Política e Sociedade

Cidade das Trevas
Irineu Plácido


As desditas são tantas no mundo atual, que se torna penosa a tarefa de expor, com clareza, quais princípios da religião católica são desrespeitados e têm sido desrespeitados, há tantos anos. Seja por meio de idéias, seja por ações, os maremotos parecem conturbar toda a ordem civil, que ora pende para um total ataque às autoridades, ora para um esmagamento da religião por parte dos poderes públicos e dos cidadãos.

Pode-se dizer, afinal, que as cidades atacam continuamente as almas, através de imagens, de cicios maldosos, e das mesmas brumas sonoras que povoam todos os lares. É visível o modo como a estrutura urbana exerce uma militância constante contra todos os valores morais aos quais a pessoa queira se submeter; a cidade luta para que o indivíduo não seja virtuoso, e este luta para que a cidade continue a aplicar-lhe as doses anestésicas, prontas a obstacularizar qualquer percepção do estrago profundo que as veleidades realizam na alma. O indivíduo alia-se à máquina pública para que possa ser prazerosamente esmagado.  

No entanto, este equívoco quanto à finalidade de uma política, pode ser bem ilustrado através do que ensina o filósofo Aristóteles:

"A finalidade da ciência política é a finalidade suprema, e o principal empenho desta ciência é infundir um certo caráter nos cidadãos - por exemplo, torná-los bons e capazes de realizar boas ações". (1)

Um dos motivos pelos quais tal exposição causa susto aos modernos, é o fato de que Aristóteles atribui à política uma finalidade moral, e não apenas material [que também é uma sua finalidade]. Como a Igreja cuida da moral, o Estado não pode criar obstáculos para a vida virtuosa, tendo de ser orientado pela Igreja nesses fins.  

De fato, é mais importante que a cidade permita e favoreça a vida virtuosa, do que faça uma jornada penosa em direção às modificações simplesmente materiais da vida humana, uma vez que a riqueza não é um fim em si mesmo, mas com ela se realiza outro fim, do que decorre seu caráter acessório. O fim mais elevado, que sem dúvida é moral, deve ser procurado com insistência, pois a juventude da alma brilha um tanto mais que a decrepitude dos abusos hedonistas. A esse respeito ensinou o Papa Pio IX:

"Afinal, contamos com a vantagem espiritual - transferidos do poder das trevas à luz de Deus e justificados pela graça de Cristo - de ser herdeiros, segundo a esperança, da vida eterna. Essa vantagem das almas, que deriva da santidade da religião católica, é sem dúvida de tal valor que em comparação com isso toda glória e prosperidade desse mundo nada contam". (2)

No entanto, é sabido como muitos invocam uma eventual separação da Igreja e do Estado que consideram sadia, uma vez que estando apartados, dizem eles, muitos bens e liberdades são aproveitados pelos cidadãos, sendo esta uma questão para a defesa do bem público. Ora, vimos que a moral é um fim maior do que os bens e a liberdade irrestrita. Por isso, ensina o Papa Gregório XVI:

"Nisso deveis empenhar assíduo cuidado e toda diligência, vigiando com todos os meios, para que os homens enganadores e sustentadores de novidades não continuem a difundir entre vossa grei doutrinas errôneas e falsos princípios e, dando a costumeira desculpa de defesa ao bem público, não aproveitem da credulidade dos mais ingênuos e dos menos preparados, a ponto de fazer destes, ainda que sem intenção, cegos executores em subverter a paz do reino e da ordem social".(3)

E o objetivo da cidade não pode ser conflitante com o do cidadão. Nem com o da Igreja. Posto que as ações ignominiosas são muitas vezes prazeirosas no início, mas fatalmente terminam de modo extremamente amargo, do que decorre a tristeza da secura espiritual, uma cidade que despreza a virtude, é uma cidade triste, pois proporciona aos cidadãos uma prática cotidiana que, se é prazeirosa em sua execução, torna-se, no entanto, extremamente azeda na posterior fruição, pois sua recapitulação é o remorso e o vazio, e não a honra e o amor ao Sumo Bem, Deus, duradouro e pleno por excelência. A vida fora da virtude é triste e miserável. E este é o aspecto melancólico da cidade que proporciona miséria moral aos seus cidadãos. O prazer momentâneo é seguido da longa e penosa secura.

Por isso ensina S.Tomás:

"Porque toda ação é seguida de alegria ou tristeza". (4)  

E tanto maior e mais duradora será a alegria, quanto mais elevado for o bem ao qual visa esta ação. Por isso, diz-se no Salmo e também na Missa:

"Ao Deus, que alegra a minha juventude". (5)

Ora, foi precisamente o contrário aquilo que fez Heródes. Tal governador, sabendo do nascimento da criança em Belém, mandou que os magos sobre ela se informassem. Após algumas desventuras, com medo pela ameaça que a ele trazia o nascimento, mandou matar todas as crianças menores de dois anos. Além de fato absolutamente histórico, tal passagem pode ter um sentido também místico ou moral. Pois o governador - o direcionador da política - que não aceita a juventude espiritual trazida pela criança que é Deus e Homem (ele nega Nosso Senhor, o menino nascido em Belém), odeia toda a juventude da alma e por isso quer matar todas as crianças, ou seja, quer matar a salvação, pois é próprio daquele que se afasta de Deus querer a morte do bem alheio; neste caso, quis ele a morte da juventude das almas, trazida por Nosso Senhor, uma vez que tornou sua própria alma velha e caduca, a partir do momento em que negou a Deus. O governador negou a Deus.

Por isso dizem as Sagradas Escrituras:

"Que vale afinal ao homem ganhar o mundo inteiro, se perdesse a própria alma? Que dará o homem em troca de sua alma? (Mt., 16, 26).

E é a satisfação de cumprir o próprio dever de que se trata. Por isso, diz S. Agostinho:

"Ensina [A Igreja Católica] aos servos serem solidários com os patrões não tanto pela necessidade da própria condição, quanto pela satisfação de cumprir o próprio dever". (6)

E quão maior é esta satisfação quando é dirigida ao cumprimento dos mais elevados deveres, aqueles prescritos por Deus, Sumo Bem e fonte de toda Justiça! Ora, a cidade que se harmoniza com aquele que obedece e teme a Deus, é uma cidade feliz. Não tem outra explicação a alegria do povo medieval, apesar de todas as tribulações e dificuldades pelas quais passava. 

E Deus nos dá a oportunidade de termos esta alegria por nos imprimir a lei natural! Quão bondoso esse Deus que nos dá as trilhas pelas quais seguimos com segurança, que nos dá as setas indicadoras, os preceitos necessários à felicidade. Além disso, sua misericórdia de tal modo se estende que deu a todos esta Lei Natural, gravando-a no homem, independente do grau de instrução de cada um. Por isso diz o Profeta, respondendo sobre quem nos mostrará o bem:

"Marcou sobre nós a luz de vosso rosto, Senhor!" (7)

Daí que as leis positivas da sociedade não devem contrariar a Lei Natural, sob pena de tornarem a sociedade imoral e, portanto, a desviarem de seu fim, Deus, desvio este que a tornará amarga. Aliás, leis positivas que façam isso, são leis ímpias e iníquas, pois além de tudo, vão contra a razão. Pois explica S.Tomás esta passagem dos Salmos:

"A razão natural inserida em nós ensina a discernir o bem e o mal" (8).

E se o objetivo é a tão decantada paz, esta só pode se encontrar em Cristo, que é o Caminho e a Verdade. Não há paz na mentira. Por isso a paz, é Paz em Cristo, assim como nos ensina o Papa São Pio X:

"O desejo de paz está certamente presente em cada um, e não há ninguém que não a invoque com ardor. Mas querer paz sem Deus é absurdo. Onde não há Deus, não há justiça. Onde não há justiça, em vão nutre-se esperança de paz". (9)

E quantos são os que procuram a paz fora de Deus e da justiça! Pois concebem a paz como um estado utópico de igualdade, sem punições ou julgamentos. Ora, a paz exige a condenação do erro e o ódio ao pecado. Sem isso, não há verdadeira paz. Por isso ensina o mesmo S. Pio X:

"Em vão se atrai as almas a Deus com zelo amargo, se antes não se refutar duramente os erros, e não se repreender asperamente os vícios". (10)

Mas estamos, assim, longe da situação atual. Pois a finalidade moral exige a condenação do erro e nossa sociedade, tomada de um falso amor romântico, que despreza a justiça como se fosse ela um velho cão sarnento, diz-se misericordiosa, tanto em seus anúncios quanto em suas cartas constitucionais, quando, na verdade, não pode ser mais impiedosa do que quando deixa espalhar os erros e os vícios que corrompem a ordem civil. A impiedade atinge o ápice quando a sociedade se esquece de Deus e da Sua Igreja, e pensa-se conseguir a paz em qualquer corrente de pensamento, em qualquer religião. Contra isso disse o Papa S. Leão Magno:

"O poder real lhes foi conferido não somente para o governo do mundo, mas sobretudo para a defesa da Igreja". (11)

A preservação da obediência, portanto, se faz com vistas a Deus. Por isso diz S. Agostinho:

"Os soldados cristãos serviam a um imperador incrédulo; mas tratando-se do interesse de Cristo, reconheciam unicamente o Senhor que habita nos céus. Distinguiam, portanto, o Senhor eterno do senhor temporal e, todavia, por causa do Senhor eterno, submetiam-se ao senhor temporal". (12).

Deus é o fundamento da obediência. E também ele é o fundamento de toda a dignidade, da tão falada dignidade do homem. Os direitos humanos não são nada sem Deus. A dignidade do homem está em ser filho adotivo de Nosso Senhor pelo Batismo. Por isso ensina S. Francisco de Assis:

" porque o quanto o homem é diante de Deus, tanto ele é, e não mais". (13). 

Ora, isso se depreende do que dizem as Sagradas Escrituras:

"Teme a Deus, e observa os seus mandamentos, porque nisto está o homem todo". (14)

A sociedade desde seus fundamentos deve estar direcionada a Deus, pois Ele é o fundamento de toda justiça e de todo valor do homem. Digno é o homem por ter sido criado por Deus e redimido por Ele. Mas o homem que se afasta da lei de Deus, é como que se deixasse de ser homem, pois se afasta do próprio fundamento de seu ser, apartando-se de Deus que o mantém em sua existência.  Pois os homens foram criados para conhecer, servir e amar a Deus, carregando cada qual a sua cruz, a exemplo de Nosso Senhor.

Por isso, atentos ficamos com aqueles que fazem propaganda da liberdade. Pois nos perguntamos: qual a possibilidade de haver a liberdade no erro? Que sociedade imagina se fundar assim, na liberdade do erro? Mas parece muito claro que os vícios e os erros só trazem a escravidão. Declarar o homem livre, e colocar diante de seus olhos uma grande venda, é torná-lo escravo do que há em volta. E obscurecer o intelecto, é fazer com que o homem seja escravo de suas paixões. Pois cansa a política que usa dos sentimentos e não da razão! Esta faz com que o homem seja desregulado e entre num círculo vicioso, sem conseguir estabelecer prioridades e ordenar os meios adequados à consecução de dado fim, tarefa precípua da razão. Portanto, a liberdade do erro e, mais ainda, a liberdade que é puramente sentimental, deixa o homem democraticamente sob os vícios jacobinos. E como ensina Sto. Agostinho:

"A primeira liberdade é estar isento de crimes". (15)

Apenas Deus pode tirar o homem do fosso de extermínio e do charco lamacento. Que as inteligências abandonem as idéias liberais, comunistas, anarquistas e outras, tantas vezes condenadas pela Igreja, e que tantas misérias trouxeram à sociedade.

Das estratégias políticas enganosas e pérfidas, Libera nos Domine!

No Coração de Jesus e de Maria Virgem,

Irineu Plácido

(1) Arist., Et. Nich., 1099b.

(2) Pius IX, Nobis Et Nobiscum, 4.

(3) Greg. XVI, Cum Primum Ad Aures, 3. 

(4) S.Thomae, In Tabula Libri Ethic., II IIe.

(5) Psalm. 43 (42): 4, "Ad Deum, qui laetificat juventutem meam".

(6) S. Agost., De Moribus Catholic. Ecc., Lib. I.

(7) Psalm. 4:7. "Signatum est super nos lumen vultus tui, Domine".

(8) S.Thomae, Super Psalm. Davidis Expositio, 4 n.5.

(9) S. Pio X, Supremi Apostolatus, 9.

(10) Idem, 9.

(11) S. Leão, Epist. 156.

(12) S.Agostinho, Coment. aos Salmos, 124, Ed. Paulus.

(13) S. Franc, Admonitiones, XIX, "quia quantum est homo coram Deo, tantum est et non plus."

(14) (Ec., 12, 13)

(15) Sto. Ag., In Io. Ev. tr. 41, 9, "Prima libertas est carere criminibus"


    Para citar este texto:
"Cidade das Trevas"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/cidade/
Online, 30/03/2017 às 09:46:15h