Política e Sociedade

Os Influencers católicos: falsos profetas dos nossos tempos
Francis Mauro Rocha
           “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” (II Timóteo 4:1-5).

Na selvagem povoação dos denominados católicos de Instagram pulula uma fauna bem exótica das mais mirabolantes doutrinas, dos mais diversificados espécimes, proliferam nesse balaio de vasta biodiversidade desde falsos místicos de um “catolicismo” esotérico embebido de doutrinas do falso profeta da Virgínia; outros que fazem a mística complexa e teologia de difícil interpretação se tornarem como que conversa de botequim, uma espécie de self-service místico, como as 7 moradas de Santa Teresa D’Ávila, doutora da Igreja, que nos lábios destes afamados se torna como uma receita de bolo onde se não se erra os ingredientes superficiais ditados por eles a bilocação e o êxtase místico se dá como que sobremesa do jantar das dezenove horas, isto é, tudo é banal, superficial, tudo é fácil!

Tem-se ainda os gurus da modéstia e da prosperidade, cuja a principal e exemplar figura a qual todos devem ter como moldes são: suas próprias imagens, narcisicamente modestas, sempre humildes e piedosas, em fotos nos mais variados ângulos, claro, porque a “verdadeira” modéstia deve ser exaltada nos seus mais recônditos lados para ser compreendida e imitada. Imaginemos o absurdo, a Virgem Puríssima, o mais excelso exemplar da modéstia e da pureza, vivendo em nossos tempos desgraçados exibir nos variados ângulos sua própria figura para, em closes e mais closes, dar testemunho da verdadeira modéstia, quanta contradição não seria? A Rainha da vida oculta é por isso mesmo a Majestade da modéstia, porque sempre fugiu das luzes podres desse mundo decaído, a Senhora mais exaltada nos altares do mundo inteiro, e sobretudo, exaltada nos corações dos homens e das mulheres, porque se escondeu, junto com Cristo seu Filho numa vida pobre, austera e silenciosa da casa de Nazaré.

É claro que por mais especialistas que fôssemos em identificar e classificar em seus mais variados filos os espécimes diversos da exótica fauna do catolicismo de Instagram, seria uma tarefa árdua e fugiria em demasia do nosso propósito. Por esse motivo, nos contentamos com os espécimes já citados e passaremos a buscar um antídoto contra essa erva daninha, contra essa praga purulenta que anda subvertendo tantas almas ingênuas e desavisadas nesse terreno hostil da web. Pediremos então ajuda do doutor angélico para identificar esses falsos profetas hodiernos.

São Tomás de Aquino no seu famoso sermão de 14 de julho de 1269 que tinha como título a passagem de São Mateus “attendite a falsis prophetis” (“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós em vestes de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis” - Mt 7, 15-16), nos ensina como identificar os falsos profetas, ou, para os nossos tempos, numa adaptação necessária, a malícia dos famigerados Influencers católicos, pois segundo o próprio Aquinate “pertence ao ofício de bom comandante tornar os soldados atentos contra as insídias”, sigamos então esse comandante sempre invencível no seu ensinamento da verdade.

O doutor angélico estipula como uma das características principais a falsidade da doutrina:

“Em primeiro lugar, digo que alguns são chamados de falsos profetas pela falsidade da doutrina, quando, por exemplo, anunciam e ensinam coisas falsas. Pertence ao ofício do profeta apregoar e ensinar coisas verdadeiras, conforme Daniel (10, 1): “Uma palavra foi revelada a Daniel e a palavra era verídica”. E o Senhor diz: Se alguém anuncia minhas palavras, que “fale na verdade” (cf. Jr 23, 28). Contudo, muitos anunciam falsamente, conforme a Epístola Canônica (cf. II Pd 2, 1.10): “Houve falsos profetas no seio do povo, como haverá entre vós mestres enganadores, que não temem em conduzir a uma seita de perdição".

Portanto, os falsos profetas não anunciam as Palavras do Senhor, isto é, anunciam uma falsa doutrina, anunciam a sua própria doutrina que é diferente e mesmo oposta às palavras do Senhor “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gálatas 1:8). Continuando, o Aquinate parece dar como principal efeito dessa doutrina o “conduzir a uma seita de perdição”, hoje em dia muitos movimentos e gurus se identificam com essa “seita de perdição”, poderíamos mesmo dizer que nesse mundo digital potencializador dos nossos vícios mais obscuros, uma única pessoa pode se auto denominar a seita a ser seguida com sua falsa doutrina corruptiva e aglutinadora.

Desta feita, uma das características do falso profeta é que ele não conduz a ovelha ao único aprisco do Senhor, a Igreja Católica, sua doutrina indefectível e a obediência ao Sumo Pontífice, ele conduz para sua seita, para o seu guru, ou ainda, para si mesmo, para o seu próprio culto, o deus que imana dos seus próprios caprichos.

 Mais à frente em seu sermão santo Tomás de Aquino vai explicar o modo de insidiar dos falsos profetas: pela veste de ovelha:

“Estejais atentos àquilo que diz: “Que vêm a vós em vestes de ovelhas”. As ovelhas são os fiéis de Cristo que obedecem a Cristo, conforme diz João (10, 27): “As minhas ovelhas ouvem a minha voz”. As vestes das ovelhas são imitações de Cristo. Nesse sentido diz o Apóstolo (Ef 4, 23-24): “Renovai-vos no espírito de vossa mente e revesti-vos do Homem Novo, criado segundo Deus na justiça e santidade da verdade”.

“(...) . Por isso que diz: “vêm a vós em vestes de ovelhas”. Isso significa que eles usam obras exteriores — daí: “vêm a vós” —, porque pelas obras interiores eles se aproximam de Deus”.

“(...) Eles a usam por vanglória ao fazer orações pública e manifestamente, conforme o Evangelho (Mt 6, 5): “Eles amam fazer oração nas sinagogas e nas esquinas das praças, a fim de serem vistos pelos homens”. “Nas sinagogas”: isto é, publicamente. Mas desde quando isso é mal, uma vez que foi escrito: “Bendizei a Deus todos os seus Anjos” (Sl 102, 20), etc.? Crisóstomo diz que isso se refere não tanto ao local, mas sim à intenção. Em segredo reza quem não tem a intenção voltada aos homens, mas sim a Deus. Se alguém rezasse sozinho no quarto e quisesse ser visto pelos homens, rezaria ele em público”.

Assim sendo, o doctor communis ensina que os falsos profetas usam as vestes de fiéis de Cristo, como pulula na internet, para exibir publicamente sua falsa piedade, ou mesmo, sua piedade piegas que se alimenta de clics, likes e exposições gratuitas da própria devoção, porque seus desejos estão nos homens e não em Deus: “Em segredo reza quem não tem a intenção voltada aos homens, mas sim a Deus”.

Uma maneira de desmascarar esses lobos em pele de cordeiros é pelos frutos, e um deles é o fruto do afeto, seu afeto é elitista, eles mendigam relevância por onde passam, pois para eles importa o lugar que eles próprio ocupam e não o lugar da verdade e da doutrina no coração dos homens:

“Digo em primeiro lugar que as ovelhas de Cristo ou os santos têm o fruto próprio do coração, isto é, o amor a Deus e ao próximo. Donde dizer o Apóstolo: “Mas o fruto do Espírito é alegria, amor e paz” (Gl 5, 22). No entanto, os hipócritas têm outro fruto, a saber, o que pertence à ambição, pois amam as honras. Daí dizer Isaías (10, 12): “Visitarei o fruto do coração orgulhoso do rei da Assíria”. Os hipócritas “amam os primeiros lugares nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas” (Mt 23, 6). Se alguém quiser ser recebido com honras, mas revela humildade exterior, então a veste não corresponde ao fruto”.

As ovelhas de Cristo não se importam em serem humilhadas desde que a Verdade seja exaltada, os falsos profetas, ávidos de vanglória, procuram a própria exaltação, a própria relevância mesmo que para isso seja preciso amputar a doutrina de Cristo Nosso Senhor.

Enfim, São Tomás parece claramente ligar o êxito dos males provocados pelos falsos profetas no meio das ovelhas de Cristo à ignorância de espírito, portanto, por meio da perseverança na oração e sobretudo pelos estudos da sã doutrina procuremos nos guardar e extirpar de uma vez por todas essa maldita praga dos Influencers católicos, os falsos profetas dos nossos tempos:

“A fim de melhor manter a integridade dessa virtude, julgamos utilíssimo e em conformidade às necessidades dos nossos tempos, que cada qual, segundo seus meios e inteligência, se aplique bem ao estudo da doutrina cristã e faça que sua alma se embeba, o mais possível, das verdades da fé acessíveis à razão. E, como não basta que a fé permaneça intacta nas almas, mas que deva ir crescendo com assíduos progressos, convém reiterar a Deus muito amiúde a suplicante e humilde petição dos apóstolos: “Senhor, aumentai-nos a fé” (Lc 17,5).

(...) Mas quando a necessidade é tanta, já não são somente os prelados que hão de velar pela integridade da fé, uma vez que: “cada um tem obrigação de propalar a todos a sua fé, seja para instruir e animar os outros fiéis, seja para reprimir a audácia dos que não o são”. Recuar diante do inimigo, ou calar-se, quando de toda a parte se ergue tanto alarido contra a verdade, é de homem covarde ou de quem vacila no fundamento de sua crença. Qualquer dessas coisas é vergonhosa em si; é injuriosa a Deus; é incompatível com a salvação tanto dos indivíduos, como da sociedade e só é vantajosa aos inimigos da fé, porque nada tanto afoita a audácia dos maus, como a pusilanimidade dos bons” (Carta encíclica Sapientiae Christianae do Papa Leão XIII).

 

In báculo Cruce et in virga Virgine,

Francis Mauro Rocha.

 

    Para citar este texto:
"Os Influencers católicos: falsos profetas dos nossos tempos"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/influencers/
Online, 25/10/2021 às 10:59:53h