Política e Sociedade

O fim do liberalismo
Ronaldo Mota


        Recentemente, por indicação de um amigo, li o livro O Melhor de Peter Drucker. Fiquei surpreso. Não esperava encontrar o que encontrei. Julgava que esse famoso professor de Administração trataria de coisas muito específicas de sua área e nada mais. Todavia, lendo com calma, percebi que estava enganado, e ao mesmo tempo descobri um dos motivos pelos quais ele se tornou tão famoso, a saber, ele possuía uma visão muito objetiva sobre aquela tarefa que todo homem, ainda que em graus e campos distintos, tem que desempenhar, isto é, administrar.

Drucker, analisando a sociedade do ponto de vista da Administração, chegou a conclusões sobre a História e a Sociologia que são superiores às de muitos profissionais dessas áreas. Um exemplo interessante é a análise que ele faz do Liberalismo. De acordo com Drucker:
 
Longe de serem as raízes da liberdade, o Iluminismo e a Revolução Francesa representam as sementes do despotismo totalitário que hoje ameaça o mundo.”.[1] [1] (O Melhor de Peter Drucker: obra completa / Peter f. Drucker. São Paulo: Nobel, 2002, p. 479)
 
É interessante notar que muitos historiadores - pouco objetivos devido aos seus erros ideológicos - não querem ver o que uma mera análise prática pode verificar. Drucker, partindo como Aristóteles da evidência de que a sociedade deve ser administrada, foi estudar os procedimentos dos governos liberais, e chegou à conclusão que:
 
O racionalismo liberal fracassou em todos os lugares que chegou ao poder.”.[2] (Peter Drucker. op. cit. p. 481) 
 
 Verificando isso, passou à análise dos princípios segundo os quais os liberais queriam conduzir o Estado. Analisando estes princípios e estudando história, Drucker acabou notando que:
 
todos os movimentos totalitários dos dois últimos séculos da história ocidental nasceram do liberalismo dessa época. Há uma linha reta que liga Rousseau a Hitler - uma linha que abrange Robespierre, Marx e Stalin. Todos surgiram da falência do liberalismo racional de suas épocas.”.[3] (Idem, Ibidem).
 
O fracasso do Liberalismo, visto por Drucker, foi explicado filosoficamente de modo claríssimo no livro El Error del Liberalismo do Card. Louis Billot. Nessa obra, partindo do conceito de liberdade liberal, o Card. Billot deduz perfeitamente o fim trágico e tirânico do liberalismo. O grande erro está na idéia liberal de liberdade. Para os liberais a liberdade é o bem fundamental contra o qual não se pode atentar por meio de coação.[4] (Louis Billot. El Error del Liberalismo. Argentina: Cruz e Fierro Editores, p. 38).    
 Ora, se não pode haver coação, ou seja, se a sociedade está impossibilitada de forçar o cumprimento das leis e das normas sociais, visto que o indivíduo é absolutamente livre como quer o liberalismo, não haveria nada que, efetivamente, garantisse o cumprimento das leis básicas e essenciais do convívio social. Nessa sociedade desestruturada, onde não haveria regra alguma acima da absoluta liberdade individual, estaria estabelecida a luta pela vida, luta que não teria nenhuma outra regra senão a força. É por isso que o Cardeal Billot afirma:
 
sobre as mónadas desagregadas e dissociadas, introduzidas pelo individualismo,  nada pode já  permanecera não ser aquelel ingente colosso do Estado omnívoro, o qual, tendo destruído toda organização e autonomía inferiores, absorve em sí toda força, todo o poder, todo direito, toda autoridade, e se converte no único administrador, procurador, instituídor, preceptor, educador e tutor, enquanto espera converter-se também no único propietário e  possuidor.”[5]( Idem, p. 61-62).
 
 
Portanto, a liberdade liberal é falsa e antinatural, visto que conduz à desagregação da sociedade, e, posteriormente, à constituição de um Estado ditatorial. Isto nos mostra a Administração, a Lógica e a História.        
Peter Drucker vai mais além. Afirma que:
 
A base do hitlerismo - assim como dos totalitarismos anteriores - foi fornecida já pronta pelos liberais racionalistas. O método foi usado duas vezes antes com grande sucesso, e Hitler lhe acrescentou um cinismo moral impraticável nas épocas de Marx e de Rousseau. Mas se mostrou possível e até popular no momento em que a psicologia pregava que o homem não é dotado de uma essencial moral. Hitler deve agradecer aos psicanalistas e psicólogos a explosiva força do nazismo, presente no Fuehrer Prinzip.”.[6] (Peter Drucker. op. cit. p. 487 ).
 
Ou ainda:
 
As raízes do nazismo encontraram-se no determinismo biológico que se iniciou com Darwin. E o significado e a estrutura política do hitlerismo podem ser compreendidos apenas à luz do desenvolvimento filosófico e político desse novo - e, até agora, último - conjunto de princípios absolutos criados pelo homem.”.[7] (Idem, p. 485).
 
Como podemos perceber, o que alguns historiadores lamentavelmente esquecem, ou seja, uma básica contextualização do fato histórico, Drucker foi capaz de fazer ao notar o papel evidente do antinomismo psicanalítico e do determinismo evolucionista na preparação das mentes para a aceitação do nazismo, bem como de qualquer outro totalitarismo moderno.
O caminho do liberalismo ao totalitarismo é lógico e histórico. Todavia, poderíamos ainda notar que, se o fim do liberalismo é a tirania, essa tirania poderia apresentar-se - e efetivamente apresentou-se assim na história! - como uma ditadura da maioria sobre a minoria, o que poderíamos chamar de totalitarismo “democrático” ou, simplesmente, de uma demagogia corrupta e tirânica. Esse é o mal que domina nosso mundo, e não apenas ameaça, como afirmou Drucker.        


[1] O Melhor de Peter Drucker: obra completa / Peter f. Drucker. São Paulo: Nobel, 2002, p. 479
[2] Peter Drucker. op. cit. p. 481 
[3] Idem, Ibidem.
[4] Louis Billot. El Error del Liberalismo. Argentina: Cruz e Fierro Editores, p. 38.    
[5] Idem, p. 61-62
[6] Peter Drucker. op. cit. p. 487 
[7] Idem, p. 485

    Para citar este texto:
"O fim do liberalismo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/fim_liberalismo/
Online, 21/10/2017 às 10:15:37h