Política e Sociedade

Ditadura das Organizações
M. Garden


O fracasso do comunismo no mundo inteiro tem causado grandes perplexidades. Políticos, intelectuais, sociólogos, religiosos de esquerda e os assim chamados estudiosos têm-se perguntado - em geral com muita tristeza - o que teria acontecido. Afinal de contas, por que o paraíso socialista não se realizou? Ficou claro para todos que por trás da Cortina de Ferro o que existia era o inferno comunista, que esteve muito longe de realizar a utopia marxista da felicidade nesta terra.

De outro lado existe uma pergunta muito menos enunciada e, sem dúvida, muito mais importante: para onde vamos?

Com a vitória do capitalismo, os defensores desse sistema econômico estão mais entusiasmados do que nunca: insinuam uma nova era de felicidade que será construída sobre a produção e a liberdade. Não há mais inimigo a combater e todos os recursos da sociedade podem ser empregados para o bem estar social. As empresas que até agora eram prejudicadas pela ineficiência estatal poderão produzir bens em maior quantidade, de melhor qualidade e a um preço cada vez mais baixo, tornando-os sempre mais acessíveis às camadas menos favorecidas da população, até que, finalmente, a miséria seja erradicada. É o mesmo sonho da utopia marxista em technicholor yankee.

Completando o bem estar material, haveria uma grande liberdade. Não existiriam mais perseguições políticas, religiosas, ou de qualquer espécie. Cada qual poderá dizer o que pensa e fazer o que bem entende. A moral limitar-se-á a um conjunto de regras que têm por finalidade apenas o adequado funcionamento da sociedade, mais ou menos como as leis de trânsito são necessárias para a movimentação dos veículos. É o sonho da liberdade prometida.

Mas será que realmente é esse futuro que se realizará, como conseqüência das atuais transformações da sociedade? Sem dúvida é difícil fazer uma previsão agora, mas existe um princípio bastante antigo e muito verdadeiro que tem sua origem no Evangelho: "Uma árvore boa não pode dar frutos ruins, nem uma árvore má dar bons frutos... É pelos frutos portanto que os reconhecereis".

Ora, não resta dúvida de que o capitalismo não é uma árvore santa. Certamente uma árvore menos ruim que o comunismo, mas igualmente certo, uma árvore carunchada. O capitalismo é fruto da mentalidade protestante e liberal, individualista e egoísta, que separa a moral da economia, e que vê o homem apenas como um animal produtivo, e o dinheiro como bem supremo. No capitalismo tudo é medido em termos de valor monetário. Não há valores espirituais e o trabalho é a única ação meritória e digna de recompensa. Por último, não há como negar (apesar disso ter sido abusivamente explorado pelos comunistas), o capitalismo produziu desigualdades excessivas e remunerações injustas - por exemplo, os grandes salários pagos a desportistas e artistas, assim como o desprezo pelo trabalho intelectual. Assim, esta árvore não produzirá o retorno ao Éden, e os novos profetas, que prometem a felicidade nesta terra novamente, vêm a nós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos rapaces.

Temos, por enquanto, apenas alguns indicativos de como serão estes frutos da árvore capitalista. Como dissemos, os novos profetas apóiam a terra prometida em dois pilares. O primeiro, a produtividade; e o segundo, a liberdade.

É difícil analisar com exatidão o real crescimento da produção, pois o exemplo da antiga União Soviética mostrou-nos que seus indicadores são manipulados e distorcidos com muita facilidade e sem maiores cerimônias. Alguns sinais nos são dados mostrando que também no sistema atual nem tudo que reluz é ouro. A recente crise mexicana foi como um relâmpago em céu azul. Ninguém sabe bem de onde veio, o que a ocasionou e quais serão suas conseqüências.

Por outro lado, com relação à liberdade, também existem alguns prenúncios de que o futuro não será tão brilhante quanto parece. Nossa afirmação baseia-se na obra Sociedade Pós-Capitalista, de Peter Drucker. Trata-se de uma análise das transformações que vêm ocorrendo em nossa sociedade, feita por um ardoroso e importante defensor do mundo capitalista, e sobretudo do mundo pós-capitalista.

O autor descreve a sociedade do futuro como sendo a Sociedade das Organizações. Segundo ele, "uma organização é um grupo humano, composto por especialistas que trabalham em conjunto em uma tarefa comum... Uma organização é sempre especializada. Ela é definida por sua tarefa... sua missão tem que ser muito clara." O autor prossegue atribuindo grande importância às organizações dentro da nova sociedade... "Ela (a organização) deve ser organizada para abandono sistemático do estabelecido, do costumeiro, do familiar, do confortável - quer se trate de produtos, serviços e processos, de relacionamentos humanos e sociais, de aptidões ou das próprias organizações. Está na própria natureza do conhecimento o fato dele mudar depressa e das certezas de hoje serem os absurdos de amanhã. É a natureza da tarefa que determina a natureza de uma organização, e não a comunidade na qual esta tarefa está sendo realizada. O sistema de valor de cada organização é determinado por sua tarefa".

"Assim, em sua cultura, a organização sempre transcende a comunidade. Se a cultura de uma organização se choca com os valores da sua comunidade, a cultura da organização irá prevalecer - caso contrário ela não fará sua contribuição social.

"Toda organização do conhecimento é, por necessidade, não-nacional e não-comunitária. Mesmo que esteja totalmente embutida na comunidade local, ela é uma 'cosmopolita sem raízes', para utilizar uma das expressões prediletas de Hitler e Stalin".

O texto dispensa maiores comentários. O que o Partido foi para o Comunismo e para o Nazismo, a Organização seria para a nova sociedade. A Organização estaria acima da sociedade comandando-a, impondo-lhe uma cultura que não seja a sua, talvez não de forma violenta (o autor omite qualquer prognóstico a respeito), mas certamente de forma ditatorial.

Seria esta futura ditadura das organizações - prevista por um defensor da sociedade pós-capitalista - muito diferente da ditadura do proletariado preconizada pelos marxistas?


    Para citar este texto:
"Ditadura das Organizações"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/ditadura/
Online, 21/10/2017 às 10:06:47h