multinacional.

Felizmente aí está o PT, esquerda autêntica, com seu eterno candidato à presidência. Infelizmente aí estão, também, falsas esquerdas para enganar o povo: o antigo Partido Comunista, que mudou de nome e de discurso, agora é direita, e tirará a máscara se eventualmente chegar ao poder.

Mas também o PT virará direita se chegar ao poder: é uma lei da política tupiniquim. E quem será, provisoriamente, a esquerda? O PSTU? O MST? Não importa. Uma vez no poder, outra esquerda mais radical surgirá no horizonte. A canhotice mental do político brasileiro não se contentará com menos do que o "Canhoto" em pessoa.

O saci-pererê só tem perna direita, mas só anda para a esquerda.

Victor Peregrino
SP, 18/12/01


    Para citar este texto:
"O Saci"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/saci/
Online, 21/10/2017 às 10:07:46h