Política e Sociedade

Medo na pandemia: profecia ou plano?
Alberto Zucchi

 Acaba de chegar a nossas mãos, enviado por um clérigo que trabalha muito - mesmo na pandemia - um artigo publicado na revista eletrônica L´Express de 7 a 13 de maio de 2009.

O artigo que tem como título “Avançar pelo Medo” é assinado por Jacques Attali e constitui uma verdadeira profecia do que presenciamos nestes tempos de pandemia. Entretanto, como seu autor não tem o dom da profecia, mas apenas realiza uma análise sociológica, pode-se supor que ele também é a expressão de um pensamento e de um plano para que aqueles que dirigem a sociedade se aproveitem de certos eventos.

No artigo, de 2009, o autor expõem que as mudanças no mundo só ocorrem pelo medo e que uma forma particularmente eficaz de produzir o medo são as epidemias, principalmente se seu alcance for mundial. Durante o período do medo os princípios morais são afastados o que permite a “evolução” da humanidade.

Para o autor essa evolução ocorre com a criação de uma polícia mundial, de uma fiscalização mundial, e por fim de um governo mundial, com vistas a termos uma sociedade mais humanista. O medo é muito mais eficiente do que os discursos humanistas.  Na conclusão o autor espera que Bruxelas, ou seja, a União Europeia esteja preparada para quando as situações de medo ocorram. No mencionado artigo, que traduzimos a seguir, não há comentários sobre o impacto que o medo pode causar à Religião.

Jacques Attali é um profícuo pensador que escreve sobre economia, sociologia e também romances. Foi conselheiro do presidente francês François Mitterrand com apenas 27 anos.

Escrevendo em seu site sobre a atual pandemia ele repete a ideia de que é sob o medo que ocorrem as mudanças na sociedade, mas desta vez lembra que a peste negra no século XIV questionou o lugar dos políticos e dos religiosos e estabeleceu a polícia como única forma efetiva de proteção às pessoas. O estado moderno com espírito científico nasceu como consequência dessa tragédia. Toda essa situação levou ao questionamento da autoridade política e religiosa da Igreja, incapaz de salvar vidas e até de dar sentido à morte. “O policial substituiu o padre”, afirma ele.

Se no século XIV durante a peste a atuação do clero teria sido tão decepcionante o que se pode dizer dela agora quando até o presidente da CNBB ignora, o papel do clero, como se esse não pudesse desempenhar nenhuma ação relevante diante da situação atual?

A seguir tradução do artigo “profético” ou programático de Jacques Attali, feita pelo site Montfort

Avançar por medo

A história nos ensina que a humanidade só evolui significativamente quando ela realmente tem medo. Ela põe então em funcionamento mecanismos de defesa: as vezes intoleráveis (como os bode expiatórios e os totalitarismos), as vezes fúteis (a distração),  as vezes eficazes (terapêuticas que afastam, se necessário todos os princípios morais anteriores). Depois, uma vez a crise passada, ela transforma esses mecanismos para torná-los compatíveis com a liberdade individual e inscreve-los em uma política de saúde democrática.

A pandemia que começa [a gripe suína, ou H1N1 de 2009] poderia desencadear um desses medos estruturantes.

Se ela não for mais grave que os dois precedentes medos desses quinze últimos anos ligados a um risco de pandemia (a crise da vaca louca na Inglaterra e a gripe aviaria na China) ela terá, para começar, consequências econômicas significativas (a queda da atividade dos transportes aéreos, baixa do turismo e do preço do petróleo). Ela custará cerca de dois milhões de dólares por pessoa contaminada e fará baixar os mercados de bolsa cerca de 15%. Seu impacto será muito breve (por ocasião do episódio da gripe aviária, a taxa de crescimento chinês só abaixou durante o segundo trimestre de 2003 para explodir depois para cima no terceiro trimestre). Ela terá também consequências em matéria de organização: em 2003, medidas policiais muito rigorosas foram tomadas em toda a Ásia, a Organização Mundial da Saúde pôs em funcionamento procedimentos de alerta em escala planetária, e certos países em particular a França e o Japão constituíram reservas consideráveis de medicamentos e máscaras.

Se a epidemia for um pouco mais grave, o que é possível, já que ela é transmissível pelo homem, ela terá consequências realmente planetárias. Elas serão primeiramente econômicas: os modelos deixam pensar que isto poderia levar a uma perda de três trilhões de dólares ou seja, uma queda de 5% do PIB mundial. Elas serão também políticas, pois em razão dos riscos de contágio, os países do norte terão interesse em que os do sul se curem e deverão fazer de maneira que os mais pobres tenham acesso aos medicamentos hoje estocados unicamente para os ricos. Uma pandemia maior fará então surgir melhor do que qualquer discurso humanitário ou ecológico, a tomada de consciência da necessidade de um altruísmo ao menos um interesseiro.

E, mesmo que essa crise não seja muito grave, como é evidentemente bom esperar, é preciso não se esquecer de tirar lições, como na crise econômica, a fim de que, antes da próxima - que é inevitável - se coloque em funcionamento mecanismos de prevenção e de controle assim como processos logísticos de distribuição equitativa de medicamentos e vacinas. Para isto, se deve colocar em funcionamento uma polícia mundial, um estoque mundial, e portanto, uma fiscalização mundial. Vamos chegar então muito mais rápido do que teria permitido simplesmente a razão econômica, a por em funcionamento as bases de um verdadeiro governo mundial. É, aliás, pelo hospital, que começou a França no século XVII, a instalação de um verdadeiro Estado.

Enquanto aguardamos se pode ao menos esperar a instalação de uma verdadeira política europeia sobre este assunto.  Mas ainda agora, como sobre tantos outros assuntos, Bruxelas está muda.


    Para citar este texto:
"Medo na pandemia: profecia ou plano?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/medooupandemia/
Online, 31/05/2020 às 16:51:36h